SISTEMA PENITENCIÁRIO E O RDD

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1 SISTEMA PENITENCIÁRIO E O RDD Não é na muralha do presídio que acaba o sistema penitenciário, a fronteira visível e palpável símbolo da repressão e da autoridade do Estado perdeu a condição de limite dos indivíduos os quais ali estão confinados. Durante muito tempo isto ocorreu de fato, certo desleixo caracterizou um passado recente e foi fruto justamente desta concepção errônea, qual seja a de que uma vez contido no sistema penitenciário o problema estaria resolvido, por tal razão se deixou de investir na renovação e na evolução do sistema prisional. A crença segundo a qual tudo estava bem do modo que estava e pouca ou nenhuma alteração seriam necessárias foi brutalmente quebrada tempos depois, o Regime Disciplinar Diferenciado não deixa de ser uma contra-reação aos novos desafios lançados contra a sociedade. No momento histórico precedente, o encerramento do indivíduo no sistema prisional era a solução simples, eliminava um problema e poucos ousavam dizer que havia necessidade de investir justamente para aperfeiçoar um sistema o qual por si já bastava, o criminoso estava preso, ponto final, o que acontecia depois não era digno de despertar a atenção social. Os presídios então eram um retrato da sociedade, imóvel, estagnado, sua dinâmica era lenta, retratos não se movem, não influenciam, não agem e poucos motivos de preocupação geram para os gerentes a para a política administrativa. Ninguém nega que dentro deste corpo já existiam grupos organizados, na maior parte das vezes meras repetições de quadrilhas que exerciam seu mister criminoso na rua e que uma vez presos tendiam a reunir-se da mesma maneira. Também ninguém pode negar que informações e comandos fluíam de dentro do sistema para fora, isto porém era feito lentamente, uma palavra poderia sair de uma visita em uma semana e a resposta viria talvez na semana seguinte ou na precedente. Governar atividades criminosas com esta restrição é

2 extremamente difícil, a independência de quem está fora do sistema é grande e a preponderância de quem está inserido menor, poderia, sim, uma liderança emitir um comando determinado, porém a evolução da situação jamais poderia ser acompanhada e a dinâmica da repressão policial transformava esta situação em uma desvantagem visível ou, quando não menos das vezes, fatal. O rompimento do status quo viria mais tarde e seria violento, cruel e mortal. Essencialmente foi o próprio Estado que ao longo de muitos anos e por omissão criou as condições que mudaram o comportamento e organização daquela amálgama de pessoas inseridas no Sistema Prisional, a percepção do Estado ausente cristalizou-se e foi captado por um grupo que conseguiu se sobrepor aos demais e apropriou-se de um discurso de cunho nitidamente político. As razões pelas quais e os meios com os quais este grupo logrou sua hegemonia dentro do sistema são questões de abrangência mito maior e cujo deslinde neste momento refoge ao âmbito do presente trabalho. Cumpre transcrever, todavia, trecho do informe de acompanhamento elaborado pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado GAECO, enviado então ao Excelentíssimo Procurador-Geral da Justiça:...Muito embora em um primeiro momento descartássemos as condições prisionais como geradoras de tal organismo, somos forçados a reconhecer que efetivamente tal circunstância milita como elemento dos mais decisivos para que o fenômeno se espalhe com rapidez e ganhe adeptos facilmente.todos os líderes confirmaram terem sofridos sevícias e maustratos diversos, note-se que foram ouvidos ( neste aspecto em especial ) separadamente e confirmaram: espancamentos, redução de gêneros de limpeza ao mínimo, humilhações as mais diversas, exageros em punições, etc., tudo criando um ambiente propício à recepção de um doutrinamento. Citamos dois exemplos específicos: o ônibus de agentes penitenciários metralhado na Comarca de São Vicente e o seqüestro da filha do Diretor do Presídio de Taubaté, o presídio chamado Piranhão. Os líderes ( não foi possível até o presente momento identificar quais ) determinaram que o ônibus fosse metralhado porque os agentes penitenciários aparentemente encontravam-se excedendo nos castigos e na repressão, com o temor infundido a partir do atentado atenuou-se ( no dizer dos líderes ) a tendência à repressão e, via de conseqüência, teriam melhorado as condições carcerárias. Ora, todos os sentenciados daquela unidade prisional passam a

3 atribuir tal relaxamento como forçado PCC e assim passam a formar uma massa de manobra suscetível a atender qualquer ordem ou determinação do partido, irmanando-se com a organização ou passando a dela fazer parte... O fato é que como resultado adveio a criação de uma consciência de oposição ao Estado e reflexamente de uma unidade, um corpo, uma irmandade, o qual, a partir daquele momento, passaria a transformar seu papel de um simples retrato da sociedade para um agente vetor de modificações, um ator dentro do processo social, o papel passivo foi desconstruído e o personagem ativo passou a dominar e direcionar as atividades do que antes era simplesmente uma massa prisional e depois passou a ter um perfil de criminalidade organizada. país, talvez não seja a última. Não seria a primeira vez que isto aconteceria em nosso Durante a segunda grande ação dos órgãos de segurança ( Ministério Público e Polícia Civil ) e por ocasião da descoberta e do desbaratamento das chamadas centrais telefônicas, das quais falaremos adiante, o GAECO e o DEIC ( Departamento de combate ao Crime Organizado Polícia Civil de São Paulo ) cumpriram um mandado de busca e apreensão no apartamento ocupado por AFS ( por agora somente as iniciais serão postas ) amásia de um dos chamados Fundadores ( grupo original de criação da facção criminosa conhecida como PCC ) e onde apreendeu-se um discurso da lavra de um destes, CARS, cujo conteúdo passo a transcrever exatamente como consta: Não somos uma organização criminosa, muito menos uma facção, não somos uma Utopia e sim uma transformação e uma nova filosofia: Paz, Justiça e Liberdade. Fazemos parte de um comportamento carcerário diferente, aonde um irmão jamais deixará outro irmão sobre o peso da mão de um opressor, somos um sonho de luta, somos uma esperança permanente de um sistema mais justo, mais igual, aonde o oprimido tenha pelo menos uma vida mais digna e humana. Nascemos num momento de opressão em um campo de concentração, sobrevivemos através de uma união, a semente foi plantada no asfalto, no cimento, foi regada a sangue, a sofrimento, ela gerou vida, floreceu, e hoje se tornou o braço forte que luta a favor de todos oprimidos que são massacrados, por um sistema covarde, capitalista e corrupto, um

4 sistema que só visa massacrar o mais fraco. O sistema ensiste em nos desmoralizar com calúnias e difamações, nos rotulam como monstros, como antisociais, mas tudo isso é parte de uma engrenagem que só visa esconder uma realidade uma verdade ou seja o sistema prescisa de um bode-expiatório. Muitos irmãos já morreram nessa luta desigual muitos se sacrificaram de corpo e alma por um ideal.. Hoje o que o sistema negava, o que ele repudiava. Hoje ele é obrigado a admitir a sua existência. O próprio sistema criou o Partido. O Partido, é parte de um sonho de luta, hoje somos fortes aonde o inimigo é fraco, a nossa revolução está apenas começando, hoje estamos preparados, psicologicamente, espiritualmente e materialmente, para dar nossa própria vida em pról da causa. A revolução começou no sistema Penitenciário e o objetivo é maior, revolucionar o sistema, governamental, acabar com este regime capitalista, aonde o rico cresce e sobrevive, massacrando a classe mais carente. Em quanto crianças morrerem de fome, dormirem na rua, não terem oportunidade de uma alfabetização, de uma vida digna, a violência só se tornará maior, as crianças de hoje, que vendem doces no farol, que se humilham por uma esmola, no amanhã bem próximo, através do crime, irá por todo ódio, toda rebeldia para transformar seus sonhos em realidade, pois o oprimido de hoje será, o opressor de amanhã, o que não se ganha com palavras se ganhará através da violência e de uma arma em punho. Nossa meta é atingir os poderosos, os donos do mundo e a justiça desigual, não somos criminosos por opção e sim somos o que somos por uma sobrevivência somos subversivos e idealistas. Se iremos ganhar essa luta não sabemos, creio que não, mas iremos dar muito trabalho, pois estamos preparados para morrer e renascer na nossa própria esperança de que nosso grito de guerra irá se espalhar por todo País. Pois se derramarem nosso sangue, e o nosso partido ser escutado, com certeza aparecerão outros que irão empunhar armas em prol de uma única filosofia: Paz, Justiça e Liberdade - SE TIVER QUE AMAR, AMAREMOS, SE TIVER QUE MATAR MATAREMOS ( foram preservados os erros gramaticais do original )

5 Vemos pois claramente que o discurso articulado e o fato de encontrar um ambiente carcerário propício permitiram o nascimento e desenvolvimento de uma espécie de organização criminosa peculiar, as denominadas Facções. Pouco antes da implosão da Casa de Detenção de São Paulo, o conhecido Complexo do Carandirú, Promotores do GAECO diligenciaram nos locais referidos como núcleos de ocupação do Primeiro Comando da Capital, nenhum deles abertos à visitação pública, espantosamente, constatou-se que o nível de limpeza ( pintura, piso, etc. ) e organização eram diferenciados quando comprados com outros pavilhões onde a Facção não expôs tão declaradamente, as referências ao discurso politizado semelhante ao manifesto apreendido, entretanto, eram visíveis:

6 Todavia, dificilmente tais grupos poderiam atuar mantendo-se limitados dentro do sistema penitenciário, a barreira foi finalmente rompida com a evolução tecnológica, a qual, aliás, revolucionou toda a sociedade e não menos o exercício da atividade criminosa. ROBERT E. KAPLAN, jornalista norte-americano especializado em relações internacionais, publicou obra recentemente traduzida em português: Políticos Guerreiros, Editora Futura e observou às fls. 30:...Mas a revolução pós industrial fortalece qualquer um que tenha um telefone celular e uma sacola com explosivos...eles chegarão até os norte-americanos de surpresa, d forma assimétrica, atingindo-os nos pontos mais fracos que possuem, como aconteceu com freqüência no passado. O advento do celular trouxe o elemento que faltava, a flexibilidade das comunicações entregou a estes líderes a capacidade de acompanhar just in time a evolução das atividades fora do presídio, como controlá-las, operá-las, lucrar com elas, a mensagem não demorava mais uma semana para ir e outra para voltar, muito pelo contrário, tal fator foi ainda mais expandido com a criação das chamadas centrais telefônicas, as quais nada mais são do que telefones que redirecionam as ligações e arcam com o custo ( jamais pago ) gerenciadas por mulheres em sua quase totalidade. Foi desta forma que se articulou a maior rebelião prisional da qual se tem notícia no mundo e tornou inegavelmente patente a existência de um desafio a ser enfrentado. A partir do momento em que obtiveram o domínio da comunicação extra-muros ( e hoje já é possível determinar-se quando no tempo e como, fora porém do âmbito da presente exposição ) a progressão foi geométrica e não demorou para que as primeiras granadas fossem lançadas ( contra a Secretaria da Administração Penitenciária ) e os primeiros Fóruns e Delegacias atacados ( destes atentados dois executores foram condenados recentemente a quarenta anos de reclusão cada um ). Neste ponto é necessário observar que fenômeno tão complexo necessita para sua compreensão e repressão de um entendimento envolvendo pelo menos três universos distintos: administrativamente o sistema prisional, repressivamente e processualmente o Ministério Público e a Polícia Civil, somente a interação e a atuação conjunta podem coletar todos os ele mentos de informação, processálos e remeter a resposta adequada.

7 Friso que no âmbito deste trabalho a análise extensa das atividades da Polícia e do Ministério Público, como se iniciaram, como evoluíram e os resultados no decorrer do tempo, é inviável, porém podemos afirmar que a organização criminosa conhecida como PCC foi reprimida. Desmobilizada e perdeu grande parte de sua capacidade de mobilização, é certo que a organização remodelou-se em pelo menos duas oportunidades e seu potencial criminoso é inegável, porém é apenas parte daquilo que foi e infinitamente menor do que aquilo que poderia ter sido. Finalmente, chegamos ao conceito do Regime Disciplinar Diferenciado, como fruto de uma visão madura e eficiente da gestão prisional. Apontamos no começo desta exposição que a falta de uma política mais racional e a ausência de investimento de décadas criou parcialmente as condições que resultaram na criação das facções, logo, qualquer que seja o paliativo utilizado, sem que haja uma recuperação do sistema penitenciário o resultado será duvidoso, pois as pré-condições para o ressurgimento da Facção em sua plenitude estarão presentes. Inegável afirmar o trabalho não menos que brilhante de S. Exa. o Secretário de Administração Penitenciária de São Paulo, Doutor Nagashi Furukawa, o qual vem atacando este problema pela raiz a ponto de, segundo os próprios líderes do Primeiro Comando da Capital, informalmente, admitirem a melhora do sistema Pentitenciário, foi também o Ilustre Secretário e sua equipe que criaram o modelo de sucesso conhecido hoje nacionalmente como Regime Disciplinar Diferenciado. O chamado RDD nada mais é que a retomada pelo Estado do controle dentro do Sistema Penitenciário, estritamente falando exige condições plenas de salubridade, espaço e manutenção as quais, em tese, são até mais favoráveis que as impostas ao preso comum. Porém recria dentro do Sistema a consciência de punitividade sem que seja levado ao arbítrio ou excesso, demonstra que é possível sim reconduzir a autoridade e limitar a atuação flexível destas organizações criminosas. Como é cediço, embora a norma legal seja estática a interpretação evolui com o tempo afim de adequá-la á realidade social, daí porque não se pode concluir que pela simples inovação venha tal Regime a ser questionado em sua legalidade. Enfim, o Regime Disciplinar Diferenciado é um instrumento de gestão do sistema Prisional, e também reflete diretamente na repressão às atividades criminosas que se realizam a partir do sistema mas atingem a sociedade como um todo, sozinho porém não produzirá resultados, deve ser acompanhado de medidas capazes de possibilitar o aperfeiçoamento do sistema e o controle de seus reflexos.

8 Em conclusa propomos: - é necessária e urgente a instalação de bloqueadores de sinais de telefones celulares em todos os presídios, afim de evitar a atividade criminosa comandada através deste sistema, - o tempo de cumprimento em RDD deveria ser flexibilizado não a partir da reincidência, mas sim a partir da gravidade da conduta, - como conseqüência o tempo de permanência deveria ter um máximo maior, afim de permitir a graduação ( postulamos de seis meses a três anos ), - o rol de faltas graves capazes de gerar a internação deve incluir a utilização de telefones celulares, o que deveria ser uniformizado em todo Brasil, - o procedimento de internação deveria ser regulamentado por Resolução e garantir a ampla defesa ao interno, o que deveria ser uniformizado em todo Brasil, As organizações criminosas no Sistema Penitenciário mudam de perfil a cada obstáculo, existe sim a necessidade de ampliação da cooperação entre as diversas instituições e ação conjunta como necessidade para a repressão a este novo desafio, o qual, sabemos, ainda não acabou.

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