UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI MICHELLI CRISTIANE FERREIRA. CRIMES FUNCIONAIS CONTRA A NATUREZA: um enfoque à luz da Lei nº 9.

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1 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI MICHELLI CRISTIANE FERREIRA CRIMES FUNCIONAIS CONTRA A NATUREZA: um enfoque à luz da Lei nº 9.605/1998 Florianópolis 2009

2 MICHELLI CRISTIANE FERREIRA CRIMES FUNCIONAIS CONTRA A NATUREZA: um enfoque à luz da Lei n /1998 Monografia a à Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, como requisito à obtenção do grau de Especialista em Direito Penal e Processual Penal. Orientador: Professor Dr. Zenildo Bodnar Florianópolis 2009

3 PÁGINA DE APROVAÇÃO A presente monografia de conclusão do Curso de Especialização em Direito Penal e Processual Penal da Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, elaborada pela aluna Michelli Cristiane Ferreira, sob o título Crimes Funcionais Contra a Natureza à Luz da Lei n /1998 foi submetida em [data] à avaliação pelo Professor Orientador e pela Coordenação do Curso de Especialização em Direito Penal e Processual Penal, e aprovada. Florianópolis, novembro de 2009 Professor Dr. Zenildo Bodnar Orientador Professora MSc. Helena Nastassya Paschoal Pitsica Coordenadora do Curso de Especialização em Direito Penal e Processual Penal

4 TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Vale do Itajaí, a coordenação do Curso de Especialização em Direito Penal e Processual Penal e o Orientador de toda e qualquer responsabilidade acerca do mesmo. Florianópolis, 27 de novembro de 2009 Michelli Cristiane Ferreira Aluna

5 Dedico este trabalho ao meu amado filho, Nicollas, motivo maior de minha persistência na busca e no aprimoramento pessoal, profissional, espiritual, que, com paciência, compreensão e carinho, compartilhou comigo todos os momentos na conquista de mais um objetivo.

6 5 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, por ter me sustentado firme em meus propósitos e objetivos e por me guiar e iluminar meu caminho. À minha mãe, Terezinha, pelo apoio e força. Ao meu amor e companheiro, Hiram, pela força, compreensão e apoio dispensados em mais uma conquista. À minha irmã Márcia, pelo carinho e força, sempre presente nos momentos difíceis. A todos os profissionais que dedicam o seu trabalho e sua vida na preservação do meio ambiente, por um mundo mais justo e humano. E, por fim, ao meu Orientador e Professor Zenildo Bodnar, minha maior referência e exemplo de profissional na busca da Justiça, por todos os ensinamentos e orientação na elaboração deste trabalho.

7 6 RESUMO A importância do meio ambiente para a sobrevivência da espécie humana no planeta é questão pacificada. Não resta dúvida que a tutela jurídica do meio ambiente é instrumento que se faz premente para proteger o bem ambiental para as presentes e futuras gerações. Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988 representa um grande avanço na proteção do meio ambiente ao criar um capítulo exclusivo (art. 225 e ) sobre a matéria, estabelecendo a tríplice responsabilidade (administrativa, civil e penal) das pessoas físicas e jurídicas. Diante da relevância do meio ambiente, a Constituição erigiu-o a bem jurídico autônomo e de natureza difusa. A partir dessa premissa, foi editada a Lei Federal n /1998, denominada de Lei de Crimes Ambientais, que estabelece, entre outras, a responsabilidade administrativa e penal por condutas ou atividades lesivas ao meio ambiente. Nesse ensejo, buscou-se pesquisar o papel desempenhado pelos agentes ou funcionários públicos responsáveis pelo exercício do poder de polícia ambiental, que compõem os órgãos do SISNAMA, cuja atribuição é cumprir e fazer cumprir as legislações e normas afetas a proteção do meio ambiente. Diante do comando constitucional que impõe ao Poder Público o dever de defender e preservar o meio ambiente, infere-se o importante papel dos agentes ou funcionários que exercem o poder de polícia ambiental. Nesse contexto, trouxe-se a baila a necessidade da tutela penal para proteger o meio ambiente. Assim, buscando identificar as condutas e atividades lesivas ao meio ambiente e a administração pública praticadas por agentes ou funcionários que exercem o poder de polícia ambiental, pesquisou-se a responsabilidade penal à luz da Lei de Crimes Ambientais. Dessa forma, abordouse os crimes contra a administração ambientais, analisando-se individualmente os crimes previstos no art. 66 a 69-A da Lei n /1998. Palavras-chave: Poder de Polícia Ambiental. Tutela Penal Ambiental. Lei de Crimes Ambientais. Crimes Contra a Administração Ambiental.

8 ABSTRACT The importance of the environment for the survival of mankind on the planet is concerned pacified. There is no doubt that the legal protection of the environment is an instrument that is crucial to protect the environmental good for present and future generations. In this sense, the Constitution of 1988 represents a major advance in protecting the environment by creating a unique chapter (section 225 and ) in this regard, establishing a threefold responsibility (administrative, civil and criminal) of individuals and Legal. Given the importance of the environment, the Constitution has erected it to the legal autonomy is diffuse. From this premise, was published in Federal Law n. 9605/1998, called the Environmental Crimes Law, which provides among others, administrative and criminal liability for conduct or activities harmful to the environment. In this opportunity, we sought through the inductive method, research the role played by agents or officials responsible for the exercise of police power environment, which consists's constituent bodies, whose assignment is to observe and enforce the legislation and regulations affecting the protection the environment. Faced with the constitutional command that imposes upon the State the duty to defend and preserve the environment, it is clear the important role of the agents and officials who exercise police power environment. In this context, brought to fore the need for criminal oversight to protect the environment. Thus, seeking to identify the conduct and activities harmful to the environment and public administration committed by officials or employees who exercise the power of the environmental police, searched to criminal liability light of the Law of Environmental Crimes. Thus, together the following crimes against environmental management, analyzing individual crimes provided by art. 66 to 69 of Law No 9.605/1998. Keywords: Power Environmental Police. Law Enforcement Environment. Environmental Crimes Law. Crimes Against Environmental Administration.

9 8 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO TUTELA JURÍDICA DO BEM AMBIENTAL NOÇÕES GERAIS CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA DE BEM AMBIENTAL PRINCÍPIOS ESTRUTURANTES E A RESPONSABILIDADE AMBIENTAL ASPECTOS GERAIS Princípio do poluidor-pagador Princípio do usuário-pagador Princípio da prevenção Princípio da precaução Princípio da função socioambiental da propriedade Princípio do controle do poluidor pelo Poder Público Princípio da natureza pública da proteção ambiental Princípio do ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental TRÍPLICE RESPONSABILIDADE EM MATÉRIA AMBIENTAL Responsabilidade civil Responsabilidade administrativa Responsabilidade penal O PODER DE POLÍCIA AMBIENTAL PODER DE POLÍCIA ADMINISTRATIVO Origens e evolução Conceito Razão e fundamento Objeto e finalidade Competência Meio e campo de atuação Atributos e requisitos PODER DE POLÍCIA EM MATÉRIA AMBIENTAL Conceito... 57

10 Competência do poder de polícia em meio ambiente A TUTELA PENAL AMBIENTAL BEM JURÍDICO PENAL E A NECESSIDADE DA TUTELA PENAL DO MEIO AMBIENTE LEI DE CRIMES AMBIENTAIS (LEI N /1998): Aspectos Gerais Tipos penais em espécie: considerações gerais Dos crimes contra a fauna Dos crimes contra a flora Dos crimes de poluição e outros crimes ambientais Dos crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural Dos crimes contra a administração ambiental DOS CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO AMBIENTAL: CRIMES PRATICADOS POR AGENTES OU FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS COM PODER DE POLÍCIA AMBIENTAL Análise individual do art. 66 da Lei Ambiental Análise individual do art. 67 da Lei Ambiental Análise individual do art. 68 da Lei Ambiental Análise individual do art. 69 da Lei Ambiental Análise individual do art. 69-A da Lei Ambiental CONCLUSÃO REFERÊNCIAS... 91

11 10 1 INTRODUÇÃO A presente Monografia tem como objeto identificar e analisar a responsabilidade penal dos agentes ou funcionários públicos revestidos de poder de polícia ambiental, sob o enfoque da Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais). O seu objetivo é identificar e analisar à luz da Lei nº 9.605/1998, os tipos penais aplicáveis aos agentes ou funcionários públicos dotados do poder de polícia ambiental e que são incumbidos pela Constituição Federal de 1998 e demais normas infraconstitucionais, pela fiscalização e aplicação das leis e normas que tutelam a proteção do meio ambiente. Assim, pretende-se estudar a tutela penal ambiental prevista na Lei de Crimes Ambientais e discorrer sobre sua necessidade para a proteção do meio ambiente, enfocando especificamente aos Crimes Contra a Administração Ambiental. A pesquisa revela-se importante, em razão da necessidade cada vez mais premente de um eficaz sistema protetivo do meio ambiente, mormente por se tratar de bem erigido constitucionalmente a direito fundamental transindividual, de natureza difusa, de uso limitado e esgotável, complexo, frágil e indispensável à sobrevivência de todas as formas de vida no planeta. Nesse cotejo, destaca-se a previsão constitucional da responsabilidade penal (art. 225, 3º, CF), impondo ao Poder Público o dever de proteger o meio ambiente, bem como da responsabilidade penal prevista na Lei nº 9.605/1998. A partir dessa premissa, buscou-se destacar um dos principais sujeitos responsáveis pela aplicação das normas e leis protetivas, que, infelizmente, vem se destacado hodiernamente no cenário brasileiro em escândalos, envolvidos direta ou indiretamente com sujeitos ativos nos crimes ambientais. Assim, o estudo visa identificar e analisar as condutas delitivas que tais agentes públicos podem estar incursos e que prejudicam, direta ou indiretamente o meio ambiente, quer por sua inércia (omissão) ou ação, e que são passíveis da sanção penal. Para tanto, principia-se, no Capítulo 2, tratando da tutela jurídica do bem ambiental, estabelecendo noções gerais sobre a tutela ambiental, com sua

12 11 breve evolução histórica no nosso ordenamento jurídico pátrio, passando para o conceito jurídico do bem ambiental e sua natureza jurídica. No Capítulo 3, discorre-se sobre os princípios estruturantes do Direito Ambiental, destacando, além dos aspectos gerais e sem esgotar o assunto, alguns dos princípios do Direito Ambiental que estão ligados ao tema principal dessa Monografia, considerados, nesse caso, os mais relevantes. Descreve-se, ainda nesse capítulo, a responsabilidade ambiental pelos danos ao meio ambiente, que pode resultar na aplicação de tríplice responsabilidade da pessoa física ou jurídica, independentes entre si, quais sejam: responsabilidade civil, responsabilidade administrativa e responsabilidade penal. No Capítulo 4, centra-se no poder de polícia ambiental, tratando delimitar suas origens e evolução, conceito, razão e fundamento, objeto e finalidade, competência, meio e campo de autuação e atributos e requisitos do poder de polícia administrativa. Dentro do campo de autuação do poder de polícia administrativa, buscou-se discorrer sobre o poder de polícia ambiental, que é exercido pelos agentes e funcionários públicos que compõem os órgãos integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), cujas funções são jungidas à preservação e à proteção do meio ambiente, mediante licenciamento, autorização, fiscalização aplicação e execução das sanções administrativas, etc. No Capítulo 5, busca-se delimitar o tema central da Monografia, ao destacar a tutela penal ambiental, o bem jurídico penal e a necessidade da tutela penal do meio ambiente, cuja justificação dá-se em razão da relevância do bem ambiental e à necessidade desse tipo de tutela para a sua eficaz proteção, visto que as demais formas de tutela ambiental têm se demonstrado insuficientes. Buscou-se ainda, aprofundar-se na Lei de Crimes Ambientais, destacando aspectos gerais sobre a lei, aspectos positivos e negativos, com enfoque geral nos tipos penais que abrangem crimes contra a fauna e a flora, crimes de poluição, crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural e crimes contra a administração ambiental. Ao final, buscou-se aprofundar os estudos nos crimes contra a administração ambiental, comentando os artigos 66 a 69-A da Lei nº 9.605/1998, os quais encerram alguns dispositivos cujos sujeitos ativos podem abranger somente agentes ou funcionários públicos (crimes próprios) e outros

13 12 dispositivos abranger sujeitos ativos particulares e agentes ou funcionários públicos (crime comum). O presente relatório de pesquisa se encerra com as conclusões, nas quais são apresentados pontos conclusivos destacados, seguidos da estimulação à continuidade dos estudos e das reflexões sobre os crimes contra a administração pública ambiental, praticados por agentes ou funcionários públicos que estão revestidos do poder de polícia ambiental, cuja função estão jungidas a tão importante papel esculpido na Constituição, qual seja, a defesa e a proteção do meio ambiente. Para a presente monografia, foi levantada a seguinte hipótese: O ordenamento jurídico contempla os tipos penais que reprimem as condutas praticadas contra o meio ambiente por agentes ou funcionários públicos que exercem o poder de polícia ambiental, reguladas pela Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes Ambientais). Quanto à metodologia empregada, foi utilizado o método indutivo com base no ordenamento jurídico brasileiro e na doutrina. Nas diversas fases da pesquisa, foram acionadas as Técnicas do Referente, da Categoria, do Conceito Operacional e da Pesquisa Bibliográfica.

14 13 2 TUTELA JURÍDICA DO BEM AMBIENTAL 2.1 NOÇÕES GERAIS A degradação do meio ambiente representa um dos problemas mais preocupantes que a humanidade vem enfrentando desde a segunda metade do século XX, embora seja mais antiga, mas não de maneira acentuada como na atualidade. Sem dúvida, a degradação do meio ambiente passou a não só afetar o bem-estar social, mas ameaçar a qualidade de vida humana e sua própria existência no planeta. Historicamente, Trennepohl (2008, p ) destaca que o aumento do consumo dos meios naturais veio no fim do século XVIII, fomentada pela Revolução Industrial e pelo acréscimo populacional, em que o desenvolvimento tecnológico resultou no uso ilimitado da natureza e, por conseguinte, na degradação ambiental. No século XIX, houve o aprimoramento dessas técnicas, acelerando ainda mais o uso dos recursos naturais. Já no século XX, o fenômeno da globalização trouxe consigo o progresso científico ligado às ciências da natureza na busca desenfreada pelo uso dos recursos naturais, que até então eram considerados infinitos. No século XXI, surge o conflito entre o desenvolvimento tecnológico e a obrigação de estabelecer limites à própria capacidade de intervenção sobre o meio ambiente. Não obstante, é inegável que a preocupação ambiental mundial está intimamente ligada ao crescimento populacional e à redução dos recursos naturais, seja pelo uso irracional e desenfreado seja pela alteração provocada no meio ambiente pelas atividades humanas. Nas palavras de Luis Regis Prado (1992, p. 18): O desenvolvimento industrial, o progresso tecnológico, a urbanização desenfreada, a explosão demográfica e a sociedade de consumo, entre outros fatores, têm tornado atual dramático o problema da limitação dos recursos do nosso planeta e da degradação do ambiente natural fonte primária de vida. [...] [...] As leis básicas da natureza não foram revogadas, apenas suas feições e relações quantitativas mudaram, à medida que a população humana mundial e seu prodigioso consumo de energia aumentaram a nossa capacidade de alterar o ambiente. Em conseqüência, a nossa sobrevivência depende do conhecimento e da ação inteligente para preservar e melhorar

15 14 a qualidade ambiental por meio de uma tecnologia harmoniosa e não prejudicial. Quanto à problemática ambiental, Milaré (2009, p. 59, grifo do autor) alerta que o meio ambiente é questão de vida e morte do próprio homem ao esclarecer que: De outro lado, o processo de desenvolvimento dos países se realiza, basicamente, à custa dos recursos vitais, provocando a deterioração das condições ambientais em ritmo até ontem desconhecidos. A paisagem natural da Terra está cada vez mais ameaçada pelas usinas nucleares, pelo lixo atômico, pelos dejetos orgânicos, pela chuva ácida, pelas indústrias e pelo lixo químico. Por conta disso, em todo mundo e o Brasil não e nenhuma exceção o lençol freático se contamina, o ar se torna contamina, a água escasseia, a área florestal diminui, o clima sofre alterações, o ar se torna irrespirável, o patrimônio genético se degrada, abreviando os anos que o homem tem para viver sobre o Planeta. Isto é, do ponto de vista ambiental o planeta chegou quase ao ponto de não retorno. Se fosse uma empresa estaria à beira da falência, pois dilapida seu capital, que são os recursos naturais, como se eles fossem eternos. O poder de autopurificação do meio ambiente está chegando ao limite. Segundo Prado (1992, p.20), a questão ambiental emerge no terreno político-econômico e da concepção da vida humana, haja vista que a política ambiental deve buscar equilibrar e compatibilizar as necessidades de desenvolvimento e industrialização com a proteção, restauração e melhora do ambiente. Assim, o desenvolvimento econômico deve propiciar uma melhor qualidade de vida e bem-estar social. Nessa ceara, Milaré (2009, p. 64) faz uma importante digressão sobre a importância do desenvolvimento sustentável, na qual defende a ideia da possível e desejável conciliação entre o desenvolvimento, o meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida: É falso, de fato, o dilema ou desenvolvimento ou meio ambiente, na medida em que, sendo este fonte de recursos para aquele, ambos devem harmonizar-se e complementar-se. Compatibilizar meio ambiente com desenvolvimento significa considerar os problemas ambientais dentro de um processo contínuo de planejamento, atendendo-se adequadamente a exigência de ambos e observando-se as suas inter-relações particulares a cada contexto sociocultural, político, econômico e ecológico, dentro de uma dimensão tempo/espaço. Em outras palavras, isto implica dizer que a política ambiental não se deve erigir em obstáculo ao desenvolvimento, mas sim em um de seus instrumentos, ao propiciar a gestão racional dos recursos naturais, aos quais constituem a sua base material.

16 15 Baracho Júnior (apud SILVA, 2000, p ) afirma que a proteção ambiental é direito fundamental da pessoa humana, pois visa tutelar a qualidade de vida, na qual abrange a preservação da natureza em todos os seus aspectos e elementos essenciais à vida humana e à manutenção do equilíbrio ecológico. Historicamente, Trennepohl (2008, p.31) assinala que o meio ambiente foi apresentado como problema mundial na Conferência de Estocolmo 1 realizada em 1972, a partir da qual se buscou focalizar e enquadrar a necessidade de conservação e metas a alcançar para o desenvolvimento sustentável 2. Nas palavras de Prado (1992, p ), a tutela ambiental é uma exigência mundialmente reconhecida, baseada num imperativo elementar de sobrevivência e de solidariedade: a responsabilidade histórica das nações na preservação da natureza para o presente e futuras gerações, voltada aos valores essenciais relativos aos direitos fundamentais, como o direito à vida e à saúde. Destaca o mesmo autor (1992, p.19-22) que essa premissa de valores foi capitaneada pela Declaração de Estocolmo, a qual é um marco importante na conservação do meio ambiente, porque, além de permitir uma consciência ecológica, estabelece uma importante trajetória de proteção jurídica internacional do meio ambiente. Nesse sentido, Baracho Júnior (apud SILVA, 2000, p. 241, grifo do autor) ressalta que a Declaração de Estocolmo abriu caminho para que as Constituições supervenientes reconhecessem o meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental entre os direitos sociais, com características de direitos a serem realizados e direitos a não serem perturbados. Com muita propriedade, Milaré (2009, p. 67, grifo do autor) justifica a importância da tutela jurídica ambiental ao discorrer que: A superação desse quadro de degradação e desconsideração ambiental passa, necessariamente, por alterações profundas na compreensão e conduta humanas. É um avanço que pode ser conseguido, em primeiro lugar, através de adequada educação ambiental, nas escolas e fora delas. 1 Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, promovida pela ONU, contando com a participação de 113 países. A Conferência foi resultado da percepção das nações ricas e industrializadas da degradação ambiental causada pelo seu processo de crescimento econômico e progressiva escassez de recursos (MILARÉ, p. 59). 2 Segundo TRENNPOHL (2008, p.32), desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras atenderem também às suas.

17 16 Em segundo lugar, exige a criação (e implementação) de instrumentos legais apropriados, dado que, no embate dos interesses econômicos, só o Poder Público é capaz de conter, com leis coercitivas e imposições oficiais, a prepotência dos poderosos (poluidores e degradadores, no nosso caso), pois, onde há fortes e fracos, a liberdade escraviza, a lei é que liberta. No Brasil, a preocupação com a tutela jurídica do meio ambiente remonta desde as Ordenações dos Reinos 3 (Afonsinas, seguidas pelas Manuelinas, de 1521) ainda na época do Império, com a preocupação voltada a proteger a derrubada de árvores de lei (pau-brasil), e extração de minérios (ouro, prata, pedras preciosas), contrabandeados para Portugal e outros países (SIRVINKAS, 2008, p. 24). Entretanto, Silva (2003, p ) lembra que a concepção privatista do direito de propriedade constituía forte barreira à autuação do meio ambiente, mormente por importar restrições ao direito e aos limites à propriedade e à iniciativa privada, o que ensejou por muito tempo na desproteção do meio ambiente. Segundo Milaré (2007, p. 151), as Constituições que precederam a de 1988 quase não tratavam sobre o tema, o que revelava uma total despreocupação com o espaço habitado. A Constituição do Império, outorgada em 25 de março 1824, não tratou sobre a matéria, apenas sobre a proibição de indústrias contrárias à saúde do cidadão (art. 179, n. XXIV), o que, para época, representava um grande avanço (MILARÉ, 20008, p. 147). Somente em 1830 é que se fez constar no Código Criminal o crime de corte ilegal de árvores (SIRVINKAS, 2008, p. 25). A Constituição de 1891 atribuía competência legislativa para a União legislar sobre minas e terras. Sob sua vigência, surgiu o Código Civil de 1916, que previa normas destinadas a proteger direito privado e conflitos de vizinhança. A Constituição de ampliou o leque regrando sobre a proteção das belezas naturais e sobre o patrimônio histórico, artístico e cultural. Conferiu à União competência em matéria de riquezas do subsolo, mineração, águas, florestas, caça, 3 Ordenações Afonsinas, Livro V, Título LVI, proibia o corte deliberado de árvores frutíferas, Manoelinas, Livro V, Título LXXXIV, vedava caça de perdizes, lebres e coelhos com redes, fios e bois ou outros meios ou instrumentos capazes de causar dor e sofrimento na morte desses animais e Filipinas, Livro LXXV, Título LXXXVIII, parágrafo sétimo, protegia as águas punindo com multa quem sujasse ou matasse os peixes. (OLIVEIRA JÚNIOR, 2006). 4 A partir de 1934 algumas normas específicas sobre proteção do meio ambiente desenvolveram-se, como: Dec , de Código Florestal, substituído pelo vigente; Decreto-Lei n , de Código de Caça; Decreto , de Código de Águas e Decreto-Lei 794, de Código de Pesca. (SILVA, 2004, p.35-36).

18 17 pesca e sua exploração. Por seu turno, a Constituição de 1937 incluiu matérias de competência da União para legislar sobre minas, águas, florestas, caça, pesca e sua exploração; competência legislativa sobre subsolo, águas, florestas; e tratou da proteção das plantas e rebanhos contra moléstias e agentes nocivos. A Constituição de praticamente repetiu a anterior. A Constituição Federal de manteve a necessidade de proteção do patrimônio histórico, cultural e paisagístico, bem como atribuiu à União legislar sobre normas gerais de defesa da saúde e sobre jazidas, florestas, caça, pesca e águas. A Carta de 1969 insistiu na necessidade de proteção do patrimônio histórico, cultural e artístico. (MILARÉ, 2009, p.151). Sob o ponto de vista histórico, Sirvinkas (2008, p ) define a proteção jurídica do meio ambiente em três grandes períodos, a saber: I - período entre o descobrimento (1500) até a vinda da Família Real (1808), que previa normas isoladas de proteção de recursos naturas que se escasseavam; II período iniciado com a vinda da Família Real até a criação da Lei de Política Nacional do Meio Ambiente (1981), marcada por exploração desregrada do meio ambiente, tutelando apenas aquilo que tivesse interesse econômico; e III período que começa com a criação da Lei n , de (Lei de Política Nacional do Meio Ambiente) denominado fase holística, mecanismo formal de tutela jurisdicional do meio ambiente que consistia em proteger, de maneira integral, por meio de um sistema ecológico integrado. Akaoui (2003, p. 22) destaca a Lei de Política Nacional do Meio Ambiente como um dos diplomas mais notáveis ao propor que: [...] Inovador e corajoso, o referido compêndio legal teve o mérito de abarcar questões de ordem civil, processual, penal e administrativo que foram o start de uma nova realidade na defesa ambiental, conceituando meio ambiente, poluição, poluidor e outros termos de importância para a correta verificação da amplitude dessa tutela, posicionando-se positivamente 5 O Código Penal de 1940 definia no seu art. 271, o crime de corrupção ou poluição de água potável, que teve pouca aplicação em razão do seu adjetivo potável (SILVA, 2004, p. 38). 6 Na década de 60 e 70, houve a edição de algumas normas ambientais: Lei 5.318, de Política Nacional de Saneamento Básico; Decreto , de , no âmbito do Ministério do Interior, da Secretaria Especial de Meio Ambiente SEMA orientada para a conservação do meio ambiente e o uso racional dos recursos naturais (SILVA, 2004, p. 37); o Atual Código de Caça, instituído pela Lei 5.197/1967; e o atual Código Florestal, Lei 4.717, de (AKAOUI, 2003, p. 22). Destaca-se ainda a edição da Lei de Ação Popular (Lei n /1965) que enfoca a proteção aos interesses artístico, estético, histórico ou turístico (o meio ambiente, como termo jurídico, somente veio a ser inserido a partir da CF/88, art. 5.º, inciso LXXIII) e a Lei de Proteção da Fauna (Lei 5.197/67). (OLIVEIRA JÚNIOR, 2006).

19 18 quanto à responsabilidade ambiental do degradador, impondo sanções administrativas e penais independentemente das de natureza civil, entre outros avanços. No entanto, foi na Constituição Federal de 1988 que foi inserido pela primeira vez o termo meio ambiente 7, tido como o mais avançado do planeta em matéria ambiental, a partir do qual sugiram diversas normas de todos os níveis do Poder Público e da hierarquia normativa, voltadas à proteção do desfalcado patrimônio natural do país. (MILARÉ, 2009, p. 152). Nesse diapasão, Akaoui (2003, p. 23) ensina que: [...] fixou o Brasil como o País que contém a mais completa e avançada tutela constitucional do meio ambiente, servindo de exemplo a todos os demais países do mundo, que se curvam à sabedoria do constituinte brasileiro em trazer para o plano seguro da CF matéria de relevância vital a uma Nação. Nesse contexto, Sirvinkas (2007, p. 13) registra que, antes do advento da Carta de 1988, a proteção ambiental era regida pela Lei n , de , a partir da qual o Ministério Público passou a propor as primeiras ações civis públicas, em razão de não haver lei disciplinando o seu procedimento, o que, posteriormente, foi regrado com a criação da Lei nº 7.47, de (Lei de Ações Civis Públicas). Com o advento da Lei nº 9.605, de (Lei de Crimes Ambientais), o meio ambiente passou a ser protegido administrativa, civil e penalmente, o que será explanado adiante. Ao analisar a evolução da tutela constitucional do meio ambiente, Cruz (2009, p.29) ensina que, ao longo da história, passamos da desconsideração do meio ambiente como um valor em si, para sua elevação à categoria de bem jurídico dotado de autonomia própria. Silva (2004, p. 28) justifica a tutela jurídica ambiental a partir do momento em que a degradação do meio ambiente passa a ameaçar não só o bem-estar, mas a qualidade de vida humana e sua própria sobrevivência. 7 Coimbra apud Milaré (2009, p. 114) define meio ambiente como: [...] conjunto dos elementos abióticos (físicos e químicos) e bióticos (flora e fauna), organizados em diferentes ecossistemas naturais e sociais em que se insere o Homem, individual e socialmente, num processo de interação que atenda ao desenvolvimento das atividades humanas, à preservação dos recursos naturais e das características essenciais do entorno, dentro das leis da natureza e de padrões de qualidade definidos.

20 19 O preceito constitucional esculpido no art. 225, caput, 8 CF 1988, revela, de fato, a preocupação do legislador pátrio em resguardar um dos direitos fundamentais do ser humano: a qualidade da vida. 2.2 CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA DE BEM AMBIENTAL Em sentido amplo, Toledo (apud MASCARENHAS PRADO, 2000, p.61, grifo do autor) esclarece que bem é tudo aquilo que é valioso, que é necessário para o homem ao dispor que: são coisas reais ou objetos ideais dotados de valor, isto é, coisas materiais e objetos imateriais que, além de serem o que são, valem. Por isso são, em geral, apetecidos, procurados, disputados, defendidos e, pela mesma razão, expostos a certos perigos de ataques ou sujeitos a determinadas lesões. Antes do advento da Carta Magna de 1988, o ordenamento jurídico brasileiro previa duas espécies de bens: os de natureza privada e os de natureza pública, ambos previstos pelo antigo Código Civil de 1916 e repetido pelo de Destarte, o Código Civil de 2002 (CC) estabelece como bens públicos aqueles pertencentes à União, aos Estados ou aos Municípios e são divididos em três categorias, a saber: os de uso comum do povo (mares, rios, estradas, praças, ruas); os de uso especial (imóveis pertencentes aos entes federados); e os dominicais (que constituem como objeto de direito pessoal ou real dos entes federados). Já os bens particulares ou privados são os bens que não se enquadram nos bens públicos, pertencentes à pessoa natural ou pessoa jurídica de direito privado. Historicamente, Sirvinkas (2008, p ) esclarece que o conceito de bem ambiental está ligado ao direito de propriedade, que, com o passar do tempo, exerceu a função social e não apenas individual. O bem jurídico, que até então era somente suscetível de apropriação se tivesse valor econômico apreciável (qualidade 8 Brasil, Constituição Constituição da República Federativa do Brasil. Art Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

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