RELATO: REFORMA AGRÁRIA

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1 51 RELATO: REFORMA AGRÁRIA Luiz Antonio Ferreira de Santana*¹ Sílvia Cristina C. S. Santana*² Resumo A Reforma Agrária em âmbito nacional é um importante elemento empregado pelo Poder Estatal para a implantação de políticas públicas que visem uma melhor distribuição de rendas para as classes menos favorecidas. Observam-se pontos históricos da propriedade no Brasil, a partir de movimentos sociais acontecidos no passado até os dias atuais, considerando-se tópicos da importância da agricultura, a distribuição da terra e os legítimos possuidores das terras federais. A colonização oficial, a colonização particular e a usucapião tratam-se de elementos responsáveis pela consolidação do homem na terra, onde os órgãos promotores da reforma agrária visam normatizar a política fundiária no País, retratando os objetivos da reforma agrária, seu financiamento, a execução e administração da reforma agrária e os contratos agrários. Ainda, observam-se os aspectos relevantes no tocante à reforma agrária e o meio ambiente, onde alguns elementos, tais como a fauna e a flora, devem ser considerados intrínsecos à subsistência humana, sobretudo diante da necessidade da vida em harmonia entre o Homem e o meio que o circunda para a implementação da reforma agrária. Palavras-Chave: Reforma Agrária. Colonização. Meio Ambiente. Sustentabilidade. 1. História da Propriedade no Brasil A formação da propriedade rural no Brasil começou com a colonização portuguesa, que distribuiu o território em Capitanias Hereditárias que tinham grandes extensões. Com a instituição das Capitanias Hereditárias, criou-se uma sociedade de latifundiários que somente foi tocada com a Lei das Terras de 1850, mas sem ferir o direito adquirido. A mentalidade que se formou foi nessa base territorial. Criouse uma filosofia arraigada do homem ao campo, que venceu o tempo e continua, apesar do surto industrialista que existe, predominando na formação democrática da República. Por outro lado, o homem de indústria ainda não se capacitou de sua grande função sócioeconômica brasileira, porque em grande parte os capitães de indústrias saíram das elites rurais do

2 52 Norte, Centro e Sul, embora não se possa negar a grande e valiosa contribuição do elemento alienígena. Todos esses fatores regionais estruturam a política e a economia nacionais. Apesar do esforço que vem fazendo, ainda é o caudilhismo rural que predomina, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste. As representações políticas na Câmara, Congresso e Assembléia ainda são predominantemente do homem do campo e o proprietário latifundiário, sendo nesse meio que se formam os líderes políticos. No Brasil, conforme se tem destacado em estudos sociológicos, é evidente a sobrevivência da liderança rural. Disso decorre a dificuldade de uma reforma agrária que satisfaça o homem do povo e da indústria, esta contribuindo com a maior parcela de impostos para a manutenção da vida administrativa do Estado. No entanto, não se sabe o alcance, mas se pode prognosticar uma solução a médio prazo pelas medidas tomadas legislativamente. O primeiro passo foi dado com o Estatuto da Terra e seus regulamentos. A dificuldade maior surgiu da inexperiência legislativa nesse setor da vida nacional, tanto que o Estatuto da Terra tem vastíssima regulamentação, sem falar nas leis posteriores que o complementaram. Não foi fácil ao homem comum do campo e até mesmo ao intelectual rural conhecer e entender a mecânica dessa legislação. Não se pode negar que se está criando uma mentalidade nova em relação ao uso da propriedade rural, devendo a mesma ser explorada visando a produção para os mercados interno e externo. Para tanto, o fim da produção rural deve ser agressivo a fim de competir no mercado internacional em grande escala, devendo-se investir em meios materiais e humanos. A agricultura tradicional está se modificando economicamente, porque produz para o mercado, ou seja, se dirige para um grande processo de comercialização envolvendo aspectos industriais. O homem de empresa rural deve ter a mesma mentalidade daquele da indústria urbana, dispensando sempre que possível a intervenção estatal, que, infelizmente, se verifica por culpas dessas mesmas lideranças que procuram obter do Estado o máximo de vantagens. O Estado, por seu turno, não a devolve à comunidade os impostos que incidem sobre o lucro obtido. Não somente os prejuízos devem ser transferidos ao Estado, mas, quando há lucro este também deve ser entregue a ele, em parte, para que possa continuar com a liderança do processo de uma reforma agrária em moldes capitalistas. 2. A Importância da Agricultura

3 53 A agricultura é, e será ainda por alguns anos, o campo de batalha onde se decidirá a sorte nacional e sua configuração jurídica e econômico-social. Portanto, a reforma agrária não pode afastar-se dessa trajetória, se quiser alcançar algum êxito. A ordem é produzir sempre mais, otimizando os processos produtivos. Dentro desse esquema geral, a reforma agrária não pode esquecer que sua função precípua é a fixação do homem do campo à sua propriedade, em caráter profissional e com o objetivo de grande produção para o mercado, alcançando-se o objetivo da reforma agrária apontado no art. 1º, 1º, do Estatuto da Terra. Ressalta-se, no entanto, que a finalidade principal da reforma agrária é a melhor distribuição da terra, mediante modificações no regime de sua posse e uso. 3. Distribuição da Terra Na concepção da reforma agrária, a primeira medida a ser adotada é a distribuição de terra àquele que tem condições de explorá-la, visando o incremento para o aumento da produção nacional para os mercados interno e externo. Observa-se que colonização é a forma de se distribuir a terra, na sistemática da reforma agrária adotada no Estatuto da Terra, podendo ser oficial ou particular. A distribuição da terra tem uma constante na vida dos povos, por vezes com grandes disparidades nesta distribuição. A razão é lógica, porque a propriedade sempre esteve vinculada à família e foi sempre seu fundamento social e político. Colonização oficial, portanto, é a entrega de terras do Estado, devolutas ou não, em forma de propriedade familiar, àqueles que de dedicam à atividade rural. 4. Distribuição das Terras Públicas As terras públicas que podem ser distribuídas são as seguintes, na ordem prioritária: a) as propriedades da União, que não tenham outra destinação específica;

4 54 b) as reservadas pelo Poder Público para serviços ou obras de qualquer natureza, ressalvadas as pertinentes à segurança nacional, desde que o órgão competente considere sua utilização econômica compatível com a atividade principal sob a forma de exploração agrícola; c) as devolutas da união, dos Estados e dos Municípios. 5. Legítimos Possuidores das Terras Federais Conforme disposições do art. 3.º da Lei n.º 4.947/66, combinado com a Portaria n.º 812/91, no tocante aos legítimos possuidores das terras federais, deverá ser observado que o INCRA promoverá a discriminação das áreas ocupadas por posseiros, para a progressiva regularização de suas condições de uso e posse da terra, providenciando, quando for o caso, a emissão dos títulos de domínios. Não será prejudicado o posseiro-trabalhador rural que ocupar terras devolutas da união por um ano, porque se lhe dá preferência na aquisição de um módulo rural, conforme for fixado para a região, de acordo com as prescrições legais, conforme dispõe o art. 97 do Estatuto da Terra e o art. 188 da CF/1988. Para tantos, os foreiros, arrendatários, possuidores, ocupantes e quantos se julguem com direito sobre qualquer porção dos imóveis rurais pertencentes à União ficam obrigados a apresentar ao INCRA os títulos ou qualquer prova em direito permitida em que fundamentem as suas pretensões (Lei nº /66, art. 3º). Segundo a Portaria n.º 812/1991 do INCRA, são estabelecidos os requisitos para a alienação de terras públicas federais ocupadas e destinadas à atividade agropecuária, devendo-se ser observado que o pretendente não pode ser proprietário rural, em qualquer parte do território nacional, devendo explorar diretamente, por mais de um ano, o imóvel rural ocupado, com utilização adequada dos recursos naturais e preservação do meio ambiente. Deve manter residência no local ou em local próximo a ele, de modo que possibilite a sua exploração, e, ainda, ter na agropecuária a sua principal atividade, conforme disposição do art. 1.º. Deve-se observar que a dimensão da área a ser alienada deve restringe se ao módulo correspondente ao tipo de exploração desenvolvida no imóvel, ressalvadas as áreas efetivamente exploradas com situação jurídica constituída (art. 5º), competente os Superintendentes Estaduais

5 55 do INCRA para, em sua jurisdição, decidir sobre alienação de áreas de três módulos (art. 6º), cabendo ao titular da Diretoria de Recursos Fundiários decidir sobre alienação de área acima de três módulos (art. 16º). Ressalta-se que a alienação faz-se por venda direta ao ocupante, mediante outorga do título de Domínio, inegociável pelo prazo de dez anos, conforme dispõe o art. 8.º. 6. Colonização Oficial A colonização oficial deverá ser feita de preferência nas terras ociosas ou de aproveitamento inadequado, próximas a grandes centros urbanos e de mercados de fácil acesso, tendo em vista os problemas de abastecimento. Deverá ser priorizada a área de êxodo, observando-se locais de fácil acesso à comunicação de acordo com os planos nacionais e regionais de vias de transporte. Deve-se observar locais de colonização predominante estrangeira, tendo em vista a facilidade do processo de interculturação. Ainda, deve-se observar o desmembramento ao longo dos eixos viários, objetivando-se a ampliação da fronteira econômica do País. 7. Colonização Particular Para o processo de colonização particular, deve-se observar previamente uma regra de superdireito constante na CF/1988, de grande importância no estudo dessa colonização, destacando-se o princípio da função social da propriedade, preceito observado no art. 170, III, da CF/88. Não obstante, existem regras obrigatórias para que se possa colonizar determinada área particular, não bastando querer dividir em lotes a gleba para se ter uma colonização, devendo-se ter disciplina, sob pena de se cair em um desordenado fracionamento sem técnica e condições de aproveitamento econômico da propriedade rural. Ressalta-se que o projeto de colonização particular, para ser aprovado, tem que preencher certas formalidades, tais como: a) abertura de estradas de acesso e de penetração à área a ser colonizada; b) divisão dos lotes e respectivos piqueteamentos, obedecendo à divisão, tanto

6 56 quanto possível, e ao critério de acompanhar as vertentes, partindo a sua orientação no sentido de espigão para as águas, de modo a todos os lotes possuírem água própria ou comum; c) manutenção de uma reserva florestal nos vértices dos espigões e nas nascentes. d) prestação de assistência médica e técnica aos adquiristes de lotes e aos membros de suas famílias; e) fomento da produção de uma determinada cultura agrícola já predominante na região ou ecologicamente aconselhada pelos técnicos do INCRA ou do Ministério da Agricultura; f) entrega de documentação legalizada e em ordem aos adquirentes dos lotes. Com isso se pretende melhores condições de fixação do homem à terra e seu progresso social e econômico, conforme expresso no art. 630 do Estatuto da Terra. 8. Usucapião Observam-se preceitos legais importantes quanto à aquisição da propriedade por usucapião, sendo esta uma das formas de se adquirir a propriedade em geral. O art do CC/2002 e o art. 191 da CF/1988 dispõem sobre requisitos dessa aquisição, devendo a posse ser legítima e se caracteriza pelo uso do imóvel sem interrupção nem oposição, como se seu fosse, desde que tenha decorrido o prazo de 15 anos, ou outro prazo estabelecido no CC/2002, conforme a situação. Portanto, o possuidor rural que preencher os requisitos estampados na legislação maior e o art do CC/2002, poderá requerer ao juiz que declare por sentença a situação do seu imóvel. Reconhecida a posse legítima por sentença do juiz, esta servirá de título para a transcrição no Registro de Imóveis. 9. Órgãos Promotores da Reforma Agrária Observa-se que na criação da Reforma Agrária, através da Lei n.º 4.504/1964, é certo que o Governo Federal teria que criar a infra-estrutura para implantação da Reforma Agrária. Para isso deveria instituí-lo por lei, além de observar todos os demais prolongamentos necessários para atender os fins da Política Agrária.

7 57 Para a consecução do fim estabelecido na Lei n.º 4.504/1964, previamente à criação do Estatuto da Terra foram criados três Órgãos Estatais, tais como o INIC (Instituto Nacional de Imigração e Colonização), criado pela Lei n.º 2.163/1955, o SSR (Serviço Social Rural), criado pela Lei n.º 2.613/1962 e a SUPRA (Superintendência da Política Agrária), criada pela Lei Delegada n.º 11. Com o advento do Estatuto da Terra, visando atender as suas disposições legais, os Órgãos existentes foram reformulados e foram criados mais quatro outros órgãos gestores da Política Agrária nacional, tais como o IBRA (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária); o INDA (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário), destinado especificamente para a colonização, ocupando-se a prestar toda assistência técnica e material possível; o GERA (Grupo Executivo da Reforma Agrária) e o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), criado pelo Decreto-Lei n.º 1.110/2007, que atualmente é o órgão gestor da política agrária do Governo Federal. Hoje a Reforma Agrária é uma realidade, composta de vários órgãos de repartição de competências, cada um com suas finalidades próprias, corpo técnico, servidores, enfim, apresentando toda uma infra-estrutura e um patrimônio próprio, tanto é que todos os imóveis desapropriados por interesse social, após finalizada por sentença definitiva, são incorporados diretamente ao patrimônio do INCRA. 10. Objetivos da Reforma Agrária Dentro dos objetivos da política agrícola está a obrigação do Governo Federal da garantia de preços mínimos ao produtor, para que seja espoliado na ora da comercialização em face dos custos da produção. Ao lado desse programa, existe também a garantia de comercialização com oferta de armazenamento, facilidade de transporte e exportação, a fim de incentivar uma maior produção agrícola. Por conta desta obrigação legal, o Governo cria órgãos técnicos científicos para cuidar da pesquisa genética de plantas e animais, de defesas e combate de doenças animais, de pragas

8 58 nas lavouras, enfim, trata-se de um setor que tem dado excelentes resultados ao interesse nacional, como é o caso da EMBRAPA e outros órgãos criados por Governos Estaduais. Pode-se dizer, no entanto, que a iniciativa privada tem sido responsável pela evolução técnica e o desenvolvimento do setor rural em todas as regiões do País, principalmente na última década, colocado o Brasil na competividade no cenário internacional e na disputa de mercados de exportação. 11. Financiamento da Reforma Agrária Para a implantação de uma política de reforma agrária que fosse efetivamente viável, faz-se necessário o alicerce com os meios de financiamento e de assistência, até porque, sem criar tais mecanismos para o desenvolvimento da política agrária, seria o mesmo que tirar a terra de quem não produz para dar também a quem não irá produzir. Dentre as fontes de recursos e assistência técnica destacam-se o Fundo Nacional da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (FUNMIRAD), com finalidade de fornecer meios necessários de financiamento através dos órgãos incumbidos de execução, além do Banco da Terra, responsável pelo fomento da política agrária nacional. Salienta-se que os recursos repassados pelos fundos governamentais referem-se precipuamente às dotações consignadas no Orçamento Geral da União e em créditos adicionais; aos recursos do Fundo de Investimento Social (FINSOCIAL), nos termos da legislação vigente; as doações realizadas por entidades Nacionais ou Internacionais, públicas ou privadas; aos recursos oriundos de acordos, ajustes, contratos e convênios, celebrados com órgãos e entidades da Administração Pública das três esferas de governo; aos empréstimos de Instituições Financeiras, Nacionais ou Internacionais; e quaisquer outras fontes de recursos ao Ministério da Reforma Agrária. 12. Execução e Administração da Reforma Agrária

9 59 A lei do Estatuto da Terra determinou que a Reforma Agrária deverá ser executada por meio de planos periódicos, nacionais e regionais, com prazos e objetivos determinados, tudo conforme projeto específico aprovado pelo Presidente da República. Dois tipos de planos foram previstos pelo Estatuto da Terra, como sendo o Nacional e o Regional. No tocante ao Plano Nacional, a lei fixou alguns princípios que estão referidos no art. 34 de Estatuto da Terra, a saber: a) Delimitação de áreas prioritárias; b) Especificação dos órgãos regionais, zonais e locais que vierem a ser criados para a execução e administração da Reforma Agrária; c) Determinação dos objetivos que deverão condicionar a elaboração dos Planos Regionais; d) Hierarquização das medidas a serem programadas pelos órgãos públicos nas áreas prioritárias, nos setores de obras de saneamento, educação e assistência técnica; e) Fixação dos limites das dotações destinadas à execução do plano Nacional e de cada um dos planos regionais. Ressalta-se que para a aprovação do plano, já devem existir as áreas escolhidas, antecedendo quaisquer atos de desapropriação para que se destine. Os Planos Regionais serão elaborados atendendo determinados requisitos, tais como: a) Delimitação de área de ação; b) Determinação dos objetivos específicos da Reforma Agrária na região específica; c) Obras de infra-estrutura e os órgãos de defesa econômica dos parceiros necessários à implantação do projeto; d) Custo dos investimentos e o seu esquema de aplicação; e) Serviços essenciais a serem instalados no centro da comunidade; f) Renda familiar que se pretende alcançar; g) Colaboração a ser recebida dos órgãos públicos ou privados que celebrarem convênios ou acordos para a execução do projeto. 13. Contratos Agrários na Reforma Agrária

10 60 Os contratos agrários são contratos como os demais, apenas disciplinados por lei especial e norteados por princípios vários, de interesse público coletivo, que são inerentes à própria natureza da relação contratual agrária, objetivando evitar a exploração do homem pelo homem, ou a vontade do mais forte impor-se sobre o mais fraco, provocando desequilíbrio e a ofensa à isonomia. O contrato agrário é o acordo de vontades entre o proprietário ou possuidor do imóvel rural com aquele que pretende temporariamente trabalhar a terra em atividades agrícolas e pastoris, mediante o pagamento de uma renda ou frutos. Os contratos tipicamente agrários são apenas dois, reportando-se ao arrendamento rural e à parceria, que irão reger as condições acordadas entre as partes, geralmente o proprietário rural e o trabalhador, que efetivamente trabalhará a produção agrícola. Os contratos podem ser equiparados aos serem humanos, nascem, vivem e morrem, ou seja, são realizados (quando nascem), permanecem (quando estão em vigência) e depois se extinguem, pelo cumprimento da obrigação ou da execução (quando morrem). Para o controle dessas ações interpessoais, foi dada ao INCRA a competência para exercer a fiscalização e controle de tais contratos, inclusive atender reclamações. Entretanto, comumente isso não é praticado, certamente devido à complexidade das diversas regiões do País, bem como a complexidade do problema agrário. 14. A Reforma Agrária e o Meio Ambiente A Reforma Agrária trata da melhor distribuição da terra para fazer com que seja cumprida a função social da propriedade, preceito estampado na Carta Magna Nacional. A função social tem dois importantes aspectos, tais como o aspecto econômico, de tirar dela todos os bens necessários para a garantia alimentar e o bem estar do proprietário e dos seus empregados, além do aspecto social, que é a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente. O Direito Ambiental, devido a sua alta relevância em face de seu campo e objeto próprio de estudo, merece um tratamento especial aos olhos dos estudiosos, porque diz respeito a

11 61 interesses plurindividuais ou interesses difusos, dirigidos a certo número de indivíduos indeterminados, e, por isso, transcendem as simples relações de interesses individuais. A importância do meio ambiente cresceu tanto nestas últimas décadas que ganhou na Constituição Federal de as regras constantes do art. 225 e seus, no capítulo intitulado de DO MEIO AMBIENTE, como sendo um verdadeiro código de princípios fundamentais. Deixou evidente a todos que dessa norma vierem tomar conhecimento, hão de conscientizar que: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. 15. A Fauna, a Flora e a Reforma Agrária Neste aspecto, destaca-se o ponto mais importante a disposição do Código Florestal imposto pela Lei n.º 4771/65, sucedida pela Lei n.º 9605/98, as quais vieram para proteger as florestas e a vegetação natural. Ressalta-se que formam com essas leis o Código de Caça e Pesca, o Código das Águas e muitos outros diplomas legais que integram o Direito Ambiental Brasileiro, a fim da perspectiva de atingimento de um meio ambiente sustentável. No entanto, o ordenamento legal por vezes defrontam-se com situações de uso nocivo da propriedade rural, o que macula a tendência governamental da aplicação de uma política agrária compatível com a sustentabilidade desejada. Tendo em vista a punição de infratores dos preceitos estabelecidos na legislação ambiental, os infratores estão sujeitos às penalidades, especialmente expressas na Lei n.º 9605/95, que trata da Tutela Penal do Meio Ambiente. Destarte, as cominações penais a serem impostas aos infratores podem ser cíveis, que se referem à busca da reparação do dano moral e material; criminais, através de penas privativas de liberdade, multas e outras restritivas de direito, que são de competência do poder Judiciário; e administrativas, quando são aplicadas multas por infração no exercício regular do poder de polícia do Poder Público. Não obstante, é certo que todo proprietário quando realiza atividades de preparo, formação ou uso do solo, é obrigado a dirigir-se à repartição do IBAMA ou à Secretaria do Meio

12 62 Ambiente do respectivo Estado, com a finalidade de pedir autorização ou licença competente, a fim de manter o meio ambiente equilibrado no desenvolvimento da atividade agrária. Para isso, é necessário requerer e fazer a apresentação de um projeto de investimento, manejo e desmatamento, assim como reformas de pastagens, de reservas legais, ou quaisquer atividades que impliquem impacto ambiental ou ecológico da área a ser explorada. 16. Reforma Agrária como Ação Política A Reforma Agrária refere-se à própria fórmula de materialização da política fundiária nacional, consistente na democratização do direito de propriedade e da implantação da melhor distribuição da terra para otimizar a produção, a fim de garantir a produção agrícola nacional compatível com as necessidades sociais. Por conseguinte, a Reforma Agrária é um dos meios adequados e próprios para viabilizar o atendimento dos princípios fundamentais da Constituição Federal, pelos quais o Estado tem o dever legal para com os cidadãos de lhes dar uma existência digna, garantindo o mínimo necessário à sua subsistência. Ressalta-se que tal empreendimento confere ao País a observância do art. 25 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, da qual o Brasil é país signatário, que expressamente traduz que Todo ser humano tem direito a um nível de vida adequado que lhe assegure, assim como à sua família, a saúde, o bem-estar e, em especial a alimentação, o vestuário e a moradia. Considerações Finais Diante do exposto, por vezes a falta de cumprimento dos princípios fundamentais adotados pela República Federativa do Brasil tem causado o aumento de conflitos sociais, especialmente pela omissão do Poder Público de empreender as disposições constitucionais e as expressas na legislação extravagante, especificamente no tocante à política fundiária e ambiental. Portanto, a adoção de políticas públicas deve buscar o bem comum, a fim de buscar a implementação de uma política fundiária capaz de evitar a presença de latifúndios improdutivos,

13 63 fornecendo ao produtor rural condições adequadas de investimentos na produção agrícola, além de mantê-lo no campo e evitando, com isso, o êxodo para os grandes centros urbanos. Referências BORGES, Antonino Moura. Curso Completo de Direito Agrário. 2ª edição, São Paulo: Editur, 2007; BRASIL. Constituição (1988). Constituição [da] República Federativa do Brasil. Brasília, DF: senado Federal; BRASIL. Lei n o 4504, de 30 de novembro de Dispõe sobre o Estatuto da Terra, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4504.htm>. Acessado em: 01 jun BRASIL. Lei n.º 4947, de 06 de abril de Fixa Normas de Direito Agrário, Dispõe sobre o Sistema de Organização e Funcionamento do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, e dá outras Providências. Brasília: Presidência da república. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4947.htm>. Acessado em: 07 mar BRASIL. Lei n.º9605, de 12 de fevereiro de Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm>. Acessado em 29 maio BRASIL. Lei n.º 10406, de 10 de janeiro de Institui o Código Civil. Brasília: Presidência da República. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acessado em: 30 abr BRASIL. Portaria n.º 812/91, de 26 de agosto de Dispõe sobre os Requisitos para alienação de terras federais. Disponível em: <http://www.iterpa.pa.gov.br/iterpa/home?tela=legislacao&menuid=120>. Acessado em 07 mar OPTIZ, Silva C. B. Curso Completo de Direito Agrário. 2ª Ed. São Paulo: Saraiva 2007; Recebido em: 24/05/2011 Avaliado em: 28/06/2011 Aprovado para publicação em: 28/06/11

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