Clarice Gatto. O traumático que a experiência psicanalítica torna comunicável

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1 Clarice Gatto O traumático que a experiência psicanalítica torna comunicável Trabalho a ser apresentado na Mesa-redonda Poder da palavra no III Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e IX Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental a ser realizado de 4 a 7 de setembro de 2008 na UFF em Niterói. Resumo: Por meio de um fragmento clínico a propósito do assassinato de um adolescente dito em análise por sua mãe, a questão proposta: o traumático que a experiência psicanalítica torna comunicável serviu para demonstrar como nos orienta Lacan que a vida é cômica, malgrado os acontecimentos trágicos que pode conter uma demanda de análise. Do que se trata no que se ouve na experiência psicanalítica? Ao privilegiar a lógica significante na constituição da realidade psíquica a psicanálise propicia ao sujeito enfim em questão se fazer responsável pelo sofrimento que o leva a demandar uma análise.

2 Rio de Janeiro, 31 de julho de

3 3 O traumático que a experiência psicanalítica torna comunicável Clarice Gatto Em nossos livros de literatura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela aos seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Walter Benjamin, Experiência e pobreza, A partir desta lenda moralizadora, Walter Benjamin abre uma dupla reflexão sobre os fundamentos modernos da subjetividade e o valor de nossa pobreza de experiências diante da fragmentação tecnológica. Fragmentação que ele assinala como a nova barbárie Ocidental porque pretende marcar os espaços e o tempo de tal maneira sem deixar nenhum vestígio para contar... Na primeira reflexão, Benjamin nos diz que essas experiências transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos foram interrompidas, e dentre as interrogações que fizera, desejou saber: quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas?, ou o que foi feito de tudo isto? Na segunda reflexão, ele relata o silêncio que se fez notar entre os combatentes que voltavam da I Guerra Mundial, entre , porque voltaram da guerra mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos 2. Ao estabelecer uma crítica radical ao acontecimento da guerra e suas experiências tecnológicas, temporais e culturais, Benjamin apontava para uma nova forma de miséria que surgia com o monstruoso desenvolvimento da técnica, que se sobrepõe ao ser humano, tornando suas experiências mais pobres em experiências comunicáveis, como ele analisou: porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadoras que a experiência

4 4 estratégica da guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes 3. Houve um tempo em que o sujeito humano acreditou poder se prevalecer do privilégio que seria o seu de ser sujeito do conhecimento, e lugar da totalização do saber 4. O desenvolvimento da ciência moderna e a concomitante descoberta freudiana marcam, entretanto a profunda inadequação de uma referência deste tipo. A contribuição da psicanálise, neste sentido, se define em assinalar a não correspondência em um discurso que se erige para recobrir as falhas humanas, mas acaba justamente por designá-las sem saber. As conseqüências disso sabemos, foram as mais diversas formas de segregação entre os seres humanos, sofisticadamente criadas com o auxílio da tecnociência no transcorrer no século XX e neste. Esse tempo dito de paz em que vivemos é a guerra continuada por outros meios. Por meio de um fragmento clínico a propósito do assassinato de um adolescente contado por sua mãe, a questão que pretendo desenvolver: o traumático que a experiência psicanalítica torna comunicável é para demonstrar como nos orienta Lacan que a vida é cômica, malgrado os acontecimentos trágicos que pode conter uma demanda de análise. Do que se trata no que se ouve na experiência psicanalítica? Trauma, transferência, repetição e a função do real N O seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, mais especificamente no capítulo Tiquê e autômaton, Lacan por meio do conceito de repetição demarcar distinções entre trauma, transferência e repetição no âmbito da experiência psicanalítica. Tiquê e autômaton são noções retiradas da Física de Aristóteles e apresentadas por Lacan como dois modos para interpretar o conceito de repetição em Freud. Autômaton é a insistência da rede de significantes e tiquê, o encontro do real [...] encontro enquanto que

5 5 podendo faltar, enquanto que essencialmente é encontro faltoso, no que este faz topologicamente buracos (Fig.1). Figura 1 Nó borromeano em A terceira 5 Não há como identificar ipsis litteris a transferência com a repetição da história do sujeito, pois o conceito de repetição assinala que o exercício do desejo na transferência revelase como algo inédito para o sujeito do inconsciente. A instituição do sujeito suposto saber que designa a entrada no tratamento é a manifestação, na experiência, da atualização da realidade do inconsciente, no que ela é sexualidade 6, e esta sexualidade presente em ação na transferência se manifesta a descoberto em forma de amor, amor de transferência 7. Há, portanto, repetição estrutural no estilo dos infinitivos da demanda pulsional, mas os discursos que sustentam os endereçamentos produzem algo novo, velado, por causa do processo de recalcamento nas neuroses. Não há também como confundir, diz Lacan, a repetição com o retorno dos signos e nem com a reprodução, ou a modulação pela conduta de uma espécie de rememoração agida na experiência. A repetição é algo que em sua verdadeira natureza está sempre velado na análise, conforme verificaremos no fragmento a seguir. Fragmento em análise

6 6 Uma série de sintomas alérgicos tomou conta da pele de uma mulher de cinqüenta anos o que a levou a procurar tratamento médico. Uma série de deslocamentos sintomáticos levou seu médico a reconhecer o limite de sua clínica e articular a continuidade de sua atenção à busca de tratamento psicológico; o não para de se deslocar presente nos sintomas orgânicos lhe indicam algo além do campo médico. Após dez anos da morte prematura de um filho adolescente e por um motivo torpe essa mulher procura tratamento psicológico por indicação de seu médico. Na primeira entrevista traz a história trágica que levou a morte de seu filho e diz nunca tê-la contado ao médico. Ao falar associa sem se dar conta o começo de seus sintomas a esse trágico acontecimento. Acontecimento que foi muitas vezes repetido durante a análise, sempre da mesma forma, sem jamais acrescentar uma palavra nova, uma cena diversa, um sentimento melhor ou pior, sempre o mesmo choro compulsivo o relato de uma enorme dor. O luto a ser feito atravessava seus ditos. O real estava lá como uma pedra no meio do caminho, de volta sempre no mesmo lugar, ao mesmo lugar. Nenhuma pontuação, nenhuma escansão ou equivocação fazia eco a esse acontecimento tão doído na vida dessa mulher. O silêncio ante esse acontecimento foi o lugar designado na transferência. Recordemos então algumas indicações de Lacan a propósito da repetição. Primeiro ele assinala que o que se repete é sempre algo que se produz como por acaso. Não há como tomar as coisas ao pé da declaração do sujeito ou pela via do conteúdo de seus ditos e sim por meio do endereçamento ao analista, pois é com os tropeções, que sempre reencontramos na prática que o trabalho analítico acontece. Segundo, ele assinala na função da repetição a dimensão do despertar para a realidade faltosa entre o sistema percepção-consciência. O traumático diz Lacan no sonho do pai que perde seu filho pela febre (apresentado por Freud no capítulo VII de A interpretação dos sonhos) é que o sujeito só toma consciência quando acorda e se defronta com a insistência da cadeia significante. Por meio da repetição na versão

7 7 autômaton a lhe evocar equívocos significantes 8, a levá-lo além, ao real da castração. Se há encontro com uma realidade faltosa, há também condição de possibilidade para reconhecer que [...] o real só entra além, como é manifesto na experiência, para, entre as soluções necessárias porque sempre há várias, designar aquela que é impossível 9. Terceiro Lacan pontua que a repetição demanda o novo, volta-se para o lúdico que faz do novo sua dimensão, ao possibilitar ao sujeito se fazer objeto na situação, tal qual o netinho de Freud a se fazer objeto na brincadeira com o jogo do carretel. Esta criança não sabia ainda falar, mas procurava encenar sua própria divisão perante a ausência da mãe e o lugar vazio deixado por ela 10. Há, no domínio do princípio do prazer, diz Freud, meios e caminhos suficientes para fazer um trabalho psíquico em pleno desprazer da lembrança do objeto (Gegenstand). Freud atribui o ganho de prazer que não servia para nada à situação na qual uma ajustada economia estética entra em cena, configurando, deste jeito, uma tendência além do princípio do prazer. A noção de trauma em psicanálise é diversa daquela da função do real, muito embora esteja freqüentemente presente na expressão real traumático, e se confunde com a noção de angústia de castração. O que é o trauma? O que é o real? Qual a dimensão da repetição nesta distinção? Sabemos que estas perguntas existem desde a origem na psicanálise e Lacan se interroga por que o real foi apresentado na experiência analítica na forma do que nele há de inassimilável na forma do trauma, determinando toda a seqüência e lhe impondo uma origem na aparência acidental. Se o trauma é real, sem sentido e inassimilável, porque destitui o sujeito e conserva a insistência de nos fazer lembrar disto, a fantasia por estar no imaginário (topológico) nunca é mais do que a tela que dissimula algo de absolutamente primeiro, de determinante na função da repetição. O lugar do real que vai do trauma à fantasia diz Lacan explica ao mesmo tempo a função do despertar e a função do real nesse despertar. Aquilo que desperta o sujeito não só de um sonho é der Trieb, a pulsão, por meio da gramática pulsional que

8 8 funciona [...] como uma exigência de trabalho que é infligida ao psíquico em conseqüência de sua conexão com o corpóreo 11. Durante muito tempo na análise a vida dessa mulher se deixou contar e dizer até que um dia como por acaso ela se interroga: Por quê? Por que eu sofro tanto com essa morte do meu filho? Sei que se ele tivesse morrido de câncer eu não estaria mais sofrendo tanto... Esse dizer testemunhado por meio da transferência na experiência psicanalítica que não é por acaso a desperta para a realidade faltosa, demanda o novo, volta-se para o lúdico que faz do novo sua dimensão, ao possibilitar ao sujeito se fazer objeto na situação, vivendo a experiência da destituição subjetiva, como nos assinala Freud e Lacan. Esse bem-dizer o que há de real no sintoma se chama interpretação, diz Lacan 12, e tem relação com o desejo do sujeito inconsciente. Diversamente do dito o dizer leva o sujeito a se reconhecer no acontecimento, tornando comunicável o traumático de seu sofrimento. É no real o locus privilegiado das contas que faz o sujeito, diz Lacan: pois fazer passar o gozo ao inconsciente, quer dizer à contabilidade, é em efeito um sacro-maldito (sacré) deslocamento 13. A experiência psicanalítica trata do sintoma acolhido para usar uma expressão de Colette Soler, por meio das palavras do analisante. Isto quer dizer que há um sintoma autodiagnosticado pelo sujeito, é um sintoma que o sujeito avalia como sintoma. Enquanto ele não avalia um traço como sintoma, este permanece inerte, um enclave na fala analisante. Há, portanto, uma disjunção entre os sintomas cuja presença ou ausência é pesquisada pelos médicos e aqueles que permitem entrar em análise 14. Essa foi a razão que levou o médico a indicar tratamento psicológico já que havia algo estranho e desconhecido para ele no deslocamento dos sintomas. Por sua vez a experiência psicanalítica ensina que o sujeito não é sem o outro seu ouvinte. Como demarca Colette Soler na leitura que faz de Lacan: eu sou instituído como sujeito cada vez que o outro, o meu ouvinte me busca na palavra e não na

9 9 minha imagem ou no real do meu corpo 15. Ela também nos lembra que a psicanálise absolutiza essa dimensão de busca pelos ditos e dizeres do sujeito. A vida amorosa também participa dessa dimensão e certamente por isto a psicanálise se serve do amor, do amor-detransferência como condição de possibilidade de um franqueamento que propicia tornar comunicável o traumático na experiência.

10 1 NOTAS: Benjamin, Walter, Experiência e pobreza. In: Obras Escolhidas. 3ed. São Paulo: Brasiliense, Ibid, p Ibid., p Le clivage du sujet et son identification. Scilicet. Paris, n.2/ , p LACAN, Jacques. La troisième. Disponível em: <http://www.ecole-lacanienne.net>. Acesso em: 7 set Em relação à instância da sexualidade, afirma Lacan: todos os sujeitos estão em igualdade, desde a criança até o adulto que eles só têm a ver com aquilo que da sexualidade, passa para as redes da constituição subjetiva, para as redes do significante que a sexualidade só se realiza pela operação das pulsões, no que elas são pulsões parciais, parciais em relação à finalidade biológica da sexualidade. In: O seminário livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, LACAN, Jacques. O seminário livro 8: A Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, Equívoco conforme emprega Lacan: Pois essas cadeias não são de sentido mas de gozo, não são de sens mas de jouis-sens, a ser escrito como queiram conforme o equívoco que constitui a lei do significante. (Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993). 9 LACAN, Jacques. Le séminaire : L objet de la psychanalyse (1966). Inédito. 10 FREUD, Sigmund. (1920) Jenseits des Lustprinzips. In: Studienausgabe. Frankfurt a. M.: S. Fischer, Band III. 11 FREUD, S. (1915) Triebe und Triebschicksale. In: Studienausgabe. Frankfurt a. M.: S. Fischer, Band III. 12 Lacan, J. L étourdit. [Tradução de Isidoro Eduardo Americano do Brasil]. Edição fora de comércio. 13 Lacan, J. Radiophonie. Scilicet. Paris, n.2/3, Soler, Colette. Sobre o diagnóstico em psicanálise. In: La querelle des diagnostics. Cours Formations cliniques du Champ lacanien / Collège clinique de Paris: Paris, Soler, Colette. Variantes da destituição subjetiva: suas manifestações, suas causas aula 1. Stylus, Belo Horizonte, n.5, nov

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