PERIÓDICOS E HIV/AIDS: REDISCUSSÃO NO TEMPO PRESENTE Cláudio José Piotrovski Dias (Professor Secretaria de Estado da Educação - Paraná)

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1 PERIÓDICOS E HIV/AIDS: REDISCUSSÃO NO TEMPO PRESENTE Cláudio José Piotrovski Dias (Professor Secretaria de Estado da Educação - Paraná) Palavras-chave: AIDS; periódicos; História do Tempo Presente Introdução, questões e hipóteses Este artigo versa sobre a temática HIV/ AIDS, imprensa escrita e história. Nele, analisamos algumas reportagens publicadas entre 1983 e a atualidade pelas revistas semanais brasileiras Veja e Isto É, sobre dois aspectos cruciais daquela doença, a saber: a configuração de seu perfil epidemiológico e de seu caráter letal. As seguintes perguntas nos norteiam: como aqueles veículos da imprensa escrita nacional caracterizaram os diversos tipos de indivíduos que se tornavam soropositivos? Como e o que aqueles periódicos discursaram sobre a altíssima letalidade apresentada pela doença ao longo do tempo? Para responder às questões arroladas acima, tomaremos como ponto de partida as considerações de William Vicente da Silva Darde (2006), Antônio Fausto Neto (2000) e Claudine Herzlich e Janine Pierret (2005) para quem os jornalistas engendraram suas narrativas sobre AIDS a partir do diálogo com discursos de outros campos sociais. O primeiro deles foi o científico. Sobre isso, demonstraram Herzlich e Pierret (2005, p. 72), que a AIDS talvez tenha sido a única doença na história construída simultaneamente por médicos, cientistas e jornalistas. Contudo, este saber não esteve isento de contradições, e na pesquisa sobre a AIDS os próprios cientistas agiram sem certeza, sofreram com hipóteses não confirmadas, se desgastaram em discussões com inúmeros pontos de vista, que criavam mais dúvidas do que propriamente significaram respostas para a doença, como demonstrou pioneiramente Kenneth Camargo Júnior (1994). De fato, estas incertezas científicas são comuns, e um caso exemplar refere-se à Doença de Chagas (KROPF, 2005). As celeumas sobre a AIDS foram dimensionadas porque sobre ela existiram afirmações, teorias e indagações atreladas a outros campos sociais. Assim, atravessaram

2 o discurso jornalístico acerca da doença enunciados religiosos, governamentais, dos próprios soropositivos, todos trazendo em seu bojo posicionamentos peculiares. Desta forma, para citar novamente Herzlich e Pierret (2005, p. 80), foi entre 1983 e 1984 que se construiu o fenômeno social da AIDS. Se antes, entre 1981 e 1983 o que tinha-se em mãos era somente um mistério médico (HERZLICH; PIERRET, 2005, p ), nos dois anos subseqüentes o número de indivíduos, de diferentes campos sociais dispostos a falar sobre AIDS se multiplicou. Foi o momento em que assistimos (...) à 'construção do fenômeno social da AIDS', que se elabora em vários planos: científico, econômicos, e, enfim, moral e cultural ( HERZLICH; PIERRET, 2005, p. 80). Sendo assim, acreditamos que a cobertura jornalística sobre perfil epidemiológico e letalidade da AIDS foi apresentada nos dois periódicos apontados de maneira contraditória e conflitante, porque esteve estruturada no diálogo com diversas vozes que quando confrontadas apresentaram também discordâncias, dúvidas. Além disso, se forem percebidos diacronicamente os textos selecionados, será possível perceber uma não linearidade na narrativa. Queremos dizer com isso que informações apresentadas como irrefutáveis poderiam se tornar obsoletas em edições ulteriores ou depois retomadas e re-significadas, num movimento quase infinito. Por fim, estas diversas versões podem ser percebidas também sincronicamente, em uma mesma edição. Mas estas questões e hipóteses assim colocadas, parecem destituídas de sentido. Tornam-se compreensíveis somente quando ligados aos argumentos de autores que já pesquisaram sobre a temática AIDS e imprensa escrita, dos quais, aliás, discordamos. Em uma linha argumentativa, se situam autores como França (2002), Carvalho (2009), Fausto Neto (1999), Moraes e Carrara (1985a; 1985b), Costa Marques (2002), Vitiello (2009), Nascimento (2005), Jane Galvão (1992, 2000), Bessa (2002), Simões (2005), Lima Soares (2001). Estes pesquisadores incorrem, a nosso ver, no julgamento dos profissionais da imprensa escrita que trabalharam sobre HIV/ AIDS e, implicitamente, os condenam. Isto porque teriam, supostamente, delineado um discurso com estrutura maniqueísta, aonde se apresentam histórias com vítimas (mormente crianças, mulheres, receptores de sangue) vilões (gays, usuários de drogas, prostitutas) e

3 heróis (médicos e cientistas). Não bastasse isso, teriam também os profissionais da imprensa escrita disseminado o pânico e a discriminação do soropositivo, pois teriam sido o baluarte do discurso sobre morte certa/ morte social, ao veicular soropositivos afirmando a própria morte em leitos de hospitais, definhando. Alguns outros poucos pesquisadores como Biancarelli (1997) e Simões (1997), sustentaram que a imprensa escrita desenvolveu uma história linear da AIDS e de seus pacientes. De concepções discriminatórias e que suscitavam o medo, construída na década de oitenta, passou-se, assim que chegou a década seguinte, a narrativas despojadas de qualquer tipo de negação ou pânico. Teria a imprensa, numa expressão sintomática desenvolvida por Aureliano Biancarelli, aprendido a escrever sobre a doença. Aqui existe também uma espécie de maniqueísmo, mas deste feita horizontal: em uma época foi-se mal; em outra tornou-se bom. Análise a partir de alguns exemplos Exploremos então, algumas reportagens de Veja e Isto É. Quando surgiu, em 1981, a AIDS era vista como uma Peste gay, isto é, uma doença própria e muito comum entre homossexuais masculinos (NASCIMENTO, 2005, p ). Mediante o aparecimento dos primeiros casos brasileiros de AIDS, Veja publicou reportagem em que afirmava, a partir de estatísticas norte-americanas, que Essa preferência em relação às vítimas levou inicialmente à suposição de que se tratava de uma doença exclusiva de homossexuais (VEJA, 1983, p. 74). Contudo, no encerramento do texto é evidenciado em diálogo com Darcy Penteado, classificado como um dos porta vozes da comunidade gay no Brasil, que qualquer tipo de culpabilização direcionada aos gays era injusta, pois qualquer tipo tipo de estigma pode também correr o risco de errar o alvo: afinal, já se mostrou que a doença ataca também os heterossexuais (VEJA, 1983, p. 79). Essa reportagem não vêm assinada, dando a entender, preliminarmente, que é um posicionamento conflitante da própria revista. Mas em 1990, o conhecido jornalista Élio Gaspari assinou reportagem intitulada A falsa epidemia. Numa rigorosa investigação o americano Fumento destrói o mito da AIDS entre heterossexuais (VEJA, 1990, p. 52). Para o cientista americano, o que existia nos Estados Unidos era

4 uma tentativa, por parte do governo, de amedrontar a população. As estatísticas, ao contrário, mostravam que o HIV retrovírus causador da AIDS estava restrito aos chamados grupos de risco, grupos em que a possibilidade de contrair a síndrome era maior do que o restante da população (NASCIMENTO, 2005, p. 83). No caso da AIDS eram os homossexuais, os usuários de drogas injetáveis, os receptores de sangue e os haitianos (VEJA, 1990, p. 52). Este tom volta a mudar, relativamente, Vale lembrar que desde finais da década de oitenta a percepção de que a síndrome atingia também heterossexuais estava na pauta do dia (TRONCA, 2000, p. 147). Assim, em O ídolo marcado (VEJA, 13 de nov. 1991, p. 36), a revista apresentou a entrevistada concedida por Magic Johnson, jogador norte-americano de basquete. Johnson seria a primeira pessoa famosa fora dos grupos de risco a afirmar ser portador de HIV. Mais do que isso, Jonhson sustentou na reportagem Soco no estômago categoricamente que contraiu o retrovírus em uma relação heterossexual (VEJA, 13 de nov. 1991, p. 39). Mas em Dias de aflição, os repórteres de Veja fazem questão de discordar do Médico Michael Merson, à época Diretor do Programa de AIDS da OMS. Merson afirmava que 75% dos portadores de HIV eram heterossexuais (VEJA, 27 de nov. 1991, p. 62). Para Veja, isso era argumento falacioso, pois contabilizava também casos da doença entre africanos, aonde as cifras eram muito maiores, senão exclusivas, de casos entre heterossexuais (VEJA, 27 de nov. 1991, p. 62). No Brasil ao contrário, diziam, boa parte dos indivíduos ceifados pela doença são ainda os homossexuais e os viciados em drogas injetáveis (VEJA, 27 de nov. 1991, p. 62). Interessante perceber que a revista Isto É, em publicações do mesmo período e sobre os mesmos temas, parece acatar com maior facilidade a argumentação de que a AIDS é também uma doença que pode atingir qualquer pessoa, independente de qualquer aspecto. Desta feita, em O sexo inseguro, a revista não adota o tom de defesa que pode ser percebido em Veja : através de gráfico, mostra a diminuição de casos de AIDS entre bissexuais e homossexuais, e o aumento célere entre heterossexuais (ISTO É, 20 nov p. 51). As frases também são contundentes: Previsível, anunciada, mas deixada de lado até que o mundo se comovesse com o drama de Johnson, a queda desse mito agora

5 ganha destaque, passando a ser um tema de interesse geral ( ) (ISTO É, 20 de nov. 1991, p. 51). Para o Brasil, a reportagem de Isto É afirma que existe um número acentuado de casos de AIDS entre heterossexuais, mas computa isso a insistência de campanhas de prevenção somente destinadas aos grupos de risco (ISTO É, 20 de nov. p. 52). Ainda sobre o perfil epidemiológico e sua construção contraditória pelas revistas que venho acompanhado, importante destacar as discussões sobre a transmissão feminina do vírus HIV. No final de 1994 Isto É publicou a impactante matéria de capa: Mulher e AIDS. Eu Valéria Lewis, 29 anos, soropositiva, contaminei meu namorado (ISTO É, 07 de dez. 1994, capa). Como a própria chamada indica, aqui a mulher é entendida como potencial contaminante. Os jornalistas dialogaram nesta reportagem com o cancerologista Dráuzio Varella, que afirmou: Estamos entrando na terceira onda da Aids. A primeira se caracterizou pela incidência entre os grupos de risco. Na segunda, homens infectaram mulheres. Agora, essas portadoras que já são milhares passarão o vírus novamente adiante (...) A doença se tornará cada vez mais heterossexual (ISTO É, 07 de dez. 1994, p. 40) Veja, quatro anos após também publicou uma matéria de capa, e também impactante: Peguei Aids do meu marido. Histórias dramáticas de mulheres que foram contaminadas pelos homens em que confiavam cegamente.a reportagem, que começava com o título Dormindo com o inimigo, já indica implicitamente que aqui a mulher será tratada como aquela que somente contrai o vírus. De fato, o texto reitera diversas afirmações científicas, como o fato da mulher ter muito mais chance de contrair o HIV de um homem infectado, do que o reverso, isto é, um homem a partir de um relacionamento com uma soropositiva; o fato da vagina esconder possíveis ferimentos, que facilitam a entrada do vírus no corpo, diferente do que ocorre no órgão sexual masculino, quando um ferimento é facilmente identificado e portanto, a prevenção pode ser mais efetiva; afirma também que o esperma possui uma concentração maior do que as secreções vaginais; além disso, é reiterada a idéia de que homens bissexuais escondem suas aventuras sexuais das parceiras, se contaminando a partir do contato com indivíduos dos grupos de risco embora em 1998 já não se falasse mais nestes

6 termos, já que existia a percepção de que a AIDS poderia atingir a população indiscriminadamente e repassando a doença para suas esposas. Quanto à letalidade da AIDS, podemos evidenciar um processo semelhante a este referente à construção do perfil epidemiológico. Se indicarmos um tempo próximo ao que vivemos atualmente, veremos um grande otimismo com relação ao controle e até mesmo a cura dos pacientes da síndrome. Em 20 de julho de 2012, Isto É publicou reportagem com um sugestivo título: Golpe certeiro contra a AIDS. A liberação da venda do primeiro remédio para prevenir a infecção pelo HIV abre uma nova fronteira para frear a expansão da epidemia (ISTO É, 20 de jul. 2012). O Truvada nome comercial da droga protegia contra a infecção por HIV, segundo pesquisas, entre 43 e 73% (ISTO É, 20 de jul. 2012). Este mesmo otimismo havia sido demonstrado com relação ao AZT, medicamento antes utilizado como terapia para portadores de tipos de câncer. Em 24 de setembro de 1986 Veja anunciava os satisfatórios testes feitos com 240 pessoas, nos Estados Unidos. Dois grupos foram formados. Um deles recebeu o AZT, o outro, placebo. Os indivíduos que tomaram realmente a droga exibiram significativa melhora, ganhando peso além de ter seu sistema imunológico parcialmente recomposto. Mesmo assim, questionava-se o tempo que a droga faria efeito, além de saber que não eliminava o vírus e seu uso poderia desembocar em sérios efeitos colaterais (VEJA, 24 set p. 115). De fato, quatro meses depois, a mesma Revista já se mostrava mais rigorosa em relação à Azitudimidina, afirmando que ela somente era eficaz para tratar a pneumonia causada por Pneumocistys Carinii, ou seja, era profícua apenas contra uma infecção oportunista, ao invés de agir na destruição do HIV (VEJA, 28 de jan. 1987, p. 58). Além disso, em março, anunciava que em estágios avançados da AIDS, o AZT não surtia efeito algum (VEJA, 25 mar. 1987, p ). Neste momento, bom que se diga, já existiam outros inúmeros medicamentos sendo testados no tratamento de portadores do HIV. Das drogas apresentadas na IV Conferência Internacional de AIDS, a que teve maior longevidade foi a DDC, que tinha semelhança química com o AZT, e reforçava o sistema imunológico, mas somente em estágios iniciais da síndrome. (VEJA, 10 de jun p ).

7 Mas é interessante perceber a retomada do otimismo. Em 1991 Veja celebrou que o Governo Federal dava sua maior contribuição para o tratamento da Aids no país, pois iniciou a distribuição gratuita de frascos do AZT única droga disponível no mercado nacional que atenua os sintomas da AIDS (VEJA, 13 de nov. 1991, p. 41). A história da AIDS, tal como relatada pelas revistas, já não era mais a mesma. Desde o começo da década de noventa, Isto é e Veja insistiam em afirmar que a doença estava em vias de se tornar tratável. André Lomar, Diretor Científico do Hospital Emílio Ribas na década de 90, disse que ela [A AIDS] poderá ser encarada como a diabetes, que não tem cura, mas tem controle. O doente toma sistematicamente a insulina e vive bem (ISTO É, 22 de mar. 1995, p. 71). O desfecho final para tornar a AIDS controlável ocorreu nos anos de 1995 e 1996, com a utilização de remédios chamados inibidores de protease, sendo o primeiro chamado Indinavir, ou MK Estes remédios eram uma grande novidade, pois, assim como AZT, DDC e DDI, não permitia a replicação do vírus; mas desta feita, agia em outro estágio, quando este já estava maduro. Isto É explicou duas fases de ação do agente etiológico da AIDS quando dentro das células. Trata-se de um ciclo: primeiro o HIV se duplica com a ajuda da enzima transcriptase reversa, mas neste processo perde uma membrana que o envolve. Outra enzima, a protease é a responsável por recobrir o vírus, que, assim, continua sua multiplicação. Os remédios mais antigos, como os primeiros destacados acima, agiam no primeiro estágio. Como o vírus é mutante, cedo ou tarde ele conseguia passar para a fase seguinte, o que trazia sérios problemas. Pode se dizer que quando o vírus conseguia isto, as esperanças se tornavam nulas, e o paciente faleceria rapidamente. Mas é justamente aqui que o Indinavir age, inibindo a ação da protease, e por extensão, a replicação do agente causador da AIDS (ISTO É, 13 de set. 1995, p. 54). As pesquisas divulgadas deixavam cientistas e soropositivas eufóricos. Experimentada em 380 soropositivos brasileiros, percebeu-se que alguns eliminavam cerca de 99% do montante viral que continham no sangue. Ademais, elevava o número de células defensoras, as CD-4, em até 50, o que significava uma melhora substancial (ISTO É, 13 de set. 1995, p. 54). Mesmo assim, Veja alertava que ainda é cedo para dizer que o MK-639 é uma droga eficaz ao longo do tempo. O remédio pode estar

8 passando pelo que os infectologistas chamam de lua-de-mel : um período em que o HIV ainda não criou resistência aos seus efeitos (VEJA, 13 de set. 1995, p. 53). Enfim, no começo de 1996 surgiu a chamada terapia tríplice, a combinação de três medicamentos que barravam o avanço do vírus HIV no corpo do paciente. Anunciava Isto É a existência de 14 drogas e 56 combinações possíveis para barrar o avanço do HIV. Dentre os inibidores de transcriptase reversa, mostrava o AZT, DDI, DDC e os novos DT-4 e 3-TC. Já os inibidores de protease contavam com Invirase, Indinavir, Ritonavir e Viracept. Com tantas drogas a disposição, primeiro escolhiam-se três, duas do primeiro grupo e uma do outro. Geralmente a combinação era Indinavir, AZT e 3-TC (VITÓRIA, 14 de fev. 1996, p ). E com as inúmeras combinações que poderiam ser feitas, pela primeira vez conseguiu-se vencer o HIV em sua face mais nefasta, a mutação e resistência. Mas o cenário se tornou cinzento, como sugere uma reportagem de Veja, datada de Os jornalistas reproduziram falas de David Ho, cientista que anunciou ao mundo a terapia tríplice em O cientista norte-americano afirmava que, a despeito das benesses da terapia, não sabia quanto tempo seus efeitos podiam durar, principalmente por conta da toxidade dos medicamentos e também da resistência que o sistema imunológico dos pacientes adquiriam (VEJA, 22 de out. 1997, p. 100). Na verdade, meses após o anúncio da terapia tríplice, Veja publicava Os limites práticos da esperança (IMANISHI-ROGGE; PEREIRA, 6 de nov. 1996, p ). O grande problema destacado no texto eram, de fato, os efeitos colaterais fortíssimos causados pelos comprimidos, que levavam a não adesão ao tratamento. Na reportagem, diversos portadores de HIV relatam que abandonaram o uso dos remédios ( IMANISHI- ROGGE; PEREIRA, 6 de nov. 1996, p ). Também Isto É, por meio do jornalista Francisco Alves Filho, publicou a reportagem O perigo ainda existe. No texto, afirma-se que mesmo diminuindo a quase 0% o nível de HIV no sangue, os pacientes de AIDS não poderiam dispensar cuidados em relações sexuais, visto que continuariam transmitindo o HIV pelo sêmen que apresentava quantidades mínimas do agente causador da síndrome (ISTO É, 12 de jul. 2000). Considerações Finais

9 Esperamos ter mostrado que as narrativas jornalísticas de Veja e Isto É sobre a letalidade da AIDS e seu perfil epidemiológico, foram construídos a partir de incertezas, dúvidas, e que isso marcou um movimento de idas e vindas na construção de suas reportagens acerca daqueles dois quesitos da síndrome. De fato, cremos ter demonstrado que este aspecto conflituoso se deu por conta das inúmeras vozes que atravessaram as reportagens. No caso em questão foram cientistas, médicos, soropositivos, lideranças de movimentos gay, políticos, etc. É importante também destacar outro aspecto. Este movimento de fluxo e refluxo temporal que evidenciamos ainda ocorre. Isso é perceptível em um novo retorno do otimismo em reportagens publicadas recentemente, em 2015, que afirmam a possibilidade de cura para milhões de pessoas portadoras de HIV, como foi o caso de Novo tratamento avança no caminho rumo à cura da AIDS (VEJA SAÚDE, 09 de abr. 2015), ou então da impactante matéria de capa A cura da AIDS, publicada pela revista mensal Superinteressante (ago. 2013), que não analisamos neste artigo. Cumpre então sempre lembrar dos importantes pressupostos que devem ser observados pelo historiador do tempo presente. Como sugere Jean-Pierre Rioux (1999, p ), é o historiador (do presente ou não) que cria mecanismos que o mantém longe de análises apaixonadas, que congela o objeto de pesquisa para poder testar suas hipóteses, questionando-o. Além do mais, analisar o tempo que se vive tem suas vantagens: pode tornar mais clara a análise, pelo compartilhamento de categorias intelectuais entre historiador e sujeitos da análise (MORAES FERREIRA, 2000, p. 121) e sempre colocar o presente em suspenso, questionando o que parece cristalizado (REMOND, 2006, p. 209). Referência Bibliográfica BESSA, Marcelo Secron. Os perigosos. Autobiografia e AIDS. Rio de Janeiro: Aeroplano, p. BIANCARELLI, Aureliano. Doença em foco: as reportagens sobre AIDS publicadas pela Folha de São Paulo. Revista USP, São Paulo, s.v, n. 33, p , mar-maio CAMARGO JÚNIOR, Keneth Rochel: As ciências da AIDS e a AIDS das ciências. O discurso médico e a construção da AIDS. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/ ABIA/ IMS

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13 PEGUEI AIDS DO MEU MARIDO. Histórias dramáticas de mulheres que foram contaminadas pelos homens em que confiavam cegamente. Veja, São Paulo, Editora Abril, s.v, n. 1570, Capa, 28 de out SINAL DE ALÍVIO. AZT: um novo sucesso na rota da AIDS. Veja, São Paulo, Editora Abril, s.v, n. 942, 24 set p SOCO NO ESTÔMAGO. Portador do vírus da Aids, a estrela do basquete Magic Johnson enfrenta a situação com coragem e vira um símbolo da luta contra a doença. Veja, São Paulo, Editora Abril, s.v, n. 1208, p , 13 de nov VIDALE, Giulia. Novo tratamento avança no caminho rumo à cura da Aids. Pesquisa liderada por por cientistas brasileiros é uma das promessas de tratamento, prevenção e cura contra o HIV. Veja Saúde [on line], São Paulo, Editora Abril, 09 de abr Disponível em <http://veja.abril.com.br/noticia/saude/novo-tratamento-avanca-nocaminho-rumo-a-cura-da-aids/> Acesso em 01 de jun VITÓRIA, Gisele. Coragem de um campeão. Magic Johnson prova que, com a medicação adequada, a vida com HIV pode ser intensa. Isto É, São Paulo, Editora Três,

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