Pronunciamento em defesa das políticas de ações afirmativas no Brasil. Senhor Presidente, Senhoras Deputadas, Senhores Deputados,

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1 Pronunciamento em defesa das políticas de ações afirmativas no Brasil Senhor Presidente, Senhoras Deputadas, Senhores Deputados, Conhecemos as desigualdades raciais no Brasil, que estão inequivocamente documentadas, bem como sabemos que a sociedade brasileira possui mecanismos que permitem a reprodução dessas desigualdades mesmo quando se verifica a melhoria dos indicadores sócio-econômicos. Para quebrar esse círculo vicioso é imperativo a adoção de políticas de ação afirmativa que visem proporcionar igualdade de oportunidade a todos os brasileiros e brasileiras. Políticas de ação afirmativa, sabemos, são caracterizadas por várias iniciativas que abrangem, entre outras, campanhas educativas, incentivos específicos ou a adoção de critérios diferenciados em qualquer processo de seleção. A adoção de cotas raciais para ingresso nas nossas universidades públicas tem provocado intensa polêmica na sociedade brasileira, que finalmente incorpora o tema das desigualdades raciais na agenda dos grandes problemas nacionais. Nossa defesa da cotas se baseia em diversos argumentos e nos resultados de experiências já em curso. Desde 2002 algumas universidades passaram a adotar cotas em seus exames de seleção: a Universidade do Estado da

2 Bahia, as universidades estaduais no Rio de Janeiro, pioneiras na adoção de cotas entre as universidade públicas estaduais, a Universidade de Brasília, pioneira entre as públicas federais; atualmente já são mais de 30 universidades que adotam algum mecanismo de inclusão nos seus processos seletivos. Nenhuma das previsões sobre as possíveis conseqüências negativa uma vez adotadas as cotas se confirmaram. Não se verifica conflitos nos campi universitários no Brasil em função das cotas, os estudantes cotistas não se sentem inferiorizados em relação a seus colegas, e, principalmente, não houve a tão temida deteriorização da qualidade acadêmica. E há uma razão muito concreta para isso: o desempenho dos estudantes cotistas é, em grande medida, similar ao dos demais estudantes. Há poucos dias foi divulgado um Manifesto assinado por artistas, intelectuais e personalidades que são contrários à introdução do sistema de cotas no ensino superior brasileiro como também são contrários ao Estatuto da Igualdade Racial, que é um Projeto de Lei que tramita há quase 10 no Congresso. Destaca-se nas argumentações dos seus autores, amplamente divulgado pelos meios de comunicação, que a implementação de políticas dirigidas prioritariamente para beneficiar as populações negras e indígenas são um perigoso precedente, porque é uma atitude discriminatória e estimula a introdução no Brasil uma polarização racial importada dos EUA. Os seus autores defendem que somente as políticas universalistas são justas e adequadas para o Brasil. E finalmente, pasmem, os autores invocam em seu manifesto o famoso trecho do discurso de Martin Luther King que disse no calor da luta em defesa dos direitos civis dos afroamericanos que sonhava um dia que os atos dos seus irmãos negros não fossem julgados a partir da cor da pele. Também sonho com uma sociedade em que ninguém terá suas chances de realização educacional e profissional 2

3 determinadas por sua raça, sexo, religião, orientação sexual ou qualquer outro fator. Mas sabemos que só atingiremos essa sociedade se passarmos à ação. Somente sonhar, ficando de braços cruzados, apenas produz os pesadelos da exclusão, da discriminação racial e do racismo. O Congresso Nacional, Sr. Presidente, Sras. Deputadas, Srs. Deputados, não pode se calar neste momento histórico diante de tamanha provocação e nem tampouco aceitar passivamente essas argumentações levianas, mentirosas e que utilizam sofismas para confundir a opinião pública e assim manter inalterados os privilégios dos que sempre usufruíram as riquezas produzidas no Brasil. Os argumentos dos que subscrevem esse Manifesto não se sustentam. Vejamos porque: a) O fator racial é um fato na sociedade brasileira desde a chegada dos portugueses em 1500 quando instituíram uma ordem colonial em que indígenas e africanos foram submetidos a um regime baseado nas premissas de que esses povos eram inferiores e selvagens e por conseqüência seria legitima a sua escravização. O sistema escravista durou quatro séculos e na sua essência ele foi violento, desumano e racista; b) Encerrada oficialmente a escravidão em 1888, os negros não tiveram direito à terra, à educação pública de qualidade e nem tampouco a empregos decentes. No dizer de Florestan Fernandes foram abandonados à própria sorte ; c) É falso dizer que com a adoção das cotas o Estado passará de forma inédita se imiscuir em temas raciais e determinar o pertencimento racial dos indivíduos. Todos sabemos que no início do século XX o Estado brasileiro ativamente 3

4 promoveu e subsidiou a imigração de grupos raciais para o Brasil com o objetivo explícito de embranquecer a população e negando o acesso de homens e mulheres negros aos bens sociais tais como educação e saúde; d) É um sofisma defender agora que as políticas universalistas de educação, saúde, emprego e bem estar social são as mais apropriadas para corrigir as imensas desigualdades raciais existentes no Brasil. Caso elas bastassem não estaríamos em pleno século vinte e um reivindicando um tratamento diferenciado, posição, aliás, reconhecida e defendida na maior parte do mundo. No mundo inteiro vozes se levantam para defender os direitos dos povos discriminados e segregados por razões raciais, nacionais, sexuais, geracionais, de gênero e por outros atributos que geram discriminação. O Brasil é signatário de todos os documentos internacionais que defendem uma ação enfática para combater o racismo e a discriminação; o Brasil assumiu compromissos ao subscrever a Declaração e o Plano de Ação da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban em Nesse momento é inconcebível como intelectuais e artistas brasileiros se organizem para impedir que os direitos legítimos dos povos negros e indígenas no Brasil sejam assegurados! Alguns deles inclusive que sempre se utilizaram as culturas negras e indígenas para se locupletar intelectualmente ou para inspirar seus processos criativos. É importante assinalar que os povos negros e indígenas no Brasil nunca se calaram e nem aceitaram o sistema iníquo de privação de direitos sociais e de liberdade. São conhecidas em nossa história, embora pouco divulgadas, as revoltas, 4

5 insurreições e levantes. A exemplo da luta quilombola de Palmares, o Levante de 1835, a Revolta dos Alfaiates, entre tantos outros episódios gloriosos. No século vinte são conhecidas as iniciativas de luta pela liberdade em movimentos como a Frente Negra Brasileira, a Revolta dos Marinheiros, a criação do Movimento Negro Unificado e a organização dos Blocos Afros de Salvador e tantas outras organizações e movimentos sociais, culturais e políticas dos negros e indígenas no Brasil; Portanto, atribuir às nossas reivindicações e às matérias em favor dos povos negros e indígenas que estão em tramitação no Congresso, a exemplo das políticas de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial, um caráter estranho à nossa experiência histórica é desqualificar a nossa capacidade luta como também apagar propositadamente os nossos feitos na história do Brasil e a sua continuidade nos dias atuais. É dizer, em suma, que os nossos antepassados foram passivos e aceitaram a escravidão assim como desconhecer a existência, no presente, do racismo como um fenômeno social que nos marginaliza socialmente; Os movimentos sociais negros denunciaram o racismo no Brasil, no passado e no presente, como um sistema violento, excludente e segregador. E essas denúncias foram paulatinamente demonstradas pelos estudos e pesquisas científicas individuais e aqueles empreendidos por instituições oficiais insuspeitas, a exemplo do IPEA e IBGE. Não se trata de discursos ideológicos vazios. As provas que demonstram um imenso fosso entre negros e brancos são cabais e já foram atestadas por organismos internacionais e reconhecidas pelo Estado brasileiro. Dessa forma, é uma mentira dizer que nós estamos importando uma polarização racial dos EUA. A polarização passou a existir a partir do momento em que os 5

6 direitos dos negros e indígenas não foram reconhecidos como legítimos pela sociedade brasileira, no passado e no presente. Assim, pelas razões expostas, não se pode entender de uma outra forma essa conservadora e reacionária manifestação desses intelectuais que foram à Brasília na vã tentativa de tentar impedir que os povos negros e indígenas sejam reconhecidos como portadores de direitos na sociedade brasileira. São porta-vozes dos interesses de uma parcela da população branca brasileira que não aceita que as riquezas materiais, culturais e espirituais produzidas no Brasil sejam distribuídas de uma forma equânime entre todos os brasileiros, independente da cor da pele e da origem racial ou de qualquer outro símbolo utilizado para separar, discriminar e segregar. Por isso conclamo as Sras. Deputadas, aos Srs. Deputados a responderem positivamente ao clamor da sociedade brasileira pela adoção de políticas de promoção da igualdade racial. Pela aprovação do projeto de cotas! Pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial! Pela aprovação do Fundo Nacional para o Desenvolvimento de Ações Afirmativas! Luiz Alberto Deputado Federal PT-BA 6

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