Saliência da identidade profissional ou de equipe: estudo qualitativo com equipes multidisciplinares

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1 Disponível em Saliência da identidade profissional ou de equipe: estudo qualitativo com equipes multidisciplinares Salience of professional identity or team identity: a qualitative study with multidisciplinary teams Liana Santos Alves Peixoto 1 Sônia Maria Guedes Gondim 2 Resumo: O estudo teve o objetivo de analisar a dinâmica de duas identidades grupais que se fazem presentes simultaneamente nos membros de equipes multiprofissionais: a oriunda de seu grupo acadêmico de formação, que lhes define a profissão e a outra concernente a sua participação em equipes multiprofissionais de trabalho. Trata-se de um estudo qualitativo em que foram realizados grupos focais com três equipes multiprofissionais da área de saúde. A hipótese inicial era a de que a identidade de equipe prevaleceria sobre a identidade do grupo de formação para assegurar a unidade e efetividade da equipe multidisciplinar de trabalho. Concluiu-se que as duas identidades apresentam-se como complementares no processo de interação das equipes de trabalho. A saliência de cada uma delas depende de fatores contextuais (organizacionais e situacionais), grupais (da própria composição da equipe) e individuais (fatores disposicionais e de socialização). A compreensão destes fatores ajuda a diagnosticar problemas de equipes de trabalho e adotar estratégias para o fortalecimento da identidade de equipe, sem desconsiderar a identidade do grupo de formação. Palavras-chaves: identidade, equipe, grupos focais Abstract: This essay aims to analyze the dynamics of two group identities that are present simultaneously in the team members multiprofissionais: the coming of an academic group, that defines the profession and the other concerning a participation in multidisciplinary teams working. It is a qualitative study that had conducted three focus groups with multiprofessional teams of health. The initial hypothesis was that the team identity would prevail over the identity of the academic group to ensure the unity and effectiveness of the multidisciplinary team work. It has concluded that the two identities are presented as complementary in the process of interacting teams. The prominence of each of them depends on contextual factors (organizational and situational), group (within the composition of the team) and individual (dispositional factors and socialization). Understanding these factors helps in diagnosing problems of teamwork and to adopt strategies to strengthen the team identity, without ignoring the identity of the group academic. Keywords: identity, team, focus group 1 Mestre em Psicologia Social, UFBA 2 Professora Adjunta na UFBA Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

2 Introdução É crescente a atuação em equipes multiprofissionais no contexto organizacional, e em especial na área de saúde, com base na crença de que a conjunção de domínios especializados pode contribuir para intervenções mais efetivas. Há dois aspectos a serem analisados aqui. De um lado, a emergência de uma identidade do grupo de trabalho é fundamental para a construção de um senso de coletividade e a viabilização de uma atuação mais integrada e eficaz em contexto de equipes (Reynolds, Turner, & Haslam, 2003; Janssen & Huang, 2008; Gómez-Jiménez, 2003). De outro, as identidades profissionais de cada membro são essenciais para a integração de perspectivas diversas, oriundas da sua formação especializada. Cada membro do grupo tem uma contribuição específica a dar, ao trazer para a equipe a perspectiva de sua formação acadêmica para a análise e intervenção no fenômeno estudado. A questão a ser respondida é se a efetividade e integração da equipe de trabalho estariam asseguradas somente se houvesse saliência da identidade da equipe de trabalho, deixando em segundo plano a identidade do grupo de formação. Esta suposição está baseada na perspectiva teórica da hierarquização e saliência das múltiplas identidades sociais do indivíduo, conforme descrito por Stryker e Serpe (1994). O interesse em investigar mais detidamente esta questão nos levou a realizar um estudo qualitativo sobre a interação entre estas dimensões da identidade grupal, a do grupo de formação acadêmica e a do grupo de trabalho, e analisar de que modo a saliência de uma ou de outra repercute na qualidade das relações e no desempenho dessas equipes multiprofissionais. Realizamos grupos focais com três equipes multiprofissionais que atuam na área da saúde, a fim de identificar os fatores que contribuem para a saliência da equipe de trabalho e a do grupo de formação profissional. Discorrendo sobre a identidade social e identidade profissional A constituição da identidade ocorre a partir da conjunção de diferentes elementos sociais e experiências subjetivas que se articulam e resultam em uma configuração que não pode ser resumida à soma de suas partes (Rutherford, 1990). As distintas categorias sociais a que o indivíduo pertence, portanto, se articulam e se combinam na elaboração da identidade, que sofre influências, de um lado, do contexto social, mas de outro de características pessoais, tais como a história de vida. A identidade social, portanto, está associada ao conceito de categorização social. A categorização é o processo de imputação de um membro a uma dada categoria social, diferenciando-o de outras categorias. Assim, é possível conferir ordem à complexidade de estímulos existentes no ambiente social, estruturando-o de modo a nos auxiliar na previsão de comportamentos. Em sendo assim, as categorias ajudam a diminuir a incerteza do mundo social, tornando-o mais previsível e coerente (Augoustinos, Walker, & Donaghue, 2007). Esses processos cognitivos são adaptativos e funcionais para a vida cotidiana, pois possibilitam maior rapidez, eficiência e economia no processamento de informações sobre o mundo social (Hogg, 2001). A Teoria da Identidade Social proposta por Tajfel (1983) enfatiza os processos de categorização e comparação social ao tratar da formação da identidade. Segundo Stets e Burke (2000), as categorias sociais permitem aos sujeitos a construção da noção de pertença, uma vez que elas demarcam e acentuam características específicas compartilhadas pelos membros de Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

3 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim determinada categoria social, em contraposição às características encontradas em pessoas pertencentes a outros grupos, tais como atitudes, crenças, valores, estados afetivos e normas de comportamento. O processo de formação da identidade social envolve, também, a autocategorização, em que o indivíduo realiza comparações com grupos sociais, identificando em si mesmo as características comuns a seus grupos de pertença, em contraposição a grupos alheios, demarcando, assim, a zona de sua identidade (afinidade) e de contra-identidade (distanciamento). A comparação social e o processo de autocategorização contribuem para a emergência de um fenômeno denominado favoritismo intragrupal, em que os aspectos positivos do grupo de pertencimento são maximizados, na comparação com outros grupos, o que repercute na imagem de si e na autoestima individual (Turner, Brown, & Tajfel, 1979). A Teoria da Identidade Social ajuda, portanto, a compreender as relações intra e intergrupais, na medida em que tanto o fenômeno do favoritismo intragrupo quanto a discriminação a membros de outros grupos expressam a necessidade de o indivíduo fortalecer sua própria identidade (Álvaro-Estramiana & Garrido-Luque, 2006). Ou seja, para afirmar a própria identidade, mecanismos grupais conscientes e/ou inconscientes (conformidade, estereótipos, favoritismo intragrupal, discriminação intergrupal, entre outros) são desencadeados para manter a coesão interna (Haslam & Ellemers, 2005). O processo de construção da identidade social, portanto, integra elementos de semelhança e oposição, identificados pelos sujeitos nos grupos sociais com os quais convive, já que a definição de si mesmo é sempre relacional e comparativa. A identidade profissional, por sua vez, configura-se como parte da identidade social, e é uma forma de significar o próprio trabalho e a si mesmo, tendo como ponto de partida o pertencimento a um grupo social que emerge na relação com outros grupos (Dubar, 2005). Uma equipe de trabalho configura-se como um grupo social, apenas quando os seus membros desenvolvem um sentimento de pertença a esse grupo. Tendo em vista que uma equipe de trabalho não se constitui naturalmente e, muitas vezes, não oferece a possibilidade de escolha a seus membros, eles podem não apresentar um sentimento de pertencimento ao grupo, categorizando os demais integrantes exclusivamente como membros de outras categorias sociais. O pertencimento dos sujeitos a distintos grupos profissionais, a divergência de interesses e valores entre eles e os mecanismos de distinção entre grupos podem contribuir para a emergência de comportamentos de demarcação explícita das fronteiras entre o seu grupo e os demais. O problema se agrava quando essa necessidade de diferenciação gera condutas negativas na interação com outros grupos, como agressividade, hostilidade e discriminação (Gómez-Jiménez, 2003). Embora problemas intergrupais não sejam analisados neste estudo, é importante levarmos em consideração tais aspectos, pois podem emergir, especialmente quando não há cooperação e metas comuns entre indivíduos pertencentes a distintos grupos. Ao ter em conta os aspectos teóricos assinalados nesta seção, o entendimento da dinâmica das identidades profissionais de membros de equipes multiprofissionais oferece contribuições para compreender as práticas profissionais e a dinâmica das relações intragrupais (vínculos com a formação acadêmica) e intergrupais (entre categorias profissionais distintas) estabelecidas nessas equipes. Compreender os fatores que facilitam, por um lado, a afirmação de uma identidade com o Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

4 grupo de formação acadêmica, que circunscreve as contribuições pessoais ao grupo e, por outro, o desenvolvimento e a preservação de uma identidade com o grupo de trabalho, a qual viabiliza comportamentos colaborativos entre seus membros destaca-se como uma possibilidade de propor ações que possam ajudar no desempenho e na satisfação grupal. Método Para a realização do presente estudo, foram contatadas instituições locais que tinham, na composição de seus quadros, equipes multiprofissionais. Três equipes foram selecionadas e a cada uma delas foi proposta a realização de grupos focais, compostos por três a seis participantes com formações acadêmicas distintas, os quais compartilhavam experiências de suas práticas laborais em contexto multiprofissional. O grupo focal teve como objetivo capturar as opiniões e percepções dos membros da equipe multiprofissional sobre o seu funcionamento e a dinâmica da identidade de formação e da própria equipe. O grupo focal permite o confronto entre ideias, opiniões, valores e crenças dos sujeitos (Gondim, 2003), visto que cada participante tem um papel ativo na defesa de sua posição e estabelece trocas, ampliando, em alguns casos, sua perspectiva de análise do processo de identidade profissional. Operacionalização dos conceitos Nesta investigação circunscrevemos a identidade do grupo de formação ao pertencimento do indivíduo a um grupo profissional, o qual possui linguagem técnica, posturas, crenças e valores próprios, que definem a sua atuação em um campo específico do conhecimento. A identidade profissional, entretanto, não se limita à identidade do grupo de formação, pois o indivíduo a constrói constantemente nas suas relações laborais. Assim, partimos do entendimento de que a constituição da identidade profissional é resultante tanto da dimensão da formação acadêmica (adquirida na formação de nível superior) quanto da dimensão grupal (construída quando o indivíduo se insere em uma equipe multidisciplinar de trabalho). A identidade do grupo de trabalho, portanto, emerge das relações laborais cotidianas, a partir do entendimento de que é necessária uma articulação entre os profissionais para que atinjam seus objetivos e metas. Definimos equipe multiprofissional como um grupo voltado para a realização de tarefas interdependentes, composto por membros pertencentes a categorias profissionais distintas. Participantes Três equipes, todas da área da saúde, porém com ênfases de atuação distintas, participaram desta investigação. A equipe I atua em uma instituição hospitalar pública, com ênfase no atendimento psiquiátrico mediante internação e é composta por cinco membros. Participaram do grupo focal, no entanto, somente a médica, o psicólogo e a enfermeira. A equipe II, por sua vez, desenvolve suas atividades em um órgão da administração pública direta do Estado da Bahia, sendo composta por 18 membros. Participaram do grupo focal seis integrantes da equipe, a psicóloga, a assistente social, a socióloga, a pedagoga, o economista e a bacharela em letras. Por fim, a equipe III se insere em uma empresa pública federal e é composta por seis membros. Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

5 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim No grupo focal contamos com a participação da assistente social, do técnico de segurança do trabalho, da engenheira de segurança no trabalho, do médico e do psicólogo. Importa assinalar que apesar de nem todos os membros da equipe estarem presentes, sua presença era trazida pelos demais membros, que faziam referências positivas ao trabalho realizado por eles, o que, neste estudo, permitiu inferir certa afinidade e integração destas equipes de trabalho. As três equipes foram selecionadas com base nos seguintes critérios: mínimo de três categorias profissionais distintas em interação (assegurar diversidade), existência de interdependência de atividades e, por último, tempo de existência (mínimo de um ano), visando a garantir que os participantes pudessem ter vivências a compartilhar. Procedimentos O grupo focal foi dividido em dois momentos. No primeiro a ênfase foi na avaliação individual sobre a saliência da identidade do grupo de formação ou do grupo de trabalho; no outro momento, foram discutidas as interações entre os profissionais, com foco nas atividades e nas questões de status e emergência de conflitos na equipe. Para refletir sobre o processo de identificação, cada participante avaliava individualmente se a prevalência da identidade era marcada pela identidade de formação (foco na categoria profissional) ou do grupo de trabalho (foco na equipe). Foram entregues dois cartões a cada participante. Em um dos cartões estava escrito identidade do grupo de formação e, no outro, identidade do grupo de trabalho. Cada participante, então, julgava e escolhia o cartão que melhor representava a sua identidade de atuação naquele contexto. Foi solicitado ainda que descrevesse no verso do cartão, os motivos pelos quais selecionou a identidade do grupo de formação ou a do grupo de trabalho como mais saliente na percepção sobre sua atuação na equipe. Após essa tarefa, os participantes eram convidados a compartilhar as razões da escolha com os demais membros da equipe. Os grupos focais tiveram a duração de 1 a 1 hora e 30 minutos e foram registrados em áudio e vídeo, com o consentimento dos participantes para fins de análise dos dados, preservando-se a confidencialidade dos participantes e o anonimato das organizações. Análise dos dados Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo temática. A categorização foi direcionada pelo marco teórico, com definição de grandes categorias de análise da dinâmica dos grupos (níveis contextual, grupal e individual), porém diversas outras emergiram a partir da análise dos dados dos grupos focais realizados (valores, metodologia de trabalho, histórico da constituição do grupo). A análise dos dados iniciou-se com uma exaustiva leitura do material coletado, com o objetivo de obter-se uma visualização do todo, bem como uma imersão nos dados, a fim de garantir que as categorias retratassem os elementos apontados pelos participantes dos grupos focais na saliência de uma identidade do grupo de trabalho e do grupo de formação. É importante enfatizar que o substrato orientador da criação das categorias de análise foi o referencial teórico apresentado na fundamentação teórica, visto que o tratamento dos dados, na análise do conteúdo, é orientado pelo enquadramento teórico do quadro de referência da investigação Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

6 (Guerra, 2006). A saliência da identidade do grupo de formação e da equipe de trabalho foi analisada em três níveis: i) contextual, que indicava elementos próprios do contexto organizacional e da área de atuação das equipes de trabalho, ii) grupal, que reunia informações sobre o grupo de trabalho em termos de estruturação das tarefas, e iii) individual, que contemplava aspectos dos próprios indivíduos, como características pessoais, socialização na infância, etc. Além disso, alguns aspectos próprios da equipe, como histórico de constituição, valores, metodologia de trabalho e característica dos membros, também foram identificados como influentes na emergência de uma ou de outra identidade. Resultados e discussão Ao contrário do que imaginávamos sobre a necessidade de saliência da identidade da equipe de trabalho prevalecer sobre a identidade do grupo de formação para assegurar uma boa avaliação da qualidade do trabalho em equipe, os resultados sugerem haver uma dinâmica no processo de equipe que faz oscilar a saliência entre uma e outra identidade. Aspectos do contexto de atuação das equipes multiprofissionais, do próprio grupo e dos indivíduos que compõem a equipe fortalecem tanto a identidade do grupo de formação quanto a do grupo de trabalho em momentos distintos e parecem ser importantes para assegurar o funcionamento da equipe de trabalho. As duas identidades grupais são importantes para assegurar o vínculo tanto com o grupo de formação quanto com a equipe de trabalho. Os dois vínculos repercutem nas relações estabelecidas no âmbito grupal, favorecendo comportamentos colaborativos e a aplicação de conhecimentos específicos a problemas que exigem intervenções interdisciplinares. As características da composição de cada uma das equipes analisadas permitem compreender tais vínculos. Grupo I: Enfermeira: É uma proposta de trabalho, que... É o melhor... Então, a gente tenta trabalhar nesse esquema... Porque a gente vê dessa forma... Vê que as coisas funcionam melhor se a gente trabalhar em equipe... Médica: Eu acabei de colocar isso aqui (no papel). Enfermeira: Então a gente acredita nisso... Você acredita, né... (...) Médica: (...) eu acho importante, eu respeito... Geralmente aqui nos hospitais existe uma decisão institucional de que a assistente social assume o trabalho de família... Nós conversamos com as famílias também, mas essa é uma atividade que é prioridade pro Serviço Social fazer em grupo... Eu, por exemplo, tenho uma afinidade enorme com o trabalho com a família, mas eu busco encaminhar... Na equipe I, que atua com foco na saúde mental em uma unidade hospitalar pública, o vínculo com a área emerge com uma importância significativa e é constitutiva da identidade. A utilização de equipes multiprofissionais em hospitais já possui uma tradição que fortalece a identidade de equipe. Há a crença de que o grupo multidisciplinar é mais capaz de dar conta de Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

7 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim um objeto complexo, multifacetado e extremamente custoso, em termos psicológicos, para os profissionais inseridos nesse contexto, do que intervenções de profissionais especializados. Embora se reconheça a identidade profissional do enfermeiro, médico e psicólogo, no grupo estudado, a formação desses profissionais já os preparou para interagir em um contexto grupal, ao estabelecer os limites de compreensão de cada ciência e a necessidade de articulação entre elas para compreensão do fenômeno da saúde mental. Na equipe II, cuja área de atuação é saúde e qualidade de vida em uma organização pública, a ênfase recai nos propósitos do grupo, que atraiu indivíduos identificados com os valores e as atividades desenvolvidas por essa equipe. Foi a temática e o interesse comum que atraíram os profissionais dos diversos setores da organização para integrar a equipe. A identidade com o grupo de trabalho estava, então, estabelecida desde o início. Inclusive, havia uma profissional da área de letras que se integrou à equipe somente pelo interesse pela qualidade de vida e não pela sua formação acadêmica. Grupo II: Psicóloga: (...) a minha missão de vida está muito ligada à missão do núcleo, né... Então, eu estou falando do papel, da função do núcleo... (...) E o sentimento de pertencimento a esse núcleo e ao seu propósito... A equipe III, que atua com ênfase na saúde e segurança do trabalho em uma organização pública, está em processo de recomposição. Tradicionalmente composta por profissionais da área de segurança, como técnicos e engenheiros, a equipe muda o foco para a área psicossocial e passa a ser integrada por psicólogo e assistente social, provocando uma necessidade de ajuste tanto dos profissionais que passaram a integrar a equipe, quanto daqueles que os receberam. Grupo III: Assistente Social: (...) Essa equipe de saúde ocupacional... Ela passou por muitas mudanças... Eu tô falando isso porque isso influencia na questão do trabalhar junto. (...) Agora biopsicossocial porque a gente passou a fazer... Realmente estar lotado, isso é importante no contexto organizacional, aqui. Porque quando a gente tá lotado numa área, a gente começa a ter o dever de priorizar as atividades daquela área... Então, a gente acaba tendo realmente de tentar buscar esse trabalho com o grupo porque esses projetos são construídos em grupo. (...) Técnico de segurança: (...) tenho tentado estreitar os laços... Acho que o caminhar, se continuar nessa estrutura, brevemente a gente consegue chegar... Realmente trabalhando enquanto equipe multidisciplinar. Conforme explicitado nas seções iniciais deste ensaio, há fatores que favorecem tanto a saliência de uma identidade com o grupo de formação quanto a emergência de uma identidade com o grupo de trabalho. Estes fatores nos níveis contextual, grupal e individual, são apresentados e discutidos a seguir. Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

8 Fatores que fortalecem a identidade do grupo de formação No nível contextual, com base nos dados analisados, podemos inferir que a identidade do grupo de formação é fortalecida pela organização que estabelece em suas normas as atribuições e competências de cada profissional membro da equipe de trabalho. Assim, se o vínculo do indivíduo com o grupo e o seu lugar na equipe é determinado pela sua profissão e pelas normas organizacionais, a sua identidade com o grupo de formação tende a ser assegurada (Galván, 2007). No entanto, apesar de o delineamento de competências e a descrição de papéis na equipe serem necessários para assegurar as identidades do grupo de formação profissional, os achados deste estudo indicaram que um trabalho integrado só será viabilizado se existirem fronteiras flexíveis que permitam a comunicação entre os diversos campos do conhecimento. Vale destacar que, mesmo quando há incentivos por parte da organização para a formação de equipes multiprofissionais, elas não conseguirão se desenvolver caso não encontrem, no contexto em que estão situadas, espaços para uma atuação integrada, o que pode favorecer uma prática isolada dos profissionais, com ênfase em sua formação acadêmica. Neste caso, a interdependência das tarefas é fundamental para assegurar o diálogo com repercussões no desempenho da equipe. Grupo III: Médico: (...) tem uns dois anos assim... Isso aqui pegou fogo... Várias transformações, então imagine você... E detalhe, nem sempre... Não acompanhou também com o material humano... (...) Assistente social: (...) por conta também desse ritmo acelerado, algumas questões não têm prioridade... Porque a gente tem que responder, ler, legalmente, vai pagar multa e vai atropelando as coisas e essas questões que são importantes da abordagem, do trabalho ficam pra trás... (...) Médico: Mas eu entendi que não foi culpa da equipe... Foi da conjuntura... Mudanças enormes que a empresa passou em dois anos e muita mudança o tempo todo... E ansiedade nos funcionários. A especificação da atuação na equipe I é condicionada pelo projeto institucional existente, que demarca as competências e atribuições de cada profissional. Na equipe II, por outro lado, inexiste um direcionamento institucional quanto aos papéis de cada membro do grupo, o que os obriga a se organizarem e distribuírem as atividades, considerando o pertencimento dos indivíduos a grupos profissionais distintos ou vivências em experiências de trabalho prévias. Na equipe III, verifica-se a existência de regulamentações para algumas atividades específicas, que são exclusivas de uma categoria profissional (psicólogos, engenheiros e técnicos de segurança), mas não para os profissionais recentemente integrados como psicólogo e assistente social. Diretrizes para a atuação dos membros (equipe I e III) ajudam a desenvolver expectativas profissionais, pois os indivíduos sabem o que esperar da ação, do discurso ou da utilização de ferramentas por parte de cada profissional da equipe, o que torna importante a identidade do grupo de formação. Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

9 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim Grupo III: Psicólogo: (...) Então, tem um programa específico de prevenção a acidentes que eu vou e faço atividades é... De avaliação psicológica, que é bem especifica da atuação profissional do psicólogo. Moderadora: E você faz isso sozinho, não conta com o apoio da Cecília não? Psicólogo: No caso pra essa avaliação... Assistente Social: Não, porque é bem especifico mesmo a regulamentação. Além disso, expectativas de papéis profissionais geram uma conformidade grupal, pois os indivíduos que se relacionam com um grupo profissional comportam-se levando em consideração o seu pertencimento a esse grupo expresso no tipo de diálogo estabelecido e na busca de auxílio ou de apoio para a execução de determinadas atividades. Como tal, tendem a se comportar de acordo com as orientações de seu grupo profissional, já que a categoria em que estão situados não apenas descreve, mas também prescreve comportamentos (Manstead & Hewstone, 1995). Nesse sentido, os grupos profissionais são funcionais e adaptativos, conferindo certa estabilidade e previsibilidade a essas interações sociais. No nível grupal, em que são destacadas as características de cada equipe de trabalho, foram identificadas as especificidades de cada equipe que parecem contribuir para a saliência da identidade do grupo de formação. Na equipe I, há uma delimitação clara das esferas de atuação de cada área especializada, em parte, por se tratar de uma equipe de saúde mental, já bastante estruturada no contexto hospitalar. Na equipe II, destaca-se a valorização de algumas formações acadêmicas, que se encontram mais claramente identificadas com o trabalho de qualidade de vida, como o Serviço Social e a Psicologia. Neste caso, os demais profissionais integram a equipe por seu interesse e não por sua formação acadêmica e apóiam-se na identidade da equipe, por não se identificarem com o seu grupo de formação profissional. Na equipe III, fica visível a existência de subgrupos, visto que um grupo com forte identidade grupal centrada na engenharia e segurança no trabalho passa a compartilhar o espaço com profissionais da Psicologia e do Serviço Social que não possuem uma identidade clara na equipe. Tentam apoiar-se em uma identidade do grupo de formação, que não necessariamente está ajustada à identidade da equipe de trabalho. A identidade que une engenheiro e técnico de segurança e os tornam integrados na equipe não é do mesmo modo compartilhada pelos dois outros profissionais (psicólogo e assistente social), que buscam encontrar o seu lugar na equipe. Um aspecto importante a ser considerado é a distribuição de tarefas da equipe. Se a divisão das atividades é feita com base na formação acadêmica dos profissionais, isto fortalece a identidade do grupo de formação em detrimento da identidade da equipe de trabalho. Na equipe I, por exemplo, apesar de alguns membros reconhecerem uma afinidade com o desenvolvimento de atividades em uma área (trabalho com a família), o fato de já existir, no grupo, um profissional (assistente social) que tradicionalmente atua nesse contexto conduz os membros a encaminharem os casos para esse profissional, respeitando os espaços de atuação. Assim, além de regulamentações legais ou decisões institucionais que fortalecem a saliência da identidade de formação em uma intervenção específica, os próprios integrantes do grupo delimitam espaços e legitimam os papéis de cada profissional na equipe. Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

10 Na equipe II, observou-se uma forte valorização da Psicologia pelos integrantes, que manifestaram o desejo de realizar cursos nessa área. Compreende-se que o foco de atuação dessa equipe favorece essa valorização, pois as ações no âmbito da promoção da qualidade de vida se aproximam dessa formação acadêmica. Nesse caso, a identidade do grupo de formação dos profissionais graduados nesse curso ou áreas afins (Serviço Social, Psiquiatria) pode ser fortalecida, ao se identificar a saliência desses campos do saber no contexto em que atuam. Os subgrupos também podem ocorrer em equipes de trabalho e resultam da percepção de afinidade entre alguns membros. A aproximação entre os membros pode ocorrer a partir do entendimento de que compartilham crenças, valores ou objetivos que podem ser fortalecidos pelo pertencimento a alguns grupos sociais. No caso da equipe III, a proximidade temática proporcionada pela área de formação de alguns dos seus membros (engenharia e segurança no trabalho), associada à necessidade de construção de projetos em conjunto, destacam-se como aspectos importantes para a busca de parcerias e alianças. Além disso, a ausência de visualização da forma como alguns membros (psicólogo e assistente social) podem contribuir para o grupo configura-se como uma possível razão impulsionadora da emergência dos subgrupos. A existência de subgrupos pode ser prejudicial para a integração grupal, especialmente se os integrantes da equipe, na tentativa de preservar a imagem do subgrupo e a sua autoestima, valorizam apenas as contribuições ou projetos propostos por ele (favoritismo grupal), desqualificando considerações realizadas pelos demais membros. Observa-se nos grupos estudados que os processos de categorização e comparação social se fazem presentes com forte intensidade quando focamos os fatores de nível grupal, pois a decisão por uma aproximação, a valorização de uma área ou a distribuição do trabalho estão vinculadas à percepção das diferenças entre as categorias profissionais. Grupo I: Enfermeira: Nós temos as responsabilidades especiais da própria especialidade e nós temos uma responsabilidade também compartilhada, enquanto equipe. Psicólogo: (...) Acaba que nós temos muitas responsabilidades especificas. Cada profissional tem aí seus... Suas atribuições específicas e a grande, a maior parte do trabalho em grupo é justamente isso: é a orientação do tratamento. Grupo II: Psicóloga: (...) que foi a pessoa que me convidou para estar no núcleo... Porque sabia da minha formação, do meu desejo de estar fazendo isso (...) Fomos convidadas para estar no núcleo por conta de nossas formações (...) Economista: (...) eu procurei uma formação lá fora... Fiz um curso de Psicanálise durante três anos e meio, depois fiz um curso de... Uma especialização em Psicologia Analítica... Grupo III: Psicólogo: (...) Eu me identifico como parte de saúde e segurança no trabalho, mas, por exemplo, dentro dessa área de saúde e segurança no trabalho, eu sou do serviço psicossocial, então eu trabalho muito mais próximo com a assistente social... Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

11 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim Os sistemas de classificação são constituídos a partir da visualização da diferença (Woodward, 2000), e, na constituição da identidade, verificam-se movimentos complementares de demarcação de diferenças e reconhecimento de afinidades (Silva, 2000). O entendimento individual e grupal das contribuições que cada um pode oferecer à equipe repercute de forma significativa na sua autoestima. O indivíduo percebe-se como diferente na equipe, bem como admite que a sua contribuição teórica e prática no desenvolvimento das atividades é única e representativa de uma categoria profissional. No nível individual é possível, também, compreender a saliência da identidade do grupo de formação. A formação acadêmica em uma área do conhecimento proporciona ao indivíduo um arcabouço teórico e o domínio de aspectos instrumentais que o habilitam para a intervenção na realidade laboral e isto fortalece a sua identidade. A identidade profissional passa a integrar a identidade pessoal e o permite posicionar-se na equipe de trabalho. Grupo I: Enfermeira: Agora a gente tem coisas específicas sim... Por exemplo, eu tenho todo um grupo de Enfermagem que eu lidero enquanto enfermeira da Unidade... Mediante o reconhecimento de que se é um profissional detentor de um domínio especializado que será contributivo para a equipe, o indivíduo reafirma-se no grupo de trabalho. O pertencimento a uma categoria profissional, então, configura-se como um elemento identificador do indivíduo que fortalece a identidade do grupo de formação. Nas equipes multiprofissionais, ainda que essa identidade seja enfraquecida em favor do fortalecimento de uma identidade do grupo de trabalho, sua preservação é importante, pois ela é a responsável por evidenciar as contribuições específicas que cada área do saber é capaz de proporcionar na análise da realidade, com repercussões importantes na autoestima dos indivíduos. Fatores que fortalecem a identidade da equipe multiprofissional No nível contextual, a análise dos dados indicou que a identidade da equipe de trabalho é fortalecida quando há uma demanda decorrente da complexidade do objeto ou mediante a visualização de que há uma grande intersecção entre os saberes. O cuidado na composição do grupo de trabalho e a valorização de um trabalho em equipe para além das distintas especializações, além dos investimentos organizacionais na capacitação para uma atuação integrada, também são fatores que fortalecem a saliência da identidade da equipe de trabalho. Intervenções isoladas ou análises sob a perspectiva de uma única área do saber são incompletas e ineficazes, visto que as ciências se complementam para uma compreensão abrangente da realidade. A equipe I, por exemplo, reconhece a necessidade dessa articulação entre profissionais de áreas distintas em uma compreensão de que a atuação isolada de um profissional não é capaz de dar conta de um objeto tão complexo e multifacetado como o da saúde mental. Grupo I: Psicólogo: (...) eu acho que Saúde Mental traz isso pra gente... Essa necessidade de estar junto... Ter essa coletividade... Por conta da especificidade do trabalho... Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

12 A identidade da equipe de trabalho também é fortalecida quando não há a exigência de uma formação específica para a atuação, conforme observado na equipe II. Nesse caso, os membros do grupo vinculam-se não pelo pertencimento a uma mesma categoria profissional, mas pelo compartilhamento de objetivos, valores e ideais de preocupação com programas de qualidade de vida no trabalho. A iniciativa da organização em criar um núcleo para organizar ações institucionais nesta direção e atrair funcionários dos diversos setores, permitiu assegurar um vínculo com a equipe para além da área especializada de formação. Na equipe III, observa-se um discurso que valoriza a existência de um trabalho em equipe, mesmo que, na prática, esse ideal ainda não tenha sido alcançado. A iniciativa da organização foi estabelecer normas para recompor a equipe não mais com o foco em segurança no trabalho, mas em atenção psicossocial, reconhecendo a necessidade de um trabalho integrado para responder de forma mais satisfatória às demandas de saúde e segurança no trabalho. Para tal investiu na recomposição da equipe, de forma a contemplar não apenas o atendimento de demandas relacionadas ao aspecto biológico da saúde e segurança dos trabalhadores, mas também daqueles vinculados à área psicossocial, como o psicólogo e o assistente social. O contexto de atuação, segundo Roccas e Brewer (2002) é essencial para a saliência de uma identidade social. Todas as três equipes estudadas desenvolvem suas atividades no campo da saúde, e essa área parece demandar uma superação das fronteiras disciplinares para uma atuação eficaz, tendo em vista seu caráter complexo e multifacetado, que necessita da contribuição de perspectivas diversas. É importante destacar que o contexto de atuação na área da saúde favorece a multidisciplinariade, porém não é suficiente para o efetivo exercício do trabalho em equipe. Além dos fatores contextuais, há ainda aspectos em nível grupal e individual capazes de promover ou fragilizar a emergência do trabalho multidisciplinar. A percepção de interesses e objetivos comuns na área da saúde parece estar bem explícita para os profissionais, desde que a função e o papel da equipe estejam claramente definidos pela organização. Nesse sentido, fatores contextuais fortalecem a identidade do grupo de trabalho, sobretudo quando disponibilizam os recursos necessários ao seu desenvolvimento, a exemplo de políticas organizacionais de institucionalização das equipes multiprofissionais. No nível grupal, a identidade da equipe de trabalho é fortalecida quando a equipe consegue criar condições para uma atuação mais integrada, em que as diferenças são aceitas e respeitadas e os membros sentem-se mais seguros (Edmondson, 1999), sem o risco de perder suas identidades pessoais e profissionais. As equipes investigadas apresentaram alguns indícios de tentativas para criar ou manter essas condições, as quais viabilizam uma atuação mais eficaz, conforme comentado a seguir. Na equipe I, observa-se a abertura entre os membros da equipe para expressar ideias, questionar práticas desenvolvidas no trabalho, trocar informações para a tomada de decisões e compartilhar com os colegas de trabalho suas dificuldades, angústias e frustrações. Os membros vêem, na equipe, um suporte social e a proteção psicológica para lidar com questões difíceis, próprias da realidade com a qual se deparam, destacando, assim, os benefícios dessa modalidade de trabalho. Além disso, a forte crença na eficácia das equipes multiprofissionais confere sustentação para uma atuação mais integrada, com ampla participação e visualização de intersecções entre os profissionais. A crença na eficácia de uma atuação coletiva e o suporte social e proteção psicológica que a equipe é capaz de oferecer aos seus componentes são, Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

13 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim portanto, facilitadores de uma identidade da equipe de trabalho. Os membros da equipe II também identificam benefícios de uma prática coletiva, pois percebem, nessa modalidade de trabalho, a possibilidade de desenvolver novos aprendizados e compartilhar saberes, incrementando, assim, a qualidade do trabalho produzido. Ao buscar informações junto a colegas mais experientes ou com uma formação acadêmica específica, cada um tem a oportunidade de conhecer e se desenvolver em uma área, até o momento, inexplorada. Ressalta-se que na equipe II a temática de promoção de qualidade de vida é que une os membros, a despeito de sua área de formação. No entanto, a inexistência de uma identidade de grupo de formação profissional para assegurar o lugar na equipe de trabalho (profissional formado em letras e outro em ciências contábeis), faz com que o apoio seja buscado na identidade de outros profissionais considerados afins a esta temática, como a psicóloga e a assistente social. É neste contexto que ocorre o aprendizado compartilhado. A equipe III, por sua vez, vivencia um processo de transição para uma nova configuração, em termos de escopo de atuação, composição da equipe e modalidade de atuação (trabalho em equipe ou mais individualizado). O estágio de desenvolvimento dessa equipe, bem como o papel do gestor nessa reconfiguração, estimulando os membros nessa redefinição grupal e criando espaços para a prática integrada, são condições que aparecem como elementos importantes para o alcance de uma identidade de equipe de trabalho. A crença de a equipe ser uma unidade grupal foi encontrada nas três equipes estudadas, não só pela valorização da equipe em comparação com outras equipes de trabalho, como as várias menções feitas aos membros que estavam ausentes nos grupos focais, indicando, assim, o reconhecimento do lugar ocupado e as contribuições realizadas por eles na equipe. Grupo I: Psicólogo: É, a Ana (assistente social) não está aqui para conversar também, para expor as opiniões dela, eu acho que seria interessante... Mas ela se encontra doente... Médica: Essa é uma unidade, inclusive como toda unidade psiquiátrica fechada, que o aspecto social é ainda um grande entrave... A razão pela qual a instituição ainda persiste... Mas, infelizmente ela não está aqui... Psicólogo: É... As opiniões dela com certeza seriam interessantes também pra você... Acho que vai ser uma perda... A comparação realizada, em geral, enfatizava aspectos positivos do grupo de pertença com referência a outros grupos, o que se configura como um movimento característico da constituição da identidade do grupo de trabalho, em que a tendência de avaliar mais positivamente aspectos do grupo de pertença gera impactos na imagem e na autoestima pessoal (Turner et al., 1979). Por fim, percebeu-se também que as equipes buscam superar o isolamento imposto pelas fronteiras disciplinares mediante a possibilidade do exercício de papéis. Na equipe I e na II, inferese o compartilhamento no exercício de papéis, pela atuação momentânea no papel de outro profissional para dar conta de uma demanda do trabalho. Na equipe III, mencionou-se a ampliação das atividades profissionais para além das competências de formação, visando suprir as carências da equipe. Essas posturas fazem referência a comportamentos colaborativos, mais prováveis em grupos com forte identificação grupal (Janssen & Huang, 2008). Apesar de os profissionais terem um escopo de atuação definido, prevalece a concepção de que todos são responsáveis pelo Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

14 produto final do trabalho e que a ação de um componente representa toda a equipe. Assim, há fatores do nível individual que facilitam a identidade da equipe de trabalho. A busca ativa por formação complementar, o engajamento em experiências profissionais em equipes multiprofissionais desde muito cedo e os modelos identificatórios do indivíduo foram apontados como fatores importantes para compreender seu relacionamento com membros de outros grupos profissionais. Esses fatores podem, ainda, ser classificados como constituintes de uma identidade social que direciona o comportamento no grupo. Por outro lado, a história de vida da pessoa, com ênfase no seu processo de socialização e nas relações mantidas fora da esfera do trabalho, além das suas características pessoais, tais como habilidades relacionais, capacidade de escuta e valores pessoais de solidariedade e colaboração, também estão presentes na construção da postura individual em equipes multiprofissionais e fazem referência à constituição de uma identidade do grupo de trabalho. Grupo I: Psicólogo: (...) Eu acho que isso tem a ver ainda com a formação e com a história de vida... (...) eu acho que vem dessa história... De outros trabalhos, de outras relações da própria vida, né... Por isso que eu puxei essa questão da história de vida, porque eu acho que isso faz uma diferença grande... Grupo II: Assistente social: Porque é muito mais do que... É uma missão... Então... Eu digo assim... Todos nós, a gente estar no núcleo... É porque a gente quer estar no núcleo... É muito maior do que ser o profissional, mas é muito da nossa missão até de... Como pessoa no mundo... (...) Socióloga: (...) A solidariedade, a participação e o acolhimento. Moderadora: É isso que você acha que caracteriza a sua identidade com o grupo? Socióloga: Sim. Grupo III: Técnico de Segurança: Eu acho assim... Talvez por sermos uma equipe já com pessoas maduras, pessoas centradas e isso facilita na realidade o caminhar, o viver... (...) Acho que essa experiência ao longo da vida também ajuda a gente tentar compreender, ouvir o que o colega tem a propor... Não se pode se achar o dono de todas as verdades não... (...) isso talvez tenha facilitado essa questão da gente não ter esses conflitos. Nesse sentido, os membros das equipes I e III discorreram sobre a importância desses fatores para uma inserção bem sucedida do indivíduo em equipes multiprofissionais, enquanto, na equipe II, a ênfase recaiu nas características individuais, mais especificamente no compartilhamento de valores pessoais no grupo para uma postura coerente com as demandas de um trabalho interdisciplinar. A atuação em equipe com foco na interdisciplinaridade parece demandar maturidade do indivíduo. De um lado, torna-se relevante despir-se de concepções demasiadamente arraigadas na sua formação, que impeçam o diálogo com outras perspectivas de análise do fenômeno. De outro, requer a preservação e a aplicação de conhecimentos adquiridos durante a formação Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

15 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim acadêmica que possam fundamentar a compreensão de determinado aspecto da realidade. Esse equilíbrio seria alcançado tanto por meio dessa formação, das experiências de trabalho ou dos modelos identificatórios, mas também a partir de relações pessoais fora do trabalho, características pessoais (flexibilidade, habilidades relacionais) e história de vida (processos de socialização, internalização de valores). A figura a seguir sintetiza e apresenta esquematicamente a discussão apresentada nos parágrafos anteriores. Ela resume os aspectos contextuais, grupais e individuais que promovem a saliência da identidade do grupo de formação e da identidade da equipe. Figura 1: Elementos que favorecem a saliência da identidade do grupo de formação e da equipe de trabalho de acordo com os fatores contextuais, grupais e individuais identificados no estudo. Considerações finais É um desafio conseguir reduzir a poucas páginas a riqueza de informações produzidas em um estudo qualitativo para atender à objetividade requerida na apresentação de resultados de pesquisa. O esforço foi o de reunir os aspectos centrais que podem ajudar a compreender a Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

16 dinâmica de saliência de identidades em equipes multidisciplinares de trabalho, ressaltando os fatores que fortalecem a identidade de grupo de formação profissional e os que fortalecem a identidade da equipe de trabalho. A hipótese inicial de que nos grupos focais ficaria evidente que a saliência da identidade de equipe de trabalho se faria necessária para uma avaliação positiva do funcionamento da equipe, colocando em segundo plano a identidade do grupo de formação profissional, não se mostrou defensável. O que parece ocorrer é que fatores contextuais (principalmente organizacionais), da própria equipe de trabalho, e as características de cada um dos membros da equipe, exercem papel importante na saliência de uma ou outra identidade, ambas necessárias ao bom funcionamento da equipe de trabalho. Em dado momento as identidades profissionais de grupo de formação precisam ser fortalecidas para assegurar a autoestima e o sentimento de que há uma contribuição específica a dar aos demais membros da equipe. Em outro momento, a identidade de equipe precisa ser fortalecida para assegurar a unidade e a confluência de esforços em direção aos objetivos comuns que dão sentido à equipe. Apesar das especificidades das três equipes analisadas, os resultados gerais sugerem que, para a compreensão da dinâmica de funcionamento das equipes de trabalho e para a realização de propostas de intervenção visando ao seu aperfeiçoamento, há fatores de nível contextual, grupal e individual que precisam ser considerados. No âmbito dos fatores contextuais, é esperado que as organizações de trabalho explicitem suas expectativas para as equipes multiprofissionais, além de propiciar as condições necessárias para que o trabalho em grupo se desenvolva. No âmbito grupal, o fortalecimento de uma cultura inclusiva depende da construção de um sentimento de pertencimento à equipe e da capacidade de o líder valorizar a contribuição de cada membro e reconhecer os processos dinâmicos inerentes ao grupo. Por fim, no âmbito individual, as experiências profissionais e pessoais que precedem à inserção na equipe potencializam o engajamento do indivíduo neste coletivo. Para fins de desenvolvimento de equipes de trabalho, torna-se importante verificar a identidade grupal que predomina e os fatores que fortalecem esta prevalência. Desse modo, as equipes podem, a depender de fatores inerentes à sua dinâmica, fortalecer, em determinado momento, a identidade do grupo de formação ou a da equipe de trabalho. Identificar esses fatores pode ser relevante para a compreensão dos processos grupais, ao destacar questões que interferem na emergência de conflitos, fortalecimento de comportamentos colaborativos e incremento da autoestima dos membros, mediante a valorização de sua contribuição específica ao grupo. Algumas limitações do estudo merecem ser destacadas. A primeira delas se refere ao estudo ter se restringido a equipes na área da saúde e o pertencimento das equipes a instituições públicas. Apesar de ser distinto o foco de atuação das equipes saúde mental, qualidade de vida e saúde e segurança do trabalho, todas pertencem à área da saúde, o que pode limitar a generalização analítica a grupos inseridos em outros contextos laborais. Outra limitação identificada neste estudo se refere às expectativas sociais dos membros das equipes estudadas. Há uma crença bastante difundida de que o profissional deve privilegiar o trabalho em equipe, o que pode ter contribuído para que os participantes emitissem opiniões favoráveis ao trabalho em equipe, esquivando-se de uma reflexão crítica sobre a forma como realmente atuam e percebem as interações intragrupais. No entanto, a opção por um estudo qualitativo de equipes de trabalho já constituídas envolve riscos desta natureza. Uma alternativa Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

17 Liana Santos Alves Peixoto & Sônia Maria Guedes Gondim poderia ser a observação das reuniões das equipes de trabalho, que ofereceriam dados da interação espontânea entre os membros da equipe e alguns aspectos poderiam ser mais explorados, a exemplo do tipo de comunicação estabelecida pelo grupo, onde se inclui a linguagem utilizada, o domínio da discussão por uma categoria profissional e o estabelecimento de alianças ou confrontos, entre outros. Por fim, tendo em vista que os grupos estão em constante modificação e atravessam estágios de desenvolvimento que influenciam a emergência da identidade do grupo de formação ou da equipe de trabalho, a realização de estudos longitudinais com grupos em diferentes fases de desenvolvimento permitiria ter uma visão continuada do processo, mais que transversal, como ocorreu neste estudo em que se capturou somente um momento da equipe de trabalho. Referências Álvaro-Estramiana, J. L. & Garrido-Luque, A. (2006). A Psicologia Social atual. In Psicologia Social: perspectivas psicológicas e sociológicas (pp ). São Paulo: McGraw-Hill. Augoustinos, M., Walker, I., & Donaghue, N. (2007). Social perception. In Social cognition an integrated introduction (pp ). London: Sage Publications. Dubar, C. (2005). A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes. Edmondson, A. (1999). Psychological safety and learning behavior in work teams. Administrative Science Quarterly, 44, Galván, G. B. (2007). Equipes de saúde: o desafio da integração disciplinar. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, 10(2), Gómez-Jiménez, A. (2003). Un ejemplo de estrategias para mejorar las relaciones entre grupos: la recategorización cómo hacer que diferentes grupos trabajen juntos en el mismo equipo. In J. F. M. Domínguez & C. Huici (Orgs.), Estudios de Psicología Social (pp ). Madrid: UNED Ediciones. Gondim, S. M. G. (2003). Grupos focais como técnica de investigação qualitativa: desafios metodológicos. Paidéia, 12(24), Guerra, I. (2006). Tratamento do material. In Pesquisa qualitativa e análise de conteúdo: sentidos e formas de uso (pp ). Lisboa: Principia Editora. Haslam, S. A. & Ellemers, N. (2005). Social identity in industrial and organizational psychology: concepts, controversies and contributions. In G. P. Hodgkinson & J. K. Ford (Orgs.), International Review of Industrial and Organizational Psychology (Vol. 20, pp ). Chichester, UK.: Wiley. Hogg, M. A. (1995). Social identity. The Blackwell Encyclopedia of Social Psychology. In A. S. R. Manstead & M. Hewstone (Orgs.) (pp ). Oxford: Blackwell Publishers. Hogg, M. A. (2001). Social categorization, depersonalization, and group behavior. In M. A. Hogg & S. Tindale (Orgs.), Blackwell Handbook of Social Psychology: Group Processes (pp ). United Kingdom: Blackwell Publishing. Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

18 Janssen, O. & Huang, X. (2008). Us and me: team identification and individual differentiation as complementary drivers of team members citizenship and creative behaviors. Journal of Management, 34(1), Reynolds, K. J., Turner, J. C., & Haslam, S. A. (2003). Social identity and self-categorization theories contribution to understanding identification, salience and diversity in teams and organizations. Research on Managing Groups and Teams: Identity Issues in Groups, 5, Roccas, S. & Brewer, M. B. (2002). Social identity complexity. Personality and Social Psychology Review, 6(2), Rutherford, J. (1990). A place called home: identity and the cultural politics of difference. In J. Rutherford (Org.), Identity: community, culture, difference (pp. 9-27). London: Lawrence and Wishart. Silva, T. T. (2000). A produção social da identidade e da diferença. In T. T. Silva (Org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais (pp ). Petrópolis: Vozes. Stets, J. E. & Burke, P. J. (2000). Identity theory and social identity. Theory Social Psychology Quarterly, 63(3), Stryker, S. & Serpe, R. T. (1994). Identity salience and psychological centrality: equivalent, overlapping, or complementary concepts? Social Psychology Quartely, 57(1), Tajfel, H. (1983). Categorização social, identidade social e comparação social. In Grupos humanos e categorias sociais Estudos em Psicologia Social II (pp ). Lisboa: Livros Horizonte. Tajfel, H. (1983). Os atributos do comportamento intergrupo. In Grupos humanos e categorias sociais Estudos em Psicologia Social II (pp ). Lisboa: Livros Horizonte. Turner, J. C., Brown, R. J., & Tajfel, H. (1979). Social comparison and group interest in ingroup favouritism. European Journal of Social Psychology, 9, Woodward, K. (2000). Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In T. T. Silva (Org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais (pp. 7-72). Petrópolis: Vozes. Como Citar: APA Peixoto, L. S. A., & Gondim, S. M. G. (2014). Saliência da identidade profissional ou de equipe: estudo qualitativo com equipes multidisciplinares. Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), ABNT PEIXOTO, Liana Santos Alves; GONDIM, Sônia Maria Guedes. Saliência da identidade profissional ou de equipe: estudo qualitativo com equipes multidisciplinares. Revista Brasileira de Psicologia, v. 01, n. 01, p , Revista Brasileira de Psicologia, 01(01), 3 12, Salvador, Bahia,

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