Educar na diversidade do MEC - Um projeto em dois Municípios do Brasil

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1 Educar na diversidade do MEC - Um projeto em dois Municípios do Brasil Windyz B. Ferreira, Mércia Chavier e Alessandra Mendes Neste artigo apresentam-se experiências desenvolvidas por dois municípios brasileiros a partir do Projeto Educar na Diversidade, implementado pela Secretaria de Educação Especial a partir de junho de O Projeto tem como objetivo preparar docentes da rede regular de ensino para inovar na sala de aula, usando metodologias de ensino participativas e mais conducentes à aprendizagem. Denominamos tais metodologias de ensino como inclusivas, pois constituem estratégias de ensino e aprendizagem planejadas para possibilitar a participação de todo(a)s estudantes na classe, mesmo aqueles que encontram maiores barreiras para aprender. O Projeto Educar na Diversidade adota o modelo de formação em cascata, isto é, são realizadas oficinas de formação de multiplicadore(a)s-educadore(a)s, que posteriormente vão disseminar as metodologias junto aos docentes das escolas de sua cidade e outros na sua região. No caso deste projeto os multiplicadores são educadore(a)s que atuam nas Secretarias de Educação dos Estados e dos 157 municípios brasileiros, que aderiram ao projeto. Experiência do Município de Santa Rita, Estado da Paraíba (Região Nordeste) A cidade de Santa Rita possui uma população pouco acima de 125 mil habitantes, dos quais mais da metade vivem na zona rural que é a maior responsável pela economia local, sustentada pela produção de cana de açúcar e de abacaxi. O sistema educacional local possui 25 escolas na zona urbana e 32 na zona rural, das quais 11 são creches e que, no total, atendem a alunos e alunas nos três períodos do dia. Em 2005, um decreto da Prefeitura assegurou a realização de eleições para Diretore(a)s de Escolas, cuja maioria é hoje constituída por ex-professore(a)s do Ensino Fundamental, atuando como gestores das escolas da rede. No Município há em torno de 130 gestores, atuando nas unidades escolares, sendo que, em uma parte das escolas da zona urbana, há um gestor para cada período de funcionamento da escola. Além disso, as escolas possuem supervisores educacionais que são educadores, cuja função principal é o apoio pedagógico aos docentes. A educadoras que assumiram a Coordenação de Educação Especial da Secretaria de Educação de Santa Rita constituíram uma equipe competente que, em sintonia, desencadeou um rico processo de mudanças e melhoria da qualidade de ensino nas escolas do Município, assim como de apoio específico aos estudantes com necessidades educacionais especiais.

2 O Município de Santa Rita, em parceria com o Ministério da Educação SEESP/MEC, através da Coordenação de Educação Especial, vem desenvolvendo ações de formação continuada, no sentido de apoiar as unidades escolares da rede de ensino para desenvolverem culturas e práticas inclusivas, a fim de criar bases sólidas no âmbito municipal para combater a exclusão educacional, particularmente do(a)s aluno(a)s com deficiência e de grupos vulneráveis que enfrentam barreiras para aprender. Quando o MEC realizou a oficina de formação de multiplicadores no âmbito do Projeto Educar na Diversidade (2006 Salvador-BA), a Secretaria de Educação do Município de Santa Rita enviou para a formação quatro profissionais: duas coordenadoras financiadas pelo MEC e outros dois membros da equipe financiadas pela Secretaria de Educação. Quando retornamos, criamos um grupo de estudos para implantação do projeto e decidimos que tal aconteceria em duas escolas apenas, para um melhor acompanhamento e também para ganharmos experiência na formação de docentes para o uso de estratégias inclusivas na sala de aula regular. A partir de então (Fevereiro de 2007) o Projeto Educar na Diversidade, foi implantado em duas escolas, com característica de projeto piloto, formando docentes para entender, respeitar e trabalhar, considerando a diversidade de estilos e ritmos de aprendizagem na sala de aula. Estas duas escolas participaram de formação até Dezembro de 2007, visando promover ações que contribuem para troca de idéias e experiências, além de disseminar estratégias de ensino inclusivas. A relevância deste Projeto motivou a sua expansão e, em Maio de 2007, iniciamos a formação de todo(as) supervisores(as) da rede de ensino com o intuito de formar multiplicadores deste projeto nas suas respectivas escolas. Supervisores são pedagogos(as) que atuam em posição de coordenação das atividades docentes nas escolas do Município, e assim ocupam a posição de lideres institucionais. Este trabalho de capacitação foi concluído em Agosto de 2007, a partir de quando iniciamos um processo de apoio e acompanhamento dos supervisores e docentes dentro de todas as escolas do Município. Nosso objetivo é assegurar a consolidação de práticas educacionais inclusivas nas salas de aula do ensino comum e promover a qualidade em educação, de forma a atender a todos(as) os(as) alunos(as) do sistema educacional. Assim, atualmente, o Projeto encontra-se em fase de expansão em toda a rede municipal contemplando 52 escolas, (22 urbanas e 30 rurais e 13 creches), com o objetivo de: desenvolver escolas para TODOS(AS) através do desenvolvimento de culturas, políticas e práticas escolares inclusivas, a fim de combater a exclusão educacional e social e responder à diversidade de estilos e ritmos de aprendizagem existentes nas escolas brasileiras; formar e acompanhar docentes para o uso de metodologias de ensino inclusivas;

3 preparar gestores, equipe de apoio e comunidade escolar em geral, incluindo os familiares, para apoiar o desenvolvimento docente pra promoção da inclusão escolar; transformar o ambiente escolar em um espaço acolhedor para todos(as), no qual o processo de aprendizagem seja colaborativo, continuo, valorize e responda às diferenças humanas; A avaliação deste projeto acontece de forma processual contínua, identificando os aspectos que eventualmente estejam dificultando a aprendizagem e a participação e observando os resultados favoráveis ao processo de inclusão que devem ser reforçados. Os resultados das escolas pilotos vêm evidenciando a reflexão sobre as práticas educativas, provocando mudanças de atitudes nas diversas relações entre escola e comunidade. Também já é percebível, no cotidiano destas escolas, o respeito peloss ritmos e estilos de aprendizagem dos(as) alunos(as). Neste processo verificamos a necessidade de envolver os gestores escolares diretores e diretoras das escolas. Como Santa Rita faz parte da grande João Pessoa, em Setembro de 2007 iniciamos a formação destes profissionais na Universidade Federal da Paraíba (nessa cidade), com oficinas do Projeto Educar na Diversidade. Desta forma, estamos buscando caminhos para acertar na construção de sistemas educacionais inclusivos. Percebemos que há ainda muito a ser feito, porém acreditamos que estes caminhos percorridos tem possibilitado a mudança de atitude de algumas pessoas na escola, na perspectiva de construir uma escola acolhedora para todos. Experiência do Município de Goiânia, Estado de Goiás (Região Centro Oeste) Goiânia é capital do Estado de Goiás e este Estado possui uma história de compromisso com a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais em sua rede de ensino. A Secretaria de Educação do Município de Goiânia em 2005 aderiu ao projeto Educar na Diversidade do MEC e iniciou uma série de atividades para apoiar o desenvolvimento de escolas municipais para serem cada vez mais inclusivas. Goiânia é capital do estado de Goiás, possui uma população de aproximadamente um milhão e meio de habitantes. A Secretaria Municipal de Educação-SME de Goiânia possui uma história de compromisso com a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais, em sua rede de ensino, que hoje abarca alunos e 6566 professores, em 156 unidades escolares de Ensino Fundamental e 100 unidades de Educação Infantil. Todas as unidades estão abertas à inclusão. Para execução do projeto, foram estabelecidos pela Coordenação de Goiânia, alguns critérios:

4 1. As escolas participantes deveriam ter alunos com Necessidades Educacionais Especiais - NEE, temporárias ou permanentes; 2. Os gestores das escolas indicadas foram convidados e poderiam fazer a opção de participar ou não do Projeto, garantindo assim o seu envolvimento; 3. A escola poderia participar com seu quadro de profissionais total ou parcial. 4. A formação aconteceria fora do horário de trabalho. Nesses critérios, as seis escolas convidadas para conhecer o Projeto Educar na Diversidade, fizeram opção de desenvolvê-lo. Dessa forma, ocorreu a formação de 20 h/a, dos profissionais. A formação acontecia sempre, as sextas-feiras à noite, sábados pela manhã e tarde. Como o projeto continha em seu desenvolvimento a pesquisa-ação, um grupo de 10 (dez) psicopedagogas, foram orientadas para desenvolver essa ação. Assim, passamos a observar e registrar aulas de professores envolvidos no projeto para posterior reflexões colaborativas sobre práticas de ensino inclusivas. A cada semana, as psicopedagogas reuniam-se com a coordenação do projeto e discutiam casos, encaminhamentos e ações posteriores para superação dos desafios e dificuldades enfrentadas pelos professores em salas de aula inclusivas, bem como, temas específicos. A formação centrada nas experiências dos professores, baseada em relatos de sucesso e insucesso, superação e dificuldade encontrada na prática pedagógica do dia-a-dia, fortaleceu o grupo e favoreceu a formação em serviço fundamentada no processo de ação-reflexão-ação, para superação das dificuldades apontadas, bem como, para socialização do sucesso alcançado. Como todo processo social que envolve relação humana, trocas diretas e convívio próximo, encontramos pontos positivos e algumas barreiras no desenvolvimento das ações, tais como, - Desconfiança de alguns professores: apesar da observação e registros serem feitos com a autorização dos professores, e esses terem acesso a todo registro, alguns demonstraram inicialmente ficar desconfortáveis com a presença do psicopedagogo em sala. Situação superada quando perceberam o objetivo, qual seja, a superação das dificuldades enfrentadas pelos professores em sala de aula inclusiva, adequando ou substituindo a metodologia por uma outra que melhor atendesse seu grupo de educandos; Pré conceito: o conceito prévio sobre alguns alunos e a ausência de conhecimento sobre a vida da comunidade atendida, inibiam as relações entre professores e educandos, o que comprometia o rendimento escolar;

5 Monotonia das aulas: a ausência e/ ou inadequação de recursos pedagógicos dificultavam a disciplina e, consequentemente, o processo de aprendizagem; Descontextualização dos conteúdos: os conteúdos apresentavam um hiato entre a vida do educando e o currículo proposto, gerando uma falta de interesse pelo tema trabalho; Os pontos positivos encontrados no percurso foram: Desmistificação de conceitos: a idéia de que educação inclusiva é a educação que trabalha com deficientes e que para que ocorra a educação inclusiva é necessário espaço e professores especializados, foram superados; Construção de alguns conceitos: se aprende melhor no coletivo; cada um apreende de forma única e individual; todos são bem vindos à escola; todos podem aprender, ainda que isso ocorra de forma diferente do que o professor espera; cada sujeito tem uma forma individual de melhor interagir com o objeto de conhecimento e de construir conceitos; a família e a comunidade escolar é parte importante do contexto educacional; Fortalecimento do Coletivo de Profissionais da Escola: se trabalha mais e melhor quando se trabalha com o outro; o educando que necessita de mais apoio é responsabilidade de todos os profissionais da escola (do Diretor ao porteiro) e não de apenas um professor; Redimensionamento da Prática: a ação-reflexao-ação sobre a própria prática, gerou mudanças significativas e qualitativas no contexto educacional; Trocas de Experiências: Os relatos de alguns profissionais serviram de apoio e estímulo para mudança de atitudes e adequação de metodologias dos colegas na mesma escola e das demais escolas envolvidas no projeto; Relatos de Experiências com Aspectos Negativos e Positivos: esses relatos, próximos da realidade vivida pelo professor, o identificou com o processo, acando por concluir que toda situação tem sempre os dois lados da moeda, e que dificuldades fazem parte da caminhada! No processo de construção do sistema educacional inclusivo, nossas reflexões em equipe nos levaram a compreender a necessidade de buscar recursos profissionais para disponibilizar à rede (escolas, professores, educandos) apoio na inclusão de crianças com necessidades educacionais especiais. Assim, em 2006, ocorreu a implantação do Centro Municipal de Apoio a Inclusão (CMAI) que constitui um espaço público de apoio à rede de ensino como um todo, cujos profissionais foram identificados na própria rede. Isto é, a equipe do projeto realizou nas escolas um levantamento de professores(as) concursados da rede de ensino e que também eram profissionais formados de áreas relevantes para o atendimento terapêutico (ex. fonoaudiólogas, psicólogas, psicopedagogas, etc.) porque foram cursando tais cursos ao longo de sua carreira como docente. Ou seja, identificamos

6 esses profissionais e lhes convidamos para fazer parte de uma equipe de apoio ao desenvolvimento de escolas inclusivas. Dessa forma, iniciamos com 66 profissionais distribuídos em dois centros (CMAI), localizados em duas regiões distintas de Goiânia, os quais oferecem apoio terapêutico educacional, por meio de equipes multiprofissionais, aos educandos com NEE, matriculados na rede regular de ensino. Considerações Finais As duas experiências acima iluminam alguns elementos relevantes no processo de promoção de sistemas educacionais inclusivos. O primeiro deles diz respeito à qualificação competências das profissionais que coordenam as ações no Município. Em ambos, fica clara a importância do envolvimento de experts e líderes na área de educação especial (aqui entendido como educação da pessoa com deficiência), mas que se qualificaram ao longo de anos e se desenvolveram profissionalmente em direção à concepção mais ampla de inclusão, ou seja, educação de qualidade para todo(a)s, incluindo aqueles grupos com necessidades educacionais especiais. A liderança das colegas que assumiram a coordenação dos projetos em seus respectivos Municípios, seu conhecimento aprofundado sobre educação inclusiva e seu compromisso com grupos vulneráveis deram base à constituição de equipes competentes e de planejamento de ações consistentes para promover mudanças nos sistemas educacionais. O segundo elemento que se destaca é o fato de que, embora o projeto tenha começado por um grupo pequeno de escolas (piloto), havia, desde o princípio, o compromisso com o desenvolvimento da ação na rede. Assim o piloto deixou de ser apenas mais um projeto na rede que compete com outros também de curta duração e passou a ser um processo de aprendizagem e qualificação para a expansão da ação em todas as escolas da rede e, neste caso, foram planejadas ações para assegurar tal crescimento. Enquanto em Santa Rita as supervisoras foram formadas como multiplicadoras, em Goiânia foram criados os CMAIS com recursos humanos de profissionais atuando como docentes na própria rede. Como terceira aprendizagem, a partir das experiências acima, devemos destacar a importância da política do Ministério da Educação de implementar um projeto nacional que tinha como objetivo formar gestores das Secretarias de Educação para atuar diretamente nas escolas, ou seja, institui um modelo de ação de órgão público inovadora na história do ministério que é de promover a ação de formação diretamente. Assim, as gestoras das Secretarias foram preparadas para entrar nas escolasde suas redes de ensino com olhos de educadoras e não mais de gestoras, com atitude de parceiras e colaboradoras e não mais de chefes com a função de monitorar. Uma ação que se desenvolve dentro da escola é mais efetiva do que (como tem sido prática corrente há muitos anos) ações de formação de caráter exclusivamente teórico, em ambientes alienígenas à educação, tais como hotéis e salas de cursos e oficinas em conferências.

7 O quarto elemento que estas experiências claramente revelam é que cada contexto é um contexto distinto, com distintas possibilidades de ação. Enquanto no Nordeste (Santa Rita) os recursos humanos especializados são limitados e, pode-se dizer, quase inexistentes, em Goiânia os mesmos existem e puderam ser utilizados. Tal aprendizagem é fundamental para iluminar que é necessária sempre uma visão aberta, sistêmica e contextualizada daqueles que coordenam ações no âmbito das políticas públicas para que estejam de fato em posição de escolha dos melhores caminhos para promover mudanças efetivas. Colocado de forma simples, não há como apenas importar e aplicar idéias, concepções e modelos sem pensá-los em cada contexto, com suas características políticas, históricas, humanas, econômicas, etc. Nas duas experiências apresentadas, observa-se claramente um foco na inclusão de pessoas com deficiência, contudo também fica claro que o princípio da inclusão perpassa a política pública e, portanto, o atendimento educacional especializado se extende para além do que a Secretaria de Educação Especial estabelece como alunos com necessidades educacionais especiais (ref. educandos com deficiência mental, física, auditiva e visual; transtornos global de desenvolvimento e superdotação e altas habilidades). Em ambas as secretarias os apoios oferecidos às escolas, docentes e estudantes transcendem a concepção restrita disseminada pelo documento Política Nacional de Educação Especial (www.mec.gov.br/seesp/publicações). As experiências acima servem apenas como um saboroso petisco para despertar nosso interesse em aprender mais com outros profissionais para prover mudanças nos sistemas educacionais e escolas com o fim de torna-los mais inclusivos. É claro que as barreiras e as turbulências no processo sempre acontecem e não são poucas. No entanto, os resultados permitem vislumbrar que há possibilidades ainda inexploradas, há caminhos desconhecidos e, principalmente, há potenciais humanos (líderes e experts) dentro de cada rede ainda não identificados, valorizados e utilizados para desenvolver escolas COM maior qualidade para todos(as). Windyz B. Ferreira, PhD Universidade Federal da Paraíba, Coordenadora do Projeto Colaboradoras: Profa. Dra. Mércia Chavier (Goiânia) Profa. Especialista Alessandra Mendes (Santa Rita)

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