Portugalglobal. Bernardo Trindade Secretário de Estado do Turismo Os novos desafios do Turismo português 18

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1 Portugalglobal Pense global pense Portugal Bernardo Trindade Secretário de Estado do Turismo Os novos desafios do Turismo português 18 Turismo Global Novo paradigma para o séc. XXI 6 Mercado À redescoberta de Moçambique 32 Empresas CGC Genetics, Grupo Lismolde e Micronorma 26 Setembro 2010 //

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3 Setembro 2010 // sumário Destaque // 6 O turismo, pela sua transversalidade, desempenha um papel charneira na economia portuguesa e na da própria União Europeia, bem como na economia global. É uma actividade multidisciplinar, com uma multiplicidade de actores e com uma dimensão de actividade económica global que, no actual contexto, deve assumir o papel impulsionador, catalizador e organizador do processo de transformação e desenvolvimento de Portugal. Opinião // 16 Um artigo de José Carlos Pinto Coelho, presidente da Confederação do Turismo Português, sobre os desafios que o sector actualmente enfrenta. Entrevista // 18 Bernardo Trindade, Secretário de Estado do Turismo desde 2005, afirma, em entrevista, que o turismo português precisa de uma cultura de serviço e de empresas fortes e empreendedoras, capazes de inovar e de adequar a oferta à procura, para manter ascendente a curva do crescimento. Traça ainda as estratégias e os desafios que se colocam a um sector que representa 11 por cento do PIB nacional. Notícias // 25 Empresas // 26 CGC Genetics prestigia ciência portuguesa. Grupo Lismolde aposta na diversificação. Micronorma contribui para tecnologia emergente. Mercado // 32 Moçambique tem registado um crescimento económico assinalável nos últimos anos, sendo por isso citado como exemplo por instituições internacionais. É um mercado com boas oportunidades de negócio para as empresas portuguesas, já presentes neste país em variados sectores de actividade. Análise de risco por país COSEC // 42 Estatísticas // 46 Investimento directo e exportações. Feiras e eventos// 48 AICEP Rede Externa // 50 Bookmarks // 52

4 EDITORIAL Revista Portugalglobal Av. 5 de Outubro, Lisboa Tel.: Fax: Propriedade aicep Portugal Global O Porto Bessa Leite Complex R. António Bessa Leite, º Porto Tel.: Fax: NIFiscal Comissão Executiva Basílio Horta (Presidente), Eurico Dias, José Vital Morgado, Luis Florindo, Teresa Ribeiro Directora Ana de Carvalho Redacção Cristina Cardoso José Escobar Vitor Quelhas Colaboram neste número Bernardo Trindade, Direcção de Informação da AICEP, Direcção Internacional da COSEC, Fernando Carvalho, José Carlos Pinto Coelho, Mário Godinho de Matos. Fotografia e ilustração Fotolia, Messe Frankfurt Exhibition GmbH (Pietro Sutera / Petra Welzel), Rodrigo Marques, (Turismo de Portugal). Publicidade Secretariado Helena Sampaio Assinaturas REGISTE-SE AQUI Projecto gráfico aicep Portugal Global Paginação e programação Rodrigo Marques ERC: Registo nº As opiniões expressas nos artigos publicados são da responsabilidade dos seus autores e não necessariamente da revista Portugalglobal ou da aicep Portugal Global. A aceitação de publicidade pela revista Portugalglobal não implica qualquer compromisso por parte desta com os produtos/serviços visados. Novos desafios Novas oportunidades São dois os temas fortes que a revista Portugalglobal propõe aos seus leitores, numa perspectiva de antecipação, centrada na evolução do investimento, nas novas oportunidades e novos desenhos de negócio. Estamos a falar do novo turismo concebido numa óptica global, e do potencial das relações bilaterais com Moçambique, que decorrem num quadro de estabilidade e crescimento, favorável às exportações portuguesas e ao aumento constante do nosso investimento neste país africano, que mais do que quadruplicou entre 2005 e Em matéria de turismo, que vale cerca de 11 por cento do PIB e do emprego nacionais, sublinhamos a importância da entrevista a Bernardo Trindade, Secretário de Estado do Turismo, que revela os principais desafios e estratégias que se colocam ao sector, bem como o alcance, na óptica da mudança de paradigma, do estudo A Constelação do Turismo na Economia Portuguesa, elaborado pela SAER, um documento que tem por base a actual realidade portuguesa. De forma coincidente, as duas abordagens são unânimes: os tempos mudaram e a crise global perfila-se como um desafio de redefinição estratégica e crescimento, tanto na frente interna como externa. E é nesta perspectiva que focam a importância do turismo para a economia nacional, como um dos motores do desenvolvimento económico, social e ambiental, tanto a nível regional como nacional, que exige, dos actores públicos e privados, estratégias de especialização, bem como de con- solidação fusões e aquisições, cooperação e parcerias estratégicas, portanto mais competência, solidez, continuidade e mudança adaptativa. Ambas enfatizam a necessidade de maximização de novas metas de fluxos e receitas, mas num quadro de reforço de uma estratégia pró-activa de adequação da oferta às preferências dos consumidores, tanto a nível infraestrutural como do serviço prestado, que devem primar pela oferta diversificada e pela prestação diferenciada numa óptica de proximidade do cliente. A melhoria contínua das acessibilidades (com ênfase nas ligações aéreas) e do produto (qualidade e novos modelos de negócio), a visibilidade dos nossos destinos (comunicação e marketing do país), o reforço das verbas afectas à promoção e aos incentivos, estímulo à competitividade das empresas (solidez financeira, inovação, criatividade), a melhoria do nível da formação (qualificação profissional da base ao topo e cultura do empreendedorismo), e o reforço estrutural do sector (afirmação de uma identidade própria, com a marca da modernidade e da sofisticação, num quadro de desenvolvimento sustentável), são actualmente objecto de forte aposta por parte do Governo, e dos privados do turismo nacional, em tempos de mudança. Nesta medida, sublinha o estudo da SAER, o nosso mercado interno deixou de ter a extensão do Minho ao Algarve, para ter agora a dimensão de um mercado ibérico alargado, o que por si só exigiria a urgente reinvenção e transformação do turismo em Portugal. BASÍLIO HORTA Presidente da Comissão Executiva da AICEP 4 // Setembro 2010 // Portugalglobal

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7 DESTAQUE TURISMO NO SÉCULO XXI MOTOR DA ECONOMIA PORTUGUESA Portugal é um país vocacionado para o turismo, contribuindo para isso a sua geografia, clima, história, património, cultura, e actualmente os seus modernos equipamentos, transportes e infra-estruturas, bem como a capacidade de bem acolher dos portugueses. O turismo é actualmente a maior área de negócio em termos planetares, representando 10 por cento do PIB mundial, e por isso tem particular importância estratégica pela sua capacidade de gerar riqueza e emprego, o que é fundamental para as economias portuguesa e europeia. E num clima global de mudanças rápidas, é cada vez mais incontornável a necessidade de reinventar e transformar o turismo em Portugal, mudança que envolve um elevado e diversificado número de actores, do sector público ao privado, a nível nacional e internacional. Junta de Turismo da Costa do Estoril A importância do turismo para a economia portuguesa, que representa actualmente cerca de 11 por cento do PIB e do emprego em Portugal, e uma entrada média de 34 a 35 mil turistas/dia, é periodicamente realçada como poderoso motor de recuperação económica no actual contexto de pós-crise que ainda afecta a nossa economia. Ora é precisamente neste contexto que o estudo A Constelação do Turismo na Economia Portuguesa, elaborado pela SAER, sob a coordenação de Ernâni Lopes, exministro das Finanças e que apresentou o referido documento tendo por base a realidade portuguesa, destaca os novos desafios que se colocam ao sector, sintetizados numa única frase: os investimentos e os novos produtos só fazem sentido num contexto de turismo global. O turismo foi o grande factor de transformação da última década em Portugal e as 95 propostas que o actual estudo apresenta para melhorar a performance turística do país, implementado políticas e medidas de incentivo à mudança, têm como base outro estudo Reinventado o Turismo em Portugal apresentado em 2005 pela Confede- Portugalglobal // Setembro 10 // 7

8 DESTAQUE ração do Turismo Português, também com a orientação da SAER. O actual estudo, apresentado no início de 2010, sublinha que após a crise económica actual, o turismo será um dos motores do desenvolvimento talvez mesmo o principal sendo esta uma ideia-chave a reter em termos de políticas do turismo, tanto mais que por ser uma actividade global esta contribui para a globalização da economia portuguesa, sendo factor de captação de investimento, formação especializada, atracção de capitais e criação de emprego. Dado o know-how do sector do turismo em Portugal, bastará implementar, de forma consequente, não apenas uma estratégia de cinco a dez anos um upgrading que no entanto se pode estender pelo primeiro quartel do séc. XXI bem como segmentos da actividade que correspondam às necessidades dos consumidores actuais, isto é, um turismo centrado no cliente e no que ele pretende quando fala em optar por um destino turístico. Estão neste caso novos públicos-alvo como os jovens, os casais sem filhos ou os seniores. É nesta medida que a estrutura da actividade e da oferta nacionais deverão ser ajustadas e reequacionadas face à concorrência e aos novos destinos e mercados, cujos factores de competitividade se mostram claramente superiores se consideradas as diferentes áreas de actividade. Assim, um papel mais relevante para o turismo português depende não apenas do Estado e dos agentes públicos, mas sobretudo da força e da capacidade de actuação privada, dos operadores do sector, que demonstrem capacidade para implementar uma segmentação e organização adequada da oferta, um maior conhecimento e dinamização da procura, uma gestão mais empenhada das marcas e da promoção. O turismo, que possui uma multiplicidade de actores institucionais e privados, e que revela um potencial relevante em termos de futuro, tem relações com outros domínios que fazem parte da sua constelação e do seu potencial estratégico de crescimento, como sejam o próprio turismo, ambiente, cidades e desenvolvimento, serviços de valor acrescentado, economia do mar. Segundo o estudo, este processo de mudança e de transformação estratégicas assenta em três fases fundamentais: a primeira passa pelo desenvolvimento de um conjunto de programas e actividades de comunicação e gestão da mudança que garanta uma visão única, integrada partilhada pelos sectores público e privado, para se conseguir uma afirmação bem sucedida do turismo português; a segunda, pela constituição de bases e pelo compromisso sobre os objectivos e os planos estratégicos (master plans) que permitam o incremento dos diversos programas operacionais a desenvolver; a terceira, a elaboração e concretização dos planos e programas operacionais para a transformação do turismo ou projectos concretos de mudança. Há que ser inventivo na oferta turística O trabalho da reinvenção do turismo em Portugal está na ordem do dia. Para os analistas da SAER, de novo, em relação ao estudo anterior feito há quatro anos, e que foram particularmente difíceis para a economia portuguesa, cujas dificuldades a crise global agravou, é que a crise pode afinal ser uma boa oportunidade para reflectir, repensar e concretizar passos adicionais e estruturantes na área do turismo, para o que é necessário dar uma resposta estratégica, sustentada e de longo prazo aos desafios actuais. A primeira realidade é que actualmente o turismo é uma actividade multidisciplinar, com uma multiplicidade de actores e com uma dimensão de actividade económica global, quase tão global como a indústria automóvel, enfatiza o responsável pelo estudo. Por outro lado, cabe ao turismo, no actual contexto, o papel de impulsionador, catalizador e organizador do processo de transformação TURIHAB - Solares de Portugal 8 // Setembro 10 // Portugalglobal

9 DESTAQUE e desenvolvimento de Portugal, sendo este o elemento adicional de compreensão, quando se analisam os últimos dez anos da actividade turística nacional. É ainda necessário ultrapassar a ideia redutora, presente em muitos operadores, de que o turismo se resume basicamente ao hotel, à infra-estrutura hoteleira. Para ultrapassar esta barreira convencional, é importante que os cidadãos e os actores deste processo interiorizem a importância do conceito de constelação do turismo, que revela um universo bastante mais rico e complexo desta actividade económica na actualidade, a qual vale aproximadamente 11 por cento do PIB e do emprego nacionais, uma barreira que, segundo o estudo, pode e deve ser ultrapassada. Nesta medida, a importância do turismo em Portugal face à situação actual tem uma relevância estratégica acrescida, tanto mais que a crise não está superada e provavelmente irá arrastar-se do ponto de vista económico, o que exige novas respostas por parte da actividade económica em geral e em particular da actividade turística. Para algumas economias, e Portugal é uma delas, sublinha o estudo, o turismo pode e deve ser um dos meios de geração de riqueza, contribuindo decisivamente para essa necessidade de resposta global. O turismo, que possui uma multiplicidade de actores institucionais e privados, e que revela um potencial relevante em termos de futuro, tem relações com outros domínios que fazem parte da sua constelação e do seu potencial estratégico de crescimento, como sejam o próprio turismo, ambiente, cidades e desenvolvimento, serviços de valor acrescentado, economia do mar. O turismo, pela sua transversalidade, desempenha um papel charneira na economia portuguesa e da própria União Europeia, bem como na economia global. Além do mais, todos estes cinco domínios de potencial estratégico, caracterizados no estudo, encontram-se intimamente interrelacionados e cada um deles está fortemente ligado à economia portuguesa no seu conjunto. A conclusão é uma só: se for descurada esta relação orgânica entre domínios, no âmbito do negócio do turismo, este está condenado a um futuro frágil: isto é, empobrece economicamente e os seus activos serão adquiridos por outros, o que defrauda, em termos nacionais, as gerações futuras. Por isso, o estudo A Constelação do Turismo na Economia Portuguesa preocupa-se em olhar para o turismo não de forma simplista e tradicional, mas na sua complexidade, descodificando a respectiva cadeia de valor, que tem que ser cuidadosamente trabalhada e valorizada por todos os actores, e por todas as organizações empresariais e mesmo sindicais. Aspectos fundamentais do negócio O estudo chama igualmente a atenção para alguns aspectos fundamentais do negócio do turismo, o primeiro e o mais importante dos quais é que tudo o que se faz no turismo só tem um objectivo: a satisfação do cliente final, que puxa toda a cadeia, permitindo a obtenção do maior valor para todas as partes envolvidas. Tudo o mais, a montante deste objectivo, tem carácter preparatório, convergindo para esse objectivo. Nesta perspectiva, cada elo desta cadeia, específica do turismo, tem que acrescentar valor, numa articulação em que cada componente beneficia necessariamente da boa condução dos restantes, o que exige do empresário e do gestor o estarem atentos ao modo como actuam. Jose Manuel Há um segundo aspecto a considerar: a qualificação dos actores, pois a competitividade dos mercados globais exige especialização, consolidação e massa crítica. Isso impõe aos actores, que são antes de mais os empresários e as empresas, estratégias de focalização na especialização e consolidação através de fusões ou aquisições, e também consolidação por cooperação e parcerias estratégicas. Se não tiver dimensão, a constelação do turismo português pode ver-se reduzida progressivamente ao papel de fornecedora de serviços subsidiários, no qual não há poder de decisão, o que produz sequelas no tecido económico: não há apropriação da mais-valia, não há produção de lucros, não está garantido o reinvestimento, há perda na participação do capital. A cooperação e as parcerias estratégicas são por isso fundamentais para as empresas portuguesas, não apenas porque lhes conferem sustentabilidade, solidez e um futuro relevante, o qual dependerá menos do Estado e dos agentes públicos e muito mais da força dos actores privados. A qualificação dos recursos humanos é incontornável, pois formação significa competências, consistência, continuidade e mudança adaptativa, e mais atenção às necessidades do consumidor. Neste sentido, impõe-se não só a formação de gestores e empresários mas também de quadros das administrações centrais, regionais e locais. Para enfrentar os desafios do turismo global, não basta a formação de quadros médios e baixos: é necessária a formação de quadros intermédios e de topo. Finalmente: turismo na economia global, no contexto de um mundo novo, com novos desafios. Os anos de 2007 e 2008 representam uma ruptura na economia Portugalglobal // Setembro 10 // 9

10 DESTAQUE 2010 EM NÚMEROS O turismo português poderá crescer, em 2010, três por cento relativamente a 2009, ano negativo para o sector, mas não conseguirá recuperar as receitas alcançadas antes da crise económica. Segundo os Resultados do Turismo, um documento de divulgação do Turismo de Portugal (trimestral), a análise conjuntural, ainda em ano de crise, sobre o turismo em Portugal no 1º trimestre deste ano é a seguinte: Estabelecimentos hoteleiros receberam 2,4 milhões de hóspedes que originaram 6 milhões de dormidas (mais 1 por cento). Proveitos totais atingiram 284 milhões de euros no país, reflectindo contudo uma quebra de 2 por cento (menos 5 milhões de euros). Proveitos de aposento (65 por cento do total de proveitos) atingiram 184 milhões de euros, mas com um decréscimo de 1 por cento face a Esta evolução reflectiu-se na quebra de 0,8 euros no rácio do RevPar que registou o valor de 20,6 euros. Taxas médias de ocupação cama (27,6 por cento) e quarto (37,0 por cento) com diminuições homólogas de 1,6 e 2,9 p.p., ou seja, mais 67 mil dormidas este ano. Reino Unido liderou o ranking dos principais mercados estrangeiros emissores de dormidas com 941 mil, mas com menos 59 mil do que em 2009 (menos 6 por cento). Algarve registou o maior número de dormidas de estrangeiros (1,4 milhões) e um aumento homólogo de 59 mil dormidas (mais 4 por cento). Região de Lisboa foi, para o mercado interno, a que se posicionou em 1º lugar com 545 mil dormidas (mais 10 mil dormidas que em 2009, ou seja, mais 2 por cento). Aeroportos nacionais com 2 milhões de passageiros desembarcados de voos internacionais (mais 154 mil passageiros que em 2009, ou seja, mais 8 por cento). Reino Unido liderou o ranking dos principais mercados estrangeiros desembarcados com 355 mil passageiros (menos 0,2 por cento face a 2009). Receitas do turismo atingiram milhões de euros (mais 72 milhões de euros que em 2009, ou seja, mais 6 por cento). Março com 471 milhões de euros (mais 12 por cento, ou seja, mais 50 milhões de euros que em 2009) foi decisivo para essa evolução. Fonte: INE/Turismo de Portugal Alma Mollemans / Pestana Palace Hotel mundial. A boa notícia é que os portugueses e a economia entraram na era da economia mundial pós-globalização, sobre a qual pouco se sabe. Isto quer dizer que está tudo em aberto e que tudo o que fazemos, tudo o que concebemos investimento, novos produtos, decisões, só fazem sentido num turismo de competição global. A transformação profunda a que assistimos, tem que ver agora com o perfil do novo turista, que agora passa cada vez mais, insiste o estudo, pelos jovens dependentes ou com rendimentos próprios, casais com ou sem filhos ou pelos novos seniores. Neste contexto de mudança, quais são os segmentos estratégicos? Com que grau de atractividade se posicionam os vários segmentos do turismo em Portugal? Sol e praia representam cinco décadas de turismo, de investimento e lucros, tendo tido aqui o Algarve um papel decisivo. Contudo, perfilam-se como segmentos em crescimento, o turismo residencial, desportivo, de negócios, urbano, cultural, rural, eco-turismo, aventura, saúde, religioso, temático e cruzeiros, entre outros. Outro pilar de sustentação em matéria de novos segmentos: o mercado ibérico alargado, que é agora o nosso mercado interno. Esta é a nova realidade, pois o mercado interno, que deixou de ter a extensão do Minho ao Algarve, é agora peninsular. Daí a insistência do estudo sobre os novos segmentos, realçando, por um lado, o papel incontornável da excelência no turismo português (cujo percurso passa pela segmentação e opções estratégicas da oferta e respectiva diferenciação e qualificação, qualificação do país e dos seus activos estratégicos, adequada gestão das marcas e da promoção, optimização dos canais de distribuição e conhecimento e dinamização da procura) e, por outro, a importância das plataformas estratégicas (modelo de desenvolvimento e política de turismo, mercados e produtos turísticos, desenvolvimento e qualificação dos actores e activos estratégicos, recursos humanos e conhecimento, cadeia de valor e canais de comercialização, inovação e monitorização para o desenvolvimento), que devem ser identificadas para que seja reforçada uma prática coerente de excelência e de satisfação do cliente final. 10 // Setembro 10 // Portugalglobal

11 DESTAQUE John Copland TURISMO SUSTENTÁVEL No início do séc. XXI, a totalidade das regiões e das populações mundiais está exposta ao fenómeno turístico, constituindo este a maior actividade mundial de serviços, aproximando-se rapidamente da indústria petrolífera e mesmo automóvel. Nos começos da década de 90, o número de turistas rondava os 500 milhões, mas em 2007 atingia já os 903 milhões. A Organização Mundial de Turismo (OMT) calcula que em 2010 o número de turistas, só na Europa região líder do turismo mundial, ande em torno dos 500 milhões. O crescimento exponencial do turismo nos últimos 50 anos constitui um fenómeno à escala global, potenciado depois da II Guerra Mundial pelo desenvolvimento dos transportes e pelo aumento do poder de compra. Esta omnipresença da actividade turística, frequentemente intensiva e predatória, tornou necessária a reflexão em torno dos seus impactos sociais e ambientais negativos, tendo os governos, instituições e cidadãos começado a colocar a prática do desenvolvimento sustentável nas suas agendas, como uma priorida- de crescente, porque protectora do próprio turismo. Esta nova visão da actividade turística atende, simultaneamente, às necessidades dos turistas e das regiões receptoras, ao mesmo tempo que protege e investe nos seus recursos e potencialidades, garantindo que a actividade turística possa ser transmitida às gerações futuras, na lógica de uma responsabilidade e solidariedade intergeracionais. Nesta medida, faz a gestão dos recursos de forma a salvaguardar as necessidades económicas, sociais, culturais e ambientais dos países e regiões em que se desenvolve, velando pela sua integridade, bem como pela qualidade de vida e biodiversidade. Hoje sabe-se que o turismo, quando se desenvolve de forma não planeada, pode ter e tem frequentemente um impacto fortemente negativo sobre os territórios e respectivas populações. A sustentabilidade começa a adquirir credibilidade principalmente a partir da segunda metade do século XX, período Portugalglobal // Setembro 10 // 11

12 DESTAQUE que coincide com o acentuado crescimento da actividade turística. Mas foi em 1999, que a Organização Mundial do Turismo se mostrou preocupada com a sustentabilidade, expressando a vontade em promover uma nova ordem turística, equitativa, responsável e sustentável, um benefício partilhado por todos os sectores da sociedade, no contexto de uma economia internacional aberta e liberalizada. Nesta medida, a sustentabilidade tem-se tornado um requisito fundamental para a promoção de novos produtos turísticos com capacidade competitiva, principalmente no mercado internacional. A própria Comissão das Comunidades Europeias já emitiu um alerta quanto ao desenvolvimento desregulado do turismo, que põe em risco ecossistemas, recursos naturais, populações e património cultural, e mesmo zonas urbanas. Nesta medida, o turismo pode tornar-se vítima do seu próprio êxito se não se desenvolver de uma forma sustentável, arriscando-se a matar a galinha dos ovos de ouro. Neste quadro de acautelamento da integração das várias vertentes do território, é reconhecido que a sustentabilidade económica, social e ambiental constitui um Francisco Silva factor-chave para a competitividade dos destinos turísticos e para o bemestar das suas populações (presentes e futuras), as quais exigem cada vez mais a integridade do seu território ou a rápida recuperação dos danos causados. A valorização da questão ambiental, como foco de toda a actividade turística, mostra-se cada vez mais decisiva e vem ao encontro do que se espera dos destinos turísticos de qualidade: uma protecção e conservação eficazes do ambiente e dos seus recursos, que são uma das características do turismo de excelência. Por outro lado, a própria procura turística está a mudar, tendo já as Nações Unidas destacado algumas das tendências mais marcantes que obrigam a repensar desde já a actividade turística em termos de futuro, isto é, na óptica do turismo sustentável, o que implica uma maior segmentação do mercado e novos produtos turísticos (que correspondam às novas expectativas dos mercados, cada vez mais sensíveis aos valores ambientais e à preservação das culturas e tradições e da qualidade de vida das populações locais), nomeadamente os produtos que estão relacionados com a natureza, com a vida selvagem, com os espaços rurais. O apelo comercial de produtos de massa, como o sol, o mar e a praia, já não é suficiente para garantir o sucesso, pois cada vez mais a população urbana, em crescimento acelerado, procura o campo, a natureza e os grandes espaços naturais preservados como produtos turísticos, em que a perenidade do património natural, construído e cultural se encontre salvaguardado. Segundo dados do INE, em Portugal é o turismo do interior, que se mostra mais compatível com os princípios da sustentabilidade, que merece a preferência crescente do turismo interno. A aplicabilidade e compreensão do conceito e prática do turismo sustentável exige no entanto um entendimento global entre os diversos actores (...) de modo a que a sustentabilidade implique compromisso, partilha de protagonismo e responsabilidade, e seja sempre integrada quando se trata de ambiente, economia e sociedade. Não é por acaso que este ano, ainda sob o impulso da campanha Descubra um Portugal Maior, promovida pelo Turismo de Portugal, os números disponíveis para 2010 indicam que o número de turistas, dormidas e receitas voltou a subir no primeiro semestre deste ano no Alentejo, batendo os valores de 12 // Setembro 10 // Portugalglobal

13 DESTAQUE BREVE HISTÓRIA DO TURISMO José Manuel 2009, o melhor ano de sempre, e que a região norte se posicione como um destino cada vez mais procurado este ano. A natureza preservada em todas as suas expressões, a gastronomia tradicional, a ruralidade, os roteiros históricos, as festas e romarias e os espaços abertos são alguns dos factores de motivação do turismo interno e de uma crescente procura por parte dos novos adeptos do turismo sustentável. A aplicabilidade e compreensão do conceito e prática do turismo sustentável exige no entanto um entendimento global entre os diversos actores populações, agentes privados, organizações e governos de modo a que a sustentabilidade implique compromisso, partilha de protagonismo e responsabilidade, e seja sempre integrada quando se trata de ambiente, economia e sociedade. Para chegar à sustentabilidade económica e ambiental, a indústria turística necessita de uma abordagem diferente em matéria de planeamento e desenvolvimento, no sentido de acautelar os recursos das gerações presentes e sobretudo futuras. É, pois, necessário definir novas linhas de desenvolvimento para o negócio do turismo, de modo a que os seus recursos não corram o risco de serem dilapidados até à ruptura. O turismo é um fenómeno cultural bastante antigo. Desde o tempo dos Romanos, que criaram a maior rede de estradas conhecida e desenvolveram estalagens (para quem viajava para as termas, ou por razões comerciais, políticas ou de estudo), até à época dos Descobrimentos, pioneira da globalização, que suscitou o interesse pela viagem longínqua por mar e terra, passando pela Idade Média, que viu renascer o culto dos lugares sagrados e as peregrinações (no séc. XIV já existiam guias de viagem que forneciam aos peregrinos informações detalhadas sobre percursos), que o desejo de evasão e conhecimento, bem como as demandas da fé, motivaram deslocações de pessoas com o propósito de visitarem lugares diferentes e distantes. Porém, o gosto pela viagem em si e pela exploração cultural e curiosa do José Manuel mundo surge no séc. XVIII, com as viagens de recreio e estudo. Em Portugal criam-se as primeiras estruturas potenciadoras de turismo: constroem-se o passeio público de Lisboa, os teatros líricos de São Carlos e o de São João, no Porto. No séc. XIX, no contexto da Revolução Industrial, com maior produção de riqueza e mais vias de comunicação, as viagens ganham um novo impulso, interessando-se as pessoas pela vida, história, costumes e tradições de outros povos. É construído, em Lisboa, em 1846, o Teatro Nacional de D. Maria II. Em 1887, chega o caminho-deferro e, internamente, surgem importantes centros regionais de veraneio, como Espinho e Póvoa de Varzim. Em Portugal, a actividade turística é um fenómeno relativamente recente enquanto actividade organizada e em- Portugalglobal // Setembro 10 // 13

14 DESTAQUE presarial. Em 1840 é criada a primeira empresa de viagens: a Agência Abreu e é inaugurado o primeiro grande hotel em Lisboa, o Bragança. A primeira década do séc. XX traz consigo inovações que alteram profundamente o mundo de então aproximando as pessoas e facilitando os contactos tanto internos como externos: o telégrafo, o telefone, crescimento da rede ferroviária e de estradas, bem como das carreiras marítimas. O desenvolvimento industrial e as novas condições de trabalho acarretam progressivamente uma maior democratização pela apetência por viagens e pelo lazer, transformando-se o turismo num fenómeno social e a ganhar uma dimensão económica sem precedentes. Em 1921, é aberta em Paris a primeira representação do turismo nacional no estrangeiro, gerido pelo Estado português e pela Companhia Portuguesa dos Caminhos-de-ferro. Na Europa criam-se as primeiras instituições governamentais com o fim de promover e organizar a actividade turística e no país é criada, em 1911, a Repartição de Turismo de Portugal. Na sequência da I Guerra Mundial surgem as primeiras companhias aéreas comerciais. O turismo inicia a sua expansão mundial. O desenvolvimento dos transportes, o direito às férias pagas (estabelecido pela Organização Internacional de Trabalho) e a actividade das novas organizações nacionais e internacionais de promoção do turismo, tornaram o turismo uma actividade económica cada vez mais relevante. Na década de 30, é criada a Zona de Turismo do Estoril (em que se inaugura no país a primeira linha electrificada de caminho-de-ferro) e inaugura-se o Casino em Inaugura-se, em 1934 a Companhia Aero-Portuguesa e iniciam-se os voos transatlânticos dos clippers para Lisboa. O I Congresso Nacional de Turismo, em 1936, em Lisboa, tem grande afluência. A II Guerra Mundial traria estagnação ao sector e só a partir da década de 50 é que o turismo se desenvolveu e consolidou nas décadas seguintes, sendo ainda no entanto o turismo interno um subproduto do turismo internacional, embora adquirindo cada vez maior importância. É também nos anos 50 que se verifica a generalização da aviação comercial, do veículo automóvel e a modernização do caminho-de-ferro. É construído o Aeroporto de Lisboa e criada a TAP (Transportes Aéreos Portugueses). É criado o Fundo de Turismo. O turismo de massas, que assumiu a dimensão de uma grande indústria no decorrer do século XX, democratizou a viagem por meio aéreo, terrestres e marítimo, acrescentando-lhe modernos equipamentos de alojamento e novos espaços de cultura, fruição e lazer. O Sul da Europa converte-se no espaço de lazer dos turistas oriundos dos países industrializados do Norte, tornando-se Portugal um país receptor a partir dos anos 60, dada a sua excelente oferta sol/praia, com um significativo aumento das entradas de turistas e da capacidade hoteleira, capacidade que triplicará até aos finais da década. Multiplicam-se os investimentos sobretudo no Algarve e na Madeira. Este fluxo de turistas estrangeiros vai aumentando nos anos 70, embora com quebra em Nos anos seguintes inicia-se a recuperação e arranca, em 1983, o Plano Nacional de Turismo que reforça a importância do turismo local. O crescimento acentua-se com a entrada de Portugal para a CEE em 1986, o que traz a livre circulação de pessoas e mercadorias. O turismo interno diversifica-se. Na década de 90, o fenómeno turístico acentua-se, mas de forma oscilante, dada a crise económica mundial que afecta os países emissores, mas é particularmente significativa a entrada de turistas estrangeiros entre 1984 e O avião é o principal meio de transporte dos turistas que vistam o país. Em 1992, devido ao crescente envolvimento do antigo ICEP nas várias frentes relacionadas com a promoção de Portugal no exterior, juntou-se o turismo às suas competências, optando-se pelo aumento da sua área de actuação. Nesta década tudo começa a mudar, com a alteração da rede viária (construção das novas auto-estradas que potenciam o investimento turístico) e a redução dos custos do transporte aéreo, mas também com o aparecimento de uma nova geração de empresários. A crise global actual abrandou o ritmo do turismo português, verificando-se um forte investimento público e privado na recuperação. Actualmente o Turismo de Portugal resultante de uma fusão de várias entidades do turismo na última década é responsável pela estratégia de promoção externa do sector em articulação com os agentes económicos locais e em íntima ligação com os Centros de Negócios e Escritórios da Rede Externa da AICEP. Associacao de Turismo dos Acores 14 // Setembro 10 // Portugalglobal

15 Quer exportar? O Banco Popular acompanha-o. Crescer, vencer o maior dos desafios. Expandir o negócio para novos mercados. Se esta é a visão que alimenta do futuro da sua empresa, temos excelentes notícias para si. O Banco Popular aliou-se à, através de um protocolo, para desenvolver e concretizar apoios à internacionalização e exportação das PME. Ajudando ao investimento e facilitando as exportações das empresas e marcas portuguesas. Com uma linha de apoio e condições preferenciais numa gama alargada de operações bancárias. Já sabe: onde quer que a sua empresa vá, pode sempre contar com o Banco da sua vida.» Linha de apoio à exportação e internacionalização das PME;» Protocolo Banco Popular/ ;» Montante global: 150 milhões de euros;» Mais financiamento, melhores condições.

16 OPINIÃO CRISE E REDES SOCIAIS MUDAM PERFIL DO TURISTA >POR JOSÉ CARLOS PINTO COELHO, PRESIDENTE DA CONFEDERAÇÃO DO TURISMO PORTUGUÊS (CTP) O perfil do turista está a mudar e a Internet tornou-se numa ferramenta poderosa na hora de viajar. Saber acompanhar as mudanças e responder aos apelos dos consumidores, cada vez mais exigentes, são os maiores desafios que o Turismo enfrenta actualmente. 16 // Setembro 10 // Portugalglobal Dar resposta a uma procura cada vez mais exigente é um dos maiores desafios que o Turismo enfrenta actualmente. A chave do futuro passa por dar mais valor ao turista, guiado cada vez mais pela motivação de procurar experiências novas e únicas, com a Internet e as redes sociais a ganharem expressão na hora de viajar. A Internet tornou-se uma ferramenta que já ninguém dispensa. As redes sociais tornaram-se numa excelente fonte de informação para os consumidores, mas também numa oportunidade ou ameaça para os operadores turísticos. Uma opinião desfavorável hoje viaja pelo mundo inteiro em segundos e pode ditar o sucesso ou insucesso de um destino, de um alojamento, de um produto, etc., com danos muitas vezes irreparáveis na imagem. O turista procura ainda e cada vez mais uma boa relação qualidade/preço e o nível de exigência tem vindo a aumentar. Entender melhor os novos produtos turísticos e os segmentos de mercado é uma forma de compreender as motivações que levam os turistas a viajar, independentemente do alojamento e do transporte. Os produtos de âmbito cultural, desportivo, natural, gastronómico e de negócios exigem múltiplos recursos, propostas de valor e gestão inovadoras para enfrentar os desafios que a actividade coloca, sobretudo num contexto de grandes incertezas como o que se vive hoje, com o mercado em evolução

17 OPINIÃO e que inevitavelmente exigirá mudanças nos modelos de negócios da indústria e da oferta turística. O actual contexto económico introduziu a nível nacional e internacional graus de incerteza e complexidade adicionais, que têm vindo a criar dificuldades ao sector, que enfrenta tempos difíceis, com a concorrência de novos destinos a pressionar os preços, e cuja consequência mais imediata é a quebra nos mercados tradicionalmente emissores para Portugal, como o Reino Unido e a Alemanha. Embora a evolução do turismo nos últimos anos tenha sido marcada por alguma irregularidade, a Organização Mundial de Turismo (OMT) mantém a sua previsão de longo prazo e que a actual desaceleração será compensada a médio e longo prazo. Em 2020 a Europa irá manter-se como a principal região receptora de turistas, seguida da Ásia e do continente americano. Contudo, os principais destinos do mundo em termos turísticos estão a mudar. A França é actualmente o país de eleição em termos de procura, mas corre o risco de ser ultrapassada dentro de aproximadamente uma década pela China, que ocupa hoje a terceira posição em termos de visitantes 55,5 milhões de turistas este ano, número que em 2020 deverá situar-se em 81,1 milhões. Portugal ao encontrarse entre um dos destinos mais procurados do Velho Continente enfrenta uma concorrência feroz, mas será determinante que, tirando proveito dos recursos naturais e dos recursos humanos, o sector mostre capacidade de representar a diferença. Portugal ao encontrar-se entre um dos destinos mais procurados do Velho Continente enfrenta uma concorrência feroz, mas será determinante que, tirando proveito dos recursos naturais e dos recursos humanos, o sector mostre capacidade de representar a diferença. Através de uma promoção articulada de diversos factores-chave de atracção como o clima ameno, a beleza da sua costa marítima, a paisagem do interior, a cultura e os monumentos históricos, as infra-estruturas para a prática de desportos e para a realização de grandes eventos é urgente desenvolver uma política de marketing especificamente voltada para a valorização da cultura nacional. É preciso não ignorar que hoje e, tendencialmente, ainda mais no futuro muitos turistas (em particular, os asiáticos e os americanos) procuram destinos em função da oferta cultural específica: património histórico e museológico, espectáculos e música, dança e gastronomia. O sector enfrenta muitos desafios e a listagem sofre constantes alterações. Senão vejamos: para 2010, a Deloitte tinha previsto que os factores para o sucesso e diferenciação do sector do turismo mundial assentavam no crescente valor da marca junto do consumidor, no crescimento dos mercados emergentes, importância dos consumidores orientados pela tecnologia e a aposta na formação e retenção do capital humano. No último relatório intitulado Hospitality 2015, a Deloitte considerou que os principais motores do sucesso para o sector passarão principalmente pela sustentabilidade e capacidade de fazer face a uma nova ordem mundial, imposta pelo impacto da incerteza económica no consumo e, consequentemente, no consumidor. O turismo português não pode estar de costas voltadas para o que se passa no sector a nível mundial, tem é de saber tirar partido das suas especificidades, apostar na diversificação dos produtos e transmitir uma imagem de modernidade do país e da actividade. Portugalglobal // Setembro 10 // 17

18 ENTREVISTA Bernardo Trindade - Secretário de Estado do Turismo TURISMO PRECISA DE INOVAR PARA CRESCER O turismo português precisa de uma cultura de serviço e de empresas fortes e empreendedoras, capazes de inovar e de adequar a oferta à procura, para manter ascendente a curva do crescimento. Depois de um ano de quebras, quer nos fluxos turísticos quer nas receitas, devido à crise económica mundial, as perspectivas para o ano turístico de 2010 são positivas, sendo confirmadas pelos dados já conhecidos. Bernardo Trindade, Secretário de Estado do Turismo desde 2005, revela, em entrevista, as principais estratégias e os desafios que se colocam a um sector que representa cerca de 11 por cento do PIB nacional e abrange 500 mil postos de trabalho. 18 // Setembro 10 // Portugalglobal

19 ENTREVISTA Que balanço pode fazer, neste momento, do ano turístico em curso e quais as perspectivas a médio prazo? Depois das dificuldades sentidas em 2009, motivadas pela crise internacional, e com reflexos significativos na área do turismo, é possível afirmar, sem optimismos exagerados, que iniciámos uma trajectória de recuperação, com especial significado nos meses de Verão. Os dados que recolhemos até à data, quer nos nossos destinos turísticos, quer nos pontos de origem de fluxos, deixamnos bastantes satisfeitos. A nível regional, assistimos a um desempenho muito positivo por parte do Algarve, Lisboa e Norte, durante este mês de Agosto, mas temos a Madeira a exigir uma atenção redobrada, por não ter conseguido inverter a tendência de perda. Sinal igualmente importante é o que obtivemos do sector da aviação no mês de Agosto: todos os aeroportos portugueses (incluindo a Madeira) estão a crescer em termos de movimento de passageiros relativamente a Agosto de 2009, destacando-se o Norte e o Algarve com crescimentos superiores a 10 por cento. Dados recentes do Banco de Portugal referem um aumento das receitas com o turismo nos primeiros meses deste ano face a período idêntico de Podese esperar que 2010 seja um bom ano turístico para Portugal apesar da conjuntura económica desfavorável? O ano de 2010 será seguramente um ano melhor que 2009, aliás, os números têm-no demonstrado. Os dados do Banco de Portugal relativos às receitas do 1º semestre indicam um crescimento de 7,4 por cento, comparativamente com o mesmo período do ano anterior. Também os dados do INE do mês de Julho revelam uma subida de todos os indicadores (dormidas, hóspedes e proveitos) em termos de acumulado. Estes resultados reflectem uma clara recuperação face à performance registada em Estamos a crescer consecutivamente desde há 8 meses, pelo que importa agora centrar todos os nossos esforços na consolidação desse crescimento, continuando o trabalho que até aqui temos desenvolvido nas diversas áreas cruciais para o sector. De que forma e em que principais segmentos e produtos turísticos a crise económica teve maior impacto? A crise trouxe dificuldades mas também oportunidades, nomeadamente a oportunidade das empresas racionalizarem a sua estrutura de custos, preparando-se para o futuro de uma forma mais adequada ao exercício da sua actividade num mercado aberto, global e competitivo. Claro está que a intensidade da crise foi sentida proporcionalmente ao estado de desenvolvimento de cada projecto. Os projectos em início de exploração, fortemente bancarizados, sentiram algumas dificuldades, tendo-se justificado a intervenção do Estado na facilitação do acesso ao crédito. Neste aspecto, é impressionante verificar o número de operações já apoiadas ao abrigo das Linhas PME Investe: operações com 547 milhões de euros de financiamento associados. Quais as principais medidas tomadas pelo Governo e entidades públicas e pelo sector privado para atenuar os efeitos da crise económica no turismo? Como está a correr o PIT Programa de Intervenção do Turismo? Em finais de 2008, logo que detectados os primeiros sinais da crise, centrámos a nossa actuação na disponibilização de instrumentos que permitissem atenuar os impactos da crise na função financeira das empresas, quer através das Linhas PME Investe (proporcionando mais prazo, bonificação de juro e cobertura de risco), quer através do reforço dos nossos fundos de capital de risco e imobiliário, estas actualmente com participações de mais de 170 milhões de euros. Ao nível da procura reforçámos as verbas afectas à promoção em 30 milhões de euros (face aos 50 milhões de euros inicialmente orçamentados), estabelecendo parcerias Fruto da sua capacidade geradora de riqueza e emprego, o turismo é uma actividade essencial para fixar populações e combater assimetrias regionais, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento sustentável, para o equilíbrio territorial, para a qualificação do espaço público e para a oferta cultural, beneficiando directamente as populações locais. com operadores turísticos e companhias aéreas que possibilitaram o co-financiamento de campanhas publicitárias de hard-selling, de modo a motivar os turistas a optarem por Portugal. Não podemos esquecer que a aposta clara do Governo no reforço das acessibilidades aéreas para Portugal se revelou determinante para suster a quebra de fluxos turísticos, verificada em Num ano de grave crise económica internacional, como o caso de 2009, com a actuação que dinamizámos tanto a nível interno como externo, conseguimos minimizar as perdas em termos de fluxos gerados, que seriam seguramente mais avultadas se não tivéssemos encetado o plano extraordinário de promoção que referi. Quanto ao Programa de Intervenção para o Turismo, ao abrigo das duas linhas (infra-estruturas e eventos) foram até à data atribuídos incentivos que ultrapassam os 40 milhões de euros, tendo o programa sido recentemente prolongado até final de 2012, apresentando como novidade a criação de uma terceira linha dotada com 10 milhões de euros e vocacionada para atingir objectivos prioritários especificamente definidos no PENT para o produto turístico Turismo de Negócios. Quando foi lançado em 2007, o PENT (Plano Estratégico Nacional do Turismo) definiu objectivos ambiciosos para o sector: aumentar anualmente o número de turistas em 5 por cento e as receitas em 9 por cento. A crise económica mundial terá Portugalglobal // Setembro 10 // 19

20 ENTREVISTA comprometido esses objectivos. Qual tem sido o desempenho do turismo português nos últimos 3 anos, quer em termos de crescimento de turistas e de receitas, quer no que respeita à criação de emprego e ao contributo do sector para o PIB nacional? O desempenho do turismo português nos últimos 3 anos tem sido globalmente positivo importa relembrar que 2008 foi o melhor ano turístico de sempre, com mais 380 milhões de euros de proveitos na hotelaria, mais 5 milhões de dormidas e mais 1,2 mil milhões de euros de receitas turísticas de não residentes. O ano de 2009 acaba por ser um ano atípico que interrompe uma linha ascendente, fruto da crise económica e financeira internacional, mas com resultados em Portugal acima da média da UE. Importa retomar o ritmo de crescimento, sabendo no entanto que as premissas subjacentes à dinâmica da procura estão alteradas. Nesse sentido, e conduzindo o actual trabalho de revisão do PENT, teremos em consideração todas as premissas subjacentes a esta nova realidade, para efeitos de ajustamento, se necessário, das metas definidas tanto em termos de fluxos como de receitas. A aposta do Governo para o sector foi no sentido da diversificação da oferta nacional e dos mercados emissores de turistas. O que foi feito nesse sentido? Com a clara consciência dos riscos inerentes a uma excessiva dependência dos nossos principais mercados emissores, como é o caso do Reino Unido ou da Alemanha, iniciámos em 2007 uma estratégia de diversificação de mercados, com o objectivo de captar fluxos turísticos junto de países com elevado potencial de outbound. Esta estratégia, que passou pela aposta nos países nórdicos, no Brasil, nos Estados Unidos, na Rússia e na China, não só através do investimento na facilitação do transporte aéreo, como na realização de acções tácticas de promoção do destino, temse revelado profundamente eficaz. Os resultados estão à vista. As receitas turísticas provenientes de mercados como o Brasil ou os EUA apresentaram em Junho de 2010 um crescimento acumulado de 67 por cento e 32 por cento, respectivamente, relativamente a igual período do ano anterior. O objectivo é claramente o de intensificar esta estratégia de diversificação. O aumento da competitividade internacional do turismo português passa certamente pela aposta na diferenciação e na qualificação dos recursos humanos. No quadro da oferta turística, é inegável que o sector do turismo vive hoje uma realidade totalmente diferente, não só mais diversificada, mas igualmente mais qualificada, e com maior grau de homogeneidade em termos de presença geográfica. Nesta alteração de paradigma foram essenciais as medidas adoptadas na passada legislatura, que visaram, justamente, dotar o sector dos instrumentos adequados a facilitar o investimento por parte das empresas, num quadro de qualificação e inovação. Destacaria a profunda reforma legislativa efectuada nos procedimentos de licenciamento das actividades turísticas (empreendimentos, restauração e bebidas e animação turística), que possibilitou a realização de investimentos pelos empresários num cenário de maior transparência, clareza e celeridade, bem como os incentivos financeiros disponibilizados, quer nacionais, quer comunitários. No âmbito dos apoios comunitários, a criação do Pólo de Competitividade e Tecnologia - Turismo 2015 foi essencial na disponibilização de condições para estimular a competitividade das empresas do sector; efectuar um desenvolvimento selectivo da oferta turística; e reforçar a atractividade do destino Portugal. O Pólo Turismo 2015 permitiu, nomeadamente, a disponibiliza- Jose Manuel 20 // Setembro 10 // Portugalglobal

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