POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR A DISTÂNCIA NO BRASIL

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1 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR A DISTÂNCIA NO BRASIL Ana Paula Domingos Baladeli 1 Introdução As transformações científicas e tecnológicas vivenciadas atualmente impulsionam cada vez mais mudanças na sociedade por meio da crescente automação do processo produtivo e do uso de tecnologias da informação e comunicação. Dado que promove novas demandas de mercado impulsionando reformulações na formação para o trabalho e nos paradigmas na educação. Na tentativa de descrever o contexto atual em que tecnologias, sobretudo as que se relacionam com a microeletrônica e informática estão em evidência, termos como sociedade da informação e do conhecimento; sociedade informática e sociedade em rede tornam-se jargões do discurso sobre a democratização do conhecimento. Para Nagel (2002), o discurso da democratização do conhecimento - principal argumento dos defensores da sociedade da informação, na verdade, representa a difusão de um conjunto de ideias consoantes com os interesses da classe dominante. A autora justifica sua análise a partir da constatação de que as diferenças entre as classes continuam mesmo e até por conta da ampliação do uso das tecnologias da informação e comunicação. Dito de outro modo, Nagel, problematiza o discurso sobre a democratização e levanta a questão sobre quais tipos de informação e de conhecimento estão disponíveis para a maioria das pessoas. Dado inconteste, o uso de tecnologias da informação e comunicação na educação presencial tem sido incentivado a partir da implementação de programas e projetos em âmbito nacional com o propósito de difundir uma cultura de uso de tecnologias e, por conseguinte promover o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Essa 1 Especialista em Fundamentos da Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná UNIOESTE. Aluna Regular do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPE) da Universidade Estadual de Maringá UEM. Contato 1

2 centralidade ocupada pelas tecnologias pode ser constatada ao longo da implementação de programas de informática na educação da década de 80. Esses que revelam o interesse o Estado na produção e desenvolvimento de tecnologias, que naquele contexto ascendia como recurso estratégico (BALADELI; SOUSA, 2008). No que concerne a legislação educacional, o uso de tecnologias como alternativa na ampliação do acesso à educação e alcance da qualidade do ensino é abordado tanto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB, 9.396/96 quanto na Lei n /2001 que aprova o Plano Nacional de Educação - PNE. A partir da ampliação das tecnologias digitais e de seu uso em diferentes setores da sociedade, hoje o termo EAD que consiste na modalidade de ensino que tem como base a utilização de recursos das tecnologias da informação e comunicação tem sido amplamente divulgado. Mais do que o termo em si, a constituição dessa modalidade de educação provoca questionamentos por ainda consistir em um sistema de ensino em implementação. Segundo Segenreich (2004) os propósitos do Ministério da Educação MEC em caracterizar a educação a distância como uma modalidade diferenciada e paralela à modalidade presencial podem ser constatados no Art. 80 e 87 da LDB 9.396/96 em que consta a necessidade de credenciamento das IES para oferta dos cursos. Em capítulo específico que trata da educação a distância na Lei n /01 que aprova o Plano Nacional de Educação, a justificativa para a expansão dessa modalidade de ensino parte do interesse do Estado em universalizar e democratizar o ensino no país. Ainda segundo o documento os desafios educacionais existentes podem ter, na educação a distância, um meio auxiliar de indiscutível eficácia (LEI n /01). Tanto a LBD quando a Lei n /01 explicitam os propósitos do Estado em fomentar e difundir o uso de tecnologias da informação e comunicação na educação nas modalidades presencial e a distância. Mais recentemente é com o Decreto n /2005 no Art. l º que a educação a distância conquista regulamentação específica. No decreto a definição de educação a distância é apresentada como uma 2

3 modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos. Conforme Dourado (2008) a partir da LDB/96 é sensível à ênfase concedida à implementação de políticas públicas para a expansão do ensino superior a distância no que concerne a oferta de cursos de licenciatura. A expansão na oferta de curso superior nessa modalidade estava prevista como uma alternativa para democratização da educação nesse nível. Contudo, segundo Segenreich (2004) o processo de institucionalização da modalidade se deu em meio a interesses conflitantes isso porque, a implementação de projetos de EAD poderia ser conduzida por IES cadastradas junto à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Ensino Superior Capes, e consórcio/rede de instituições. Ainda segundo a autora, a pouca aceitação da modalidade a distância no contexto do ensino superior, se dá em grande medida pela distinção legitimada pelas regulamentações do MEC em caracterizar a modalidade como um sistema paralelo ao sistema presencial, com credenciamento institucional específico, mesmo para universidades consolidadas (SEGENREICH, 2004, p. 4). Ao longo das alterações propostas pelo Decreto n /05 à LDB/96, a educação a distancia é caracterizada como uma modalidade de ensino com uso de tecnologias da informação e comunicação. Outra característica da modalidade a distância diz respeito ao tempo e ao espaço para o ensino e a aprendizagem. Art. 1 o Para os fins deste Decreto, caracteriza-se a educação a distância como modalidade educacional na qual a mediação didáticopedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos. Em relação à organização dessa modalidade de ensino, o Decreto regulamenta que o sistema de avaliação seja realizado presencialmente. 1 o A educação a distância organiza-se segundo metodologia, gestão e avaliação peculiares, para as quais deverá estar prevista a obrigatoriedade de momentos presenciais para: I avaliação de estudantes; 3

4 II estágios obrigatórios, quando previstos na legislação pertinente; III defesa de trabalhos de conclusão de curso, quando previstos na legislação pertinente. IV - atividades relacionadas a laboratórios de ensino, quando for o caso. A oferta de educação superior na modalidade a distância consta no Art. 2 o do referido documento e prevê a implementação dessa modalidade em cursos e programas; sequenciais; de graduação; de especialização; de mestrado e de doutorado. Para Dourado (2008) diante dos desafios impostos pela expansão da educação a distância tanto na esfera pública quanto na privada, a educação a distancia ainda provoca questionamentos, sobretudo no que diz respeito ao acesso e à qualidade do ensino ofertado. Ainda segundo o autor, a expansão de cursos de formação de professores na modalidade a distância provoca análises antagônicas e discussões apaixonadas. Se por um lado a desregionalização na oferta dos cursos prevista para a modalidade possibilita o acesso maior de pessoas às universidades, por outro, não se pode desconsiderar, que essa ampliação de vagas provoca o aligeiramento na formação inicial e continuada na área de educação (DOURADO, 2008). No bojo dos interesses do Estado, a implementação e a regulamentação da modalidade EAD parte da centralidade ocupada pelas tecnologias na promoção do desenvolvimento econômico do país. Sendo assim, o uso de tecnologias da informação e comunicação possibilita para o aumento de vagas e consequentemente aumento no grau de escolaridade da população o que corrobora para o alcance das metas estabelecidas pelos organismos multilaterais nos acordos de financiamento da educação. A produção e o desenvolvimento das tecnologias, sobretudo as que se relacionam com a microeletrônica e a informática refletidas nas tecnologias da informação e comunicação (TIC) imprimem novas demandas para o trabalho exigindo o aperfeiçoamento constante. O discurso vigente condiciona a empregabilidade do sujeito à sua capacidade de adaptação às demandas do mercado. Logo o investimento permanente em qualificação implica na busca por conhecimentos em áreas diferentes e no desenvolvimento da polivalência. Assim, 4

5 cursos de curta, média e longa duração, presencial ou à distância surgem e desaparecem conforme a demanda do mercado. Esses cursos são criados com a finalidade de preencher lacunas na formação do trabalhador, que segundo os empregadores, apresentam-se desqualificados (BALADELI; SOUSA, 2008, p. 24). Nesse contexto, o conhecimento sobre as tecnologias e áreas técnicas ganha destaque. O investimento em formação permanente bem como a busca por qualificação movimenta o mercado de cursos chamados livres. Esses que seguindo a lógica do mercado surgem e desaparecem conforme a demanda. No Brasil, diferentes instituições oferecem cursos de capacitação presencial e a distância. A história da EAD no Brasil não é recente. Utilizando os meios disponíveis em cada momento histórico a oferta de cursos de capacitação não presencial se fez notar desde o início do século XX, como veremos a seguir. Trajetória da EAD no Brasil A educação a distância no Brasil até os anos de 1920 foi realizada por meio de correspondência, via correios. Foi somente a partir da fundação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro órgão privado responsável por iniciar o ensino via rádio que a educação passou a contar com esse recurso. A educação realizada via rádio ampliou consideravelmente o acesso a um número maior de pessoas a formação. Entretanto, por conta do autoritarismo e da censura no Brasil na década de 60, muitas iniciativas de educação a distância via rádio foram interrompidas nesse período (ALVES, 2009). Para (ALVES, 2009) uma nova fase na história da educação a distância no Brasil ocorreu entre a década de 60 e 70, quando da obrigatoriedade das emissoras de televisão aberta em reservarem em sua programação espaço para a veiculação de programas educativos. Em 1969 com a criação do Sistema Avançado de Tecnologias Educacionais houve a orientação para que recursos como o rádio e a televisão fossem utilizados na educação. Contudo, mesmo com a obrigatoriedade prevista em portaria baixada pelo Ministério das Comunicações de que as emissoras comerciais deveriam transmitir programas educativos, na maioria dos casos, os programas eram transmitidos em horários incompatíveis com a disponibilidade dos possíveis alunos-usuários (ALVES, 5

6 2009, p. 10). Ainda segundo o autor, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, o Instituto Monitor e o Instituto Universal Brasileiro foram instituições que colaboraram para a consolidação da educação a distância no país uma vez que, capacitaram para o mercado de trabalho um número grande de pessoas (ALVES, 2009). Até o início da década de 70, a educação a distância no Brasil estava fundamentada na correspondência, nas emissoras de rádio e em programas educativos na televisão aberta. A mudança na implementação da educação nessa modalidade se deu em 1970 quando da chegada do computador no país. Naquela ocasião as universidades iniciaram o uso dessa ferramenta ampliando as possibilidades de ensino a distância que passou a ser realizado com o uso do computador (ALVES, 2009). O modelo de EAD difundido no Brasil tomou como referência o modelo britânico realizado pela Open University criada em 1969 que tem na BBC British Broadcasting Corporation, a sua principal articuladora. A Open University num primeiro momento ofereceu cursos via televisão. Posteriormente teve sua metodologia reformulada inserindo o uso de material didático impresso. Hoje, mais de 200 mil alunos estudam em casa ou no local de trabalho por intermédio de materiais diversos (impressos, kits, vídeos, fitas de áudio, softwares, jogos e Internet). Há cursos abertos, de extensão ou de conhecimentos gerais, traduzidos para várias línguas e oferecidos por diversos meios (NUNES, 2009, p. 6). Nos tempos atuais a educação a distância no Brasil contempla a oferta de cursos nos diferentes níveis e modalidades de ensino. A oferta de cursos gratuitos no ensino superior a distância está sendo realizada em todo o país por meio do Sistema Universidade Aberta do Brasil. A expressão Universidade Aberta do Brasil é a denominação representativa genérica para a rede nacional experimental voltada para a pesquisa e para a educação superiro formada pelo conjunto de pólos municipais de apoio presencial (COSTA, 2008, p. 24). A UAB se caracteriza pela articulação entre as Instituições de Ensino Superior credenciadas para oferecerem os cursos de formação de professores nas regiões em que 6

7 há carência de vagas. Compõem o sistema UAB além de professores da IES, tutores a distância e presencial, estes que acompanham as atividades nos pólos no qual atuam. Em se tratando de formação de professores, no Estado do Paraná o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) segundo dados do portal oferece cursos em 11 pólos de apoio presencial totalizando a oferta de vagas. A parceria entre as IES, Governo Federal e municípios possibilita o alcance dos objetivos estabelecidos para o sistema UAB, quais sejam; oferecer, prioritariamente, cursos de licenciatura e de formação inicial e continuada de professores de educação básica e ampliar o acesso à educação superior pública (COSTA, 2009, p. 25). Considerações finais Na tentativa de analisar a ampliação da oferta de ensino superior a distância, nos limites do referencial aqui adotado, buscou compreender sob quais pressupostos as diretrizes para essa modalidade foram construídas. As leituras apontaram a centralidade ocupada pelas tecnologias da informação e comunicação na implementação de cursos a distância. Ainda que tenha regulamentação específica, a modalidade EAD ainda gera polêmica tendo em vista que a qualidade do ensino é motivo de inquietação para muitos pesquisadores sobre o tema. Um dos fatores que corroboram com a polêmica diz respeito à avaliação do desempenho do estudante deve ser realizada presencialmente. Como a modalidade EAD imprime nova dinâmica de acesso ao conhecimento e também insere no cenário educacional novos atores como o tutor, sua é qualidade é contestada. Contudo, o grande entrave encontrado para o desenvolvimento do ensino superior a distância, sobretudo, no que concerne a formação de professores repousa no fato de os cursos de licenciatura EAD serem ofertados com carga horária diferenciada o que representa para alguns autores o aligeiramento da formação inicial. Além disso, a formação do professor e do tutor para atuarem como formadores por meio do uso de tecnologias da informação e comunicação é outro ponto chave na discussão sobre o tema. 7

8 Por fim, pretendeu-se nos limites deste trabalho compreender o processo de regulamentação da EAD e seus pressupostos como modalidade de ensino em diferentes níveis. Ainda que o debate sobre a educação a distância seja polemizado, há que se considerar a necessidade de compreende-la na sua totalidade. Referências ALVES, J. R. M. A história da EAD no Brasil. In: Educação a distância: o estado da arte. LITTO, F. M., FORMIGA, M. (org). São Paulo: Pearson Education do Brasil, p BALADELI, A. P. D.; SOUSA, J. de F. A. O lócus da formação de professores nos programas de informática na educação. (Monografia de Especialização em Fundamentos da Educação) Cascavel: Unioeste, BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, BRASIL. Ministério da Educação. Plano Nacional de Educação PNE. Ministério da Educação. Brasília: Inep, BRASIL. Ministério da Educação. Decreto n de 19 de Dezembro de Regulamenta o art. 80 da Lei n de 20 de dezembro de COSTA, M. L. F. O Sistema Universidade Aberta do Brasil: democratização e interiorização do ensino superior. In: COSTA, M.L.F. Introdução à educação a distância. Maringá: Eduem, p DOURADO, L. F. Políticas e gestão da educação superior a distância: novos marcos regulatórios? Educação e Sociedade. Campinas, SP vol. 29. Volume especial. Out., p NAGEL, L, H. A sociedade do conhecimento no conhecimento dos educadores. Revista Urutágua. Maringá, PR., ano I, n. 04 maio de 2002, quadrimestral. NUNES, I. B. A história da EAD no mundo. In: Educação a distância: o estado da arte. LITTO, F. M.; FORMIGA, M. (org). São Paulo: Pearson Education do Brasil, p SEGENREICH, S. C. D. Políticas de Ead e seu impacto no ensino superior. Primer Congreso Virtual Latinoamericano de Educación a Distancia. LatinEduca2004.com. 8

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