MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS

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1 EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA -- VARA CRIMINAL DA COMARCA DE BELO HORIZONTE MG O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS, por seus Promotores de Justiça que adiante subscrevem, no uso de suas atribuições, vem perante este Juízo oferecer DENÚNCIA em face de ADRIANO MAGALHÃES CHAVES, brasileiro, casado, funcionário público, portador da carteira de identidade MG e do CPF , filho de Jair Afonso Chaves e Maria de Magalhães Chaves, residente na Alameda dos Jacarandás, nº 898, Bairro São Luiz, no Município de Belo Horizonte - MG; MARIA CLÁUDIA PINTO, brasileira, solteira, funcionária pública, portadora da carteira de identidade MG e do CPF , filha de Hercole Pinto e Maria Rosa Pinto, residente na Rua Santa Catarina, nº 861, Ap 1201, Bairro Santo Agostinho, no Município de Belo Horizonte - MG; 1

2 ANDERSON MARQUES MARTINEZ LARA, brasileiro, solteiro, funcionário público, portador da carteira de identidade MG e do CPF , residente na Rua Gil Eanes, n 130, Bairro Vera Cruz, no Município de Belo Horizonte - MG; LUCIANO JUNQUEIRA DE MELO, brasileiro, casado, funcionário público, portador da carteira de identidade MG , filho de José Salomão de Melo e Maria Das Graças Junqueira de Melo, residente na Rua Vicente Risola, 1310, Ap 201, Bairro Santa Inês, no Município de Belo Horizonte - MG; DIEGO KOITI DE BRITO FUGIWARA, brasileiro, casado, advogado, portador da carteira de identidade , residente na Rua Professora Bartira Mourão, n 306, apto. 302, Bairro Brutitis, no Município de Belo Horizonte - MG; pelas práticas delituosas que passa a expor: Consta dos inclusos autos do Procedimento Investigatório Criminal MPMG nº que, no período entre 30 de julho de 2012 e 28 de fevereiro de 2014, ANDERSON MARQUES MARTINEZ LARA, DIEGO KOITI DE BRITO FUGIWARA, ADRIANO MAGALHÃES CHAVES, MARIA CLÁUDIA PINTO e LUCIANO JUNQUEIRA DE MELO, então funcionários públicos vinculados à Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) e prevalecendo-se de seus respectivos cargos, associaram-se para o fim específico de cometer crimes, retardaram e deixar de praticar, indevidamente, atos de ofício para satisfazerem interesses pessoais e de terceiros. 2

3 Consta que ANDERSON MARQUES MARTINEZ LARA e DIEGO KOITI DE BRITO FUGIWARA, então respectivamente Diretor Técnico e Superintendente da Superintendência Regional de Regularização Ambiental da Central Metropolitana (SUPRAM-CM), suprimiram e possibilitaram a ocultação, em benefício da MMX MINERAÇÃO SUDESTE LTDA e em prejuízo da coletividade, de documentos públicos de que não podiam dispor; sonegaram informações em procedimento de licenciamento ambiental; omitiram, no Sistema Integrado de Informação Ambiental (SIAM), declaração que dele devia constar, com o fim de prejudicar direito e alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante; retardaram, indevidamente, ato de ofício, para atender interesse pessoal; e deixaram de cumprir obrigação de relevante interesse ambiental insculpida no art. 199, XVIII e XXVII da Lei Delegada MG 180/2011 c.c. art. 74 do Decreto Estadual /2008. Consta que MARIA CLÁUDIA PINTO, Subsecretária Estadual de Gestão e Regularização Integrada, dirigida por ADRIANO MAGALHÃES CHAVES, então Secretário Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, ocultou, em benefício da MMX MINERAÇÃO SUDESTE LTDA e em prejuízo da coletividade, documentos públicos de que não podia dispor; retardou, indevidamente, ato de ofício, para atender interesse pessoal; determinou a sonegação de informações em procedimento de licenciamento ambiental e a omissão, no Sistema Integrado de Informação Ambiental (SIAM), de declaração que dele devia constar, com o fim de prejudicar direito e alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante; e ordenou que não fosse cumprida obrigação de relevante interesse ambiental insculpida no art. 199, XVIII e XXVII da Lei Delegada MG 180/2011 c.c. art. 74 do Decreto Estadual /2008. Consta ainda que LUCIANO JUNQUEIRA DE MELO, atuando como Coordenador do Núcleo de Atendimento aos Projetos Públicos e Privados da Subsecretaria Estadual de Gestão e Regularização Integrada, auxiliou MARIA CLÁUDIA a subtrair-se à ação de autoridade pública, contribuiu para a sonegação de informações em procedimento de licenciamento ambiental e para que fosse retardado ato de ofício e não fosse cumprida obrigação de relevante interesse ambiental insculpida no art. 199, XVIII e XXVII da Lei Delegada MG 180/2011 c.c. art. 74 do Decreto Estadual /

4 O organograma abaixo demonstra a estrutura hierárquica desta poderosa e subreptícia associação criminosa que, atuando nas sombras da Administração do Sistema Estadual de Meio Ambiente, patrocinava interesses privados e omitia-se quanto aos seus deveres funcionais em detrimento do meio ambiente ecologicamente equilibrado: Segundo se apurou, em 27 de julho de 2012, os analistas ambientais da SUPRAM- CM Gustavo de Araújo Soares e Igor Rodrigues Costa Porto, durante a instrução de procedimento de licenciamento nº /2003/018/2010 referente às atividades da empresa mineradora MMX Sudeste Mineração LTDA, elaboraram o auto de fiscalização nº 59631/2012 e o auto de infração nº 53186/2012. Este último determinava o embargo das atividades da aludida empresa devido à degradação ambiental que podia resultar em impactos negativos graves e irreparáveis ao patrimônio natural e cultural nas áreas de ocorrência de cavidades subterrâneas da Mina Serra Azul. Tais documentos públicos foram encaminhados ao Diretor Técnico ANDERSON em 30 de julho de 2012, por meio do MEMO nº 382/2012/SEMAD/SUPRAM CENTRAL, para que este efetivasse o embargo imediato das atividades, cumprindo a obrigação de relevante interesse ambiental conforme o disposto no art. 74 do Decreto Estadual /2008: 4

5 Art. 74. O embargo de obra ou atividade será determinado e efetivado, de imediato, nas hipóteses previstas neste Decreto. Tratando-se de auto de infração com influência direta na validade do licenciamento ambiental de gigantesca atividade minerária da MMX Sudeste Mineração Ltda, o embargo deveria ter sido imediatamente efetivado, a documentação correspondente (MEMO nº 382/2012/SEMAD/SUPRAM e seus anexos, Auto de fiscalização nº 59631/2012 e o auto de infração 53186/2012) sido juntada ao procedimento nº /2003/018/2010 e os autos de fiscalização e infração lançados no Sistema Integrado de Informação Ambiental, possibilitando, ao mesmo tempo, o controle social e o exercício do contraditório e da ampla defesa administrativa. Contudo, ANDERSON levou o caso ao então Superintendente da SUPRAM CM, DIEGO. Ambos ajustaram não efetivar imediatamente o embargo, ocultar o MEMO nº 382/2012/SEMAD/SUPRAM e seus anexos, incluindo o auto de fiscalização 59631/2012 e o auto de infração 53186/2012, sonegar suas informações do procedimento de licenciamento ambiental nº /2003/018/2010 e do Sistema Integrado de Informação Ambiental (SIAM) e enviar a documentação à Subsecretária MARIA CLÁUDIA em 07 de agosto de 2012; beneficiando a empresa MMX MINERAÇÃO SUDESTE LTDA que continuou exercendo suas atividades degradadoras sem qualquer sanção, em detrimento do meio ambiente. Tendo recebido o MEMO nº 382/2012/SEMAD/SUPRAM, o auto de fiscalização nº 59631/2012 e o auto de infração nº 53186/2012, MARIA CLÁUDIA ordenou que ANDERSON e DIEGO não efetivassem o embargo e entrou em contato direto com o então Secretário de Meio Ambiente ADRIANO. Este, após alguma indecisão, determinou que não fosse efetivado o embargo devido e que ninguém fosse ao empreendimento da MMX MINERAÇÃO SUDESTE LTDA. No seguinte trecho da interceptação telefônica realizada nos autos nº , MARIA CLÁUDIA descreve a Daniela Diniz como se deu o iter criminis: 5

6 MARIA CLÁUDIA: É. E outra coisa também Dani, é que a gente fica o tempo inteiro blindano demais o Adriano blindano demais a imagem do Estado, né? DANI: É. MARIA CLÁUDIA: Tentano mostrar também uma existência que não existe. DANI: Não. MARIA CLÁUDIA: Sei lá! DANI: A gente... MARIA CLÁUDIA: É. DANI: A gente passa uma mentira mesmo. É pra segurar a equipe também no mínimo pra todo mundo num parar. É isso; Mais a gente passa uma mentira! (...) Eu fico pensano até aonde que (...) eles tem Exatamente a ciência (...) Talvez por não ter tanta... Tanto acesso ao que o Adriano tá falano eles não tem isso tão aflorado. Acho... MARIA CLÁUDIA: É... É... menina e hoje chegou pra mim lá, uma... Duas Dr. Mauro, Dr. Mauro eu fiquei pensano (Vai cravar (...) das minhas costelas). Ele mandou hoje pra mim uma intimação, pra ir lá depô no... (MMX)? MMX fez uma... Uma lambança nas cavidades lá, nós fomos lá vi... º... Gustavo e o Igor fizeram um Relatório de Vistoria Relatório de Fiscalização passei... Eles passaram pro Anderson, o Anderson e Diego levaram pra mim e falaram: Ó Maria Cláudia, (...) parar a MMX DANI: Hum! MARIA CLÁUDIA: Eu falei não, então espera, vamo vê o que que vai dá... vê o que que decide o que que resolve; Aí, um dia eu conversava com o Adriano, ele; Não, pode ir lá parar a MMX tem problema não! DANI: Hum! MARIA CLÁUDIA: Aí, no dia tava tudo combinado que eu avisava pra ele; O Adriano, a gente ta olhano a MMX amanhã. Não não não vai não! Não vai não, porque não sei o quê... Ele falou isso umas quatro vezes sabe? (grifos nossos) Ato contínuo, ADRIANO e MARIA CLÁUDIA ocultaram os referidos MEMO nº 382/2012/SEMAD/SUPRAM, autos de fiscalização nº 59631/2012 e de infração nº 53186/2012, impedindo a juntada de suas informações ao procedimento de licenciamento ambiental nº /2003/018/2010 e no Sistema Integrado de Informação Ambiental (SIAM), e passaram a procurar diretamente a empresa para que apresentassem estudos, 6

7 de maneira a evitar o embargo e garantir a emissão da licença. Nisso, passou-se mais de um ano, no qual as atividades da MMX continuaram a ser exercidas e o patrimônio espeleológico continuou a ser impactado negativamente. Em 18 de junho de 2013, chegou ao conhecimento da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais, por meio do ofício nº 134/2013 oriundo do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, Patrimônio Cultural, Urbanismo e Habitação, que o documento de protocolo nº /2012, informando que o auto de fiscalização 59631/2012 e o auto de infração 53186/2012 com embargo das atividades da empresa mineradora MMX Sudeste Mineração Ltda, estranhamente não se encontravam juntados ao processo de licenciamento ambiental nº /2003/018/2010. O Ministério Público, então, oficiou por três vezes o Superintendente DIEGO solicitando o envio de cópia dos referidos documentos e foi informado que foram realizadas buscas dos documentos solicitados, sem que lográssemos êxito em localizá-los, aduzindo-se, em seguida, que os mesmos teriam sido enviados à Subsecretaria de Gestão e Regularização Ambiental Integrada (SGRAI/SEMAD) e recebidos em 07 de agosto de 2012 por MARIA CLÁUDIA PINTO. Na sequência, o órgão do Parquet expediu àquela subsecretaria o Ofício nº 1228/2013 (protocolado em 06/09/2013), requisitando cópia dos autos de fiscalização e infração, reiterado pelos ofícios nº 1556/2013 (protocolado em 01/10/2013) e 1872/2013 (protocolado em 29/11/2013), todos assinalando prazo de 10 (dez) dias para resposta. MARIA CLÁUDIA, dolosamente, passou a enrolar o Ministério Público no intuito de ocultar seus crimes e possibilitar a concessão de licença fraudulenta, conforme descreve no restante da mesma conversa telefônica supramencionada: 7

8 DANI: Hum! MARIA CLÁUDIA: E aí, ficou esse negócio; E... e... E a gente tentano resolver, pedino pra MMX apresentar os estudos pra reanalisar e conceder licença já com as habilitações feitas, (...) Enrola, não responde o Ministério Público. Eu fui enrolano, liguei pro Dr. Carlos Eduardo, enrolano... enrolano... Agora chega intimação pra depô no Inquérito. Sem ter mais como sustentar a falta de fiscalização e embargo em relação à MMX, a associação criminosa teve que adotar alguma providência para mascarar suas omissões e retardamentos injustificados. Em razão disso, foi ordenada a realização de uma fiscalização no empreendimento em 13 de dezembro de 2013 (mais de um ano depois). Tal fiscalização acarretou a emissão do Auto de Fiscalização nº e confirmou que o impacto ambiental a cavidades efetivamente ocorreu e se agravou por falta de embargo das atividades. Conforme relatado pelo analista ambiental Igor Rodrigues Costa Porto, havia ocorrido a supressão de cavidades naturais subterrâneas (A1, A2, A3 e A4) e em relação às cavidades A5, A e A7 não foi possível verificar se elas ainda existem, uma vez que se encontram em área de grande instabilidade. Ainda assim e sobejamente cientes os investigados dos danos ambientais que estavam sendo causados, não foi efetivado o auto de infração nº 53186/2012. ANDERSON, para transmitir uma falsa aparência de legalidade, emitiu novo auto de infração (auto de infração nº 62295) em 28 de fevereiro de 2014 (20 meses após a recomendação inicial de embargo). Até o dia 31 de março de 2014, a MMX MINERAÇÃO SUDESTE LTDA ainda não havia recebido qualquer auto de infração ou sofrido o embargo das atividades. Como se não bastasse tudo isso, MARIA CLÁUDIA ordenou a seu subordinado LUCIANO que a auxiliasse a esquivar-se da ação do Ministério Público, orientando ANDERSON e DIEGO para que alinhassem os depoimentos e ocultassem os documentos públicos em foco. LUCIANO promoveu várias ligações telefônicas e envio de mensagens SMS, em especial no dia 01/04/2014, ajustando o encontro entre 8

9 ANDERSON e MARIA CLÁUDIA para que tramassem a estratégia para ludibriar a atuação do Ministério Público, ocultando os documentos públicos que eram buscados e retardando a sanção administrativa em relação à MMX MINERAÇÃO SUDESTE LTDA: Data: Hora: 13:10:42 Maria Cláudia: (31) Luciano: aguardando dados Maria Cláudia afirma que prestará depoimento no Ministério Público sobre a empresa MMX. Ela diz: "Eu tenho que ler e estudar isso e conversar com o Diego no final de semana, pois ele (Diego) alinhou conhecimentos com o Anderson sobre o que falar." Assim, segundo apurações técnicas do Grupo de Combate às Organizações Criminosas, as interceptações telefônicas elucidaram a seguinte rede relacional: 9

10 Pelo acima exposto, o Ministério Público do Estado de Minas Gerais denuncia: A) ANDERSON MARQUES MARTINEZ LARA como incurso nos artigos 288, 299, parágrafo único, 305 e 319, do Código Penal e nos artigos 66 e 68 da Lei 9605/98, todos na forma do art. 69 do Código Penal; B) DIEGO KOITI DE BRITO FUGIWARA como incurso nos artigos 288, 299, parágrafo único, 305 e 319, do Código Penal e nos artigos 66 e 68 da Lei 9605/98, todos na forma do art. 69 do Código Penal; C) ADRIANO MAGALHÃES CHAVES como incurso nos artigos 288, 299, parágrafo único, 305 e 319, do Código Penal e nos artigos 66 e 68 da Lei 9605/98, todos na forma do art. 69 do Código Penal; D) MARIA CLÁUDIA PINTO como incursa nos artigos 288, 299, parágrafo único, 305 e 319, do Código Penal e nos artigos 66 e 68 da Lei 9605/98, todos na forma do art. 69 do Código Penal; E) LUCIANO JUNQUEIRA DE MELO como incurso nos artigos 288, 319 e 348, caput, do Código Penal e nos artigos 66 e 68 da Lei 9605/98, todos combinados com art. 29, parágrafo único do Código Penal. e requer que, após autuada esta, sejam os denunciados notificados para responderem por escrito no prazo de 15 (quinze) dias na forma do art. 514 do Código de Processo Penal, seja recebida a inicial e citados e interrogados, ouvindo-se as testemunhas abaixo arroladas, cumpridas as demais formalidades legais, até final CONDENAÇÃO. Rol de testemunhas: 1) Gustavo de Araújo Soares Rua Joanésia, 450, ap. 201, Serra, Belo Horizonte, MG; 10

11 2) Igor Rodrigues Costa Porto, funcionário público estadual Rua Espírito Santo, 495, 4º andar, Centro, Belo Horizonte, MG; 3) Cristina Kistemann Chiodi, funcionária pública estadual Rua Dias Adorno, 367, 8º andar, Santo Agostinho, Belo Horizonte, MG; 4) Edelfina Aparecida Guimarães, funcionária pública estadual, Rua Timbiras, 2941, Barro Preto, Belo Horizonte, MG; Belo Horizonte, 10 de abril de ANDREA DE FIGUEIREDO SOARES Promotora de Justiça Curadora do Meio Ambiente da Comarca de Belo Horizonte CARLOS EDUARDO FERREIRA PINTO Promotor de Justiça Coordenador-Geral das Promotorias de Defesa do Meio Ambiente por Bacia Hidrográfica MARCOS PAULO DE SOUZA MIRANDA Promotor de Justiça Coordenador da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais MAURO DA FONSECA ELLOVITCH Promotor de Justiça Coordenador das Promotorias de Defesa do Meio Ambiente das Bacias dos Rios Paraopeba e Rio das Velhas 11

12 MM. Juiz: 1 O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS oferece denúncia em 11 (onze) laudas, impressas apenas no anverso; 2 - Deixa, desde já, de propor suspensão condicional do processo aos denunciados em razão da somatória das penas mínimas cominadas nos delitos narrados na denúncia ultrapassarem um ano, seguindo orientação da Súmula 243 do Superior Tribunal de Justiça. Ademais, a conduta social e personalidade dos agentes, bem como os motivos e as circunstâncias das práticas criminosas não autorizam a concessão do benefício. atualizadas dos acusados; 3- Requer a juntada de Certidões de Antecedentes Criminais 4 - Conforme se depreende dos autos, os denunciados ANDERSON MARQUES MARTINEZ LARA, ADRIANO MAGALHÃES CHAVES, MARIA CLÁUDIA PINTO e LUCIANO JUNQUEIRA DE MELO em típica atividade de associação criminosa hierarquizada, atuando nas sombras do Sistema Estadual de Meio Ambiente, patrocinaram interesses privados perante a Administração Pública, omitiram-se quanto aos seus deveres funcionais, ocultaram documentos públicos, omitiram informações de procedimentos de licenciamento e do Sistema Integrado de Informação Ambiental (SIAM) e buscaram prejudicar a investigação criminal mediante 12

13 artifícios (determinação de vistorias tardias, delegações fictícias de atribuições, ofícios protelatórios, emissão de documentos públicos ideologicamente falsos, etc) que só foram possíveis devido aos cargos públicos que exercem. A Lei n 12403/11 alterou os artigos 282 e 319 do Código de Processo Penal e concretizou a possibilidade de suspensão do exercício de função pública, por meio de medida cautelar penal, por necessidade da instrução criminal ou quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais: Art As medidas cautelares previstas neste Título deverão ser aplicadas observando-se a: I - necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação ou a instrução criminal e, nos casos expressamente previstos, para evitar a prática de infrações penais; (grifo nosso) II - adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do indiciado ou acusado. Art São medidas cautelares diversas da prisão: VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais; (grifo nosso) Ambas as hipóteses são aplicáveis para o caso em foco. A manutenção do exercício de funções públicas pelos denunciados durante o trâmite regular da presente ação penal implicará em graves riscos da PRÁTICA DE NOVOS CRIMES AMBIENTAIS E CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. Já estão em curso novas investigações sobre condutas semelhantes efetivadas pelos acusados, indicando que o modus operandi narrado na inicial tem sido uma prática reiterada e contumaz, com ramificações em empresas de consultoria ambiental, escritórios 13

14 de advocacia e grandes empresas. O trecho abaixo de conversa telefônica demonstra a interferência direta na concessão de licenças ambientais sem as necessárias autorizações para intervenção em vegetação para as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH s) Quartel 1, Quartel 2 e Quartel 3 para atender a pressões ilegítimas: ADRIANO: Cê... num conseguiu terminar o negócio pra mim não? MARIA CLÁUDIA: Dá... do Quartel? ADRIANO: Não, das LT. MARIA CLÁUDIA: Então, Quartel! ADRIANO: Isso! MARIA CLÁUDIA: Quartel 1, 2, 3. ADRIANO: Hum hum. MARIA CLÁUDIA: Aconteceu um problema aqui no... no... nos quarenta e cinco do segundo tempo, porque eles não têm todas as autorizações de... de intervenção nas áreas. ADRIANO: Então emite ela condicionada, ele pode intervir naquelas que ele... MARIA CLÁUDIA: É isso é que nós vão fazer... até... eu pedi o Wesley pra fechar lá o parecer assim... eles vão mandar aí a gente vai citar (...) ADRIANO: Tá bom. Deixa é... isso fica pronto hoje ou amanhã cedo? MARIA CLÁUDIA: Ó Adriano, eu pedi pra hoje. Vão fazer, né? Faço votos que seja... ADRIANO: Eu tô aqui junto ao Governador, aí eu... eu desço aí. MARIA CLÁUDIA: Cê passa aqui. Tá... senão eu vou... ADRIANO: Quero deixar isso pronto hoje, por que... eles tão me pressionando demais com esse trem pra começar. Tão mobilizado lá faz um tempão! MARIA CLÁUDIA: Hum hum. ADRIANO: Tá. Eu passo aí daqui a pouco, tá? MARIA CLÁUDIA: Beleza! Tá jóia! O trecho abaixo de conversa telefônica demonstra o planejamento de MARIA CLÁUDIA para a emissão de documento fraudulento, com data retroativa, a fim de acobertar o descumprimento de decisão judicial: 14

15 4.2.4 Data: Hora: 14:07:37 Maria Cláudia: (31) Homem: aguardando dados HOMEM: Oi. MARIA CLÁUDIA: Ei, tudo bom? HOMEM: Oi Maria Cláudia! MARIA CLÁUDIA: Cê tá no núcleo? HOMEM: Alô! MARIA CLÁUDIA: Oi! Cê tá no núcleo? HOMEM: Tô, tô. Tô na sala da Sílvia. MARIA CLÁUDIA: Ah, tá! Aqui... eu tava precisando de um enorme favor seu. (...) de São José do Goiabal. A AGE ela precisa de uma comprovação que a gente suspendeu a licença do DER à época da decisão. A gente publicou a suspensão da licença ontem, só que a gente tinha que ter feito isso na época que saiu a decisão liminar. Então, eu tô pensando em fazer um ofício com... data retroativa pro DER... é... comunicando a suspensão da... da licença... cê acha que eles recebem isso com data retroativa lá? HOMEM: Olha, o que a gente foi... é... é... eu vou pedir pra conversar direto com o Zé Élcio... MARIA CLÁUDIA: É. HOMEM: É só na segunda-feira. MARIA CLÁUDIA: Por que? HOMEM: Porque ele não tá aí. MARIA CLÁUDIA: E por que é só com o Zé Élcio? HOMEM: Ah, com o Leomar... é... o Leomar morre de medo, e o Murilo... tá viajando. MARIA CLÁUDIA: É? Ah, então tá! Eu vou tentar pelo Adriano aqui. Aí... qualquer coisa eu te falo. HOMEM: Cê... cê... cê... cê quer que eu olho lá? Que às vezes o Frade aceita isso lá? Com o outro diretor. MARIA CLÁUDIA: Uai, pode! Aí cê me dá um toque? HOMEM: Do... do... do um toque. MARIA CLÁUDIA: Uai, é num vai mudar nada! É só pra atestar que nós... fizemos alguma coisa pra cumprir... a decisão. HOMEM: É, tá jóia! Ah, mas a de... MARIA CLÁUDIA: Viu? HOMEM: Mas a decisão não foi em tempo, viu? Num fala de imediatamente, num tem nada! A AGE que tá lendo assim! MARIA CLÁUDIA: É não, mas num... juridicamente não é assim não. A partir da data de publicação. HOMEM: Tá, eu converso lá. MARIA CLÁUDIA: Tá? Então tá bom. 15

16 Registre-se que mesmo depois de ter deixado o cargo de Secretário de Meio Ambiente, o acusado Adriano (conforme áudios interceptados) continua a exercer influência direta sobre Maria Cláudia, determinando a prática de atos ilícitos para favorecer empresas, sobretudo de mineração. Além disso, prejudicará imensamente a INSTRUÇÃO CRIMINAL, pois os increpados conservarão a ascendência hierárquica sobre testemunhas, o acesso aos documentos públicos que comprovam as práticas ilícitas cometidas e a possibilidade de produção de provas forjadas (ofícios com datas retroativas, autos ideológica ou materialmente falsos, inserção posterior de dados no sistema informatizado, etc). O supracitado trecho de interceptação telefônica comprova que os acusados já utilizaram destes expedientes, inclusive da emissão de ofícios fraudulentos com data retroativa. Necessário, pois, o afastamento dos acusados do exercício de funções públicas, conforme amplamente referendado pela do Superior Tribunal de Justiça: RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. AFASTAMENTO CAUTELAR DO CARGO DE POLICIAL CIVIL. POSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE ASSEGURAR A INSTRUÇÃO PROCESSUAL E EVITAR A CONTINUIDADE DAS PRÁTICAS DELITUOSAS DEMONSTRADA. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO A DIREITO LÍQUIDO E CERTO. RECURSO DESPROVIDO. 1. A decisão que determinou o afastamento cautelar do recorrente do exercício de qualquer função no âmbito da polícia civil, demonstra concretamente a necessidade da medida para resguardar a regularidade da instrução criminal e evitar a continuidade da prática delituosa, sem qualquer ilegalidade ou abuso de poder aferível na via do writ constitucional. 2. E não há violação a direito líquido e certo na aplicação da medida cautelar de suspensão do exercício de função pública, perfeitamente aplicável consoante entendimento jurisprudencial e doutrinário mesmo antes da previsão expressa trazida no inciso VI do art. 319 do código de processo penal, com redação dada pela Lei n. º / Refoge a via do mandado de segurança acolher as alegações de inexistência de indícios suficientes de autoria e materialidade do crime para justificar a 16

17 medida cautelar e de que o retorno do recorrente à atividade policial, em funções meramente burocráticas, em nada prejudicaria a ordem pública ou a ação penal em curso. 4. Recurso desprovido.(stj; RMS ; Proc. 2011/ ; RJ; Quinta Turma; Relª Minª Laurita Vaz; DJE 11/09/2013; Pág. 2196) (grifo nosso) Havendo suficientes indícios da materialidade dos delitos de corrupção ativa e passiva, advocacia administrativa e prevaricação, em concurso material, e da imputação da autoria aos denunciados, é de ser recebida a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal, com afastamento dos cargos dos agentes políticos (Desembargador, Juiz e Conselheiro do TCE). (STJ; Apn.460/RO, Rel. Ministra ELIANA CALMON, CORTE ESPECIAL, julgado em 06/06/2007, DJ 25/06/2007, p. 209) A gravidade dos fatos narrados na denúncia, juntamente com indícios tidos pela Corte como suficientes de materialidade e de autoria, fundamentam a necessidade de afastamento do cargo, enquanto pendente a ação penal, como decidido pelo STJ, em ocasião anterior. (STJ; QO na APn.331/PI, Rel. Ministro ALDIR PASSARINHO JUNIOR, CORTE ESPECIAL, julgadoem29/05/2008, DJe 18/08/2008) PENAL E PROCESSUAL PENAL - AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA CONTRA DESEMBARGADOR - COMPETÊNCIA DO STJ: ART. 105, I, "a", CF/88 - GRAVAÇÃO AMBIENTAL:LEGALIDADE - DENÚNCIA ANÔNIMA: LEGALIDADE - ORIENTAÇÃO DO STF - INÉPCIA DA INICIAL ACUSATÓRIA: INEXISTÊNCIA - CORRUPÇÃO ATIVA E PASSIVA (ART. 333, PARÁGRAFO ÚNICO E ART.317, 1,DO CÓDIGO PENAL) - DELITO DE CORRUPÇÃO ATIVA (DO CÓDIGO PENAL) - INDÍCIOS SUFICIENTES DE AUTORIA E MATERIALIDADE - AFASTAMENTO DO CARGO - POSSIBILIDADE - PRECEDENTES. 17

18 1. Gravação ambiental realizada por um dos interlocutores é prova lícita segundo orientação do STF. Precedentes. 2. Somente inequívoca deficiência, impedindo a compreensão da acusação a ponto de comprometer o direito de defesa leva à eventual inépcia da denúncia. 3. Robusta prova indiciária que dá sustentação à acusação, permitindo concluir pela materialidade e autoria, neste primeiro juízo de delibação. 4. Os denunciados negociaram vantagem indevida com o fim de retardar o andamento de ação penal em trâmite no Tribunal de Justiça da Bahia, praticando, em tese, corrupção passiva (no art. 317, 1º, do Código Penal). 5. Beneficiado com o atraso no andamento do feito, conforme prova indiciária, foi repassada vantagem indevida ao relator do processo, por intermédio de seu filho, praticando ambos corrupção ativa. 6. Pela gravidade do delito de que é acusado, praticado no exercício da judicatura, impõe-se, nos termos do art. 29 da LOMAN (LC n 35/79), o afastamento do magistrado das funções de Desembargador do TJ/BA, durante o curso da instrução. 7. Denúncia recebida, com o afastamento do magistrado das suas funções. (STJ; APn 644/BA, Rel. Ministra ELIANA CALMON, CORTE ESPECIAL, julgado em 30/11/2011, DJe 15/02/2012) Assim, tendo em vista o poder de cautela que é conferido a Vossa Excelência pelos arts. 282 e 319, VI, do CPP, por conveniência da instrução criminal e por haver justo receio da utilização dos cargos para a prática de infrações penais acarretando desprestígio da Administração Pública e ocorrência de novos impactos 18

19 ambientais irreparáveis requer o Ministério Público seja determinada a imediata SUSPENSÃO DO EXERCÍCIO DE FUNÇÃO PÚBLICA pelos acusados ANDERSON MARQUES MARTINEZ LARA, ADRIANO MAGALHÃES CHAVES, MARIA CLÁUDIA PINTO e LUCIANO JUNQUEIRA DE MELO. Belo Horizonte, 10 de abril de ANDREA DE FIGUEIREDO SOARES Promotora de Justiça Curadora do Meio Ambiente da Comarca de Belo Horizonte CARLOS EDUARDO FERREIRA PINTO Promotor de Justiça Coordenador-Geral das Promotorias de Defesa do Meio Ambiente por Bacia Hidrográfica MARCOS PAULO DE SOUZA MIRANDA Promotor de Justiça Coordenador da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais MAURO DA FONSECA ELLOVITCH Promotor de Justiça Coordenador das Promotorias de Defesa do Meio Ambiente das Bacias dos Rios Paraopeba e Rio das Velhas 19

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