I Fórum Crédito e Educação Financeira

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1 25 de Janeiro de 2012 Pedro Duarte Neves

2 A Importância Estratégica da Formação Financeira 2

3 A LITERACIA FINANCEIRA É UM PILAR ESTRATÉGICO DA ACTUAÇÃO DO BANCO DE PORTUGAL O Banco de Portugal tem dedicado uma atenção especial à promoção da literacia financeira desde o início de 2008, quando lhe foram atribuídas funções de supervisão comportamental dos mercados bancários de retalho. O Banco de Portugal, em paralelo com a regulação dos deveres de informação das instituições de crédito e a fiscalização do cumprimento do enquadramento normativo dos mercados bancários de retalho, promove a informação e formação financeira para estimular os clientes bancários a uma escolha criteriosa de produtos e serviços. O Banco de Portugal considera que o reforço da literacia financeira é hoje essencial à promoção de uma cidadania financeira activa, que poupa para acautelar o futuro, aplica a poupança de forma esclarecida e recorre ao crédito de modo responsável. 3

4 A LITERACIA FINANCEIRA CONTRIBUI PARA A ESTABILIDADE FINANCEIRA A preocupação dos reguladores com a literacia financeira decorre do reconhecimento crescente de que as decisões dos consumidores nos mercados bancários a retalho, além de efeitos financeiros individuais, têm também repercussões importantes na estabilidade macroeconómica e financeira. A promoção da literacia financeira contribui para potenciar os benefícios dos instrumentos de regulação da transparência e dos deveres de informação das instituições de crédito e, portanto, para o funcionamento mais eficiente dos mercados financeiros. Cidadãos mais informados têm capacidade de apreender melhor a informação que lhes é transmitida pelas instituições de crédito, ajudando a monitorizar os mercados. Conhecedores dos seus direitos e deveres são agentes activos do cumprimento do quadro normativo em vigor. 4

5 A CRISE FINANCEIRA VEIO REFORÇAR A IMPORTÂNCIA DA LITERACIA FINANCEIRA A elevada expansão do crédito que a precedeu veio a revelar-se desajustada da capacidade financeira dos consumidores e a complexidade de alguns instrumentos financeiros contribuiu para que o grau de risco destes produtos não fosse adequadamente avaliado. Estas vulnerabilidades dos mercados financeiros, que estiveram na origem e contribuíram para propagar os seus efeitos, poderiam ter sido atenuadas com consumidores mais preparados para seleccionar os créditos ajustados às suas capacidades financeiras e para aplicar poupanças em produtos com um adequado grau de risco. Acresce que a crise financeira internacional está a ser acompanhada do declínio da riqueza, cuja reposição implica níveis mais elevados de poupança na generalidade dos países desenvolvidos, designadamente dos consumidores, para uma recuperação económica sustentável. É hoje consensual a importância da promoção da literacia financeira, enquanto complemento à supervisão e regulação dos mercados financeiros. 5

6 A FORMAÇÃO FINANCEIRA É UMA PRIORIDADE NA AGENDA INTERNACIONAL Bancos centrais e supervisores financeiros têm assumido um papel relevante na promoção da literacia financeira, atribuindo crescente importância a iniciativas de promoção da literacia financeira, envolvendo-se, muitas vezes, na definição e implementação de estratégias nacionais de formação financeira. Esta preocupação é também partilhada pelas Autoridades Supervisoras Europeias em particular pela Autoridade Bancária Europeia (EBA) que nos seus estatutos assume o mandato de promover iniciativas de formação financeira. A nível internacional destaca-se o trabalho que tem vindo a ser prosseguido pela OCDE, sobretudo a partir de 2008 através da International Network on Financial Literacy (INFE). A formação financeira consta também da agenda do G20 que a reconhece como uma das linhas prioritárias de actuação na protecção dos consumidores de produtos financeiros, ao inscrevê-la nos High-Level Principles on Financial Consumer Protection, aprovados na reunião dos Ministros das Finanças e Governadores dos Bancos Centrais do G20, de de Outubro de

7 Iniciativas de Informação e Formação Financeira 7

8 O BANCO DE PORTUGAL PROMOVE A INFORMAÇÃO FINANCEIRA O Banco de Portugal, no exercício das suas competências regulamentares, tem vindo a desenvolver um quadro normativo com exigências de transparência e o rigor de informação que as instituições de crédito têm de cumprir na comercialização de produtos e serviços bancários. Estes normativos abrangem todas as fases da relação entre os clientes bancários e as instituições de crédito, desde a publicidade e os preçários, à informação pré-contratual, ao conteúdo dos contratos e durante a vigência dos mesmos, envolvendo os diversos produtos bancários: depósitos e suas contas, crédito à habitação e ao consumo e serviços de pagamento. Além de exigências acrescidas de informação e rigor na comercialização destes produtos, o Banco de Portugal presta informação directamente aos clientes através do Portal do Cliente Bancário e de publicações temáticas. O Banco de Portugal criou, em Abril de 2008, o Portal do Cliente Bancário, que constitui um instrumento importante na redução da assimetria de informação que caracteriza os mercados bancários de retalho. 8

9 O PORTAL DO CLIENTE BANCÁRIO É UM IMPORTANTE CANAL DE INFORMAÇÃO O Banco de Portugal foi identificado no Inquérito à Literacia Financeira da População portuguesa como a segunda fonte mais importante de informação, apesar deste inquérito ter revelado que o Portal do Cliente Bancário ainda é pouco conhecido. Para o Banco de Portugal é muito importante a promoção deste Portal junto da população. O PCB divulga conteúdos e publicações informativas sobre os mercados bancários de retalho e disponibiliza serviços, entre os quais a possibilidade de registar on line pedidos de informação. 9

10 O BANCO DE PORTUGAL PUBLICA DESDOBRÁVEIS O Inquérito à Literacia Financeira da População portuguesa evidenciou que cerca de um terço dos inquiridos prefere receber informação sob a forma de prospectos e brochuras. Em 2011, o Banco de Portugal iniciou a publicação de desdobráveis temáticos sobre produtos de poupança e crédito. Os desdobráveis são distribuídos através dos balcões das instituições de crédito e estão disponíveis no Portal do Cliente Bancário e nos sítios de Internet das instituições. 10

11 O BANCO DE PORTUGAL FOMENTA A FORMAÇÃO FINANCEIRA O Banco de Portugal, além das iniciativas destinadas a disponibilizar informação clara e rigorosa sobre os produtos e serviços bancários, está empenhado em contribuir para aumentar o nível de literacia financeira da população. Esta actuação decorre do reconhecimento de que cidadãos com maiores níveis de literacia financeira estão mais capacitados para tomarem decisões financeiras informadas, desde a gestão do orçamento familiar à escolha dos produtos e serviços financeiros mais adequados na aplicação da poupança e no recurso ao crédito. O Banco de Portugal assume, assim, que a literacia financeira, além de conhecimentos financeiros, envolve também a forma como estes afectam os comportamentos e atitudes dos cidadãos no momento da tomada de decisões financeiras. Como etapa prévia, o Banco de Portugal decidiu efectuar um diagnóstico às principais lacunas na formação financeira da população portuguesa. 11

12 O INQUÉRITO À LITERACIA FINANCEIRA FOI UM MEIO DE DIAGNÓSTICO O Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, realizado em 2010, foi sendo preparado a partir de 2008 de acordo com os princípios e as melhores práticas adoptadas internacionalmente neste tipo de projectos (da INFE). O Inquérito foi um primeiro passo considerado como indispensável à definição de prioridades de formação financeira. Os resultados obtidos constituem um diagnóstico à forma como os cidadãos lidam com as finanças pessoais e familiares e aos conhecimentos que possuem das características dos produtos bancários e, ainda, dos factores a que dão mais importância no momento de os adquirir. O Inquérito ajudou a identificar os grupos populacionais e os temas financeiros com lacunas mais significativas, informação importante para o desenvolvimento de projectos de formação financeira. 12

13 OS RESULTADOS DO INQUÉRITO DIVULGADOS EM CONFERÊNCIA Os resultados preliminares deste Inquérito foram apresentados em Outubro de Os resultados finais constam do Relatório do Inquérito divulgado na 1ª Conferência do Banco de Portugal sobre Literacia Financeira subordinada ao tema Por uma Cidadania Financeira Activa. 13

14 O BANCO DE PORTUGAL PROFUNDAMENTE COMPROMETIDO COM O PNFF O Banco de Portugal, em conjunto com a Comissão de Mercados de Valores Mobiliários e o Instituto de Seguros de Portugal, lançou, em 2011, o Programa Nacional de Formação Financeira (PNFF). O PNFF é um instrumento destinado a enquadrar, dinamizar e difundir projectos de formação financeira. O PNFF tem como missão: (i) elevar o nível de conhecimentos financeiros da população; (ii) promover a adopção de atitudes e comportamentos financeiros adequados; (iii) aumentar o bem-estar da população e (iv) contribuir para a estabilidade do sistema financeiro e o crescimento económico. 14

15 A Promoção do Crédito Responsável 15

16 A IMPORTÂNCIA CRESCENTE DA PROMOÇÃO DO CRÉDITO RESPONSÁVEL Foi precisamente no mercado do crédito que, em 2007, nos EUA, eclodiu a crise financeira internacional; daí não surpreender a importância que tem vindo a ser dada à implementação do princípio do crédito responsável. A crise veio revelar que os clientes assumem frequentemente riscos sem que tenham informação e capacidade para avaliar correctamente o impacto das decisões que tomam na sua situação financeira, decisões essas muitas vezes com implicações no longo prazo. Mas a crise veio revelar também que as instituições de crédito nem sempre assumem um comportamento inteiramente responsável na avaliação do risco em que incorrem os seus clientes (e indirectamente elas próprias). O Inquérito à Literacia Financeira da População evidenciou ainda que também em Portugal os clientes bancários fazem muitas vezes uma avaliação inadequada dos custos e riscos associados aos créditos que contratam, resultado que, no actual contexto económico e financeiro, vem reforçar a necessidade de uma atenção especial ao mercado do crédito. 16

17 A PROMOÇÃO DO CRÉDITO RESPONSÁVEL É TAMBÉM UMA PRIORIDADE A promoção do crédito responsável é, neste contexto, também hoje, uma das prioridades de actuação na agenda dos supervisores e reguladores a nível internacional, visando a criação de princípios e regras que contribuam, em todas as fases da relação de crédito, para uma actuação prudente, correcta e transparente das instituições de crédito e uma avaliação adequada dos riscos por parte dos mutuários. A intervenção das autoridades tem melhorado a informação que as instituições de crédito prestam aos clientes sobre as características e riscos dos produtos de crédito, proporcionando-lhes os meios para que possam tomar decisões esclarecidas quanto aos compromissos que assumem. Ao mesmo tempo, as autoridades têm-se envolvido de forma crescente na dinamização de estratégias nacionais de formação financeira a fim de aumentar o nível de literacia financeira dos clientes bancários, para que estes possuam os conhecimentos necessários para adoptar atitudes e comportamentos informados e adequados. 17

18 A PROMOÇÃO DO CRÉDITO RESPONSÁVEL ESTÁ NA AGENDA DE TRABALHOS A Comissão Europeia tem assumido um papel de destaque na reflexão internacional sobre esta temática e tem sido precursora na introdução deste princípio no quadro legislativo comunitário, inscrevendo-o na directiva do crédito aos consumidores e no projecto de directiva do crédito hipotecário (habitação). O Banco de Portugal já no Relatório de Supervisão Comportamental de 2011 apresentou uma reflexão sobre este tema transmitindo a importância que ele tem assumido no seu programa de trabalhos e de novas iniciativas que prepara para densificar o actual quadro normativo na linha das melhores práticas internacionais. Esta prioridade decorre do reconhecimento do crédito responsável como factor necessário à prevenção de situações de sobreendividamento e, por conseguinte, de situações sociais de risco, e da promoção da estabilidade financeira e do bom funcionamento dos mercados. 18

19 DA CONTRATAÇÃO E DA CONCESSÃO RESPONSÁVEL DE CRÉDITO O Banco de Portugal, tal como a generalidade dos outros reguladores, considera o crédito responsável nas suas duas vertentes: Do lado da procura a contratação responsável de crédito ( responsible borrowing ) requer dos clientes a tomada de decisões esclarecidas e informadas quanto às condições e características do produto de crédito o que pressupõe a procura de informação junto da instituição de crédito e a capacidade para interpretar e compreender essa informação e, ainda, a prestação à instituição de crédito das informações necessárias à avaliação da sua capacidade financeira. Do lado da oferta a concessão responsável de crédito ( responsible lending ) impõe às entidades mutuantes o dever de prestar aos mutuários informação correcta e completa sobre a natureza e condições dos empréstimos e de ponderar previamente se os produtos de crédito oferecidos aos clientes são adequados às suas necessidades e capacidade financeira. Esta actuação obriga as instituições de credito a desenvolver a sua actividade creditícia com ponderação e prudência, assegurando o controlo dos riscos assumidos e salvaguardando a sua própria estabilidade financeira. 19

20 A PROMOÇÃO DA LITERACIA FINANCEIRA É INSUFICIENTE Por todo o mundo, as autoridades reguladoras têm vindo a intervir no domínio da contratação responsável de crédito, desenvolvendo projectos de formação financeira como forma de impulsionar o responsible borrowing. Em Portugal, a promoção do crédito responsável está inscrito como um dos objectivos do Plano Nacional de Formação Financeira Promover hábitos de recurso responsável ao crédito para prevenir o risco do sobreendividamento. Todavia, é também consensual que a promoção do responsible borrowing, sendo, por natureza, um processo demorado que envolve a aquisição de conhecimentos e a alteração de comportamentos não é suficiente para assegurar a contratação responsável de crédito. A complexidade e a inovação dos mercados bancários a retalho exige que, em complemento dessas medidas, sejam desenvolvidas iniciativas que visem reforçar a transparência e a prudência das instituições de crédito no quadro da sua actuação creditícia. Daí a importância de iniciativas regulamentares específicas. 20

21 A REGULAMENTAÇÃO DA CONCESSÃO RESPONSÁVEL DE CRÉDITO A implementação do principio da concessão responsável de crédito deve abranger todas as fases da relação de crédito, tendo implicações tanto em momento anterior à celebração do contrato de crédito, como durante a sua vigência, estendendo-se, inclusivamente, à forma como as instituições de crédito gerem situações de incumprimento. Na fase pré-contratual recai sobre as instituições de crédito: (i) o dever de prestar informação sobre as condições e características do produto de crédito seja no âmbito da publicitação do produto, seja no decurso do procedimento de negociação e de formação do contrato ; (ii) a avaliação da capacidade financeira do cliente; (iii) a avaliação da adequação do produto de crédito às necessidades e capacidade do cliente; e (iv) a prestação de assistência ao cliente. Na vigência da relação de crédito reflecte-se, sobretudo, na forma como as instituições lidam com: (i) a renegociação das condições do crédito ou da dívida; (ii) com eventuais dificuldades no pagamento das prestações por parte dos mutuários; (iii) com situações de incumprimento prolongado ou definitivo; (iv) com a necessidade de encetar procedimentos de recuperação de crédito ou mesmo e, numa última fase, de eventuais procedimentos judiciais de execução. 21

22 AS INICIATIVAS REGULAMENTARES DO BANCO DE PORTUGAL O Banco de Portugal tem vindo a criar um quadro normativo destinado a reforçar os deveres de informação das instituições de crédito no âmbito da concessão de crédito, procurando incrementar a transparência nas relações entre as instituições de crédito e os seus clientes e promover a concessão responsável de crédito. A criação de princípios e regras estritas na publicidade aos produtos de crédito, a harmonização e a definição de requisitos mínimos de informação na fase pré-contratual, contratual e durante a vigência do contrato de crédito, em particular, no âmbito do crédito à habitação e do crédito ao consumo, são algumas das iniciativas regulamentares que têm vindo a ser adoptadas com o objectivo de promover o crédito responsável. Em complemento a essas medidas, o Banco de Portugal tem também definido códigos de conduta sobre práticas comerciais das instituições de crédito, nomeadamente no âmbito das vendas associadas, e considera importante o reforço da fiscalização da actividade de intermediação de crédito. 22

23 NOVAS INICIATIVAS DO BANCO DE PORTUGAL O Banco de Portugal está igualmente a preparar orientações para a fase prévia à celebração de contratos de crédito que deverão ser discutidas, num workshop sobre a concessão responsável de crédito a realizar pelo Banco de Portugal com intervenientes nacionais e internacionais, sobre os seguintes temas: Dever de assistência ao cliente No sentido de garantir que a instituição de crédito presta ao cliente os esclarecimentos necessários à plena compreensão das características dos seus produtos e, desse modo, à avaliação da viabilidade e adequação desses produtos ao seu caso concreto; Análise da adequação do produto ao cliente (suitability) De modo a avaliar a adequação dos produtos de crédito oferecidos às necessidades expressas pelo cliente e às suas características pessoais e situação financeira; Avaliação da solvabilidade (creditworthiness) do cliente Tendo em vista garantir que a instituição de crédito avalia adequadamente a capacidade do cliente cumprir as obrigações decorrentes do contrato de crédito durante todo o prazo do empréstimo, de maneira sustentável e sem pôr em causa o seu bem-estar financeiro. 23

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