FRIEDRICH N IETZSCHE. A GAlA CIÊNCIA TEXTO INTEGRAL TRADUÇÃO ANTONIO CARLOS BRAGA. escaí.ã

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1 ' FRIEDRICH N IETZSCHE A GAlA CIÊNCIA TEXTO INTEGRAL TRADUÇÃO ANTONIO CARLOS BRAGA I escaí.ã

2 354- Do "GÊNIO DA ESPtCIE" O problema da consciência (ou mais exatamente, do fato de se tornar consciente) só se apresenta a nós no momento em que começamos a compreender em que medida poderíamos di spensar a consciência: a (I) lnnãos Morário.\ ou lrmiios Boêmio., é a denominação de uma corrente crisü1 de vida c devoção austeras que condena qualqul!r envolvimento ou compromisso com o mundo político: eles se...:onsidcram herdeiros do refonnador tcheco Jan Hus (qucim:.. do vivo como herege em 14\5): com a Reforma protestante de Lutero no século XVI. passaram para o lado deste e hnjc esses seguidores são algum. milhares, disseminado.., em países da Europa centro-setentrional! Ti. 219

3 Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal fisiolog ia e a zoologia nos colocam agora no início dessa compreensão (foram necessários, portanto, dois séculos para acatar a precoce suspeita de Leibniz11'). Com efeito, poderíamos pensar, sentir, querer, lembrar-nos: poderíamos igualmente agir em todas as acepções do termo, sem que seja necessário que tudo isso "chegue à rw sa consciência" (como se diz, sob forma de imagem). A vida inteira poderia passar sem se olhar de algum modo nesse espelho: por outro lado, ainda agora, a maior parte da vida decorre em nós sem que haja semelhante reflexão - e mesmo quando pensamos, sentimos e agirmos, por mais ofensivo que isso possa parecer a um filósofo antigo. Para que serve a consciência, se é supérflua para tudo o que é essencial? Se realmente se quiser ouvir minha resposta a essa questão e às hipóteses, talvez excessivas, nas quais ela se baseia, diria que a acuidade e a força da consciência me parecem estar sempre em relação com a faculdade de comunicação de um homem (ou de um animal) e essa mesma faculdade em função da necessidade de comunicar: mas não se deve ver nisso o ser humano individual como um mestre na arte de comunicar, de explicar suas necessidades e, ao mesmo tempo, como um ser coagido, mais que qualquer outro, a contar com seus semelhantes. Não! Trata-se de raças inteiras e de gerações sucessivas: quando a necessidade e a miséria forçaram por muito tempo os homens a se comunicar, a se compreender reciprocamente de uma maneira rápida e repentina, acaba por se formar um excedente dessa força, dessa arte da comunicação, de algum modo um tesouro que se acumulou aos poucos e que espera agora um herdeiro que a dispense com prodigalidade (aqueles que são chamados artistas são desses herdeiros, bem como os oradores, os pregadores, os escritores: sempre homens que chegam no final de uma longa corrente, homens tardios no melhor sentido da pal avra e que, por sua natureza, são dissipadores). Se essa observação for correta, posso ir mais longe e supor que a consciência só se desenvolveu sob a pressão da necessidade de comunicar, que a princípio só era necessária e útil nas relações de homem para homem (sobretudo nas relações entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem l (I) GottfrieJ \Vilhclm Leihniz ( ;. lilúsofu e ruale111átit..:o alemão (NT). 220

4 Nietzsche - A Gaia Ciência e q ue só se desenvol veu em função de seu grau de utilidade. A consciência é apenas uma rede de comunicação entre homens - somente como tal é que foi forçada a se desenvolver: o homem que vivia solitário e o animal de presa poderiam ter passado sem ela. Se nossos atos, pensamentos, sentimentos e movimentos chegam à nossa consciência - pelo menos em parte - é o resultado de uma terrível necessidade que durante muito tempo dominou o homem: uma vez que era o mais ameaçado dos animais, tinha necessidade de ajuda e de proteção, tinha necessidade de seus semelhantes, era obrigado a saber exprimir sua aflição, a saber tornar-se inteligível -e para isso era necessário, em primeiro lugar, a "consciência", para "saber" ele próprio o que lhe faltava, "saber" qual era sua disposição de espírito, "saber" o que pensava. De fato, repito, o homem, como todo ser viva, pensa constantemente, mas o ignora; o pensamento que se torna consciente representa apenas a parte mais ínfima, digamos a mais medíocre e a mais superficial - pois, é somente esse pensamento consciente que se realiza em palavras, isto é, em sinais de comunicação, pelo qual a própria origem da consciência se revela. Em resumo, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência (não da razão, mas somente da razão que se torna consciente de si própria) se dão as mãos. Acrescentemos que não é somente a língua que serve de intermediário entre os homens, mas também o olhar, a pressão, o gesto: a consciência das impressões de nossos próprios sentidos, a faculdade de poder tixá-los e determiná-los, de alguma forma fora de nós mesmos. aumentaram ao ritmo com que aumentava a necessidade de comunicá-los a owros por meio de sinais. O homem inventor de sinais é ao mesmo tempo o homem que toma consciência de si mesmo de uma forma sempre mais aguda; não é senão como animal social que o homem aprende a se tornar consciente de si próprio - e o faz ainda. e o faz sempre mais. - Minha idéia é. como se vê. que a consciência não pertence essencialmente à existência individual do homem, mas, pelo contrário. que nele pertence à natureza da comunidade e do rebanho: que. por conseguinte. a consciência só se desenvolveu de uma forma sutil com relação à sua utilidade para a comunidade e o rebanho, portanto, que cada um de nós. apesar do desejo de se compreender a si 221

5 Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal mesmo tão individualmente quanto possível, apesar do desejo ''de se conhecer a si mesmo", sempre tornará consciência em si próprio somente daquilo que há de não individual, d aquilo que nele é "meio" - que nosso próprio pensamento é sem cessar "aumentado" de alguma forma pela característica própria da consciência, pelo "gênio da espécie" que a comanda - e retraduzida na perspectiva do rebanho. Todos os nossos atos são no fundo incomparavelmente pessoais, únicos, imensamente, não restando nenhuma dúvida a respeito; mas desde que os transcrevemos na consciência, deixam de parecer assim... Este é o verdadeiro fenomenalismo, o verdadeiro perspectivismo como o entendo: a natureza da consciência animal quer que o mundo de que podemos ter consciência não passe de um mundo de superfícies e de sinais. um mundo generalizado e vulgarizado, que tudo o que se toma consciente se torne por isso superficial, reduzido, relativamente estúpido, se tome generalização, sinal, marca do rebanho: desde que se toma consciência, se produz uma corrupção deci siva, uma falsificação, um achatamento, uma vulgarização. No tim de contas. o aumento da consciência é um perigo e quem vive no meio dos europeus mais conscientes sabe mesmo que se trata de uma doença. Não é, como se adivinha, a oposição entre o sujeito e o objeto que me preocupa aqui; deixo esta distinção aos teóricos do conhecimento que continuam ainda presos nas malhas da gramática (a metafísica do povo). É menos ainda a oposição entre a "coisa em si" e a aparência: porque estamos longe de nos "conhecermos" o suficiente para poder estabelecer esta distinção. A bem da verdade, não possuímos um órgão para o conhecimento. para a "verdade": "sabemos" (melhor, acreditamos saber, imaginamo-nos) nem mais nem menos que é útil que saibamos no interesse do rebanho humano, da espécie: e mesmo o que é chamado aqui ''utilidade" não é. no final das contas, senão uma crença um produto de nossa imaginação c talvez a mas fatal estupidez, aquela que nos levará a perecer um dia A ORIGEM DE NOSSA NOÇÃO DO "CONHECIMENTO " Colhi esta explicação na rua: ouvi alguém no meio do povo dizer: "Ele me reconheceu":- e eu me pergunto o que é que o povo entende no fundo 222

6 Nietzsche -A Gaia Ciência por conhecer! Que quer quando quer o conhecimento? Nada mais que isto: reduzir qualquer coisa de estranho a qualquer coisa de conhecido. Nós, filósofos, por "conhecimento" quereríamos talvez mais? O que é conhecido é aquilo a que estamos habituados, de tal modo que não nos espantamos mais, aí incluindo nossos afazeres cotidianos, uma regra qualquer que nos conduz, tudo o que nos é familiar... como? Nossa necessidade de conhecimento não é justamente nossa necessidade de conhecido? O desejo de descobrir, no meio de todas as coisas estranhas, inabituais, incertas, alguma coisa que não nos inquietasse mais? Não seria o medo instintivo que impele a conhecer? O encanto do conhecedor não seria o encanto da segurança reconquistada?... Tal filósofo considerou o mundo como "conhecido" depois de tê-lo reduzido à "idéia". Ai! Não era assim simplesmente porque a "idéia" era para ele coisa conhecida, habitual? Porque tinha muito menos medo da "idéia"? - É vergonhosa a moderação daqueles que procuram o conhecimento! Examinem, portanto, desse ponto de vista, seus princípios e suas soluções aos enigmas do mundo! Quando voltam a encontrar nas coisas, entre as coisas, atrás das coisas, qualquer coisa que infelizmente conhecemos demais, como por exemplo, nossa tabuada de multiplicar, nossa lógica, nossas vontades ou nossos desejos, que gritos de alegria não soltam! De fato, "o que é conhecido é reconhecido": nisso, estão todos de acordo. Mesmo os mais circunspectos entre eles acreditam que aquilo que é conhecido é pelo menos mais fácil de reconhecer do que aquilo que é estranho; acreditam que, por exemplo, para proceder metodicamente, se deve partir do "mundo interior", dos "fatos da consciência", pois esse seria o mundo que melhor conhecemos! Erro dos erros! O que é conhecido é o que há de mais habitual e o habitual é o que há de mais difícil a considerar como problema, a ver por seu lado estranho, distante, "exterior a nós próprios". A grande superioridade das ciências "naturais", comparadas com a psicologia e a crítica dos elementos da consciência- ciências não naturais, se deveria dizer - consiste precisamente nisto: escolhem por objeto elementos estranhos, quando querer tomar por objeto elementos que não são estranhos beira a contradição e o absurdo

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