CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO RECURSO METODOLÓGICO PARA O ENSINO DA MATEMÁTICA: UMA EXPERIÊNCIA NO ENSINO FUNDAMENTAL

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1 CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO RECURSO METODOLÓGICO PARA O ENSINO DA MATEMÁTICA: UMA EXPERIÊNCIA NO ENSINO FUNDAMENTAL Resumo: José Roniero Diodato Marilene Severina de Oliveira Ana Claudia do Nascimento Glauciane da Silva Vieira Este trabalho aborda uma perspectiva diferenciada para o ensino da Matemática a partir da contação de histórias. As atividades, desenvolvidas numa turma do 5º ano do Ensino Fundamental em uma escola da Rede Pública de Ensino do Recife, sob orientação da coordenação do subprojeto PIBID (Programa Institucional de Iniciação à Docência) do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco - Campus Recife, segue estratégias descritas em orientações curriculares (BRASIL, 1998), no que se refere a leitura de histórias como uma rica fonte de aprendizagem. Utiliza também as contribuições de Tahan (1966) sobre a Arte de ler e contar histórias. Identificamos um despertar dos alunos para conteúdos matemáticos, também interesse em descobrir a magia que envolve os problemas matemáticos a partir do mundo da imaginação e também de fatos reais. PALAVRAS-CHAVE: Ensino Fundamental, Estratégias de Ensino, Contação de Histórias. Introdução Até que ponto a contação de histórias, como metodologia para o ensino da Matemática, poderá contribuir para o desenvolvimento do raciocínio lógico da criança? Esta e outras perguntas tentamos responder a partir do nosso trabalho de contação de histórias, desenvolvido numa turma do 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola da rede pública da Região Metropolitana do Recife. Como alunos do Curso de Pedagogia da UFPE, participantes do PIBID (Programa de Iniciação à Docência), optarmos por esta metodologia de ensino, sob orientação da coordenação do referido programa. As estratégias utilizadas darão subsídios para nossa formação, não somente para o ensino da Matemática, mas em todos os aspectos relacionados ao processo de ensino aprendizagem. O que nos motivou a escolher contação de histórias como estratégia de ensino foram os escritos de Dalcin, (2007) ao afirmar que, segundo Monteiro Lobato e Malba Tahan, a Matemática pode ser ensinada por meio da capacidade imaginativa e criativa de contar histórias. No que se refere à imaginação, os PCNs para o Ensino da Matemática trazem a seguinte contribuição: É importante destacar que a Matemática deverá ser vista pelo aluno como um conhecimento que pode favorecer o desenvolvimento do seu

2 raciocínio, de sua capacidade expressiva, de sua sensibilidade estética e de sua imaginação. (BRASIL, 2007). Percebemos que houve um bom desempenho dos alunos durante e após a contação das histórias, a apresentação e o manuseio dos personagens que fizeram parte dos enredos trabalhados. Personagens como A menina do leite de Monteiro Lobato, O homem que calculava Malba Tahan e O diabo dos números de Hans Magnus Ensenberger, foram os protagonistas que encantaram as aulas de Matemática trazendo outro significado para a compreensão de cálculos relacionados ao cotidiano. Pensar no processo narrativo, como perspectiva de uma ação metodológica para o ensino da Matemática, a fim de que os educandos possam aprender de forma prazerosa e quebrar o paradigma de que aprender Matemática é muito difícil (aluno do 5º ano), deverá fazer parte do planejamento escolar do professor do ensino fundamental. Discussão teórica Sabemos que o ato de contar histórias sempre fez parte do desenvolvimento das sociedades. Desde a antiguidade até os dias atuais, esta prática é utilizada como forma de manter viva a cultura de determinado grupo social. De acordo com Bernardino e Souza (2011), dos contos populares, método utilizado para perpetuar a história e cultura de um povo, nasce a contação de história tornando-se a origem da literatura. A relevância do ato de contar história como recurso metodológico, também é abordada por Tahan, (1966, p.142 apud Bernardino e Souza, 2011) ao afirmar que as narrativas de casos e contos podem ser aproveitadas em todas as atividades. Através dessas narrativas podem ser ministradas aulas de Linguagem, Matemática, Educação Física, com o máximo de interesse e maior eficiência. Esta premissa reforça a ideia de que ao utilizarmos histórias infantis como recurso metodológico, estaremos proporcionando uma situação que poderá favorecer o desenvolvimento do senso crítico, a criatividade, o hábito de leitura e consequentemente a interpretação textual bem como enunciados de problemas matemáticos. Café (2000 p.3) firma que os contadores de histórias são importantes na atualidade, pela possibilidade de, em sua atuação, mediante a linguagem corporal, expressa pelo gesto e pela voz, restabelecer uma

3 comunicação que traz enriquecimentos culturais, pois mobiliza a imaginação, o sentimento, a cognição e a criatividade. Percurso Metodológico O ensino da Matemática pode tornar-se prazeroso a partir da contação de histórias. De forma criativa e lúdica, este recurso pode potencializar a aprendizagem dos alunos do ensino fundamental. A escolha das histórias infantis se deu, ao longo de nossas regências, conforme a necessidade da turma e respectivos planejamentos dos conteúdos de ensino. Para que as aulas se tornassem mais atrativas, dinâmicas com ênfase nas narrativas, utilizamos como subsídios, fantoches (bonecos confeccionados de material reciclado e emborrachado) como recurso visual durante a contação das histórias. Dessa forma, percebemos que o enigmático mundo da matemática tornara-se um universo encantado cheio de cores, magia e encantamento. HISTÓRIA 1: Com o objetivo de compreender as estruturas multiplicativas em problemas matemáticos e as diferentes representações simbólicas da divisão e da multiplicação no cotidiano, optamos pela contação do primeiro capítulo (a primeira noite) do livro de Hans Magnus Ensenberger, O diabo dos números. O referido livro relata a história de Robert, um menino de onze anos e muito sonhador, porém seus sonhos, mais pareciam pesadelos. Robert dizia odiar matemática porque não compreender nada nas aulas. Curioso com o nome do homenzinho, que aparecera em seus sonhos, Robert começa a revelar seu ódio por Matemática e tudo que se refere a ela. Conversando com o menino, o diabo diz que a matemática é algo diferente do que ele imagina que não precisa da calculadora para aprender Matemática, e sim apenas o número um. Aos poucos foi mostrando ao menino que os números são simples enfatizando a importância do número um, e que com ele é possível obter todos os outros algarismos podendo chegar ao infinito numérico como, por exemplo: 1+1, 1x1, 11x11 etc. [Capture a atenção do leitor com uma ótima citação do documento ou [Capture a atenção do

4 Figura 1: Contação de história capítulo 1 do livro O Diabo dos Números de Hans Ensenberger Magnus HISTÓRIA 2: A menina do leite de Monteiro Lobato, contribuiu para a compreensão do sistema monetário brasileiro (relação entre as moedas do passado e do presente) e problemas de multiplicação relacionados a compra e venda de mercadorias. Esta história relata os esforços de uma menina que fazia planos para o futuro a partir da venda do primeiro leite de sua vaca mocha. No caminho do mercado, sonhando, realiza mentalmente cálculos matemáticos relacionados a venda do leite. Com o objetivo de adquirir outros bens, tropeça e derrama, com o leite, seus sonhos de comerciante. Após a contação desta história, exploramos todos os produtos encontrados no texto. Dividimos a sala em grupos para realizarem uma atividade relacionada ao conteúdo da história, ou seja, resolução de problemas envolvendo o sistema monetário e estratégias de compra, venda de mercadoria, lucro e prejuízo. Figura 2: Contação de história A Menina do Leite de Monteiro Lobato HISTÓRIA 3: Dando continuidade à nossa proposta, a última história narrada foi a do Homem que Calculava de Malba Tahan. O livro relata a história de Beremiz, jovem árabe que descobre uma espantosa habilidade matemática ao pastorear ovelhas e calcular folhas de árvores. Ao longo de sua viagem à Bagdá, conhece várias pessoas e soluciona problemas dos mais variados possíveis, como por exemplo, a divisão de 35 camelos por 3 herdeiros, a divisão simples e a divisão certa; a divisão perfeita, dos 8 pães utilizando para isto, suas

5 habilidades impressionando a todos. De um modo geral, o livro apresenta a Matemática de forma divertida e lúdica, incentivando uma nova proposta de pensar o aprendizado, demonstrando que a disciplina de Matemática não se caracteriza apenas pelo conjunto de fórmulas decoradas, mas que o conhecimento pode solucionar questões do cotidiano. Sendo assim, após contarmos a história para os estudantes, perpassando as características mencionadas anteriormente, foram propostos os desafios encontrados na história para eles tentarem resolver como se fossem o próprio Beremiz. Depois de um tempo, notamos que boa parte dos estudantes, se aproximou da resolução de cálculo desenvolvida pelo Homem que Calculava. Outros, entretanto, diziam não conseguir resolver. Logo em seguida, pedimos para alguns dos estudantes apresentarem como eles conseguiram desvendar os desafios, assim eles mostravam que caminhos percorreram para chegar à resolução. Alguns desenharam os pães e fizeram as divisões, outros, utilizaram apenas os números. No decorrer de todas as aulas percebemos que os alunos demonstraram interesse pelas histórias contadas e de alguma forma, pelos conteúdos matemáticos. Ao final da última aula, notamos a satisfação dos alunos em aprender Matemática, segundo a fala de um deles: Tia, nunca pensei que a matemática era tão fácil! Não vou perder nunca as aulas de matemática, ainda bem que ela não é chata. (Guilherme, 10 anos). Considerações finais Esta experiência docente nos ajudou a perceber, entre outros aspectos, que explorar os conteúdos das narrativas, estimular o gosto pela leitura, a compreensão textual a partir do encanto das histórias infantis, pode ser um ganho significativo no processo de ensino aprendizagem do corpo discente. Incentivar e potencializar o gostar de ler no ensino fundamental a partir da contação de histórias relacionadas à matemática extrapola apenas uma questão da interpretação textual. Esta metodologia possui potencial, a nosso ver, para dar aos estudantes subsídios para compreensão de enunciados de problemas matemáticos, bem como em outras áreas do conhecimento. Pensamos que, ao adotarmos essa prática de ensino, como futuros professores e incluíla em nosso planejamento escolar diário, obteremos resultados estupendos em nossa prática pedagógica. No que se refere aos alunos, estes por sua vez, desenvolverão a criatividade, o raciocínio lógico, o senso crítico e um aproveitamento significativo em seu rendimento escolar.

6 Referências BERNARDINO, Andreza Dalla; SOUZA, Linete Oliveira de. A contação de histórias como estratégia pedagógica na educação infantil e ensino fundamental Educere et Educare Revista de Educação. São Paulo, p Vol. 6 nº 12 jul./dez BRASIL. Ministério da Educação/Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: matemática (1ª à 4ª séries). Brasília: MEC/SEF, Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação infantil. Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. Vol. 3. Brasília: MEC/SEF, CAFÉ, Ângela Barcellos. Dos Contadores de histórias e das histórias dos contadores. 2000, 104 f. Dissertação (Mestrado em Educação) Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. DALCIN, Andreia. Um olhar sobre o paradidático de Matemática. Campinas (SP): Faculdade de Educação/ UNICAMP, (Dissertação de Mestrado) ZETETIKÉ Cempem FE Unicamp v. 15, n. 27 jan./jun TAHAN, Malba. A arte de ler e contar histórias. 5. ed. Rio de Janeiro: Ed. Conquista, 1966.

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