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1 Políticas paracidades que perdem população Ana Paula Barreira Thomas Panagopoulos Maria Helena Guimarães

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3 Políticas para cidades que perdem população Ana Paula Barreira Thomas Panagopoulos Maria Helena Guimarães Universidade do Algarve FCT Fundação para a Ciência e Tecnologia 2015

4 Ficha Técnica Autores: Ana Paula Barreira, Thomas Panagopoulos e Maria Helena Guimarães Título: Políticas para cidades que perdem população Paginação: Bloco Design Impressão: Litográfis Tiragem: 500 exemplares Edição: Universidade do Algarve - Campus de Gambelas, Edf. 9, Faro ISBN: ª edição: maio de 2015 Este trabalho é financiado por Fundos FEDER através do Programa Operacional Fatores de Competitividade COMPETE e por Fundos Nacionais através da FCT Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projeto «EXPL/ATP-EUR/0464/2013 Orientações de política para a regeneração de cidades em declínio».

5 Biografias Ana Paula Barreira Doutora em Economia, Professora Auxiliar na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e membro integrado no CIEO - Centro de Investigação sobre o Espaço e as Organizações. Tem lecionado diversas unidades curriculares no 1º ciclo em Economia e é responsável pela unidade curricular de Microeconomics no Mestrado em Tourism Econo mics and Regional Development. Tem desenvolvido investigação nos seguintes temas: 1) ciclos político-eleitorais, 2) federalismo fiscal, 3) políticas e estratégias urbanas, e 4) fenómeno das cidades que perdem habitantes. Foi a delegada nacional no Comité de Gestão no projeto europeu COST: Cities regrowing smaller - Fostering knowledge on regeneration strategies in shrinking cities across Europe. É a investigadora responsável pelo projeto: EXPL / ATP-EUR / 0464/ Orientações de política para a regeneração de cidades em declínio, financiado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia. É coautora de diversos artigos internacionais com revisão por pares sobre o tema do declínio urbano da população. Thomas Panagopoulos Licenciado em Engenharia Florestal, Mestre em Recursos Naturais e Doutor em Ciências Florestais e Ambiente Natural pela School of Geocience, Aristotle University, Greece. Publicou mais do que 250 artigos em revistas científicas e congressos e é coeditor de várias revistas nacionais internacionais. É Professor na Faculdade de Ciência e Tecnologia na Universidade do Algarve, e foi coordenador da área departamental da Arquitetura Paisagista (1º ciclo), diretor do Mestrado em Arquitetura Paisagista (2º ciclo) e membro da comissão coordenadora do programa doutoral Gestão da Inovação e do Território (3º ciclo). É membro da IUFRO (The International Union of Forest Research Organization), e da UNISCAPE (The European Network of Universities for the implementation of the European Landscape Convention). Em 2007 dinamizou a criação na Universidade do Algarve do Centro de Investigação sobre o Espaço e as Organizações (CIEO) onde lidera o grupo de investigação: Cities and Spatial Dynamics. Maria Helena Guimarães Bolseira de pós-doutoramento no Grupo de Dinâmicas da Paisagem e Processos Sociais, do Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas (ICAAM) da Universidade de Évora. Mestre em Gestão Integrada dos Recursos Marinhos, grau obtido na Universidade do Algarve. Doutora no ramo de Ciências do Ambiente, especialidade de Ordenamento do território pela Universidade dos Açores. As principais áreas de investigação focam processos de transdisciplinaridade, valoração económica, pensamento sistémico, sistemas socio-ecológicos e metodologias participativas.

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7 Apresentação O tema da redução de habitantes a viver nas cidades ( shrinking cities ) não é novo, e foi abordado inicialmente como integrando o ciclo de vida das cidades, em que períodos de crescimento demográfico são alternados com períodos de declínio demográfico. No entanto, a realidade na Europa tem vindo a questionar esta forma de analisar o tema à medida que aumenta o número de cidades que perdem habitantes e o número de países onde este fenómeno é registado. A perda de habitantes nas cidades é um tema praticamente inexplorado em Portugal e raramente reconhecido quer por políticos e decisores com responsabilidades no planeamento urbanístico das cidades, quer pelos cidadãos. Com exceção das regiões do interior de Portugal onde o fenómeno da redução demográfica é mais visível, este é um tema que não é abordado. Duas razões podem contribuir para explicar este facto: 1) cidades que apresentam declínio demográfico/económico são vistas como cidades perdedoras e 2) a perda de habitantes não tem implicado uma proporcional redução no número de alojamentos ocupados dado o aumento do número de famílias, cuja dimensão média tem vindo a diminuir. Este livro procura contribuir para um melhor conhecimento do tema da perda de habitantes em cidades portuguesas e para desmistificar algumas das ideias negativas associadas ao fenómeno shrinking cities. O livro começa por apresentar uma revisão da literatura sobre o tema e uma sistematização das principais práticas internacionais adotadas na sua abordagem. De seguida, o livro descreve os principais resultados obtidos no âmbito do projeto exploratório financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT): EXPL/ATP-EUR/0464/2013 Orientações de política para a regeneração de cidades em declínio. O projeto de investigação visou cumprir os seguintes objetivos principais: a. Identificar as cidades portuguesas com perda de habitantes; b. Georreferenciar as cidades portuguesas que perderam habitantes nas duas últimas décadas; c. Identificar as principais causas para a perda de habitantes em cada cidade; d. Escolher quatro casos de estudo como exemplos das diferentes causas para a perda de habitantes nas cidades portuguesas; e. Aplicar um inquérito aos residentes das quatro cidades portuguesas caso de estudo com o objetivo de identificar: 1. Os fatores de atração e para o eventual abandono dos residentes de cada cidade; 2. As políticas preferidas para lidar com o declínio populacional em cada caso de estudo; 3. As ações pretendidas pelos residentes no âmbito das duas políticas por si mais valorizadas em cada cidade. A partir da análise detalhada das causas que explicam porque as cidades portuguesas ficaram mais pequenas (perderam população), quatro cidades foram selecionadas como casos de estudo, representando cada uma delas uma causa: Porto (suburbanização), Barreiro (desindustrialização), Peso da Régua (efeito satélite) e Moura (condições climáticas). A aplicação do inquérito permitiu obter 701 inquéritos: Porto (180), Barreiro (179), Peso da Régua (171) e Moura (171).

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9 Índice 1. Introdução 2 2. Enquadramento teórico Conceitos A dinâmica demográfica A dinâmica económica As correntes dominantes Ciclo de vida das cidades O declínio persistente As causas para a perda de população A suburbanização A transformação económica O efeito satélite Ambientais Políticas para cidades mais pequenas Trivializar ou reverter Aceitar ou utilizar As cidades com declínio populacional O retrato mundial A realidade europeia O Norte e o Centro da Europa O Leste da Europa O Sul da Europa Políticas adotadas 22 7

10 No Norte da Europa No Leste da Europa No Sul da Europa As cidades mais pequenas em Portugal Uma breve perspetiva histórica A evolução nas duas últimas décadas A dimensão dos impactos As cidades com maior perda absoluta As cidades com maior perda relativa Algumas projeções demográficas As cidades mais pequenas caso de estudo Caracterização das cidades Porto Barreiro Peso da Régua Moura A estrutura do questionário aplicado nas cidades caso de estudo Os fatores de atração da cidade e para o seu abandono Metodologia Fatores de atração das cidades no seu conjunto Fatores de atração para cada caso de estudo Fatores para o abandono das cidades no seu conjunto Fatores para o abandono da cidade em cada caso de estudo 50

11 5.4. A satisfação residencial Avaliação e metodologia Variáveis explicativas sociodemográficas Os atributos de atração das cidades e para o seu abandono como variáveis explicativas Políticas e ações de política preferidas pelos residentes Metodologia A ordem de preferências das políticas A ordem de preferência das ações da política Reanimação Económica e da política Segurança e Acessibilidade Recomendações De política Para os cidadãos Conclusões 64 Referências 67 Publicações 75 9

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13 1. Introdução Desde o início do século XXI que um número significativo de cidades europeias confronta se com o declínio no seu número de habitantes. As cidades que perdem sistematicamente população têm merecido gradualmente a atenção de investigadores e de políticos. Apesar do crescente interesse sobre o tema, a forma como a população é afetada pelo fenómeno não tem sido considerada na decisão política. No caso de Portugal, o tema da perda de população não é sequer devidamente contemplado nos principais documentos de desenvolvimento estratégico das cidades (Sousa e Pinho, 2014). As cidades que estão a ficar mais pequenas ou shrinking cities, designação introduzida pela escola alemã, têm sido abordadas na literatura por terminologia diversa que compreende termos como declínio, decadência, abandono, contra urbanização, crise urbana ou mudança demográfica (Haase et al., 2014). No âmbito deste livro, cidades mais pequenas significa cidades que perderam habitantes. O conceito adotado no âmbito deste livro para definir uma cidade a ficar mais pequena é uma adaptação do proposto por Pallagst et al. (2009), em que a perda de habitantes é um processo multidimensional, que afeta as cidades, com pelo menos 3 mil habitantes, as quais experimentam um declínio continuado (pelo menos 10 anos) nas suas bases económicas e sociais. Apesar do crescente interesse no estudo das cidades mais pequenas, à medida que o seu número aumenta e alarga a um crescente número de países, o tema tem sido evitado por políticos e decisores urbanos. A ideia central para que seja evitado colocar o assunto na agenda política resulta de na maioria das análises o declínio populacional estar associado a efeitos negativos sobre o bem-estar. Não tem de ser assim. De facto, quando questionados, os indivíduos que residem em cidades que ficaram mais pequenas revelam sentimentos de satisfação e de felicidade, o que implica que não é obrigatoriamente prejudicial para a qualidade de vida dos habitantes o fenómeno do shrinkage urbano. Neste contexto, os cidadãos constituem-se como um dos principais ativos das cidades que estão a ficar mais pequenas. No entanto, as decisões de política têm sido predominantemente top down, não sendo adotada, na maioria dos casos, uma estratégia bottom up, que envolva os cidadãos no processo de configuração das melhores estratégias. van Dalen e Henkens (2011) vão mais longe ao afirmar que os cidadãos que residem em regiões ou cidades ameaçadas pelo declínio da população têm sido mantidos insistentemente afastados do debate sobre o assunto. A abordagem bottom-up é baseada na premissa de que a participação dos habitantes na definição das políticas permite uma mais adequada definição de prioridades e identificação de como e onde essas políticas devem ser aplicadas (Kantor e Savitch, 2005; Weichmann e Pallagst, 2012). Os governos das cidades com menos habitantes ficam limitados na sua capacidade de sozinhos lidarem com as consequências financeiras e físicas que resultam da perda de população, e, portanto, a implementação de políticas com possibilidade de virem a ter sucesso está muito dependente do envolvimento dos cidadãos (Metzger, 2000). Quando os cidadãos são convidados a adotar ações impostas, o sucesso dessas ações tende a estar comprometido. A participação dos cidadãos num estádio inicial da conceção da política e o seu envolvimento nos processos de tomada de decisão, permite-lhes começar a preocupar-se com a questão da sua cidade estar a ficar mais pequena antes dos governos pedirem-lhes para o fazerem (Hospers, 2014). 11

14 A reforçar esta relevância do envolvimento dos cidadãos está a experiência internacional que tem mostrado que as particularidades dos locais que registam perda de habitantes precisam de ser considerados para que os objetivos definidos venham a ter hipótese de ser concretizados. Assim, políticas do género one size fits all não são recomendadas (Haase et al, 2014; Turok, 2004). Há autores como Haase et al. (2014) que afirmam que a compreensão do fenómeno das cidades que ficam mais pequenas implica não olhar apenas para um caso específico, sendo necessário integrar diversas explicações teóricas com diferentes trajetórias históricas. Em vez de um processo único, as cidades que perderam habitantes retratam uma realidade diversificada. O resultado prático é que não existe um receita única para lidar com a perda de habitantes (Haase et al., 2013a). Políticas experimentadas em uma cidade só podem ser reproduzidas noutra depois de se ter em conta as particularidades da cidade e as causas específicas para a perda de residentes. Com este livro pretende-se cumprir dois objetivos. Por um lado aglutinar numa publicação em português a principal literatura sobre shrinking cities, apresentando em simultâneo uma sistematização das diversas realidades europeias e, por outro, congregar e disseminar os resultados de um projeto de investigação exploratório ( ) que incidiu sobre a realidade das cidades portuguesas e em particular sobre quatro cidades que tipificam as principais causas nacionais para o declínio populacional: a suburbanização, a transformação económica, os fatores climáticos e o efeito satélite. O projeto denominado: Orientações de política para a regeneração de cidades em declínio pretendeu atingir dois objetivos centrais: 1) conhecer, sobre a perspetiva dos cidadãos residentes em cidades confrontadas com a perda de população, quais os atributos que consideram ser atrativos da cidade, tal como os que podem induzir o seu abandono; 2) conhecer as políticas e respetivas ações que os habitantes consideram prioritárias para lidar com o declínio populacional na sua cidade. Este livro está estruturado em seis secções. Na seção dois é sistematizada a principal literatura sobre as cidades que estão a ficar mais pequenas, sendo apresentadas diferentes definições para o fenómeno, as suas principais causas e as formas de o abordar em termos de políticas a adotar. Na seção três é apresentado um retrato do fenómeno do shrinkage, com especial destaque para a diversidade de realidades registadas na Europa. A quarta seção descreve a evolução das cidades mais pequenas em Portugal. A quinta secção sistematiza os principais resultados do projeto de investigação anteriormente referido. A secção 6 apresenta as principais recomendações que emergem do projeto para entidades públicas com responsabilidade política e para os cidadãos em geral. A secção 7 sistematiza as principais conclusões. Políticas para cidades que perdem população

15 2. Enquadramento teórico A definição do fenómeno das cidades mais pequenas encontra diversas propostas. Para Häußermann e Siebel (1987) o fenómeno retrata um novo desenvolvimento, sem precedentes, da população urbana, traduzido no declínio da população e do emprego. Großmann et al. (2008) interpreta o fenómeno como o resultado da migração de emprego, da suburbanização e do crescimento negativo da população. Já para Pallagst et al. (2009), cidades mais pequenas resultam de um processo multidimensional, o qual afeta cidades, partes de cidades ou áreas metropolitanas, as quais experimentaram um declínio acentuado das suas bases económicas e sociais. No âmbito do projeto europeu COST Cities Regrowing Smaller (COST, 2012) foi proposto que uma shrinking city é uma área urbana com uma população mínima de 5 mil habitantes que tem enfrentado uma perda notável de população, pelo menos num período de 10 anos (nos últimos anos ou em algum período anterior) e que atravessa um processo transformativo económico, social ou cultural, de longo prazo ou de natureza episódica, que causa sintomas de uma crise estrutural. No âmbito deste livro e dada a especificidade do caso português, onde predominam cidades de muito pequena dimensão, em comparação com os padrões europeus, considerou-se 3 mil o limite mínimo de habitantes na definição de uma cidade mais pequena. Assim, no livro é adotada uma adaptação da definição de Pallagst et al. (2009): uma cidade mais pequena é uma cidade com pelo menos 3 mil habitantes, que foi afetada por um processo multidimensional e contínuo (pelo menos 10 anos) de perda de habitantes, e vivencia um declínio nas suas bases económicas e sociais. Em termos gerais, o fenómeno shrinkage é percebido como uma transformação urbana que compreende perdas de população e de emprego, com implicações frequentes ao nível da exclusão social, da pobreza e da decadência física das cidades (Cheshire e Hay, 1989). A adicionar a estes efeitos a perda de valor da propriedade e das casas acentua os efeitos negativos do declínio da população e/ou da atividade económica (Follain, 2010). Glaeser e Gyourko (2005) afirmam que a durabilidade da propriedade que fica abandonada, ou a dificuldade em vendê-la, em cidades com declínio populacional, é a principal razão para que a natureza de uma cidade a ficar mais pequena ser distinta de uma cidade em crescimento. O surgimento do conceito do declínio populacional e a hipótese de o mesmo constituir um processo contínuo associado a transformações económicas, a mudanças demográficas, a fenómenos de suburbanização e a transformações políticas e ambientais implicou uma nova maneira de ver o fenómeno da perda de população nas cidades. O conceito de declínio, na literatura, tem sido associado a perda de população, perda de atividade económica e/ou diminuição na qualidade de vida (van den Berg et al., 1982; Bradbury et al., 1982; Clark, 1989; Rusk 1995). Para Beauregard (2009), que analisou a perda de população nas cidades dos Estados Unidos durante três períodos distintos compreendidos entre 1820 e 2000, existem quatro características que devem ser consideradas quando se estuda o fenómeno das cidades que ficam mais pequenas : a prevalência (número de vezes que uma cidade experimentou a perda de habitantes durante uma década), a gravidade (decréscimo no número de habitantes), a persistência (o número de períodos em que ocorre decréscimo populacional) e a incidência geográfica (número de cidades a perder habitantes no mesmo período de tempo em cada região). 13

16 A forma como as cidades reconhecem e aceitam a realidade de terem menos habitantes determina a sua capacidade de ter sucesso num contexto que é completamente distintivo daquele que orienta as escolhas em contexto de crescimento populacional. Políticas inteligentes para lidar com a perda de habitantes nas cidades deverão encarar o fenómeno como uma oportunidade para fazer diferente. Hollander e Németh (2011) referem a necessidade de aplicar políticas inteligentes para lidar com o declínio populacional. Cidades com menor densidade populacional oferecem a oportunidade de terem bairros com mais espaços verdes, ruas menos congestionadas e alimentos a serem produzidos localmente, o que se traduz em ganhos na qualidade de vida dos residentes. Mallach (2010) argumenta que a realidade de uma cidade mais pequena implica o reconfigurar do seu ambiente físico, a reutilização do excedente de edifícios que ficam vagos e o capitalizar dos recursos específicos de cada cidade como ativos que podem gerar rendimento, para que mesmo que a cidade continue a perder habitantes, consiga manter a suficiente vitalidade para que fique mais forte. Este fortalecimento implica: 1) a recuperação das áreas centrais, principalmente dos centros históricos, convertendo-os em ativos físicos e económicos; 2) a preservação e melhoria de bairros residenciais viáveis, evitando a edificação de mais moradias nas cidades e fomentando a criação de circuitos pedestres; 3) a identificação de usos não- -tradicionais e verdes para terras e edifícios devolutos através do reaproveitamento do solo urbano para, por exemplo, a agricultura urbana; 4) a redireção das capacidades de produção das cidades em prole de indústrias verdes; e 5) a aposta na construção de ativos institucionais, como universidades e centros de saúde Conceitos A dinâmica demográfica A perda de habitantes em cidades tem sido considerada a variável mais emblemática de cidades em declínio (figura 1), traduzindo-se em cidades mais pequenas, não em termos de ocupação geográfica mas em termos de densidade populacional (Beauregard, 2009; Turok e Myknhenko, 2007). A redução no número de habitantes das cidades não é homogeneamente distribuída pelos diversos grupos etários e pelos diversos níveis de instrução, sendo respetivamente mais propensos ao abandono das cidades os indivíduos mais jovens e mais instruídos (Arnott e Chaves, 2012; Zimmermann, 2005). Esta assimetria na propensão para o abandono das cidades traduz a coexistência de cidades com uma grande preponderância de jovens e consequentemente com elevado capital humano, o qual potencia o crescimento económico, com cidades onde predominam os mais idosos e os indivíduos com menores oportunidades de encontrar outra cidade de residência alternativa, reduzindo o potencial de criação de riqueza nessas cidades. É esta dinâmica que explica que cidades que estão a ganhar habitantes sejam vistas como ganhadoras e as que estão a ficar mais pequenas como perdedoras (Hoekveld, 2012), pelo que cidadãos, planeadores urbanos e políticos tendem a não querer reconhecer o fenómeno da perda de habitantes, sendo considerado, na maioria das situações, um assunto tabu (Beauregard, 2003; Popper e Popper, 2002). Um número mais reduzido de habitantes numa cidade tipicamente origina um excedente de habitações, desajustando a procura da oferta e provocando um aumento de alojamentos va- Políticas para cidades que perdem população

17 gos ou abandonados (Glaeser e Gyourko, 2005; Ryan, 2012). Por sua vez, este tipo de espaços aumentam a sensação de insegurança dos habitantes com o aumento de casas grafitadas e de zonas onde grupos de cidadãos considerados mais problemáticos se aglomeram. A existência de espaços degradados acentua a dinâmica de perda de habitantes, dado que outras localizações alternativas passam a oferecer comparativamente maiores atrativos (Blasius e Friedrichs, 2007; Elo et al., 2009). Este efeito do aumento de habitações vazias só não é mais evidente em determinadas cidades porque o efeito da redução de habitantes tem sido compensado pela diminuição da dimensão média da família, existindo hoje muitas famílias monoparentais e muitos indivíduos a residir sozinhos, com especial destaque para os mais idosos (Haase et al., 2013c; Kabisch e Haase, 2013). EM DECLÍNIO > 80% 30% - 70% 10% - 25% 1% - 10% 0% Latvia Romania Lithuania Estonia Bulgaria Serbia Czech Republic Croatia Greece Hungary Slovenia Albania Slovakia France Poland Europe Malta Germany Portugal Austria Finland Macedonia Italy United Kingdom Netherlands Spain Switzerland Sweden Belgium Denmark Ireland Montenegro San Marino Norway Monaco Luxembourg Liechtenstein Iceland População em declínio: (<-0.15% por ano) População estável: (-0.15% a 0.15% por ano) População a crescer: (>0.15% por ano) 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Figura 1. Cidades europeias com crescimento, estagnação e declínio populacional entre 1990 e Fonte: Wiechmann, T. (2013), Shrinking cities in Europe, Apresentação na Conferência Final da Ação COST em Dortmund: Cities regrowing smaller. 15

18 A dinâmica económica Decorrente do processo de globalização observou-se um desvio dos centros de competitividade entre cidades, entre regiões e mesmo entre países (Hall, 1997b; Martinez-Fernandez et al., 2012). Este reajustamento das forças de atração da atividade económica implicou a relocalização de empresas de alguns setores de atividade e noutros casos o efetivo abandono de determinadas produções, agora substituídas por outras, muitas das vezes tecnologicamente mais avançadas. O movimento de saída da atividade económica para outras zonas implicou o declínio económico das cidades em que tal ocorreu (figura 2), estando na origem, em diversas situações, da redução do número de habitantes. Pese embora estes dois movimentos estejam muitas vezes interconectados, outras razões associadas a alterações políticas, ambientais ou de preferências das famílias (ver seção 2.3), também podem originar movimentos de saída de residentes das cidades. A interpenetração entre o declínio populacional e o declínio económico tem gerado alguma discussão em torno de onde está a origem do problema. De facto, a migração tende a estar relacionada com o emprego, existindo uma relação causal entre este e o crescimento da população (International Organization for Migration - IOM, 2011). Cidades que são economicamente ativas geram mais oportunidades de emprego, pelo que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita está fortemente relacionado com as cidades onde a população jovem-adulta cresceu mais rapidamente (Arnott e Chaves, 2012; Lutz, 2001). Assim, as famílias tendem a localizar-se onde têm mais hipóteses de encontrar emprego (Storper e Manville, 2006). Mesmo pequenas mudanças na procura de trabalho e na produtividade são determinantes para a entrada de forma persistente de novos habitantes nas cidades (Rappaport, 2004). Em consonância, Plöger e Weck (2014) referem que sustentar uma dimensão relevante de mão-de-obra qualificada é uma tarefa difícil para as cidades em regiões economicamente desfavorecidas. Atendendo a que o emprego e a produtividade estão relacionados com o crescimento, as cidades com um grande número de pessoas pobres e menos instruídas têm menores níveis de produtividade, reduzindo o atrativo para a entrada de novos habitantes (di Addario e Patacchini, 2008). Além disso, as empresas tendem a preferir cidades em crescimento porque atraem trabalhadores com qualificações superiores, enquanto as cidades que apostam na melhoria de instalações e infraestruturas de apoio ao consumo tendem a ser preferidas pelos aposentados (Chen e Rosenthal, 2008). Há autores que afirmam que os cidadãos procuram bens públicos e acessibilidade a serviços, tais como escolas (Brunner et al., 2012; Ferguson et al., 2007; Garmendia et al., 2008), hospitais (Partridge et al., 2007; Portnov e Pearlmutter, 1999) e transportes (Portnov, 2004; Royuela et al., 2010), deslocando-se para as cidades que lhes satisfazem essas necessidades, pelo que as empresas seguem a população. No entanto, em termos gerais, é aceite que em mercados com elevado desempenho os empregos seguem as pessoas e em mercados com fraco desempenho as pessoas seguem os empregos (Carlino e Mills, 1987). Ferguson et al. (2007) argumentam que ambos os efeitos podem ser, afinal de contas, indistinguíveis, pois, como afirmam na página 100, os centros urbanos têm provavelmente uma capacidade superior para realizar com sucesso tanto iniciativas que melhoram a qualidade de vida dos residentes como o desenvolvimento económico. Para além de fatores de atração económica, o acesso à habitação a preços comportáveis é igualmente um fator importante para os fluxos migratórios (Sasser, 2010). A compra de uma casa é um investimento a longo prazo que normalmente restringe a mobilidade das famílias. Políticas para cidades que perdem população

19 Embora o facto de uma cidade estar a perder população faça decrescer os preços das casas, também desencoraja novas aquisições, tornando assim mais difícil vender uma casa, dada a sua elevada taxa de depreciação. O facto de o número de habitações tender a não decrescer ao ritmo da população constitui um fator que potencialmente retarda o declínio da população (Rappaport, 2004). Glaeser e Gyourko (2005) afirmam que, no caso dos Estados Unidos, a habitação é a principal razão pela qual os processos de declínio e crescimento populacionais são tão diferentes. Estes autores enfatizam que, quando o preço das casas chega a um ponto abaixo dos custos de construção, então, inevitavelmente, a cidade vai continuar a perder habitantes, antecedendo ao declínio da população o declínio dos preços das casas. A idade média das habitações (Partridge et al., 2010) e o número de novas habitações construídas (Gans, 2000; Portnov, 2004; Portnov e Pearlmutter, 1999) constituem outros fatores que podem explicar padrões diferenciados da evolução da população em cidades a ficar mais pequenas. Figura 2. Cidades com declínio económico, edifícios industriais abandonados (Região do Ruhr Alemanha) As correntes dominantes Ciclo de vida das cidades Ao longo da história encontram-se períodos em que as cidades perderam população. O desenvolvimento urbano tem complexas etapas de crescimento, estagnação e declínio, que podem resultar de alterações nas condições económicas, sociais, políticas ou ambientais. Este processo tem sido designado por diferentes palavras tais como declínio, decadência, abandono, contra-urbanização, crise urbana e demográfica, entre outras (Haase et al., 2014). O processo da evolução populacional das cidades, em que períodos de aumento da população são seguidos de períodos com um menor número de habitantes, tem recebido a atenção dos primeiros investigadores das problemáticas urbanísticas desde Rust (1975), Berry (1977) a van den Berg et al. (1982). Esta dinâmica de crescimento, alternado com declínio populacional, deu origem à teoria do ciclo de vida das cidades (van den Berg et al., 1982). De acordo com este ponto de vista, baseado na abordagem da economia neoclássica, o declínio é um processo inevitável gerado pelas estratégias dos agentes económicos. Após a perda de habitantes nas cidades, os governos locais tentem a desenvolver e a implementar políticas capazes de 17

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