PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP. Maria de Lourdes Bohrer Antonio RELAÇÕES AFETIVAS EM LITÍGIO E A MEDIAÇÃO FAMILIAR

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1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Maria de Lourdes Bohrer Antonio RELAÇÕES AFETIVAS EM LITÍGIO E A MEDIAÇÃO FAMILIAR DOUTORADO EM SERVIÇO SOCIAL SÃO PAULO 2013

2 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Maria de Lourdes Bohrer Antonio RELAÇÕES AFETIVAS EM LITÍGIO E A MEDIAÇÃO FAMILIAR Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social, como exigência parcial para a obtenção do título de DOUTOR em Serviço Social, sob a orientação da Profª. Drª. Maria Lucia Rodrigues. SÃO PAULO 2013

3 FICHA CATALOGRÁFICA 1. Autor: Maria de Lourdes Bohrer Antonio 2. Título: Relações Afetivas em Litígio e a Mediação Familiar 3. Programa: Serviço Social. PUC-SP. São Paulo: São Paulo, Nº de folhas: Grau: (X) tese (doutorado) 6. Área de Concentração: Serviço Social 7. Orientador(a): Profª. Drª. Maria Lucia Rodrigues 8. Descritores: Serviço Social 9. Palavras-Chave: afetividade; mediação familiar; sócio-jurídico.

4 BANCA EXAMINADORA Professora Drª. Maria Lucia Rodrigues Orientadora Professora Drª Bader Burihan Sawaia Membro da Banca Professora Drª Águida Arruda Barbosa Membro da Banca Professora Drª Rosa Maria Ferreiro Pinto Membro da Banca Professora Drª Maria Carmelita Yasbek Membro da Banca

5 Dedico esta Tese à: Victoria e Maria da Glória Silvia Estela Gigena

6 AGRADECIMENTOS Só os homens livres são muito gratos uns para com os outros (Spinoza, Ética IV, Prop. 71) Fica expressa, aqui, a minha gratidão a todos que contribuíram para a realização deste trabalho, especialmente: À minha orientadora, Prof. Dra. Maria Lucia Rodrigues, pelo investimento afetivo dispensado a mim durante o doutorado. À banca de qualificação, pelas valiosas contribuições oferecidas por ocasião do exame; à Prof. Dra. Águida Arruda Barbosa e à Prof. Dra. Bader Burihan Sawaia, pela disponibilidade e pelo empenho. À CAPES, pelo suporte financeiro para a realização deste estudo. Ao Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social da PUC-SP, pela forma democrática com que conduz o oferecimento de bolsas e por todo o seu corpo docente do Serviço Social que, de forma tão sábia, nos auxiliam e acompanham no processo de aprendizagem. Ao Prof. Dr. Antonio Rodrigues de Freitas Júnior, pelo acolhimento enquanto aluna especial na Universidade de São Paulo-USP - Faculdade de Direito, Curso de Pós-graduação, disciplina Mediação em Conflitos de Justiça, Cultura da Paz e Promoção dos Direitos Humanos. À Juíza de Direito, Coordenadora do Setor de Mediação das Varas da Família e Sucessões da Comarca de Santos/SP, Silvia Estela Gigena, pela confiança depositada, desde o primeiro momento, e pela autorização para que fosse possível a realização desta pesquisa. À Juíza de Direito, Diretora do Fórum da Comarca de Santos na gestão 2012/13, Thatyana Antonelli Marcelino Brabo, pelo incentivo constante e pela valorização deste estudo. Às Juízas de Direito, Ariana Consani Brejão de Gregório Gerônimo, Mariella Amorim Nunes Rivau Alvarez, Natália Garcia Penteado Soares Monti e Vanessa Aufiero da Rocha, pelo acolhimento inicial e permanente à ideia da mediação.

7 Ao Desembargador Gilberto Passos de Freitas e aos Juízes de Direito, Evandro Renato Pereira, e José Vitor Teixeira de Freitas, pela compreensão imediata da necessidade de se implementar a mediação familiar judicial na Comarca de Santos. Às juízas e às famílias participantes desta pesquisa, pela generosidade e disponibilidade com que me receberam. Ao apoio da Profa. Riyadh Weyersbach. À Prof. Dra. Rosa Maria Ferreiro Pinto, pelo incentivo à vida acadêmica. Às grandes companheiras de trabalho, Silvia Maria Bagaiolo Coimbra - assistente social, Roseli Barreira Fernandes da Rocha - psicóloga, e Virgínia Araújo - escrevente, pelo apoio incondicional à realização deste estudo. Às leitoras críticas deste trabalho e grandes amigas: Maria Antelma Ferraz de Mendonça Jensen psicóloga, Sandra Aparecida Siqueira assistente social e bacharel em Direito, Fátima Aparecida Micheletti, Maria Natália O. P. Bueno Guerra e Fausta A. O. Pontes Bueno Guerra assistentes sociais. À minha família: ao meu marido, Jaime, pelas décadas de companheirismo e incentivo à minha vida profissional; às minhas filhas muito amadas, Victoria e Maria da Glória, pelo amor, paciência e alegria; aos meus pais, pelo amor incondicional; aos meus irmãos, Elias, Zezé, Manoel, Dorinha e Duda, pela amizade e confiança; à minha sobrinha, Renata raios de sol ; e à família Jensen, especialmente à Tomas, meu auxiliar nas transcrições. Enfim, esta tese deve muito a muitos, a todos agradeço infinitamente em uma infindável lista: à equipe de assistentes sociais e psicólogos da Comarca de Santos, Verônica A. da M. Cezar-Ferreira, Sandra Fedullo Colombo, Ana Maria Menezes, Lígia Maria C. B. Fonseca, Ana Maria C. A. Correa, Cristiane A. da Costa, Fátima C. C. Fontes, Regina Silva, Juarez Leite, Jacy dos Santos, Wilson e Wilsinho Cístolo, Denise G. Pampolini, Vera Blank, Márcia Cristina Lima, Verinha Fagundes, Roninele Dalmonech, Mario Alcântara Queiroz, César A. Panighel, Sandra e Marcelo Boaventura, Cynthia Varandas, Caroline Lobo, Juliana Cocito, Telma Rodrigues, Fernanda Winchester, Bethânia e Victor, Claudete Negreiros, Joice Antonio, Terry Ruas, Gina Chamone e Roberto Zárate, Nilson, Ellen, Ana Costa e Verônica, Comunidade aimoreense Capa-bode...

8 RESUMO O objetivo geral do trabalho foi analisar as relações afetivas familiares entre pais de crianças e de adolescentes em situação de litígio e desvelar o sentido da mediação familiar. Nosso principal referencial teórico foi o filósofo Spinoza e os contemporâneos Morin e Maturana. Realizamos um estudo quantitativo, por meio do qual localizamos a inserção dos Pedidos de Guarda e Regulamentação de Visitas como a principal demanda do Setor de Mediação das Varas da Família e Sucessões da Comarca de Santos, bem como traçamos o perfil dos protagonistas desses pedidos: os requerentes e requeridos, pais das crianças/adolescentes. Delimitamos o universo nos anos de 2008 a Com o perfil decorrente do quantitativo, realizamos um estudo qualitativo. Efetuamos entrevistas semiestruturadas, com sete famílias e cinco juízas que encaminharam os usuários. A pesquisa qualitativa foi analisada por meio de dois eixos: as relações afetivas familiares e a mediação familiar. Compreendemos que as relações familiares dos pais em litígio está marcada pelo desejo de convivência amorosa com os filhos e pela efetivação de direitos. Ainda que esta ação seja inicialmente um padecimento, por ter sido movida por uma paixão triste, o litígio é uma medida para o enfrentamento de um sofrimento ético-político. Esta ação busca a concórdia, mesmo que possa parecer o contrário. A mediação familiar judicial é uma proposta do judiciário que colabora para a concórdia ser uma passagem para o encontro com um estado de paz. Paz é potência de vida, alegria e liberdade que se expressam nas condições materiais e espirituais da vivência humana em sociedade. A mediação familiar judicial é um processo de trabalho exercido por um profissional (ou uma equipe) qualificado, com uma metodologia própria e interdisciplinar de base afetiva e ética, para que duas ou mais pessoas que tenham laços familiares sejam eles consanguíneos ou não e que passam por uma situação de litígio busquem respostas mais responsáveis, autônomas e exequíveis sobre o conflito, tendo como perspectiva uma cultura da paz e dos direitos humanos. Concluímos que as relações familiares em litígio configuram-se em uma expressão contemporânea da questão social e que a mediação se revela um dos importantes instrumentos para o seu enfrentamento enquanto parte de uma política, sendo o assistente social sujeito relevante no planejamento e na execução desta política. Palavras-Chave: afetividade; mediação familiar; sócio-jurídico.

9 ABSTRACT This study aims at analyzing the affective family relationships between the parents of children/adolescent children in litigation phase and at learning the meaning of family mediation. Our main theoretical framework lies on the philosopher Spinoza and on the contemporaries Morin and Maturana. We conducted a quantitative study through which we located the insertion of Custody Petition and Regulatory Visits as the main demand of the Mediation Sector of Family and Probate Courts in the District of Santos, and we profiled the protagonists of those petitions, i.e., the claimants and the defendants, parents of the children/adolescent children. The research was limited to a three-year window ( ). With the profile resulting from the quantitative study, we conducted a qualitative study. We have carried out semi-structured interviews with seven families as well as with five judges who referred users to our Mediation Sector. The qualitative research was analyzed using two axes: family affective relationships and family mediation. We understand that family relationships of parents in litigation is marked by the desire to love living with their children and by the realization of rights. Although this action is primarily a suffering for having been driven by a sad passion, litigation is a measure to cope with an ethical-political suffering. This action seeks harmony, even though it may seem otherwise. The judicial family mediation is a judiciary proposal which contributes to harmony be a path to meeting with a state of peace. Peace is power of life, happiness and freedom that are expressed in the material and spiritual conditions of human existence in society. The judicial family mediation is a work process performed by a qualified professional (or team) with his/her own interdisciplinary methodology, having an affective and ethical basis, so that two or more people who have family ties - whether by blood or not - and who are going through a litigation phase look for more responsible, autonomous and enforceable answers on the conflict. The qualified professional does that under the perspective of a culture of peace and human rights. We conclude that family relationships in litigation are configured in a contemporary expression of the social issue and that mediation is revealed as one of the most important tools for dealing with it as part of a policy. The social worker is a relevant subject in planning and implementing that policy. Keywords: affection, family mediation; socio-legal.

10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO I - MEDIACÃO, SERVIÇO SOCIAL E O CONTEXTO LEGAL Categoria mediação Mediação como processo de trabalho Mediação familiar como trabalho do assistente social judiciário e o contexto legal CAPÍTULO II A AFETIVIDADE HUMANA A afetividade humana em Spinoza A afetividade e as relações sociais CAPÍTULO III PESQUISA: CONTEXTO E METODOLOGIA Setor de mediação das Varas da Família e Sucessões da Comarca de Santos A. Criação e funcionamento Sobre o fluxo de trabalho Sobre os procedimentos técnicos B. Estudo da demanda C. Perfil social dos usuários Metodologia CAPÍTULO IV - O DISCURSO SOBRE AS RELAÇÕES AFETIVAS FAMILIARES NA VOZ DE SEUS PROTAGONISTAS Relações afetivas dos pais com a família de origem Relações afetivas dos pais com seus filhos Relações afetivas entre os pais CAPÍTULO V - A COMPREENSÃO DA MEDIAÇÃO FAMILIAR PELOS USUÁRIOS E AUTORIDADES JUDICIÁRIAS Percepção dos usuários Percepção das Autoridades Judiciárias CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APÊNDICE ANEXOS

11 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - Recepção: água e chá FIGURA 2 - Livros de poesia FIGURA 3 - A proposta de um ambiente acolhedor FIGURA 4 - O sorriso da escrevente que recepciona

12 LISTA DE TABELAS TABELA 1 Processos enviados ao Setor de Mediação das Varas da Família e das Sucessões da Comarca de Santos/SP em Ano/Vara TABELA 2 Caracterização de ações recebidas referentes aos anos de TABELA 3 Movimento de unidades atendidas pelo Setor de Mediação em TABELA 4 Número de sujeitos por unidade de atendimento TABELA 5 Reuniões por unidade de atendimento TABELA 6 Caracterização das ações em Mediações concluídas TABELA 7 Tempo entre a data de distribuição do processo e a determinação do envio para o Setor de Mediação das Varas da Família e das Sucessões da Comarca de Santos/SP em TABELA 8 Litígios anteriores ao atual entre requerente/requerido TABELA 9 Existência de outros processos atuais entre requerente/requerido além dos enviados ao Setor de Mediação TABELA 10 Existência de perícia social e psicológica nos processos enviados ao Setor de Mediação TABELA 11 Grau de instrução formal dos requerentes/requeridos TABELA 12 Requerentes/Requeridos Profissão TABELA 13 Requerentes/Requeridos Renda TABELA 14 Tempo que exerce atividade laborativa no atual trabalho requerentes/requeridos TABELA 15 - Estado civil dos requerentes/requeridos TABELA 16 Número de filhos entre requerentes e requeridos ou número de criançasadolescentes envolvidos no litígio TABELA 17 Condição de residência do requerente /requerido TABELA 18 Tipo e tempo de relacionamento entre as partes

13 LISTA DE APÊNDICES APÊNDICE A Termo de Consentimento livre e esclarecido APÊNDICE B Autorização da Autoridade Judiciária para a realização da pesquisa

14 LISTA DE ANEXOS ANEXO 1 - Perfil sócio-jurídico ANEXO 2 - Avaliação do trabalho de mediação ANEXO 3 - Aprovação do Comitê de Ética

15 LISTA DE SIGLAS Siglas e abreviações indicativas da Ética - obra de Spinoza AD Definição dos afetos (Affectum definitiones), adendo à parte III Ap. Apêndice cor. Corolário def. Definição dem. Demonstração esc. Escólio exp. Explicação post. Postulado prop. Proposição pref. Prefácios Indicação das citações da obra de Spinoza A obra de Spinoza, Ética, será citada com as seguintes siglas e abreviaturas: as partes serão indicadas em algarismos romanos (E, I; IV etc.); em arábicos serão indicados, seguidos de abreviaturas: as definições (E, I, def. 6), suas explicações (E, II, 3 def., expl.), os axiomas (E, II, ax. 1), os enunciados das proposições (E, III, P4), as demonstrações (E, V, 24 dem.), os corolários (E, I, 20, cor. 1), os escólios (E, IV, 9 esc.), os lemas (E, II, 4 lem.), os postulados (E, III, 2 post.), os prefácios das partes (E, IV, Pref.). Exemplificação: E II, 35 esc. = Ética, Parte II, Proposição 35, escólio

16 16 INTRODUÇÃO O mistério das cousas, onde está ele? Onde está ele que não aparece Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, Rio como um regato que soa fresco numa pedra. FERNANDO PESSOA Esta tese nasce das reflexões ocorridas no cotidiano da função de Assistente Social Judiciário, no sistema sócio-jurídico, iniciadas há mais de vinte anos no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo - Fórum da Comarca de Santos. Neste sentido, ela é, também, parte do nosso trabalho e expressa uma das dimensões da prática profissional. Estabelecemos como objeto as relações afetivas entre pais de crianças e adolescentes, em situação de litígio, atendidas no exercício da mediação familiar judicial. Nossa reflexão centra-se na relação entre pai/mãe/filhos que têm, ou tiveram, processos nas Varas da Família e Sucessões da Comarca de Santos e que se dispuseram a participar da mediação familiar efetuada por assistentes sociais. Portanto, a perspectiva deste trabalho é a compreensão e a análise do movimento relacional familiar sob a influência da atuação profissional do assistente social enquanto mediador. Nossas indagações ocorrem no sentido de compreendermos as relações afetivas dos integrantes dessas famílias no momento de mudança, no que esse movimento da família como um sistema interfere nos sentimentos e valores dos sujeitos e, também, em como a mediação familiar, como proposta do Judiciário, influencia para que eles vivam o arranjo familiar de nós e os laços afetivos. No bojo dessas reflexões, buscamos captar o sentido da atuação dos profissionais de Serviço Social, tanto para essas famílias quanto para as Autoridades Judiciárias, bem como verificar suas contribuições e desafios. Esta pesquisa tem como objetivo geral analisar as relações afetivas familiares entre pais de crianças e de adolescentes em situação de litígio e desvelar o sentido da mediação familiar. Para a consecução do objetivo geral, foram delineados dois objetivos específicos: analisar as relações afetivas entre esses pais; e investigar o sentido da mediação no enfrentamento dessa situação, em atuação exercida por assistentes sociais.

17 17 Justificativa Estamos [...] diante de um primeiro problema: que a tentativa de elucidação não seja traição, e muito menos ocultação. De resto, a palavra elucidar torna-se perigosa, se acreditarmos na possibilidade de trazer à luz plenamente todas as coisas. Creio que a elucidação esclarece, mas ao mesmo tempo revela: o que resiste à luz, detecta também um fundo obscuro. (MORIN, 2001, p. 16). Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2007), divulgados em setembro de 2008, revelaram aumento tanto no número de casamentos quanto de separações, com a opção pelo litígio, no Brasil. Ainda segundo a pesquisa, 88,6% das pessoas que moravam juntas tinham parentesco, sendo que, destes, 48,9% eram casais com filhos, indicando, assim, número menor que o registrado em 1997 (56,6%). Entre 1997 e 2007, o percentual de casais sem filhos havia crescido de 12,9% para 16%; e o de pessoas que viviam sozinhas, de 8,3% para 11,1%. Em relação às famílias com filhos, 50,5% tinham filhos menores de 16 anos. Os filhos estavam, cada vez mais, sendo criados por apenas um dos pais. 19,2% dos filhos viviam essa realidade em 1997, subindo para 21,8% em A pesquisa revelou, também, que o percentual de filhos com menos de 16 anos, criados apenas pelo pai, havia aumentado, nesse mesmo período, de 7,8% para 9,8%. A taxa de nupcialidade, ainda segundo o mesmo estudo do IBGE, que havia aumentado para 6,4% em 1997, mas caído para 5,7% em 2002, voltava a subir para 6,5% em O Judiciário estava sendo mais acionado pelos casais que dissolviam a relação conjugal devido ao aumento das separações judiciais litigiosas. Em 1997, 81,7% das separações foram consensuais, enquanto que, em 2007, esse percentual caiu para 76%. Posteriormente, o IBGE divulgou outra pesquisa, Estatística do Registro Civil 2011, objetivando acompanhar a evolução da população brasileira e monitorar o exercício da cidadania e a implementação de políticas públicas. A pesquisa, publicada em 17/12/12, reiterou dados como: o aumento da taxa de divórcio; o aumento do número de casamentos; a diminuição dos registros extemporâneos; e o aumento da guarda compartilhada. Segundo o IBGE, o Brasil, em 2011, registrou a maior taxa de divórcio desde 1984, chegando a um crescimento de 45,6% em relação a 2010, quando foram registrados

18 divórcios 1. Entretanto, assim como a taxa de divórcio, a de casamento também aumentou: em 2011, foram registrados casamentos, 5% a mais que no ano anterior. Verificou-se, também, que apesar de as mulheres ainda serem a maioria na responsabilidade pela guarda dos filhos, houve um aumento de 5,4% na guarda compartilhada, que representa mais que o dobro do verificado em A nossa experiência de trabalho, juntamente com os dados anteriormente mencionados, instigam-nos a refletirmos sobre a família e a mediação familiar, levando-nos a várias indagações. Existem muitos estudos a respeito da mediação familiar? Há estudos a respeito da mediação familiar em Serviço Social? Qual é a relação entre o trabalho de mediação e a categoria ontológica marxiana? Qual conceito de mediação atenderia ao projeto ético-político da profissão? A mediação seria uma nova profissão? Qual é o fundamento legal para o exercício da mediação? Há uma política pública de mediação? Ela contempla as necessidades? A mediação é uma atribuição do assistente social? Quais são os fundamentos da afetividade humana? Como poderíamos transformá-la? Qual é a relação com a cultura da paz? Quem são esses pais que litigam? Como são as suas relações familiares? O que é conflito? O que é compreensão? Como é a relação entre os conflitos familiares e o judiciário? Que percepção os pais em litígio e as autoridades judiciárias têm da mediação familiar? A mediação é uma boa estratégia de enfrentamento ao litígio familiar? Qual concepção de mediação familiar atenderia aos princípios do projeto ético-político do Serviço Social brasileiro? Que implicações resultariam de uma pesquisa no tema das relações familiares em litígio e mediação? O que mais precisaríamos saber sobre o tema? Devido ao anteriormente exposto, percebemos como necessário o preparo de profissionais - entre eles, o de assistentes sociais que trabalham com famílias - para lidar com as separações dos casais e as consequências daí advindas, principalmente quando envolvem filhos menores. Para compreender tamanha complexidade, é necessário que se pesquise o assunto e não se deixe contaminar por velhas verdades petrificadas pelo tempo. Nosso estudo 1 De acordo com Cláudio Crespo, pesquisador do IBGE, o aumento do número de divórcios ocorreu devido à aprovação da Emenda Constitucional nº 66, proposta pelo IBDFAM, [...]. A EC/66 eliminou os prazos para o divórcio ao extinguir o instituto da separação judicial, evitando os longos processos em que se buscava quem era o culpado pelo fim do casamento. Para o presidente do IBDFAM Instituto Brasileiro de Direito de Família, Rodrigo da Cunha Pereira, a Emenda Constitucional EC/66 instalou um novo sistema de divórcio no Brasil [...] ao substituir o discurso da culpa pelo da responsabilização do sujeito. O que a pesquisa comprova ao revelar um aumento do número de divórcio ao mesmo tempo em que mostra o aumento do número de casamentos. Simplificar a dissolução do casamento não significa de maneira alguma incentivar separações; ao contrário, significa apenas que a responsabilidade pelos vínculos conjugais diz respeito tão somente ao casal e que eles devem ter liberdade para manter ou não tal vínculo, explica. (Informativo 26 Ano Nº /12/12).

19 19 reporta-se à demanda advinda das Varas da Família e Sucessões. Delimitar-se-á aos usuários do Setor de Mediação, por ser este o lócus do nosso trabalho. Muitos assistentes sociais têm realizado o trabalho no Judiciário, bem como refletido sobre ele. Novos títulos 2 têm sido publicados, com maior frequência, sobre o tema. No entanto, as pesquisas feitas no âmbito do Serviço Social no Judiciário são insuficientes e exigem maior aprofundamento frente às necessidades dos profissionais que atuam neste campo. Podemos dizer que esta é uma área que se silenciou e que [...] tem sido silenciada na literatura especializada (IAMAMOTO, 2004, p. 263). Parece, inclusive, que houve um hiato nas produções neste campo, pois não acompanharam o volume das publicações do Serviço Social. Conforme explica Netto: [ ] a década de oitenta assinalou a maioridade do Serviço Social no Brasil no domínio da elaboração teórica. Nesse decênio, desenvolveu-se, no interior da categoria, uma divisão de trabalho (uma especialização) que é própria das profissões amadurecidas: a criação de um segmento diretamente vinculado à pesquisa e à produção de conhecimentos. Constituiu-se uma intelectualidade no Serviço Social no Brasil, que passou a ser o vetor elementar a subsidiar o mercado de bens simbólicos da profissão. Foi característica desse mercado a circulação de produções brasileiras não é de menor importância, no período, a diminuta difusão de literatura profissional estrangeira. (NETTO, 1996, p. 12). Observamos, empiricamente, que os estudos publicados no campo sócio-jurídico, em sua maioria, têm sido sobre trabalhos relacionados à Vara da Infância e Juventude. A primazia na publicação desses trabalhos provavelmente tenha ocorrido devido à demanda histórica da área. As Varas da Infância e Juventude recebem a demanda de crianças e adolescentes que estão na iminência de - ou que já se encontram em - risco pessoal e social. São crianças e adolescentes que estão abandonados, em acolhimento institucional; sofrem violência por parte de seus familiares; cometem atos infracionais; entre outras situações que significam que estão sob o risco de perderem ou dilacerarem suas vidas por falta de cuidados de sua família ou do Estado. 2 Vale ressaltar as seguintes obras: Serviço Social Jurídico: perícia social no contexto da infância e da juventude - Manual de procedimentos técnicos (Turck, 2000, Ed. Livro Pleno); Rompimento dos Vínculos do Pátrio Poder: condicionantes socioeconômicos e familiares (Fávero, 2001, Ed. Veras); Avaliação e Linguagem: relatórios, laudos e pareceres (Magalhães, 2003, Ed. Veras); Famílias acolhedoras: preservando a convivência familiar e comunitária (França, 2006, Ed. Veras); Adoção Consentida: do desenraizamento social da família à prática de adoção aberta (Gueiros, 2007, Ed. Cortez). Vale citar, também, uma ampla pesquisa sobre o trabalho do assistente social e do psicólogo no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, publicada por Fávero, Melão e Jorge, em 2005, Ed. Cortez, além da revista Serviço Social & Sociedade, n. 67, Ed. Cortez, publicada em setembro de 2001, que trata, exclusivamente, de temas sócio-jurídicos. A partir de 2001, foi incluída a área sócio-jurídica na pauta temática dos Congressos Brasileiros de Assistentes Sociais.

20 20 Os assistentes sociais também atendem à demanda proveniente dos Juízos de Família. Em Santos, as Varas de Família e Sucessões recebem as demandas afetas à família especificamente, indo desde processos que remetem a aspectos mais objetivos, como Inventários e Arrolamento de Bens, até aqueles que envolvem aspectos mais subjetivos, como Divórcio, Regulamentação de Visitas, Disputa de Guarda, ou seja, situações que, geralmente, envolvem a vida de crianças e adolescentes. Essas crianças e adolescentes não estariam, supostamente, sob risco, uma vez que contam com suas famílias; entretanto, tal risco, muitas vezes, existe. Nessas configurações familiares, o direito de crianças e adolescentes desenvolverem-se em ambiente saudável nem sempre é preservado, passando a ser objetos de disputa e objetos nessa disputa. Devido à existência de conflitos nesses processos que apresentam uma maior subjetividade, é recorrente o juiz determinar ao Assistente Social Judiciário a realização de um estudo como perito. A perícia social, realizada ao longo dos anos, é de vital importância, já que apresenta ao magistrado um estudo tecnicamente balizado em relação a qual decisão atenderia melhor ao interesse da criança. O estudo contempla as necessidades dos usuários em situação conflituosa pelo prisma da compreensão e análise, já que a sua intervenção precípua realiza-se por meio da emissão de um parecer. Contudo, as necessidades pessoais e sociais dos usuários em conflito são complexas, exigindo, também, em muitas situações, uma atuação do assistente social que afete, mais diretamente, os relacionamentos familiares. Visando um melhor e mais específico acolhimento a tais necessidades, foi criado em Santos, em junho de 2007, o Setor de Mediação das Varas da Família e Sucessões da Comarca de Santos, doravante denominado de Setor de Mediação. Desde então, a profissional que subscreve esta tese passou a se dedicar, exclusivamente, ao trabalho de mediação familiar no referido setor. Para melhor atender aos usuários, esta pesquisadora passou a estudar mais sobre o tema mediação familiar. Por meio do estudo, percebeu a existência de uma lacuna sobre o assunto, principalmente na área de Serviço Social. Verificou, também, que a mediação, especificamente a mediação familiar, que é uma área relativamente nova para os assistentes sociais, principalmente no Brasil, necessita de maior compreensão teórica e metodológica, conforme será demonstrado, a seguir, na pesquisa do estado da arte.

21 21 Mediação familiar e o Serviço Social - o estado da arte 3 [...] um procedimento justo é a condição da vida boa de todas as vidas boas possíveis mas não é suficiente para a vida boa. Justiça é o esqueleto; a vida boa é a carne e o sangue. A vida boa consiste em três elementos: primeiro, certeza; segundo, o desenvolvimento de dons em talentos e o exercício daqueles talentos; e terceiro, profunda emoção em ligações pessoais. Dentre esses três elementos, a retidão é o abrangente. Todos os três elementos de vida boa estão além da justiça. (HELLER, 1998, p. 371). Iniciamos a pesquisa em bases de dados para verificarmos qual é a produção científica com relação ao tema proposto nesta tese, qual seja, a mediação familiar. Optamos por fazer a busca em três bancos de publicações de veiculação na internet, a partir do banco de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES 4 ), do Ministério da Educação, nos quais são depositadas pesquisas a nível nacional. O portal do Banco de Teses e Dissertações da CAPES online disponibiliza as publicações de teses de doutorado, dissertações de mestrado e mestrado profissionalizante a partir de 1987 até a atualidade (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, 2011). A pesquisa no portal da CAPES foi inicialmente feita a partir de palavras por assunto. Por meio da busca pelo termo mediação familiar, obtivemos 20 resultados; e pelo termo Administração de conflitos mediação, 35 resultados. Em seguida, fizemos uma seleção de acordo com as palavras-chave apresentadas que tivessem relação com o tema da pesquisa, sendo que os resultados que não apresentaram nenhuma palavra-chave também foram automaticamente inseridos para que pudessem ser analisados posteriormente. Após feita a seleção, centramos a nossa atenção em 15 resultados. Esses resultados foram analisados de acordo com o conteúdo, e os que se referiam, nos resumos, à mediação familiar, foram utilizados para a nossa análise inicial de produção científica. Somando-se os dois resultados de busca anteriormente citados, foram utilizados 23 resultados. As produções pesquisadas abrangeram os anos 2001 a 2009, excluindo-se o ano de 2004 por não haver, naquele ano, publicação relativa ao tema. A maior produção encontrada foi na área de Direito, com 16 trabalhos publicados; em seguida, na área de Psicologia, com 5 3 O levantamento do estado da arte foi publicado e apresentado no 6º Encontro Nacional de Política Social ENPS, realizado em Vitória/ES, na Universidade Federal do Espírito Santo UFES, de 28 a 30 de setembro de 2011, sob o título Mediação familiar: estudo, pesquisa e a implantação da política judiciária nacional de tratamento dos conflitos de interesses. 4 Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Disponível em:

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