A INFERTILIDADE FEMININA NA PÓS-MODERNIDADE E SEUS REFLEXOS NA SUBJETIVIDADE DE UMA MULHER

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1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS CURSO DE MESTRADO EM PSICOLOGIA ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO LINHA DE PESQUISA: PROCESSOS PSICOSSOCIAIS A INFERTILIDADE FEMININA NA PÓS-MODERNIDADE E SEUS REFLEXOS NA SUBJETIVIDADE DE UMA MULHER FERNANDA ELEONORA MIRANDA BELO HORIZONTE 2005

2 FERNANDA ELEONORA MIRANDA A INFERTILIDADE FEMININA NA PÓS- MODERNIDADE E SEUS REFLEXOS NA SUBJETIVIDADE DE UMA MULHER Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Psicologia Área de concentração: Processos de subjetivação Orientadora: Jacqueline de Oliveira Moreira BELO HORIZONTE 2005

3 FICHA CATALOGRÁFICA Miranda, Fernanda Eleonora M672i A infertilidade feminina na pós-modernidade e seus reflexos na subjetividade de uma mulher / Fernanda Eleonora Miranda. Belo Horizonte, f. Orientadora: Jacqueline de Oliveira Moreira Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Bibliografia 1. Infecundidade feminina. 2. Pós-modernismo. 3. Psicanálise. 4. Mulher Aspectos sociais. I. Moreira, Jacqueline de Oliveira. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. III Título. CDU: :

4 Fernanda Eleonora Miranda A infertilidade feminina na pós-modernidade e seus reflexos na subjetividade de uma mulher Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Psicologia, Belo Horizonte, em 25 de novembro de Jacqueline de Oliveira Moreira (Orientadora) - PUC Minas Carlos Roberto Drawin - UFMG Maria Ignes Costa Moreira - PUC Minas

5 Às mulheres que, como Rosa, lutam com coragem para que a infertilidade feminina não seja estéril.

6 AGRADECIMENTOS Ao Henrique, de novo, pela presença inspiradora. Ao Ril pela parceria. À Mamãe pela cumplicidade e doação de sempre. À Jacqueline pela orientação atenciosa e carinhosa, por incentivar e enriquecer este projeto. Ao Drawin pelas valiosas contribuições. À Riva, meio fada madrinha, com seu leve toque fez grandes coisas acontecerem para mim. À Rosa por dividir comigo a sua história.

7 RESUMO Este trabalho teve como objetivo discutir a infertilidade feminina na pós-modernidade e seu impacto na subjetividade das mulheres que a vivenciam, buscando contribuir para a abordagem dessas pacientes na clínica. Utilizou-se da construção de caso clínico como procedimento metodológico de pesquisa. Verificou-se a influência de características pós-modernas na vivência da infertilidade feminina tais como o narcisismo, o papel de destaque do corpo e de seu controle, o imediatismo. Viu-se, por meio de um diálogo com o discurso filosófico e sociocultural, que a situação social das mulheres altera sua posição subjetiva o que leva a particularidades na experiência da infertilidade feminina. Para uma mulher autônoma e livre a infertilidade associa-se à perda do poder de optar ou não pela maternidade, direito conquistado socialmente e valorizado na pós-modernidade. Pôde ser visto que a infertilidade feminina relaciona-se ao narcisismo secundário e ao ideal de eu relativo à maternidade que, por sua vez, diz respeito à gravidez natural e à barriga. Viu-se que a infertilidade pode ser tomada como chaga narcísica que reativa conflitos relativos à castração e que, pela evocação do feminino que suscita, pode levar o sujeito a novas possibilidades de criação mediante um rearranjo psíquico e social. Por meio do caso clínico pôde se ver a importância do conceito de inveja na clínica da infertilidade feminina e pôde-se concluir que vivenciar a infertilidade como limite e não como limitação e mutilação pode levar o sujeito ao reconhecimento lúdico da falta e à inventividade do desejo. Palavras-chave: Infertilidade feminina, pós-modernidade, subjetividade.

8 ABSTRACT This study had as objective discussing the female infertility in post-modernity and its impact in the subjectivity of the women who experience it, in order to contribute to the approach of these patients in the clinical practice. The methodological procedure of research was based in the construction of clinical case. It was verified the influence of post-modern characteristics in the experience of female infertility, such as narcissism, the lead role of the body and its control, the immediatism. It was seen, by means of a dialogue with the philosophical and socio-cultural speech, that women s social situation modifies their subjective position, what takes to particularities in the experience of female infertility. For an autonomous and free woman, infertility associates with the loss of the power to choose or not the maternity, right that was socially conquered and valued in postmodernity. It could be noticed that female infertility is related to the secondary narcissism and to self idealism related to maternity that, in its turn, is regarded to natural pregnancy and the belly. It was observed that infertility can be considered as a narcissistic wound that reactivates conflicts referred to castration and that, by the evocation of the feminine that it suscitates, can bring the subject to new possibilities of creation by means of a psychic and social rearrangement. By means of the study of the clinical case it could be seen the importance of the concept of envy in the clinic of the female infertility and it could be concluded that to experience the infertility as a limit and not as limitation or mutilation can take the subject to the playful recognition of the absence and to the inventiveness of desire. Key-words: female infertility, post-modernity, subjectivity.

9 SUMÁRIO PARTE I - TRABALHO INTRODUTÓRIO...10 INTRODUÇÃO...11 CAPÍTULO 1. DISCUSSÃO METODOLÓGICA...16 CAPÍTULO 2. A INFERTILIDADE FEMININA Entendendo a infertilidade feminina Revisão da literatura sobre a infertilidade feminina...22 PARTE II ENFOQUE CONCEITUAL: UM TRABALHO DESCRITIVO CAPÍTULO 3. A BUSCA POR DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES NA CONSTRUÇÃO DE UM ENFOQUE CONCEITUAL MAIS AMPLO Diálogo com o discurso filosófico e sociológico: a noção de sujeito e a posição da mulher No silêncio das mulheres a ausência de um sujeito A mulher como sujeito no século XX: a conquista do falo da fala A situação das mulheres no Brasil do século XX Diálogo com o discurso sociocultural: um pouco da história da maternidade O discurso sociocultural, a pós-modernidade e o mal-estar na infertilidade feminina A pós-modernidade e o corpo infértil: o descompasso entre o corpo, o desejo e o outro PARTE III MARCO TEÓRICO PSICANALÍTICO: PONTE PARA UM TRABALHO REFLEXIVO CAPÍTULO 4. O DISCURSO PSICANALÍTICO E A SUBJETIVIDADE DA MULHER DIANTE DA INFERTILIDADE Considerações preliminares: a noção de sujeito no sentido psicanalítico A construção da subjetividade feminina : aporia da psicanálise freudiana à questão da infertilidade Narcisismo e infertilidade feminina : à sombra de uma barriga que não cresceu e de um filho que não veio Maternidade e infertilidade sob a égide do narcisismo O sentido da castração: da imposição de limites ao horizonte de promessa Da feminilidade ao feminino: um percurso na vivência da infertilidade feminina

10 4.5.1 Leitura sobre a feminilidade e sua relação com a infertilidade feminina O território do feminino e a infertilidade feminina: abrindo portas para novas possibilidades de criação PARTE IV REFLEXÃO CASUÍSTICA: A CONSTRUÇÃO DE UM CASO CLÍNICO CAPÍTULO 5. O CASO DE ROSA E O MISTÉRIO DA INFERTIIDADE FEMININA Considerações preliminares O caso de Rosa numa perspectiva de re-escuta Considerações finais na construção do caso clínico CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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20 10 PARTE I TRABALHO INTRODUTÓRIO

21 11 INTRODUÇÃO A infertilidade feminina se apresenta como um desafio às mulheres em busca de novas possibilidades de criação. A experiência da infertilidade revela-se devastadora e provocadora para a mulher que a atravessa, uma experiência de encontro com a dor e um convite para novos arranjos da subjetividade com a possibilidade de ressignificação de conceitos como a feminilidade e a maternidade. Enquanto esperam o filho que ainda não veio, as mulheres vão gestando novas formas de subjetivação dos conflitos psíquicos, novos e antigos conflitos, que emergem no bojo da infertilidade. Estudar os eventos psíquicos relacionados à infertilidade feminina na pósmodernidade leva a trabalhar com questões ligadas à mulher e às invenções femininas atravessadas pelo contexto sócio-histórico que lhes empresta o colorido. Nesta rota se apresenta um percurso que vai da feminilidade ao feminino. Feminilidade enquanto conceito sócio-histórico dinâmico e mutante, um discurso da sociedade de determinado período que confere às mulheres um lugar e uma posição social e que oferece referencial para a construção da identidade feminina. O construto feminino, por seu termo, participa do percurso aqui traçado por apontar para a singularidade e para as possibilidades de subjetivação próprias a cada sujeito; afinal, o feminino remete àquilo que convida o sujeito a transformar a falta, condição do humano, numa possibilidade infinita de invenções que se fazem e se desfazem ininterruptamente. O tema deste estudo vem de um questionamento originado na clínica com pacientes que em algum momento de suas vidas têm que se haver com a problemática da infertilidade. Esta pesquisa, portanto, terá como apoio e como inspiração a prática de uma clínica de caráter interdisciplinar com a medicina, que

22 12 vem se consolidando desde 1997 no atendimento de mulheres que vivenciam a infertilidade. Este estudo visa contribuir para a abordagem dessas pacientes na clínica. Uma paciente, em tratamento médico para infertilidade, dizia que o processo provocava ansiedade, que para ela era uma mistura de medo e de esperança. Ora o medo se fazia presente ao longo do caminho, medo de não conseguir engravidar e de sofrer, ora a esperança a tomava trazendo otimismo, esperança de poder realizar seu sonho ao final do tratamento. Pôde-se perceber que o acompanhamento psicológico durante o tratamento de infertilidade oferece às mulheres a oportunidade de lidar com o aspecto emocional que inevitavelmente acompanha o processo. A escuta psicanalítica proporciona um espaço para que a paciente possa falar de seu medo e de sua esperança. Uma parte introdutória visou apresentar a metodologia eleita, apresentar o conceito de infertilidade e rever as publicações relativas ao tema. Uma parte descritiva veio depois e foi realizada através de um enfoque conceitual que buscou a contribuição dos discursos filosófico e sociocultural; em seguida fez-se um trabalho reflexivo lançando mão do discurso psicanalítico que é tomado como marco teórico de todo este trabalho e da construção de um caso clínico. A proposta é utilizar o eixo teórico psicanalítico confrontando a psicanálise com a atualidade, o que exige, de acordo com Birman (2002), um trabalho de mão dupla a fim de explorar aquilo que é motivo de inquietação. Nesse fazer de mão dupla, em primeiro lugar é preciso que a psicanálise se deixe sensibilizar e impregnar pelas contribuições de outros discursos, neste caso o médico, o filosófico e o sociológico. O trabalho de mão dupla visa promover o diálogo interdisciplinar da psicanálise, a fim de que, sem perder sua especificidade teórica, ela também possa avançar nas questões cruciais da contemporaneidade pela interpelação fecunda trazida pelas

23 13 outras disciplinas (BIRMAN, 2002, p.10). Em segundo lugar, esse trabalho exige a utilização de conceitos psicanalíticos com o objetivo de explicitar e elucidar o que está em questão, no caso desta pesquisa, a infertilidade para a mulher na sociedade contemporânea. Sendo o tema a infertilidade feminina na pós-modernidade e os aspectos psíquicos ligados a esta experiência, a adjetivação feminina coloca as mulheres na órbita deste estudo, o que torna fundamental um breve histórico sobre os deslocamentos da situação delas na sociedade e as conseqüentes transformações das noções de feminilidade e maternidade, que vão influenciar a forma de se conceber a infertilidade. Diferentes momentos sócio-históricos proporcionam um colorido contextual particular à situação das mulheres na sociedade, o que vai emprestar particularidade às noções de feminilidade e maternidade na atualidade, conferindo, assim, um significado específico à experiência de infertilidade hoje. O tema está delimitado ao momento atual caracterizado pela pós-modernidade, mas, a fim de abordá-la, foi preciso lançar um olhar comparativo entre esta e a modernidade sem perder de vista nossas balizas: a feminilidade e a maternidade. Assim, foram trabalhados os constructos mulher, maternidade e feminilidade que são reflexos do contexto histórico, tendo o objetivo de revelar os contornos de um outro conceito em construção, a infertilidade feminina. O desenvolvimento do trabalho enfocou inicialmente o aspecto que se refere à contextualização histórica da situação das mulheres, fazendo um recorte dessa situação desde a modernidade até a pós-modernidade. A fim de realizar essa reconstrução histórica, recorreu-se à noção filosófica de sujeito e à discussão sobre a aplicação desse conceito às mulheres desde o seu surgimento até os dias de hoje. Tomar a noção filosófica de sujeito como um referencial se justifica pois, assim, torna-se possível realizar um diálogo com o discurso filosófico fazendo o

24 14 percurso histórico de maneira crítica, o que vai ao encontro dos objetivos deste trabalho. Sob essa ótica crítica, o conceito filosófico de sujeito que surge na modernidade mostrou a sua não aplicabilidade às mulheres no momento de seu surgimento, em função da situação delas na sociedade nesse período histórico. Só a partir de deslocamentos na posição social das mulheres é que o termo pôde se aplicar a elas, pois esses deslocamentos proporcionam a emergência do sujeito mulher no sentido filosófico do termo sujeito. Além de uma sustentação filosófica, o estudo buscou paralelamente uma sustentação histórico-sociológica da posição da mulher no cenário moderno e pósmoderno, avaliando suscintamente sua história no Ocidente e no Brasil e os posicionamentos dela e da sociedade em relação à maternidade em diferentes momentos históricos. Até então o estudo foi basicamente descritivo; a partir de então, um trabalho reflexivo se impôs já que aqui interessam também os aspectos mais íntimos e subjetivos relativos à experiência da infertilidade. Assim, uma vez vencida a primeira etapa do trabalho de mão dupla, em que as contribuições do discurso filosófico e sociocultural permitiram uma contextualização da situação da mulher e da mãe na sociedade, desenvolveu-se a segunda parte, que se constituiu de uma abordagem do singular mediante um trabalho de reflexão sobre o sujeito diante de uma experiência que o remete a uma ferida narcísica, à castração, ao feminino. Utilizando o marco teórico psicanalítico, manteve-se o foco nas balizas que então guiaram este estudo - a feminilidade, a maternidade e a infertilidade feminina, buscando-lhes acesso por meio do discurso da psicanálise freudiana e da contribuição de autores pós-freudianos como Melaine Klein, Joel Birman, Zeferino Rocha e Maria Rita Kehl, entre outros.

25 15 A princípio, indagou-se à psicanálise freudiana sobre a construção subjetiva feminina, procurando respostas acerca da repercussão da infertilidade sobre a expressão da subjetividade de uma mulher. Essa mesma questão guiou a discussão sobre o narcisismo, a castração e o feminino. Pôde-se ver que a infertilidade se apresenta como uma verdadeira chaga narcísica que reaviva conflitos adormecidos e que leva à emergência de conflitos referentes à questão edípica e à castração. Por fim, um caso clínico foi apresentado numa perspectiva de reescuta, e foi com Rosa, nome fictício do sujeito estudado, que se mostrou o impacto da infertilidade sobre a expressão de sua subjetividade. Dessa forma, o caminho teórico se construiu do universal ao singular: da história das mulheres na sociedade à história de uma mulher retratada no caso clínico; de uma indagação sobre a infertilidade nas mulheres, encarnando ou não a condição de sujeito no sentido filosófico-sociológico, a uma indagação sobre os atravessamentos da infertilidade na construção subjetiva de um sujeito no sentido psicanalítico; da esterilidade da infertilidade a uma subjetivação criativa de uma infertilidade.

26 16 CAPÍTULO 1. DISCUSSÃO METODOLÓGICA Este estudo recorreu ao campo clínico amparado na linha de pesquisa qualitativa. Para Chizzotti (1991), a abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito. Para ele, há uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. O procedimento metodológico utilizado nesta pesquisa qualitativa foi o estudo de caso. O estudo de caso como metodologia de pesquisa atende aos objetivos propostos aqui na medida em que não é, como nos diz Goode (1976), uma técnica de obtenção de dados, mas um modo de organizá-los preservando o caráter unitário do objeto estudado. Elegeu-se o estudo de caso como metodologia por considerar-se que através dele consegue-se uma aproximação da clínica com o tema em estudo, já que o instrumento de busca de informações foi um atendimento clínico. Uma das suas principais características é a ênfase na singularidade com a preservação do caráter unitário do objeto estudado, o que faz com que o estudo de caso atenda aos objetivos deste estudo. O objeto é examinado como único, como uma representação singular da realidade historicamente situada, e para uma apreensão mais completa desse objeto, este método leva em conta o contexto. Além disso, o estudo de caso enfatiza os detalhes para uma melhor compreensão do todo. Esse procedimento metodológico valoriza o conhecimento experiencial e enfatiza o importante papel do leitor na generalização deste conhecimento. Segundo André (1984), diante do estudo de caso cabe ao leitor indagar-se: o que eu posso ou não posso aplicar desse caso na minha situação? Para Laville e Dionne (1999), o estudo de caso refere-se evidentemente ao estudo de um caso que pode ser o de uma pessoa, mas também de um grupo, de

27 17 um meio, ou então fará referência a uma mudança política ou um acontecimento especial. Ele visa fornecer explicações no que tange diretamente ao caso considerado e a elementos que lhe marcam o contexto. A vantagem mais marcante dessa estratégia de pesquisa é a possibilidade de aprofundamento que oferece, já que os recursos se vêem concentrados no caso visado. Como nos mostram esses autores, ao eleger esse método de trabalho o pesquisador seleciona um caso que lhe pareça típico e representativo de outros casos análogos. Se o estudo de caso incide sobre um caso particular, a generalização não é por isso excluída, contudo, as conclusões deverão ser marcadas pela prudência. A partir de um caso típico, o pesquisador pode extravasar do particular para o geral na medida em que leva em consideração não só os aspectos que convêm a ele pesquisador, mas todos aqueles que possam se verificar pertinentes. O fundamento teórico deste trabalho é a psicanálise e o estudo de caso lhe é próprio e à sua construção desde Freud. Ele caracteriza a pesquisa psicanalítica pois impele o pesquisador a construir e não a repetir; cada caso traz o novo, que demanda novas interpretações. Tomou-se a construção de caso clínico como um estudo de caso em psicanálise. Para Nasio (2001), na construção de caso clínico o termo caso denota o interesse particular que o analista dedica a um de seus pacientes. O estudo de um caso em psicanálise se faz através do relato de uma experiência única que fala de um encontro entre paciente e terapeuta que possa respaldar um progresso teórico. Esse autor defende a idéia de que o caso transmite a psicanálise através da imagem e que o conceito teórico ganha corpo por meio de uma história clínica. É o que pretendemos fazer através do caso de Rosa, deixar que sua história empreste vida aos conceitos relativos à infertilidade feminina.

28 18 Segundo D Agord (2001), a clínica desafia constantemente a teoria ao exigir, diante de cada caso, um novo processo de teorização. Referindo-se à construção de caso clínico, a autora cita Fédida que afirma que em psicanálise o caso é uma teoria em gérmen, uma capacidade de transformação metapsicológica. Portanto, ele é inerente a uma atividade de construção (D Agord, 2001, p.12 ). Para a autora, o pesquisador em psicanálise trabalha em condições mutáveis e surpreendentes, sendo desafiado a construir e não a repetir diante da exigência que cada caso impõe de um novo processo de teorização. A construção do caso será nossa ferramenta para uma teorização a respeito da clínica da infertilidade feminina, já que, como nos diz Queiroz (2002), na produção de pesquisa metapsicológica, o caso clínico surge como ancoragem necessária. É importante apontar que, de acordo com o que pensa D Agord (2001), o caso em psicanálise se inscreve em uma clínica da escuta e, por isso, privilegia um processo do qual faz parte o próprio pesquisador enquanto terapeuta. Isso leva a crer que a escuta lança o pesquisador dentro de sua pesquisa, contrariando os princípios da neutralidade e apontando limites. Para Nasio (2001), o caso é uma ficção já que o relato de um encontro clínico nunca é o reflexo fiel de um fato concreto, mas sua reconstituição fictícia ; para ele o caso é o relato criado por um clínico que o rememora através do filtro de sua vivência. A construção do caso clínico neste trabalho tem como objetivo contribuir para fazer avançar a clínica da infertilidade e procurar interrogar sobre uma psicopatologia da infertilidade feminina. Procurar-se-á, ainda, tomar o caso como exemplo de uma vivência particular da infertilidade, exemplo que se torna movimento demonstrativo de uma curiosidade teórica que faz parte do método investigativo.

29 19 Queiroz (2002) aborda as questões éticas que envolvem o trabalho de pesquisa que se apóia num caso clínico e aponta a necessidade de mascaramento dos dados e a adoção de medidas que objetivem não interferir no processo terapêutico do paciente e nem na sua vida. Já que o caso de Rosa está pautado em alguém efetivamente existente, os dados relativos a ela foram mascarados e seu processo terapêutico já havia sido encerrado ao ser trabalhado teoricamente e aqui discutido. A construção do caso clínico, então, oferece a oportunidade de escuta do sujeito além de possibilitar uma formalização da prática clínica. A discussão do caso clínico visa a uma articulação entre prática e teoria, uma oportunidade de lançar mão dos conceitos teóricos complementando-os. Este é um caminho que possibilita construir a sustentação de uma prática. Ainda no que se refere à discussão metodológica, é importante frisar que como método de leitura foi eleito aquele sugerido por Birman (2002), o trabalho de mão dupla, que visa promover o diálogo interdisciplinar da psicanálise com outros discursos, e a utilização de conceitos psicanalíticos com o objetivo de elucidar o tema da infertilidade feminina. Dando seqüência ao trabalho introdutório vem o capítulo que define a infertilidade feminina e explora as publicações encontradas relativas ao tema.

30 20 CAPÍTULO 2. A INFERTILIDADE FEMININA 2.1 Entendendo a infertilidade feminina Para estudar a infertilidade feminina na sociedade atual enfocando os impasses psíquicos vividos pela mulher diante da experiência da infertilidade, em primeiro lugar torna-se necessário conceituar infertilidade. Os termos infertilidade e esterilidade são comumente associados à dificuldade ou impossibilidade de engravidar. No meio médico alguns autores como Olmos (2003) e Chedid (2000) definem esterilidade como a dificuldade para engravidar; um quadro de esterilidade se define quando não se consegue a gravidez após um período de tentativas regulares. Por sua parte, a infertilidade é definida pelos autores citados como a incapacidade de levar a gravidez até o fim. Neste trabalho adotou-se infertilidade como um termo genérico, definindo essas duas situações. No meio médico o termo infertilidade é em geral associado ao termo conjugal ; portanto, a infertilidade é um problema do casal que tem dificuldades para engravidar e conceber, independentemente de as causas serem ligadas ao homem ou à mulher. Até mesmo as estatísticas geralmente se referem à infertilidade conjugal; estima-se que hoje aproximadamente um em cada seis casais (mais de 15%) não consegue ter filhos (Chedid, 2000). Segundo Olmos (2003), as estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que de cada cem casais, pelo menos vinte têm algum grau de dificuldade de engravidar. Pode-se entender que, no que se refere aos aspectos psíquicos, a infertilidade é também um problema que afeta o casal já que implica a interrupção ou o adiamento de um projeto de vida que é de ambos. Diante da dificuldade trazida pela infertilidade, vive-se um mal-estar que afeta cada sujeito e que

31 21 atravessa a relação do casal, além de poder afetar suas relações familiares e sociais. A visão médica não nega a ocorrência e a importância de aspectos emocionais relacionados à infertilidade, como é o caso de Chedid (2000) que afirma que o medo do fracasso, a frustração e a ansiedade são eventos psíquicos que, via de regra, permeiam a vida dos casais com problemas de fertilidade. Da mesma forma, Olmos (2003) afirma que a ansiedade gerada pela infertilidade atinge o casal e o acompanha desde as primeiras consultas médicas. A ansiedade acaba sendo uma conseqüência natural de um tratamento que pressupõe espera e incerteza, de um tratamento que lida com possibilidades e não com certezas. Além disso, os procedimentos médicos de tratamento da infertilidade têm um grau crescente de complexidade e devem ser cumpridos passo a passo, degrau por degrau. Esse passo a passo obriga a uma convivência com a frustração ao longo do processo. As pressões geradas pela realidade da infertilidade acabam por impactar as relações conjugais e sociais além, é claro, de impactar o próprio sujeito. A infertilidade é um problema conjugal mas tem uma representação diferente para homens e mulheres. Levando-se em consideração mitos e crenças socialmente partilhados, Avelar et al. (2000) acreditam que há uma associação entre fertilidade e virilidade por parte dos homens e entre fecundidade e feminilidade por parte das mulheres. Essa associação feita pelas mulheres relaciona-se ao objeto de estudo deste trabalho já que ele pretende focalizar e explorar as particularidades da vivência psíquica da infertilidade por parte da mulher na atualidade. O casal é afetado pela infertilidade feminina mas ela remete inexoravelmente à mulher, pois é no seu corpo que a gravidez se processa, ou não! A infertilidade obriga as mulheres a um diálogo com o seu corpo pois é ele que, afetado, inscreve uma realidade: a reprodução não se faz de forma natural.

32 22 A infertilidade, segundo Chatel (1995), apareceu discretamente e foi ganhando importância como questão à medida que a gravidez se tornava mais tardia, por ser adiada em virtude de uma dedicação profissional ou por uma dificuldade em se decidir pela maternidade e, ainda, à medida que as mulheres se tornavam cada vez mais exigentes, com pressa de engravidar sem demora, com medo de serem estéreis. A contracepção representou uma revolução para as mulheres. Uma das lutas levadas a cabo pelo movimento feminista era a da liberação da mulher que consistia numa tomada de poder em relação à procriação. Através da contracepção a ciência se aliou às mulheres na satisfação de sua demanda de poder escolher entre eu quero e eu não quero fazer um filho. Diante da infertilidade, mais uma vez as mulheres fazem uma demanda à ciência: querem retomar o poder sobre a procriação. A ciência, por sua vez, se mistifica ao conferir às mulheres a possibilidade de liberdade real e imaginária de fazer o que se quer quando se quer, e acaba por produzir novas formas de subjetivação. É neste contexto que as pacientes buscam a medicina, porta-voz dos avanços tecnológicos e científicos, buscam de forma explícita um tratamento para sua infertilidade, enquanto carregam silenciosamente suas fantasias e seus conflitos psíquicos aguçados pela infertilidade. 2.2 Revisão da literatura sobre a infertilidade feminina Em dissertação apresentada à PUCSP, intitulada Aspectos Psicológicos da Esterilidade Feminina, Yin (1987) realizou uma pesquisa com sete mulheres estéreis que consistiu de entrevistas e aplicação de teste projetivo TAT. O resultado de sua pesquisa apontou que a maternidade era desejada e idealizada

33 23 pelas mulheres e considerada como fundamental para a realização feminina. A infertilidade, então, abalaria o autoconceito das mulheres gerando sentimentos de frustração, culpa, vazio, fracasso, sentimentos de inferioridade em relação aos outros com prejuízo para seu relacionamento social e conjugal, inclusive sexual. O autor observou ainda um maciço uso de mecanismos de defesa por parte das mulheres para evitar confrontos diretos com seus conflitos. Na clínica pode-se perceber essa dificuldade pelo fato de, comumente, muitas pacientes se apropriarem dos detalhes médicos do tratamento da infertilidade, preocupando com os mecanismos concretos utilizados para sua fertilização como forma de evitar o enfrentamento de conflitos psíquicos que o acompanham; algumas vezes, a paciente sabe falar detalhes sobre exames e medicamentos mas não sabe falar de si e dos aspectos emocionais, que são difíceis de ser enfrentados. Pines (1990), psicanalista inglesa que se dedica ao tratamento de pacientes inférteis, diz que esses pacientes a fazem tomar consciência do profundo sofrimento emocional que experimentam. Ela afirma que no passado as pacientes tinham apenas as alternativas, aceitar que não poderiam ter filhos, ou optar pela adoção. Hoje, a tecnologia disponibiliza inúmeras opções de reprodução assistida e artificial. Contudo, para aceitar estes métodos é necessário primeiro aceitar sua incapacidade de engravidar naturalmente, vivenciando a vergonha e a culpa, que são elementos associados ao sofrimento emocional presente em situações de infertilidade. Para a autora, a confiança em sua capacidade de reproduzir é um componente importante da auto-imagem de homens e mulheres. Para a mulher, porém, a gravidez faz parte do processo de identificação com a mãe, uma identificação corporal que contribui para o cumprimento de um ideal de eu de uma

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