Na superfície da pele: modificações corporais e subjetividade contemporânea 1. Resumo

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1 Na superfície da pele: modificações corporais e subjetividade contemporânea 1 Elisa Vieira 2 Resumo Trata-se de investigar os processos contemporâneos de subjetivação através de uma reflexão sobre as modificações corporais típicas da atualidade. Para tal, são utilizadas noções como práticas de si e ascese, nos termos em que Foucault as definiu. Segundo alguns autores, a sociedade contemporânea estaria marcada pela ausência de referenciais externos na formação de identidades. Uma conseqüência deste processo seria a busca de fundamentos concretos no próprio corpo, que se tornaria o fim último das práticas de si. Em oposição, pode-se dizer que as asceses da Antiguidade teriam sido, ao mesmo tempo, referentes ao corpo e à alma. Entende-se que naquela época havia um elemento para além da própria corporeidade, que a transcendia como finalidade exclusiva. Este elemento podia ser tanto um objetivo espiritual quanto coletivo. O objetivo deste trabalho é refletir sobre as seguintes questões: qual seria, hoje, o papel do corpo nos processos de subjetivação? Estaria realmente excluído o aspecto transcendente das práticas de si contemporâneas? Palavras chave: subjetividade, contemporaneidade, corpo, modificações corporais. 1 Trabalho produzido como resultado parcial de uma pesquisa de Iniciação Científica sob orientação do Prof. Dr. Nelson da Silva Junior (Departamento de Psicologia Social e do Trabalho PST) e com bolsa da FAPESP. 2 Aluna do último ano de graduação em Psicologia no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

2 A ênfase dada pela sociedade contemporânea aos procedimentos de cuidados corporais parece estar relacionada ao surgimento de novos processos de subjetivação. O corpo adquire, hoje, um estatuto essencial na construção de identidades, sendo alvo de preocupação constante por parte das várias camadas sociais. No que concerne mais especificamente às modificações corporais tratadas aqui, elas parecem atingir níveis exorbitantes, tanto no que se refere à sua presença crescente na população, quanto aos limites que as diferentes técnicas de modificação chegam a atingir. Os efeitos deste contexto se fazem exercer, ainda, em diversos outros âmbitos. Na clínica, por exemplo, se assiste ao surgimento e à cada vez mais alta freqüência de patologias relacionadas ao corpo (bulimias, anorexias, drogadições, transtornos de hiperatividade, etc). Uma das respostas a este fenômeno tem sido a crescente medicalização. Além disso, tais categorias patológicas inauguram um vocabulário próprio, onde são privilegiados aspectos identitários aos quais antes não era dada tamanha atenção. Como se vê, esta nova configuração traz consigo novos desafios e questões. Daí, é necessário que se reflita sobre os papéis adquiridos pela corporeidade e sobre os sentidos a ela atribuídos. Ora, quais seriam as funções implícita e explicitamente atribuídas pelo sujeito ao próprio corpo em sua narrativa histórica de si? Se, como nos parece, os modos de subjetivação estariam tendo seu epicentro deslocado em direção à dimensão corporal, o corpo estaria, então, adquirindo o estatuto de essencial suporte à historicidade subjetiva. Neste sentido, o que pretendemos fazer aqui é apresentar o que vem sendo pensado por alguns autores acerca desta questão e, a partir daí, investigar a hipótese de as técnicas de modificação corporal assumirem, hoje, um importante papel na apropriação do corpo e na conseqüente produção de uma identidade. Para começarmos nossa reflexão, é necessário dizer que partimos do pressuposto de que as relações dos homens consigo mesmos não são atemporais, mas indissociadas de uma reflexão acerca do modo como uma determinada sociedade é configurada. A esse respeito, Michel Foucault é um autor central. Ao longo de sua obra, ele teve como um de seus grandes objetivos a investigação das formas de subjetivação características de diferentes momentos históricos. Em suas palavras, (...) convinha

3 pesquisar quais são as formas e as modalidades da relação consigo através das quais o indivíduo se constitui e se reconhece como sujeito. 3 Sob a denominação de uma cultura de si, Foucault desenvolveu noções como cuidado, ética, técnicas e práticas de si. Tais expressões se destinavam a nomear as formas em que um indivíduo se faz objeto de conhecimento para si mesmo, criando assim uma verdade a seu próprio respeito e se subjetivando. Este processo envolveria, segundo ele, quatro aspectos principais: substância ética, modo de sujeição, ascese e teleologia. 4 Embora aquelas noções se refiram a um mesmo conjunto de significados, as práticas de si, especificamente, foram descritas como sinônimas de um ascetismo. Para Foucault, elas não são alguma coisa que o próprio indivíduo invente. São esquemas que ele encontra em sua cultura e que lhe são propostos, sugeridos e impostos por sua cultura, sua sociedade e seu grupo social. 5 A ascese faria, então, parte dos modos de subjetivação, sendo um conjunto de exercícios recomendados, ou até mesmo obrigatórios, no interior de uma sociedade, por meio dos quais os indivíduos procurariam atingir um objetivo específico. Seguindo este raciocínio, pode-se dizer que uma análise das práticas de si de uma determinada cultura indicaria os possíveis processos de subjetivação dela característicos. Quando o objeto desta análise é a sociedade contemporânea, não são poucos os que têm se dedicado a pensar tal relação. No entanto, diante da grande quantidade de reflexões sobre o tema, uma questão se coloca: quais seriam os aspectos a se considerar numa investigação que conjugue os modos de subjetivação e as práticas de si dos tempos atuais? Foucault, em seus trabalhos, elegeu o domínio da sexualidade. Aqui, o foco cairá sobre o corpo. Como bem afirma Nikolas Rose, a corporeidade humana pode fornecer a base para uma teoria da subjetivação. 6 Numa linha que se embasa naquelas desenhadas por Foucault, esse autor suspende noções como sujeito e subjetividade, rejeitando-as em qualquer caráter de essencialidade. Ao contrário, o que ele pretende investigar é a produção de tais instâncias através de práticas de subjetivação. À corporeidade é concedido papel fundamental nesta produção, a ponto de Rose se questionar como 3 FOUCAULT, 2006, p Ibidem, pp Idem, 2004, p ROSE, 2001, p. 167.

4 poderíamos negar (...) que é sobre esse material bruto do corpo que a cultura trabalha sua constituição da subjetividade. 7 Nesse sentido, interessa, para efeitos do presente trabalho, ressaltar dois aspectos específicos da sociedade contemporânea que têm sido enfatizados por alguns estudiosos, a saber, a centralidade extrema do corpo e a desagregação dos vínculos sociais. Já há algumas décadas, Foucault alertava para os novos papéis que o corpo vinha adquirindo. Isso foi por ele descrito principalmente no que se refere à noção de biopoder. Segundo Foucault, a vida teria se tornado o objeto da política, que se exercia, em última instância, por meio dos corpos. 8 Hoje, entretanto, o corpo parece ter um papel ainda mais central. Sua supervalorização, que se manifesta, por exemplo, nas modificações corporais (body-art e body-building) e na busca pela saúde perfeita, é um assunto em constante pauta. Com uma rapidez inédita até então, novas técnicas corporais são desenvolvidas a cada dia, numa variedade que vai desde tratamentos de beleza até escarificações da pele. Alguns autores afirmam que, na sociedade contemporânea, a aparência teria se tornado essencial às noções de auto-identidade 9. A saúde e o cuidado com o corpo estariam, hoje, a orientar até mesmo os valores morais. Neste contexto, piercings, tatuagens, cirurgias plásticas e grandes investimentos em esportes parecem ter adquirido um significado e uma presença distintos de outros tempos. Outro aspecto típico da contemporaneidade, segundo Zygmunt Bauman, seria o caráter de desregulamentação. Ele coloca entre as principais características de nosso tempo a troca da garantia de segurança moderna por imperativos de liberdade e satisfação, acompanhados por uma incerteza crônica. 10 Uma ilustração desta desregulamentação é dada na concepção de Bauman sobre a identidade. Ele afirma entendê-la como algo a ser inventado, e não descoberto. 11 A diferença entre o que ocorreria atualmente e o que prevaleceu até um tempo atrás seria que naquela época existiam forças importantes na função de esconder essa verdade e de fornecer referenciais identitários de tal forma que fossem tomados como naturais. Hoje, em sua 7 Ibidem, p FOUCAULT, LUPTON apud SANT ANNA, 2001, p BAUMAN, Idem, 2005, p. 21.

5 opinião, tais forças perderam o interesse, retiraram-se do campo de batalha 12, fazendo com que a questão da identidade emergisse como uma preocupação. Neste mesmo sentido, Jurandir Freire Costa tece considerações acerca daquilo que considera uma desinstitucionalização das instâncias que teriam sido, tradicionalmente, fundamentais na constituição de uma identidade. Em sua opinião, tais instâncias não perderam sua força normativa, mas teriam sido privatizadas, deixando de agir institucionalmente por meio de regras universais. A família, a religião e o trabalho são, para ele, exemplares dessa desinstitucionalização; se antes possuíam sentidos e finalidades que antecediam as existências individuais, passaram a ser objeto de interpretação de cada um, sem que se exija qualquer consenso compartilhado. 13 Assim, o indivíduo que tinha sua identidade formada por atributos externos e anteriores a ele, hoje parece tê-la a seu próprio encargo. Nas palavras de Bauman, as identidades ganharam livre curso, e agora cabe a cada indivíduo, homem ou mulher, capturá-las em pleno vôo, usando os seus próprios recursos e ferramentas. 14 Pode-se pensar que sem as antigas referências, os fundamentos da identidade passam a se localizar no corpo. Costa é um dos que vão nessa direção, afirmando que diante da perda de atributos externos, o indivíduo desengajado procura fundamentos cada vez mais sólidos, buscando no corpo o critério que dá consistência a sua identidade. 15 É daí, segundo ele, que tem origem a importância adquirida pelo corpo na contemporaneidade. Francisco Ortega é outro autor que se encaixa nesta linha de raciocínio, investigando as modificações corporais na cultura contemporânea como efeitos de uma centralidade extrema da corporeidade aliada ao enfraquecimento dos vínculos sociais. O investimento no corpo seria, em sua opinião, uma resposta à desagregação dos laços, cuja decorrente insegurança levaria à procura de realidade nas marcas corporais. Como uma espécie de universo em miniatura, o corpo representaria para o sujeito uma verdade sobre si que a sociedade não mais lhe forneceria; um tipo de assinatura de si pela qual ele se afirma na identidade escolhida. 16 Numa comparação entre o que esses autores dizem sobre o papel das práticas corporais em nossa sociedade e o que se diz acerca das práticas presentes em épocas passadas, surgem diferenças cruciais. O próprio Foucault desenvolveu um estudo 12 Ibidem, p COSTA, BAUMAN, 2005, p COSTA, ORTEGA, 2006.

6 detalhado sobre o ascetismo característico das culturas antigas. Segundo ele, a ascese teria sido, naquela época, uma ascese do corpo e da alma. 17 O que Foucault pretendia afirmar é que as preocupações dos indivíduos consigo próprios não se restringiam ao corpo ou às suas vidas privadas, mas o transcendiam como finalidade única. As práticas de si tinham funções espirituais ou coletivas. Ocupar-se de si era também ocupar-se dos outros. Em suas palavras, o objeto do cuidado era si mesmo, mas o fim do cuidado era a cidade, onde reencontramos o si mesmo, mas simplesmente como um elemento. A cidade mediava a relação de si para consigo e fazia que o si mesmo pudesse ser tanto objeto quanto fim, mas ele somente era fim por existir essa mediação da cidade. 18 Ao que parece, a realidade corporal não era ali tomada em sua nudez material. Se havia a pretensão de cuidar da saúde e de alcançar uma certa longevidade, isto se devia ao cumprimento de tarefas familiares, sociais, espirituais ou sentimentais. Já na contemporaneidade, e segundo os autores aqui citados, esse cuidado de si, antes voltado para o desenvolvimento da alma, das qualidades morais, ou do coletivo, dirige-se agora para a longevidade, a saúde, a beleza e a boa forma. O corpo teria assumido, assim, a finalidade última das práticas ascéticas; não mais seria apenas o meio para a realização de um objetivo, mas também o próprio objetivo. Ortega, por exemplo, afirma que já não é mais o corpo a base do cuidado de si; agora o eu existe só para cuidar do corpo, estando a seu serviço. 19 Denise Sant Anna, outra estudiosa da relação entre corpo e subjetividade contemporânea, vai em direção semelhante ao dizer que a corporeidade teria assumido o lugar outrora ocupado pela alma. Para ela, se antes o corpo era constrangido em função de uma salvação da alma, hoje, as asceses para a saúde do corpo constrangem o mundo, e, no limite, transformam este último num mero pedaço da própria fisiologia. 20 Costa é outro a pensar desta forma. Ele denomina, assim como Ortega, as asceses contemporâneas como bioasceses. A esse respeito, afirma que hoje estas práticas de si visariam 17 FOUCAULT, FOUCAULT apud ORTEGA, 2005, p ORTEGA, 2005, p SANT ANNA, 2002, p. 102.

7 extrair do corpo aquilo que passa a ser definido como a felicidade. Para um asceta grego, a felicidade jamais era uma boa dieta, mas a vida lograda, a vida bem-sucedida, onde os regimes do corpo, da bebida, das sexualidades etc., estavam postos em função de uma finalidade, que era governar a si para bem governar a polis; era ser senhor de si para saber como usar o domínio dos outros. Hoje em dia, o cuidado de si e os usos dos prazeres não visam nada além deles; viraram a reprodução dessa felicidade definida como satisfação sensorial que se esgota nela mesma. Nós temos, então, uma felicidade que deixa de estar comprometida com objetivos transcendentes, e objetivos transcendentes que deixam de estar comprometidos com a felicidade COSTA, 2000.

8 Bibliografia ANDRIEU, B. A nova filosofia do corpo. Lisboa: Instituto Piaget, Somaphore et Corps Biosubjectif, In : Revue Multitudes, 2004 BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, COSTA, J. F. Comunicação oral no VI Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva: O Sujeito na Saúde Coletiva. Salvador: ABRASCO, O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, FOUCAULT, M. Tecnologías del yo. Barcelona: Paidós Ibérica, Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, História da sexualidade III: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, LE BRETON, D., Signes d identité. Tatouages, piercing et autres marques corporelles. Paris: Métailié, LÍRIO, D. Suspensão Corporal e Algumas Implicações Intersubjetivas. Dissertação de Mestrado. São Paulo, Universidade de São Paulo, ORTEGA, F. "Da ascese à bio-ascese: ou do corpo submetido à submissão do corpo". In: RAGO, M.; ORLANDI, L.; VEIGA-NETO, A. Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, Das utopias sociais às utopias corporais: identidades somáticas e marcas corporais. In: ALMEIDA, M. I. M.; EUGENIO, F. (Orgs.). Culturas jovens: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, ROSE, N. Inventando nossos Eus. In: SILVA, T.T. (Org.). Nunca fomos humanos: nos rastros do sujeito. Belo Horizonte: Autêntica, SANT ANNA, D. B. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

9 . Transformações do corpo: controle de si e uso dos prazeres. In: RAGO, M.; ORLANDI, L.; VEIGA-NETO, A. (Orgs.). Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, SENNETT, R. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, SFEZ, L. A saúde perfeita: crítica de uma nova utopia. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

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