INSTITUTO MULTIDISCIPLINAR A IMPORTÂNCIA CULTURAL DA FEIRA LIVRE DE QUEIMADOS/RJ

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1 INSTITUTO MULTIDISCIPLINAR A IMPORTÂNCIA CULTURAL DA FEIRA LIVRE DE QUEIMADOS/RJ Camila FERNANDES; Daiala SALTORIS; Filipe EMANUEL; Flávia SOUZA; Liziane NEVES RESUMO O presente trabalho tem o objetivo de explicitar a importância cultural da feira livre de Queimados para a população do município. Para a construção desse trabalho foram utilizados os seguintes recursos metodológicos: levantamentos e leituras bibliográficas, visitas ao local, registros fotográficos, gravação de relatos dos feirantes, aplicação de questionário com os feirantes e as pessoas que frequentam a feira como consumidores, visando compreender o olhar das pessoas que desfrutam da feira e quanto a sua importância para a preservação dos costumes locais. Assim, conclui-se que a feira tem grande importância para a preservação cultural, pois já se configura como um hábito para grande parte da população que reproduz a forma de viver daquelas pessoas no espaço de formação da feira.

2 Palavras- chave: Feira-Livre, Resistência, Cultura.

3 1. INTRODUÇÃO Historicamente as feiras livres se oficializam a partir da idade média, pela prática de venda de excedente de produção dos feudos. Com a revolução comercial do século XI, o surgimento de novas formas de comércio garantiu as feiras livres o lugar onde as classes mais pobres vendiam e consumiam os produtos alimentícios. No Brasil, as feiras estão presentes desde os tempos da colonização como principal forma de comercialização da colônia. Na modernidade, as feiras livres nas cidades pequenas do Brasil muitas vezes representam a única forma de comércio dessas localidades. Contudo, estas por muitas vezes tem a função de preservar e perpetuar a cultura local, além de servir como entretenimento e garantir o suprimento alimentar da população. A feira livre do município de Queimados, localizada na Baixada Fluminense no estado do Rio de Janeiro, possui poucos registros históricos oficiais. Todas as informações apresentadas foram adquiridas através de relatos de moradores, que apontam que esta existe desde a década de 50, formada inicialmente por pequenos comerciantes locais que visavam suprir as demandas comerciais ainda pouco atendidas na localidade. Nesta época, prevalecia a venda de gêneros alimentícios de produção agrícola e avicultura familiar vinda de bairros do entorno, como Jaceruba e Rio d ouro. Ao olhar a história da feira livre de Queimados, podemos entender como espaço de luta e resistência popular devido às diversas ameaças de encerramento das atividades da feira e as constantes remoções e trocas de endereço. O primeiro local de que se tem notícia da localização da feira é na Rua José Maria Coelho (conhecida até hoje pelos moradores mais antigos como rua da feirinha ), mas por motivos desconhecidos (provavelmente pressão dos comerciantes formais da área) foi mudada para Rua Elói Teixeira, entre a Praça dos Eucaliptos e a Estação de trem do município. Com a desculpa de que era necessária a modernização do centro do município através de um plano de obras nas quais era prevista o asfaltamento da Rua Elói Teixeira. A feira foi removida e transferida para a Avenida dos

4 Inconfidentes. Por pressões populares ligadas fortemente à questão de comodidade de hábito, tanto por parte dos comerciantes quanto dos consumidores, a feira livre de Queimados volta à Rua Elói Teixeira. Devido problemas no trânsito, a feira foi transferida para a Avenida do Tinguá, que fica no centro do município. Hoje, a quase 60 anos depois, a feira ainda resiste e se reinventa a cada dia, inserindo novas categorias de produtos, como CDs, roupas e produtos industrializados. 2. ANÁLISE DOS RESULTADOS A feira do município de Queimados acontece todos os domingos aproximadamente das 5h até 15h. Atualmente, ela possui em média 200 barracas, porém não possui nenhum registro oficial podendo ter alteração nesse número. As barracas foram contabilizadas até às 7h do dia 02/02/2014, e categorizadas da seguinte forma:

5 Carnes em geral 9 Alimentação 20 Hortifrúti 55 Perfumaria 3 Confecção em geral 24 Grãos 3 Miudezas em Geral 14 Entretenimento 9 Animais de estimação 4 Equipamentos eletrônicos 7 Itens de bazar 44 Outros 10 A feira de Queimados é considerada livre pelos feirantes pelo fato de não possuir nenhum tipo de licença para o exercício da atividade, assim a comercialização dos produtos pode acontecer de forma livre sem nenhum tipo de restrição na categoria de produtos vendidos pelos feirantes. Deste modo, se justifica a diversidade de produtos vendidos, que em muitos casos não segue o padrão comercial hegemônico, possibilitando a apresentação de outras formas de concepção de comércio (barganha, xepa, rolo). Em contraponto a essa liberdade, é verificável certo ar de descaso pelas autoridades públicas locais, visto que estas não garantem condições boas para o bom funcionamento da feira, fazendo com que muitos consumidores não acreditem na qualidade do produto consumido. Este descaso é devido ao simples fato de essa não regulamentação do comércio informal de certa forma não gera diretamente receita para a prefeitura, não dá retorno diretamente, logo não é vista como área de interesse de investimentos do setor

6 público e acaba por sofrer com o descaso. Vale ressaltar que um dos motivos para a primeira remoção da feira livre de Queimados, da Rua José Maria Coelho para a Rua Elói Teixeira que foi graças a pedido dos comerciantes locais que, na onda de modernização do município, se viam prejudicado pela presença dos feirantes ali, e foram favorecidos pelo poder público justamente por dar retorno em forma de receita para o município. Contudo, a regulamentação dos feirantes tiraria a característica fundamental da feira de Queimados, que é a liberdade de se vender aquilo que se deseja da maneira que se quer. Foi observado que muitos feirantes apenas estendem uma lona no chão e vendem produtos reutilizados. Relatos afirmam que alguns produtos são tirados do lixo, limpados e colocados à venda. Nestes casos, não são gêneros alimentícios, mas ferramentas, eletrônicos usados e materiais usados na construção. A venda de produtos impróprios para o consumo humano é vista com maus olhos e reprovação pelos feirantes. A questão que envolve uma possível regulamentação é se essas formas de comércio, muitas vezes irregular como é o caso da barraca de CDs piratas, encontraria espaço dentro de uma organização formal. Muito da produção cultural popular e independente dos círculos da indústria fonográfica formal (principalmente da cultura da periferia e cultura nordestina) só encontra espaço nesta formas de comércio, que ao desburocratizar o acesso à mercadoria facilita a distribuição deste material para o público. Muitas vezes a disponibilização deste material é feita pelos próprios artistas. O rapper Emicida, em entrevista se diz favorável a esse tipo de comércio. Em suas palavras: A pirataria é nossa foice, a ferramenta pra lutar contra a forma incorreta da distribuição musical no país. Nossas músicas chegam até as pessoas através desse mercado negro, seja ele físico ou virtual. No meu caso, foi fundamental. Na época em que vivemos, não tem sentido sair por ai cantando piolho de quem coloca meus vídeos e discos na internet ou vende em barraquinha. Quero mais é ser pirateado mesmo. Diversos outros artistas, como Gaby Amarantos, MrCatra e Criolo paradoxalmente se dizem favorecidos pela venda pirata de seus cd's. Como isso pode acontecer? A própria

7 Gaby Amarantos explica: "Para mim, não importa o disco vender na loja, mas o cara colocar minhas músicas para tocar. Isso gera shows". Ou seja, se por um lado os artistas poderiam sair prejudicados nas vendagens de seus cd's, por outro ganham publico em seus shows e reconhecimento popular de seu trabalho, e reconhecimento do trabalho não tem preço monetário. É algo que muitos artistas lutam, mas mesmo com uma boa produção ás vezes não conseguem. A feira-livre de Queimados cumpriria seu papel, neste caso, sendo vitrine para a produção local ou dos locais, mesmo estes representando a cultura de longe que não encontra lugar no mercado formal de música. Estão ali representados, junto aos representantes dos ciclos superiores do mercado fonográfico, os funkeiros locais, o samba local, o forró local, tanto na venda de cds, quanto nas manifestações propriamente ditas como nas rodas de samba e apresentações de forró na feira-livre. 3. IMPORTÂNCIA DA FEIRA LIVRE DE QUEIMADOS NO ÂMBITO CULTURAL PARA A POPULAÇÃO. O gráfico abaixo mostra o resultado da análise de uma das perguntas da entrevista realizada na feira livre de Queimados, onde mostra que um dos principais fatores de atração da feira é a variedade de produtos encontrados. Porém, a confiança no feirante e a qualidade no produto não são alternativas atrativas para a população.

8 Consumidores A feira livre de Queimados, como qualquer outra feira, representa a modalidade varejista ao ar livre, de período semanal, voltada para a comercialização de diferentes gêneros alimentícios e produtos variados. Como por exemplo, produtos de higiene. Até nos dias atuais, a feira livre de Queimados desempenha um importante papel, não só no abastecimento urbano, provendo aos mais pobres um lugar democrático de compra e venda de seus produtos, isentos da burocrática ação do sistema econômico vigente, como na construção cultural da cidade, através das práticas culturais de resistência ao modelo hegemônico de pensar, fazer produzir cultura, como já explicitado anteriormente, com o exemplo da produção fonográfica local. Assim, podemos entender sobre o cultural, segundo Claval (2007, p.63) a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas e, em outra escala, pelo conjunto dos grupos de que fazem parte. Logo, a partir do conceito supracitado, entende-se que as representações culturais manifestadas naquele espaço se dão pelos valores e comportamentos que influenciam na formação sócio espacial da feira. A análise da percepção dos consumidores e feirantes ocorreu logo após a aplicação do questionário, onde todos mostraram suas opiniões e julgavam o que considerava

9 importante culturalmente de acordo com o local estudado. As entrevistas ocorreram no mês de fevereiro em um único dia: domingo, pois é o único dia em que a feira se instala. Foram realizadas oito (8) perguntas para os consumidores e doze (12) para os feirantes. Sendo feita para os dois qual seria a importância cultural da feira livre de Queimados. A seguir, alguns discursos importantes que foram obtidos de acordo com os consumidores: Pobre tem que ter feira. Nem tudo o pobre tem dinheiro pra comprar no shopping. Não precisa sair do município para ter acesso aos produtos. Já virou tradição de Queimados. A feira junta os moradores, comerciantes e população. É um ponto de referência. Porque todo domingo colocamos a geladeira em dia. E alguns discursos importantes obtidos pelos feirantes: Feira é vida dentro do município. Se encontra pessoas ao transitar pela feira. É um polo comercial. (Feirante de miudezas) Feira está acabando (Feirante de perfumaria) As pessoas precisam ganhar um dinheiro extra (acabei de criar um filho na feira) (Feirante de roupas ou bazar) Muito importante, pois faz parte do sustento familiar. (Feirante de verdura) Muito freguês. (Feirante de carne) 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

10 Diante das diversas visões apresentadas nos questionários e nas abordagens apresentadas, podemos ver na feira-livre uma referencia de resistência cultural dos modos de fazer e de ser da cultura popular, através de vários segmentos, como o da música e da alimentação, por exemplo, que trazem em si fortes marcas culturais de segmentos menos favorecidos da sociedade e encontram na feira seu lugar de manifestação. Assim como também vemos a questão da feira representar para muitos dos entrevistados um lugar, devido à ideia do encontro e da tradicionalização do ato de ir à feira. Pelo viés econômico, vemos na feira-livre uma alternativa ao modelo hegemônico de fazer comércio, que pela sua própria simplicidade e falta de burocracias são responsáveis por inserir os mais pobres dentro da economia, seja vendendo, seja comprando. Cabe ressaltar ainda que, para muitos a feira por ter preços mais acessíveis é a única opção para comprar itens de necessidade básica. Através divulgação causada pela venda de CDs e DVDs piratas, é vista como vitrine para os que querem ganhar a vida com sua arte, mas não se encaixam no padrão comercial da indústria fonográfica, o chamado Mainstrea. É lugar de disputa, de encontro, de ver amigos, de saber sobre coisas, de aprender. Lugar onde o saber e a cultura popular se mantém vivas, mesmo com o passar dos anos e com as mudanças diárias dos modos de se fazer e manifestar a cultura. Tudo isso, faz da feira um território marcado pela diversidade e pelos contrastes sejam eles sociais, culturais ou econômicos. BIBLIOGRAFIA CLAVAL, Paul."A volta do cultural" na geografia. Mercator - Revista de Geografia da UFC, ano 01, número 01, Disponivel em: <http://www.mercator.ufc.br/index.php/mercator/article/viewfile/192/158>. Acessado em 10/02/2014 às 23:00h. CLAVAL, Paul. A geografia cultural. Florianópolis ª edição da UFSC.

11 TOZI, Fábio. Meio técnico, tenologia e tecnobrega: A cidade e a pirataria como possibilidades. Revista Tamoios, v.6, n.2, Disponivel em <http://www.epublicacoes.uerj.br/index.php/tamoios/article/view/1415/3000>. Acessado em: 07/02/2014 às 15:00h. SILVA, G. H. de Abreu; MARTINS, J. M. Batista. A história oral como conhecimento aplicado na pesquisa em geografia cultural. Disponivel em: <http://www.neer.com.br/anais/neer2/trabalhos_neer/ordemalfabetica/microsoft%20 Word%20-%20GustavoHenriqueAbreuSilva.ED3IV.pdf>. Acessado em 10/02/2014 às 22:00h.

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