ASPECTOS PROCESSUAIS DA RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA

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1 0 FACULDADE DE DIREITO MILTON CAMPOS Programa de Pós-Graduação em Direito Empresarial ASPECTOS PROCESSUAIS DA RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA Herbert José Almeida Carneiro NOVA LIMA-MG 2008

2 1 Herbert José Almeida Carneiro ASPECTOS PROCESSUAIS DA RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA Dissertação apresentada ao curso de Pós-graduação Mestrado Strictu Sensu com área de concentração em Direito Empresarial da Faculdade de Direito Milton Campos, como requisito para obtenção do título de Mestre Orientador: Prof. Dr. José Barcelos de Souza Nova Lima-MG Faculdade de Direito Milton Campos 2008

3 2 Herbert José Almeida Carneiro A dissertação intitulada ASPECTOS PROCESSUAIS DA RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA, foi avaliada como requisito final para a obtenção do título de mestre em Direito, tendo sido. Foi analisada pela banca examinadora constituída pelos professores: Orientador Prof. Dr. José Barcelos de Souza

4 3 Dedico este trabalho, em especial, aos meus queridos pais, esposa e filhos. Aos meus pais, pelo cultivo do dom divino de minha vida. À minha esposa, Denise, pelo companheirismo incondicional, preenchendo com seu dedicado amor todos os momentos de nossas vidas; minha cumplicidade é o que tenho a oferecê-la. Aos meus filhos, Thiago e Naiara, razão de minha motivação maior para os desafios da vida; neles sintetizo o amor forte que bate em meu coração e justifica toda minha existência. À legião daqueles acreditam no avanço trazido pela responsabilidade penal da pessoa jurídica e que lutam incessantemente pela efetividade desse importante instituto jurídico-penal.

5 4 AGRADECIMENTOS A DEUS, pelo dom da vida, com saúde e paz, enchendo-me de disposição para enfrentar os desafios cotidianos, sem perder o estímulo para buscar crescimento intelectual-jurídico. legaram. Aos meus pais, Bruno e Ivoniles, pela dedicação e exemplo que me À minha esposa, Denise, pelo apoio constante, traduzido em gestos de incentivo e carinho permanentes. Aos meus filhos, Thiago e Naiara, fontes permanentes de minha inspiração, com gratidão a Deus por tê-los colocado em minha vida e enchê-la de alegria. Ao meu amigo, Wilson Benevides, que despertou em mim o interesse pelo mestrado. Aos ilustres Professores, Carlos Alberto Rohrmann e José Barcelos de Souza, pela dedicação dispensada e pelas constantes lições de vida e de direito. Aos meus assessores, Rafael e Silmara, pela presteza dispensada nas pesquisas que embasaram este trabalho.

6 5 RESUMO A responsabilidade penal da pessoa jurídica, introduzida na realidade jurídica brasileira, através da Constituição Federal de 1988 (artigo 225, 3, CF) e Lei n /98, tem despertado acirrados debates nos campos doutrinário e jurisprudencial, sobre sua efetiva viabilidade, porquanto representa, para alguns estudiosos da matéria, um rompimento radical e injustificado com a teoria geral do delito, que tem no indivíduo, enquanto pessoa humana, o único sujeito capaz de experimentar a sanção penal. Lado outro, posicionam-se aqueles adeptos da idéia de que a pessoa jurídica, definida pela ordem jurídica como sujeito de direitos e obrigações, está apta, nessa condição, a figurar como sujeito de relação jurídica pacífica (relações contratuais) ou litigiosa (conflito de interesses), e, destarte, plenamente capacitada para integrar a relação processual penal, não só no pólo ativo, mas, também no pólo passivo. Essa corrente entende que a teoria de Savigny atribuindo existência ficta à pessoa jurídica acha-se, de há muito, abandonada, e mais, atualmente, vige a teoria da realidade objetiva, que admite os entes coletivos como seres reais e, portanto, portadores de vontade real, reconhecidos e regulados por lei. Partindo desse entendimento, coerente com a visão mais moderna do Direito Penal pátrio, a imputação penal da pessoa jurídica deve encontrar instrumentos processuais eficazes para sua viabilização, sob pena de tornar-se letra morta da lei. Esse o foco central a ser trabalhado, com o reconhecimento inicial de que a atual legislação processual penal brasileira, sabidamente ultrapassada para os tempos atuais e carente de reformulação profunda, encerra sérias dificuldades para fazer valer o propósito legal de assentar no banco dos réus a pessoa jurídica violadora do meio ambiente. Até que venha legislação própria e adequada, cabe a utilização, por analogia, das leis processuais civil e penal e legislação do trabalho existentes no Brasil, para fazer com que a pessoa jurídica processada assuma a responsabilidade penal por seus atos atentatórios ao meio ambiente. Sem se descurar da necessidade de uma ação legislativa mais ampla e sistemática, certo é que, de imediato e efeito prático, simples alteração processual para possibilitar defesa preliminar à pessoa jurídica, antes de se sujeitar à ação penal, já poderia representar significativo avanço no tratamento da responsabilidade penal da pessoa jurídica, evitando, destarte, desnecessário acionamento da máquina judiciária, à toda evidência sobrecarregada e ineficiente para o cumprimento de seu mister. Palavras-chave: Meio Ambiente. Crime. Pessoa Jurídica. Responsabilidade Penal. Processo Penal. Eficácia da Lei Ambiental

7 6 ABSTRACT The juristic person's penal responsibility, which was introduced in the juridical Brazilian context by the Federal Constitution in 1988 (art. 225, parag. 3, CF) and the law 9605/98, has arisen heated debates in the fields of dogmatism and jurisprudence about its effective viability since some experts of the subject state that it strongly opposes the general theory of crime, which claims that the individual as a human being is the only one capable of suffering punishment. On the other hand, other scholars believe that the juristic person, which is defined by law as a subject of pacific relations (contract relations) or litigious ones (interest conflicts), is totally capable of integrating the penal code, either as a victim or a defendant. The former claim that the Savigny theory which gives the juridical person fictitious existence has been left behind and at the present moment the theory of the objective reality is the one valid the latter sees the corporations as real persons, therefore having free will, recognized and regulated by law. Taking all these facts into account as well as the most modern vision of the Brazilian penal code, the penal imposition of the juridical person must find efficient procedures to make it viable, otherwise it will become a pointless law. That is the main focus of the work. Acknowledging that the present Brazilian penal legislation is terribly old-fashioned and in need of a deep reformation, it will be extremely hard to impose a sentence to the juridical person which has committed an environmental crime. While a new law is not approved, it is necessary to use analogy between the existing civil, penal and labor laws to make the juridical person take full responsibility for the crimes against the environment. Moreover, a simple alteration in the juridical procedures, offering the opportunity for the enterprises to provide their defense before the lawsuit, might represent a great advance in the juridical person's penal responsibility. Consequently, the judicial system will not be overloaded. Key words: Environment. Crime. Legal entity. Penal responsibility. Penal process. Effectiveness of the Environmental Law.

8 7 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS DOU HC RBCCrim RT STF STJ TJMG Diário Oficial da União Habeas Corpus Revista Brasileira de Ciências Criminais Revista dos Tribunais Supremo Tribunal Federal Supremo Tribunal de Justiça Tribunal de Justiça de Minas Gerais

9 8 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO CONSIDERAÇÕES SOBRE A PESSOA JURÍDICA Conceito Notícia histórica Natureza jurídica Teoria da ficção Teoria da realidade objetiva Teoria da realidade jurídica Classificação Início da existência jurídica Capacidade e representação Fim da existência jurídica A RESPONSABILIDADE CIVIL COMO REFERÊNCIA A responsabilidade civil subjetiva ou da culpa e a responsabilidade civil objetiva ou do risco Conduta humana Dano Dano patrimonial Dano moral Culpa Nexo de Causalidade Definição Tipicidade Culpabilidade Imputabilidade A VISÃO INTERNACIONAL SOBRE A RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA Considerações gerais Países que adotam a responsabilidade penal da pessoa jurídica... 47

10 9 4.3 Países que não adotam a responsabilidade penal das pessoas jurídicas A RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO A responsabilidade penal da pessoa jurídica na Constituição Federal de A Lei n /98 Lei dos crimes ambientais A Lei ambiental: dispositivos genéricos O Código Penal Brasileiro (Decreto-Lei de 7 de dezembro de 1940) e a responsabilidade penal da pessoa jurídica Aspectos processuais definição da competência regramento A citação da pessoa jurídica representante legal no processo penal Efeitos do não-atendimento à citação por edital e revelia O interrogatório da pessoa jurídica considerações gerais Quem deve ser interrogado nos crimes ambientais envolvendo pessoa jurídica? A prática do interrogatório críticas ao modelo atual Crimes ambientais pessoa jurídica acusada defesa escrita para admissão ou não da denúncia sugestão de alteração processual Crimes ambientais denúncia recebida interrogatório da pessoa jurídica representante legal, gerente ou preposto indicado A RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA E A LEI DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS (LEI n /95) Considerações iniciais Transação penal Suspensão condicional do processo AS PENAS APLICÁVEIS À PESSOA JURÍDICA As espécies de pena no direito brasileiro (Lei n /98) A multa As restritivas de direitos Suspensão parcial ou total de atividades Interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade

11 Proibição de contratar com o poder público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações Prestação de serviços à comunidade Custeio de programas e de projetos ambientais Execução de obras de recuperação de áreas degradadas Manutenção de espaços públicos Prestação de contribuições a entidades ambientais ou culturais Públicas BREVES COMENTÁRIOS SOBRE ALGUMAS JURISPRUDÊNCIAS RELATIVAS À RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA NOS TRIBUNAIS PÁTRIOS A responsabilidade penal da pessoa jurídica no Supremo Tribunal Federal STF A responsabilidade penal da pessoa jurídica no Superior Tribunal de Justiça (STJ) A responsabilidade penal da pessoa jurídica no Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG) A responsabilidade penal da pessoa jurídica em outros Tribunais de Justiça Estaduais CONSIDERAÇÕES SOBRE O MODELO PENAL E PROCESSUAL PENAL FRANCÊS (LEI DE ADAPTAÇÃO) PARA TRATAMENTO DA RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA O Direito Penal Francês e a responsabilidade penal da pessoa jurídica O direito processual penal francês e a responsabilidade penal da pessoa jurídica CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

12 11 1 INTRODUÇÃO A responsabilidade penal da pessoa jurídica constitui inovação trazida para o ordenamento jurídico brasileiro pela Lei n , de 12 de fevereiro de 1998, que trata dos chamados crimes ambientais e, como tal, tem despertado amplo debate doutrinário e jurisprudencial, vez que, para alguns juristas respeitados, tem representado o rompimento com a tradição brasileira de um Direito Penal voltado estritamente para o ser humano, um retrocesso para as garantias individuais; para outros, não menos respeitados, trata-se de uma evolução necessária das Ciências Criminais. O tema é bastante polêmico e tem colocado em contraposição renomados estudiosos da matéria: uns, a sustentarem que as pessoas jurídicas são entidades fictícias, criadas pelo Direito, e que não possuem consciência e vontade próprias e, destarte, não têm capacidade para figurarem como sujeito de crime ("teoria da ficção"); outros, a entenderem que os entes morais são seres reais, e, portanto, portadores de vontade real, reconhecidos e regulados por lei, o que lhes garante condição de organismo social, portador de vontade complexiva, distinta da vontade individual de seus membros, com capacidade, sim, de realizarem fato ilícito ("teoria da realidade objetiva"). Some-se a isso, o fato de que as empresas, na atual quadra, exercem, nas suas mais variadas atividades, papel de destaque no Estado, cumprindo-lhes importante função social, que ora as coloca como benfeitoras da coletividade, ora como eventuais violadoras de valores importantes para a coexistência social. É nesse momento que o Direito Penal surge como mais uma via eficiente, a despeito das esferas administrativa e civil, de contenção da ilicitude, especialmente no tocante ao meio ambiente, quando se constata o crescente número de empresas envolvidas na exploração ambiental. O tema, como dito, é controvertido e está a exigir uma reflexão responsável, para tomada de posição consciente. Diante desse quadro, um trabalho que se propõe sério e comprometido com o estudo responsável do Direito Penal, em se tratando de tema de reconhecida importância, não se tem como furtar às considerações gerais sobre a

13 12 origem da pessoa jurídica, suas bases históricas, natureza jurídica, classificação, capacidade, e representação e a finalidade de sua existência jurídica. São definições que têm por propósito o entendimento sobre a complexidade da pessoa jurídica, de maneira a alicerçar uma visão mais consistente sobre a imputação penal que lhe é imposta pela Lei Ambiental, facilitando a adesão a uma das correntes de prós ou contras à matéria em foco. Da mesma forma, apresenta-se como de suma importância o estudo sobre a responsabilidade penal, à luz da responsabilidade civil, correlata com aquela, e, em assim sendo, impõe-se considerações específicas sobre a imputação penal da pessoa jurídica, sabidamente de natureza indireta, por fato praticado pela pessoa física que age em seu nome e interesse, aplicando-se, neste particular, os mesmos parâmetros dogmáticos utilizados para a responsabilização civil da pessoa jurídica, por atos praticados pelas pessoas físicas que agem em seu nome. Em Capítulo específico, a dedicação estará voltada para a visão internacional sobre a responsabilidade penal da pessoa jurídica. Não se trata de um estudo de direito comparado, porque as limitações são impeditivas de tal mister, mas, sim, de uma análise da evolução recente da responsabilidade penal da pessoa jurídica em alguns países e de comentários breves sobre suas legislações. Certo é que, neste particular, a análise puramente descritiva permite, com certeza, um alargamento da visão estrangeira do tema, de modo a equacioná-lo de maneira mais racional para a realidade brasileira. Noutro Capítulo, talvez o mais importante e consistente de todo trabalho, a atenção estará voltada para o instituto da responsabilidade penal do ente coletivo no ordenamento jurídico brasileiro. Considerações hão de ser feitas nos âmbitos constitucional e legal, sobre a edição do novo instituto jurídico; seu posicionamento perante o Direito Penal pátrio; e, em sendo admitido no mundo jurídico, como viabilizá-lo do ponto de vista processual penal? Quem é o representante legal da empresa no juízo criminal; quem deverá ser citado, qual o local da citação; quem deverá ser interrogado em nome da empresa-ré? Essas e outras indagações hão de ser respondidas nesse tópico, com apresentação até mesmo de sugestão legislativa que tenha por escopo a viabilização processual da responsabilidade penal da pessoa jurídica.

14 13 Ademais, um estudo que se pretende abrangente, não deve deixar de lado questões como a pessoa jurídica responsabilizada penalmente e a Lei dos Juizados Especiais Criminais (Lei n /95), considerando que esta lei trouxe para o arcabouço jurídico nacional relevantes inovações de cunho material e processual, em se tratando de crimes de pequeno potencial ofensivo, a saber : a transação penal, a composição civil de danos e a suspensão do processo, tudo dentro de um rito processual comprometido com a informalidade, celeridade e economia de atos processuais. A pessoa jurídica infratora de pequeno potencial ofensivo, por certo, estará sujeita aos ditames desta norma legal, e, isso merece destaque; de igual forma, as penas a serem impostas ao ente coletivo infrator, tema que, pela sua relevância, também exige tratamento específico, o que será feito ao longo deste trabalho. Sob outro prisma, o trabalho terá capítulo especial dedicado ao exame e comentários sobre a jurisprudência pátria relativa à responsabilidade penal da pessoa jurídica. É importante conhecer o entendimento de nossos Tribunais sobre o tema, como eles o estão encarando. Nesse particular, o propósito é deitar estudos sobre os posicionamentos relativos às questões de direito substantivo e também processual. A exemplo, o Habeas Corpus impetrado por pessoa jurídica para trancamento de ação penal tem sido concedido? Uma vez condenada, qual a pena tem sido mais admitida em desfavor da pessoa jurídica? Estas e outras indagações deverão experimentar respostas, após acurada pesquisa sobre a realidade jurisprudencial brasileira sobre o tema em tela. O último Capítulo do trabalho trata do modelo processual penal francês utilizado para colocar em prática, naquele país, a responsabilidade penal da pessoa jurídica (a chamada "Lei de Adaptação"). É importante dedicar atenção à situação francesa, primeiro, porque tiveram os franceses a consciência cidadã sobre a necessidade de enfrentamento responsável da questão da responsabilidade penal da pessoa jurídica, tanto que cuidaram de criar uma lei própria, inclusive processual, para dar efetividade ao instituto jurídico em comento; segundo, porque a experiência francesa em muito pode vir a contribuir para a realidade brasileira sobre a responsabilidade penal da pessoa jurídica, a partir do momento que tivermos a humildade de copiar o modelo francês naquilo que nos convier.

15 14 Por derradeiro, oportuno registrar que o trabalho tem por propósito uma visão panorâmica sobre a responsabilidade penal da pessoa jurídica no Direito Penal pátrio, tema, repita-se, sabidamente polêmico, mas, que não deve ser deixado de lado, a teor da previsão constante da Lei n /98, que, em seu artigo 3, estabeleceu expressamente a imputação penal para o ente coletivo infrator do meio ambiente e determinou quais as sanções compatíveis com sua natureza peculiar. Trata-se, no caso, de norma legal cuja aplicabilidade está a exigir postura firme e responsável por parte dos operadores do direito, porque, até o presente momento, qualquer questionamento foi feito sobre a constitucionalidade da referida lei. Se há dificuldades do ponto de vista processual para fazer valer a lei em comento cabe aos responsáveis o enfrentamento desse desafio, seja de construir uma legislação processual penal própria para a Lei Ambiental, seja de encontrar outras alternativas viáveis para o alcance do propósito maior de proteção do meio ambiente. O compromisso de efetividade da Lei Ambiental configura um paradigma na história do Direito Penal brasileiro, posto ao enfrentamento corajoso daqueles que têm compromisso responsável com a almejada segurança jurídica.

16 15 2 CONSIDERAÇÕES SOBRE A PESSOA JURÍDICA 2.1 Conceito Pessoa jurídica é uma entidade criada pela técnica jurídica, como unidade orgânica e firme de pessoas para fins de natureza pública ou privada, inteiramente distinta dos indivíduos que a integram, e dotada de personalidade jurídica análoga à da pessoa natural, com a finalidade de ter direitos e adquirir obrigações, ou seja, são pessoas que se reúnem para atingir seus objetivos, que passam a fazer parte da vida jurídica, tornando-se sujeitos de obrigações e de direitos, visando realizar certos fins. São pessoas jurídicas de direito público interno: a União, os Estados, o Distrito Federal, Territórios, Municípios e demais entidades de caráter público criadas por lei. De direito público externo são: os Estados estrangeiros e todas as pessoas regidas pelo Direito Internacional. Pessoas jurídicas de direito privado são as associações, sociedades e fundações, sendo que as empresas públicas e as sociedades de economia mista sujeitam-se ao regime jurídico das empresas privadas. O dicionário Aurélio traz o seguinte conceito de pessoa jurídica: [...] Entidade jurídica resultante dum agrupamento humano organizado, estável, e que visa a fins de utilidade pública ou privada e é completamente distinta dos indivíduos que o compõem, sendo capaz de exercer direitos e contrair obrigações, tais como a União, cada um dos Estados ou Municípios (pessoas jurídicas de direito público), e as sociedades civis, mercantis, pias, fundações, etc. (pessoas jurídicas de direito privado [...] (FERREIRA, 1993, p. 421). Segundo ensinamento de Fernando Galvão, a pessoa jurídica pode ser assim conceituada: [...] A pessoa jurídica não se caracteriza por qualquer reunião de pessoas ou afetação de bens, mas somente quando a associação de pessoas ou o patrimônio se destinam a dar via a uma unidade orgânica

17 16 de caráter duradouro que adquire individualidade própria, distinta da que é reconhecida a seus integrantes. A teoria tradicional concebe a pessoa sob duas formas: a corporação, cujo substrato é a associação de pessoas; e a fundação, que é constituída por um complexo de bens afetado por uma destinação específica [...] [...] Pode-se, assim, estabelecer como condições substanciais de existência da pessoa jurídica: 'uma organização de pessoas ou de bens, um fim, e o reconhecimento pelo Estado'[...] (ROCHA, 2002, p. 54). Pessoas jurídicas são criadas por lei e constituídas pela união de pessoas que se encorajam com a finalidade de alcançar um objetivo comum, todavia, suas personalidades não se confundem, ou seja, são distintas e com autonomia própria. Neste sentido, o ensinamento de Silvio Rodrigues: [...] A esses seres, que se distinguem das pessoas que os compõem, que atuam na vida jurídica ao lado dos indivíduos humanos e aos quais a lei atribui personalidade, ou seja, a prerrogativa de serem titulares do direito, dá-se o nome de pessoas jurídicas, ou pessoas morais.[...] (RODRIGUES, 2003, p. 86). Destarte, conclui-se que as pessoas jurídicas são sujeitos de direitos e obrigações independentes de seus sócios, havendo distinção de personalidades, e seus patrimônios não se confundem. Neste particular, pertinente o ensinamento também de Cézar Fiúza: "[...] São entidades criadas para a realização de um fim e reconhecidas pela ordem jurídica como pessoas, sujeitos de direitos e deveres. São conhecidas como pessoas morais, no Direito Francês, e como pessoas coletivas, no Direito Português [...]" (FIÚZA, 2008, p. 145). 2.2 Notícia histórica Necessário se faz demonstrar uma breve exposição histórica sobre a responsabilidade penal da pessoa jurídica envolvendo as variadas concepções que o tema desencadeou ao longo da história da civilização humana para que se possa ter uma melhor compreensão da discussão acerca do assunto. A evolução da personificação começou no Direito Romano, um pouco

18 17 embrionariamente, porém se desenvolveu com a expansão territorial romana, por volta do Século II a.c, se estendendo até 300 d.c. Naquele tempo, as sociedades eram impecavelmente reguladas, como, p. exemplo, as sociedades dos banqueiros que firmavam contrato com o Estado para arrecadação de impostos e prestação de serviços em obras públicas. Inicialmente, o Direito Romano não conhecia a figura da pessoa jurídica, distinguindo, corretamente, as figuras da sociedade e de seus membros; todavia, o Município, como corporação mais importante, quando da cobrança indevida de impostos, devia indenizar os contribuintes que foram lesados; assim, o Direito Romano começava a aceitar a responsabilização de uma corporação, no caso, o Município. Sabe-se que na Idade Média instituiu-se a capacidade delituosa da pessoa jurídica, sendo seus atos tidos como próprios da pessoa jurídica, e não de seus representantes; porém, apenas no Século XIX que Savigny propôs a expressão pessoa jurídica, e essa passou a fazer parte de todos os ordenamentos jurídicos até hoje, fazendo com que fossem elaboradas normas de proteção aos consumidores e trabalhadores, haja vista o enorme crescimento das relações comerciais tendo como personagens principais as pessoas jurídicas. Conclui-se, destarte, que entre a Idade Antiga e a Idade Média as sanções de caráter coletivo é que imperavam. Com o surgimento do liberalismo, as sanções coletivas foram suprimidas a favor das liberdades individuais, em respeito às novas ideologias do mundo ocidental. Desta forma, as sanções penais impostas às coletividades foram colocadas à margem do sistema punitivo do Estado liberal. Durante o século XIX, "o coletivo" permanecia esquecido pela dogmática penal, apenas ressurgindo a inquietação de teorizar a seu respeito com a vinda da Industrialização, ainda neste século, na medida em que aqueles entes passariam a influenciar e monopolizar os meios de produção da economia. No mesmo sentido, no período das duas grandes guerras, a necessidade de intervir ativamente na ordem econômica veio à tona, pois forçoso adequar a produção e distribuição de produtos e serviços visando proporcionar ao cidadão um apropriado convívio social. Assim, necessário estabelecer medidas repressivas pelos descumprimentos das determinações do Estado.

19 18 As pessoas jurídicas, neste aspecto, tornariam objeto de tutela penal dos Estados, tendo em vista sua participação direta nos meios de produção. Sobre o tema em foco, imprescindível demonstrar, resumidamente, algumas referências do Direito Comparado 1 : Direito Holandês: a responsabilidade penal da pessoa jurídica foi introduzida no Direito Penal Econômico por volta do ano de 1950, sendo que em 23 de junho de 1976, através de uma lei, tal responsabilidade foi estendida a todo Direito Penal, permitindo ao Ministério Público fiscalizar tanto a pessoa física quanto a jurídica. Direito Inglês: desde o Século passado se tem notícia da responsabilização penal das pessoas jurídicas na Inglaterra. Nos dias atuais, tal responsabilidade encontra limite apenas na natureza do delito, p. ex.: homicídio, adultério, etc. Sabe-se que na Inglaterra, a responsabilidade penal das pessoas jurídicas é contemplada do mesmo modo por todos seus Estados. Estados Unidos: assim como os demais países da Common Law 2, como p. ex. Canadá, Austrália, etc., os EUA adotam a responsabilidade penal da pessoa jurídica. Importante salientar, que são imputadas às empresas todas as infrações penais culposas que seu empregado, no exercício de suas funções, praticar, mesmo que inexista vantagem para a empresa, como os crimes dolosos praticados por executivo. No Canadá a regra geral é a responsabilização penal das pessoas jurídicas, estabelecida da seguinte forma: por fato de outrem ou pelas funções do agente da pessoa jurídica. Dinamarca: não há previsão no Código de 1930 sobre a responsabilidade penal da pessoa jurídica, mas diferentes leis posteriores foram admitindo esta espécie de responsabilidade. Ao Ministério Público cabe escolher contra quem oferecerá a acusação (pessoa física, jurídica, ou ambas), conforme as provas obtidas. 1 CRISPIN, Termo utilizado para referir-se a normas e regras de caráter jurídico não escritas, porém sancionadas pelo costume ou pela jurisprudência.

20 19 França: a responsabilidade penal da pessoa jurídica só foi amplamente aceita, após a reforma do Código Penal Código Penal Francês de O antigo Código Penal da França não dispunha sobre responsabilização ou não da pessoa jurídica. Itália: o princípio da responsabilidade individual é o que vigora na Itália, sendo que é admitida a responsabilidade das pessoas jurídicas, subsidiariamente, nos casos de pena pecuniária. Japão: acolhe igualmente a responsabilidade penal da pessoa jurídica, fundamentado na teoria de Gierke 3 sobre a real responsabilidade dos entes coletivos. Brasil: a legislação brasileira trouxe, de forma expressa, a possibilidade de se responsabilizar penalmente a pessoa jurídica, nos crimes contra a ordem econômica, bem como em relação ao meio ambiente. Portugal, os Decretos-lei n. 630/76 e n. 187/83, e o Decreto-lei n. 28, de 20 de janeiro de 1984, consagraram a responsabilidade penal da pessoa jurídica. Espanha e Alemanha: resistem em aceitar a responsabilização penal da pessoa jurídica, todavia, adotam a responsabilidade das pessoas jurídicas em sede administrativa. Assim, em linhas gerais, verifica-se que a responsabilidade penal da pessoa jurídica no contexto mundial é seguida de modo tradicional na Inglaterra, Estados Unidos e Austrália. Em tais países, vê-se que as pessoas jurídicas são responsabilizadas de maneira habitual. Ressalta-se, por oportuna, a lição do mestre Fernando Galvão: [...] Os juristas mais apegados ao paradigma da responsabilidade individual resistem a idéia de que a pessoa jurídica possa ser penalmente responsabilizada, repetindo os argumentos da impossibilidade de aplicação da teoria do delito tradicional à pessoa 3 GIERKE, Otto Von. Professor de direito em Breslau, Heidelberg e Berlim. Sua teoria defende que pessoas jurídicas são de uma natureza simultaneamente corpórea e espiritual.

21 20 jurídica. No cenário internacional, muitos são os doutrinadores de renome que sustentaram ou sustentam posição contrária à responsabilização da pessoa jurídica. Nos países cuja legislação não acolhe a responsabilidade da pessoa jurídica, destacam-se os doutrinadores alemães, italianos e espanhóis [...] Nos dias atuais, a necessidade e conveniência de se utilizar o direito penal contra a pessoa jurídica tem sido cada vez mais defendida [...] Com a opção da Constituição brasileira pela responsabilidade da pessoa jurídica e a entrada em vigor da Lei n /98, os doutrinadores nacionais serão obrigados a tomar outra posição. Inobstante a necessidade de se repensar toda a formulação teórica do direito penal, o número de juristas que já se posicionam favoravelmente à responsabilização do ente moral no direito penal brasileiro cresce a cada dia. Os penalistas José Henrique Pierangelli, Sérgio Salomão Schecaira, João Marcelo de Araújo Júnior, Valdir Sznick, Vladimir Passos de Freitas e Gilberto Passos de Freitas sustentam válido o estabelecimento da responsabilidade penal da pessoa jurídica pela ordem jurídica em vigor [...] Na verdade, interpretar os dispositivos constitucionais de modo a não admitir a responsabilidade penal da pessoa jurídica significa desatender à finalidade protetiva da norma jurídico-constitucional e afrontar a política criminal que legitimamente se consagrou [...] (ROCHA, 2002, p. 37 e segs). 2.3 Natureza jurídica A natureza das pessoas jurídicas é das mais debatidas, existindo diversas teorias que abordam o assunto, porém, a menção a esta questão controversa é importante por ter ampla repercussão na prática, pois a abrangência da relação formada entre o Direito e a pessoa jurídica depende essencialmente de sua natureza. Ademais, é a sua natureza que elucidará a possibilidade ou não de sua responsabilização civil e penal. Existem enormes divergências doutrinárias a respeito da natureza jurídica das pessoas jurídicas. Alguns defendem que a pessoa jurídica é um ente real, incumbindo ao Direito somente conferir-lhe personalidade; de outro lado, existem aqueles que defendem a pessoa jurídica como uma invenção do Direito, ou seja, uma ficção jurídica.

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