As crianças do amanhã. As crianças de 0 a 8 anos e o HIV. Notas temáticas na África vasta. Fortalecendo a família e o apoio comunitário

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1 Apoio à acção comunitária contra o SIDA em países em vias de desenvolvimento As crianças do amanhã Notas temáticas na África vasta As crianças de 0 a 8 anos e o HIV Fortalecendo a família e o apoio comunitário

2 AS CRIANÇAS DE 0 A 8 ANOS E O HIV Agradecimentos O que é a International HIV/AIDS Alliance? Fundada em 1993, a International HIV/AIDS Alliance (a Aliança) é uma parceria global de organizações de base comunitária que trabalha para apoiar a acção comunitária contra o SIDA. A nossa missão é reduzir a propagação do HIV e minimizar o impacto do SIDA. Até hoje, a Aliança já canalizou cerca de $140 milhões para mais de 40 países em vias de desenvolvimento e apoiou mais de 3000 projectos, chegando a algumas das comunidades mais pobres e vulneráveis com programas de prevenção do HIV, prestação de cuidados e apoio e proporcionando um melhor acesso a tratamento. Para mais informação acerca do trabalho da Alliance visite o nosso site em Copyright texto: International HIV/AIDS Alliance, 2006 Copyright ilustrações: Dandi Palmer, 2006 As informações e ilustrações desta publicação podem ser reproduzidas livremente, publicadas ou usadas de qualquer outra maneira sem permissão da International HIV/AIDS Alliance. Contudo, a International HIV/AIDS Alliance pede para ser citada como sendo a fonte da informação. Esta publicação foi possível graças às contribuições financeiras de Bernard van Leer Foundation e UNICEF. Contudo, as opiniões expressadas nesta publicação não reflectem necessariamente as suas políticas e visões. A Aliança gostaria de agradecer a todos aqueles que contribuiram para esta publicação, incluindo: Christoforos Mallouris, UNESCO, França; Cynthia Curtis, Alliance Nationale contre le SIDA en Côte d Ivoire (ANS-CI), Costa do Marfim; Faith Mmola, REPSSI, África do Sul; Geoff Foster, Zimbabué; Grace Njeru, Kenya AIDS NGOs Consortium (KANCO), Quénia; Jonathan Morgan, REPSSI, África do Sul; Mark Rabudi, KANCO, Quénia; Dr Ngagne Mbaye, Synergie pour l enfance, Senegal; Paul Roux, África do Sul; Robert Gass, UNICEF, Estados Unidos; Siobhan Crowley, WHO, Suíça; Stefan Germann, World Vision, África do Sul; Tapfuma Murove, World Vision, Quénia; Timothy Ahimbisibwe, Save the Children UK, Uganda; Tom Ellman, MSF, Reino Unido; Achiro Joyce Stella, Health Alert Ouganda (HAU), Uganda, Obutu Francis (HAU), Uganda, Ochora Michael (HAU), Uganda, Dr. George Openytho (HAU/Gulu Regional Referral Hospital), Uganda, Kertho Edmound, Save the Children in Uganda, Uganda; Clotaire Ouedraogo, AXIOS, Burkina Faso, Alimata Konaté, Initiative Privée et Communautaire (IPC), Burkina Faso, Konan Amenan Lucile, L Alliance Nationale contre le SIDA (ANS-CI), Costa do Marfim, Alioune Fall, Hope for the African Child Initiative (HACI), Senegal, Marie Cissé Thioye, Association d'assistance aux Enfants en Situation Difficile (AASED), Senegal, Léopold Gaston Boissy, Centre Hospitalier National Psychiatrique, (CHN), Senegal, Maty Diouf Sakho, Synergie pour l'enfance, Senegal, Charles Becker, Centre National de Recherche au Sénégal (CNRS), Senegal, Amadou Seck, UNICEF, Senegal, Ndeye Astou Diop Coulibaly, And Bokk Yakaar (ABOYA), Senegal, Doroteia J Balane, Associação Reencontro, Moçambique, Felismina Chiziane, Reencontro, Moçambique, Elvira de Jesus, Reencontro, Moçambique, Sonia Romão, UNICEF, Moçambique, Adriano Afonso Pelembe, Associação Tinhena, Moçambique, Filomena João, Alliance Moçambique, Clara Chinaca, Kubatsirana, Moçambique, Elisa Mazivila, MMAS, Moçambique, Conceição Valls, ASIDH, Centro de Saúde Polana Caniço, Moçambique, Ana Paula Ferreira, MMAS - DANS, Moçambique, Nelia Vera Taimo, consultora local, Moçambique, Ernest Maswera, HACI, Moçambique, Celso Mabunda, HACI, Moçambique, e ainda funcionários e consultores da Aliança Internacional contra o HIV/SIDA.

3 AS CRIANÇAS DE 0 A 8 ANOS E O HIV Índice Agradecimentos Introdução 02 SECÇÃO 1: Como atender às necessidades do desenvolvimento das crianças 03 infectadas e afectadas pelo HIV Questões 1 Porque é que as crianças pequenas precisam de atenção especial? 03 2 Porque é preciso ir de encontro às necessidades do 03 desenvolvimento das crianças? 3 Como é que o HIV afecta o desenvolvimento das crianças? 03 1 Promover a acção familiar e comunitária 05 2 Ajudar as crianças a aprender 08 3 Satisfazer as necessidades emocionais e sociais das crianças 09 4 Comunicar com as crianças e ajudá-las a enfrentar as 11 suas circunstâncias 5 Desenvolver resiliência 16 6 Promover a participação das crianças 17 SECÇÃO 2: Cuidados e tratamentos para as crianças 21 pequenas com HIV Questões 1 Como é que as crianças são infectadas pelo HIV? 21 2 Como se faz o diagnóstico do HIV nas crianças pequenas? 22 3 Como é que a infecção pelo HIV afecta a saúde das crianças? 22 4 O que se pode fazer para ajudar as crianças infectadas pelo HIV? 23 1 Promover o teste do HIV para todas as mulheres grávidas 24 2 Aconselhar as mães grávidas sobre a prevenção da 24 transmissão do HIV da mãe para a criança 3 Detectar a infecção do HIV o mais cedo possível 25 4 Promover o acesso ao tratamento e ajudar as crianças a 27 tomarem os medicamentos antiretrovirais 5 Ajudar as crianças a manterem-se saudáveis 32 6 Providenciar boa nutrição 36 7 Cuidar das doenças comuns 40 8 Providenciar cuidados e apoio para crianças que 42 estejam gravemente doentes ou próximo da morte 9 Ajudar os provedores de cuidados a enfrentar o medo 45 e as preocupações com a morte Conclusão 46 Referéncias 47 Fontes Bibliográficas 48 01

4 AS CRIANÇAS DE 0 A 8 ANOS E O HIV Introdução Esta brochura fornece conselhos práticos para ir ao encontro das necessidades do desenvolvimento das crianças afectadas pelo HIV, e para organizar os cuidados e tratamentos necessários para as crianças infectadas pelo HIV, com particular incidência nas crianças menores de 8 anos de idade. O objectivo da brochura é assistir as organizações locais e os provedores de serviços a reforçar o seu apoio às famílias e às comunidades que cuidam dessas crianças. A brochura é organizada da seguinte maneira: A Secção 1 descreve o impacto do HIV no desenvolvimento intelectual, emocional, psicológico e social das crianças e fornece sugestões sobre o que as organizações podem fazer para ajudar as famílias e comunidades a responder às necessidades de desenvolvimento dessas crianças. A Secção 2 descreve o impacto da infecção do HIV na saúde física das crianças e fornece sugestões às organizações para apoiarem as famílias e comunidades a providenciar bons cuidados e tratamentos às crianças infectadas pelo HIV. A preparação desta brochura foi liderada por um comité consultivo internacional e inclui comentários e estudos de casos fornecidos por organizações que trabalham com crianças vulneráveis em vários países africanos, assim como estudos de casos apresentados em encontros consultivos realizados no Quénia, Uganda, Senegal e Moçambique. Informações sobre os estudos de casos encontram-se na secção das referências. Estas e mais referências estão disponíveis no CD-Rom Orphans and Vulnerable Children Toolkit, e na internet, na página Esta brochura faz parte duma série de recursos práticos desenvolvidos pela International HIV/AIDS Alliance (Aliança Internacional contra o HIV/SIDA) sobre as crianças afectadas pelo HIV. Faz parte da colecção As crianças do Amanhã: Notas Temáticas na África Vasta, que abrange os seguintes sete tópicos: Educação Saúde e nutrição Apoio psicossocial Inclusão social, Reforço económico Apoio aos idosos provedores de cuidados Crianças pequenas e HIV 02

5 SECÇÃO 1 Como atender às necessidades do desenvolvimento das crianças infectadas e afectadas pelo HIV Questões Impacto do HIV no desenvolvimento das crianças Falta de atenção e estímulos. Pais doentes, avós idosos e irmãos mais velhos podem não ter tempo e energia suficiente para dar às crianças a atenção e os estímulos de que elas precisam. Falta de consistência dos provedores de cuidados e no ambiente familiar. Mudanças repentinas ou frequentes de provedores de cuidados e no ambiente doméstico podem afectar o desenvolvimento emocional e social das crianças. As crianças que são enviadas para viver com outros familiares perdem a sua casa e às vezes o contacto com seus irmãos, o que pode ser causa de grande perturbação. Falta de cuidados de boa qualidade. As crianças negligenciadas ou abusadas sofrem danos psicológicos e emocionais e não se desenvolvem bem do ponto de vista físico. Mesmo quando alimentadas adequadamente, crianças infelizes não se desenvolvem tão bem quanto as outras crianças. Falta de tempo e energia para as actividades normais da infância. Crianças que cuidam de pais doentes ou de irmãos mais novos, ou que têm HIV elas próprias, podem não ter o tempo ou a energia para actividades como brincar com seus amigos. O estigma e a discriminação limitam as oportunidades para actividades sociais e para a criança fazer e manter boas amizades. O sentirse só e isolado afecta a confiança, a auto-estima e as habilidades sociais das crianças. 1 PORQUE É QUE AS CRIANÇAS PEQUENAS PRECISAM DE ATENÇÃO ESPECIAL? As crianças desenvolvem-se mais rapidamente nos primeiros anos de vida. Esta fase é a mais importante para o seu desenvolvimento intelectual, emocional e social. Experiências negativas e positivas na primeira infância têm efeitos a longo prazo. Desenvolvimento intelectual Estímulos atenção na primeira infância são essenciais para ajudar as crianças a aprender sobre o mundo à sua volta, entender e usar as palavras e desenvolver a capacidade de tomar decisões e resolver problemas. Desenvolvimento emocional Amor, carinho e atenção constante por parte de um ou dois provedores de cuidados na primeira infância são essenciais para as crianças se sentirem seguras e felizes e para que elas se tornem capazes de desenvolver boas relações com outras pessoas durante seu crescimento. Desenvolvimento social Bons cuidados e oportunidades de brincar e tomar parte em actividades sociais na primeira infância são essenciais para ajudar as crianças mais novas a desenvolver habilidades sociais e habilidades de viver e trabalhar com outros membros da comunidade. 2 3 PORQUE É PRECISO IR DE ENCONTRO ÀS NECESSIDADES DO DESENVOLVIMENTO DAS CRIANÇAS? As necessidades intelectuais, emocionais e sociais das crianças são tão importantes quanto suas necessidades físicas. As crianças de idades diferentes enfrentam etapas de crescimento diferentes e têm necessidades de desenvolvimento diferentes. COMO É QUE O HIV AFECTA O DESENVOLVIMENTO DAS CRIANÇAS? O impacto do HIV nas famílias tem efeitos negativos no desenvolvimento intelectual, emocional e social das crianças. 03

6 SECÇÃO 1 Questões IDADES E FASES DE DESENVOLVIMENTO 0-1 ano consistência e continuidade Nesta fase as crianças aprendem sobre o mundo mediante os seus sentidos. Elas respondem às expressões dos rostos, às vozes e às cores vivas, descobrem suas próprias mãos e seus pés, sorriem, começam a entender e pronunciar algumas palavras, sentam-se, gatinham, ficam de pé e começam a explorar e brincar com objectos. Elas precisam de: Provedores de cuidados que cuidem delas de uma maneira sensível e que estejam atentos às suas necessidades físicas e psicológicas. Afeição física, como serem abraçadas e acarinhadas, para se sentirem seguras Conversas e contos Coisas para observar, tocar, ouvir e brincar Protecção física e ambientes que possam explorar com segurança. 1-3 anos encorajamento, entusiasmo e independência Nesta fase as crianças aprendem a andar e correr, a entender e falar algumas palavras, a comunicar suas ideias e a alimentarem-se. Elas tornam-se mais independentes, mas preferem ter à sua volta rostos familiares. Gostam de ajudar, conseguem resolver alguns problemas simples, gostam de desenvolver novas habilidades e orgulham-se de seus sucessos, mas ficam frustradas quando não conseguem fazer algo. Desenvolvem amizades e começam a simular, imitando o que acontece ao seu redor. As crianças podem sentir-se envergonhadas e duvidar de si próprias se forem criticadas pelos provedores de cuidados. Elas precisam de: Oportunidades de brincar com outras crianças e desenvolver sua independência Encorajamento e elogios 3-5 anos iniciativa e inspiração Nesta fase as crianças falam bastante, fazem perguntas, gostam de brincar com amigos, aprendem a compartilhar, zangam-se ou sentem-se culpadas se acreditam ter fracassado e tornam-se competitivas, especialmente com seus irmãos e amiguinhos. Elas tornam-se também mais aventureiras e começam a imitar os adultos. Estas crianças precisam de: Oportunidades de participar em actividades, explorar e escolher Ajuda para aprenderem a usar bem a linguagem, através de leituras, conversas e canções Ajuda para aprenderem a cuidarem de si próprias e controlarem seu comportamento Alguém que as escute e converse com elas. 6-8 anos curiosidade e aprendizagem Nesta fase as crianças demonstram um aumento de interesse pelo mundo, por pessoas, letras e números, tornam-se mais confiantes do ponto de vista físico, começam a assumir responsabilidades, brincam em grupo, desenvolvem relações de confiança com amigos e utilizam palavras para expressar seus sentimentos. Estas crianças precisam de: Apoio para desenvolverem habilidades adicionais nas áreas da linguagem, do pensamento e na área física Encorajamento com os trabalhos escolares Elogios quando conseguem fazer algo de novo e quando fazem algo bem. Oportunidades para aprenderem a colaborar com outros e praticarem auto controle, tomarem responsabilidades e cumprirem tarefas. 04

7 SECÇÃO 1 Quais os sinais que indicam que uma criança precisa de ajuda? Não brincar com outras crianças, não demonstrar interesse no que acontece ao seu redor Tristeza, medo, introversão, não falar Falar excessivamente, agressividade, hiperactividade, repetição constante da mesma actividade Chorar, irritar-se e zangar-se facilmente Sono agitado, alterações da micção (como fazer xixi na cama) Media in Education Trust. Esta secção descreve os princípios e as estratégias com eles relacionadas, que as organizações podem utilizar para apoiarem as comunidades e as famílias (nestas brochuras por família entende-se os pais e outros provedores de cuidados) a irem ao encontro das necessidades do desenvolvimento das crianças pequenas com HIV e das crianças pequenas afectadas pelo HIV. Princípios Promover a acção familiar e comunitária Ajudar as crianças a aprender Satisfazer as necessidades emocionais e sociais das crianças Comunicar com as crianças e ajudá-las a enfrentar as suas circunstâncias Desenvolver resiliência Promover a participação das crianças 1 PROMOVER A ACÇÃO FAMILIAR E COMUNITÁRIA Consciencializar as comunidades e as famílias As famílias e as comunidades precisam ter conhecimentos sobre o desenvolvimento das crianças e as necessidades especiais das crianças mais novas. Para isso é preciso: Promover o diálogo na comunidade e educar as famílias sobre as necessidades de desenvolvimento das crianças pequenas, e sobre o impacto do HIV no desenvolvimento das crianças. Trabalhar com as comunidades na identificação das crianças que precisam de ajuda, e de maneiras de ir ao encontro das suas necessidades de desenvolvimento, incluindo abordagens baseadas em métodos tradicionais de transmissão de conhecimentos e habilidades duma geração para outra. Encorajar os comités para Crianças Órfãs e Vulneráveis (COV) a considerar tanto as necessidades materiais como as necessidades de desenvolvimento intelectual, social e emocional das crianças infectadas e afectadas pelo HIV e a identificar as que precisam de ajuda. Encorajar as organizações comunitárias e religiosas a procurar satisfazer as necessidades das crianças mais novas através das suas actividades. 05

8 SECÇÃO 1 No Quénia, o projecto Speak for the Child (Fale pela Criança) pesquisou as crenças locais sobre os efeitos nas crianças de ter pais com HIV, sobre as razões dos problemas comportamentais das crianças e sobre os efeitos do luto e do pesar nas crianças. Os resultados foram utilizados para desenvolver intervenções comunitárias adequadas para apoiar as crianças afectadas. Training and Resources in Early Education (Formação e Recursos em Educação Infantil - TREE), uma ONG sul-africana, treina mulheres na avaliação das necessidades das crianças pequenas, no aconselhamento e na identificação de recursos para ajuda a nível da comunidade. TREE também encoraja as famílias a brincar com as crianças utilizando brinquedos e jogos tradicionais. Apoiar os provedores de cuidados As famílias (incluindo os avós e/ou irmãos mais velhos) são os principais provedores de cuidados para as crianças infectadas e afectadas pelo HIV. Apoiar esses provedores a cuidar devidamente das crianças é essencial. Seria recomendável: Identificar voluntários nas comunidades que ajudem as famílias a cuidar das crianças, especialmente para as famílias que enfrentam problemas de pobreza e doença. Encorajar os membros da comunidade a visitar as famílias afectadas para lhes oferecer apoio emocional e reduzir seu isolamento social. Estabelecer grupos de apoio para os que cuidam das crianças. Promover a organização de cuidados colectivos, como centros comunitários ou creches. Providenciar aconselhamento e formação sobre desenvolvimento infantil e maneiras correctas de cuidar das crianças. Em Moçambique, activistas da organização Reencontro utilizam desenhos e brincadeiras para identificar as necessidades psicossociais das crianças. A maneira como as crianças se expressam através dos desenhos e brincadeiras demonstra os problemas que elas têm e ajuda os activistas a encontrarem formas de ajudar a criança a superar as suas dificuldades. Em Moçambique, a ONG Dores Sem Fronteiras apoia o Centro de Reabilitação Infantil de Chokwe, situado na Cidade de Chokwe (CRIC), onde são oferecidas oportunidades de recreio e lazer, e de atendimento e reabilitação às crianças com diferentes tipos de dificuldades. As crianças são referidas ao CRIC pelo Centro de Saúde, pela escola ou pelos próprios pais. O centro conta com cinco educadores que receberam um treino básico para observar e fazer uma breve avaliação do desenvolvimento geral dessas crianças. 06 Figura 1: Encorajar os membros da comunidade a visitar as famílias afectadas

9 SECÇÃO 1 Os casos que precisam de atenção especial são encaminhados aos psicólogos clínicos, que fazem a supervisão regular dos educadores e treinam os pais. A mesma ONG oferece diversos cursos aos líderes comunitários, às OCBs, aos professores, e a voluntários e familiares no sentido de encorajar um melhor atendimento e cuidados às crianças em situação de maior vulnerabilidade no seio da família e de prevenir que mais crianças fiquem doentes (em particular com as doenças mais comuns naquela província: malária cerebral, epilepsia e HIV/SIDA). Compreendendo e Desafiando o Estigma do HIV é um kit prático, que inclui uma actividade que leva os adultos a considerar como suas atitudes e comportamento afectam a vida das crianças. A cada participante é entregue um papel com uma frase, e ele deve dizer se a afirmação é verdadeira ou falsa (exemplos incluem: as crianças podem tomar conta de si próprias, as crianças deveriam sempre fazer o que os adultos dizem, as crianças deveriam ser encorajadas a serem o mais independentes possível ), e justificar porque pensa assim. Isso gera uma discussão sobre a dependência das crianças em relação aos adultos e como algumas percepções sobre as crianças influenciam a maneira como os adultos as tratam, e por consequência influenciam o desenvolvimento das crianças. Kidd and Clay, Neste documento Aconselhamento significa o processo de ajudar a pessoa a processar as suas dificuldades, ouvindo-a e reflectindo juntos sobre a situação e as opções disponíveis e apoiando a pessoa a tomar as suas próprias decisões ( sem dar conselhos nem fazer julgamentos). Conselheiro é a pessoa que ajuda neste processo. Na Suazilândia, grupos de mulheres da organização Valley Charity fazem visitas semanais a famílias afectadas dando apoio espiritual e emocional principalmente, mas também contribuindo com alimentos e propinas escolares no caso de famílias mais necessitadas. O projecto Likhaya Lemphilo Lensha (Lares para crianças órfãs) tem sessões semanais de formação para as suas mães; estas sessões provaram tão úteis que outros provedores de cuidados pediram para serem incluídos periodicamente; este projecto realiza agora, duas vezes por ano, workshops abertos a outros provedores de cuidados, não só para formação em assuntos específicos e muito práticos, mas também para troca de experiências e encorajamento. Em Moçambique o Ministério da Mulher e Acção Social tem assistentes sociais que visitam as famílias afectadas e tentam, na medida possível, encaminhá-las para os serviços públicos apropriados. O facto de a família receber a visita de alguém que representa um organismo do Estado tem um impacto positivo, e fá-la sentir que alguém se interessa por ela. No Uganda, o programa domiciliário Mildmay s Jajja Home Children s Programme administra programas rurais de cuidados de dia e clubes de actividades para as crianças. Estes oferecem apoio psicossocial para crianças infectadas pelo HIV e seus provedores de cuidados, e trabalham com as comunidades locais para que sejam capazes de apoiar famílias chefiadas por crianças. (www.mildmay.org). A Speak for the Child organiza visitas domiciliárias de conselheiros treinados, forma grupos de apoio a provedores de cuidados e cria ligações entre as famílias e os grupos comunitários de apoio. Os encontros de apoio têm ajudado os provedores de cuidados a resolver problemas e a melhorar a maneira como cuidam das crianças. No Uganda, Action for Children (Acção pelas Crianças) organiza Grandmothers Action Support (Acção de Apoio às Avós), que desenvolve a capacidade das avós de cuidarem de crianças infectadas ou afectadas pelo HIV. Prolongar a vida dos pais e dos provedores de cuidados Prolongando a vida dos pais e provedores de cuidados prolongamos também o relacionamento entre criança e pais, um elemento importante no desenvolvimento da personalidade e maturidade da criança. A morte de um dos pais ou de uma pessoa próxima é a experiência mais traumática que pode ocorrer na vida de uma criança. Mesmo as crianças mais novas experimentam grande angústia durante a doença e a separação ou a morte de um dos pais 07

10 SECÇÃO 1 A Speak for the Child observou que as habilidades sociais das crianças melhoram quando estas começam a frequentar a pré-escola. As famílias explicaram que as crianças aprenderam a brincar e cooperar com outras crianças e a cumprimentar as visitas. A nutrição das crianças também melhorou porque as famílias tinham mais tempo para ir trabalhar nos campos e preparar as refeições. Em Moçambique, na Província de Gaza, com o apoio da Save the Children USA, os membros da comunidade organizaram uma escolinha para crianças pequenas. A escolinha oferece condições para as crianças brincarem e assegura que as crianças tenham pelo menos uma boa refeição por dia. Para isso, a comunidade contribui com produtos da machamba, como milho e amendoim. Na Zâmbia, um dos parceiros da Christian Aid, o Centro de Cuidados de Dia de Kondwa, oferece cuidados para crianças afectadas pelo HIV até aos sete anos de idade. Os serviços oferecidos incluem aconselhamento e apoio emocional para ajudar as crianças a fazer face à doença e à morte de seus pais, e a prepararem-se para a escola primária. 2 Conselhos práticos para as famílias incluem: Assegurar que as crianças tenham descanso suficiente e comida de boa qualidade (ver página 36 Providenciar boa nutrição), pois isso ajuda o seu cérebro a crescer e a desenvolver. Permitir que as crianças brinquem, pois isso favorece sua aprendizagem e o desenvolvimento das habilidades necessárias para resolver problemas. ou pessoa querida, seja qual for a doença. Portanto o acesso ao tratamento, particularmente para pais vivendo com HIV, não é somente a melhor maneira de reduzir o número de órfãos, mas também de assegurar uma vida familiar estável e de qualidade. AJUDAR AS CRIANÇAS A APRENDER Manter as crianças em boa saúde As crianças bem alimentadas e descansadas são mais saudáveis e aprendem melhor que crianças com fome, cansadas ou doentes. Providenciar bons cuidados no lar para as crianças doentes ou levá-las ao posto de saúde quando estiverem muito doentes (ver página 40 Cuidar das doenças comuns). Oferecer estímulos e atenção As crianças precisam de atenção e dum ambiente estimulante que as ajude a aprender. Sugestões práticas para as famílias incluem: Dedicar tempo à conversa, às histórias, às canções e às danças com as crianças. Apoiar artistas/artesãos locais na criação de brinquedos simples para as crianças ou organizar uma área para brincar na creche local ou na sede do centro aberto para as crianças. Promover o acesso aos cuidados pré-escolares A pré-escola e os centros abertos, ou de dia, podem beneficiar o desenvolvimento intelectual e social das crianças. Seria recomendável: Apoiar as famílias a matricular e enviar as crianças para a escolinha, se houver uma na comunidade. Ajudar a comunidade a estabelecer escolinhas ou centros abertos para as crianças e a recrutar professores ou voluntários comunitários. Encorajar as escolas primárias a oferecer serviços pré-escolares para as crianças pequenas. 08

11 SECÇÃO 1 A Speak for the Child notou que o apoio dos conselheiros comunitários ajuda os provedores de cuidados a mudarem a forma como cuidam das crianças. Visitas regulares ajudaram os provedores de cuidados a sentirem-se menos stressados, isolados e deprimidos. Uma abordagem virada para a solução conjunta de problemas ajuda os provedores de cuidados a sentirem-se mais confiantes e respeitados e tem impacto positivo na qualidade dos cuidados. Os provedores de cuidados explicaram que, com a ajuda dos conselheiros, eles pararam de bater nas crianças para as disciplinarem e passam agora mais tempo falando com os pequenos e respondendo às suas perguntas. Eles também passaram a dedicar mais tempo a escutar as crianças, e falam com elas com gentileza em vez de gritarem. No Uganda, a Health Alert notou que crianças infectadas pelo HIV que recebem amor e carinho dos adultos que cuidam delas são mais saudáveis e respondem melhor ao tratamento do HIV do que as que não têm amor e carinho. 3 SATISFAZER AS NECESSIDADES EMOCIONAIS E SOCIAIS DAS CRIANÇAS Dar amor e carinho às crianças Receber amor e carinho é muitas vezes mais importante para as crianças infectadas pelo HIV do que o conforto material. Seria recomendável: Explicar às famílias que amor e carinho ajudam as crianças a crescer e a recuperar-se quando doentes, assim como a desenvolver-se intelectual, emocional e socialmente. Tomar o género em consideração Em certos contextos culturais, o género de uma criança pode expô-la a riscos particulares, por exemplo, os meninos são frequentemente alvos de tráfico para trabalho na agricultura, ou podem acabar a pedir esmolas ou viver nas ruas. As meninas podem ser exploradas em trabalhos domésticos pesados, desistir da escola ou ficar expostas ao abuso sexual. Envolver as crianças nas actividades sociais As crianças infectadas ou afectadas pelo HIV precisam sentir que fazem parte de suas famílias e suas comunidades, fazem as mesmas coisas que as outras crianças de sua idade, e têm amigos. Tomar parte nas actividades sociais é essencial para o desenvolvimento emocional e social das crianças, pois isso ajuda a aprender mais sobre si próprias e a estabelecer relações com os outros. Brincar com outras crianças da mesma idade ajuda-as a aprender sobre cooperação, ter confiança e compartilhar, assim como a desenvolver habilidades sociais. Por isso, seria recomendável: Organizar actividades recreativas e desportivas para todas as crianças da comunidade. Aconselhar as famílias sobre maneiras de envolver crianças doentes nas actividades diárias para que se sintam incluídas na vida da família em vez de as deixarem sozinhas num quarto escuro. Encorajar outras crianças a envolver as crianças doentes, identificando jogos a que as crianças doentes possam assistir ou em que possam tomar parte. Oferecer oportunidades para que as crianças infectadas ou afectadas pelo HIV possam expressar seus sentimentos e trocar ideias com outras crianças na mesma situação. 09

12 SECÇÃO 1 Para promover atitudes de compaixão e carinho a nível da comunidade, uma ONG da Namíbia chamada CAFO encoraja os líderes religiosos a integrar em seus sermões histórias de crianças afectadas pelo HIV. A CAFO ajuda os líderes religiosos a seleccionar um assunto mensalmente, com leituras da Bíblia e exemplos tirados da vida real das crianças, e fornecidos pelos comités de apoio às crianças. Building Blocks Development Group. No manual Prático HIV positive: A book for caregivers (HIV Positivo: um livro para provedores de cuidados) encontra-se uma história que pode ser utilizada para estimular as crianças a pensar sobre assuntos como as atitudes da comunidade para com as pessoas com HIV, os sentimentos das outras pessoas e a possibilidade de escolher entre um comportamento caridoso ou um comportamento cruel. Nandi e seus amigos estavam brincando no parque. Buhle estava sentada sozinha. Nandi disse às suas amigas: Vamos convidar a Buhle para brincar connosco. Mas as suas amigas não queriam brincar com a Buhle. Uma delas respondeu: Não, ela é HIV positiva e vai nos dar SIDA. Tenho medo de brincar com ela. Assim, a Buhle foi deixada sozinha. No caminho da escola para casa a Nandi caiu e magoou-se no braço. A Buhle ia a passar perto e viu o que aconteceu. Ela perguntou: O que se passa? Posso te ajudar?. Ela ajudou a Nandi a chegar a casa e a mãe da Nandi ficou-lhe muito agradecida. A seguir, a mãe levou a Nandi para o posto de saúde, para verificar se havia lesões graves no braço. Durante a consulta a Nandi perguntou ao Médico sobre o HIV. No dia seguinte a Nandi e a Buhle andaram juntas a caminho da escola. As amigas da Nandi estavam chocadas. Elas Figura 2: Crianças alegres que brincam juntas No Zimbabué, os Clubes das Crianças organizam actividades desportivas e artísticas para ajudar as crianças a desenvolver relações com outras crianças nas mesmas faixas etárias. Além disso, os clubes envolvem a comunidade, para despertar a atenção para o papel da recreação no desenvolvimento emocional e social das crianças. Em Moçambique, a organização Kubatsirana promove retiros e passeios com as crianças para que possam estar em contacto com a natureza e brincar com outras crianças em situações semelhantes. Os activistas verificam que esta actividade tem um impacto positivo pois crianças que antes eram tristes tornam-se mais alegres e passam a expressar seus sentimentos com mais facilidade. Enfrentar o estigma e a discriminação As crianças infectadas pelo HIV e as crianças cujas famílias são afectadas pelo HIV muitas vezes são estigmatizadas e discriminadas. Isto limita as suas oportunidades de fazerem amizades e torna-as solitárias e tristes. Para enfrentar o estigma e a discriminação é recomendável: Discutir com os membros da comunidade por que razão e de que forma as crianças são estigmatizadas, e os efeitos que isso tem sobre as crianças. Treinar os trabalhadores comunitários para identificarem sinais de estigmatização no núcleo familiar e discutir o assunto com a família ou enviá-la para os serviços de aconselhamento e apoio. Encorajar os líderes comunitários e religiosos, professores e outros adultos a dar o bom exemplo e envolver as crianças infectadas e afectadas pelo HIV nos eventos comunitários, como cerimónias, festivais e actividades recreativas, como jogos e desportos. 10

13 SECÇÃO 1 disseram: O que estás a fazer na companhia dessa menina? Como podes ser amiga dela? Ela vai te fazer adoecer. A Nandi respondeu: A Buhle é uma boa amiga. Ela ajudou-me quando magoei o meu braço. Ser amigas não transmite SIDA. O médico já me explicou. Ele disse que não é possível transmitir SIDA comendo juntos, abraçando ou brincando juntos. Depois de contar a história, o facilitador pode perguntar às crianças como elas acham que a Buhle se sentia quando ninguém falava com ela e como as próprias crianças se sentiriam no lugar da Buhle. Poderá também perguntar o que será que o médico disse sobre ser amigos de alguém com HIV. No Zimbabué, como parte de seus serviços ao domicílio, o Island Hospice fornece aconselhamento e explora com a família as opções existentes para as crianças após a morte dos pais. As crianças participam em sessões de aconselhamento antes e depois da morte dos pais, e o serviço organiza também sessões regulares para grupos de crianças enlutadas. UNAIDS, No Quénia um projecto da World Vision treina os voluntários nas comunidades a facilitar grupos de terapia interpessoal, ou conversas comunitárias, com crianças afectadas pelo HIV. A abordagem leva em conta as práticas culturais locais e as crenças sobre o HIV, e promove a busca de soluções locais. Estas conversas comunitárias têm ajudado as crianças a se apoiarem mutuamente e melhorado a comunicação entre provedores de cuidados e crianças necessitadas. Building Blocks Development Group. Trabalhar com pais e professores para enfrentar a estigmatização e a discriminação pelas outras crianças, pois elas muitas vezes adquirem as atitudes negativas dos adultos. Envolver crianças na identificação de crianças excluídas e procurar em conjunto as razões da exclusão. Para o efeito, podem utilizar-se métodos criativos, como marionetas e teatro, que ajudem as crianças a entender as razões do estigma e da discriminação e a trabalharem conjuntamente para identificar formas de incluir as crianças doentes e afectadas. 4 COMUNICAR COM AS CRIANÇAS E AJUDÁ-LAS A ENFRENTAR AS SUAS CIRCUNSTÂNCIAS Providenciar aconselhamento para as crianças O aconselhamento pode ser extremamente útil para as crianças infectadas e afectadas pelo HIV. O aconselhamento de boa qualidade ajuda a criança a contar as suas histórias, a fazer escolhas, a identificar as suas habilidades, a desenvolver uma atitude positiva sobre a vida e a enfrentar os seus problemas. Pode também ajudá-la a lidar com medo e ansiedade sobre a sua doença ou doença e morte no âmbito familiar. Seria recomendável: Advogar a favor da criação de serviços de aconselhamento para crianças, incluindo o aconselhamento de crianças antes e depois da morte dos pais. Desenvolver a capacidade para o aconselhamento das crianças a nível local, através do treinamento de professores, líderes das igrejas e voluntários da comunidade Encorajar os programas para crianças órfãs e vulneráveis e os programas de cuidados domiciliários a treinarem voluntários no aconselhamento das crianças e a envolvê-las nas sessões de aconselhamento familiar. Reforçar as formas tradicionais de aconselhamento que já existem na comunidade e que não precisam de intervenção de profissionais e agentes externos. Promover abordagens como as de educação de pares e clubes que vão ao encontro das necessidades de todas as crianças nas comunidades afectadas pelo HIV. 11

14 SECÇÃO 1 Pontos a considerar ao falar com as crianças pequenas Escolha um lugar para conversar onde a criança se sinta à vontade e segura. Use palavras simples. As crianças pequenas precisam ser informadas que algo não está bem, mas não precisam de detalhes ou de informação específica sobre o HIV. Deixe que a criança absorva a informação aos poucos. Para começar poderia dizer-lhe que o pai ou a mãe não estão bem e deixar que a criança faça as suas perguntas. Depois fale sobre a gravidade da doença do pai ou da mãe num outro momento. Se uma criança não quiser falar, sugira que a conversa possa ocorrer numa outra altura, ou que a criança possa falar com outra pessoa. Deixe claro que ela não tem de conversar se não quiser. Escute e fale à criança quando a oportunidade se apresentar. Às vezes as crianças fazem perguntas quando estão executando uma tarefa com alguém, como por exemplo, buscar água. Preste atenção ao que a criança diz e encoraje-a a expressar-se à sua maneira. Responda às perguntas honestamente. Tente identificar com antecedência uma forma de lidar com perguntas difíceis. Não demonstre tensão ou aborrecimento caso a criança reaja duma forma inesperada, por exemplo, se parecer despreocupada com a notícia ou se demonstrar aborrecimento contra a pessoa doente. Assuntos a serem considerados no aconselhamento e na comunicação com crianças Nalguns casos, para além das sessões individuais com a criança, poderá ser necessário estabelecer contacto com um dos pais ou provedor de cuidados para o aconselhar sobre como melhor satisfazer as necessidades da criança. Ajude a criança a sentir-se segura e à vontade. Procure conhecer a criança, não somente os problemas que ela tem. Faça perguntas sobre suas actividades diárias e sobre o que ela gosta de fazer. Lembre-se que as crianças expressam seus sentimentos através de seu comportamento e não somente com suas palavras. Os conselheiros podem aprender muito através da observação da linguagem corporal, das expressões do rosto e das brincadeiras duma criança; as crianças muitas vezes representam seus sentimentos ou situações vividas quando brincam. Considere a idade da criança, sua forma de entender e seu estado emocional, e tente ver a situação do ponto de vista dela. Tenha consciência de que poderá necessitar de uma abordagem diferente para o aconselhamento e a comunicação com crianças com necessidades especiais, inclusive com as crianças que tenham dificuldades de aprendizagem, de vista e de audição. Aceite os sentimentos das crianças e deixe que elas se expressem como quiserem. Não tente apressar ou interromper. As crianças podem sentir vergonha e levar tempo para desenvolver confiança no conselheiro. Escute o que a criança tem a dizer, leve-a a sério e dê-lhe toda a atenção. Use métodos apropriados para as crianças mais novas. Brincar com bonecas, desenhar, fazer jogos, contar histórias e usar marionetas são maneiras eficazes de ajudar a criança a expressar seus sentimentos, por exemplo: - A criança pode identificar-se nas personagens duma história sem ter que se sentir exposta directamente. - Peça à criança para contar uma história, por exemplo sobre uma criança muito doente ou triste, porque pode ajudar a falar de como a própria criança se sente. - Use brinquedos como as marionetas para ajudar a explorar assuntos difíceis, pois a criança pode utilizar o brinquedo ou a marioneta para contar sua própria história. - Respeite as capacidades das crianças de resolverem os seus problemas. 12

15 SECÇÃO 1 Conversar com as crianças sobre doença e morte na família É importante falar com as crianças sobre as doenças que afectam a família. As crianças podem estar preocupadas que um dos pais esteja para morrer, porque já viram outros adultos na comunidade morrer com a mesma doença. Se um adulto estiver em tratamento antiretroviral, a sua situação deveria melhorar e será importante ajudar as crianças a enfrentarem seus medos e tranquilizá-las que seu pai ou sua mãe irá melhorar. Foi observado na prática que as crianças são capazes de ajudar os pais a lembrarem-se de tomar os seus medicamentos. É importante preparar as crianças e os adultos para a doença e a morte. Os adultos podem pensar que, não contando o que está acontecendo, estão a proteger a criança, mas mesmo crianças muito pequenas têm a capacidade de entender que algo estranho está ocorrendo. A falta de informação pode criar ansiedade e perturbação. Seria recomendável: Explicar aos pais porque é importante preparar as crianças com antecedência e responder às perguntas que elas colocam. Preparar as crianças antes das suas visitas a um pai ou mãe que esteja internado no hospital por doença grave ou perto da morte, pois a experiência pode ser chocante. Não se deve forçar a criança a permanecer no hospital se estiver angustiada. Porque preparar a criança para a morte de um dos pais? Falar com as crianças com antecedência ajuda-as a acostumarem-se à ideia e a enfrentar melhor a morte e o pesar. As crianças dão valor à oportunidade de fazer perguntas sobre como organizar suas vidas futuras e ouvir os últimos conselhos de seus pais. Ter a oportunidade de se despedir é muito importante. Trocar desejos e bênções pode evitar que mais tarde a criança se sinta culpada pela morte do pai ou da mãe. 13

16 SECÇÃO 1 Como é que as crianças reagem à morte dum dos pais? Reacções comuns incluem: Medo, confusão e insegurança (por exemplo, agarrar-se a algo ou alguém, medo de ir dormir, pesadelos, fazer xixi na cama). Tristeza, depressão e isolamento. Zanga, agressão e birras. Sentido de culpa (por exemplo, a criança sente-se culpada pela morte). Negociação e negação (por exemplo, Se eu for bom a mamã vai voltar ). Regressão (por exemplo, falar como um bebé ou esperar ser alimentada em vez de se alimentar sozinha). Sintomas físicos (por exemplo, sentirse doente). As reacções dependem da idade da criança: Até aos 6 meses de idade, os bebés agarram-se, choram, e podem recusar serem confortados por outras pessoas. As crianças de 6 meses a 3 anos apresentam sinais físicos, como problemas alimentares ou distúrbios do sono, regressão (por exemplo, parar de andar quando já o faziam), hábitos de conforto como chupar o dedo, chorar e se agarrar. Podem também ser demasiado tristes ou quietas. As crianças acima dos 3 anos demonstram o seu pesar através de sentimentos (por exemplo, sentido de culpa, medo), comportamentos (por exemplo, sendo agressivos ou malandros) e também fisicamente. Planear o futuro A preparação para a morte deveria incluir um plano para as crianças, pois as crianças muitas vezes preocupam-se sobre o que lhes vai acontecer após a morte de um dos pais. Seria recomendável: Ajudar os pais a preparar um livro ou uma caixa de memórias para as crianças. Encorajar os pais a identificar alguém que possa cuidar das crianças após a sua morte e envolvê-las na escolha de seus futuros tutores. Ajudar os pais a escrever os seus testamentos para que as crianças não percam a sua herança e indicando a quem as crianças vão ser confiadas. Aconselhar os pais a tratar de todos os documentos importantes de que as crianças possam vir a precisar, como as certidões de nascimento, o testamento e outros papéis legais, incluindo declarações das estruturas de bairro. As crianças deverão saber onde se encontram tais documentos e ter acesso aos mesmos. Sugestões práticas para as famílias incluem: 14

17 SECÇÃO 1 A capacidade das crianças de entender a morte também depende de sua idade e capacidade de compreensão: Crianças de idade inferior aos 2 anos não entendem o conceito de morte ou o que aconteceu. Crianças de 3-5 anos podem ter episódios breves, frequentes e intensos de pesar, embora nos intervalos entre estes momentos aparentem não terem sido afectadas. Elas podem não entender que a morte não tem volta e muitas vezes esperam o retorno do pai ou da mãe que faleceu. Elas podem repetir a mesma pergunta milhares de vezes. As crianças acima dos 5 anos de idade podem aceitar a ideia que um dos pais morreu e procurar uma forma de guardar a pessoa querida em sua memória (por exemplo, pensando que o pai ou a mãe estão no céu ou velando de longe pela criança). Caixas ou livros de memórias ajudam os pais a discutir a sua morte com as crianças e a preservar informações sobre a família e lembranças da infância. Os pais podem escrever as suas recordações mais queridas sobre a criança, desenhar a árvore genealógica, dar informações sobre os familiares, as tradições seguidas pela família e os acontecimentos importantes; podem escrever uma carta descrevendo seus desejos especiais e sentimentos pelos filhos e incluir fotografias ou desenhos que a criança fez. Preparar uma caixa ou um livro de recordações com uma criança estimula a criança a perguntar sobre seu passado e sobre os planos para o futuro. Estes instrumentos são especialmente valiosos para as crianças cujos pais morrem quando elas são ainda muito novas, pois fornecem informações sobre os pais de que elas não se poderão lembrar e ajudam-nas a ter um sentido de identidade. Em Moçambique, uma associação chamada Vukoxa, que trabalha no distrito do Chokwe com pessoas idosas, encoraja as famílias a terem um livro de memórias onde ficam registadas as principais tradições da família, como regras de casamento e de falecimento e os bens que a família dispõe e os últimos desejos dos pais. Nesta região é costume os homens irem trabalhar nas minas da África do Sul. Muitas vezes voltam doentes e a viúva e as crianças acabam por ver os seus bens espoliados pela família do marido. Os activistas e paralegais da Vukoxa têm verificado que, com a existência do livro de memórias, reduziram-se os casos de famílias que sofreram abusos por parte dos familiares do marido, e assim os direitos das crianças foram protegidos. Ajudar as crianças na perda dos pais ou outras pessoas queridas As familias precisam de saber que o sofrimento afecta as crianças, e como as ajudar. As crianças são afectadas pela doença e morte e podem sentir ansiedade, angústia e sofrimento. Sem ajuda, a doença e a morte dum dos pais podem causar problemas emocionais e comportamentais durante muito tempo. Falar com as crianças sobre a perda dum membro da família e explicar que os adultos na família também estão tristes, mas que vai ser preciso aceitar a realidade e buscar formas de aguentar a dor. Explicar que a morte ocorreu por causa duma doença e tranquilizar a criança assegurando que ela não tem nenhuma culpa do que aconteceu. Figura 3: Envolver as crianças nos rituais familiares, como plantar uma árvore em memória dum ente querido Manter uma rotina o mais normal possível, pois isso ajuda a criança a sentir-se mais segura. Tentar não transferir as crianças para um novo ambiente. 15

18 SECÇÃO 1 No Zimbabué, o Masiye Camp da Salvation Army (Exército da Salvação) organiza acampamentos para crianças afectadas menores de 5 anos e para seus provedores de cuidados. Usam actividades recreativas e teatro para ajudar as crianças a expressar seus sentimentos e desenvolver habilidades sociais. O aconselhamento, as discussões em grupo e o ensino (por ex., sobre os efeitos do abuso da criança, sobre viver positivamente com HIV, como cuidar de crianças doentes, como reforçar as habilidades de pai/mãe/tutor, e sobre como preparar um livro de memórias) ajudam os provedores de cuidados a entender as necessidades das crianças e fornecer cuidados e apoio apropriado para crianças infectadas pelo HIV (UNAIDS, 2001). Também no Zimbabué, a iniciativa Young People We Care (Somos Jovens Provedores de Cuidados) encoraja os jovens da comunidade a dar apoio prático e emocional às crianças pequenas, inclusive ajuda com os trabalhos escolares e com actividades recreativas. JSI UK Zimbabué. Assegurar que a criança se sinta segura e amada, cuidando dela, dando-lhe atenção e carinho duma forma constante. Envolver as crianças nas cerimónias familiares pois isso ajuda-as a sentir que não estão sozinhas no seu pesar mas não obrigar as crianças a tomar parte nos funerais se não quiserem ou se tiverem medo. As crianças poderiam ser encorajadas a terem sua própria cerimónia para o membro da família que morreu, ou a plantar uma árvore, ou a fazer um jardim em memória da pessoa. Quando tiverem de sair de casa por algum tempo, os adultos devem explicar às crianças aonde vão e o que vão fazer, e deixar as crianças com alguém que elas já conheçam bem. Aceitar as reacções e os comportamentos das crianças. Tentar ser paciente e não se aborrecer se uma criança não obedecer, fizer birras, fizer xixi na cama ou se comportar como um bebé. Confortar a criança quando ela for para a cama ou acordar no meio da noite. Deixar que a criança expresse seus sentimentos. Falar com ela sobre a perda e sobre a pessoa que morreu. Ajudar a criança a guardar recordações dos momentos felizes que passou com os pais. Responder a quaisquer perguntas que ela tenha sobre os pais falecidos. 5 DESENVOLVER RESILIÊNCIA Por resiliência entende-se a capacidade de enfrentar e superar as dificuldades da vida de forma a sair fortalecido pela experiência adquirida. Uma criança resiliente acredita que pode lidar com um O que torna uma criança resiliente? O que a criança tem Eu tenho a criança tem mais probabilidades de ser resiliente se tiver por perto pessoas que a amam e que estabeleçam limites para prevenir que a criança se ponha em perigo ou em situações problemáticas; que lhe dão o exemplo de bom comportamento, que a encorajam a tornar-se independente e a elogiam ao demonstrar iniciativa; e que a apoiam quando precisa de acesso aos serviços públicos e sociais. Quem a criança é Eu sou a criança tem mais probabilidades de ser resiliente se tiver um sentido de quem ela é, se sentir que os outros podem gostar dela e amá-la; se puder fazer algo para os outros; se se sentir orgulhosa de si mesma; se tomar responsabilidade por suas acções e se pensar que no futuro as coisas vão correr bem. O que a criança pode fazer Eu posso uma criança tem mais possibilidade de ser resiliente se puder conversar com os outros sobre suas preocupações e se puder resolver seus problemas; se controlar seus sentimentos, entender como os outros se sentem e estabelecer relações: e se encontrar alguém que a ajude quando ela precisar. 16

19 SECÇÃO 1 Na Tanzânia, a HUMULIZA treina ONGs e professores na identificação dos problemas e na comunicação com as crianças; também organiza o aconselhamento entre pares para permitir que as crianças compartilhem suas experiências e se apoiem mutuamente. Sessões semanais em grupo ajudam as crianças a sentir que não estão sozinhas com seus problemas e a enfrentar melhor seus sentimentos de isolamento. As sessões começam pedindo a cada criança que conte algo importante que lhe aconteceu durante a semana. São usados teatro e marionetas para ajudar as crianças a falarem de seus problemas. Jogos, canções e actividades são utilizados para desenvolver a autoestima. O Mothers Support Group (Grupo de Apoio das Mães) na Nigéria organiza clubes e acampamentos para as crianças. Nestes lugares seguros as crianças podem pensar nos seus problemas e elaborar soluções, com o apoio de adultos carinhosos. No Ruanda, a CARE International apoia a Nkundabana Initiative for Psychosocial Support (Iniciativa da Nkundabana para o Apoio Psicossocial), no treinamento de 600 tutores (Nkundabana) na tarefa de substitutos dos pais para 3000 famílias chefiadas por crianças. O seu objectivo é ir ao encontro das necessidades emocionais e psicossociais dessas crianças. Os tutores seleccionados a nível da comunidade devem ser aprovados pelas crianças. REPSSI. 6 acontecimento difícil porque tem algum poder sobre sua vida. Uma família carinhosa oferece o melhor ambiente para o desenvolvimento de resiliência na criança. O apoio emocional e social da família, das outras crianças e dos vizinhos é de importância vital para que a criança aprenda a lidar com as adversidades. Por isso, as organizações locais precisam trabalhar também com toda a comunidade no desenvolvimento da resiliência das crianças. Fazer um livro do herói, onde a criança escreve e faz desenhos e onde ela própria é a personagem principal, é um processo que tem por objectivo reforçar a resiliência da criança. A criança conta sua história com palavras e desenhos e, no papel de herói, é ajudada a sentir que ela própria tem algum controle dos problemas e dos desafios da sua vida. Porém, resolver problemas não é somente responsabilidade da criança e os livros de heróis salientam a necessidade de sensibilizar a comunidade no apoio às crianças. Morgan, Os projectos da CCATH (Child-Centred Approaches to HIV and AIDS) no Quénia e Uganda desenvolvem a resiliência das crianças através do desenvolvimento de suas capacidades de enfrentar as dificuldades, facilitando a comunicação entre pais e filhos, promovendo a elaboração de livros de memórias, estabelecendo clubes de crianças e apoiando crianças mais crescidas a dar apoio emocional às crianças mais novas. O manual prático HIV positive: A book for caregivers inclui jogos e actividades para desenvolver a autoconfiança das crianças. No Jogo de Roda, o facilitador pede que as crianças se sentem num círculo e a seguir que cada criança diga algo de bom sobre si própria. A seguir, as crianças devem dizer algo de bom sobre a criança ao seu lado. Isto leva a uma discussão sobre o facto de que cada pessoa tem potenciais e qualidades, todas são diferentes, mas todas são igualmente valiosas. Media in Education Trust. PROMOVER A PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS Por muito nova que seja a criança, é importante descobrir o que ela pensa e o que é importante para ela, antes de se decidir como a ajudar. Somente a própria criança pode descrever sua situação e dizer como se sente. A participação das crianças poderá não só assegurar que as actividades sejam apropriadas às suas necessidades, mas também melhorar o seu bem-estar psicossocial e desenvolver a sua resiliência. 17

20 SECÇÃO 1 Porque é importante a participação das crianças? A participação envolve as crianças na tomada de decisões sobre assuntos que as afectam. Participação significa trabalhar com as crianças em vez de trabalhar para elas. A participação reconhece os conhecimentos e as habilidades das crianças e constrói a partir dessa base. A participação desenvolve as habilidades e a confiança das crianças. A participação ajuda as crianças a aprenderem sobre cooperação e responsabilidade social. A participação ajuda as crianças a obterem apoio de seus pares. Para trabalhar com crianças é preciso: Aprender a escutar as crianças, dar tempo para as conhecer e ganhar sua confiança. Utilizar actividades divertidas, fazer vários tipos de jogos para as envolver. Descobrir o que é importante para as crianças em vez de impor o plano dos adultos. Assegurar-se que a criança saiba o que o envolvimento dela significa. Ser realístico sobre a quantidade de tempo que a criança tem para participar. Proteger a confidencialidade das crianças infectadas pelo HIV. Estimular as crianças a participarem em grupos de apoio de pares como os clubes. No Malawi, o programa STEPS efectuou uma pesquisa que indica que as crianças pequenas infectadas e as crianças afectadas pelo HIV tinham ideias muito claras sobre quem elas preferiam que cuidasse delas após a morte dum dos pais. As mesmas crianças queriam fazer novas amizades e conviver com outras crianças, mas não tinham oportunidades para o fazer e achavam que os adultos não entendiam a importância da amizade entre crianças. As ferramentas participativas utilizadas pela CCATH para investigar a situação das crianças incluem: Mapas de comunicação as crianças desenham-se a si próprias e desenham as pessoas importantes nas suas vidas. Dependendo do grau de importância de cada pessoa, a criança pode desenhar até três linhas de ligação entre si própria e a pessoa, e explicar quais são os assuntos de conversa com esta pessoa. Este jogo permite identificar as relações significativas das crianças, quem lhes dá apoio e a quem elas apoiam. O rio da vida as crianças desenham um rio e dentro dele suas vidas, desde o nascimento até cinco anos no futuro. O rio corre para cima quando as coisas correm bem e para baixo em tempos de dificuldade. Isto fornece indicações sobre os problemas das crianças. Feliz e triste as crianças desenham o que as torna felizes e o que as entristece. Isso fornece indicações quanto ao ambiente social da criança, inclusive sobre a exclusão das crianças afectadas ou positivas, e sobre os comportamentos dos adultos para com as crianças. Árvore da vida as crianças desenham uma árvore que representa vários aspectos de suas vidas: terra lugar de origem; raízes antepassados, informação sobre antecedentes culturais ou étnicos; tronco pessoas, lugares e acontecimentos que influenciaram suas vidas quando mais novas; ramos pessoas, lugares e acontecimentos que influenciam actualmente as suas vidas; frutas o que torna suas vidas bonitas presentemente; insectos/pragas problemas e desafios; folhas no chão perdas e dificuldades em suas vidas. Isto ajuda as crianças a entenderem-se a si próprias e a entenderem mais especificamente suas forças e fraquezas. 18

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