PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA: ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DO APARELHO PSÍQUICO

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1 Lucy_de_Castro_O_Caso _Emma_uma ilustração_do_projeto 1 Emma_Projeto_Primeira_mentira_ O caso Emma ilustra o capítulo II do Projeto para uma Psicologia Científica, desenvolvido por Freud a partir de suas investigações sobre a Psicopatologia da Histeria. CONTEXTO HISTÓRICO: Era o ano de 1895 e as cartas enviadas a Wilhelm Fliess entre o dia 27 de abril (Carta 22) e 01 de janeiro de 1896 (Carta 39) testemunham que, à medida que redigia, Freud alternava entusiasmo, por acreditar ter chegado à compreensão da defesa patológica e de muitos processos psicológicos importantes, e desencanto ao esbarrar em novos obstáculos, sendo o mais relevante não conseguir explicar o processo do recalcamento que ele identificara. Ele chega a anunciar a desistência do Projeto, mas na carta 29 envia o resumo em dois cadernos e debruça-se no terceiro caderno que trata da psicopatologia do recalcamento que ele diz só ter podido levar até certo ponto. O trabalho iniciado em esboços, diz ele a Fliess, o deixava ora orgulhoso e contente, ora envergonhado e deprimido e com dúvidas sobre se o material se coadunava. Na carta 39 (01/01/1896) ele remete a revisão das posições fundamentais do que ficou inacabado. Segundo Ernest Jones, psicanalista inglês que se tornou seu biógrafo, Freud tenta destruí-lo ao reencontrá-lo na velhice, mas foi demovido da idéia. Reaparece entre as cartas esquecidas de Freud a Fliess e é publicado postumamente. Sua intenção era construir uma Psicologia para Neurologistas, apoiada nos dados mais recentes da Neurofisiologia. O termo Neurônio como último componente do sistema nervoso havia sido introduzido em 1891 por Waldeyer e Freud em suas pesquisas histológicas fizera as mesmas descobertas. Freud pretendia prover uma psicologia que fosse ciência natural, o que significava representar os processos psíquicos como estados quantitativamente determinados especificáveis, tornando esses processos claros e livres de contradição. A essa época já abandonara a hipótese da sugestão e hipnose, explorava a dinâmica da Histeria e centrava sua doutrina na teoria do núcleo patogênico constituído na infância, por ocasião de um trauma sexual real decorrente da sedução de um adulto. Nessa primeira construção teórica e ao longo de sua vida Freud fez várias modificações a respeito da 1 Trabalho apresentado no Curso de Especialização em Teoria da Psicanálise de Orientação Lacaniana. Disciplina: Projeto para uma psicologia Científica: Estrutura e funcionamento do Aparelho Psíquico: Prof.: Bernardino Horne

2 etiologia do trauma 2 - a sedução era o elemento de articulação entre o traumático e o sexual. O trauma era sempre externo. Sua tese era de que uma cena só se torna traumática se transformada em lembrança, isto é quando evocada pela repetição de uma cena análoga. O sintoma surgia como resultado do recalcamento das representações insuportáveis 3 que constituíam este núcleo. O tratamento consistia em trazer à consciência os elementos, como se extrai um corpo estranho. Com o levantamento do recalque, desapareceria o sintoma. O Projeto é divido em três partes sendo a I e a III dedicada à teoria e a II restrita ao material clínico. Consideramos importante reproduzir a observação do editor inglês sobre a incômoda separação no texto entre a teoria e a prática no que diz respeito à sexualidade, que tem um valor proeminente na parte clínica referente à psicopatologia (capítulo II), e secundário no material teórico (capítulos I e II). Esta incômoda separação em uma época em que Freud focalizava suas pesquisas clínicas na sexualidade como evidencia seu Conto de Fadas Natalino que aborda a etiologia sexual das neuropsicoses de defesa 4, enviado a Fliess junto com a revisão do Projeto, diz o editor, só vem a ser resolvida por sua auto-analise iniciada em 1897 que o leva ao reconhecimento da sexualidade infantil e à importância fundamental dos ímpetos pulsionais inconscientes 5. O CASO EMMA. Freud diz que este caso ilustra fenômenos que ocorrem na Histeria sem que forçosamente lhe sejam peculiares. Pacientes estariam sujeitos a uma compulsão exercida por idéias 2 Em Além do princípio do prazer reformula a teoria do trauma, na qual o vincula ao aumento de recepção de excitações externas e internas no aparelho mental. 3 Larrouse, Dicionário de Psicanálise, Organizador Roland Chemama, in Freud (Sigmund), As Circunstâncias Imediatas da descoberta da Psicanálise pág Rascunho K - Conto de Fadas Natalino, As Neuroses de Defesa anexado à Carta Nº 39 de Freud a Fliess em 01 de janeiro de 1896, é um estudo preliminar de Freud a seu segundo artigo sobre a Neuropsicoses de Defesa, que enfoca os efeitos das experiências sexuais durante o período anterior à maturidade sexual in S. Freud, Obras Completas, Volume I, pág Introdução do Editor inglês, in Projeto Para Uma Psicologia Científica (1950{1895}), Obras Completas de S. Freud, volume I, Cap. 3 Importância do Trabalho, pág

3 excessivamente intensas e que uma idéia pode surgir na consciência com freqüência particular sem que a passagem dos eventos a justifique. Ele ressalva que essas idéias excessivamente intensas podem ser observadas também em pessoas normais, são produtos de motivos imperiosos e justificáveis, não surpreendendo quando se conhece seu desenvolvimento genético (educação, experiências) e traça uma distinção entre a compulsão neurótica simples e a compulsão histérica. Na neurose simples 6, ele diz, a despeito da incapacidade da compulsão ser resolvida pela atividade de pensamento, a compulsão é inteligível, pois, se conhece sua origem e é congruente, pois há uma relação entre a causa e o efeito. Na histeria, a compulsão é ininteligível, incapaz de resolver-se pela atividade de pensamento e incongruente em sua estrutura. Diz também que a análise evidencia que a compulsão histérica se resolve imediatamente, é tornada inteligível e ensina como o processo se opera: Antes da análise: uma Idéia A excessivamente intensa, irrompe com freqüência demasiada e provoca o pranto. A pessoa ignora os motivos dessa idéia (A) levá-la ao sofrimento, acha o fato um absurdo, mas não consegue evitá-lo. Depois da análise: A Idéia B é descoberta e justifica o pranto, é inteligível para a pessoa e se repetirá enquanto a pessoa não praticar contra ela uma ação psíquica complicada. B mantém uma relação particular com A. A Foi uma circunstância acidental e B foi apropriado para produzir um efeito duradouro e é reproduzido na memória assumindo uma forma como se A tomasse seu lugar. B torna-se, pois, um substituto, um símbolo de B. A relação particular que B mantém com A, determina a incongruidade: A se faz acompanhar de conseqüências que não parecem adequadas. O histérico não percebe que seu pranto tem a ver com a associação A-B, B não representa nenhum papel em sua vida psíquica; a coisa foi substituída pelo símbolo. A é compulsiva e B é recalcada da consciência. 3

4 Freud diz que a análise ensina que para cada compulsão existe um recalque correspondente e que para cada intrusão excessiva na consciência existe uma amnésia correspondente, e que este excessivamente intensa é indicativo de características quantitativas. Estas observações levam à suposição de que o recalcamento tenha o sentido quantitativo de ser despojado de Q, e que a soma do recalcamento com a compulsão seja igual ao normal, só se modificando a distribuição: Algo subtraído de B foi acrescentado a A, e tal como nos sonhos, o processo patológico é de deslocamento. Emma tinha como sintoma uma compulsão de não conseguir entrar sozinha nas lojas, diz Freud 7. Associa a esta impossibilidade a uma cena ocorrida aos 12 anos, pouco depois da puberdade: ela entra em uma venda para comprar algo e vê dois empregados, um dos quais ainda conservava na lembrança, rindo juntos. Tomada por um afeto de susto sai da loja correndo. Nesta cena, ocorre a Emma pensar que os empregados riam de seu vestido e que um deles lhe agradava sexualmente. Acontece, diz Freud, que esta cena não é suficiente para explicar o sintoma, nem sua compulsão. Há uma reação anormal de Emma: mesmo tendo sido desagradável a cena, nada impede uma defesa normal que mantivesse a possibilidade de Emma freqüentar as vendas, desacompanhada. A permanência e a particularidade do sintoma dão-lhe o caráter psicopatológico. A análise conduzida por Freud a remete a uma segunda lembrança que não lhe ocorrera quando estava na loja (Cena I): aos 8 anos Emma estivera por duas vezes em uma venda para comprar doces e na primeira o proprietário, rindo, agarra-lhe, sobre o vestido, as partes genitais. Ela relata que na época, apesar disso, retorna uma segunda vez à venda e se reprova, pois, isso lhe pareceu que desejava provocar novo atentado e ela atribui a este desejo o retorno a seu estado de "consciência pesada e opressiva 8. A Cena I (vendedores) articula-se com a Cena II (confeitaria) e o vínculo associativo foi fornecido pela própria Emma em dois pontos: risos (vendedor na Cena I e o proprietário durante o atentado da Cena II) e roupas (elemento também comum às duas Cenas). É a Cena II que confere à Cena I seu valor traumático. O que provoca a excitação sexual com liberação de angústia não foi a cena da confeitaria e sim a lembrança. A angústia decorrente da 6 Nota do editor A expressão neurose simples aparece no 2º artigo de Freud sobre as neuropsicoses de defesa, (1896b, ESB, Vol III, pg 193) posteriormente neuroses atuais neurastenia e neurose de angústia em contraste com as psiconeuroses histeria, neurose obsessiva. 7 Freud, S. Projeto para uma Psicologia Científica (1950a [1895], Rio d Janeiro: Imago, 1996, pág Idem, pág

5 representação-lembrança inconsciente durante a Cena da loja fez com que ela se sentisse ameaçada pelos vendedores e saísse correndo. Freud esquematiza a articulação das duas cenas 9 sinalizando com pontos escuros as representações lembradas conscientemente, e pontos claros as representações recalcadas e diz ser comum que uma associação passe por vínculos intermediários antes de chegar à consciência. Nesse caso, devido ao deslocamento o elemento que penetra na consciência não é o que deveria despertar interesse e sim roupas, não significativo, que vai funcionar como símbolo. O elemento recalcado é de natureza sexual e a ausência de efeitos traumáticos na Cena I devese ao fato de que na época o conteúdo sexual não era apreensível pelo sujeito prematuro. Ao atingir a puberdade, por ação retardada a lembrança adquire o sentido traumático. O eu a quem caberia atenção para impedir a liberação de desprazer, não consegue exercer seu papel porque sua atenção se aplica às representações de percepção. Ele não consegue identificar a tempo o caráter ameaçador da representação lembrança por isso possibilita a emergência do processo primário e liberação de desprazer. Daí, Freud caracterizar o sintoma histérico como próton pseudos 10 primeira mentira. O sentido da próton pseudos é o de tomar como premissa verdadeira a Cena I quando ela apenas esconde uma verdade inconsciente (Cena II) e tem o sentido de uma ação retardada. CONCLUSÕES: O Projeto era um documento neurológico, ficou inacabado, entretanto contém o núcleo de grande parte da teoria psicanalítica que Freud desenvolveria mais tarde, e continua despertando o interesse do psicanalista, sobretudo após os avanços de Lacan em seu último ensino. Serge André em seu O que quer uma mulher? 11 pontua que é notável o esquema que Freud faz desta análise. Que o esquema avança mais que o texto do Projeto, pois, ali ele não explica o que se encontra na parte inferior do esquema, no núcleo ou umbigo desta formação em 9 Idem, pág Próton pseudos literalmente, primeira coisa falsa. Na Grécia designava um erro primeiro a partir do qual decorriam conclusões que eram falsas. Aristóteles em sua Lógica (Primeiros Analíticos) utiliza o termo para designar a premissa falsa que faz com que num silogismo a conclusão seja necessariamente falsa - Garcia Roza, Luiz Alfredo, Introdução à, Metapsicologia Freudiana Volume 1 Jorge Zahar Editor, RJ, Pág

6 cadeia. Pois, do atentado, da sedução para a qual converge todo o encadeamento, parte uma flecha em cuja extremidade não há nenhum significante inscrito: só há um branco, uma lacuna de onde parte uma outra flecha que atinge a descarga sexual ao término da repetição. Ele diz que por um lado, o real do trauma é produzido no só depois na medida em que, ao nível de inconsciente, pela repetição significante produz o real em sua função de causa, e pelo outro, o efeito do recalque passando pela repetição e pelo retorno do recalcado consiste em sexualizar o que primitivamente não estava sexualizado pelo sujeito. O recalque tem por função fazer do real, uma realidade sexual, e que se há sexualização, há, por esse fato mesmo, diz Serge André, determinação de um não sexualizado e que tal é o segredo do mecanismo de repulsa na histeria. vendedor risos roupas Descarga sexual Estar só Loja confeiteiro roupas fuga atentado Sintoma Este esquema nos evidencia também que, foi pelo trauma que Freud inicialmente descobriu no sintoma histérico, uma ligação entre as palavras e os corpos. 11 André, S. Primeira mentira. In: O que quer uma mulher?, Rio de Janeiro,Jorge Zahar Editor, 1998, págs

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