O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO COMO REDE DE SERVIÇOS E APOIO NA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL

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1 O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO COMO REDE DE SERVIÇOS E APOIO NA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL ANTUNES, Clarice Filipin de Castro (UNIOESTE) 1 ROSSETTO, Elisabeth (Orientadora/UNIOESTE) 2 Introdução Partindo da compreensão que o processo educacional constitui-se em um processo histórico-social por meio do qual os homens se apropriam das condições que os humanizam, é necessário compreender também que a educação que se propõe a alunos com deficiência ou que apresentam necessidades educacionais especiais, deve fazer parte do processo geral de educação. É nesse sentido que a proposta de educação inclusiva apresentada nas novas diretrizes nacionais, tendo em vista a Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), considera a Educação Especial como modalidade oferecida preferencialmente no sistema regular de ensino, na qual uma rede de apoio e uma diferenciação de serviços especializados devem "garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educacionais especiais, em todas as etapas e modalidades da educação básica" (BRASIL, 2001, p. 1). As práticas educativas nesta modalidade de ensino, principalmente no que tange ao entendimento e compreensão dos processos de desenvolvimento e aprendizagem de 1 Professora da Rede Publica Municipal de Ensino de Cascavel, graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná/UNIOESTE, com especialização em Educação Especial e AEE; Integrante do grupo de pesquisa GEPES/UNIOESTE. 2 Professora efetiva da Universidade Estadual do Oeste do Paraná/UNIOESTE, do programa de pósgraduação em educação/ppgedu, Doutora em Educação/UFRGS, integrante dos grupos de pesquisa: NEPIE/UFRGS e GEPES/UNIOESTE. 1

2 alunos que apresentam alguma deficiência, não devem se apresentar de forma dissociada dos processos gerais de ensino, uma vez que por finalidade da escola compreende-se a transmissão dos conhecimentos científicos, e por meio da apropriação destes se determinará o desenvolvimento intelectual de cada aluno, possibilitando-lhe a autonomia e a tomada de consciência. Nesse sentido, a formação dos profissionais que atuam com alunos que apresentam alguma deficiência deve estar direcionada a instrumentalizá-los para a compreensão do trabalho educativo como um processo de humanização dos sujeitos. Dessa maneira essa pesquisa pretende investigar documentos norteadores que orientam os princípios e as práticas educativas a cerca do processo ensino-aprendizagem de alunos com deficiência, com base nos pressupostos da Psicologia Histórico-Cultural. Os que norteiam o processo dos alunos com deficiência. Nessa direção ainda buscar-se-á verificar nesses documentos, as concepções teóricas, os mecanismos, os recursos e as estratégias, que ditam as ações educativas para esses alunos. Ou seja, se são oriundas de uma visão mítica, biológica ou históricosocial. Neste contexto ressalta-se que a Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva, promulgada em 2008, por intermédio do Ministério da Educação - MEC, através da Secretaria de Educação Especial - SEESP, apresenta-se como documento que orienta a todos os sistemas de ensino a instituírem em suas escolas o Atendimento Educacional Especializado/AEE, conforme especificidade de cada aluno. Portanto para receber tal atendimento, o aluno deve estar devidamente matriculado numa escola comum do ensino regular. Em seu contexto, essa política apresenta uma análise da legislação vigente a fins da Educação Especial e propõe uma modificação da situação de atendimento aos alunos com deficiência, tanto nas escolas comuns do ensino regular como nas escolas especiais. Aponta uma preocupação com a qualidade de inserção desses alunos no ambiente escolar. Para tanto, considera que: A educação especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis, etapas e modalidades, realiza o atendimento educacional especializado, disponibiliza os serviços e recursos próprios desse 2

3 atendimento e orienta os alunos e seus professores quanto a sua utilização nas turmas comuns do ensino regular (BRASIL, 2008, p. 8). O referido documento apresenta ainda como objetivos: [...] assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, orientando os sistemas de ensino para garantir: acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais elevados do ensino; transversalidade da modalidade de educação especial desde a educação infantil até a educação superior; oferta de atendimento educacional especializado; formação de professores para o atendimento educacional especializado e demais profissionais da educação para a inclusão; participação da família e da comunidade; acessibilidade arquitetônica nos transportes, nos mobiliários, nas comunicações e informação; e articulação intersetorial na implementação das políticas públicas (BRASIL, 2008, p. 7). No intuito de compreender os princípios norteadores das Políticas públicas educacional, destinadas aos alunos com deficiência na atualidade, faz-se necessário retomar nesse estudo uma análise histórica das políticas propostas anteriormente a essa parcela de alunado. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDBEN nº /96 (BRASIL, 1996) e a Resolução nº 02 da CNE/CEB (BRASIL, 2001), a Educação Especial é considerada como uma modalidade de ensino oferecida preferencialmente nos sistemas regulares, a qual compreende uma rede de apoio e serviços especializados. Conforme proposto pela Resolução nº 02/2001, os sistemas de ensino devem constituir e fazer funcionar um setor responsável pela Educação Especial. Devem prover os recursos humanos necessários, materiais adequados e financeiros para viabilizar e dar sustentação ao processo de construção e efetivação da educação inclusiva (BRASIL, 2001). A referida resolução trata o Atendimento Educacional Especializado/AEE como um "processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especializados, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos substituir os serviços educacionais comuns (BRASIL, 2001, p. 1). No que se refere ao termo substituir, Prieto analisa que, 3

4 A manutenção do atendimento substitutivo se deve, em grande medida, à possibilidade aberta pela ambiguidade da diretriz preferencialmente na rede regular de ensino usada para orientar o direito à educação para a população então denominada portadores de deficiência na CF / 88 (art. 208, inciso III) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDBN / 96, ART. 58) (2012, p.169, grifos da autora). Ressalta-se aqui as alterações ocorridas no Artigo nº 58, do capítulo V da LDBEN nº 9.394/96, através da redação dada pela Lei nº de 13 de março de 2013, no sentido de contemplar os já citados na Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva de 2008: transtornos globais de desenvolvimento. [...] Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. (Redação dada pela Lei nº , de 2013) Queremos mostrar com isso, que a oferta do Atendimento Educacional Especializado/AEE a partir desta alteração se amplia para mais essa parcela de alunos. Resta-nos a partir das investigações propostas com esse trabalho, identificar os elementos determinantes para essa ampliação. No caso desse projeto, a preocupação é com as concepções evidenciadas nas bases fundantes, integradas ao que é apresentado nas diretrizes, bem como em outros documentos elaborados com objetivos de subsidiar à escolarização de alunos com deficiência. Ressalta-se que esses documentos não contemplam princípios teóricos capazes de fundamentar as ações pedagógicas da Educação Especial. Nesse sentido, O que documentos como estes preconizam deve ser alvo de atenção [...], considerando-se que a proposta de educação inclusiva encontra suas estreitas filiações ao modo pelo qual está constituída a sociedade sob o capitalismo em crise, e defendendo a importância da análise e do pensamento crítico no âmbito da Educação Especial, faz-se necessário refletir sobre o seu contexto de surgimento, bem como a respeito das bases que a sustentam. Considera-se que ao estudar a educação em seus diferentes desdobramentos e relações aumentam-se as possibilidades de mais bem se entender o homem que educa e que é educado, apresentando ou não deficiências, e a educação que necessita (CASCAVEL, 2008, p. 61). 4

5 Para tanto, com relação ao processo de escolarização de alunos com deficiência, na especificidade da educação escolar, CASCAVEL (2008, p. 59) propõe [...] o entendimento de que a escolarização contribui de modo significativo para que os sujeitos que dela participam alcancem um nível de desenvolvimento mais complexo ou, conforme o pensamento vigotskiano, cultural e livre. De modo muito resumido, cultural por dominar os conteúdos e processos psíquicos e de intervenção no mundo já conquistados por sua geração; e livre por ir além da realidade aparente, por compreender as leis que regem os fenômenos e das relações que eles têm entre si. Diante deste contexto político educacional, o qual procuramos mensurá-lo aqui, essa pesquisa pretende analisar dois elementos importantes para a efetivação do Atendimento Educacional Especializado/ AEE nas escolas, a saber: a compreensão teórica e as práticas educativas. Tais elementos são os que justificam a opção por essa pesquisa: ao observar as práticas educacionais efetivadas nas escolas, onde geralmente são permeadas por concepções biologizantes as quais não compreendem os alunos enquanto sujeitos potencialmente em desenvolvimento. Ao estudar os pressupostos da Psicologia Histórico-Cultural, percebe-se a importância dessa investigação teórica para compreender os determinantes do sucesso e/ou insucesso na trajetória da escolarização de alunos com deficiência. Essa teoria apresenta como pressuposto a premissa de que não se valoriza nos sujeitos a sua deficiência, mas sim as suas potencialidades. Tal premissa apresenta-se clara no Tomo V das Obras Escolhidas de Vigotski (1997), o qual é totalmente dedicado ao estudo das deficiências. Dessa forma, o autor, sustentado no princípio de que todo ser humano é capaz de aprender, considera os processos de desenvolvimento humano numa perspectiva de que as leis de desenvolvimento são as mesmas para todos os sujeitos, independente das condições em que estes se encontram. Com base nesse pressuposto, Vigotski (1997) em seu legado, desenvolveu suas investigações afirmando que a aprendizagem é determinada pelas circunstâncias entre as relações do sujeito com o seu meio cultural, isto é, o desenvolvimento humano se constitui num processo de apropriação das experiências acumuladas historicamente pela humanidade. Explica que as definições biológicas não são fatores determinantes no processo de apropriação dos conhecimentos, mas que o biológico é transformado por 5

6 meio das interações com o outro, ou seja, com um adulto ou com alguém com mais experiências. A análise de Rossetto (2009), sustentada por essa teoria, nos aponta que: Desse modo, ao estudarmos o processo de desenvolvimento do psiquismo humano, é importante o entendimento de que este não é resultado somente das características biológicas, mas é resultado de um processo de aprendizagem determinado por todas as circunstâncias do desenvolvimento da criança em seu meio. Desde o nascimento, ela é rodeada por um mundo concreto criado pelos mais velhos, do qual aos poucos vai se apropriando. Para constituir-se como ser social, desde os primórdios da humanidade, o homem passou por um processo de desenvolvimento de suas funções psíquicas, que foram sendo transformadas no decorrer de toda sua história, de acordo com as demandas do meio e para atender suas necessidades (ROSSETO, 2009, p. 38). Nessa mesma direção, destacamos aqui um elemento relevante, conceituado pelos autores em referência, no que se refere a importância das interações sociais, e dos processos de ensino-aprendizagem de alunos com deficiência: a mediação. Esta é caracterizada pelos autores como toda intervenção sistematizada que se associa entre os processos de ensinar e aprender. Quando estabelecida por meio de atividades socialmente definidas, caracteriza-se como fator essencial no processo de constituição dos sujeitos. Considerando tais aspectos, para enfatizar a importância da mediação na relação entre desenvolvimento cultural e aprendizagem escolar, (CASCAVEL, 2008) considera que quando a apropriação se dá de forma institucionalizada, isto é, na especificidade da educação escolar, o professor deve desempenhar a mediação necessária entre o aluno e o conhecimento, o que requer ao professor possuir mais experiências, ou seja, ter formação específica para desempenhar as práticas educativas, e por meio de atividades adequadamente planejadas, não só a alunos com deficiência, mas a todos os educandos, propiciando-lhes mecanismos para que se apropriem dos conhecimentos e transformemse. Ainda conforme proposto em CASCAVEL (2008, p. 79), É manifesto que a escola, por meio de ações conscientes, sistematizadas, intencionais, dirigidas para um fim específico no ato 6

7 de ensinar, seja desenvolvida autonomia intelectual ao aluno, este ser singular, que ao se apropriar dos conhecimentos científicos passa a fazer deles parte de sua própria individualidade, o que o torna capaz de regular conscientemente sua própria conduta. No que diz respeito à escolarização de alunos com deficiência, com base em tal perspectiva teórica, deve-se considerar que a educação proposta para esses alunos não deve ocorrer em instituições especiais de ensino ou em ambientes constituídos como segregadores, e sim deve fazer parte dos sistemas de ensino comuns. Aos alunos que necessitaram, deve-se ser assegurado o Atendimento Educacional Especializado/AEE, em processo de contraturno, possibilitando-lhes recursos que contribuam para a apropriação do saber sistematizado. Com esse entendimento e embasada nos pressupostos explicitados acima a pesquisa será desenvolvida a partir dos seguintes encaminhamentos: levantamento e análise de documentos nacionais, estaduais e municipais, norteadores da Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva e ao Atendimento Educacional Especializado/AEE e demais referências que orientam o processo de escolarização de alunos com deficiência na atualidade. Em quanto referencial teórico, conforme mensionado, obras de Vigotski e de seus seguidores: Luria, Leontiev, entre outros. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição Federal do Brasil. Brasília: Senado Federal Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. LDB Nº 9394/96 de 20 de dezembro de Brasília, Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília. (2008). Disponível em: Resolução CNE/CEB Nº 2, de 11 de setembro de 2001: Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Disponível em: 7

8 CASCAVEL (PR). Secretaria Municipal de Educação. Currículo Para a Rede Pública Municipal de Ensino de Cascavel: volume II: ENSINO FUNDAMENTAL anos iniciais. Cascavel, PR: Ed. Progressiva DUARTE, Newton. Concepções afirmativas e negativas sobre o ato de ensinar. Cad. CEDES. Vol. 19 n. 44 Campinas. Apr Disponível em https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca. Acesso em 08 de nov de LEONTIEV, Aléxis N. O Desenvolvimento do Psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, PRIETO, R. G. Direito à Educação e Política de Educação Especial. In: ROSSETTO, E. REAL, D. C. (Orgs). Diferentes Modos de Narrar os Sujeitos da Educação Especial a partir de... Cascavel. Edunioeste ROSSETTO, E. Sujeitos com Deficiência no Ensino Superior: vozes e significados. Porto Alegre, 2009 (Tese de Doutorado). VYGOTSKI, Lev S. Obras Escogidas Tomo V. Fundamentos de defectología. Madrid: Visor Distribuciones S.A., VIGOTSKI, Lev S.; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Tradução Maria da Penha Villalobos. 9. Ed. São Paulo: Ícone,

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