O PATINHO AMARELO. Neyza Prochet. Psicanalista -CPRJ. Dra. em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo

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1 O PATINHO AMARELO Neyza Prochet Dra. em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo Psicanalista -CPRJ

2 2 Resumo: Tomando como referência a contribuição de Margaret Little sobre transferência delirante, refletimos sobre os fenômenos transferenciais surgidos nos casos limites. A partir de uma vinheta clínica, consideramos que, em tais casos, nos defrontamos com um campo transferencial onde não nos encontramos no domínio do intrapísquico e, talvez, nem do interpessoal. Há situações clínicas que pertencem ao domínio do inter-humano, de natureza pré-verbal, pré-representacional e pré-simbólica, onde prevalecem estados de ser anteriores à concepção de um eu integrado e, por conseqüência, à concepção do outro. Hoje em dia, os casos difíceis são muitos. Escapam às classificações nosológicas e abarcam situações que podem ser chamadas de fronteiriças ou limites, certas condições psicossomáticas, distúrbios alimentares, transtornos da imagem corporal e, também, de vivências de esvaziamento psíquico e falta de sentido no existir, erroneamente tomadas como estados depressivos. Em tais casos, identificamos certos aspectos do psiquismo que fogem às possibilidades representacionais. Deles nos apercebemos através do que é vivido no campo contratransferencial - vestígios de algo que escapou à área de experiência do sujeito. Margaret Little 1 (1993) foi uma pioneira no trabalho com estes pacientes. Ela mesma uma paciente difícil, Little, por meio de sua experiência pessoal, mergulhou no campo das interações terapêuticas, no interjogo profundo e inconsciente entre o analista e seu paciente, atenta ao alto nível de 1 LITTLE, MARGARET Transference Neurosis & Transference Psychosis London: Jason Aronson Inc., 1993.

3 3 sensibilidade e capacidade perceptiva mutuamente desenvolvida, determinada a desenvolver técnicas que efetivamente pudessem auxiliar aquelas pessoas, antes consideradas incapazes de usufruir de uma experiência analítica frutífera. Gilberto Safra 2 (2005) considera tratar-se de pacientes que flutuam através de diversos estratos do psiquismo, desde as aflições ditas neuróticas até os sofrimentos ligados às experiências mais primitivas. Encontramos nestes pacientes flutuações de estado maturacional de tal ordem que a experiência clínica é vivida como lábil e caótica, não sendo possível perceber uma força em direção a uma maior integração do psiquismo, algo que ofereça uma organização, um eixo a partir do qual o indivíduo se organize. A relação transferencial apresenta-se carregada de identificações maciças com a figura do analista exigindo, deste, identificações igualmente intensas. De fato, o sentimento vivido é como se não houvesse um outro com o qual o indivíduo possa se relacionar e preservar um certo senso de integridade. Ao longo do atendimento clínico destes pacientes, podemos dizer que ainda não nos encontramos no domínio do intrapísquico e talvez nem do interpessoal. Defrontamo-nos com o domínio do interhumano, cuja natureza é pré-verbal, pré-representacional, e pré-simbólica, casos onde o tratamento clássico, enfatizando a análise transferencial, surge pouco ou nenhum efeito. Little considera que o caráter da transferência é essencialmente alucinatório (delusional), termo que prefiro utilizar, ao invés de delirante, 2 SAFRA, GILBERTO - Margaret Little: duas contribuições essenciais DVD. São Paulo: Edições Sobornost, 2005.

4 4 tradução oficial utilizada para denominar este tipo de transferência. Falar de uma experiência alucinatória em vez de delirante nos aproxima mais do que me parece ser a necessidade experiencial pela qual o paciente clama e convoca através das vivências invocadas neste tipo de relação - um cuidado primário ineficiente, oferecido por uma figura materna incapacitada de suportar tanto a fusão como a separação, tal como seu bebê. Não há como se. O analista é, o que quer que o paciente aperceba, em toda a gama que vai da idealização total à execração absoluta. Para Little 3 (1993), os fenômenos observados se originam de uma falha associada a experiências extremamente primitivas, no processo de inserção da psique no soma, conduzindo a uma organização frouxamente estabelecida entre id e ego, num período em que a consciência é essencialmente consciência corporal num estágio pré-ambivalente, pré-simbólico, pré-verbal, pré-relação de objeto (p.83-84) e a tensão experimentada é da ordem do intolerável, completamente disruptiva, ameaçando o próprio sentido de existência. A transferência delirante ou alucinatória esconde um estado do paciente ao qual ele tanto busca como teme alcançar. Sujeito e objeto, sentimentos, pensamentos, movimento, tudo é experimentado de forma confusa e indiscriminada. Não há uma pessoa e sim um estado de ser ou de experienciar. Não há eu e não há o outro. Há raiva, medo ou amor, mas não há um alguém a sentir tais coisas. A indiferenciação é a marca tanto no que se refere à psique como ao soma. 3 LITTLE, MARGARET Transference Neurosis & Transference Psychosis London: Jason Aronson Inc., 1993.

5 5 Há um estado intenso de retraimento, pois o risco de retomar a experiencia original significa perder todo o senso de ser uma pessoa e todo o senso de identidade, frágil que seja, conduzindo ao desinvestimento afetivo das pessoas importantes. Nestes casos, não há a possibilidade de uma transferência propriamente dita, no sentido de deslocamento de representação, pelo simples fato de que não há ainda um alguém a quem transferir. Quando nos defrontamos com tal quadro e o paciente nos permite acompanha-lo num momento profundamente regressivo, temos uma tarefa comparável à devoção que uma mãe necessita ter com seu bebê recém nascido. Sustentar uma situação de total indiferenciação, através da aceitação dos termos impostos pela situação alucinatória, a fim de que o indivíduo possa sair dela apenas quando lhe for suportável e, ao mesmo tempo, conseguir preservar na realidade interna do lugar de analista as duas identidades. Embora não seja vivido como tal, há duas pessoas ali: Assim como a mãe maneja o bebê em resposta aos gestos dele, o analista aceita ser orientado pelo paciente na construção do setting, na adequação do manejo e na apresentação do objeto. Indo até onde o paciente está permite que o paciente possa abrir mão de uma organização fortemente defensiva e, sustentado pela confiabilidade do setting que lhe oferece condições básicas de sustentação e continuidade tornar-se capaz de retomar as vivências mantidas em suspensão pelo risco do aniquilamento. O campo transferencial é um espaço transicional paradoxal em si uma área de experimentação que não é dentro nem fora, não há o domínio

6 6 nem da realidade interna nem da externa, sem uma demarcação rígida dos limites entre o eu e o outro antes que o paciente possa suportar tal distinção. O analista precisa ter um lugar dentro dele onde o paciente possa se alojar. Para tanto, precisa permitir que seu corpo e sua mente sejam atravessados pelas sensações que não encontram lugar nem representação nem no corpo nem no psiquismo do paciente. Sensações que podem ser impressões visuais, olfativas, fragmentos sensoriais - aquém e além das palavras e do universo simbólico. Pretendo ilustrar, a seguir, alguns aspectos relacionados com aquilo que o analista experiencia nesta situação. Recebo um paciente que está comigo há pouco tempo. Mais do que habitualmente, percebo, sinto inquietação neste. Mais ainda, tensão. Sentado no canto extremo e oposto à mim no divã, parece-me prestes a saltar. Observa meu olhar e diz-me que não relaxa nunca, é meio obsessivo, precisa saber sempre onde tudo está. Não tem muito que dizer. Está tudo normal. Os sintomas com os quais vinha sofrendo estão escassos. Sem problemas. Apesar do que fora dito, seu desconforto se propaga de forma quase palpável. Depois de algum tempo, pergunto-lhe sobre o que gosta em termos de lazer, o que lhe permite relaxar? Responde-me seco, desesperançado, irônico: Não tem nada que me deixe relaxado. Não sabe o que se passa, não sabe o que quer, nada o satisfaz. Em geral, acede a algo que seja sugerido por outrem, irritando-se profundamente, no entanto, se não lhe agrada. Sua fala sai com certo esforço e é nítido seu desconforto.

7 7 Conforme o escuto, algumas imagens mentais me surgem, todas relacionadas com esquivar-se e todas relativas a algo como um alvo em mira. Vejo uma cena - um patinho amarelo, como nos parques de diversão, sendo alvejado, o disparo abatendo-o certeiro. A cena é tão surpreendente em minha mente, que resolvo utilizá-la como guia em minhas comunicações. Comento que vi algo em movimento, como se tentasse fugir de algo, não ficar exposto. Responde-me que já lhe disseram isso, que ele se esconde, não fala de si, guarda tudo para dentro. Relata sua dificuldade em se abrir, em confiar, de que precisa de tempo e observação, controle mesmo de tudo, para poder ficar mais à vontade. Devo ter medo de me magoar, ironiza. Comento que não tive a impressão de algo se escondendo. Não era esconder. Era escapar, não estar vulnerável, para não ser exposto, ferido. Esta imagem que surgira em minha mente, evocava alguma lembrança nele? Conta uma situação banal, corriqueira na adolescência, acrescentando ao final: - Não era bem isso,não é? Era outra coisa, não? Sua inquietação aumenta. Mexe-se muito no divã e os sinais físicos de aflição aumentam. Resolvo ir um pouco mais adiante: - Lembra-se de algum momento em que você se sentisse um alvo, fugir de algo que pudesse ferir você? Nega. Declara ter vivido tido uma infância sujeita a muita violência, mas que, na época, achava natural tal ambiente. Depois de um silêncio prolongado, lembra-se de uma cena que presenciara entre um dos genitores e o irmão, onde este é efetivamente atingido por um objeto cortante, ferindo-o seriamente. Relata-me outras cenas com o irmão, todas muito violentas.

8 8 Abraçando-se, em balanceio, recorda-se, a seguir, de outra cena análoga, esta sim com ele, onde também fora ferido e levado ao hospital para suturas. Diz-me que achava normal. Só muito tempo depois, quando já não mais vivia com a família, descobriu que havia outras formas de famílias conviverem. Vi, em minha mente, algo que não estava no campo do objetivamente percebido. Alucinação? Delírio? Tratava-se de uma imagem concebida por mim, mas originária de algo externo a mim, fruto de sensações difusas que me projetaram em um campo sensorial distinto do meu. Vi-me atingida pela vulnerabilidade da visão de um pequeno pato amarelo de madeira, um alvo exposto à mira. Algo de meu paciente encontrara um lugar dentro de mim, como holding para aquilo que não possuía para ele, qualquer tipo de figurabilidade, quer imagética, quer verbal. Penso que se trata de uma experiência entre o sonho e a alucinação, originadas no paciente e lançadas no espaço somatopsíquico da analista - uma imagem e uma ação. A partir delas, a associação livre e as lembranças em três momentos: a primeira encobridora, a segunda como testemunho e a terceira revivida. Acredito que foi estabelecida uma situação singular, uma área de ilusão, tal como ocorre nos estados de preocupação materna primária, criada na zona de intercessão dos psiquismos, nem minha e nem de meu paciente - um fenômeno transicional - alocado no espaço das potencialidades transferenciais. Foi-me possível ir de encontro a seu desejo de fusão e de lá emergirmos, restabelecendo-se, a partir da sustentação e continência da

9 9 imagem alucinada, a possibilidade de retomada da marcha dos processos de elaboração simbólica, tornando possível, adiante, que o paciente fizesse suas próprias imagens e associações. Winnicott 4 nos lembra da importância de poder oferecer um campo de experiência onde a necessidade seja acompanhada de uma resposta do meio que venha de encontro a esta necessidade, propiciando a experiência de ilusão e daí, a possibilidade do gesto espontâneo e da criatividade. Também indica que o que é comunicado deriva de aspectos dissociados do paciente que precisam ser reconhecidos por um outro para poderem ser integrados, ou seja, deixar-se ser afetado e, orientado por esta afetação, oferecer uma sustentação para que a experiência possa vir a ter uma representação. Uma capacidade de imaginar que não passa pela cognição, mas pela afetação daquilo que é transmitido pelo indivíduo. Um tipo de estado, herdeiro dos primeiros cuidados oferecidos pela figura materna - que seria patológico se não fosse temporal e localmente circunscrito - uma tarefa paradoxal de poder ser quem não se é, sem deixar de ser quem se é. Falamos de uma situação onde o analista é como se fosse, mas não é, mas é. O centro da relação transferencial não é a figura do analista, mas o campo criado através de um cuidado devotado que permite ao paciente viver uma experiência de mutualidade. As defesas apresentadas precisam se compreendidas dentro do paradoxo que existe entre a necessidade de se esconder e o terror de não ser encontrado. 4 WINNICOTT, D.W. - A Interpretação em Psicanálise em Explorações Psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

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