O domínio da tecnologia e suas implicações na distribuição de poder no Sistema Internacional 1

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1 O domínio da tecnologia e suas implicações na distribuição de poder no Sistema Internacional 1 Giovana Esther Zucatto 2 Luciana Costa Brandão 3 Resumo: Este artigo consiste em uma análise comparativa de dois processos de Transição Tecnológica, o do início do século XX e o atual, da Era Digital; e, inseridos neste segundo processo, é também uma análise mais detalhada da inserção da França e da China no processo de Transição Tecnológica. Em um primeiro momento, define-se o conceito de Transição Tecnológica, tornando-o operacionalizável para a análise dos casos. Em uma segunda etapa, através da releitura da obra Ascensão e Queda das Grandes Potências de Paul Kennedy, analisa-se a Transição Tecnológica do início do século XX, bem como seus desdobramentos para o equilíbrio de forças no sistema internacional e para a posterior Transição da Era Digital. Por fim, compara-se os esforços dos atuais governos de França e China para alcançarem o domínio das atuais tecnologias e consolidarem-se como polos de poder. Conclui-se que a Transição Tecnológica é uma etapa indispensável para esta consolidação. Palavras-chave: Tecnologia, Grandes Potências, Inovação, França, China. INTRODUÇÃO O presente trabalho busca analisar o processo de domínio das tecnologias modernas pelas Grandes Potências do Sistema Internacional e suas implicações para a distribuição de poder. É imperativo apresentar, em um primeiro momento desta introdução, os conceitos utilizados na formulação da análise. Por fim, apresentar-se-á a organização do artigo e suas principais derivações. A domínio da tecnologia constitui-se como elemento-chave na análise das Grandes Potências e da distribuição de poder no sistema internacional, no sentido de que para qualquer Estado consolidar-se como polo de poder internacional é necessário o controle do conjunto de tecnologias que lideram o processo produtivo. O conceito de Centro de Decisão, de Celso Furtado (1962), é operacionalizado por Oliveira (2012), destacando a importância do controle das tecnologias e das técnicas produtivas centrais. O Centro de Decisão passa a ser compreendido como a capacidade do Estado gerir, da forma como lhe convier, o seu próprio desenvolvimento econômico (Martins 2008, 14). Para tanto, torna-se imprescindível o controle nacional da tecnologia e do conhecimento como forma de reduzir as fragilidades resultantes da dependência externa. (Oliveira 2012, 31). 1 Os coautores agradecem a orientação do professor José Miguel Quedi Martins e a colaboração dos participantes da Oficina de Estudos Estratégicos. 2 Graduanda em Relações Internacionais, UFRGS. 3 Graduanda em Relações Internacionais, UFRGS.

2 Deste modo, é importante o esforço de conceituar Transição Tecnológica e apontar possíveis indicadores para sua análise. Arrighi (1997, 11-30) apresenta a ideia dos fluxos de inovações como sendo momentos da história do desenvolvimento em que surgem novos métodos de produção e que novas fontes de suprimentos passam a ser utilizadas, estruturando novas formas de organização. A Transição Tecnológica deve, portanto, ser compreendida como um processo longo de mudanças nos métodos produtivos, adaptações e pequenas inovações consecutivas e - ao mesmo tempo como determinados momentos pontuais da História em que fluxos de inovações maiores e mais revolucionárias agruparam-se dando origem a novos padrões técnicoprodutivos e organizacionais. A mudança nas bases produtivas de uma sociedade, o emprego de novas tecnologias mais modernas, e a descoberta de inovações com a criação de novas áreas do conhecimento é o que caracterizamos aqui como Transição Tecnológica. Este processo é acompanhado por uma revisão organizacional, ou seja, pela criação de novos modelos de gerenciamento e administração da produção. Como consequência da mudança nos padrões produtivos, tem-se o desencadeamento do surgimento de demanda por novas matérias-primas e combustíveis. O período compreendido entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial é o exemplo do momento histórico em que se deu, com mais proeminência, a Transição Tecnológica da 2ª Revolução Industrial ou da Era Industrial, como foi caracterizado o período por Chandler (2002, 10). Atualmente, mais precisamente desde a década de 1990, um novo momento-chave de Transição Tecnologia estaria ocorrendo no Sistema Internacional. A revolução da informação, a organização em redes, a era da informática, ou o Século Eletrônico (Chandler 2002) são expressões geralmente utilizadas para referir-se ao que caracterizamos aqui como a Transição Tecnológica da Era Digital. A seguir, apresentaremos uma comparação entre estes dois períodos históricos, ressaltando as singularidades e aspectos uniformes daqueles países que conseguiram consolidar a Transição Tecnológica. Destaca-se os Estados Unidos da América, em ambos os casos. As dificuldades gerenciais e de escassez de matéria-prima e recursos humanos surgem como os principais dificultadores para as demais potências. Em seguida, realizaremos um estudo comparado entre França e China, aplicando alguns dos indicadores préestabelecidos, demonstrando como estes países buscam, hoje, realizar a Transição Tecnológica da Era Digital. Conclui-se preliminarmente que os dois processos de Transição Tecnológica são interdependentes, sendo que, para os países que não lideram o processo, a transição para a Era Digital é mais difícil de ser realizada do que sua predecessora. Além disso, tanto no caso francês quanto no da China, os esforços para

3 realização da Transição Tecnológica estão relacionados com sua constituição enquanto líderes do processo de integração regional. A TRANSIÇÃO TECNOLÓGICA NO INÍCIO DO SÉCULO XX A observação da Transição Tecnológica da Era Industrial permite a compreensão mais ampla sobre como se dá este processo e quais são suas implicações para a distribuição de poder no sistema internacional. Paul Kennedy (1989) avalia o contexto da Segunda Guerra Mundial levando em consideração a Transição Tecnológica nas capacidades militares dos Estados beligerantes, ou seja, o contexto econômico-tecnológico dos diferentes padrões de rearmamento (Kennedy 1989, 286). Veremos que a Transição Tecnológica da Era Industrial foi um dos condicionantes da bipolaridade do sistema internacional no pós-segunda Guerra e, também, que lançaria as bases para a configuração da hegemonia norte-americana, principalmente no sentido militar e tecnológico, após a década de 90. De um modo geral, a Transição Tecnológica da Era Industrial foi um processo em consonância com a 2ª Revolução Industrial. Uma das principais inovações deste período foi o motor de combustão interna e sua aplicação na produção de automóveis e aviões. O petróleo passou a ser o principal combustível, e um recurso essencial para a Guerra (Yergin 1992; Gerbase & Brandão 2012). Na área da engenharia química a produção de plásticos, de borracha sintética, de fibras sintéticas e de produtos farmacêuticos inauguravam novos padrões produtivo. Além disso, a produção de aço e de alumínio foi extremamente importante, devido principalmente aos avanços na utilização de energia elétrica no processo produtivo destas ligas metálicas (Mowery & Rosenberg 2005). O aumento da produtividade foi um dos principais desdobramentos das mudanças tecnológicas do entreguerras 4. Além disso, tornava-se agora disponível uma ampla gama de novos produtos e processos produtivos, os bens de capital ganhavam ainda maior importância como veículos para introdução de novas tecnologias em uma economia nacional e o fluxo intersetorial nas indústrias gerava uma espécie de efeito multiplicador, em que inovações singulares em setores nucleares da economia geravam um aumento na demanda por novos produtos e novas tecnologias em diversos outros setores (Mowery & Rosenberg 2005, 15-16). No campo militar, a principal consequência que se teve para a Segunda Guerra Mundial foi que as forças armadas tornaram-se muito mais dependentes da capacidade produtiva de seus países (Kennedy 1989, 4 Nos EUA, a mudança tecnológica gerou um aumento da produtividade que foi responsável por 85% do crescimento norte-americano na primeira metade do século XX (MOWERY & ROSENBERG, 2005, 14).

4 282). Nesse sentido, com a Transição Tecnológica da Era Industrial novos elementos passaram a influenciar no percurso e no desfecho das guerras. A posse de armamentos modernos, a existência de uma base industrial moderna e com alta produtividade, o potencial para produção em massa e a disponibilidade de mão de obra especializada para lidar com as novas tecnologias passaram a ser elementos que entrariam no cálculo de capacidades dos contendores da Guerra. Em relação às mudanças que ocorreram na indústria militar com a Transição Tecnológica Moderna podemos citar, entre outros, avanços na área da química, das comunicações, dos motores e, por fim, na questão da energia nuclear. Destacam-se inovações nos sistemas de armas com os avanços nas comunicações elétricas, aperfeiçoamento dos equipamentos de detecção anti-submarino, desenvolvimento do radar, melhorias no equipamento de rádio, implementação de computadores de ataque nos submarinos, entre outros (Kennedy 1989, ). Houve também a introdução da segunda geração de aviões e inovações na classe dos bombardeiros, como a criação do B-17 (Kennedy 1989, 297; 319). As inovações nas áreas da química e da energia nuclear também tiveram seus desdobramentos no campo de batalha, com o desenvolvimento de novos tipos de armamentos de destruição em massa. Para as Grandes Potências realizarem a adaptação de suas forças às exigências da tecnologia moderna diversos elementos faziam-se necessários. Entre eles destaca-se a importância da educação na formação de engenheiros e cientistas capazes de desenvolver os novos equipamentos bem como a existência de um ambiente propício para o surgimento das inovações. Pode-se considerar que a Transição Tecnológica da Era Industrial promoveu também a criação e institucionalização dos setores de Pesquisa e Desenvolvimento P&D. O processo inventivo torna-se muito mais sistemático e o progresso tecnológico depende cada vez mais de especialistas e cientistas treinados e das atividades de pesquisa (Mowery & Rosenberg 2005, 12). Outro elemento importante na análise da Transição Tecnológica é o acesso aos recursos e às matérias primas utilizados pelas indústrias modernas, bem como a capacidade de produção e disponibilidade de uso dos principais insumos destas indústrias. Destacam-se durante a Era Industrial o aço, o petróleo, o ferro-gusa, o minério de ferro, o cimento, o cobre, a bauxita, o níquel, a borracha e, inclusive, o carvão 5 (Kennedy 1989). 5 A questão do carvão é interessante, pois ele é um combustível menos eficiente que o petróleo, e não é um elemento da Transição Tecnológica Moderna. Na verdade, a necessidade de acesso ao carvão demonstra o atraso daquelas Grandes Potências que até o momento da guerra ainda não haviam conseguido completar a sua Transição Tecnológica e montar estruturas produtivas (citadinas e militares) baseadas no novo combustível da época, o petróleo.

5 Por fim, a análise de Kennedy chama atenção para outros dois elementos: a indústria nacional de máquinas operatrizes e a capacidade de gerenciamento. O primeiro refere-se ao conjunto de máquinas utilizadas na produção de outras máquinas. Seria a parte mais fina de inteligência em matéria de maquinários. Em um contexto de Guerra, a disponibilidade de máquinas operatrizes para comércio internacional torna-se escassa, dando uma grande vantagem àquelas nações capazes de produzi-las nacionalmente. Já a capacidade de gerenciamento, no caso, o processo pelo qual as decisões governamentais eram tomadas (Kennedy 1989, 291), a administração dos gastos militares em custeio e capital antes e durante a guerra e o planejamento acerca da produção em massa de diversos setores demandavam que a engenharia organizacional da nação se adaptasse aos novos desafios impostos pela Transição Tecnológica. Pode-se dizer que com o avanço e as mudanças ocorridas nas indústrias e nas estruturas produtivas seriam exigidas novas habilidades da burocracia estatal responsável por gerenciar os processos organizacionais destas estruturas, principalmente nos assuntos relacionados à organização militar. Paul Kennedy (1989) observa que diversas das nações contendoras da 2ª Guerra Mundial não foram capazes de realizar um gerenciamento como o exigido pelas condições da época, uma das causas de suas derrotas no conflito. Por fim, é importante considerar a dimensão temporal da Transição Tecnológica. A partir da análise de Paul Kennedy (1989) é possível traçar uma linha divisória entre as nações que realizaram sua industrialização e armamento para a Guerra antes da Transição Tecnológica e, os Estados Unidos, único país que de fato modernizou seu aparato militar de acordo com a Era Industrial. A França e a Rússia, por exemplo, fizeram grandes investimentos militares em equipamentos ainda não integrados na nova dimensão moderna advinda com a Transição Tecnológica, podendo-se falar de um déficit qualitativo das capacidades militares-tecnológicas destas nações. Além disso, a Rússia, como a França, foi vítima de um pesado investimento em tipos de aviões e tanques de princípios da década de Quando a Guerra Civil Espanhola mostrou os limites, em velocidade, facilidade de manobras, alcance e resistência, dessas armas de primeira geração, a corrida para fabricação de aviões mais rápidos e tanques poderosos foi acelerada. Mas a indústria soviética de armas, como um grande navio no mar, não podia mudar rapidamente de rumo; e parecia loucura suspender a produção dos tipos existentes enquanto modelos mais novos estavam sendo fabricados e testados (Kennedy 1989, 313). Percebe-se que em contexto de crise como foi a Segunda Guerra Mundial as discrepância em termos de tecnologia acentuam-se e os processos de inovação e produção intensificam-se e aceleram-se. A capacidade de antecipação das estruturas produtivas futuras e a adaptação das industrias civis e militares aos novos

6 padrões e exigências tecnológicas pode ser o divisor de águas entre dois tipos de Estados. Em um cenário futuro de reconfiguração do sistema internacional, a capacidade de influência, de tomada de decisão e de defesa dos projetos próprios parece depender, em grande medida, da realização nacional da transição tecnológica a partir da melhor adequação temporal. A Transição Tecnológica, compreendida como um processo que não é estanque, apesar de conter momentos pontuais, influenciou na distribuição de poder no sistema internacional após a 2ª Guerra Mundial, com o declínio das Grandes Potências que, ou por incapacidade de gerenciamento, ou por escassez de recursos materiais e humanos não foram capazes de acompanhar a Transição Tecnológica da Era Industrial. As discrepâncias entre Estados Unidos e URSS ficarão mais acentuadas no decorrer do século XX. No entanto, as bases para a futura liderança dos EUA na Transição para a Era Digital são dadas ainda no decorrer das modernizações do início do século. Assim, no final da década de 1940, surgiriam as principais inovações o transistor e o computador (Mowery & Rosenberg 2005, 142) - que viriam, mais tarde, a dar origem à Era Digital e à atual Transição Tecnológica. A ATUAL TRANSIÇÃO TECNOLÓGICA DA ERA DIGITAL As bases fundamentais da atual Transição Tecnológica podem ser encontradas na década de 1940, durante o período em que os Estados Unidos ainda consolidavam os avanços tecnológicos da primeira metade do século XX. Esse processo, que se estende até os dias de hoje, é caracterizado pela supremacia da eletrônica e dos computadores. A revolução que se iniciava foi diretamente estimulada pela busca da supremacia tecnológica advinda das preocupações com os assuntos de segurança nacional, contemporâneos à Guerra Fria (Mowery & Rosenberg 2005). Nesse ponto, é possível estabelecer uma relação com a Transição Tecnológica do inicio do século XX, enquanto uma é impulsionada pela 1ª Guerra Mundial, a outra é ligada aos resultados da 2ª Guerra Mundial. No que tange diretamente ao desenvolvimento técnico, o primeiro computador com um programa armazenado foi o Edvac, que em 1944 marcou a invenção do software. Já em 1958, é desenvolvido o circuito integrado, a combinação em série de vários transistores em um único chip de silício (Mowery & Rosenberg, 2005, p.144), dando origem ao microprocessador. O advento dessa nova tecnologia permitiu, por seu turno, um aprimoramento sem precedentes na área da eletrônica, possibilitando o desenvolvimento dos supercomputadores.

7 Esses últimos são computadores com alta velocidade e capacidade de armazenamento de memória, utilizados em áreas de pesquisa que demandam uma grande capacidade de processamento de informação, como a aeroespacial, a meteorológica e a petroquímica. Ainda é necessário citar a conexão em rede, iniciada na década de 90, com o crescimento da interligação em redes dos computadores de mesa, seja dentro de empresas através de redes locais ligadas a um servidor, ou entre milhões de usuários através da internet (Mowery & Rosenberg 2005, p ). As tecnologias supracitadas surgiram de esforços da indústria bélica, e passaram a ser aplicadas em produtos voltados para o mercado civil quando os sistemas militares comprovaram a eficácia do circuito integrado e dos microprocessadores. Cabe ressaltar, assim, o papel do transbordamento do incentivo à pesquisa e à inovação no setor militar: em algumas tecnologias-chave, como as de aviação, dos semicondutores e computadores, os investimentos em P&D relacionados à defesa geraram importantes transferências tecnológicas das aplicações militares para aplicações civis (Mowery & Rosenberg 2005, 45). Amsden (2009) sugere que, além do estímulo ao setor militar, o governo deveria planejar a Transição Tecnológica fornecendo incentivos diretos para firmas e empresas privadas. É importante notar que grande parte das indústrias que estiveram no seio do advento da eletrônica, eram (e ainda são) empresas privadas, que se fortaleceram com as grandes demandas dos governos. Chandler (2002) ressalta que foram cinco empresas Telefunken (Alemanha), RCA (EUA), Philips (Holanda), Matsushita (Japão) e Sony (Japão) que determinaram os rumos da aprendizagem da indústria de produtos eletrônicos durante o século XX. São, assim, grandes grupos industriais que incentivados pelos governos nacionais controlaram boa parte do processo inovativo. O Japão e não a URSS, como se poderia prever ao final da 2ª Guerra Mundial foi a grande força motora da revolução eletrônica, ao lado dos Estados Unidos, saindo na frente com suas empresas líderes em produtos eletrônicos e computadores, conquistando os mercados mundiais (Chandler 2009). Além dos grandes montantes investidos no país pelos EUA durante a Guerra Fria, o protagonismo japonês na Transição Tecnológica da Era Digital deve-se a inúmeros outros fatores. Uma das principais razões foi sua crença quase fanática em alcançar os níveis mais altos de controle de qualidade, tomando emprestado (e aperfeiçoando) técnicas sofisticadas de administração e métodos de produção do Ocidente. Beneficiou-se com o empenho nacional em vigorosos padrões de alto nível de educação universal, e com a disponibilidade de grande número de engenheiros, de entendidos em eletrônica e automóveis. [...] O Japão beneficiou-se também do papel desempenhado pelo seu Ministério de Comércio Internacional e Indústria no fomento a novas indústrias e desenvolvimento tecnológico [...]. (Kennedy 1989, 397)

8 As empresas e os Estados que saíram na frente, consolidando seu processo de Transição Tecnológica, fundando as bases organizacionais antes, obtiveram vantagens que servem como barreiras de entrada às demais empresas e Estados (Chandler 2002, 18-21) no processo já em andamento. A importação de tecnologia, por parte de países menos desenvolvidos é extremamente dificultada devido à complexidade e à rapidez com a qual ocorrem os pequenos avanços e inovações produtivas da Era Digital. Waltz (1979) sugere que os países devem investir no período de gestação da Transição Tecnológica, criando condições de produzir os equipamentos necessários as diferentes áreas da economia estão tão interligadas que não é sustentável importar equipamentos atualizados para todas elas. Amsden (2002) apresenta uma ideia complementar, sustentado que esses retardatários devem buscar o desenvolvimento sincrônico - ou seja, a expansão tecnológica pode se dar de forma conjunta, facilitando a produção de ativos baseados no conhecimento. Além das questões organizacionais, outros fatores são decisivos para o domínio da Transição Tecnológica, como, por exemplo, os recursos ou matérias-primas necessárias para a produção das novas tecnologias. Aqui, ficam em voga os minerais estratégicos, como o silício, utilizado na fabricação de transistores, que foram adotados pelos militares dos Estados Unidos para uso em radares e aplicações em mísseis (Mowery & Rosenberg, 2005, p.144). Ainda é possível citar o alumínio, utilizado nas mais variadas indústrias, desde automóveis até satélites, lítio, indispensável para baterias, coltão, substituto do tântalo na fabricação de superligas aplicadas na produção de turbinas e motores para aviões, turbinas a gás e reatores nucleares, entre tantos outros. A evolução tecnológica mundial das últimas décadas, no entanto, colocou em foco os chamados minerais de terras raras (TR), conjunto de 17 elementos químicos metálicos com aplicações variadas na indústria moderna. Pode-se citar o emprego de terras raras na fabricação de turbinas eólicas (neodímio), células fotovoltaicas (itérbio), ligas de alumínio para a indústria aeroespacial (escândio), ligas para motores de aeronaves, super-imãs e fibra ótica (praseodímio) (Jepson 2012). Desse modo, pode-se sugerir alguns indicadores para análise da Transição Tecnológica do chamado Século Eletrônico. Cabe a análise das instituições governamentais, ou seja, de que forma a burocracia está estruturada em vias para o fomento do desenvolvimento tecnológico. Os investimentos em capital humano também se fazem indispensáveis refletidos aqui na qualidade da educação básica, e especialmente, das universidades. Importam, também, os níveis absolutos de gastos com P&D, a quantidade de patentes detidas

9 pelo país, a quantidade de cientistas e engenheiros compondo a força de trabalho e a parcela de exportações de produtos de alta tecnologia (Waltz 1979, 179). Estes indicadores ganham importância com a Transição Tecnológica da Era Industrial, mas sua validade permanece atualmente. Além disso, o domínio dos recursos naturais essenciais da Era Digital, como o silício e as terras raras, e novas tecnologias de ponta, como os supercomputadores, são indispensáveis aos países que se propõem serem grandes potências dominadoras do processo de Transição Tecnológica. O DOMÍNIO DA TECNOLOGIA PELAS GRANDES POTÊNCIAS: O CASO DA FRANÇA E DA CHINA O esforço de análise dos casos francês e chinês em uma perspectiva comparada é importante no sentido de perceber como as Grandes Potências tem realizado a etapa da Transição Tecnológica da Era Digital. Tanto a República Francesa quanto a República Popular da China voltaram maiores esforços para a Transição Tecnológica após a consolidação desta pelos Estados Unidos e pelo Japão, principais líderes em termos de tecnologia na Era Digital (Chandler 2002, ). Ademais, ambos Estados exercem forte influência em suas respectivas regiões. Além de Grandes Potências, a França e a China estão também inseridas em um contexto de liderança regional no qual o desafio da integração está colocado como forte elemento. Contudo, em termos de realização da Transição Tecnológica, são Potências de Segundo Nível, pois nunca lideraram este processo no contexto europeu, a trajetória histórica aponta para uma liderança regional da Alemanha na Transição Tecnológica (Chandler 2002) no contexto asiático, o processo foi encabeçado pelo Japão. No entanto, observase o potencial de realização da Transição Tecnológica para a Era Digital em ambos Estados, colocado para ambos tanto como desafio de conciliação com seus respectivos vizinhos quanto como oportunidade de afirmação enquanto polo de poder internacional. A Transição Tecnológica na França No caso francês, a realização da Transição Tecnológica mostrou-se constantemente uma prioridade dos governos, ainda que diversos obstáculos estruturais e conjunturais tenham impedido sua plena consolidação. Tanto o projeto da administração de DeGaulle, com o Plano Calcul, quanto o governo de Mitterrand, empenharam esforços na criação e manutenção de uma grande empresa voltada para os setores de informática. Os prejuízos financeiros foram grandes e diversas parcerias e fusões com empresas estrangeiras formaram a

10 base de sustentação da companhia francesa Bull (Chandler 2002, ). Atualmente, entretanto, ela é a única empresa europeia a montar um dos 10 supercomputadores mais velozes do mundo (TOP ). Dentre as prioridades do governo de François Hollande candidato socialista eleito para presidência em 2012 destacam-se a industrialização, modernização da economia e aumento da competitividade nas empresas nacionais. Por meio de mecanismos como um Banco de Desenvolvimento, taxações diferenciadas e agências regionais de inovação, Hollande planeja incentivar a Transição Tecnológica na França, colocando o país em uma posição de líder europeu e de melhor competitividade com as economias emergentes (PS 2012). O aumento dos gastos do governo com P&D é uma das propostas do atual governo francês, com o planejamento de passar de 2,1% do PIB francês para 3% até o final do mandato. Em 2010, o total do dispêndio com P&D ficava em torno de 50 bilhões de dólares (MCTI 2013), considerado pouco quando comparado com a Alemanha ou com a China. O fortalecimento das universidades francesas e de centros de ciência e tecnologia também são uma prioridade do governo, apontando para um aumento da liderança francesa em termos de conhecimento e de formação de profissionais relevantes para a Transição Tecnológica. Entre as 100 melhores universidades do mundo, três são francesas (ARWU 2012); a França possui 57,133 publicações científicas, o correspondente a quase 5,8% do total mundial (UNESCO 2010); em relação às exportações de alta tecnologia, o total é de 99,7358 bilhões (Banco Mundial, 2013) e, entre os pedidos de patentes por residentes, são franceses ambos os dados de 2010 (Banco Mundial, 2013). Em relação aos recursos naturais estratégicos necessários para liderar a Transição Tecnológica, a França conta com a infraestrutura para produção e manejo de alumínio, silício e de terras raras, além de haver uma preocupação do governo francês em aperfeiçoar as técnicas de extração e produção. Ainda que o território francês seja escasso em muitos destes materiais, é importante mencionar a presença das terras raras e de outros minérios em vários países da África. Na República Democrática do Congo e na Ruanda, por exemplo, já ocorre exploração artesanal de coltão, e são estimadas reservas no território da Guiana Francesa (Martins 2013; BRGM 2011). Nesse sentido, as tradicionais relações mantidas entre a França e os Estados-membros da Organização Internacional da Francofonia, colocam o Estado francês em uma posição favorável às demais potencias para exploração destes recursos no continente africano. No que tange a questão do comando do espaço, as principais iniciativas ocorrem sob a institucionalidade da União Europeia, destacando-se o sistema de navegação por satélite Galileo, que já conta com quatro satélites em órbita (ESA 2013). Ainda assim, a EADS, empresa de ponta e líder em engenharia aeroespacial e de defesa,

11 é de capital francês. Além disso, a França é uma das cinco nações que pesquisam os motores scramjet, tecnologia que pode ser utilizada no lançamento de satélites, de voos suborbitários e até mesmo em mísseis balísticos intercontinentais (ISTOÉ 2013). A Transição Tecnológica na China A China vem, desde a instauração do regime comunista em 1949, realizando um processo de transição tecnológica gradual e planejado. Duas características de tal fazem-se importantes entender: a continuidade das políticas públicas, que garantem aos projetos segurança financeira e estabilidade, e a existência de gargalos externos que, especialmente na última década, impulsionaram o governo chinês a buscar a autonomia tecnológica, mobilizando recursos em montante inéditos para pesquisa e inovação. A ascensão de Hu Jintao à liderança máxima do país, no 16º Congresso do Partido Comunista da China (PCCh), e a sua doutrina de sociedade harmônica e desenvolvimento científico, vieram ao encontro das necessidades chinesas. Pregando a busca pela autonomia cientifico-tecnológica como um dos pilares para o desenvolvimento da nação, Hu, em seus dez anos de governo (ele deu lugar a Xi Jinping no último Congresso, em novembro de 2012), buscou diminuir a dependência de tecnologias externas e consolidar a China como um polo tecnológico e de produção científica de alto nível (Martins 2013). Waltz (1979) apontou alguns indicadores que acreditava pontuarem a liderança tecnológica, entre os quais estão os gastos com P&D, a quantidade de patentes registradas e as exportações de alta tecnologia. Analisando os três no caso chinês, percebe-se a clara evolução no período de governo de Hu Jintao, a saber: os gastos com P&D passaram de 27,2 bilhões de dólares em 2000 para 154,1 bilhões em 2009 (MCTI 2013), o que colocou a China como segundo maior investidor do tipo no mundo; no que concerne ao número de pedidos de patentes por residentes, a evolução foi de pedidos em 2000, para em 2010 (Banco Mundial 2013); as exportações de alta tecnologia, por seu turno, saltaram de 41,7355 bilhões em 2000 (18,98% do total de produtos manufaturados), para 406,0897 bilhões em 2010 (27,51%, idem) (Banco Mundial 2013). Tais indicadores são endossados pelo incremento na produção científica de artigos científicos publicados em 2001, para em 2009 (MCTI 2013). A liderança tecnológica também passa pelo controle dos recursos estratégicos - nesse ponto, é interessante analisar o domínio de alguns minerais indispensáveis à indústria de alta tecnologia. Nesse sentido, a China é a maior produtora e consumidora de minerais do mundo, valendo ressaltar os seguintes minérios:

12 alumínio maior produtora, o que ainda assim não é suficiente para suprir sua demanda, sendo uma importadora líquida; silício maior produtora mundial, além de possuir domínio do refino - aplicado na produção de superprocessadores e semicondutores, por exemplo; lítio 4ª no ranking mundial de produção; níquel 8ª produtora (USGS 2012). A China é responsável por 95% da produção mundial de terras raras (TR), além do controle de outras fases da cadeia de produção - 97% da produção de óxidos de TR, 89% das ligas de TR, não monopolizando apenas a transformação em produtos manufaturados (Jepson 2012; Stratfor 2012). No país, as grandes empresas estatais são responsáveis pela cadeia produtiva de TR, sendo as taxas de exportação diretamente reguladas pelo planejamento governamental. Nos últimos anos, essas taxas vêm sendo gradativamente diminuídas, numa tentativa do Estado de voltar a produção para o mercado interno, fortalecendo o setor industrial nacional. No que tange aos gargalos externos impulsionadores do desenvolvimento interno, é interessante analisar o embargo que os EUA mantiveram sobre a China em matéria de exportação de tecnologias do setor aeroespacial. Com a dificuldade em acessar as tecnologias norte-americanas, a China buscou estruturar seu programa aeroespacial de maneira alternativa, inclusive por meio de parcerias com outros países, mas sempre procurando fortalecer o controle soberano e o desenvolvimento autônomo de suas capacidades (Guo apud Cepik 2011, 85). Em 2006, o país lançou DFH-4, o primeiro satélite de terceira geração com vida útil de 15 anos e capacidade de transmissão de sinais digitais de TV em banda larga, voz e dados (Sinodefence apud Cepik 2011, 88). Esse satélite, de uso militar e civil, é vendido pelos chineses a países menos desenvolvidos, e aparece como uma alternativa às tecnologias tradicionais de Rússia, União Europeia e Estados Unidos 6 (Cepik 2011). A análise comparada dos dois casos permite perceber a construção da consciência das potências acerca da importância da Transição Tecnológica na asserção do poder no Sistema Internacional. Ambos os países, na busca de ascensão a líderes dos respectivos processos de integração regional, empreenderam, nas últimas décadas, políticas de fomento à inovação e desenvolvimento dos setores de alta tecnologia. No caso da França, a Transição Tecnológica constitui-se uma das vias pelas quais o processo de integração europeu se desenvolve e pelo qual a França poderia fortalecer sua influência, tendo a Alemanha como principal parceira e principal concorrente ao mesmo tempo. Já a China, busca realizar a Transição 6 Para informações acerca dos outros satélites chineses, ver CEPIK, 2011.

13 Tecnológica como forma de, em um primeiro momento, fortalecer a integração com seu próprio território, construindo infraestrutura e fortalecendo o mercado consumidor interno, ao mesmo tempo em que garantiria a afirmação da sua supremacia na região perante os demais, tendo o Japão como principal concorrente e, concomitantemente, principal parceiro econômico. CONCLUSÃO A análise das Transições Tecnológicas permitem inferir que o domínio da tecnologia é determinante para a distribuição de poder no sistema internacional. Tanto o processo de Transição Tecnológica do início do século XX como as inovações atuais da Era Digital demonstram que a capacidade de gerenciamento da tecnologia e de geração de inovações é meio de ascender como potencia no sistema internacional e uma necessidade para assegurar este poder. No entanto, a tecnologia por si só não basta. É imperativo ter uma estrutura que possibilite a difusão da inovação e a reprodução desta em larga escala. Os recursos naturais e a existência de uma organização burocrática voltada para o desenvolvimento dos recursos humanos são elementos de extrema importância. O investimento em educação e P&D, institucionalizados durante a Transição Tecnológica do início do século XX, são cada vez mais determinantes. A situação analisada aqui de França e de China demonstra como estas potências perceberam a importância da promoção da Transição Tecnológica e, mesmo não tendo sido pioneiras no processo, estão desenvolvendo as bases da Transição para a Era Digital, como forma de assegurar o poder e a influência na região. Em termos de aprendizado para possível aplicação no caso brasileiro, algumas lições são de interessante análise. A consolidação do processo de integração regional, liderado pelo Brasil, depende também do fomento à inovação e do aperfeiçoamento de uma burocracia estatal voltada diretamente para isso, capacitada para lidar gerencialmente com as demandas da Era Digital. Percebe-se que esforços nesse sentido já vêm sendo feitos - principalmente por meio de investimentos na capacitação de profissionais para liderar a Transição Tecnológica, como o programa Ciência Sem Fronteiras. No entanto, ainda é necessário uma melhor gestão dos recursos naturais, principalmente das Terras Raras encontradas na região amazônica. Por fim, a análise da História e dos atuais processos de Transição Tecnológica na França e na China permitem esboçar alguns cenários. Caso França e China venham a consolidar seus processos de Transição Tecnológica, existirá uma maior propensão à mudança na distribuição de poder do Sistema Internacional, vindo a ser centrado em três regiões: América do Norte, liderado pelos EUA; Europa, liderado pelo eixo França-

14 Alemanha; e, Leste Asiático, liderado por China-Japão. No caso de almejar-se inserir a América do Sul como uma região de maior destaque no sistema internacional, é indispensável a realização da Transição Tecnológica em conjunto com a integração regional, espaço que poderia ser explorado conjuntamente sob a liderança brasileira. Maiores esforços de pesquisa nesse sentido fazem-se necessários e importantes. REFERÊNCIAS Amsden, Alice H. A Ascensão do Resto : os desafios ao Ocidente de economias com industrialização tardia. São Paulo: Editora Unesp, Arrighi, Giovani. A ilusão do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Editora Vozes, ARWU. Academic Ranking of World Universities BRGM. Panorama substances. Bureau de Recherches Géologiques et Minières. 2010/ Cepik, Marco. A política da cooperação espacial chinesa: Contexto estratégico e alcance internacional. Rev. Sociol. Política, Novembro de 2011: Chandler, Alfred D. Século Eletrônico: a história da evolução da indústria eletrônica e da informática. Rio de Janeiro: Campus, ESA. Galilro Factsheet. European Space Agency Furtado, Celso. A pré-revolução brasileira. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, Gerbase, Livi; Brandão, Luciana. A importância do petróleo nas relações centro-periferia: um estudo comparado da diplomacia britânica e norte-americana para o Oriente Médio na primeira metade do Século XX. Perspectiva, Fevereiro/Março de ISTOÉ. DO 14-bis ao 14-X. Março de Jepson, Nicholas. A 21st Century Scramble: South Africa, China and the Rare Earth Metals Industry. Stellenbosch: Centre for Chinese studies, Kennedy, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências : Transformação Econômica e Conflito Militar de São Paulo: Campus, Martins, José Miguel Q. Caderno de Relações Internacionais Contemporâneas. No prelo Martins, José Miguel Q. Digitalizacão e guerra local: como fatores do equilíbrio internacional. Tese de Doutorado em Ciencia Política. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, MCTI. Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação

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