PAGAMENTOS POR SERVIÇOS AMBIENTAIS DA AGRICULTURA PARA PROTEÇÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS 1

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1 PAGAMENTOS POR SERVIÇOS AMBIENTAIS DA AGRICULTURA PARA PROTEÇÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS LAURA BARCELLOS ANTONIAZZI; RICARDO SHIROTA. ESALQ/USP, PIRACICABA, SP, BRASIL. APRESENTAÇÃO ORAL AGRICULTURA, MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PAGAMENTOS POR SERVIÇOS AMBIENTAIS DA AGRICULTURA PARA PROTEÇÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS 1 Grupo de Pesquisa: Agricultura, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável Resumo O Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) é considerado um mecanismo promissor para resolver alguns problemas relacionados com a degradação de bacias hidrográficas, principalmente aquelas causadas pela poluição não-pontual advinda da agricultura. No caso da água, PSA ocorre quando beneficiários de uma melhoria da sua qualidade ou quantidade pagam os provedores deste serviço, localizados a montante da bacia. Estes provedores podem ser proprietários rurais que adotam práticas conservacionistas ou preservem áreas florestadas. Os mecanismos de pagamento são diversos. Este trabalho faz inicialmente uma revisão da literatura sobre os aspectos teóricos que dão suporte aos esquemas de PSA. Em seguida, 3 casos de PSA no Brasil, 3 no exterior, além de 3 estudos de viabilidade são revistos para ilustrar esse mecanismo. O presente trabalho contribui para o desenvolvimento teórico da temática, ainda pouco explorado na literatura. Palavras-chave: Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA), bacias hidrográficas, agricultura conservacionista. 1 Os autores agradecem o apoio financeiro da CAPES- Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior- e da CIDA- Canadian International Development Agency- para a realização da pesquisa da qual resultou este artigo. 1

2 Abstract Payment for Environmental Services (PES) is considered as a promising mechanism to solve selected problems related to watersheds degradation, especially those related to nonpoint pollution from agriculture. In the case of water, PES occurs when beneficiaries of an improvement in terms of water quality or quantity pay to the providers of this service upstream. These providers may be farmers that adopt conservationist practices or protect forest areas. There are different payment mechanisms. This paper, initially, present a literature review regarding the economic theory that support PES. Then, it reviews 3 PES cases in Brazil, 3 Worldwide, besides 3 viability studies. This review contributes for the theoretical development of the subject, still little developed in the literature. Keywords: Payments for Environmental Services (PES), watersheds, conservation agriculture. 1. Introdução Bacias hidrográficas são áreas de drenagem de um corpo d água, delimitadas por divisores de águas, em que diversos fatores ambientais interagem e interferem no ciclo hidrológico. Uma bacia hidrográfica é a unidade que melhor reflete os efeitos das atividades humanas no ecossistema (MACHADO, 2002) e a Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída através da Lei 9.433/1997, adotou a bacia hidrográfica como unidade de planejamento e gestão (BRASIL, 1997). A Unidade de Gerenciamento dos Recursos Hídricos-UGRHI-5 abrange as bacias hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, conhecida como Bacias PCJ. Os três rios são afluentes da margem direita do Rio Tietê e são interligadas pela ação humana através de coletas de água e despejos de efluentes. A área total das três bacias é km 2, sendo que 92% desta está localizada no Estado de São Paulo e o restante em Minas Gerais (COPLAENGE,2000). As Bacias PCJ abrangem 76 municípios e a sua população é de aproximadamente 4,5 milhões de pessoas (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS - ANA, 2005). Os recursos hídricos nas Bacias PCJ vêm enfrentando uma série de problemas, tanto quantitativos como qualitativos. No primeiro grupo, a principal ameaça é a demanda crescente de água, especialmente do setor de saneamento, causado pelo aumento populacional. Do lado da oferta, a degradação dos rios provocada pelas diversas fontes de poluição agrava o problema em razão da diminuição dos mananciais adequados ao abastecimento humano (COPLAENGE, 2000). Pioneiramente, o Comitê das Bacias PCJ vem organizando a gestão dos recursos hídricos na região. No entanto, as ações visando a melhoria do sistema esbarram, entre outras coisas, na falta de financiamento (MARCON, 2005). Segundo Hascic e Wu (2006), o uso do solo é o principal fator socioeconômico a afetar a saúde do ecossistema de bacias hidrográficas, e o runoff de terras agrícolas é uma das principais formas de poluição das águas. Estimativas da Agencia de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos indicam que o runoff de áreas agrícolas é responsável por 50 a 70 % de toda a poluição não-pontual do país. A maior parte da erosão ocorre quando o solo está descoberto, e sedimentos são de longe o principal poluente nãopontual nos ambientes rurais. Considerando que o controle da poluição pontual é bastante 2

3 efetivo, a poluição oriunda da agricultura é considerada pela EPA como a atividade mais degradante dos recursos hídricos (FAO, 2006, citando US-EPA, ). Esquemas de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) são mecanismos de compensação flexíveis pelos quais os provedores de serviços ambientais são pagos pelos usuários destes serviços. PSA são considerados mecanismos promissores para o financiamento da proteção e restauração ambiental, assim como forma de complementar e reforçar as regulações existentes (FAO, 2004). A maior parte dos esquemas de PSA já existentes trabalha com quatro grandes grupos de serviços ambientais: beleza cênica, seqüestro de carbono, conservação da biodiversidade e proteção de bacias hidrográficas (LANDELL-MILLS; PORRAS, 2002). Apesar de florestas serem mais comuns como provedora de serviços, também existe espaço crescente para agricultura. Nos últimos anos, varias experiências de esquemas de PSA em bacias hidrográficas foram implementadas. FAO (2004) cita 36 experiências somente na América Latina. O mesmo documento afirma que a maior parte dos casos visa aumentar a disponibilidade e/ou qualidade da água para consumo humano em áreas urbanas ou para geração de energia hidroelétrica. O objetivo deste trabalho é analisar a literatura sobre esquemas de PSA providos pela agricultura para proteção de bacias hidrográficas, a partir de teorias e práticas. Considerando ser este tópico ainda relativamente novo, é pertinente sumarizar a esparsa literatura a fim de subsidiar o desenvolvimento de um corpo teórico mais consistente. Para tanto, o trabalho será dividido em quatro partes, sendo a primeira esta introdução. A segunda parte apresentará a teoria econômica pertinente para o entendimento dos conceitos de PSA, assim como a breve teoria sobre o assunto que está sendo desenvolvida na literatura. A terceira parte descreve experiências práticas de PSA no Brasil e no mundo onde a agricultura é usada como provedora de serviços ambientais para a proteção de bacias hidrográficas. Por fim, algumas breves conclusões e considerações finais são apresentadas na parte final. 2. Arcabouço Teórico A base teórica de esquemas de pagamentos por serviços ambientais (PSA) não é recente, sendo que os conceitos chaves de externalidades e bens públicos datam pelo menos do início do século XX. No entanto, somente nas últimas décadas PSA vêm ganhando espaço em publicações em todo mundo, assim como têm servido de base para diversas experiências práticas de políticas públicas. Esquemas de PSA são derivados do Teorema de Coase, de 1960, o qual afirma que através de negociações os agentes internalizam as externalidades e atingem eficiência, independentemente da dotação inicial dos direitos de propriedade e na ausência de custos de transação (KOSOY et al, 2006). Segundo Coase (1960), externalidades ocorrem quando uma pessoa age provocando efeitos a outras pessoas, sem o consentimento destas, podendo o efeito ser benéfico externalidade positiva- ou prejudicial externalidade negativa. 2 US-EPA National Water Quality Inventory Report to Congress. EPA-841-R Office of Water, Washington, DC. 3

4 O conceito de multifuncionalidade da agricultura pressupõe a produção de serviços ambientais diversos como biodiversidade, paisagens rurais e habitat para espécies selvagens, como pode ser visto na figura 1 (ROMSTAD, 2004). Desta forma, faz-se necessário o estudo da teoria de produção de bens múltiplos para entender os trade-offs envolvidos no processo de produção de commodities agrícolas e serviços ambientais. Romstad (2004) apresenta a teoria relevante e a analisa do ponto de vista de políticas públicas agro-ambientais. Estudando a função de produção e a fronteira de possibilidade de produção, pode-se verificar se commodities agrícolas e serviços ambientais são tecnicamente complementares ou concorrentes. Um dos pontos interessantes apresentado pelo autor é a relação inversa do aumento da intensidade de produção com biodiversidade, áreas para recreação e redução da poluição. Como muito dos serviços ambientais são externalidades positivas e bens públicos, isto é, não-rivais e não exclusivos 3, há falhas no mercado destes serviços. Assim, em geral, eles são produzidos em quantidade inferior ao ótimo social (LANDELL-MILL; PORRAS, 2002). Romstad (2004) afirma que muitas das externalidades produzidas pela agricultura são consideradas Pareto-irrelevante, o que significa que em alguns casos não valeria pena a intervenção de políticas públicas para corrigir a alocação. Figura 1: Esquema Simplificado de Produção de Serviços Ambientais (SA) pela Agricultura Fazendas/ áreas rurais Produto agrícola / commodity (com preço de mercado) Sub-produtos/SA: infiltração da água no solo seqüestro de carbono manutenção da paisagem Sub-produtos: sedimentos erodidos lixiviação de defensivos lixiviação de nutrientes Fonte: elaborada pelos autores. Num esquema simplificado de PSA em bacias hidrográficas, beneficiários de uma melhoria ou manutenção da qualidade da água, ou regulação da vazão, pagariam os provedores deste serviço a montante da bacia (Figura 2). Estes provedores podem ser 3 Para uma definição precisa de não-rivalidade e não-exclusividade, consultar Randall (1897) 4

5 proprietários rurais que adotam práticas conservacionistas ou preservam áreas florestadas. Os mecanismos de pagamento são diversos (LANDELL-MILL; PORRAS, 2002). Assim como no caso de recursos de propriedade comum (common pool resources, CPR), os serviços gerados nas terras a montante de bacias hidrográficas geram custos somente aos seus proprietários, porém geram benefícios coletivos (KOSOY et al., 2006). Segundo Landell-Mills e Porras (2002), a Nova Economia Institucional (NEI) fornece o arcabouço teórico adequado para o estudo do desenvolvimento dos mercados de serviços ambientais, por ser uma teoria dinâmica. As autoras desenvolvem uma base analítica para estudar o desenvolvimento dos mercados de serviços ambientais e a aplicam para uma série de 287 casos, dente eles 61 casos de proteção de bacias hidrográficas. Os seis pontos que devem ser analisados são: Qual a forma dos mercados? Por que os mercados evoluem? Como os mercados evoluem? O que os mercados representam para o bem estar? O que os mercados representam para os pobres? E quais as restrições ao desenvolvimento do mercado? Figura 2: Esquema Simplificado de PSA em Bacias Hidrográficas Proprietários rurais na Cabeceiras da bacia intermediário Externalidades/ serviços ambientais Pagamentos pelos serviços Usuários na parte baixa da bacia Ex. empresas de saneamento, hidroelétricas Fonte: elaborada pelos autores A fim de analisar a forma dos mercados de serviços ambientais, Landell-Mills e Porras (2002) propõe o detalhamento de sete aspectos dos esquemas propostos: a commodity, características dos participantes, nível de competição, mecanismo de pagamento, extensão geográfica do comércio, nível de maturidade e relações com outras instituições. Primeiramente, é importante definir a commodity a ser comercializada, lembrando que para um mesmo serviço ambiental diferentes commodities podem ser usadas. Segundo elas, as commodities devem funcionar como proxies dos serviços 5

6 ambientais, porém devem superar os problemas de não-rivalidade e não-exclusividade, para que sejam comerciáveis. De acordo com Landell-Mills e Porras (2002), os participantes podem ser empresas públicas e privadas, diversos níveis do governo, ONGs e organizações comunitárias. Dependendo do número de participantes, o nível de competição pode variar desde um mercado bastante competitivo e pulverizado, caracterizado por um leque de transações, até o contrato de compra e venda entre dois agentes. Quanto aos mecanismos de pagamento, uma gama de opções vem sendo desenvolvida. A extensão geográfica do comércio é outro fator importante a ser levado em consideração no desenho de um esquema de PSA, e dependem bastante da natureza do serviço e da commodity em questão. No caso dos serviços relacionados à água, bacias hidrográficas geralmente são a escala de comércio apropriada, mesmo havendo casos em que estas escalas são extrapoladas. O desenvolvimento de um mercado local oferece vantagens tais quais facilidade de coordenação dos agentes e diminuição dos custos de transação, além de ser mais fácil observar a relação causal entre usos do solo e práticas agrícolas com o serviço ambiental (LANDELL-MILLS; PORRAS, 2002). O nível de maturidade do mercado pode ser analisado através de quanto tempo ele existe, sua liquidez, sofisticação do mecanismo de pagamento, e nível de descobrimento de preço. Já a natureza das relações deste mercado com outras instituições é fundamental para saber como o esquema de PSA está inserido nos demais instrumentos de gestão de bacias, e também para verificar como o esquema se relaciona com outros mercados e com os agentes locais como um todo (LANDELL-MILLS; PORRAS, 2002). Os arranjos institucionais dos esquemas de PSA são fundamentais na determinação dos custos de transação e de monitoramento, que por sua vez são, muitas vezes, cruciais para viabilidade econômica dos esquemas (KOSOY et al., 2006). Os altos custos de transação de estudos preliminares e implementação de experiências atuais podem tornar os sistemas de PSA muito caros se comparados a outros sistemas de manejo. Os custos de transação podem ser reduzidos se a organização a implementar o sistema conhece bastante as condições locais e se este é parte de um esquema maior de gerenciamento de recursos naturais (FAO, 2004). Wunder (2007) discute diversos aspectos referentes a eficiência dos esquemas de PSA nos paises em desenvolvimento e também aborda a questão dos custos de transação. Para ele estes custos podem ser divididos em custos para começar o esquema -que incluem busca, negociação e contratos- e custos para operar o esquema administração, monitoramento e enforcement. As experiências atuais apresentam uma variação muito grande na participação dos custos de transação, sendo que Wunder (2007) cita que esquemas com seqüestro de carbono apresentam de 6 a 45% de custos de transação. Na pesquisa de campo do autor em uma pequena bacia no Equador, o esquema de PSA apresentou altos custos de transação iniciais, US$ 69/ha, enquanto os de operação foram relativamente baixos, US$ 1,6/ha/ano. Outros pontos relativos à eficiência dos esquemas de PSA discutidos por Wunder (2007) são adicionalidade e escape e permanência. Com relação a adicionalidade, o autor diz ser necessário o estabelecimento de uma referencia inicial da provisão de serviços, para então estabelecer o quanto será provido adicionalmente devido ao pagamento. Escape diz respeito aos efeitos na provisão de serviços ambientais em áreas não cobertas pelo esquema. E permanência refere-se a analise da continuidade na provisão dos serviços ao longo do tempo. Assim, Wunder (2007) frisa ser importante considerar tais aspectos na formulação de esquemas de PSA para garantir a eficiência dos sistemas. 6

7 Kosoy et al. (2006) afirmam que para que esquemas de PSA sejam eficientes estes precisam atingir duas condições: os pagamentos devem cobrir ao menos o custo de oportunidade do uso da terra a ser compensado, e o montante a ser pago deve ser inferior ao valor econômico da externalidade ambiental. Em relação à primeira condição, se o custo de oportunidade não for coberto pelo pagamento, o dono da terra não teria incentivo para adotar o uso do solo ou prática fomentada. O montante pago dever ser inferior ao valor econômico da externalidade, pois se fosse maior, o usuário preferiria sofrer a externalidade. O Principio do Protetor-Recebedor (PPR) foi estabelecido na área do direito ambiental como a aplicação inversa do conhecido Principio do Poluidor-Pagador (RIBEIRO, 2007). Strobel et al. (2006) propõe uma metodologia para cobrança do serviço ambiental de melhoria da qualidade da água, como uma aplicação do PPR. presente na legislação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). A metodologia foi testada para um sistema de cobrança da melhoria na qualidade da água oferecida pelo Parque Estadual do Três Picos, no Rio de Janeiro. Strobel et al. (2006) consideram que a Unidade de Conservação (UC) atua como um monopolista de um bem público, que é a qualidade do recurso hídrico (também poderia ser a regularização da quantidade, ou outro serviço ambiental). A cobrança do serviço tem o único objetivo de financiar a sua provisão, portanto os autores utilizam como arcabouço teórico a cobrança de um bem público para cobrir seu financiamento. Para tanto, partem da regra básica de precificação de bens públicos, ou Regra de Ramsey, a qual postula que não se deve arrecadar mais do que o necessário para cobrir os custos, e que usuários mais elásticos pagariam menos. (pois estes tendem a desviar mais suas demandas com variações positivas do preço). A equação da Regra de Ramsey é: Em que: t Cmg/t = β/e i (1) t = preço cobrado pelo bem público (água); Cmg = custo marginal do bem; β = utilidade marginal da renda; e, e i = elasticidade da demanda de cada usuário. No entanto, sua aplicação no caso do PPR apresenta limitações, tais como a dificuldade de estimar os parâmetros β e e i fazendo com que os reguladores acabem por determinar um custo de referencia a ser recuperado, e uma tarifa média que recupere os custos. Além disso, como a agricultura e industria apresentam elasticidades-preço maiores que os usuários urbanos, pela Regra estes setores pagariam menos que os usuários urbanos, gerando uma forma de subsídio cruzado, e possivelmente conflitos. Também é comum o subsidio cruzado nos usuários urbanos, entre diferentes classes de renda (STROBEL et al., 2006). No fim, o importante, segundo Strobel et al. (2006), é que a tarifa não seja muito alta para nenhum usuário, o que poderia levar a inadimplência ou litígio, mas que não ocorra déficit de financiamento, isto é, que os custos de provisão não fossem recuperados pela tarifa. A metodologia de precificação proposta pelos autores determinaria, então, a tarifa a ser paga pelo usuário do serviço ambiental provido pela UC, de acordo com a seguinte equação: 7

8 t i = t x b i x d i x (1/e i ) (2) Em que: t= tarifa básica do m 3 da água protegida; b i = proporção do uso vinda da área protegida da UC; d i = peso distributivo atribuído ao usuário i; e, e i = elasticidade-preço da demanda de água. Sobre os parâmetros da equação proposta, Strobel et al. (2006) acrescentam que b i é estimado de acordo com o balanço hidrológico, e i pode ser estimado para bacia, ou a partir de dados da literatura (dependendo do custo versus a necessidade de precisão). Já d i é um parâmetro subjetivo, decidido arbitrariamente de acordo com a necessidade de se subsidiar certos grupos. Caso a UC esteja no meio da bacia, pode se adicionar um parâmetro para indicar o quanto ela filtra a água. Caso considere-se também o serviço quantidade de água, sugere-se o uso de duas equações, uma para cada serviço. Para estimar o valor da tarifa básica do m 3 da água protegida (t), utiliza-se a seguinte equação: Em que: GT = (t x v i ) (3) GT= gasto total de proteção da UC a ser recuperado; e, v i = volume de água consumido pelo usuário i. Mas como os usuários vão responder a tarifa, diminuindo a quantidade consumida, então: GT = (%c i x e i x vi x t i ) (4) sendo que %c i é o acréscimo no custo do m 3 de água do usuário i com a aplicação de ti, estimado como ti/ci. Se todos os usuários fossem inelásticos, esta ultima equação não seria necessária. Resolvendo-se as equações interativamente, determina-se os valores de t e ti. O método proposto por Strobel et al. (2006) poderia ser aplicado a áreas privadas de conservação ou demais áreas rurais que prestem o serviço de melhoria ou manutenção da qualidade da água. No entanto, nestas áreas não existe uma legislação específica instituindo o PSA, como no caso das UCs, o que poderia dificultar a sua implementação. 3. Experiências de Esquemas de PSA da Agricultura para Proteção dos Recursos Hídricos Bacias hidrográficas vêm sendo estudadas como escala geográfica para a provisão de uma serie de serviços ambientais, sendo que a regulação da vazão e a melhoria da qualidade das águas são consideradas as mais tangíveis e valiosas (POSTEL; THOMPSON, 2005). Estes autores dividem os serviços hidrológicos em bacias em quatro categorias: purificação da água, regulação do fluxo sazonal, controle de erosão e sedimentação, e preservação de habitats. Uma serie de trabalhos estudam a relação do uso 8

9 do solo e/ou de práticas agrícolas com o custo do tratamento de água (REIS, 2004, ORTIZ LÓPEZ, 1997, POSTEL; THOMPSON, 2005). Também são diversos os estudos sobre os impactos da conservação de bacias em represas e reservatórios de hidroelétricas (DAVIS et al.,1999, TAMENE; VLEK, 2007) Florestas vêm sendo amplamente usadas como provedora de serviços ambientais para proteção de bacias, sendo que os principais serviços ambientais são: regulação do fluxo de água (controle de enchentes e aumento da vazão na época seca), manutenção da qualidade da água (controle de carga de sedimentos, controle de carga de nutrientes, controle de químicos, e controle da salinidade), controle de erosão e sedimentação, redução da salinidade de terras e regulação do lençol freático, e manutenção do habitat aquático. Apesar de uma percepção geral dos benefícios de florestas para bacias, há pouca evidencias cientificas e muita incerteza a respeito. Os impactos das florestas dependem muito de características próprias do local, do uso alternativo do solo, e do manejo adotado. Na maior parte dos casos, florestas podem adicionar mais valor se incorporadas dentro de estratégias mais amplas de manejo de bacias, incluindo outros usos de solo, e outras medidas conservacionistas (LANDELL-MILLS; PORRAS, 2002). Já no caso da agricultura como provedora de serviços para proteção de bacias, a literatura é menos extensa, mas praticamente todos os serviços prestados por florestas podem potencialmente ser obtidos em áreas agrícolas. Algumas experiências de PSA utilizam uma combinação de usos do solo passíveis de receberem pagamentos, incluindo agricultura e florestas, como o caso do Programa de Bacias de Nova Iorque (LANDELL- MILLS; PORRAS, 2002), e o esquema em Jesus de Otoro, Honduras (KOSOY et al., 2006). Já em outros casos, apenas a agricultura conservacionista é contemplada nos esquemas (ANTLE; VALDIVIA, 2006). Na revisão sobre o tema de PSA em bacias hidrográficas, FAO (2004) afirma serem necessários estudos específicos para incluir terras agrícolas nos esquemas de PSA. Swinton et al. (2006) classificam as florestas plantadas como parte da agricultura, e então analisam este setor como um todo para a provisão de serviços ambientais. Os autores argumentam que a agricultura oferece maior potencial para expansão da oferta de serviços ambientais em comparação com ecossistemas naturais. Isto porque as relações biofísicas de insumos e produtos nos sistemas agrícolas são mais conhecidas, pela facilidade da agricultura em responder a incentivos econômicos, e devido à vasta extensão territorial. Muitos dos esquemas de PSA para agricultura incluem contratos de boas práticas agrícolas, BPA (best management practices, BMP, em inglês), que podem incorporar diferentes determinações de práticas, dependendo do objetivo do esquema. Estes contratos são negociados entre os proprietários de terras (a montante) e os beneficiários (a jusante) de bacias, estabelecendo detalhadas práticas de manejo em troca de pagamentos (LANDELL-MILLS E PORRAS, 2002). BPAs podem ser definidas como práticas que minimizam o efeito nocivo ao ambiente, sem sacrificar a produtividade econômica. E, são agrupadas em três grandes grupos: redução do uso de insumos (fertilizantes, esterco e defensivos), controle da erosão e do runoff, e zonas de vegetação para proteção (HILIARD; REEDIK, 2000). Em diversas partes do Mundo, BPAs são usadas tanto em esquemas de PSA como em diversos programas governamentais. Landell-Mills e Porras (2002) revisaram 61 casos de PSA para proteção de bacias, sendo 18 na América Latina. FAO (2004) afirma que o número de experiências na América Latina mais que dobrou. No entanto, na maior parte dos casos os serviços, seus provedores e usuários não são propriamente definidos e os esquemas foram executados sem mecanismos de follow-up e controle (FAO, 2004). 9

10 Apesar de PSA serem considerados mecanismos promissores para a gestão de bacias hidrográficas, entre outros manejos de recursos naturais, os casos descritos na literatura são reduzidos, especialmente no Brasil. Aqui, procurou-se o máximo de informações disponíveis na literatura mundial, além de informações das próprias organizações que atuam na área, governamentais ou não. É pertinente frisar que existem outras experiências de PSA no Brasil, como a cobrança pelo uso da água, o ICMS ecológico, os bônus comercializáveis de Reserva Legal e os créditos de carbono em projetos florestais (MAY; GELUDA, 2005). Da mesma forma, outros mecanismos legais tais como os royalties dos recursos naturais e a isenção fiscal para RPPN são exemplos que também têm como pressuposto compensações financeiras por serviços ambientais 4.Nesta revisão, no entanto o foco será nas experiências de PSA em que a agricultura atua como provedora de serviços ambientais relacionados a proteção de bacias hidrográficas. Assim, serão descritos 3 casos internacionais e 3 casos no Brasil, resumidos no Quadro 1. Além destas experiências já instauradas, serão descritos 3 estudos preliminares a implantação de esquemas de PSA: uma proposta desenvolvida pela ANA como base para possíveis programas e um estudo de viabilidade de implantação de esquemas de PSA, além de outro estudo do Conservation Strategy Fund que inclui tanto uma proposta metodológica como um estudo de viabilidade. 3.1 Os Casos de PSA em Execução Kosoy et al. (2006) analisam a implantação e os impactos de três esquemas de PSA, na Costa Rica, Nicarágua, e Honduras sendo que apenas este último inclui pagamentos a agricultores. Esta experiência foi realizada na cidade de Jesus de Otoro, para proteção da bacia do Rio Cumes, de 3180 ha, que abastece a cidade e onde a principal atividade econômica é agricultura, especialmente o café. O esquema foi proposto em 2001 pela organização de saneamento da cidade, a JAPOE, com o apoio técnico de um Programa da Agência de Cooperação Internacional Suíça. O esquema prevê 200 ha cobertos, e os valores pagos aos agricultores são US$ 5,5/ha/ano para conservação de floresta primária, e no caso da adoção de quatro práticas conservacionistas US$ 11 para culturas anuais, US$ 14 para culturas perenes e US$ 16,5 para agrofloresta. O esquema também prevê valores mais baixos caso o produtor adote menos do que quatro práticas, que incluem não-uso de queimadas, construção de terraços, e manejo dos resíduos do processamento de café. Um agente intermediário faz os pagamentos para os proprietários rurais, que entram voluntariamente no esquema, e a JAPOE cobra na conta de água de 1269 usuários o valor de US$ 0,06 mensais (1 lempira, moeda local). Mesmo tendo sido realizados estudos técnicos para viabilidade do esquema, incluindo uma valoração econômica, o valor cobrado representa apenas 3,6% da disposição a pagar dos usuários. Isto porque a determinação do valor cobrado foi estipulada através de votação entre os representantes do setor de água da cidade. O valor total gasto no esquema é de US$ 30 mil, incluindo o desenho, pagamentos e manutenção inicial do sistema. Kosoy et al. (2006) verificaram que os ofertantes eram produtores relativamente pobres, concluem que o esquema realizado em Jesus de Otoro tem baixo impacto socioeconômico, e que o custo de oportunidade dos provedores não é reposto pelos 4 Tais informações foram discutidas no Seminário Mata Atlântica e Serviços Ambientais, realizado pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, em São Paulo, no auditório da CETESB, nos dias 21 e 22 de março de

11 pagamentos. Os usuários do sistema têm uma renda mensal média de US$ 245 e os valores cobrados pelo esquema não representavam nem 1% da renda. Os autores verificaram que a maioria da população era a favor do esquema e achava que a qualidade da água havia melhorado. A Costa Rica é o país mais adiantado em termos de políticas públicas para proteção ambiental e uso de mecanismos de PSA. Exemplo disso é a legislação específica sobre PSA (LANDELL-MILL; PORRAS, 2002). No entanto, Postel e Thompson (2005) afirmam que a maior parte destes mecanismos são usados para proteger ou restaurar florestas, sendo que os 626 ha de áreas com agricultura recebendo PSA correspondem a apenas 0,12% do total de pagamentos realizados (US$ 80,5 milhões, entre 1997 e 2002). A experiência da proteção dos mananciais da cidade de Nova Iorque seja talvez o caso mais conhecido de PSA para proteção de bacias hidrográficas (LANDELL-MILL; PORRAS, 2002, POSTEL; THOMPSON JR, 2005). Ao invés de investir na construção de uma planta para tratamento de água para cumprir as exigências da EPA, a Prefeitura de Nova Iorque iniciou um abrangente programa de conservação e recuperação das 2 bacias de onde é retirada água para 90% da população, Catskills e Delaware (POSTEL E THOMPSON JR, 2005). Os gastos com o programa, segundo Postel e Thompson Jr (2005), são da ordem de 1,5 bilhões de dólares durante 10 anos advindos de taxas cobradas nas contas de água, além de títulos da prefeitura. Nos cinco primeiros anos do programa, a Prefeitura comprou ha, totalizando gastos de US$ 94 milhões, sendo que parte desta área foi aberta ao público para recreação. Outros 960 ha nas bacias foram destinados a servidão florestal, isto é, os proprietários se comprometeram a manter áreas de florestas protegidas em troca de pagamentos pelo custo de oportunidade da terra. Postel e Thompson Jr (2005) também citam outras iniciativas, dentre elas um programa de agricultura, que visa diminuir o impacto do runoff agrícola. Este programa atua através de contratos de BMP com os agricultores. Segundo um relatório da Prefeitura (NEW YORK CITY, 2002), foram firmados 113 contratos de BMP até 2002, abrangendo cerca de ha de áreas de proteção ao longo dos rios em propriedades agrícolas. Experiência similar ocorreu na cidade equatoriana de Quito, com o mesmo objetivo de garantir água potável para cidade, porém com características distintas, como descritas por Lloret (2007). A partir de uma situação de extrema degradação dos recursos hídricos locais e um acentuado déficit, foi estabelecido em 2000 um Fundo Ambiental para Água (FONAG), formado por usuários dos recursos hídricos que se comprometeram a financiálo por 80 anos. O Fundo foi formado com a ajuda da TNC, com suporte técnico do USAID (Agência Americana de Ajuda Internacional), tem atualmente um patrimônio de cerca de US$ 2 milhões, e em 2005 investiu US$ 500 mil. As ações realizadas pelo FONAG incluem pesquisa, vigilância e controle, educação e treinamento, e fomento a práticas produtivas sustentáveis. Segundo Lloret (2007), o FONAG é um mecanismo econômico-financeiro de organizar e acompanhar os processos nas bacias em questão, e que garantem estabilidade para gestão dos recursos hídricos locais, independentemente de fontes externas. Para Lloret (2007), assim como para o próprio FONAG (2007), este caracteriza-se como uma experiência de PSA, mesmo não havendo diversos atributos considerados fundamentais no sistema. Sob o ponto de vista do autor, o pagamento pelo uso da água e o trabalho de gestão desenvolvido pelos Comitês de Bacias Hidrográficas do PCJ e do Vale do Paraíba seriam considerados PSA. 11

12 Uma experiência similar, porém em escala menor está sendo feita em Joinville, Santa Catarina. A prefeitura, através da sua Fundação Municipal de Meio Ambiente (FUNDEMA) e com apoio da Companhia Águas de Joinville e de uma universidade local, está pagando agricultores nas áreas do manancial da cidade, o Rio Cubatão. O programa, chamado de Sistema de Compensação Financeira Ambiental, visa recuperar as matas ciliares da Bacia do Cubatão. Já estão participando do Sistema 13 propriedades a montante do ponto de captação da Companhia Águas de Joinville, e espera-se que mais 13 ainda serão incluídas. As propriedades recebem de R$ 175 a 578, por três anos, dependendo do tamanho e da área de mata ciliar (FUNDEMA, 2007). Outra experiência a nível municipal é o Projeto Conservador das Águas, instituído por lei na cidade mineira de Extrema, no final de Os objetivos do projeto são promover a conservação do solo, restaurar matas ciliares e reservas legais, e adequar o saneamento ambiental em propriedades rurais (Extrema, 2005). 100 pequenos agricultores já receberam R$ 148/ha/ano, advindos de recursos da prefeitura. Após um ano do lançamento do Projeto, a ONG Conservação Internacional, firmou acordo com a prefeitura para dar suporte técnico e financeiro (THE NATURE CONSERVANCY -TNC, 2007). Quadro 1: Características das Experiências de PSA revisadas Esquema Características Escala Usuários Provedores Pagamento Jesus Otoro, Honduras de Programa de Agricultura, dentro do Programa de Proteção de Bacias, Nova Iorque. FONAG, Quito Iniciativa local para proteger o manancial da cidade, com o apoio técnico da Agência de Cooperação Internacional Suíça. Iniciativa local para proteger o manancial da cidade Áreas ripárias são destinadas a reflorestamento. Em áreas com alta taxa de erosão são adotadas práticas conservacionistas Iniciativa local para proteger o manancial da cidade Fundo de investimentos para projetos de conservação de bacias formado por usuários dos Bacia do Rio Cumes, de 3180 ha Bacias que alimentam os reservatórios de Catskill e Dellaware Bacias que abrangem o Distrito Metropolitano de Quito. organização de saneamento da cidade, a JAPOE. População da cidade que consome água, através da Prefeitura Empresas de saneamento, Empresa Eléctrica Quito, uma cervejaria local, TNC, e Agência de Cooperação agricultores relativamente pobres Proprietários rurais nas bacias, agricultores ou não. Diversos projetos de conservação de recursos hídricos, incluindo agricultores e pecuaristas. De US$ 5,5 a 16,5/ha/ano, dependendo do caso (conservação de florestas ou práticas conservacionistas). Pagamento feito através de intermediário. recebem valor do preço do aluguel, além dos custos de reflorestamento ou prática conservacionista fomento a práticas produtivas sustentáveis, entre outras ações. (valor de pagamentos não divulgados) 12

13 Sistema de Compensação Financeira Ambiental- Joinville, SC Projeto Conservador das Águas Extema, MG Programa Cultivando Água Boa recursos hídricos Iniciativa local para proteger o manancial da cidade Projeto da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura Lançado por Lei municipal, o Projeto hoje tem apoio da TNC. Promovido pela Itaipu Binacional Fonte: elaborado pelos autores Bacia do Rio Cubatão, manancial de Joinville Bacias dentro do município de Extrema Bacia hidrográfica, abrangendo 28 municípios Internacional Suíça. Companhia Águas de Joinville Prefeitura e ONG pagam, ou seja, usuários difusos Hidroelétrica de Itaipu propriedades rurais a montante do ponto de captação de água pequenos agricultores agricultores R$ 175 a 578/ ano por propriedade R$148/ha/ano assistência técnica Já o Programa Cultivando Água Boa desenvolvido pela Hidroelétrica de Itaipu é um amplo programa de gestão ambiental em bacias hidrográficas, compreendendo 28 municípios na margem brasileira de seu reservatório. Mesmo não sendo declaradamente um programa de PSA, ele atua nas áreas rurais fomentando boas práticas agrícolas com o intuito de diminuir o impacto da produção agrícola nas águas do reservatório, especialmente através da erosão. Apesar de não oferecer pagamentos monetários aos produtores, a Itaipu disponibiliza assistência técnica gratuita, sendo assim, uma forma de incentivo (ITAIPU BINACIONAL, 2007). 3.2 Estudos de viabilidade/ propostas de PSA May e Geluda (2005) estudaram o potencial de aplicação de PSA na região norte e noroeste do estado do Rio de Janeiro, através do estudo das características do uso do solo, dos impactos ambientais existentes e dos potenciais provedores e demandantes de serviços ambientais. Os autores focaram o estudo de viabilidade nos serviços ambientais relacionados a água, pois consideram a atual legislação dos recursos hídricos como facilitadora de um possível processo de implantação de PSA, devido a cobrança pela água. Aspectos referentes a qualidade da água são mais fáceis de serem percebidos como serviços ambientais, de acordo com May e Geluda (2005), que consideram aspectos de quantidade de água mais dependentes de fatores externos. May e Geluda (2005) analisam os atributos das regiões norte e noroeste do Rio de Janeiro que as qualificam como propícias à implementação de esquemas de PSA. A região é considerada pelos autores a mais crítica em degradação ambiental devido ao histórico de uso e ocupação do solo pela agropecuária, e apresenta apenas 10% de remanescentes da área original de Mata Atlântica. Também são conhecidos os processos de erosão e eutrofização nos rios da região, que acarretam em déficits hídricos e conflitos pelo uso da água. Além disso, os recursos hídricos da região sofrem forte pressão da falta de saneamento, isto é, do despejo de esgoto sem o devido tratamento (MAY; GELUDA, 2005). No entanto, existem áreas de preservação no norte e noroeste carioca representadas pelas seguintes UCs: parque estadual, parque nacional e estação ecológica 13

14 estadual totalizando mais de ha, ou pouco menos de 3%. Estas áreas vêm provendo diversos serviços ambientais, e por isso são considerados pelos autores como possíveis ofertantes de serviços em esquemas de PSA na região. O outro grupo de possíveis ofertantes são os proprietários rurais que atualmente, em sua maioria, utilizam práticas que não consideram a produção de serviços ambientais. De acordo com May e Geluda (2005), para que esquemas de PSA sejam implementados em áreas agrícolas é necessário o cumprimento de quatro requisitos básicos. Primeiramente, deve haver evidências suficientes de que práticas e/ou uso do solo geram os serviços ambientais em questão. Segundo, a comunidade deve estar preparada socialmente para o esquema, e os direitos de propriedade devem ser bem definidos. Por fim, a participação dos proprietários deve ser voluntária. Os autores também afirmam ser útil a classificação dos agricultores em diferentes níveis de exploração atual e respectiva capacidade de gerar serviços ambientais. Como a região do estudo é divida em cinco grandes bacias, May e Geluda (2005) identificaram os possíveis ofertantes e demandantes em cada uma delas. Entre os beneficiários, foram incluídos o CEDAE (Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro), agroindústrias, usinas, cooperativas de leite e irrigantes, CEIVAP (Comitê da Bacia do Vale do Paraíba), entre outros. Strobel et al. (2006) estudaram a viabilidade de implantação de um esquema de PSA providos pelo Parque Estadual dos Três Picos, no Rio de Janeiro. O trabalho apresenta forte embasamento de teoria econômica, parte dele apresentado aqui na seção 2, e é uma das poucas propostas que apresenta um método factível de implementar PSA. Por isso, o mesmo pode ser usado como base para outros estudos visando subsidiar a implantação de esquemas de PSA. Os critérios para escolha da área do estudo de Strobel et al. (2006) foram oito e foram descritos brevemente para justificar a escolha de uma bacia no Parque Três Picos. Primeiramente, é preciso ter definição geográfica da área, sendo que no caso de serviços ambientais referentes à água, as bacias são a escala ideal. Essa é a principal razão pela qual a Bacia Guapi-Macacu foi escolhida. A relevância do esquema de PSA para região é outro critério, sendo que no caso, o Parque Três Picos foi criado recentemente (2002) e carece de recursos financeiros para sua implementação e gestão. Apoio local também é fundamental para o sucesso dos esquemas, assim como a disponibilidade de dados de vários tipos, hidrológicos e socioeconômicos. Assim como apontado em outros trabalhos, Strobel et al. (2006) afirmam ser necessário haver objetividade sobre a relação causa-efeito do uso do solo com o serviço ambiental, isto é, a contribuição dos provedores deve estar claramente definida. Os autores também frisam ser fundamental que existam consumidores com capacidade de pagamento, e que os custos de negociação e monitoramento não sejam proibitivos. Por fim, Strobel et al. (2006) consideraram a restrição orçamentária e de prazos do projeto financiador do estudo. Este ponto é especialmente significativo para casos em que fundações ou ONGs desenvolvem o esquema de PSA em determinada região, para que depois os atores locais continuem a operação. Strobel et al. (2006) fizeram uma avaliação dos custos operacionais para manter a provisão dos serviços ambientais (melhoria e manutenção da qualidade da água, regulação do fluxo de água), estimado em R$ ,00 para o ano de e apenas na área do parque dentro da bacia em questão. Em seguida foi desenvolvida uma fórmula de cobrança baseada na participação dos diferentes beneficiários no uso destes serviços, além de critérios distributivos que devem ser definidos subjetivamente. 14

15 A seqüência metodológica da avaliação hidrológica do Parque feita por Strobel et al. (2006) contou com o uso de SIG (Sistemas de Informações Geográficas), mapas, áreas de contribuição dentro e fora do parque, e zoneamento para estabelecer um parâmetro de influência na qualidade da água (usando as variáveis, uso do solo e declividade, porém um diagnostico da qualidade das águas seria mais adequado). Em seguida os autores fizeram um inventario dos usuários, utilizando o balanço hídrico e o cadastro dos usuários de água para gerar a Taxa de Contribuição. Usando um SIG foi feito um mapa dos limites das áreas de contribuição de cada ponto de captação de água, definindo então quais estavam dentro e fora do Parque. Assim, gerou-se uma tabela com todos os usuários de água e a porcentagem de contribuição do parque (Taxa de Contribuição) no seu consumo (b i ). Utilizando a equação (2), Strobel et al. (2006) fizeram simulações de tarifas, a partir dos dados das Taxas de Contribuição e elasticidades estimadas pela literatura, variando o fator distributivo (d i ). A tarifa básica por m 3 de água consumida foi calculado entre R$ 0,02 e 0,05, aproximadamente. O impacto da cobrança pelos serviços ambientais teve um impacto na atual tarifa de água variável conforme o tipo de usuário e cenário estudado. Enquanto para um dos usuários domésticos o aumento foi de cerca de 1%, para os usuários industriais o mesmo ficou entre 5 e 20%, dependendo do fator distributivo. A escolha do cenário isto é, se todos os usuários pagariam a mesma tarifa ou se haveriam tarifas diferentes de acordo com o setor depende de negociações políticas na bacia em questão (STROBEL et al., 2006). Chaves et al (200?a) propõe uma metodologia de mensuração dos benefícios ambientais gerados pelo controle da poluição difusa, base para um esquema de PSA. O método concentra-se no controle da erosão, baseado na equação universal de perda de solo, e considera que nutrientes e defensivos serão transportados na mesma proporção que os sedimentos erodidos. O método, denominado Programa Produtor de Água, utiliza como variáveis o manejo do uso do solo de cada cultura (C) e as práticas conservacionistas adotadas (P). A adesão ao Programa por parte dos produtores é voluntária, e ele vem sendo testado em microbacias usadas para abastecimento no PCJ, além de já ter sido feita uma simulação em outra bacia no Distrito Federal (Chaves et al., 200?b). 4. Considerações Finais A partir da revisão da teoria econômica base para esquemas de PSA e da análise de casos práticos usando este conceito, é possível chegar a algumas conclusões. Primeiramente, verifica-se um crescente interesse nesta abordagem nos programas agroambientais, tanto nos países desenvolvidos como na América Latina. O trabalho de Landell-Mill e Porras (2002) e FAO (2004) afirmam que experiências de PSA estão sendo aplicadas em número especialmente elevado na América Latina, porém não há motivos claros que justifiquem seu uso na região. Assim, a maior parte das experiências de PSA para proteção de bacias hidrográficas é motivada por empresas saneamento, que precisam de água de boa qualidade para distribuição urbana, e hidroelétricas, que tem seus custos de manutenção aumentados com sedimentação e eutrofização de reservatórios. Como visto nos seis casos aqui descritos, quatro tem ligação direta com empresas locais de saneamento e um com hidroelétrica. Apenas o caso do município de Extrema não tem ligação direta com estes dois tipos de usuários de serviços ambientais, apesar de também ter como objetivo a manutenção da qualidade dos mananciais que abastecem a cidade e também o Sistema Cantareira. 15

16 Outro ponto interessante é a elevada participação de iniciativas em nível municipal, ou região metropolitana. Apesar da presente revisão não ser uma amostra significativa de todos os casos de PSA no mundo, pode-se inferir que a escala local é adequada para a implementação de esquemas de PSA para proteção de recursos hídricos. Landell-Mill e Porras (2002) também salientam esse ponto, porém a presente revisão verificou que na prática, a escala local se dá na escala municipal. Assim, seria pertinente estudar mais a fundo como prefeituras ou governos de regiões metropolitanas podem agir, e quais mecanismos são necessários para por em prática tais projetos. A prefeitura de Extrema criou uma lei municipal devido a iniciativa local, a cidade de Nova Iorque foi pressionada pela EPA, enfim, quais os determinantes para a criação de esquemas de PSA? Também é importante ressaltar a participação de ONGs e agências internacionais como grandes propulsoras de experiências de PSA. A Agência de Cooperação Internacional Suíça e a ONG norte-americana TNC dão apoio, técnico e financeiro, a três experiências aqui descritas, e possivelmente a outras pelo mundo. Quanto aos estudos de viabilidade, os dois estudos feitos no Rio de Janeiro foram financiados por organizações internacionais (Conservation Strategy Fund e Banco Mundial), enquanto que a proposta da ANA está contando com o apoio da TNC para ser implementada. Deste modo, além da iniciativa local, fatores externos podem estar pesando na formulação dos PSA, sendo assim outra ponto que merece ser pesquisado com mais afinco. Conforme FAO (2004), a maior parte dos esquemas de PSA carecem de estudos tanto econômicos como hidrológicos, o que prejudica muito sua credibilidade e mesmo a possibilidade de avaliá-los. O estudo de Strobel et al. (2006), que além de apresentar uma proposta concreta de precificação baseado em teoria econômica demais fatores sociais, faz uma simulação para uma UC, é um ótimo exemplo de como a pesquisa na área deve caminhar. Estudos de viabilidade são fundamentais para garantir que PSA sejam realmente factíveis para solucionar o problema de recursos hídricos no local e, mais do que isso, sejam a opção mais custo-eficiente. Assim, torna-se necessário a sistematização das informações acerca de PSA, para que seja desenvolvido uma base de conhecimento sólida que embase novos projetos. Por ser um tema novo na área de Economia de Recursos Naturais e Gestão Ambiental, existem poucos fundamentos teóricos para avaliar as experiências em curso e também para sustentar novos projetos. Este trabalho poderá ser usado como guia para novos estudos de viabilidade e propostas para futuros esquemas de PSA no Brasil. Da mesma forma como já estão sendo desenvolvidas varias pesquisas na área de florestas e serviços ambientais ligados à água, o mesmo deveria ocorrer com a agricultura. Também cabe frisar que a pesquisa nesta área realizada em paises desenvolvidos não se aplica facilmente à realidade de países em desenvolvimento, seja por diferenças nos ecossistemas, seja por diferenças socioeconômicas e institucionais. Neste sentido, o presente trabalho contribui para a formação de conhecimento na área de PSA, na tentativa de organizar e sistematizar a literatura sobre o assunto. 16

17 Referências Bibliográficas AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS- ANA. Cobrança pelo Uso dos Recursos Hídricos nas Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Nota Técnica n. 476, Disponível em acesso em ANTLE, J. M. e VALDIVIA, R. O. Modelling the Supply of Ecosystem Services from Agriculture: a minimum-data approach. Australian Journal of Agricultural and Resource Economics 50, p. 1-15, CHAVES et al. Quantificações dos Benefícios Ambientais e Compensações Financeiras do Programa Produtor de Água (ANA): I. teoria. 200? CHAVES et al. Quantificações dos Benefícios Ambientais e Compensações Financeiras do Programa Produtor de Água (ANA): II. Aplicação da metodologia. 200? COASE, R. The Problem of Social Cost. Journal of Law and Economics, n.3, p. 1-44, october, COPLAENGE Projetos de Engenharia. Plano de Bacia Hidrográfica UGRHI- PCJ. Piracicaba: Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, 180p. Relatório Final. DAVIS, Jennifer A.; Rutherfurd, Ian D ; e Finlayson, Brian L. The Eppalock Soil Conservation Project, Victoria, Australia: The Prevention of Resevoir Sedementation and the Politics of Catchment Management. Australian Geographical Studies. Vol. 37, n. 1, pp ,

18 EXTREMA. Lei Municipal n.2.100, de 21 de dezembro de Cria o Projeto Conservador das Águas, autoriza o executivo a prestar apoio financeiro aos proprietários rurais e da outras providencias. Disponível em: Acesso em FAO. Payment Schemes for Environmental Services in Watersheds. Land and Water Discussion Paper 3. Roma, FUNDEMA- Fundação Municipal do Meio Ambiente de Joinville. Acesso em FONDO PARA LA PROTECCIÓN DEL AGUA- FONAG. Disponível em Acesso em HASCIC, I. e WU, J. Land Use and Watershed Health in the United States. Land Economics. Vol. 82, n. 2, pp , 2006 HILIARD, C. e REEDIK, S. Agricultural Best Management Practices. Agriculture and Agri- Food Canada Disponível em: Acesso em ITAIPU BINACIONAL. Acesso em KOSOY et al. Payments for Environmental Services in Watersheds: Insights from a comparative study of three cases in Central America. Ecological Economics. Vol. 61, n. 2-3, pp , mar, LANDELL-MILLS, Natasha e PORRAS, T. Ina. Silver bullet or fools gold? A global review of markets for forest environmental services and their impact on the poor. Instruments for sustainable private sector forestry series. International Institute for Environment and Development, Londres, LLORET, Pablo. Um fideicomiso como herramienta financeira para la conservación y el cuidado del água: el caso del Fondo Ambiental del Água em Quito, Ecuador. In: Conferencia sobre Água para Alimentos y Ecosistemas, Para que sea uma realidad!, FAO, disponível em acesso em MACHADO, Ronalton Evandro. Simulação de escoamento e de produção de sedimentos em uma microbacia hidrográfica utilizando técnicas de modelagem e geoprocessamento. 2002, 154 p. Tese (Doutorado em Agronomia, Área de Concentração Irrigacão e Drenagem). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, MARCON, Giuliano. Avaliação da Política Estadual de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo nas Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. São 18

19 Paulo; p. Tese (doutorado em Saúde Publica). Faculdade de Saúde Publica, Universidade de São Paulo, São Paulo, MAY, P.H.; GELUDA, L. Pagamentos por Serviços Ecossistêmicos para manutenção de práticas agrícolas sustentáveis em microbacias do Norte e Noroeste do Rio de Janeiro. Anais do VI Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECOECO). Brasília: 23 a 25 de Novembro, NEW YORK CITY NYC. New York City 2002 Drinking Water Supply and Quality Report. Disponível em: Acesso em ORTIZ LÓPEZ, Ariel Abderraman. Análise dos custos privados e sociais da erosão do solo : o caso da Bacia do rio Corumbataí. Piracicaba, p. Tese (doutorado em Ciências, área de concentração Economia Aplicada). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, POSTEL, Sandra L. e THOMPSON JR, Barton H. (2005). Watershed protection: Capturing the benefits of nature's water supply services. Natural Resources Forum 29 (2), RANDALL, Alan. Resource Economics: an economic approach to natural resources and environmental policy. Chicago: John Wiley & Sons, REIS, Lúcia Vidor de Sousa. Cobertura florestal e custo do tratamento de águas em bacias hidrográficas de abastecimento público : caso do manancial do município de Piracicaba. Piracicaba, 2004, 215 p. Tese (Doutorado em Ciências Florestais). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, RIBEIRO, M. A. O Principio Protetor Recebedor para Preservar um Bem Natural. Revista Eco 21. disponível em Acesso em ROMSTAD, Eirik. Methodologies for Agri-Environmental Policy Design. In: Sustaining Agriculture and the Rural Environment: governance, policy and multifunctionality. Brouer, Floor (ed). Cheltenhan: Edward Elgar Pub. Lim., SWINTON, S. M., LUPI, F., ROBERTSON, G. P., E LANDIS, D. A. Ecosystem Services from Agriculture: Looking Beyond the Usual Suspects. American Journal of Agricultural Economics. Vol. 88, n. 5, pp , STROBEL, Juliana S.; SOUZA JR, Wilson C.; SEROA DA MOTTA, R.; AMEND, Marcos R.; GONCALVEZ, Dermendal A. Critérios Econômicos para Aplicação do Principio do Protetor-Recebedor: estudo de caso do Parque Estadual dos Três Picos. Critical Ecossystem Partnership Fund, junho 2006 TAMENE, L. e VLEK, P. L. G. Assessing the potential of changing land use for reducing soil erosion and sediment yield of catchments: a case study in the highlands of northern Ethiopia. Soil Use and Management vol. 23, n. 1, pp 82 91,

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