Superior Tribunal de Justiça

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1 RECURSO ESPECIAL Nº PB (2006/ ) RELATORA : MINISTRA ELIANA CALMON PROCURADORES : MARIA CLÁUDIA GONDIM CAMPELLO E OUTRO(S) EMENTA TRIBUTÁRIO - IMPOSTO SOBRE A RENDA - REDUÇÃO DE 50% DO IMPOSTO SOBRE A RENDA - ART. 14 DA LEI 4.239/63 - ISENÇÃO NÃO- CONDICIONADA - ALTERAÇÃO DO REGIME PELA LEI 9.532/97 - POSSIBILIDADE. 1. As isenções concedidas a prazo certo e sob condição incorporam-se ao patrimônio do contribuinte, no sentido de serem intangíveis por legislação posterior. É o caso da isenção prevista no art. 13 da Lei 4.329/ A isenção prevista no art. 14 da Lei 4.239/63 foi concedida na forma simples, que não exige a assunção de obrigações ou encargos por parte do beneficiário, consistindo em mero favor fiscal, na dicção de nossa Suprema Corte, de modo que pode ser alcançada por legislação superveniente, na hipótese a Lei 9.532/ Precedente - REsp /PE, rel. Ministro TEORI ZAVASCKI. 3. Recurso especial provido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça "A Turma, por unanimidade, deu provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)." Os Srs. Ministros Humberto Martins, Herman Benjamin e Mauro Campbell Marques votaram com a Sra. Ministra Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Castro Meira. Brasília-DF, 02 de outubro de 2008 (Data do Julgamento) MINISTRA ELIANA CALMON Relatora Documento: Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 29/10/2008 Página 1 de 7

2 RECURSO ESPECIAL Nº PB (2006/ ) PROCURADORES : MARIA CLÁUDIA GONDIM CAMPELLO E OUTRO(S) RELATÓRIO A EXMA. SRA. MINISTRA ELIANA CALMON (Relator): Cuida-se de recurso especial interposto com fundamento na alínea "a" do permissivo constitucional, em face de acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 5ª. Região assim ementado: EMENTATRIBUTÁRIO. SUDENE. INCENTIVO FISCAL. LEI Nº 4.239/63 ISENÇÃO DO IRPJ. ART. 178 DO CTN. ISENÇÃO POR PRAZO CERTO E CONCEDIDA SOB DETERMINADAS CONDIÇÕES. RESPEITO AO PRINCÍPIO DO DIREITO ADQUIRIDO. SÚMULA Nº 544 DO STF.1. Os incentivos fiscais conferidos às empresas situadas na área de atuação da SUDENE, foram instituídos pela Lei nº 4.239, de 27 de junho de 1963, e consistiam na isenção total do Imposto sobre a Renda e adicionais não restituíveis, ou na redução de 50% (cinqüenta por cento) desse mesmo imposto. Posteriormente foi revogada pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, que alterou os percentuais de redução do Imposto sobre a Renda anteriormente fixados.2. "A teor do que dispõe o art. 178, do CTN, as isenções onerosas e com prazo certo e determinado não podem ser revogadas ou modificadas por lei, como decorrência do princípio maior da Constituição Federal, de que a Lei não pode prejudicar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada" (Superior Tribunal de Justiça, Resp nº /MG, DJ de 23/09/2002, Rel. Min. Luiz Fux).3. Uma vez prorrogada a isenção, a empresa beneficiada não pode ser atingida pela redução da isenção parcial do Imposto sobre a Renda e de adicionais não restituíveis, dada a situação definida da empresa autora, com isenção de prazo certo e em função de determinadas condições já reconhecidas e declaradas. Súmula nº 544, do STF. Apelação provida. (fl. 143) No recurso especial, a Fazenda Nacional alega inexistir direito adquirido à manutenção da isenção parcial, instituída pela Lei 4.329/63 e prorrogada até o exercício financeiro de 2001 pela Lei 8.874/94, pois a Lei 9.532/97 remodelou o regime do benefício fiscal, devendo ser aplicado aos fatos ocorridos em sua vigência. 195/196). Contra-razões apresentadas (fls. 179/185). Recurso especial admitido (fls. É o relatório. Documento: Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 29/10/2008 Página 2 de 7

3 RECURSO ESPECIAL Nº PB (2006/ ) RELATORA : MINISTRA ELIANA CALMON PROCURADORES : MARIA CLÁUDIA GONDIM CAMPELLO E OUTRO(S) VOTO A EXMA. SRA. MINISTRA ELIANA CALMON (Relator): - Acorrem a esta Corte diversas questões em torno dos benefícios fiscais concedidos às pessoas jurídicas que se instalaram na região de abrangência da Sudene. Querelas como a revogação do parágrafo único do art. 13 do Decreto-Lei 1.564/77 pelo art. 59, 1º, da Lei 7.450/85; a extensão à CSLL da isenção concedida ao imposto sobre a renda e esta, que ora se cuida, da modificação da isenção concedida por tempo determinado e sob condições por legislação superveniente. O Supremo Tribunal Federal já pacificou o entendimento, plasmado na Súmula 544, no sentido de que a isenção concedida por prazo certo e sob condição onerosa, não pode ser livremente suspensa ou revogada, ou ainda alterada. As condições acordadas, obrigações e direitos que passam a integrar o patrimônio do contribuinte, regem-se pela norma isentiva, que estabeleceu as condições acordadas e durante todo o prazo de vigência. Norma posterior, que não foi considerada no juízo de valor da assunção do benefício fiscal, não pode ser objeto de consideração na isenção concedida à luz de legislação pretérita, ainda não caduca. É nesse sentido que se fala a direito adquirido à isenção fiscal. Há direito adquirido àquele regime pelo qual o contribuinte anuiu expressamente e se dispôs a empregar numerário, investir na região, assumir todos os encargos decorrentes da atividade, recebendo, como contrapartida determinado benefício fiscal, por dedução de despesas, redução de base de cálculo ou isenção parcial ou total. renda: Contudo, não é a hipótese em comento: Merece transcrição a norma que instituiu a isenção parcial do imposto sobre a Art 14. Até o exercício de 1973 inclusive, os empreendimentos industriais e agrícolas que estiverem operando na área de atuação da SUDENE à data da publicação desta lei, pagarão com a redução de 50% (cinqüenta por cento) o impôsto de renda e adicionais não restituíveis. (Vide Lei nº 5.508, de 1968, Decreto-Lei nº 1.624, de 1978, Decreto-lei nº 1.898, de 1981, Decreto-lei nº 2.134, de 1984, Lei nº 7.450, de 1985, Decreto-lei nº 2.454, de 1988, Lei nº 8.874, de 1994, Lei nº 9.532, de 1997, (Vide Medida Provisória nº , de 2001)) Documento: Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 29/10/2008 Página 3 de 7

4 Da leitura do enunciado, observa-se inexistir qualquer condição onerosa exigível dos beneficiários para usufruir da isenção parcial. Com razão, portanto, o Ministro Teori Zavascki, no seguinte precedente: TRIBUTÁRIO. ISENÇÃO. LEI 4.239/63, ART. 14. ISENÇÃO NÃO-CONDICIONADA. REVOGAÇÃO. LEI 9.532/97. POSSIBILIDADE. 1. O art. 14 da Lei 4.239/63, ao dispor que "até o exercício de 1973 inclusive, os empreendimentos industriais e agrícolas que estiverem operando na área de atuação da SUDENE à data da publicação desta lei, pagarão com a redução de 50% (cinqüenta por cento) o imposto de renda e adicionais não restituíveis", instituiu isenção especial não-onerosa ou não-condicionada, uma vez que sua fruição não ficou subordinada ao cumprimento de encargo por parte do contribuinte, mas apenas à circunstância de fato da localização do estabelecimento na área de atuação da extinta SUDENE. 2. Tal espécie de isenção, justamente porque não condicionada a qualquer contraprestação por parte do contribuinte, consubstancia favor fiscal que pode ser reduzido ou suprimido por lei a qualquer tempo, sem que se possa cogitar de direito adquirido à sua manutenção. É o que se depreende da leitura a contrario sensu da Súmula 544/STF ("isenções tributárias concedidas, sob condição onerosa, não podem ser livremente suprimidas"), bem assim da norma posta no art. 178 do CTN, segundo a qual "a isenção, salvo se concedida por prazo certo e em função de determinadas condições, pode ser revogada ou modificada por lei, a qualquer tempo, observado o disposto no inciso III do art. 104 ". 3. São legítimas, portanto, as graduais reduções da alíquota do benefício trazidas pela Lei 9.532/ Recurso especial provido. (REsp /PE, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, julgado em , DJ p. 238) Merece transcrição o seguinte trecho do voto: 2. A controvérsia gira em torno da possibilidade de (parcial) revogação da isenção instituída pelo art. 14 da Lei 4.239/63. A regra geral sobre a matéria é a do art. 178 do CTN, que estatui o seguinte: Art A isenção, salvo se concedida por prazo certo e em função de determinadas condições, pode ser revogada ou modificada por lei, a qualquer tempo, observado o disposto no inciso III do art Dois, portanto, são os requisitos exigidos pelo CTN para que a isenção, uma vez concedida, se torne insuscetível de revogação ou modificação por lei posterior: primeiro, que o benefício tenha prazo certo de vigência; segundo, que seja concedido em função de determinadas condições. Para Sacha Calmon Navarro Coêlho, tais requisitos são cumulativos: "Antes da Lei Complementar nº 24/75, a redação do Código Tributário Nacional comportava a alternativa ou, que foi substituída pela conectiva e, tornando cumulativos os requisitos de prazo e condição. Quis a Administração desatar nós para, de mão livre, revogar a qualquer tempo as isenções que fossem dadas no futuro. O objetivo foi pear e dificultar o legislador, que, doravante, ficava obrigado a fixar prazo e objetivo a ser cumprido pelo isento (para poder fruir a isenção). A esse tanto chamou de condição." (Curso de Direito Tributário Documento: Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 29/10/2008 Página 4 de 7

5 Brasileiro, 5ª edição, Rio de Janeiro: Forense, 2000, p. 739) A primeira exigência legal não suscita maiores questionamentos. A lei que institui o favor fiscal deve prever o lapso temporal durante o qual ele vigorará. É o caso dos autos: a Lei 4.239/63 fixou, originariamente, no ano de 1973 o termo final do benefício, termo esse que foi alterado por sucessivos diplomas legais jamais deixando, porém, de ser certo. Para a exata compreensão do segundo requisito, importa ter em mente a distinção entre isenção condicionada e não-condicionada, posta nos seguintes termos por Walter Barbosa Corrêa: "(...) Prevê, ainda, o CTN a possibilidade de o legislador conceder a isenção sem condição. As isenções condicionadas, como as de prazo, conferem ao beneficiado direitos subjetivos subordinados à condição ou ao termo. Por fim, aludindo o CTN à isenção concedida em 'não caráter geral', admite a classificação dessa figura tributária em geral e especial. Isenção geral é aquela que beneficia todas as pessoas ou coisas vinculadas ao tributo; especial é a isenção que favorece, especificamente, uma ou algumas pessoas ou coisas. A isenção especial e a condicionada aparentam certa identidade, mas não podem ser confundidas, pois, enquanto a condicionada restringe o grupo de coisas ou pessoas do benefício fiscal, em função do evento futuro e incerto, a especial restringe o grupo de pessoas ou coisas, mediante requisitos, no próprio texto da norma concedente da isenção, resultando daí que sua aplicação é imediata, subordinada apenas à entrada em vigor da lei e à existência de requisitos nela expressos. Haverá isenção condicional quando a lei dispuser que o favor fiscal é concedido, por exemplo, à empresa que atingir certo limite mínimo de produção; a isenção será especial se, e. g., for dada às empresas que tenham produção mínima de 100." (Comentários ao Código TributárioNacional - arts. 96 a 218, Coord. Ives Gandra da Silva Martins, 3ª edição, São Paulo: Saraiva, 2002, p. 457) As isenções não-condicionadas ou não-onerosas, justamente porque não têm sua fruição vinculada a qualquer espécie de contraprestação por parte do contribuinte, consubstanciam favor fiscal que pode ser reduzido ou suprimido por lei a qualquer tempo. É o que se depreende da leitura a contrario sensu da Súmula 544/STF, segundo a qual "isenções tributárias concedidas, sob condição onerosa, não podem ser livremente suprimidas ". Sobre esse enunciado, anotou Aliomar Baleeiro: "Estes julgados sustentam três princípios: a) a isenção pura e simples pode ser revogada pelo legislador em qualquer tempo; b) mas o legislador não pode revogar ou reduzir a isenção onerosa, condicionada, por prazo certo; c) a autoridade administrativa pode cancelar o ato pelo qual concedeu, em caso especial, a isenção, se verificar fundamentadamente que o beneficiário não preencheu ou não cumpriu as condições estabelecidas na lei que autorizou aquela dispensa do imposto" (Direito Tributário Brasileiro, 3ª edição, Rio de Janeiro: Forense, 1971, p. 526, apud Lunardelli, Pedro Guilherme Accorsi. Isenções Tributárias, São Paulo: Dialética, 1999, p. 146). 3. Cumpre, então, examinar a configuração da isenção em tela. Por expressa disposição do art. 14 da Lei 4.239/63, dela se poderiam beneficiar "os empreendimentos industriais e agrícolas que estiverem operando na área de atuação da SUDENE à data da publicação desta lei". Não havia, como se vê, outra exigência para a fruição do incentivo além de estar o estabelecimento localizado e em operação, à época da edição da Lei, na área de atuação da extinta Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste mera circunstância de fato que, inclusive por dever ser anterior à instituição do benefício, não consubstancia, a toda a evidência, encargo a que se condicione sua obtenção. De outra parte, tampouco indica a existência de qualquer condição onerosa o estatuído no art. 16 da mesma Lei 4.239/63. Tal dispositivo apenas prevê mecanismos de identificação das empresas e dos respectivos resultados compreendidos Documento: Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 29/10/2008 Página 5 de 7

6 no favor fiscal: Art. 16. A SUDENE, mediante as cautelas que instituir, fornecerá, as empresas interessadas, declaração de que satisfazem as condições exigidas para o benefício da isenção a que se refere o artigo 13, ou da redução prevista no artigo 14, documento que instruirá o processo de reconhecimento pelo Diretor da Divisão do Imposto de Renda, do direito das empresas ao favor tributário. 1º Quando se verificar pluralidade de estabelecimentos, será reconhecido o direito à isenção ou à redução do imposto e adicionais, conforme o caso, em relação aos rendimentos dos estabelecimentos instalados na área de atuação da SUDENE. 2º Para os efeitos do disposto no parágrafo anterior as empresas interessadas deverão demonstrar, na sua contabilidade, com clareza e exatidão os elementos de que se compõem as operações e os resultados do exercício de cada um dos estabelecimentos que operam na área de atuação da SUDENE. Está-se, portanto, diante de isenção especial (= que favorece apenas um restrito grupo de pessoas) e não-condicionada ou não-onerosa (= não sujeita à satisfação de qualquer condição ou ônus pelo beneficiário), a cuja manutenção jamais terá o contribuinte direito adquirido, sendo legítimas as graduais reduções da alíquota do benefício trazidas pela Lei 9.532/97. Adiro ao posicionamento do precedente acima e com estas considerações dou provimento ao recurso especial. É o voto. Documento: Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 29/10/2008 Página 6 de 7

7 ERTIDÃO DE JULGAMENTO SEGUNDA TURMA Número Registro: 2006/ REsp / PB Números Origem: PAUTA: 02/10/2008 JULGADO: 02/10/2008 Relatora Exma. Sra. Ministra ELIANA CALMON Presidente da Sessão Exmo. Sr. Ministro HUMBERTO MARTINS Subprocurador-Geral da República Exmo. Sr. Dr. JOSÉ FLAUBERT MACHADO ARAÚJO Secretária Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI AUTUAÇÃO PROCURADORES : MARIA CLÁUDIA GONDIM CAMPELLO E OUTRO(S) ASSUNTO: Tributário - Imposto de Renda - Pessoa Jurídica CERTIDÃO Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão: "A Turma, por unanimidade, deu provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)." Os Srs. Ministros Humberto Martins, Herman Benjamin e Mauro Campbell Marques votaram com a Sra. Ministra Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Castro Meira. Brasília, 02 de outubro de 2008 VALÉRIA ALVIM DUSI Secretária Documento: Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 29/10/2008 Página 7 de 7

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