Fases históricas do sistema bancário brasileiro. Fernando Nogueira da Costa Professor do IE-UNICAMP

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1 Fases históricas do sistema bancário brasileiro Fernando Nogueira da Costa Professor do IE-UNICAMP

2 Fases históricas do sistema bancário brasileiro 2

3 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Primeiro Estágio:

4 século XIX ( ) Indefinição do padrão monetário (metalista ou papelista), refletindo na criação-destruição-recriação do Banco do Brasil, banco do governo com crise de identidade entre: 1. assumir a coisa pública ou 2. atuar de acordo com as regras do mercado, desde seu primeiro nascimento. Criação da Caixa Econômica Federal em

5 padrão monetário oscilante Estágio secular, indo de 1808 a 1921, isto é, desde a primeira fundação do Banco do Brasil até sua transformação efetiva em semi-autoridade monetária, após sua última fundação, em A economia brasileira oscilou entre: 1. a moeda mercadoria (ouro) ou papel-moeda conversível com estritas regras de reserva aurífera e 2. as diversas tentativas estatais de emissão de moeda fiduciária, para cobrir déficits. 5

6 inexistência de sistema bancário A rigor não se pode falar que havia sistema bancário, mesmo subdesenvolvido, pois os poucos bancos existentes, em praças locais, logo emprestavam todos os recursos próprios. Em tal economia, a quantidade de moeda, quando lastreada, era determinada fora do setor bancário por: 1. fluxos de comércio externo, 2. investimentos estrangeiros ou 3. produção de ouro. 6

7 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Segundo Estágio:

8 Abertura financeira ao exterior, permitindo: o ingresso de capitais externos; o predomínio de bancos estrangeiros; as duas experiências brasileiras do século passado com o padrão-ouro: a Caixa de Conversão ( ) e a Caixa de Estabilização ( ); Nesse período, surgiram também as condições institucionais necessárias para a criação da moeda bancária: uso generalizado de cheque, câmara de compensação e carteira de redesconto e, conseqüentemente, o descolamento da fração bancária do capital cafeeiro. 8

9 reforma bancária de 1921 Por pressão dos nacionalistas, em reação à fuga de capitais realizadas no período pré-guerra, que colocou fim à primeira das duas experiências brasileiras do século passado com o padrão-ouro, isto é, a da Caixa de Conversão ( ), começou a se colocar restrições legislativas à livre entrada (e saída) dos bancos estrangeiros. A reforma bancária de 1921 resultou em: criação de câmara de compensação de cheques e abertura de carteira de redescontos no Banco do Brasil, para redescontar títulos de outros bancos. 9

10 fim das experiências com padrão-ouro Quando as ondas de liquidez internacional se esvaíram, respectivamente, com a I Guerra Mundial e com a Crise de 1929, as experiências com o padrão-ouro findaram. A partir de então, nunca mais houve experiência com moeda conversível em ouro, no Brasil. Mas ocorreram ainda tentativas de câmbio fixo, atrelando a moeda nacional a alguma paridade estável com o padrão monetário hegemônico: o dólar. 10

11 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Terceiro Estágio:

12 Embora tenha ocorrido debate sobre a criação de banco central no Brasil, inclusive com a vinda de missão de apoio inglesa, em 1931, os fatos que mais marcaram a história bancária brasileira, entre 1930 e 1945, foram: 1. a socialização das perdas bancárias, devido à crise de 1929, 2. a imposição da reserva de mercado, no varejo bancário, em favor dos bancos brasileiros, 3. a legislação liberal propícia a fundações de bancos, 4. o início do uso de bancos públicos (federais e estaduais) para atuação desenvolvimentista. 12

13 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Quarto Estágio:

14 Fim da fase competitiva e início do processo de concentração bancária; Criação de novas instituições financeiras SUMOC, BNDE e financeiras, até a reforma financeira de 1964, quando inclusive o Banco Central do Brasil foi criado com prioridade concedida ao financiamento do surto de desenvolvimento econômico. 14

15 origem dos principais bancos A origem dos principais bancos, no Brasil, ocorreu antes de 1945, quando as barreiras à entrada, para brasileiros, eram baixas. Exigia-se pouco volume de capital e a tecnologia bancária era acessível. Durante a 2ª Guerra Mundial, quase dobrou o número de bancos: de 354 em 1940 para 663 em

16 processo de concentração A partir de então, já se trata da evolução de sistema bancário, com processo de concentração simultâneo ao de ampliação da rede nacional de agências. Em 1964, 20 anos depois, já tinha se reduzido para a metade (328) o número de bancos, mais 10 anos, em 1974, para um terço (106). Este número se manteve até a abertura neoliberal, quando, entre 1988 e 1994, se multiplicou por quase três vezes (271). Mas com a crise bancária, a privatização, a desnacionalização e a concentração, o setor bancário brasileiro reduziu-se para 167 bancos múltiplos e comerciais, em 2002, e, finalmente, 161 em

17 Número de instituições financeiras 17

18 quarto estágio da história monetária e bancária brasileira 1. Introdução da exigência de reservas bancárias fracionárias sobre os depósitos. 2. Antes, sem exigências de reservas legais, a oferta de moeda tornava-se elástica com o multiplicador monetário sendo determinado: 1. pela demanda de crédito, 2. pelos pagamentos de empréstimos e 3. pela prudência (ou aversão ao risco) dos banqueiros. 3. Depósitos possuídos como forma líquida de manutenção da riqueza. 4. Uso das ordens de transferências de depósitos como meio mais comum de troca. 5. Cheques mais aceitos pela rede comercial. 6. Rede bancária se expandindo em nível nacional. 18

19 grupos econômicos (ou familiares) dos banqueiros Vários banqueiros emprestavam para os próprios grupos econômicos (ou familiares) em condições privilegiadas, prática proibida a partir da reforma bancária do regime militar, em Quando os passivos dos bancos começaram a tomar a forma de depósitos transferíveis por cheques, a moeda criada pelos empréstimos bancários, usualmente, vazava menos do sistema bancário, elevando a capacidade de empréstimos dos bancos. Mas eles eram ainda intermediários passivos, isto é, sem ativar a demanda de crédito, apenas atendiam-na, emprestando até o limite de seus depósitos. 19

20 alternativas de financiamento em longo prazo Nesse período, apenas as seguintes alternativas de financiamento em longo prazo estavam disponíveis: 1. o autofinanciamento via capitalização interna das empresas e 2. o financiamento externo às empresas, seja pela absorção de recursos estrangeiros, seja pelo uso de recursos públicos. 20

21 fontes de fundos para processo de industrialização 1. A primeira era o setor público: diretamente pelo setor financeiro estatal (IFPF, BCE) ou via incentivos fiscais e manutenção de subsídios cambiais à importação de equipamentos. 2. A segunda era o setor externo, principalmente no financiamento de importações. 3. Finalmente, a terceira possibilidade era as empresas recorrerem ao próprio autofinanciamento. Esse podia se dar: 1. pelo aumento da participação societária de matrizes ou associadas, 2. através do ingresso de capital externo (IDE investimento direto externo), ou 3. pela utilização de lucros retidos, depreciação e reservas. 21

22 sistema de crédito em curto prazo pré descontos de duplicatas comerciais e financiamentos de capital de giro, efetuados pelos velhos bancos comerciais. 2. financiamento ao consumo de bens duráveis, produzidos pela indústria nascente, pela criação de algumas financeiras. 3. empréstimos das instituições financeiras públicas (IFPF, BCE). 22

23 papel de autoridade monetária Neste período, antes da reforma bancária de 1964, a SUMOC dividia o papel de autoridade monetária com o Banco do Brasil. O Banco do Brasil, às vésperas dessa reforma bancária, detinha posição dominante no sistema bancário brasileiro. Se, de 1945 a 1961, sua participação no mercado de depósitos à vista oscilou, anualmente, entre 35% e 45%, nos anos de crise pré-golpe militar 1962 e 1963 elevou-se para 51% e 49%, respectivamente, e em 1964 atingiu 60%. 23

24 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Quinto Estágio:

25 Repressão financeira, que modernizou e fortaleceu o sistema bancário nacional, através de: 1. reformas monetária, habitacional e do mercado de capitais; 2. indução do processo de concentração bancária e conglomeração financeira; 3. estímulo à internacionalização dos bancos públicos e privados nacionais. 25

26 quinto estágio da história monetária e bancária brasileira Iniciou-se quando se criou o Banco Central do Brasil, que efetivamente impôs exigência de reserva sobre os bancos, buscando regular os empréstimos bancários e recuperar o controle sobre o saldo monetário. Em 1970, o Banco Central do Brasil começou a usar operações de open market ou empréstimos de liquidez para ajustar as reservas bancárias, acentuando seu poder sobre a oferta de moeda. Sob forte influência monetarista, seus técnicos passaram a tentar modelar, formalmente, o sistema monetário, inspirando-se em modelos de base monetária multiplicador monetário em que supunham: 1. controle sobre reservas bancárias (RB/MP) e 2. rígidas relações papel-moeda / depósitos (PMPP/DV). 26

27 regime de alta inflação e moeda indexada Durante três décadas de 1964 a 1994, perdurou o regime de alta inflação, 10 anos mais longo que o próprio regime militar! Devido ao mecanismo de proteção via correção monetária aplicada às aplicações e aos empréstimos, inicialmente restrito aos efetuados em longo prazo, e, depois, com o progressivo encurtamento de prazos, sua contrapartida foi o regime monetário com a chamada moeda indexada. Foi situação extremamente lucrativa aos bancos, envolvidos em captação de dinheiro a custo zero (depósitos à vista e floating disponibilidades líquidas) para aplicarem em ativos (empréstimos ou títulos de dívida pública) com correção monetária. 27

28 sub-fases nesse estágio da história bancária brasileira A primeira ( ) foi a do processo de tentativa-eerro no esforço tecnocrata de transplantar o modelo norteamericano de segmentação de instituições financeiras, isolando os velhos banqueiros e propiciando o surgimento de novos aventureiros no breve boom do mercado de capitais (bolsa de valores) e na permanente expansão do mercado (aberto) de dinheiro (open market). A segunda ( ), demandada aos velhos banqueiros a incorporação de negócios falidos dos novos, foi a do processo de concentração, conglomeração e internacionalização. A visão neoliberal já hegemônica nas instituições multilaterais achava que vigorava, no Brasil, o processo de repressão (apenas) financeira. 28

29 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Sexto Estágio:

30 Após a Constituinte, houve a liberalização financeira com: 1. liberalização do mercado bancário com o fim da exigência de carta-patente, 2. abertura à entrada de capital externo com o fim da reserva de mercado, e 3. facilidade para se criar bancos múltiplos, principalmente para corretoras e distribuidoras. 30

31 criação de multibancos A abertura à concorrência não enfrentou grande resistência, pois foi compensada pela possibilidade de criação de multibancos, ou seja, a legalização de situação existente de fato, mas não de direito. No início dos anos 90, houve diferentes estratégias de ajustamento dos bancos à liberalização financeira. Em contexto internacional de abertura financeira, cada grupo de bancos tratou de explorar seu nicho de mercado. 31

32 bancos de negócios Houve possibilidade de mobilidade ascensional, em termos de rentabilidade. Pequenos bancos, com poucos funcionários, sem rede de agências e clientela varejista, mas com selecionada clientela de grande fortuna, inclusive em nível internacional, obtinham ganhos até acima de 50% sobre o patrimônio líquido ao ano! Nas instituições menores, aplicar o próprio patrimônio também dava lucros, para quem tinha poucos ativos imobilizados. Ganhos com privatização, reestruturação de empresas e administração de fundos de investidores estrangeiros reforçaram a rentabilidade desses bancos que optaram por operar no mercado de capitais, e não no mercado de crédito. 32

33 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Sétimo Estágio:

34 Da aventura liberalizante, com o impacto da estabilização inflacionária, em 1994, a breve bolha de consumo, e a longa sobrevalorização da moeda nacional, da eleição até a reeleição de FHC, restou estágio transitório de crise bancária. Crise bancária com: 1. liquidação de grandes bancos privados nacionais; 2. privatização de bancos estaduais; 3. reestruturação patrimonial das instituições financeiras públicas federais; 4. concentração bancária; 5. desnacionalização bancária. 34

35 fim da reserva de mercado bancário No final dos anos 90 s, um século depois, após mais uma política deflacionista, assistiu-se, novamente, o ponto de partida: uma crise bancária e o recurso à desnacionalização. Além da tendência à concentração, verificou-se a progressiva desnacionalização do setor bancário brasileiro, que tinha usufruído, na era desenvolvimentista, desde os anos 30, de reserva de mercado. Na era neoliberal, a reserva de mercado bancário passou a ser considerada supérflua. 35

36 novo regime monetário Com a queda da inflação, desapareceu também a moeda indexada. Mas novo regime monetário foi, de fato, implantado somente a partir de 1999, com: 1. mudança do regime de câmbio fixo para regime de câmbio flexível, 2. adoção de regime de metas de inflação e 3. política fiscal com metas de superávit primário. 36

37 Fases da história da moeda e dos bancos no Brasil Oitavo Estágio:

38 acesso popular a bancos: 1. bancarização : abertura de contas correntes simplificadas. 2. acesso a crédito em consignação, crédito aos consumidores, e ao microcrédito. 3. ganho de economia de escala com fusões e aquisições. 4. elevação da competitividade dos bancos brasileiros. 38

39 Bancarização 39

40 Rede de atendimento 40

41 Atendimento bancário no país - dependências 41

42 Transações bancárias por origem 42

43 clientes de bancos de varejo em dezembro de 2006 (em milhões) 68,7 milhões de correntistas ou 66% 43

44 44

45 45

46 46

47 47

48 relação crédito / PIB O estoque total de crédito do atingiu R$ bilhões, em junho de 2010, passando a representar 45,7 % do PIB. FHC LULA 48

49 relações dívida / PIB vs. crédito / PIB 42,8% 34,7% 49

50

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