Base empírica da sintaxe. Luiz Arthur Pagani (UFPR)

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1 Base empírica da sintaxe (UFPR) 1

2 1 Gramaticalidade vs. aceitabilidade aceitabilidade [2, ps ]: Aceitável é um termo primitivo ou pré-cientíco, neutro em relação às diferentes distinções que precisaremos fazer mais adiante, inclusive a distinção que se estabelece tradicionalmente entre `gramatical' e `signicativo' (ou `signicante'). É um termo mais primitivo do que gramatical ou signicativo no sentido de que, ao contrário dos outros dois, ele não depende de nenhuma denição técnica nem de conceitos teóricos da Linguística. Um enunciado aceitável é aquele que foi ou poderia ter sido produzido por um falante nativo num contexto apropriado, e que é ou seria aceito por outros falantes nativos como pertencente à língua em questão. Uma das tarefas do linguista é especicar o mais simplesmente possível, para a língua que ele está descrevendo, que frases são aceitáveis e fazê-lo dentro de uma teoria geral da estrutura linguística. Base empírica 2

3 além de corpora [2, p. 144]: Poder-se-ia pensar que o armar que um determinado enunciado é aceitável nada mais é que dizer que ele em algum tempo foi produzido por um falante nativo e que, em princípio, seria possível a um linguista, ou a uma equipe de linguistas, reunirem todas as frases de uma língua e colocá-las num corpus. Mas esse ponto de vista é errôneo. O termo aceitável tem não apenas a vantagem de realçar a relação operacional entre a matéria bruta do linguista e sua remota fonte de controle que está nas reações do falante nativo. Ele também realça o fato de que o linguista deve ter em conta não só os enunciados que realmente ocorreram no passado, mas também muitos outros que bem poderiam ter ocorrido e que poderiam ocorrer no futuro. Base empírica 3

4 innitude das línguas capacidade criativa do falante [2, p. 145]: Todo falante nativo de uma língua está em condições de produzir e de compreender não apenas aquelas frases que ele já ouviu alguma vez mas também um número innitamente grande de novas frases que ele nunca ouviu, da parte dos outros falantes dessa língua. De fato, parece provável que a maioria das frases produzidas pelos falantes nativos, exceção feita de um número limitado de expressões `rituais' por exemplo Como vai?, Obrigado, etc. são frases novas nesse sentido. E as frases novas satisfarão o mesmo teste operacional de aceitabilidade para outros falantes nativos como as velhas frases que poderiam ter sido produzidas simplesmente de memória. Elas mostrarão as mesmas regularidades e podem ser explicadas pelas mesmas regras. Em outras palavras, é a classe dos enunciados potenciais que devemos identicar com as frases da língua. Em qualquer língua natural o número de enunciados potenciais é ilimitado. Qualquer coleção de enunciados, por maior que seja, não é mais que uma amostra dessa série ilimitada de enunciados potenciais. Base empírica 4

5 níveis de aceitabilidade [2, p. 146]: os enunciados podem ser aceitáveis ou inaceitáveis de vários modos e em vários graus. Poderíamos, por exemplo, dizer do português de um estrangeiro que ele é gramaticalmente aceitácel (ou correto) mas que seu sotaque é defeituoso e o denuncia imediatamente como um falante não nativo. Poderíamos dizer de certas frases como Russell, por exemplo, da frase Quadruplicity drinks procrastination; `A quadruplicidade bebe a procrastinação' que elas são gramaticais mas `não têm sentido'; poderíamos ser levados a dizer o mesmo dos versos sem sentido de Lewis Carroll, mas por razões diferentes. Base empírica 5

6 Gramaticalidade como aceitabilidade regrada [2, p. 158]: Do ponto de vista `formal' ( `nocional') a gramaticalidade nada mais é que a aceitabilidade na medida em que esta aceitabilidade pode ser colocada dentro do escopo de uma série especíca de regras, e dentro duma classicação também especíca de elementos léxicos e gramaticais da lingua. Base empírica 6

7 aceitabilidade gramaticalidade [1, p. 52]: Segundo a noção de gramaticalidade, as sequências da língua são classicadas em gramaticais (bem-formadas sintaticamente) e agramaticais (mal-formadas sintaticamente). A noção de aceitabilidade, por sua vez, diz respeito aos julgamentos intuitivos dos falantes/ouvintes sobre as sequências de sua língua, em qualquer nível. Esses julgamentos são baseados em grande parte na gramaticalidade, mas incluem também fatores associados ao desempenho, tais como limitação de memória, lapsos, cansaço, etc. A gramática se ocupa da distinção gramatical/não-gramatical; a pragmática, da distinção aceitável/não-aceitável. A noção de gramaticalidade inclui-se na competência; a noção de aceitabilidade, no desempenho. Base empírica 7

8 2 Juízo de gramaticalidade intuição do falante [3, p. 2] os gramáticos usam dados do tipo esta cadeia de palavras é uma sentença nesta língua, ou esta cadeia de palavras tem este signicado, avaliações determinadas por falantes nativos da língua em questão. Base empírica 8

9 3 A diculdade da denição de palavra sentença maior unidade gramatical [2, p. 180]: A frase é a maior unidade de descrição gramatical. sentença sem distribuição [2, p. 180]: a noção de distribuição que se baseia na possibilidade de comutação simplesmente não se aplica às frases. palavra menor unidade da sintaxe [2, p. 202]: A palavra é a unidade por excelência da teoria gramatical tradicional. É a base da distinção que se estabelece frequentemente entre morfologia e sintaxe e é a principal unidade da lexicograa (ou da elaboração de dicionários). Base empírica 9

10 morfologia sintaxe [2, p. 202]: De acordo com a distinção comumente formulada entre morfologia e sintaxe, a morfologia trata da estrutura interna das palavras, e a sintaxe das regras que regem sua combinação em frases. Os próprios termos morfologia e sintaxe, e o seu emprego, já implicam a primazia da palavra. Etimologicamente falando, morfologia é simplesmente o estudo da forma e sintaxe a teoria da `construção': os gramáticos tradicionais aceitaram como questão de fato que as `formas' estudadas na gramática são as formas das palavras e que as palavras são unidades que se `constroem' ou se combinam em frases. Base empírica 10

11 ambiguidade do termo `palavra' [2, p. 204]: O termo palavra foi usado nos parágrafos precedentes em três sentidos bem diferentes. Os dois primeiros distinguem-se facilmente dentro do conceito de realização (cf ). Exatamente como distinguimos o morfe como representação fonológica ou ortográca do morfema, também devemos fazer a distinção entre palavras fonológicas ou ortográcas e as palavras gramaticais que eles representam. Por exemplo, a palavra fonológica /sæn/ e sua correspondente ortográca sang, cantou, representam uma palavra gramatical especíca, à qual tradicionalmente nos referimos como o passado de sing; já a palavra fonológica /k2t/ e sua correspondente ortográca cut representam três diferentes palavras gramaticais: o presente de cut, o passado de cut e o particípio passado de cut. Base empírica 11

12 lexema [2, p. 205]: visto que a maioria dos lingüistas agora empregam o termo palavra para designar unidades fonológicas ou ortográcas como /sæn/, ou sang, por um lado, ou as unidades gramaticais que elas representam, por outro (aliás, nem sempre distinguindo até entre esses dois sentidos), introduziremos outro termo, lexema, para indicar as unidades mais abstratas que aparecem em diferentes formas exivas de acordo com as regras da sintaxe implicadas na geração de frases. Para dsitinguir lexema de palavras ele será aqui escrito com maiúsculas. Assim, a palavra ortográca cut representa três diferentes formas exivas, isto é, três diferentes palavras gramaticais do lexema cut. Base empírica 12

13 lexema unidade invariante [2, p. 206]: Os lexemas as palavras da gramática tradicional são as unidades invariantes subjacentes, abstração feita das propriedades acidentais: os lexemas são substâncias que ocorrem em várias formas acidentais. intuição de falante [2, p. 207]: a aptidão para dividir os enunciados em palavras não é uma característica apenas de falantes cultos e letrados de uma língua. Sapir nos revela que falantes índios, norte-americanos, sem nenhuma instrução, sem experiência de escrita em qualquer língua, quando solicitados, foram perfeitamente capazes de ditar-lhe textos em sua própria língua, palavra por palavra, e tiveram pouca diculdade para isolar as palavras dos enunciados, repetindo-as como unidades. Base empírica 13

14 segmento entre pausas potenciais [2, ps ]: Já foi sugerida a seguinte denição de palavra: Todo segmento duma frase, limitado por pontos sucessivos em que é possível uma pausa. unidade funcional [2, p. 208]: O fato é que os falantes normalmente não fazem pausas entre as palavras. Desde que o falante nativo está apto a realizar, quando quiser, as pausas potenciais em seus enunciados, ainda que ele não o faça normalmente, resulta que as palavras devem identicar-se como unidades em sua língua, sob as condições normais em que ele a usa. É esta unidade funcional da palavra na língua, como normalmente ela opera, que devemos tentar apanhar em nossa denição Base empírica 14

15 união entre signicado, som e uso gramatical [2, p. 208]: Aqui está uma denição bem conhecida de palavra: A palavra pode ser denida como a união de um signicado com um complexo de sons, capaz de um dado emprego gramatical. Observe-se que essa denição exige como condição necessária que a palavra seja simultaneamente uma unidade semântica, fonológica e gramatical. nem só palavras se adequam a esta denição [2, p. 208]: pode bem ser verdade que todas as unidades que desejamos considerar como palavras na descrição de uma língua satisfaçam a essas três condições. Mas certamente elas não serão as únicas unidades a satisfazê-las. Sintagmas como the new book / o livro novo, têm sentido denido, forma fonológica denida e emprego gramatical denido. Base empírica 15

16 menores segmentos deste tipo [2, p. 208]: Alguns lingüistas sugeriram que a denição pode ser satisfatória, se dissermos que as palavras são os menores segmentos de enunciados que satisfazem às três condições. Mas isto também não satisfaz. Os componentes un- e -able de unacceptable / in- e -ável de inaceitável, satisfazem aos três critérios. No entanto, não os consideramos, em geral, como palavras. Além disso, as palavras unacceptable / inaceitável, são mais ou menos sinônimas do sintagma not acceptable / não aceitável; ambas podem ser analisadas em três unidades signicativas e três unidades gramaticais: três morfemas, cada qual representado por um morfe. Base empírica 16

17 semântica e fonologia irrelevantes [2, ps ]: Devemos concluir que as considerações semânticas são irrelevantes na denição da palavra, como também na denição de outras unidades gramaticais. Quanto ao critério fonológico, embora, como veremos adiante, as palavras sejam delimitadas fonologicamente de vários modos em muitas línguas, tais traços fonológicos nunca são mais do que correlações secundárias. Portanto, para a denição da palavra, concentrar-nos-emos em termos puramente gramaticais. Base empírica 17

18 Bloomeld [2, p. 209]: a palavra é `uma forma livre mínima' livre ligada (presa) [2, p. 209]: as formas que nunca ocorrem sozinhas como enunciados inteiros em alguma situação normal são formas ligadas; as que podem ocorrer sozinhas como enunciados são formas livres. forma livre mínima [2, p. 209]: Qualquer forma livre da qual nenhuma parte seja por si mesma uma forma livre é, pela denição de Bloomeld, uma palavra. [Palavras compostas não seriam palavras?!] Base empírica 18

19 formas dependentes [2, p. 209]: como o próprio Bloomeld assinalou, a denição não abrangerá certas formas que têm sido tradicionalmente palavras independentes: por exemplo, the ou a, em inglês, (e, em português, o, a, os, as, ou um, uma, etc.). Base empírica 19

20 Referências [1] Lúcia Maria Pinheiro Lobato. Sintaxe Gerativa do Português Da Teoria Padrão à Teoria da Regência e Ligação. Vigília, Belo Horizonte, [2] John Lyons. Introdução à Lingüística Teórica. Editora Nacional & EDUSP, São Paulo, Traduzido por Rosa Virgínia Mattos e Silva & Hélio Pimentel. [3] Henk van Riemsdijk and Edwin Williams. Introdução à Teoria da Gramática. Martins Fontes, São Paulo, Traduzido por Miriam Lemle, Maria Angela Botelho Pereira & Marta Coelho. Base empírica 20

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