MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ 1ª PROMOTORIA DE JUSTIÇA DE BOM JESUS

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1 MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ 1ª PROMOTORIA DE JUSTIÇA DE BOM JESUS EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA VARA COMUM DA COMARCA DE BOM JESUS PIAUÍ O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ, pela Promotora de Justiça que, ao final, subscreve a presente peça, no exercício de suas atribuições reconhecidas pela Constituição Federal e com fundamento na Lei 7.347/85 Lei da Ação Civil Pública, vem, à presença de V. Exa. ajuizar AÇÃO CIVIL PÚBLICA com pedido de LIMINAR em desfavor do ESTADO DO PIAUÍ, pessoa jurídica de direito interno, ente federativo representado judicialmente pela Procuradoria Geral do Estado, com sede na Av. Senador Arêa Leão nº Bairro: Jockey Club - CEP: Teresina - PI, pelos seguintes fatos e fundamentos jurídicos. MINISTÉRIO PÚBLICO DA LEGITIMIDADE DO A legitimidade do Ministério Público decorre do previsto no art. 129, incisos II e III da Constituição Federal de 1988, segundo o qual são funções institucionais do órgão ministerial, zelar pelo

2 efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública, promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros direitos difusos e coletivos. Busca-se, com a presente ação, garantir o direito à segurança, espécie de direito difuso, de natureza indivisível, cujos titulares são pessoas indeterminadas, ligadas, entre si, por circunstância de fato. Ademais, na mesma linha de pensamento, a Lei de Execuções Penais incumbiu ao Ministério Público o dever de fiscalizar a execução da pena. Sendo assim, compete ao Ministério Público, no exercício de suas atribuições constitucionais, zelar, fiscalizar e, quando necessário, adotar medidas a fim de que o Poder Público adote as providências necessárias para o bom funcionamento do sistema carcerário, respeitando os direitos fundamentais e a dignidade do preso. DA LEGITIMIDADE PASSIVA A tutela jurisdicional coletiva pode ser pleitada em face de toda e qualquer pessoa física ou jurídica e até mesmo em desfavor de entes despersonalizados que causem lesão ou ameaça de lesão a interesses sociais ou individuais homogêneos. Dessa feita, o Estado do Piauí tem legitimidade para figurar no polo passivo da demanda, haja vista ser responsável pela manutenção da penitenciária regional Dom Abel Alonso Nunez, localiza na Br 135, município de Bom Jesus, Piauí. DOS FATOS

3 A Penitenciária Regional Dom Abel Alonso Nunez, localizada na Br 135, município de Bom Jesus, Piauí, vem, de forma lastimável, se destacando como modelo de violação dos direitos humanos. São flagrantes as irregularidades que vêm sendo detectadas neste estabelecimento. A precariedade das instalações, a insalubridade das celas, a falta de segurança e estrutura revelam o ambiente desumano no qual os presos e agentes penitenciários são obrigados a conviver. Em última visita, realizada pelo órgão ministerial, foram constatadas diversas irregularidades, conforme se pretende demonstrar. PRESOS PROVISÓRIOS E PRESOS SENTENCIADOS/ SUPERLOTAÇÃO Inicialmente, cumpre ressaltar a superlotação do presídio. Com capacidade para 76 detentos, encontra-se, atualmente, com 164 presos, dos quais 49 cumprem pena em regime fechado e 115 são presos provisórios. Ademais, os presos provisórios são mantidos juntos aos presos definitivos, em flagrante violação ao previsto no artigo 300 do Código de Processo Penal e ao artigo 84 da LEP. A exigência do preso provisório ficar separado do condenado por sentença transitada em julgado está assegurada tanto nas Regras Mínimas da ONU (regra nº 8, b ), como também na Convenção Americana de Diretos Humanos (Pacto San Jose da Costa Rica). Os presos não são classificados segundo os antecedentes e personalidade, o que dificulta a individualização da pena e,

4 por consequência, a ressocialização, tendo em vista que presos condenados por crimes mais graves são mantidos na mesma cela daqueles condenados por crimes leves, ou, até mesmo, daqueles que sequer foram condenados. ASSISTÊNCIA MATERIAL Importante trazer à lume a precariedade da assistência material prestada aos presos, destacando-se o mau estado de conservação das roupas de cama e dos uniformes. A LEP dispõe, em seu artigo 12 sobre a assistência material ao preso, consistente no fornecimento de alimentação, vestuário e instalações higiênicas. Ocorre que, não é isso que vem acontecendo na Penitenciária Regional de Bom Jesus, onde se verifica que as celas encontram-se em péssimo estado de conservação, com restos de lixo e de alimentos, roupas sujas e paredes infiltradas. Relatório preliminar elaborado pelo atual Diretor do estabelecimento constatou a necessidade de uma bomba de água reserva, bem como necessidade de resolver problemas estruturais nas celas e na rede de esgoto. ASSISTÊNCIA À SAÚDE A assistência à saúde também é deficiente, haja vista que a farmácia do estabelecimento encontra-se sem alguns medicamentos considerados básicos. Ademais, constatou-se que não há um procedimento especifico para troca de roupas de cama e banho e uniforme em face de patologias de presos.

5 ASSISTÊNCIA EDUCACIONAL A instrução escolar e formação profissional é um direito garantido pela Constituição Federal. As Regras Mínimas da ONU para Tratamento de Reclusos estabelece: Devem ser tomadas medidas no sentido de melhorar a educação de todos os reclusos. No entanto, na Penitenciária Regional de Bom Jesus somente existem 20 (vinte) vagas para a oferta de ensino. Ademais, conforme relatório do Diretor do Presídio, faltam materiais básicos, como aparelho de DVD, pincéis, cadernos, lápis, canetas, livros e ventiladores. TRABALHO Atualmente, os presos recolhidos nessa penitenciária desenvolvem um trabalho de artesanato, consistente na confecção de pulseiras de linhas. Referido trabalho já foi objeto de Recomendação desse órgão ministerial que, verificando a ausência de expressão econômica e a falta de fiscalização, recomendou que a diretoria da penitenciária adotasse medidas para implementar trabalho que efetivamente permitisse que o preso se capacitasse. Quanto a isso, verifica-se a que penitenciária possui instrumento capaz de produzir leite, a chamada Vaca Mecânica e uma padaria. Ambos se encontram desativados! O trabalho penitenciário é encarado como um dever social e condição de dignidade humana, tendo como finalidade educativa e produtiva. Aos presos provisórios e definitivos que se encontram recolhidos na Penitenciária Regional Dom Abel Alonso Núñes, é

6 negado o direito ao trabalho e por conseguinte, a oportunidade de se capacitarem para a vida em sociedade. SEGURANÇA N o q u e d i z r e s p e i t o à s e g u r a n ç a d o estabelecimento prisional, pode-se dizer que praticamente não existe, pois faltam cercas eletrificadas; agentes penitenciários em número suficiente; armamentos (atualmente possuem duas armas calibre 12 e dois revólveres calibre 38); detectores de metais; rádios transmissores; coletes à prova de balas. Ademais, verificou-se a necessidade de se colocar tela de proteção a fim de evitar fugas e câmeras de monitoramento. DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS NEOCONSTITUCIONALISMO. DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. MÍNIMO EXISTENCIAL A doutrina passou a desenvolver, a partir do início do século XXI, uma nova perspectiva em relação ao constitucionalismo, denominada neoconstitucionalismo. Busca-se, com essa nova realidade, não apenas a ideia de limitação do Poder Público, mas, acima de tudo, a eficácia da Constituição, especialmente em relação à concretização dos direitos fundamentais. Nas palavras de Walber de Moura Agra 1, o neoconstitucionalismo tem como uma de suas marcas a concretização das prestações materiais prometidas pela sociedade, servindo como ferramenta para a implantação de um Estado Democrático Social de Direito dignidade 1 Curso de Direito Constitucional, 4.ed p. 31

7 da pessoa humana é um valor moral e espiritual inerente à pessoa. Para isso é preciso identificar os mecanismos de efetivação dos direitos fundamentais e, nisso, além do papel da sociedade, o Judiciário tem uma importante missão, realizando a implementação da efetividade das normas constitucionais. Dessa feita, destaca-se a aplicação direta do postulado da dignidade da pessoa humana enquanto valor fundamental constitucional a fim de concretizar os direitos fundamentais à vida, à integridade físico-psíquica, à saúde, educação e segurança. Surge, pois um novo conceito de personalidade jurídica, desenvolvido a partir do conceito de mínimo existencial, que não pode ser violado nem pelo Poder Público, nem pelos demais membros da sociedade. Significa dizer que existe um rol de direitos mínimos que devem ser garantidos para todas as pessoas, em todas as situações. Os presos, dessa forma, ainda que com a liberdade restrita, devem ter garantidos seus direitos mínimos. OMISSÃO INCONSTITUCIONAL DO PODER PÚBLICO A omissão do Poder Público em garantir os direitos fundamentais dos presos viola a Constituição Federal. Tal omissão não pode ser tolerada pelo Poder Judiciário. No Estado Democrático e Social de Direito não existe discricionariedade administrativa quando se trata da implementação dos direitos fundamentais, notadamente do mínimo existencial. O Estado não pode renegar a dignidade dos cidadãos piauienses, atentando contra a integridade física e psíquica dos presos e dos agentes penitenciários lotados na Penitenciária Regional de Bom Jesus, optando por fazer investimentos em publicidade institucional, sob

8 o argumento da discricionariedade administrativa. Nesse diapasão, já decidiu o Supremo Tribunal Federal, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, nº45, cuja ementa se colaciona: Arguição de descumprimento de preceito fundam enta l. A quest ão da legit im ida de constitucional do controle e da intervenção do Poder Judiciário em teme de implementação de políticas públicas, quando configurada hipótese de abusividade governamental. Dimensão política da jurisdição constitucional atribuída ao STF. Inoponibilidade do arbítrio estatal à efetivação dos direitos sociais, econômicos e culturais. Caráter relativo da liberdade de conformação do legislador. Considerações em torno da cláusula da reserva do possível. Necessidade de preservação, em favor dos indivíduos, da integridade e da intangibilidade do núcleo consubstanciador d o " m í n i m o e x i s t e n c i a l ". Viabilidade instrumental da arguição de descumprimento no processo de concretização das liberdades positivas (direitos constitucionais de segunda geração). (STF, ADPF 45-9/DF, rel. Min. Celso de Mello). Dessa feita, percebe-se, através da leitura do texto constitucional, que os detentos, ainda que privados do direito de liberdade, permanecem no gozo de outros direitos fundamentais, como

9 segurança, integridade física, psíquica, higiene e saúde. A saber: Art. 5º, XLVII da Constituição Federal. É assegurado aos presos o direito à integridade física e moral. Na esteira desse preceito constitucional, outrossim, a Lei de Execuções Penais elencou diversos direitos que devem ser garantidos aos presos, realçando a preocupação com a dignidade da pessoa humana. A conferir: Art.12. A assistência material ao preso e ao int ernado consistirá no forne ciment o de alimentação, vestuário e instalações higiênicas. Art. 14. A assistência à saúde do preso e do internado, de caráter preventivo e curativo, compreenderá atendimento médico, farmacêutico e odontológico. Art.88. O condenado será alojado em cela individual que conterá dormitório, aparelho sanitário e lavatório. Parágrafo único. São requisitos básicos da unidade celular: a) salubridade do ambiente pela concorrência de fatores de aeração,insolação e condicionamento térmico adequado à existência humana. b) Área mínima de 6m2(seis metros quadrados).

10 Dessa forma, cumprir a Lei de Execução Penal e as garantias individuais e sociais inscritas na Constituição Federal é obrigação positiva do Estado, demandando prestações por parte do Poder Público. O recolhimento do preso em um estabelecimento que respeite sua dignidade é mandamento previsto não só na Constituição Federal e na Lei de Execuções Penais, mas também no Pacto de San Jose da Costa Rica (Convenção Interamericana de Direitos do Homem, ratificada pelo Brasil em ), das Regras Mínimas da ONU para tratamento de reclusos (adotada em ), do 1º Congresso das Nações Unidas para prevenção do crime e tratamento dos delinquentes, das Regras Mínimas para o tratamento do preso no Brasil (Resolução n.º 14 do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária CNPCP de , DOU ). Em recente decisão, o Superior Tribunal de Justiça entendeu que constatando-se irregularidades em cadeia pública, tais como superlotação, celas sem condições mínimas de salubridade, desrespeito à integridade física e moral dos detentos, deve ser julgada procedente ação civil pública que objetive obrigar o Estado a adotar providências administrativas e respectiva previsão orçamentaria para reformar a referida cadeia publica ou construir nova unidade. Para o STJ, referida situação configura violação dos direitos fundamentais, passível de intervenção do Poder Judiciário para cessar a omissão do Poder Público. Não se trata de discricionariedade administrativa, tendo em vista que a omissão está relacionada aos direitos fundamentais. Oportuno, também, ressaltar a inexistência de ofensa à separação dos poderes. Isto porque, a concretização de direitos

11 fundamentais não pode ficar ao livre arbítrio do Administrador. Lado outro, não se pode invocar a famosa Teoria da Reserva do Possível, importada do Direito Alemão, como manto protetor das omissões ilegais do Poder Público, haja vista que, referida teoria tem aplicabilidade quando os direitos mínimos já foram garantidos pelo Poder Público. Importante colacionar a publicação no informativo n.º 543 do STJ: DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. CONTROLE JURISDICIONAL DE POLÍTICAS P Ú B L I C A S R E L A C I O N A D O A I N Ú M E R A S IRREGULARIDADES ESTRUTURAIS E SANITÁRIAS EM CADEIA PÚBLICA. Constatando-se inúmeras irregularidades em cadeia pública superlotação, celas sem condições mínimas de salubridade para a permanência de presos, notadamente em razão de defeitos estruturais, de ausência de ventilação, de iluminação e de instalações sanitárias adequadas, desrespeito à integridade física e moral dos detentos, havendo, inclusive, relato de que as visitas íntimas seriam realizadas dentro das próprias celas e em grupos, e que existiriam detentas acomodadas improvisadamente, a alegação de ausência de previsão orçamentária não impede que seja julgada procedente ação civil publica que, entre outras medidas, objetive obrigar o Estado a adotar providências administrativas e respectiva previsão orçamentária para reformar a referida cadeia pública ou construir nova unidade, mormente quando não houver comprovação objetiva da incapacidade econômico-financeira da pessoa estatal. De fato, evidencia-se, na hipótese em análise, clara situação de violação à garantia constitucional de respeito da integridade física e moral do preso (art. 5º, XLIX, da CF) e aos

12 princípios da dignidade da pessoa humana e do mínimo existencial. Nessas circunstâncias em q u e o e x e r c í c i o d a d i s c r i c i o n a r i e d a d e administrativa pelo não desenvolvimento de determinadas políticas públicas acarreta grave vulneração a direitos e garantias fundamentais assegurados pela Constituição, a intervenção do Poder Judiciário se justifica como forma de implementar, concreta e eficientemente, os valores que o constituinte elegeu como supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos fundada na harmonia social, como apregoa o preâmbulo da CF. Há, inclusive, precedentes do STF (RE-AgR , Segunda Turma, DJe 20/5/2014; e ARE-AgR , Segunda Turma, DJe 15/9/2011) e do STJ (AgRg no REsp RS, Segunda Turma, DJe 6/12/2013) endossando a possibilidade de excepcional controle judicial de políticas públicas. Além disso, não há, na intervenção em análise, ofensa ao princípio da separação dos poderes. Isso porque a concretização dos direitos sociais não pode ficar condicionada à boa vontade do Administrador, sendo de suma importância que o Judiciário atue c o m o ó r g ã o c o n t r o l a d o r d a a t i v i d a d e administrativa. Seria distorção pensar que o princípio da separação dos poderes, originalmente concebido com o escopo de garantia dos direitos fundamentais, pudesse ser utilizado como óbice à realização dos direitos sociais, igualmente importantes. Tratando-se de direito essencial, incluso no conceito de mínimo existencial, inexistirá empecilho jurídico para que o Judiciário estabeleça a inclusão de determinada política pública nos planos orçamentários do ente político, mormente quando não houver comprovação objetiva da incapacidade econômico-financeira da pessoa estatal. Ademais, também não há como falar em ofensa aos arts. 4º, 6º e 60 da Lei 4.320/1964 (que preveem a necessidade de previsão orçamentária para a realização das obras em apreço), na medida em que a ação civil pública analisada objetiva obrigar o Estado a realizar

13 previsão orçamentária das obras solicitadas, não desconsiderando, portanto, a necessidade de previsão orçamentária das obras. Além do mais, tem-se visto, recorrentemente, a invocação da teoria da reserva do possível, importada do Direito alemão, como escudo para o Estado se escusar do cumprimento de suas obrigações prioritárias. Não se pode deixar de reconhecer que as limitações orçamentárias são um entrave para a efetivação dos direitos sociais. No entanto, é preciso ter em mente que o princípio da reserva do possível não pode ser utilizado de forma indiscriminada. Na verdade, o direito alemão construiu essa teoria no sentido de que o indivíduo só pode requerer do Estado uma prestação que se dê nos limites do razoável, ou seja, na qual o peticionante atenda aos requisitos objetivos para sua fruição. Informa a doutrina especializada que, de acordo com a jurisprudência da Corte Constitucional alemã, os direitos sociais prestacionais estão sujeitos à reserva do possível no sentido daquilo que o indivíduo, de maneira racional, pode esperar da sociedade. Ocorre que não se podem importar preceitos do direito comparado sem atentar para Estado brasileiro. Na Alemanha, os cidadãos já dispõem de um mínimo de prestações materiais capazes de assegurar existência digna. Por esse motivo, o indivíduo não pode exigir do Estado prestações supérfluas, pois isso escaparia do limite do razoável, não sendo exigível que a sociedade arque com esse ônus. Eis a correta compreensão do princípio da reserva do possível, tal como foi formulado pela jurisprudência germânica. Todavia, situação completamente diversa é a que se observa nos países periféricos, como é o caso do Brasil, país no qual ainda não foram asseguradas, para a maioria dos cidadãos, condições mínimas para uma vida digna. Nesse caso, qualquer pleito que vise a fomentar uma existência minimamente decente não pode ser encarado como sem razão, pois garantir a dignidade humana é um dos objetivos principais do Estado brasileiro. É por isso que o princípio da reserva do possível não pode

14 ser oposto a um outro princípio, conhecido como princípio do mínimo existencial. Desse modo, somente depois de atingido esse mínimo existencial é que se poderá discutir, relativamente aos recursos remanescentes, em quais outros projetos se deve investir. Ou seja, não se nega que haja ausência de recursos suficientes para atender a todas as atribuições que a Constituição e a Lei impuseram ao estado. Todavia, se não se pode cumprir tudo, deve-se, ao menos, garantir aos cidadãos um mínimo de direitos que são essenciais a uma vida digna, entre os quais, sem a menor dúvida, podemos incluir um padrão mínimo de dignidade às pessoas encarceradas em estabelecimentos prisionais. Por esse motivo, não havendo comprovação objetiva da incapacidade econômico-financeira da pessoa estatal, inexistirá empecilho jurídico para que o Judiciário determine a inclusão de determinada política pública nos planos orçamentários do ente político. (REsp MT, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 3/6/2014). DO PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DA TUTELA JURISDICIONAL Com a finalidade de assegurar o resultado útil do processo, o nosso ordenamento jurídico disponibiliza a tutela antecipatória, nos termos do art. 12 da Lei n.º 7.347/85. O Código de Defesa do Consumidor, que compõe o microssistema processual coletivo, dispõe no art. 84, 3º que sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou após justificação prévia, citado o réu. No caso em exame, sobreleva ser deferida a tutela antecipada, a fim de evitar o perecimento e deterioração de direitos que se

15 encontram demonstrados de plano, especialmente os direitos fundamentais dos presos e dos agentes e o direito da população à segurança, que se encontra violado em razão da recente fuga de sete detentos. O relevante fundamento da demanda decorre da necessidade em se resguardar a dignidade dos presos e a segurança dos agentes e da sociedade. O justificado receio de ineficácia do provimento final encontra-se demonstrado, na medida em que a continuidade da situação poderá acarretar danos irreparáveis aos presos, aos agentes penitenciários e à população, como por exemplo lesão à integridade física, homicídios, danos à saúde física e mental, rebeliões e fugas. Nesse sentido: AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. MEDIDA QUE ESGOTA, EM PARTE, O OB JETO D A AÇÃO. PRINCÍPIO D A DIGNIDADE HUMANA. POSSIBILIDADE. OBRIGAÇÃO DE FAZER. REFORMA E AMPLIAÇÃO DE ESTABELECIMENTO PRISIONAL. DEMORA INJUSTIFICADA NA REALIZAÇÃO DE OBRAS NECESSÁRIAS. P R I N C Í P I O D A E F I C I Ê N C I A ADMINISTRATIVA. INEXISTÊNCIA DE INGERÊNCIA INDEVIDA. MULTA POR DESCUMPRIMENTO EXCESSIVA. REDUÇÃO. AGRAVO PARCIALMENTE PROVIDO. O princípio da dignidade humana autoriza a antecipação de tutela para determinar que o Estado tome providências, há muito reclamadas, para Resolução de situação

16 precária, insalubre e de insegurança existente em estabelecimento prisional,ainda que esgote, em parte, o objeto da ação. "Não obstante haja certa reserva quanto à possibilidade de conceder tutela antecipada em ações movidas contra a Fazenda Pública, o certo é que não se mostra razoável deixar de se adotar tal medida, que é necessária para evitar riscos à vida dos detentos e funcionários da cadeia pública,bem como garantir a segurança da população em geral." (Dra. Giovana Pasqual, Juíza de Direito). É cabível a cominação de multa, em valor razoável, para o caso de descumprimento da ordem judicial. (TJMT; RAI 96343/2006; Juína; Sexta Câmara Cível; Rel. Des. Juracy Persiani; Julg. 06/06/2007). APELAÇÃO CÍVEL. CADEIA PÚBLICA. AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE GUAPIARA. PRECARIEDADE DAS INSTALAÇÕES E SUPERLOTAÇÃO. PROPENSÃO A FUGAS E REBELIÃO. Atentado à incolumidade física e moral dos presos, bem como à tranquilidade da coletividade que está instalada aos arredores do estabelecimento. Dever do Estado de promover a segurança pública. Poder Judiciário que deve determinar o c u m p r i m e n t o d o m a n d a m e n t o constitucional. Precedente do E. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Pedido inicial julgado improcedente em primeiro grau. Reforma da r. Sentença atacada Provimento. (TJSP; APL-Rev /1; Ac ; Capão Bonito; Décima Segunda Câmara de Direito Público; Rel.

17 Des. Prado Pereira; Julg. 23/04/2008; DJESP 10/06/2008) Restou, portanto, suficientemente demonstrada a necessidade de concessão de tutela antecipada a fim de fazer cessar as ilegalidades e arbitrariedades cometidas pelo Poder Público, que violam gravemente os direitos humanos. Dessa forma, impõe-se a concessão de tutela antecipatória (CDC, art. 84, 3º e art. 12 da Lei 7.347/85), para o fim de se determinar ao réu, sob pena de multa diária de R$ (cinquenta mil reais), por dia de descumprimento ou atraso, que poderá incidir pessoalmente no chefe do Poder Executivo, que no prazo de 15 dias dê início às obras de reforma da Penitenciária Regional de Bom Jesus, com objetivo de aumentar a capacidade, bem como sanar as irregularidades apontadas no relatório do Diretor do Presídio e do Ministério Público (ausência de segurança, câmeras de monitoramento, tela de proteção, armamento, necessidade de reforma das celas, aquisição de uniformes, roupas de cama e colchões, implementação de trabalho carcerário, com expressão econômica, mediante a ativação do maquinário de produção de leite, etc). Pelo exposto, requer o Ministério Público: DOS PEDIDOS: 1) Presentes o fumus boni iuris e o periculum in mora, a concessão de medida liminar, para o fim de se determinar ao réu, sob pena de multa diária de R$ (cinquenta mil reais), por dia de descumprimento ou atraso, que poderá incidir pessoalmente no chefe do Poder Executivo, que no prazo de 15 dias dê início às obras de reforma da Penitenciária

18 Regional de Bom Jesus, com objetivo de aumentar a capacidade, bem como sanar as irregularidades apontadas no relatório do Diretor do Presídio e do Ministério Público; 2) A citação do requerido, na pessoa de seu representante legal, para responder aos termos da presente ação, sob pena de revelia e confissão; 3) A produção de todas as provas não defesas em lei; 4) A procedência total dos pedidos para que, sem prejuízo das demais cominações legais, seja confirmada a tutela antecipada, condenando-se o requerido ao cumprimento de obrigação de fazer, consistente reforma das instalações da Penitenciária Regional de Bom Jesus, com objetivo de aumentar a capacidade, bem como sanar as irregularidades apontadas no relatório do Diretor do Presídio e do Ministério Público com a transferência dos presos provisórios para a Penitenciária Regional de São Raimundo Nonato/PI, sob pena de, não o fazendo, incorrer em multa diária de R$ ,00 (cinquenta mil reais), corrigida pelo índice oficial em vigor, a ser revertida em favor do Fundo Penitenciário Estadual. Protesta provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, especialmente a perícias, testemunhas e juntada de novos documentos. Malgrado inestimável, dá-se à causa o valor de R$ ,00 (dez mil reais). Nestes termos,

19 Pede deferimento. Bom Jesus/PI, 08 de outubro de Gabriela Almeida de Santana Promotora de Justiça

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