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1 DIALOGANDO SOBRE JUSTICIA MILITAR BRASIL Entrevista con el Sr. General Ex Raymundo De Cerqueira Filho Ministro Presidente del Tribunal Superior Militar Brasil 1. De acordo com as leis de seu País, qual é a finalidade da Justiça Militar e qual é o estatuto que outorga a sua constituição ou leis nacionais? a. Finalidade da Justiça Militar da União (JMU) 1) A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (em vigor) prevê, no que concerne à JMU, o que se segue: "Art À Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei. Parágrafo único. A lei disporá sobre a organização, o funcionamento e a competência da Justiça Militar". 2) Os crimes militares definidos em lei, mencionados no artigo supracitado, conforme a Carta Magna do Brasil, são aqueles previstos no art. 9º do Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de Código Penal Militar (CPM) -, que podem ser praticados por integrantes das Forças Armadas brasileiras e, em casos específicos, por civis. 3) A JMU, no exercício de suas atribuições, representa a segurança jurídica necessária e indispensável ao emprego legal das Forças Armadas brasileiras, em conformidade com a sua missão constitucional (art. 142 da Constituição Federal, abaixo transcrito), tutelando os seus bens jurídicos maiores, que são a hierarquia e a disciplina, pilares básicos das Instituições Militares: "Art As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem." 4) Criada a 1º de abril de 1808, por Decreto, com força de Lei, assinado por D. João VI, Príncipe Regente de Portugal, logo após a sua chegada ao Brasil, é a Justiça Militar a mais antiga do País, tendo completado, neste ano de 2013, 205 anos de profícua existência, respaldando, de forma célere, justa e eficaz, o emprego legal das Forças Armadas brasileiras. b. Estatuto ou leis nacionais que outorgam a constituição da JMU? 1) A JMU, desde a Constituição brasileira de 1934, pertence ao Poder Judiciário e o Superior Tribunal Militar (STM), segunda instância desta Justiça especializada, está no

2 mesmo nível dos demais Tribunais Superiores do Brasil: Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 2) A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (em vigor) prevê, no que se refere à organização da JMU, o que se segue: "Art São órgãos da Justiça Militar: I - o Superior Tribunal Militar; II - os Tribunais e Juízes Militares instituídos por lei. Art O Superior Tribunal Militar compor-se-á de quinze Ministros vitalícios, nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a indicação pelo Senado Federal, sendo três dentre oficiais-generais da Marinha, quatro dentre oficiais-generais do Exército, três dentre oficiais-generais da Aeronáutica, todos da ativa e do posto mais elevado da carreira, e cinco dentre civis. Parágrafo único. Os Ministros civis serão escolhidos pelo Presidente da República dentre brasileiros maiores de trinta e cinco anos, sendo: I - três dentre advogados de notório saber jurídico e conduta ilibada, com mais de dez anos de efetiva atividade profissional; II - dois, por escolha paritária, dentre juízes auditores e membros do Ministério Público Militar." 3) A JMU é organizada de acordo com a Lei nº 8.457, de 04 de setembro de 1992: "Art. 1 São órgãos da Justiça Militar: I. o Superior Tribunal Militar; II. a Auditoria de Correição; III. os Conselhos de Justiça; IV. os Juízes-Auditores e os Juízes-Auditores Substitutos. Art. 2 Para efeito de administração da Justiça Militar em tempo de paz, o território nacional divide-se em doze Circunscrições Judiciárias Militares, abrangendo: a) a 1ª - Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo; b) a 2ª - Estado de São Paulo; c) a 3ª - Estado do Rio Grande do Sul; d) a 4ª - Estado de Minas Gerais; e) a 5ª - Estados do Paraná e Santa Catarina; f) a 6ª - Estados da Bahia e Sergipe; g) a 7ª - Estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas; h) a 8ª - Estados do Pará, Amapá e Maranhão;

3 i) a 9ª - Estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso (redação dada pela Lei nº 8.719, de 19 de outubro de 1993); j) a 10ª - Estados do Ceará e Piauí; l) a 11ª - Distrito Federal e Estados de Goiás e Tocantins; m) a 12ª - Estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia (redação dada pela Lei nº 8.719, de 19 de outubro de 1993)." 4) Mapa da JMU: 2. Qual é a competência da Justiça Militar de seu País? Ela pode ou não julgar militares, policiais e / ou civis em casos excepcionais? Por favor, descreva brevemente o funcionamento, detalhando se existe uma promotoria militar ou descrevendo o modelo que é adotado, entre outros aspectos. a. Qual é a competência da Justiça Militar do Brasil? 1) Conforme mencionado anteriormente, o art. 124, da atual Constituição brasileira, prevê que: "À Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei." E, ainda, em seu parágrafo único: "A lei disporá sobre a organização, o funcionamento e a competência da Justiça Militar". 2) Assim sendo, considera-se que o art. 9º do Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969 (Código Penal Militar - CPM), define os crimes militares previstos e, por conseguinte, a competência da Justiça Militar para processá-los e julgá-los, conforme os limites nele estabelecidos, a saber: "Art. 9º (CPM) Consideram-se crimes militares, em tempo de paz: I - os crimes de que trata este Código, quando definidos de modo diverso na lei penal comum, ou nela não previstos, qualquer que seja o agente, salvo disposição especial; II - os crimes previstos neste Código, embora também o sejam com igual definição na lei penal comum, quando praticados: a) por militar em situação de atividade ou assemelhado (*), contra militar na mesma situação ou assemelhado (*); b) por militar em situação de atividade ou assemelhado (*), em lugar sujeito à administração militar, contra militar da reserva, ou reformado, ou assemelhado (*), ou civil; c) por militar em serviço ou atuando em razão da função, em comissão de natureza militar, ou em formatura, ainda que fora do lugar sujeito à administração militar contra militar da reserva, ou reformado, ou civil; (Redação dada pela Lei nº 9.299, de 08 de agosto de 1996) d) por militar durante o período de manobras ou exercício, contra militar da reserva, ou reformado, ou assemelhado (*), ou civil; e) por militar em situação de atividade, ou assemelhado (*), contra o patrimônio sob a administração militar, ou a ordem administrativa militar;

4 f) revogada. (Vide Lei nº 9.299, de 08 de agosto de 1996) III - os crimes praticados por militar da reserva, ou reformado, ou por civil, contra as instituições militares, considerando-se como tais não só os compreendidos no inciso I, como os do inciso II, nos seguintes casos: a) contra o patrimônio sob a administração militar, ou contra a ordem administrativa militar; b) em lugar sujeito à administração militar contra militar em situação de atividade ou assemelhado (*), ou contra funcionário de Ministério militar ou da Justiça Militar, no exercício de função inerente ao seu cargo; c) contra militar em formatura, ou durante o período de prontidão, vigilância, observação, exploração, exercício, acampamento, acantonamento ou manobras; d) ainda que fora do lugar sujeito à administração militar, contra militar em função de natureza militar, ou no desempenho de serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública, administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para aquele fim, ou em obediência a determinação legal superior. Parágrafo único. Os crimes de que trata este artigo quando dolosos contra a vida e cometidos contra civil serão da competência da justiça comum, salvo quando praticados no contexto de ação militar realizada na forma do art. 303 da Lei no 7.565, de 19 de dezembro de Código Brasileiro de Aeronáutica. (Redação dada pela Lei nº , de 29 de junho de 2011) (*) Obs: "Assemelhado" - "Art. 21 (CPM). Considera-se assemelhado o servidor, efetivo ou não, dos Ministérios da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, submetido a preceito de disciplina militar, em virtude de lei ou regulamento." Desde 1999, os Ministérios Militares foram extintos e instituídos os Comandos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, inexistindo, portanto, a figura do "assemelhado", atualmente. b. A Justiça Militar pode ou não julgar militares, policiais e / ou civis em casos excepcionais? 1) Os jurisdicionados da Justiça Militar da União (JMU) são somente os militares das Forças Armadas brasileiras (Marinha, Exército e Aeronáutica). 2) Os policiais militares e bombeiros militares dos Estados da Federação são jurisdicionados dos Tribunais de Justiça Militar daqueles Estados. 3) Os civis também poderão ser processados e julgados pela JMU, caso cometam crimes militares capitulados no art. 9º do CPM (transcrito anteriormente neste documento). c. Funcionamento da JMU, atuação da Promotoria Militar e Defensoria Pública 1) O procedimento começa nas Organizações Militares (OM) da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica que, ao constatarem indício de cometimento de crime militar, de acordo com o art. 9º do CPM, devem instaurar o competente Inquérito Policial Militar (IPM), a fim de apurar as circunstâncias em que o fato ou o delito ocorreu.

5 2) Concluído o procedimento, o Comandante da OM, que delegou as suas atribuições policiais ao Encarregado do Inquérito (Oficial da OM designado), consigna a sua solução e encaminha os autos do IPM à Auditoria Militar, a que estiver jurisdicionada a sua Unidade. 3) O Juiz-Auditor ou o Juiz-Auditor Substituto da Auditoria Militar (Juiz civil togado) recepciona os autos do IPM e, após estudá-los, encaminha à Promotoria Militar mais próxima. 4) O Promotor Militar, após estudar os autos do IPM, poderá oferecer a Denúncia (caso conclua que há crime) ou solicitar ao Juiz-Auditor ou Juiz-Auditor Substituto o arquivamento dos autos (caso não se trate de crime) ou, ainda, sugerir o seu encaminhamento à Justiça comum (caso se trate de crime comum). 5) Oferecida a Denúncia pelo Promotor Militar, o Juiz-Auditor ou Juiz-Auditor Substituto, após recebê-la, coloca o processo em mesa e convoca o Conselho de Justiça para julgá-lo. 6) O Conselho de Justiça, no âmbito da 1ª Instância da JMU (Auditoria Militar), poderá ser Especial (para julgar Oficiais, exceto Oficiais-Generais - estes são julgados por crimes militares tão-somente pelo Superior Tribunal Militar - STM) e Permanente (para réus que não sejam Oficiais), sendo ambos constituídos, de acordo com a Lei nº 8.457, de 04 de setembro de 1992, por: 04 (quatro) Oficiais (denominados "Sabres") e 01 (um) Juiz togado (civil - denominado Juiz-Auditor ou Juiz-Auditor Substituto, no âmbito da JMU). O Oficial mais antigo do Conselho de Justiça presidirá o Conselho. 7) A Auditoria de Correição conta com 01 (um) Juiz-Auditor Corregedor (Juiz civil togado) e estrutura necessária, integrando a 1ª Instância da JMU, com jurisdição em todo o País, e responsabilizando-se pela fiscalização e orientação judiciária e administrativa das 19 (dezenove) Auditorias Militares espalhadas por todo o território nacional (ver Mapa da JMU). 8) No que se refere à Promotoria Militar e à Defensoria Pública, a Lei nº 8.457, de 04 de setembro de 1992, prevê o que segue: "TÍTULO VI Do Ministério Público da União junto à Justiça Militar CAPÍTULO ÚNICO Do Ministério Público Art. 67. O Ministério Público mantém representantes junto à Justiça Militar. Art. 68. Os membros do Ministério Público desempenham, junto à Justiça Militar, atribuições previstas no Código de Processo Penal Militar e leis especiais. TÍTULO VII Da Defensoria Pública da União junto à Justiça Militar CAPÍTULO ÚNICO Da Defensoria Pública

6 Art. 69. A Defensoria Pública da União mantém representantes junto à Justiça Militar. Art. 70. Os membros da Defensoria Pública, junto à Justiça Militar, desempenham as atribuições previstas no Código de Processo Militar e leis especiais". 9) O Código de Processo Penal Militar - CPPM (Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969), em seu artigo primeiro, define a sua finalidade, a saber: " Art. 1º O processo penal militar reger-se-á pelas normas contidas neste Código, assim em tempo de paz como em tempo de guerra, salvo legislação especial que lhe for estritamente aplicável." 3. Quais são os desafios e / ou dificuldades atuais da Justiça Militar em seu País? Existem questionamentos aos seus estatutos? a. Desafios atuais da Justiça Militar no Brasil? 1) Implantar o seu Planejamento Estratégico, atualmente em construção, sob a responsabilidade da Assessoria de Gestão Estratégica da Presidência do STM (AGEST). 2) Implantar o projeto de Gestão Eletrônica de Processos, Documentos, Arquivos e Informação (GEDAI), na parte administrativa, em andamento no STM, como também cumprir as metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), previstas no programa Processo Judicial Eletrônico (PJe), quanto à modernização dos processos judiciais. 3) Reestruturar a JMU, a fim de modernizá-la e adequá-la às novas exigências da sociedade, tornando-a mais eficiente e eficaz. 4) Ampliar a competência da JMU, no intuito de realçar a sua importância e de permitir o encaminhamento de soluções mais adequadas, principalmente às questões disciplinares e administrativas atinentes aos seus jurisdicionados, que têm, por vezes, resultado em decisões prejudiciais às instituições militares. 5) Construção da nova sede do STM no Setor de Administração Federal Sul, em Brasília-DF. O edital para a contratação de empresa, objetivando a confecção do projeto arquitetônico do novo prédio, já está sendo finalizado pelo Departamento de Engenharia e Construção do Exército, por intermédio de Termo de Cooperação. b. Dificuldades atuais da Justiça Militar em seu País? Existem questionamentos aos seus estatutos? 1) O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão administrativo e normativo do Poder Judiciário brasileiro, criou, recentemente, um Grupo de Trabalho a fim de elaborar diagnóstico da Justiça Militar, nos âmbitos federal e estadual, visando o encaminhamento de propostas ao Congresso Nacional e Assembleias Legislativas estaduais. 2) Os questionamentos, em relação à Justiça Militar, normalmente recaem sobre a sua competência para julgar, perfeitamente definida pelo art. 9º do CPM. Alguns integrantes do Poder Judiciário e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não concordam com o julgamento de civis pela JMU, bem como do julgamento de militares, pela mesma Justiça,

7 nos casos de cometimento de crimes igualmente previstos em ambos os códigos - Código Penal Militar e Código Penal (comum). 4. Que aspectos ou competências são questionadas? - Pergunta já respondida no item anterior. 5. Seu País realizou alguma reforma nas leis da Justiça Militar nos últimos anos? Em que aspectos incidiram, principalmente, essas reformas? Que aspectos do Código Penal Militar ou aspectos processuais foram modificados? - A mais recente alteração foi no parágrafo único do art. 9º do CPM, tendo em vista a determinação de julgar-se na Justiça comum os crimes dolosos contra a vida cometidos contra civil e, ainda, a inserção da denominada "Lei do Abate" (Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986), que dispõe sobre o "Código Brasileiro de Aeronáutica": "Parágrafo único. Os crimes de que trata este artigo quando dolosos contra a vida e cometidos contra civil serão da competência da Justiça comum, salvo quando praticados no contexto de ação militar realizada na forma do art. 303 da Lei no 7.565, de 19 de dezembro de Código Brasileiro de Aeronáutica. (Redação dada pela Lei nº , de 29 de junho de 2011)". 6. Que apreciação tem a ideia de criar um código padronizado de Justiça Militar com princípios aplicáveis, de forma completa ou adaptada, à realidade de cada país? - Se o código tiver que ser adaptado à realidade de cada país, considera-se que não poderá ser padronizado. 7. Ideias ou comentários adicionais. - A troca de experiências e de informações sobre a organização, a competência e o funcionamento das Justiças Militares será de grande valia para o aperfeiçoamento das Cortes Castrenses dos países participantes do "Foro Interamericano sobre Justicia Militar y Derecho Internacional Humanitario".

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