UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA FACULDADE DE DIREITO CURADOR ESPECIAL: INCAPAZ CONFLITO DE INTERESSES ISABEL SE OH (13/ ) LUÍZA MALHEIRO (13/ )

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1 UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA FACULDADE DE DIREITO CURADOR ESPECIAL: INCAPAZ CONFLITO DE INTERESSES ISABEL SE OH (13/ ) LUÍZA MALHEIRO (13/ ) BRASÍLIA, 19 DE OUTUBRO DE 2014.

2 EMENTA Relativa ao Acórdão nº da 2ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. AGRAVO DE INSTRUMENTO. INVENTÁRIO. VIÚVA INCAPAZ REPRESENTADA POR HERDEIRO. CONFLITO DE INTERESSES. NOMEAÇÃO DE CURADOR ESPECIAL. NECESSIDADE. Tratando-se de viúva que, quando casada, o era pelo regime da separação convencional de bens, concorre ela com os descendentes na sucessão de seu ex-marido, na forma do inciso I, do artigo 1829 do CCB. Comprovada a incapacidade civil da viúva e o conflito no inventário, entre os interesses dela e do herdeiro que legalmente a representa, a nomeação de curador especial, consoante determina o artigo 9º, I, do CPC é de rigor.

3 INTRODUÇÃO Para se definir o instituto da curadoria especial, parte-se do conceito de capacidade processual, que consiste na aptidão de estar em juízo pessoalmente, na capacidade de representar-se nos tribunais e atos do processo (fator este que é atribuído às pessoas que possuem a capacidade de fato, em pleno exercício de seus direitos, isto é, as pessoas capazes). Da capacidade processual, então, define-se incapacidade. A incapacidade civil pode ser absoluta ou relativa, conforme os artigos 3º e 4º do Código Civil brasileiro. Os menores de 16 anos, os enfermos, os deficientes mentais e os que não puderem exprimir sua vontade, aos quais falta capacidade postulatória, bem como os menores de 18 e maiores de 16 anos, os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, os portadores de discernimento reduzido por deficiência mental, os excepcionais e os pródigos, cuja capacidade processual é limitada, estão em juízo respectivamente representados ou assistidos por seus representantes legais pais, tutores ou curadores. A partir da análise do ordenamento jurídico brasileiro em especial das normas de direito processual percebe-se uma especial atenção aos incapazes de praticar atos na vida civil por meio de normas protetivas que visam à defesa do hipossuficiente no processo, que está em situação de maior vulnerabilidade. Dentre vários exemplos desse tipo de normas, a que será analisada especialmente no presente trabalho será a do art. 9º, inciso I do CPC: O juiz dará curador especial: I- ao incapaz, se não tiver representante legal, ou se os interesses deste colidirem com os daquele Pode ocorrer, então, que esses incapazes não tenham representantes legais ou, ainda, tendo-os, seus interesses colidam com os deles. Em tais hipóteses, portanto, segundo Moacyr Amaral Santos, a representação ou a assistência desses incapazes farse-á através de um curador especial, um representando processual ad hoc, também conhecido como curador à lide. Dessa maneira, conforme o entendimento de Didier, a curadoria especial é uma forma de suprir a incapacidade processual. Nesses casos, o juiz deve nomear, até mesmo ex officio, um curador especial para proteger e resguardar os interesses do incapaz. No caso do inciso em questão, há necessidade de curador especial para a parte incapaz

4 (incapacidade absoluta ou relativa) civil quer por não possuir representante, quer por estar em litígio com ele, e este último caso é o que será abordado no acórdão a ser trabalhado- por isso a ênfase. Para fins de panorama, ainda cabem no instituto da curadoria especial os casos em que houver réu-revel citado fictamente (por edital ou por citação com hora certa) e os casos em que houver réu preso. Ainda segundo Didier, em termos de natureza jurídica, o curador especial é um representante judicial, e não material, porque sua atuação se restringe aos limites do processo: encaixa-se na figura da teoria da representação. Assim, o curador especial, consiste na figura que poderá ter funções diversas durante o processo, por meio de nomeação ad hoc, não representando ou assistindo a parte em todos os atos da vida civil, mas tão somente restrito ao processo em que foi nomeado, a fim de reequilibrar o processo. Não constitui o curador especial parte do processo, sendo esta aquele que se faz representado. Por isso a denominação curador à lide. O curador à lide, que se nomeia ao processualmente incapaz, representa-o, ou o assiste, até que ingresse o representante legal; a curatela especial é sempre temporária: no máximo, durará até o trânsito em julgado da decisão final. Dessa maneira, o curador especial não atua em todos os atos da vida civil daquele que representa, assiste ou garante o direito de defesa, o que não se diferencia no caso dos incapazes. Em termos de razão de ser do instituto, essa representação processual do curador à lide vida regularizar a relação jurídica processual integrando a capacidade processual de incapaz cujos interesses estejam em choque com os do seu representante. Também são nomeados curadores especiais para os idosos (maiores de sessenta anos) devido ao fator de restrição para o exercício da garantia de seus deveres e devida fiscalização de seus interesses. A função dos curadores nesta situação também não consistirá em representação e assistência ( no sentido da incapacidade relativa) se estes não se encontrarem em cenário de interdição.

5 DESENVOLVIMENTO A análise será, portanto, de um agravo de instrumento contra uma decisão da 2ª Vara de Órfãos e Sucessões da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília, que nos autos de inventário, nomeou defensor público como curador especial de uma viúva incapaz do de cujus. O agravante filho da viúva em síntese sustenta que sua mãe não seria herdeira do espólio de seu falecido pai, uma vez que seria casada sob regime de separação de bens, conforme pacto antenupcial. Além disso, por já ser curador de sua mãe desde 2009, não haveria a necessidade de nomeação de outro curador, uma vez que tal ato judicial dificultaria o exercício de seu encargo. Acrescenta ainda que a Defensoria Pública não deveria exercer tal encargo porque sua mãe auferia renda mensal de R$20.000,00 e que a curadoria especial, se necessária, deveria recair sobre advogado particular constituído. Em voto da Senhora Desembargadora Carmelita Brasil para julgamento do agravo de instrumento interposto por Victor Passuello, filho da viúva incapaz à qual a curadoria especial diz respeito, sustenta-se a concessão desta negando-se provimento ao agravo devido ao conflito de interesses da incapaz com a de seu representante (filho). O conflito descrito teria se dado devido à concorrência existente entre representada e seu curador habitual na partilha dos bens deixados pelo ex-marido da representada, pai do agravante. Afirma a desembargadora que a concessão do Curador Especial à incapaz visa a possibilidade de igual defesa por meio do princípio da igualdade, o qual se realizaria pela paridade de armas entre os litigantes. Presume-se que a viúva não poderia defender-se em igual amplitude à de seu filho, o qual não se pode fazer representante daquela com a qual se tem choque de interesses, sendo este motivo justificante da atuação de um Curador Especial. Friza-se, com a citação de Pontes de Miranda, Luiz Guilherme Marinoni e Daniel Mitidiero, que o afastamento do curador da ação não age de modo a se apreciar o caráter subjetivo da competência ou honestidade do representante, mas tão somente afastar a influência negativa que o conflito de interesses pode representar na esfera jurídica. Deve-se ressaltar que, apesar da nomeação de um curador especial para o processo que não o filho da viúva, este não será destituído de suas comuns funções

6 como curador de outros atos da vida civil de sua mãe, como o praticava até então. Nessa linha de raciocínio, corrobora Fredie Didier: Há situações em que há incapacidade processual, a despeito da existência de capacidade de direito material. A autonomia da relação jurídica processual autoriza que se identifique alguém com incapacidade apenas para a prática de atos processuais. Primeiro, o inciso I do art. 9º do CPC. Nomeia-se o curador especial para a parte incapaz (incapacidade absoluta ou relativa) civil: quer porque não possui representante, quer porque está em litígio com ele. [...]A nomeação de curador especial é uma técnica para equilibrar o direito de ação e o direito de defesa. (DIDIER JR. Fredie, Com grifos). Refuta-se o argumento do agravante de que a viúva não seria herdeira de seu exmarido citando o artigo 1829 do Código Civil, o qual profere o deferimento da sucessão legítima seguindo-se a ordem dos descendentes, em concorrência com o cônjuge sobrevivente (salvo exceções de separação obrigatória de bens, ou em casos de comunhão parcial ou universal, bem como da ausência de bens particulares); tem-se, portanto, como condizente a consideração da viúva como possível herdeira do falecido a partir de análise do artigo que o expressa mesmo na situação de separação convencional de bens adotado. A necessidade da nomeação de um Curador Especial seria reforçada ainda devido ao fato da viúva ser meeira de alguns bens a serem partilhados, o que pode ser indicativo de patrimônio significativo demandante de uma correta divisão patrimonial. Além disso, a afirmação do agravante de que a renda mensal de valor elevado (R$ ,00) pela viúva desconstituiria competência da Defensoria Pública de exercer o encargo da Curadoria Especial é refutado pela disposição expressa no artigo 4º XVI da Lei Complementar nº 80/1994, a qual profere: São funções da Defensoria Pública, dentre outras: XVI - exercer a curadoria especial nos casos previstos em lei Lei Complementar Nº 80, de 12 de Janeiro de Verifica-se, desta forma, que a escolha de atuação da Defensoria Pública não se restringe aos casos de hipossuficiência econômica, como também se amplia aos casos autorizados pela lei regulamentadora das funções deste órgão, como a Curadoria Especial, por exemplo.

7 CONCLUSÃO A concessão de curador especial para o caso da representada se apresenta como decisão mais coerente por melhor acolher os aparatos legais tanto no preenchimento dos requisitos da situação para que se desse a nomeação da Defensoria Pública como curadora especial, quanto ao considerar a viúva como herdeira concorrente de seus descendentes. Os argumentos do agravante, apesar de seguirem a linha de um senso comum decorrente da terminologia separação convencional de bens, não tomam por consideração que este regime não exclui todas as possibilidades de se herdar os bens do falecido cônjuge, excetuando-se os casos diferenciados já citados (separação de bens obrigatória ou outros casos de comunhão de bens). Por não se encaixar, portanto, nessas hipóteses, a viúva concorreria do mesmo modo com o agravante. Tal situação enseja o conflito de interesses entre o curador habitual e a representada, reforçado tanto pela incapacidade desta quanto por características do caso concreto, citando-se o fato da viúva ser meeira de bens de seu falecido marido. Dois pontos de convergência doutrinária devem ser destacados: primeiramente, a desembargadora, em seu voto, deixa claro que a questão é processual e em nada desmerece a atuação do representante legal da viúva, ponto ressaltado por Didier como pode ser visto ao longo do trabalho. Além disso, outro ponto relevante é a fixação da existência de conflito ou não de interesses conjunto de requisitos fundamentais para entendimento da jurisprudência sobre o assunto. No caso em questão, a desembargadora cita Marinoni e Mitiedro, ao colocar que: Há colisão de interesses quando o ganho de causa pelo menos [ no caso, incapaz] puder influir negativamente na esfera jurídica (ou moral) dos representantes. Basta o mais leve choque ou possibilidade de choque [com grifos assim como no voto] No caso em questão, após o esclarecimento de que a viúva poderia sim herdar os bens de seu falecido cônjuge, tornou-se claro o conflito de interesses. Mas sobre a fixação em si dos critérios, percebe-se que dependendo do caso, apenas com a possibilidade de choque já há a presunção de conflito de interesses, configurando uma proteção muito grande ao incapaz na legislação processual civil brasileira. Observa-se, desta forma, que não apenas o argumento da exclusão da possibilidade de herança da viúva como também a desnecessidade de curadoria especial

8 alegada pelo agravante é improcedente pela clara existência de conflito de interesses que pode ser instaurado em processo de inventário no qual um herdeiro concorrente ao outro o representa (considerando-se ainda a incapacidade da representada, a qual reforça a necessidade da atuação da Defensoria em seu papel designado por lei de curadoria especial). Assim, o posicionamento final é de que a decisão foi coerente ao concretizar o princípio da igualdade de partes (a partir da proteção da incapaz e da paridade de armas ) e ao superar, de maneira satisfatória a partir de base legal e doutrinária, todos os argumentos do agravante.

9 BIBLIOGRAFIA ALVIM, Arruda. Tratado de direito processual civil, V.2, P DIDIER Jr., Fredie. Curso de Direito Processual Civil. Introdução ao Direito Processual Civil e Processo de Conhecimento. 13ª Edição Editora Podivim. Volume 1. NERY JUNIOR, Nelson. Código de Processo Civil comentado e legislação extravagante. 9 ed. Rev. E atual. E ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil. 24 ed. Rev. E atual. Por Aricê Moacyr Amaral Santos e Maria Beatriz Amaral Santos Köhnen. São Paulo: Saraiva, 2005.

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