NOTA TÉCNICA. Gestão dos custos ambientais ligados ao negócio das Distribuidoras

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1 NOTA TÉCNICA Gestão dos custos ambientais ligados ao negócio das Distribuidoras Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 1

2 1 Objetivo Este documento tem por objetivo, apresentar elementos para discussão sobre os custos relativos à gestão ambiental nas Distribuidoras de Energia Elétrica, em seus aspectos legais e regulatórios, bem como a forma na qual tais custos tem sido tratados nos ciclos de revisão tarifária e reajustes anuais. 2 Contextualização Dentre os objetivos da regulação do setor de energia, destacam-se: - garantir a remuneração dos investimentos, condizente com os riscos associados ao setor; - promover políticas de incentivo a inovação e a busca pela redução de custos que possam refletir na otimização das tarifas; - proteger o meio ambiente e garantir a segurança da continuidade dos serviços de qualidade e das instalações. No âmbito das políticas e diretrizes governamentais ligadas às questões ambientais e visando garantir a observância do Art. 225 da Constituição Federal de 1988, Art Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações., foi instituída a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6938) em 1981, que tem o processo de Licenciamento Ambiental como um de seus instrumentos principais. A Resolução nº 237/97 regulamentou o Licenciamento e estabelece que: Art. 2º - A localização, construção, instalação, ampliação, modificação e operação de empreendimentos e atividades utilizadoras de recursos ambientais consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras, bem como os empreendimentos capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, dependerão de prévio licenciamento do órgão ambiental competente, sem prejuízo de outras licenças legalmente exigíveis. Ao longo dos últimos anos, a legislação ambiental teve avanços significativos no sentido de garantir que os impactos ambientais sejam mitigados e minimizados, sendo aqueles inevitáveis, devidamente compensados através de medidas de reparação direta, de compensação florestal, de remediação, educativas, etc, estabelecidas nas condicionantes aplicadas pelos órgãos ambientais municipais, estaduais e federais. Este fato é altamente positivo para a garantia da sustentabilidade, em seu sentido amplo de aplicação. A evolução da legislação ambiental é uma questão inevitável em função do desenvolvimento econômico do País e dos anseios da sociedade, que está cada vez mais, ambientalmente consciente. Porém, como consequência prática, a complexidade na interação com os diversos órgãos ambientais tem sido crescente em função das dificuldades negociais no momento do estabelecimento das medidas compensatórias, pois a decisão pela sua Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 2

3 dimensão e abrangência, tem sido mandatória, não cabendo às distribuidoras, oportunidades efetivas de negociação, sendo a maioria delas amparada pela legislação do setor. Tal situação configura um custo não gerenciável, de caráter impositivo, que não tem sido destacado e devidamente reconhecido nos processos de revisão tarifária. Isto tem impactado as concessões porque, na maioria das vezes, as agências reguladoras de governo não permitem repassar os adicionais de custos originados por essa evolução nas tarifas públicas, o que vem onerando os resultados financeiros das concessionárias. Adicionalmente aos processos de licenciamento, a legislação ambiental brasileira apresenta inúmeros outros instrumentos para garantir a qualidade ambiental dos ecossistemas existentes, estando entre os mais importantes, o Código Florestal, o Código de Águas, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a Lei de Crimes Ambientais e o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. De acordo com suas políticas ambientais e na busca da excelência na gestão e governança corporativas, além dos requisitos legais, regulamentares e contratuais, as Distribuidoras tem procurado aderir, voluntariamente, a outras iniciativas de garantia de desenvolvimento sustentável, tais como o controle e redução de gases de efeito estufa, além de participação na elaboração de Relatórios Sociais em padrões consagrados no mercado como o Modelo GRI, Ibase, ISE Bovespa, Indice Dow Jones e Instituto Ethos. 3 Dos fatos Em conformidade com a cartilha elaborada pela ANEEL Por Dentro da Conta de Luz, de outubro de 2008, destaca-se em sua parte introdutória, o texto transcrito a seguir: A ANEEL pretende, com essas informações, mostrar o papel e as limitações do órgão regulador nesse processo. Na incessante busca do equilíbrio entre definir um preço justo a quem paga pela energia e uma remuneração adequada a quem presta o serviço, com a segurança de um fornecimento contínuo, confiável e de boa qualidade, a ANEEL cumpre decisões legais que extrapolam sua competência decisória. Uma dessas decisões é a forte incidência de encargos setoriais e tributos no custo da energia, com grande impacto na tarifa. (grifo nosso). Portanto, é parte integrante da lógica da composição tarifária, o reconhecimento dos impostos e encargos não gerenciáveis advindos dos requisitos legais nas esferas federal, estadual e municipal. No atual ciclo tarifário, onde a figura da Empresa de Referência norteia a base de custos operacionais das distribuidoras, as despesas ambientais não são levadas em consideração de forma destacada, exceto pelo reconhecimento dos custos de PMSO( pessoal, material, serviços e outros) vinculados ao funcionamento de uma equipe de profissionais, isto é, apenas os custos diretos com a estrutura organizacional ( salário e seus encargos e tributos, mobiliário, TI, etc), constantes da Gestão Ambiental no Planejamento Técnico e Operação são analisados. Todos os demais custos de OPEX Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 3

4 vinculados à gestão ambiental ficam englobados nos custos gerais de O&M, competindo com os recursos da operação e manutenção do sistema. Como a maioria dos custos ambientais são advindos de condicionantes impostas pelos órgãos ambientais nos processos de licenciamento, pela legislação ambiental vigente e pelas taxas ambientais obrigatórias, itens estes que a distribuidora e a própria ANEEL não tem competência decisória, a análise da eficientização e dos ganhos de produtividade geral da distribuidora fica prejudicada, pois se mistura um custo externo e crescente não gerenciável a uma parcela B que é rotineiramente desafiada a ter redução pela busca da excelência da gestão. Tem-se portanto, uma incoerência de aplicação da lógica regulatória. É de conhecimento das distribuidoras que a metodologia para definição da revisão tarifária para o 3º ciclo está sendo trabalhada, objeto da AP 040/2010, porém, julgamos oportuno a inclusão desta contribuição para a justa e eficiente definição desta metodologia. Relaciona-se a seguir, exemplos da legislação ambiental vigente, sendo que algumas delas foram promulgadas ao longo do atual ciclo tarifário, provocando custos adicionais ao processo da gestão ambiental não considerados na Empresa de Referência: Lei 9985/00 Sistema Nacional de Unidades de Conservação Esta lei estabelece critérios de atuação em Unidades de Conservação ou próxima a eles, necessitando de inclusão de dados em sistema de geoprocessamento da empresa e constante atuação para respeito à legislação. Tem impacto no atendimento a ligações de unidades consumidoras localizadas em Unidades de Conservação, conforme Resolução 414/2010, em seu atrigo LEI n 4.771, de 15 de Setembro de 1965 Código Florestal - O art. 4 º paragráfo 4 estabelece que é de competência do órgão ambiental indicar previamente à emissão da autorização para a supressão de vegetação em área de preservação permanente (APP), as medidas mitigadoras e compensatórias que deverão ser adotadas pelo empreendedor. Estabelece ainda os requisitos para constituição de Reserva Legal de propriedades rurais. Decreto /2004 de 08 de janeiro de 2004 Política Florestal de Minas Gerais -Regulamenta a Lei nº , de 19 de junho de 2002, que dispõe sobre as Políticas Florestal e de Proteção à Biodiversidade no Estado de Minas Gerais; Constituição Federal Art Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 4

5 Lei 11428/2006 Lei da Mata Atlântica, atualizada em 24 de abril de 2011 Dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do bioma Mata Atlântica, e dá outras providências. Lei 9605/98 Lei de Crimes Ambientais Estabelece penalidades por atividades em desacordo com a legislação ambiental vigente. As penas previstas podem ser sanções administrativas, restritivas de direito ou privativas de liberdade, entre outras. Resolução CONAMA 237/97 - Dispõe sobre diretrizes para o Licenciamento Ambiental em território Nacional. Operar o sistema sem o licenciamento regularizado é considerado crime ambiental gravíssimo, passível de embargo da operação, aplicação de multas de até R$ ,00, enquadramento na lei de crimes ambientais, além se sansões do próprio agente regulador. Além disto, os empreendimentos anteriores a 1986 devem passar pelo licenciamento corretivo, gerando custos adicionais decorrentes das condicionantes e medidas de compensação estabelecidas pelos órgãos ambientais. Lei Estadual 12493/99 - Estabelece princípios, procedimentos, normas e critérios referentes à geração, acondicionamento, armazenamento, coleta, transporte, tratamento e destinação final dos resíduos sólidos no Estado do Paraná, visando controle da poluição, da contaminação e a minimização de seus impactos ambientais e adota outras providências. Decreto /88 - Aprova o regulamento para o transporte rodoviário de produtos perigosos, e dá outras providências. Lei 12305, de 02 de agosto de 2010 Política Nacional de Resíduos Sólidos Estabelece procedimentos para controle, transporte, armazenagem e destinação final de resíduos sólidos gerados nos processos produtivos. Tem impacto na logística reversa. Lei Estadual /06 - obriga os detentores de equipamentos contaminados a efetuarem a destinação gradativa dos PCB s até 2020 São Paulo De forma semelhante, são relacionadas algumas das taxas ambientais federais e estaduais recorrentes, aplicáveis nos Estados da Federação, inerentes à gestão ambiental e que também não são destacadas como custo não gerenciável na tarifa: Pagamento anual ao Instituto Estadual de Florestas IEF de Taxa Florestal para a obtenção da Autorização para Supressão de Vegetação para a execução dos serviços de Limpeza de Faixa de Linhas de Distribuição e Redes de Distribuição Rural de todas as Malhas Regionais da DDC Minas Gerais; Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 5

6 Pagamento ao Instituto Estadual de Florestas IEF da Taxa de Renovação Anual do Registro da Cemig Distribuição S/A como Adquirente ou Proprietário de Motosserras e Similares Pessoa Jurídica Categoria Minas Gerais; Pagamento ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA da Taxa de Renovação Anual das Licenças para Captura/Coleta/Transporte/Exposição ou Manutenção de Animais Silvestres da Cemig Distribuição S/A como Empresa Utilizadora de Recursos Ambientais - Pessoa Jurídica; Pagamento ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA da Taxa de Manutenção Anual do Cadastro Técnico Federal e Emissão do Certificado de Regularidade como Empresa Utilizadora de Recursos Ambientais - Pessoa Jurídica; Pagamento ao Instituto Mineiro de Gestão da Água IGAM da Taxa de Emissão de Outorgas de Direito de Uso de Águas Públicas Estaduais como Empresa Utilizadora de Recursos Ambientais - Pessoa Jurídica Minas Gerais; Pagamento de taxas ao Sistema Estadual de Meio Ambiente - SISEMA pela de renovação de Licenças Ambientais (Declaração de Dispensa de Licenciamento, Autorização Ambiental de Funcionamento-AAF e Licença de Operação) Minas Gerais; Soma-se aos aspectos já descritos acima, o fato de que a maioria das condicionantes ambientais ligadas aos processos de licenciamento ambiental dos novos empreendimentos (CAPEX) tem prazo de execução que extrapola o cronograma de implantação das instalações, não permitindo que todos os custos envolvidos sejam devidamente lançados nos processos de capitalização e na base de remuneração, por consequência. Com isto, os custos de OPEX acabam absorvendo mais estes montantes não reconhecidos na Empresa de Referência. Outro exemplo disto está na incorporação de redes particulares. Para conservação de faixas de segurança de linhas de transmissão e distribuição, a legislação paulista obriga a obtenção de autorização para roçadas e a reposição florestal (reflorestamentos). Por uma obrigação setorial, as concessionárias de distribuição de energia estão incorporando redes particulares, em sua grande parte sem as devidas regularizações ambientais, e a ANEEL não tem reconhecido os custos referentes à obtenção das autorizações e à reposição florestal nas tarifas, o que obriga as concessionárias a absorvê-los. A situação se agrava ainda mais pelo fato das concessionárias não possuírem área para o plantio obrigatório. As concessionárias devem receber em concessão, empreendimentos existentes que, em tese, não necessitem de regularização ambiental mediante obtenção de Licença de Operação. Porém, como o processo de licenciamento não estava devidamente regulamentado à época das licitações, a conservação da faixa de segurança dessas Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 6

7 linhas e redes (corte de vegetação) também necessita de autorização ambiental e, consequentemente, a respectiva reposição florestal. Conforme estabelecido em legislação estadual e federal, o órgão ambiental somente pode conceder essa autorização se o empreendimento estiver em situação regular perante o tema. Neste caso, as concessionárias estão sendo obrigadas a regularizar este passivo ambiental recebido em concessão para que possam ser conservadas as faixas de segurança das linhas, e a ANEEL não tem reconhecido estes custos nas tarifas de energia. Fato semelhante ocorre com as obras de adequação ambientais das instalações recebidas em concessão, bem como equipamentos contaminados com PCB existentes no Sistema, que necessitam também de investimentos para sua correção/adequação não reconhecidos. A municipalização dos licenciamentos também tem implicado em novas imposições de compensações ambientais localizadas, contribuindo para os prejuízos às Distribuidoras no tocante aos custos ambientais não reconhecidos. 4 Riscos do não cumprimento dos requisitos legais e regulatórios ligados ao Meio Ambiente Os principais riscos do não cumprimento dos requisitos legais e regulatórios, perante os aspectos ambientais, são: - Autuação pelo órgão ambiental, com aplicação de multas que podem chegar a R$ ,00, conforme legislação vigente; - Suspensão da licença de operação do Sistema Elétrico; - Prejuízo para a marca; - Impacto negativo nos índices Dow Jones, ISE Bovespa, PNQ e demais indicadores de Sustentabilidade universais; - enquadramento na Lei de Crime Ambiental, com suas implicações cíveis e jurídicas; 5 Considerações finais Diante do exposto, são propostas as seguintes ações: - Maior discussão junto à ANEEL para avaliar a justa forma de reconhecimento dos custos ambientais para o próximo ciclo, sendo estes considerados como não gerenciáveis e mandatórios; - Estabelecimento de regras claras para o controle e auditoria dos custos ambientais, e que possam ser destacadas e consideradas nas revisões tarifarias periódicas, observando-se ainda as particularidades das legislações estaduais e municipais; - Avaliação dos custos ambientais ocorridos durante o 2º ciclo para as Distribuidoras, para efeito de balizamento dos custos vindouros; Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 7

8 - Finalmente, partindo do princípio constitucional que cabe, também, à coletividade o dever de proteger o meio ambiente para a presente e futuras gerações, justifica-se a necessidade da ANEEL reconhecer os custos adicionais originados pela evolução da legislação ambiental, que visa atender aos interesses da própria sociedade, e que estes sejam considerados nas tarifas públicas de energia como forma de preservação do meio ambiente, uma vez que os maiores beneficiários dos serviços de energia é a própria sociedade. Caso isso não seja realizado, as concessionárias sempre ficarão com o ônus, não constituindo uma relação sustentável. Nota Técnica Gestão de custos ambientais na tarifa da Distribuidora V 1 Página 8

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