A contribuição da Psicanálise na atenção ao jovem no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil e na formação do estudante de Psicologia

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1 A contribuição da Psicanálise na atenção ao jovem no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil e na formação do estudante de Psicologia Susane Vasconcelos Zanotti e Adélia Augusta Souto de Oliveira 1 ; Hélida Vieira da Silva Xavier, Karolline Helcias Pacheco Acácio e Marianne Machado de Souza 2 O presente trabalho discute as atividades de intervenção psicológica junto a uma instituição de saúde mental, em um município no Nordeste brasileiro, a qual prioriza o atendimento à criança e ao adolescente. O referencial teórico-metodológico da Psicanálise substancia as ações desta extensão universitária e o relato de diário de campo é o instrumento utilizado para registro e posterior análise do trabalho desenvolvido na atenção ao jovem no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (CAPSi). A intervenção psicológica em um grupo de jovens do CAPSi A intervenção caracteriza-se por oficinas terapêuticas em que prioriza-se a metodologia qualitativa com o registro em diário de campo descritivo e analítico (Minayo, 2000). O diário de campo possibilita o relato em si, o mais próximo possível dos fatos e a reflexão posterior ao descrito. O primeiro beneficia a equipe, o jovem e a instituição, pois, por pretender ser um retrato deve auxiliar na compreensão dessa dinâmica. Já o segundo, qual seja, a reflexão, beneficia a produção acadêmica, pois exige do estudante e dos professores, um estudo reflexivo permanente (Gerhardt et al, 2006). Os fundamentos da Psicanálise substanciam o trabalho desenvolvido no CAPSi especialmente no que diz respeito à leitura das ações dos jovens. O jovem é visto como sujeito desejante, pois como ressalta Sagesse (2008) em seu texto sobre oficinas terapêuticas com crianças e adolescentes não se trata de cuidar de uma doença, mas de lidar com uma particular condição do sujeito ou pelo menos de criar oportunidades para que um sujeito venha a surgir do horizonte de nadificação ou de destituição 1 Professoras Doutoras do Curso de Psicologia/UFAL. 2 Estudantes do quinto ano do Curso de Psicologia/UFAL. 1

2 subjetiva (p. 241). Nessa perspectiva, as oficinas realizadas no CAPSi privilegiaram a comunicação, a convivência e a produção do jovem na tentativa de criar oportunidade de expressão dos sujeitos. O trabalho desenvolvido caracterizou-se por oficinas terapêuticas semanais com um grupo de jovens entre 12 e 17 anos. A primeira etapa consistiu em um diagnóstico institucional por meio de observação dirigida; discussão com a equipe técnica e o conseqüente ajuste da proposta de intervenção. A segunda etapa consistiu em observação das atividades coordenadas pelas psicólogas durante três encontros com intuito de aproximar estudantes e jovens, minimizando o estranhamento. A seguir, as estudantes coordenaram sete oficinas. Como resultado das três semanas iniciais de observações e acompanhamento das oficinas identificamos certa sistematização das atividades no grupo, às quais estavam atreladas temáticas pré-estabelecidas e que alguns jovens copiavam passo-apasso o que lhes era apresentado. A esse respeito, Figueiredo (2005) ressalta que a sistematização não impede a expressão da subjetividade. [...] a oficina terapêutica e o trabalho protegido provocam e põem o sujeito em ato. O trabalho pode ser automático, repetitivo, sem sentido, mas o sujeito pode fazer disso um ato, principalmente se houver um produto como resultado, seja de que tipo for (p. 31). As oficinas coordenadas por estudantes foram propostas com a finalidade de criar espaços onde os jovens pudessem conviver, se comunicar e produzir. Dessa forma, pretendia-se possibilitar a emergência de algo particular que aparece na escolha das cores, traçados, recortes e palavras. Buscamos valorizar a expressão livre dos jovens ao oferecer materiais como massa de modelar, pincéis, tintas, lápis-de-cor, para que pudessem trabalhar da maneira que cada um escolhesse. Neste momento de produção observávamos, interagíamos com o grupo e escutávamos os jovens. Posso exemplificar com esta incursão: numa oficina no qual os jovens pintavam as máscaras, que os mesmos confeccionaram, uma jovem perguntou que se a máscara era de carnaval, ao que respondi que poderia ser, se assim o quisesse, fosse carnaval ou não (Fragmento de diário de campo de uma estudante de Psicologia). A aposta na temática livre para as oficinas reflete a busca de desvelamento e simbolização do desejo dos jovens. Apresentávamos a técnica e materiais disponíveis para todos, porém, o tema era singular, cada um elegia o que lhe era significativo e assim realizava sua produção. Inicialmente o grupo não foi muito receptivo às oficinas 2

3 com temática livre e nos demandavam instruções e legitimidade de suas produções, se estava certo ou errado. Na primeira oficina foi oferecido aos jovens massa de modelar e explicado que poderiam trabalhar com a massa da maneira que quisessem. O material foi distribuído na mesa e o grupo permaneceu alguns minutos em silêncio. Uma jovem chamou uma das estudantes e disse que ela não sabia fazer, ao que a estudante perguntou o que ela sabia fazer, a jovem insistiu: Eu não sei fazer o que a tia quer. A estudante respondeu que não era para fazer o que a tia queria, e sim o que ela gostaria de modelar. A jovem permaneceu em silêncio e começou a modelar flores, ao fim da oficina tinha plantado um jardim que verbalizou para o grupo, gostaria de ter em casa. A produção coletiva de cartazes juninos, em uma das oficinas, evidencia a convivência. A festa junina é uma importante manifestação cultural nordestina e nesta atividade, proposta pelos coordenadores, os jovens demonstraram entusiasmo em realizar a produção em grupo. Durante a produção alguns jovens conversaram sobre preferências musicais, Orkut, onde moravam e trocaram s. Num segundo momento da oficina dois jovens foram eleitos para expor e simbolizar o que continha o cartaz, o que cada um fez e o significado. Enquanto os dois apresentavam, os demais interagiam questionando as gravuras e pinturas do cartaz, significado e quem as haviam feito. Ao fim, colaram os cartazes na parede da sala. Conforme Figueiredo (2005) acerca dos atendimentos coletivos: falamos de singular onde curiosamente predomina a experiência do coletivo (p. 25). Alguns jovens optavam por não produzir nenhum trabalho na oficina, mas permaneciam na sala. Acerca deste aspecto Sagesse (2008) afirma que fazer nada, e assim conviver com outros, pode fazer parte de um processo que conduzirá o adolescente a formular alguma demanda, no seu devido tempo (p. 244). Nas oficinas realizadas, observamos que essa escolha do jovem, de não fazer nada, e o respeito dos coordenadores por essa escolha apresentou um efeito na comunicação com os outros e até mesmo na produção do sujeito em outra oficina. Um dos jovens que não quis produzir nada durante a oficina permaneceu na sala observando o grupo durante o desenvolvimento de seus trabalhos. O mesmo jovem, na semana seguinte, trabalhou com entusiasmo. Quando concluíam seus trabalhos havia espaço para comunicação por meio da apresentação da produção de cada jovem. O espaço para coletivizar a produção também 3

4 foi proposto, mas tomamos cuidado para este não assumir caráter impositivo. Assim, perguntávamos quem gostaria de apresentar seu trabalho. Comumente nenhum jovem tomava a iniciativa, e perguntávamos a cada um se gostariam de falar, ou mostrar seu trabalho para o grupo. Em geral, os jovens mostravam seus trabalhos, mas não lhes agradava falar deles ou falavam o mínimo ao grupo. Alguns jovens que falavam sobre seus trabalhos expunham detalhes do mesmo, outros não se interessavam nem por mostrar seu trabalho, nem por falar dele. No entanto, um desses jovens que optava em não falar nem mostrar seu trabalho, sempre produzia e ajudava outros em suas produções. Após o momento de socialização do trabalho encerrávamos a oficina e o jovem poderia optar por levar seu trabalho para casa ou deixá-lo na instituição. O destino da produção era o próprio jovem que ditava. A proposta da oficina de máscaras duraria mais de uma semana e pedimos a eles para deixarem suas respectivas máscaras no CAPSi para secagem, posto que na semana seguinte seriam trabalhadas novamente. Eles não se opuseram. Um deles desenvolveu grande apreço por sua máscara, ao que concluído o trabalho de pintura desta não a tirava do rosto evidenciando o laço com sua produção, a máscara do homem-aranha. Houve alguns indícios, ao final do trabalho, da familiarização da proposta de expressão livre. Adentravam a sala, sentavam à mesa e exploravam os materiais disponibilizados, pintavam, desenhavam, alguns faziam colagens, falavam de seu desenho, se quisessem, ou observavam atentos a exposição dos demais, alguns levaram a produção para casa, outros a colaram na parede da sala. A formação do estudante de psicologia e a atenção ao CAPSi O projeto de extensão A formação do estudante de psicologia e a atenção ao CAPSi, realizado durante o período de abril a julho de 2008 configura-se como requisito acadêmico no cumprimento da disciplina psicologia comunitária e pretende incentivar a atuação dos alunos em comunidades. Caracteriza-se por quatro etapas: 1) apropriação e análise crítica dos relatórios produzidos pelos estudantes desde 2005 (ano do início do projeto) e da produção bibliográfica brasileira acerca da temática; 2) elaboração de plano de intervenção junto à equipe de saúde do local de intervenção; 3) execução do plano de trabalho com ênfase na descrição pormenorizada em diário de 4

5 campo das atividades desenvolvidas e, por último, análise descritivo-interpretativa da produção do diário de campo. O referido projeto está em consonância com a política de saúde mental do Ministério da Saúde. O CAPSi é considerado um dispositivo estratégico para a organização da rede de atenção em saúde mental. Eles devem ser territorializados, ou seja, devem estar circunscritos no espaço de convívio social e utilizar todos os recursos comunitários que os permeiam (família, escola, trabalho e igreja). Essas parcerias ajudam a comunidade a reforçar seus laços sociais e afetivos e possibilita a inclusão social de seus membros (Ministério da Saúde, 2004). Ao considerar a formação do estudante de Psicologia como sendo construída durante o curso de graduação com atividades teórico-práticas, a Extensão Universitária visa oportunizar atividades de inserção no campo profissional a fim de realizar trocas de saberes e inquietações. A riqueza das inquietações geradas junto aos jovens nos serviços prestados e a parceria com os profissionais de instituições públicas de saúde mental têm propiciado um aprendizado onde a comunidade e a universidade se retro-alimentam nesse processo. Na perspectiva da atuação no campo da saúde mental considera-se que a complexidade dos fenômenos psicológicos, a sua multideterminação e a possibilidade de múltiplos níveis de descrição e intervenção demanda uma integração entre a contribuição de pesquisadores, profissionais e educadores. Essa integração entre teoria e prática exige, dentre outras, que o processo de formação seja capaz de articular esses dois domínios, seja com estudos e reflexão crítica, seja com intervenção apropriada. As repercussões da intervenção com os jovens do CAPSi possibilitaram ainda, na formação do estudante de Psicologia, uma troca de saberes com a equipe profissional e com os jovens e a inserção das extensionistas nas produções acadêmicas cuja interface privilegia a psicanálise e a saúde mental. Referências Bibliográficas BORSOI, P. (2008, junho). O objeto na saúde mental: a utilidade pública da psicanálise ou o uso possível do psicanalista. Latusa digital, ano V, nº 33,

6 MINISTÉRIO DA SAÚDE (2004). Saúde mental no SUS: os centros de atenção psicossocial. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília. FIGUEIREDO, A.C. (2005, novembro). Uma proposta da psicanálise para o trabalho em equipe na atenção psicossocial, MENTAL Revista de Saúde Mental e Subjetividade da UNIPAC, Barbacena, ano III, nº 5, MINAYO, M. C de S. (2000). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Rio de Janeiro: Vozes. SAGESSE, E. (2008). Oficinas terapêuticas e a reabilitação psicossocial de crianças e adolescentes. In: FIGUEIREDO, A. C.; COSTA, C. M. (orgs.). Oficinas terapêuticas em saúde mental: sujeito, produção e cidadania. (PP ). Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. GERHARDT, T.; LOPES, M.; ROESE, A; SOUZA, A. (2006). Diário de campo: construção e utilização em pesquisas científicas, Online Brazilian Journal of Nursing, Rio Grande do Sul, 5 (3). Disponível em: < Acesso em: 29 de jul

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