A AIDS E A ESCOLA nem indiferença nem discriminação ABIA

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1 A AIDS E A ESCOLA nem indiferença nem discriminação Se você acha que ainda não conhece as informações básicas sobre Aids o que é, como se transmite, como não se transmite, etc. - consulte o anexo 1 antes de iniciar a leitura deste livro. ABIA

2 A Aids e a escola: nem indiferença nem discriminação 1993 ABIA - Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS Rua Sete de Setembro, 48, 12º andar Rio de Janeiro-RJ tel.: (021) Texto e seleção de materiais: Jacques Schwarzstein, Teresinha Cristina Reis Pinto, Cristina Alvim Castello Branco Pesquisa jornalística e relatos de casos: Wanda Nestlehner Assessoria: Christina Vallinoto, Jane Galvão, José Stalin Pedrosa, Veriano Terto Junior. Projeto gráfico: Cláudio Mesquita (A 4 Mãos) Editoração eletrônica: Kraft Produções Gráficas As idéias veiculadas por este caderno sintetizam as experiências feitas entre 1990 e 1992 pelo PROJETO AIDS da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Estabelecem, portanto, um vínculo direto entre a teoria e a prática da prevenção da Aids nas escolas. Para garantir às pessoas que vivem com HIV / Aids o sigilo a que têm direito por lei, modificamos os nomes de todos os personagens reais - mesmo dos que não têm o HIV - mencionados nos relatos de casos verídicos que o leitor encontrará nas páginas seguintes. À exceção da servente Josefa Carvalho Baron, que preferiu ser identificada, e da menina Sheila, cujo caso foi amplamente divulgado pela imprensa, todos os nomes são fictícios. Este caderno é dedicado a estes personagens e a todos aqueles que - tenham sido eles mencionados ou hão - com dignidade, coragem e criatividade estão nos ajudando a inventar e a assumir as atitudes esclarecidas e os comportamentos solidários que nos permitirão controlar - esperamos em breve - as epidemias da Aids e do HIV em nosso país e no mundo. Na escola ensinamos e, antes de mais nada, aprendemos! Viver é possível! Controlar a Aids também é! Financiador: Public Welfare Foundation Apoio: Deve1oppement et Paix A equipe de redação Rio de janeiro, 1 de dezembro de 1992/Dia Mundial da Aids A reprodução integral ou parcial deste caderno mediante citação da fonte é permitida e desejável. Ele foi impresso em preto e branco e formato A4 para facilitar sua reprodução em xerox. Se você precisa reproduzir uma tiragem pequena para sua escola, este pode ser o melhor caminho. ABIA 2

3 Sumário Encontro com a vida Introdução - Crises desnecessárias Capítulo 1 - A Aids nas escolas brasileiras Capítulo 2 - A prevenção da Aids nas escolas É importante falar de Aids nas escolas Programas de prevenção devem se apoiar numa base jurídica sólida: vontade política é fundamental! Os programas de prevenção devem ser discutidos com toda a comunidade Um bom programa depende do treinamento da equipe de coordenação Organização do apoio institucional aos professores envolvidos no programa Para alcançar o impacto desejável, os programas de prevenção da Aids podem exigir vários anos de trabalho A prevenção da Aids passa, necessariamente, por um debate democrático sobre assuntos delicados A Aids nos obriga a um confronto com nossos preconceitos e medos. A luta contra a discriminação da pessoa que está com HIV e do doente de Aids é de fundamental importância para a prevenção Capítulo 3 - Quando alguém na escola está com HIV / Aids - algumas perguntas e respostas Os pais de crianças com Aids são obrigados a informar a escola sobre a situação de seus filhos? Há pais que ao solicitarem a matrícula de seu filho/a informam a escola de que a criança está com vírus da Aids. Como proceder nestes casos? Além de encaminhar normalmente o pedido de matrícula, o que deve fazer a direção de uma escola quando for informada pelos pais de um aluno de que esteja aluno/a está com HIV/Aids? 31 Professores e funcionários da escola devem ser informados de que um ou mais alunos estão com HIV/Aids? O que devem fazer professores e funcionários que receberem dos pais de uma criança com HIV / Aids informações sobre a condição desta criança? Devem informar a direção da escola? 32 Devemos informar todos os alunos de que a escola tem pessoas com HIV/Aids? Capítulo 4 - Cuidados especiais com crianças que estão com HIV/Aids As crianças que estão com HIV/Aids nem sempre ficam sabendo do problema que têm. Porque? As crianças com HIV / Aids precisam de cuidados especiais? O que fazer se os pais de uma criança com Aids solicitarem à direção da escola cuidados especiais que não façam parte dos procedimentos normais da escola em caso de doenças dos alunos? Pais e funcionários devem assumir sozinhos a responsabilidade por crianças com HIV/Aids?.. 38 Como deve se dar a colaboração com a Secretaria de Saúde Capítulo 5 - A Aids não representa um perigo maior para o meio escolar A Aids é uma doença infecto-contagiosa? Qual a diferença entre uma doença infecto-contagiosa e uma doença infecto-transmissível? Um aluno com HIV/Aids pode transmitir a doença para outros alunos, para professores ou funcionários? E se uma criança que está com o HIV morder uma outra criança? Pode transmitir o vírus? E se uma criança que está com o HIV / Aids se machucar e tiver um sangramento forte? Pode contaminar outras crianças ou contaminar um professor que venha socorrê-la? Os professores devem usar luvas quando socorrem crianças que se machucaram?

4 Dividir o lanche, mascar o mesmo chiclete ou o mesmo lápis, transmite o HIV? Beijo na boca transmite o HIV/Aids? Capítulo 6 - Boatos: o que fazer? Como surgem e o que são os boatos? Como neutralizar um boato? Capítulo 7 - Professores também podem estar com HIV / Aids Professores e funcionários que estão com HIV / Aids podem continuar a trabalhar nas escolas? 50 Capítulo 8 - A questão dos testes Por que não testar todas as crianças, professores e funcionários para saber quais são as que estão com o vírus da Aids? Por que não organizar classes especiais ou escolas especiais para as crianças com HIV/Aids?. 55 Capítulo 9 - Sexo e drogas na escola Por que falar de sexo e drogas nas escolas? Que tipo de apoio a escola pode oferecer a seus alunos na área da sexualidade? O que deve fazer a direção da escola se souber que um aluno/a que está com HIV/Aids está namorando um outro aluno/a? O que deve fazer a direção de uma escola com relação aos alunos que sabe serem consumidores de drogas intravenosas? Anexo 1 - HIV e Aids: botando os pingos nos is Anexo 2 - Legislação do Projeto Aids/SP Anexo 3 - Anexo da Portaria Interministerial 796/ Anexo 4 - Endereços de ONG s/ Aids Referências Bibliografia

5 ENCONTRO COM A VIDA No primeiro dia, todos choraram. Como qualquer criança, Reinaldo, de sete anos, Júnior e Ana, de cinco, e Simone, de quatro, não gostaram nada da idéia de abandonar o aconchego do lar para se aventurar no desconhecido da escola. A conquista desse território, repleto de novidades, não foi simples, mas a resistência durou pouco e hoje os quatro não querem nem ouvir falar na hipótese de deixar as aulas. Solidariedade, tolerância, respeito e, acima de tudo, muita informação tiveram importância fundamental para garantir o direito dessas crianças ao estudo. Reinaldo, Júnior, Ana e Simone são alguns dos 21 moradores da Casa Vida, uma instituição criada pela Igreja, em São Paulo, para abrigar menores que estão com o vírus HIV No início de 1992, os responsáveis pela Casa Vida se deram conta de que os quatro tinham idade suficiente para ir à escola e resolveram batalhar por isso junto à prefeitura. "É um direito deles", diz o padre Júlio, idealizador do projeto. Mesmo assim, até que as coisas se ajeitassem, ocorreu de tudo entre os adultos envolvidos na história: pressão, chantagem, derramamento de lágrimas, raiva, histeria, medo e até algumas demonstrações de grandeza e serenidade. Você aceitaria um aluno portador do vírus da Aids? A proposta chegou pelo telefone, de sopetão, aos ouvidos de Clara, diretora de uma escola municipal de educação infantil que recebe alunos de até seis anos. Mesmo assim, a resposta saiu rápida de seus lábios. Sem dúvida, ela disse, sem saber que ainda choraria muito, escondida no banheiro, por causa daquela decisão. Na hora, nem pensei, mas se pensasse daria a mesma resposta.a escola dirigida por Clara fica num bairro de classe média, bem próxima da Casa Vida, e mistura em sua clientela filhos de médicos, advogados e de empregadas domésticas. No mesmo dia, tocou o telefone de Wilma, diretora de uma escola de primeiro grau da prefeitura, localizada num bairro mais afastado e de população mais carente. A resposta foi idêntica. Nos dias seguintes, as diretoras se reuniram com o padre Júlio. Eu parecia um pai de primeira viagem, apavorado com o que eles comeriam, com machucados, com preconceitos, mas sabia que os meninos não poderiam viver isolados. Clara foi à Casa Vida, para conhecer as três crianças que receberia. Admito que naquele dia não tive coragem de beijá-los. Professores e funcionários de ambas as unidades participaram do curso ministrado pelos representantes do Projeto Aids, da Secretaria Municipal de Educação. Ao final, Wilma informou a todos que a escola tinha um aluno portador do HIV e que não diria quem era. Não houve qualquer reação negativa. Depois daquele curso, a escola não seria mais a mesma, garante a diretora. "Ela cresceu, ficou mais unida. Os pais não foram avisados. Quando tornou-se público o caso da menina Sheila, rejeitada por uma escola particular, a imprensa descobriu Wilma e ela acabou dando uma entrevista para a TV. Ao vê-la, muitos pais se apavoraram e foram até a escola. Não perdi nenhum aluno e ainda ganhei alguns elogios, orgulha-se a diretora. 5

6 Para Clara, as coisas não foram tão simples. A notícia da presença das crianças - ela ficou com os três mais novos - vazou logo no início das aulas e uma das mães, Lúcia, apareceu com uma espécie de panfleto, que pretendia distribuir caso não fosse convocada uma reunião de pais. A questão implica risco de vida para nossos filhos e nossas famílias, dizia o texto. Sem alternativa, com o apoio do Projeto Aids e a presença da diretora de infectologia da Secretaria Estadual de Saúde, Clara chamou os pais. Lúcia se recusou a aceitar as explicações da médica e saiu da sala aos gritos. Foi sozinha. Dias depois, ela tirou o filho da escola. Foi uma semana desgastante, conta a diretora. Segundo ela, muitos pais quiseram saber quem eram as crianças, mas a informação foi negada. Eu dizia que nós éramos privilegiados por saber que convivíamos com portadores e lembrei que muitas crianças podem ter o vírus sem que nem os pais tenham conhecimento disso. Deu certo. Ninguém mais tocou no assunto. Quando soube que teríamos alunos portadores do HIV, meu marido me aconselhou a sair da escola. Depois do curso, eu sentei com ele e com minha filha de 10 anos e conversamos. Acabou o medo. Hoje eles se preocupam, pedem notícias das crianças e é só. Karina, 40 anos coordenadora pedagógica No segundo semestre de 1992, a escola de Clara recebeu de braços abertos e sem traumas mais uma pequena moradora da Casa Vida. Angélica, de quatro anos, chegou muito tímida, mas, como os demais colegas, logo se abriu para o mundo novo ao qual foi apresentada. É incrível como eles já mudaram, revela o padre Júlio. A primeira coisa que aprenderam foi a falar palavrão, mas com certeza tiveram seu horizonte ampliado. Às vezes eu me pergunto se não é responsabilidade demais aceitar essas crianças, mas com a retaguarda da Secretaria e com a honestidade com que estamos tratando o assunto, porque não haveria de dar certo?, indaga Clara. Relato de caso / Projeto Aids - SP 6

7 INTRODUÇÃO Crises desnecessárias É uma doença, não é um melodrama.herbert Daniel Continua a aumentar rapidamente, no Brasil e no mundo, o número de crianças e adolescentes contaminados com o vírus da Aids. Em todo o planeta, de um total de aproximadamente 12,9 milhões de pessoas contaminadas, 7 milhões são homens, 4,7 milhões são mulheres e 1,1 milhões são crianças 1. No Brasil, foram diagnosticados, entre 1980 e fins de 1992, casos de Aids entre menores de 19 anos de idade, cifra que representa 7,4% do total de casos notificados em nosso país 2. Além disto, sempre que falamos de Aids e Juventude, é importante lembrar que, entre as pessoas que desenvolvem a doença em idade adulta, é grande o número daquelas que se contaminaram antes de completar 18 anos de idade. Entre as crianças que têm HIV / Aids - sobretudo entre aquelas que têm menos de 10 anos de idade - a grande maioria foi contaminada por suas mães, portadoras do vírus, durante a gestação ou o parto. Outras foram contaminadas por transfusões de sangue infectado. Os adolescentes, por sua vez, estão expostos à contaminação através de relações sexuais sem proteção do preservativo, de abuso sexual, de transfusões de sangue e da utilização coletiva de seringas e agulhas infectadas para a injeção de drogas. Independentemente da maneira pela qual se contaminaram o certo é que muitos destes jovens e crianças já freqüentam nossas escolas, e que outros mais chegarão às salas de aula de todo o país ao longo dos próximos meses e anos. A título de ilustração, vale lembrar que em maio de 1992, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo calculava que crianças com HIV/Aids, entre cinco e 14 anos de idade, estavam freqüentando regularmente as escolas públicas e privadas daquele Estado 3. Contudo, apesar desses números assustadores, qualquer reflexão científica e serena sobre a epidemia da Aids levará à conclusão de que estamos, na verdade, lidando com uma doença como as outras. Uma doença grave, sem dúvida, mas que deve ser vista como uma doença comum. Uma doença transmissível, mas não contagiosa, pois não se propaga através do convívio social, na rua, nos meios de transporte, no cinema, no esporte, na piscina, na praia, no trabalho ou na escola. Uma doença virótica, que assusta porque pode ser fatal e nos deixa vulneráveis a todo um conjunto de doenças - também comuns -, mas que pode ser evitada, pois já sabemos de que forma se transmite. Uma doença que a medicina está aprendendo a tratar com novas drogas antivirais como o AZT, DDI e DDC e com terapias adequadas para as infecções oportunistas. Enfim, uma doença que poderá, dentro de algum tempo - só nos é lamentavelmente impossível dizer ao certo quando-ser tratada como uma doença crônica, como a diabete, por exemplo, que também não tem cura e também pode ser fatal. 1 The Global Aids Policy Coalition, News/ Ministério da Saúde - Programa Nacional de DST/AIDS - Boletim Epidemiológico- Ano V/ nº 8 3 Revista Nova Escola - Entrevista com Dr. Caio Rosenthal - agosto/1992 7

8 No entanto, marcada pelo estigma do medo e do preconceito, a Aids parece ter o poder de substituir nossa inteligência pelo pânico, e nosso conhecimento pelo obscurantismo, o que faz com que muitos de nossos educadores se recusem até mesmo a pensar na hipótese de conviver nas escolas com pessoas que têm HIV ou que já tenham a saúde abalada pela multiplicação do vírus no organismo. Conseqüentemente, a presença de crianças com HIV nas escolas tem provocado crises compreensíveis, porém desnecessárias e perigosas. Desnecessárias, porque a integração de crianças e adultos que têm HIV / Aids nas salas de aula e ruas atividades recreativas ou esportivas, assim como o convívio e as brincadeiras destas crianças com outras, não representam uma ameaça para a saúde no meio escolar, nem implicam em transtornos para a rotina educacional. Perigosas, porque o convívio sereno e esclarecido tom estas pessoas é de fundamental importância para a prevenção e o controle da epidemia na comunidade e no mundo. No Brasil, o caso de Sheila - uma menina de seis anos que vivia com HIV / Aids e teve sua matrícula recusada por uma escola paulista provocou, recentemente, um debate de proporções nacionais. O caso de Sheila foi, como veremos neste caderno, apenas um entre muitos exemplos destas crises desnecessárias. Sua história serviu, todavia, para confrontar definitivamente os responsáveis pelas diferentes redes escolares do país com uma situação que não pode mais ser ignorada: A Aids já chegou às escolas brasileiras! Temos que aprender a lidar com ela! Nas páginas seguintes, os educadores interessados encontrarão materiais informativos e uma seqüência de perguntas e respostas baseadas no conhecimento científico que se tem hoje sobre as vias de transmissão do HIV e sobre a Aids, e nas experiências feitas pelo Projeto Aids da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Esperamos que este conjunto de informações venha a ser útil ao processo que leva à superação do medo e à adoção de atitudes e medidas adequadas à solução dos problemas que se manifestam quando são notificados nas comunidades escolares os primeiros casos de HIV / Aids entre alunos, professores e funcionários. 8

9 CAPÍTULO 1 A Aids nas escolas brasileiras Menina com Aids luta para ir ao colégio Peja primeira vez, pais vão à Justiça contra essa discriminação Folha da Tarde/SP-1/5/92 Pais vão a juiz para matricular filha com Aids Folha de SP. 1/5/92 Escolas decidem rejeitar portadores de HIV Em São Paulo, sindicato orienta colégios particulares a recusarem matriculas de crianças com vírus da Aids O Globo 8/5/92 OAB critica escola que veta criança com vírus da Aids Assembléia da CNBB critica veto à menina Folha da Tarde-SP-8/5/92 Justiça garante volta de Sheila à Ursa Maior Folha da Tarde-SP-15/5/92 Sheila, feliz na escola nova. Folha da Tarde-SP-19/5/92 JUNTO COM OS PAIS, ELA FOI CONHECER O SÃO LUIZ E DISSE QUE ADOROU O COLÉGIO Ao contrário do que muitos pensam, não foi com o Caso Sheila que a Aids chegou às escolas brasileiras. Quando a Escola Ursa Maior recusou-se a receber Sheila entre seus alunos, as escolas da rede pública paulista já haviam integrado 20 ou mais casos (conhecidos) de pessoas com HIV / Aids. Os casos, de rejeição a estas pessoas haviam sido superados e todas elas, professores, funcionários e alunos, continuavam a participar normalmente da rotina escolar. Àquela altura dos acontecimentos, o Projeto Aids da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo que será citado com freqüência neste caderno por ser um projeto modelo para o país - já existia há mais de dois anos e já havia treinado mais de 700 professores da rede, que atuam hoje como multiplica dores e ajudam alunos e professores a resolver os problemas que a questão da Aids e da prevenção da epidemia trazem para dentro das escolas. Quando pensamos nos problemas decorrentes da presença no meio escolar de crianças/pessoas com HIV ou Aids, é importante lembrar que muitas pessoas que têm o HIV não sabem que estão contaminadas. Estas pessoas não apresentam nenhum tipo de sintoma de infecção 01 doença e vivem em perfeita saúde durante muitos anos, antes de sofre as primeiras infecções decorrentes da imunodeficiência (enfraquecimento do sistema imunológico) provocada pelo HIV. Por outro lado devemos lembrar também que as pessoas que sabem que têm o HIV (ou sabem que seus filhos estão com o vírus) não têm obrigação de comunicar este fato a quem quer que seja. No Brasil, até hoje, da toda a discriminação que uma declaração desta natureza pode provo car, a maioria destas pessoas prefere manter o sigilo sobre sua condição. Ou seja, nenhum diretor de escola pode afirmar hoje, com segurança, que na sua escola ninguém está com o vírus. 9

10 EM DEFESA DA ESCOLA PUBLICA DE QUALIDADE A AIDS E A ESCOLA: NEM INDIFERENÇA NEM DISCRIMINAÇÃO A CRIANÇA E O ADOLESCENTE TÊM DIREITO À EDUCAÇÃO. (...) ASSEGURANDO-SE-LHES IGUALDADE DE CONDIÇÕES PARA o ACESSO E PERMANÊNCIA NA ESCOLA (...). No momento em que a sociedade brasileira se mostra apreensiva com a propagação da AIDS e suas conseqüências, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo não se limita a desenvolver campanhas de esclarecimento sobre os riscos de transmissão da doença, mas acompanha aqueles que, dentro da Rede Municipal de ensino, já se encontram atingidos por ela. Este trabalho não começou agora. Teve início no primeiro dia de 1989, tomou forma como Grupo de Trabalho e se desenvolveu em Projeto de Valorização da Vida. Veio e está aí, com força e vontade políticas, determinado a garantir o enfrentamento da doença através de informação combinada com a sensibilização, para erradicar qualquer tipo de preconceito e desenvolver a solidariedade que respeita o direito à cidadania e à participação na vida, Um Projeto que se coloca contra a segregação e que quer vivenciar, na prática, os pressupostos de uma educação democrática e libertadora. Quando nós vamos aos clubes, ao cinema, a um restaurante, ou a um bar, certamente vocês podem apostar que pelo menos nas últimas 48 horas alguém passou ali e era portador do vírus HIV 1, diz a Dr a - Marinella Della Negra, médica infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo responsável pelo tratamento de crianças com Aids. Ou seja, dadas as características e a evolução da epidemia, somos obrigados a fazer nossa a idéia de que já estamos, ou em breve estaremos, convivendo nas escolas, assim como em outros espaços públicos, com pessoas contaminadas pelo HIV. Infelizmente, estas considerações são válidas para todo o país e não apenas para São Paulo. Antes do caso Sheila, inúmeros casos de soropositividade em escolas já haviam sido registrados em outros estados, como no Rio de Janeiro, Paraná e certamente outros dos quais não temos conhecimento. Apesar de não ser o primeiro caso de crianças com Aids nas escolas brasileiras, o Caso Sheila teve enormes repercussões em todo o país: suscitou uma grande polêmica, permitiu que a questão fosse discutida publicamente e resultou, pela primeira vez, numa resposta formal dos Ministérios da Saúde e da Educação que emitiram a Portaria Interministerial 796 de Caderno SINPRO Ano I nº1 julho/92 10

11 Além disto, o Caso Sheila teve o impacto de um brado de alerta para todos os educadores. Ficou claro, depois da história de Sheila, que é urgente prepararmos e capacitarmos as escolas para um confronto esclarecido com a epidemia da Aids em nossas comunidades. O advento da Aids exige a implantação, nas redes escolares, de Programas de Prevenção dirigidos aos alunos e a toda a comunidade escolar. Só através destes programas será possível evitar que casos como o de Sheila se repitam. Moradores de prédio em Santos movem ação para impedir instalação de abrigo para crianças portadoras do HIV Folha de SP. 18/5/92 Criança é recusada em colégio de São Carlos por estar com Aids Folha da Tarde/SP 19/5/92 Suspeita de Aids afasta menina de creche no Paraná CURITIBA - A menina Deisiane doa Santos, de 2 anos, cujo pai cumpre pena de prisão. viveu por quase uma semana o preconceito enfrentado pelos doentes de ra, interferiram no caso e Aids. Filha de uma cabeleireira de 21 anos, que há duas semanas morreu dessa doença, ela foi proibida de freqüentar a creche Lilian Vargas, em Maringá, Paraná, até que sua família apresentasse o resultado negativo do teste de HIV. Ontem, o prefeito Ricardo Barros e o secretário estadual de Saúde, Nizan Pereira, interferiram no caso e Deisiane poderá continuar indo normalmente à creche. A diretora da creche, Elizabeth Peixoto Nonoze, foi quem levou a menina a um posto de saúde, para que ela fizesse o exame. Estado de São Paulo 26/5/92 Duas crianças e muita dedicação Uma pequena casa no Morro do Adão, em Bonsucesso, Zona Norte do Rio, está sendo palco de uma batalha que transcende o cotidiano da luta pela sobrevivência de uma família pobre e favelada. Marcos Martins dos Santos, 26 anos, largou o emprego para entregar-se totalmente aos dois sobrinhos Silas, uma não e dez meses, e Artur, tre anos abandonados há um ano pela mãe aidética, Berenice Gomes, 22 anos. O pai, irmão de Marcos, morreu de Aids há dois anos. Por sorte, Marcos conseguiu uma creche que aceitasse receber Silas e Artur. Rodei a cidade procurando creches, explicava o problema e nenhuma aceitava os meninos, conta o rapaz. Sem contar com a ajuda da avó, mãe de Marcos, que é idosa e alcoólatra, os garotos estão com uma lista de material escolar no bolso, mas o tio não tem dinheiro. Acabei todas as minhas economias. Às vezes, o pessoal da igreja doa feijão e arroz e todos do morro conhecem o problema e ajudam como podem, conta Marcos. Jornal do Brasil/RJ 4/4/92 Criança com Aids volta para escola O menino Leandro de Melo Santos, 7 anos, portador do vírus da Aids, venceu ontem a primeira batalha contra a discriminação: agastado desde a semana passada do curso de alfabetização da Escola Muncipal São Leandro Paulo, em Brás de Pina, a pedido de alguns pais de alunos que descobriram a sua doença, Leandro retorna às aulas hoje. O Dia/RJ 15/5/91 11

12 Ministério da Educação Gabinete do Ministro Portaria Interministerial nº 796, de 29 de maio de 1992 Os Ministros de Estado da Educação e da Saúde, no uso das atribuições que lhes confere o art. 87, parágrafo único, inciso IV da Constituição Federal, e Considerando o dever de proteger a dignidade e os direitos humanos das pessoas infectadas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV); Considerando que têm ocorrido injustificadas restrições a esses direitos no País; Considerando que não foi documentado nenhum caso de transmissão mediante contatos casuais entre pessoas em ambiente familiar, social, de trabalho, escolar ou qualquer outro; Considerando que a educação é direito constitucionalmente definido e que o ensino fundamental é obrigatório na forma do Título VIII, Capítulo III, Seção I da Constituição Federal; Considerando que a limitação ou violação de direitos constitucionais à saúde, à educação e ao trabalho de pessoas infectadas pelo HIV não se justificam; resolvem: Art. 1º - Recomendar a observância das seguintes normas e procedimentos: I- A realização de teste sorológico compulsório, prévio à admissão ou matrícula de aluno, e a exigência de testes para manutenção da matrícula e de sua freqüência nas redes pública e privada de ensino de todos os níveis, são injustificadas e não devem ser exigidas. II - Da mesma forma não devem ser exigidos testes sorológicos prévios à contratação e manutenção do emprego de professores e funcionários por parte de estabelecimentos de ensino. III - Os indivíduos sorologicamente positivos, sejam alunos, professores ou funcionários, não estão obrigados a informar sobre sua condição à direção, a funcionários ou a qualquer outro membro da comunidade escolar. IV - A divulgação de diagnóstico de infecção pelo HIV ou de Aids de que tenha conhecimento qualquer pessoa da comunidade escolar, entre alunos, professores ou funcionários, não deve ser feita. V - Não deve ser permitida e existência de classes especiais ou de escolas específicas para infectados pelo HIV. Art. 2º - Recomendar a implantação, onde não exista, e a manutenção e ampliação, onde já se executa, de projeto educativo, enfatizando os aspectos de transmissão e prevenção da infecção pelo HIV e Aids, dirigido a professores, pais, alunos, funcionários e dirigentes das redes oficial e privada de ensino de todos os níveis, na forma do anexo. 1º - O projeto educativo de que trata o caput deste artigo deverá ser desenvolvido em todos os Estabelecimentos de ensino do País, em todos os níveis, com participação e apoio dos serviços que compõem o Sistema Único de Saúde. 2º - Os conteúdos programáticos do projeto educativo deverão estar em consonância com as diretrizes do Programa Nacional de Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids do Ministério da Saúde. 3º - Os resultados do projeto educativo serão avaliados pela Coordenação do Programa Nacional de Controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids e seus relatórios encaminhados periodicamente aos Ministros da Educação e da Saúde. Art. 3º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. José Goldemberg - Ministro da Educação Adib Jatene - Ministro da Saúde 12

13 No primeiro dia de aula, depois que soube que tinha um aluno portador de HIV, em fui até o armário, pequei um litro de álcool e o coloquei em cima da mesa. No final do período, eu já tinha me dado conta do absurdo. Que besteira, o que eu ia fazer com aquilo? Silvana, 44 anos, professor Opção solidária O dia era 6 de maio de 1992 e eu nunca vou esquecer. A festa estava animada, os assuntos eram os mais variados, mas quando alguém comentou o fato de uma escola particular ter rejeitado a matrícula de uma garotinha portadora do vírus da Aids, o tempo fechou para o meu lado. Achei que ia ser linchada, pois era a única que discordava da posição da escola, que considerava aquilo discriminação, que achava que já era tempo de a gente aprender a conviver com portadores do HIV Eu tinha os meus motivos para pensar daquela forma. Já tinha visto pelo menos uma pessoa daquele mesmo círculo de amigos morrer em conseqüência da Aids, embora tudo tenha sido sempre escamoteado, encoberto. Além disso já podia notar os sintomas da doença em um outro integrante do grupo. Esses fatos me levaram a ler muito, me informar sobre o assunto e saber, entre outras coisas, que a Aids não se transmite no contato social. Não sei se os outros também tinham se dado conta daquela realidade, ou se agiam com hipocrisia. O que sei é que senti que era hora de tomar uma posição. E tomei. Critiquei a atitude daquela escola com a liberdade que a distância me permitia. Dois dias depois, pela televisão, veio a notícia que me tiraria da confortável posição de observadora para me jogar no meio do fogo. A escola onde estudam meu filho de 17 anos e minhas duas filhas, de 14 e oito anos, se oferecia para receber a menina. Apesar do baque, minha posição não se modificou. Mas ainda havia dentro de mim uma ponta de dúvida. Eu precisava de mais informações. A decisão do reitor gerou um verdadeiro caos na escola. No primeiro dia minha filha menor chegou das aulas chorando. O que ela sentia era pavor, pânico de ficar doente, de morrer. Naquela noite ela não dormiu. Eu fiz o que pude no meu papel de mãe. Contei uma historinha pra ela. Disse que aquela menina tinha um bichinho no sangue mas que era como uma gripe e que não passava assim tão fácil para os outros. Ela se acalmou. Os dois mais velhos agiram como eu, com calma e naturalidade. Naquela altura eu me preocupava com os reflexos da convivência com uma criança aidética na rotina da vida escolar. Pensava em como o colégio iria administrar a estrutura, os funcionários, a higiene. Também pensava muito na morte. Muito mais do que na doença. A primeira reunião convocada pelo reitor para tratar da questão atraiu mais de 600 pais. Aí é que eu pude sentir a reação da sociedade. Eram pessoas intelectualizadas, de boa posição sócio-econômica e totalmente desinformadas, despreparadas. Pelo menos a metade delas 13

14 sequer queria ouvir as explicações científicas sobre a doença. Naquele dia, várias pessoas falaram: o reitor, representantes da Casa Vida, que cuida de crianças portadoras, uma médica e a coordenadora do Projeto Aids da Secretaria Municipal de Educação, Teresinha Cristina Reis Pinto. Todas as participações foram importantes, mas a Teresinha falou curto e grosso. Ela contou que, na época, a rede pública já tinha 20 casos conhecidos de Aids, afirmou que o HIV não se transmite no contato social e alertou para o fato de que as pessoas precisam aprender a conviver com portadores, o que, segundo ela, só seria possível através da educação. Está aí, eu pensei. Educação é a palavra-chave. É preciso abrir as cabeças a machadadas para conscientizar a população. Voltei para casa pensando naquilo. Constatava duas coisas graves: a proximidade da doença e o despreparo das pessoas. Via o sofrimento chegando antes da hora por causa do preconceito, da posição de avestruz que todo mundo vinha tendo diante do problema. "O curso revelou uma tremenda desinformação sobre Aids e mesmo sobre sexualidade. Um aluno adulto disse que passava limão no pênis, antes do ato sexual, para se prevenir contra a Aids. Uma servente se recusou a pôr a mão em uma camisinha". Cleide, 41 anos, diretora de escola de 1º grau O tumulto ainda durou mais uns dias na escola. Houve até ameaça de bomba. O Projeto Aids organizou um curso para as mães da pré-escola, onde a garota iria ingressar. Uma dessas mães, minha amiga, ficou muito bem impressionada com as informações passadas. Ela e uma outra mãe pensavam como eu e, juntas, resolvemos procurar o Projeto Aids. Entramos em contato com 15 colégios particulares convidando-os para mandarem representantes interessados em fazer o curso. Apenas dois o fizeram. Eu me tornei multiplicadora voluntária. Ainda estou no começo do meu trabalho. Encaro tudo isso como uma espécie de missão. Eu estava mesmo procurando, buscando algo importante para me dedicar. Encontrei. Já fiz três palestras em escolas e tenho aproveitado muito todo esse aprendizado em casa e no meu círculo de amigos. Falei até com meu marido. Perguntei: devemos usar camisinha sempre, ou só nos meus dias férteis? Ele riu. Eu sabia que podia confiar nele, mas queria provocar. Também chamei o namorado da minha filha e a namorada do meu filho. Conversei seriamente com eles e fui bem recebida. Uma amiga minha quer reunir filhos de amigos e sobrinhos para que eu faça palestras para eles. Hoje é assim: deu chance, eu multiplico. E me sinto gratificada. Meu projeto prioritário no momento é levar essa experiência tão importante a que as escolas públicas têm acesso para os colégios particulares. Espero que eles estejam abertos para receber as informações. Relato de caso / Dulce, 42 anos, curso superior, mãe de três alunos do Colégio São Luís, onde também estuda uma menina portadora do vírus da Aids 14

15 CAPÍTULO 2 A prevenção da Aids nas escolas A escola é, por definição, um espaço de socialização do saber, sendo freqüentemente, no Brasil, o único espaço em que a criança pode receber e trocar informações. Algumas vezes, porém, a escola está mal preparada e divulga informações mal elaboradas, distorcidas e carregadas de preconceitos e isto acontece, também, quando se fala de Aids. A Aids é uma doença nova e é muito natural que muitos professores não se sintam preparados para abordar as questões com as quais a epidemia os confronta. Por outro lado, infelizmente, a ação preventiva não tem sido alvo das atenções e do empenho que deveria merecer em um país como o nosso. No caso da Aids, este fato pode vir a ter conseqüências graves. A exemplo do que acontece em muitos países do mundo, todas as escolas brasileiras já deveriam estar, há muito, integradas num Programa de Prevenção da Aids, dirigido a funcionários, professores, pais e alunos. Infelizmente, são poucas as redes escolares brasileiras que já dispõem de um programa deste tipo. Neste cenário de descuido, o Projeto Aids, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, se apresenta, apesar de todas suas dificuldades, como louvável exceção. Salário de sorrisos É engraçado como a vida da gente dá voltas. Veja o meu caso: comecei o meu trabalho no Projeto Aids meio de brincadeira e hoje estou envolvida até o pescoço. Fiz disso a razão da minha existência. Em outubro de 1991, quando li no Diário Oficial um convite para fazer o curso da Secretaria de Educação sobre Aids, não dei a menor importância. Nem eu, nem ninguém mais da escola em que eu trabalho. No fim, acabei me inscrevendo só para ficar cinco dias afastada da escola. Achei as palestras interessantes, recebi muitas informações e, principalmente, lembrei muito de meu filho mais novo, que morreu em janeiro de 1986, aos três anos de idade, em conseqüência de um tipo de leucemia. Um pouco antes de morrer, o meu menino fez um pedido: Mãe, cuida das criancinhas pra mim? Como ele já estava internado há vários meses, achei que se referia aos amiguinhos do hospital. Não era. Hoje eu sei que ele me pedia para cuidar das criancinhas do mundo. Foi ele quem me fez ficar mais solidária. Depois do curso, eu não parei mais de pensar nessas coisas e, meio sem saber porque, continuei participando de seminários, encontros. Comprava livros, recortava jornais e logo comecei a fazer palestras nas escolas. Já perdi a conta do número de escolas que visitei. Foram mais de 30, com certeza. A primeira turma que peguei foi dureza. Eram 58 alunos das suplências 1 e 2, com idades entre 14 e 50 anos. Quando entrei, estavam na maior algazarra. Disse boa noite e eles começaram com piadas. Aí, resolvi entrar na deles, falei com simplicidade sobre Aids, homossexualismo e drogas. No final, não queriam me deixar ir embora. Mas nem sempre é simples assim. Houve uma escola em que desligaram a energia durante a palestra. Noutra, um rapaz quis me chocar. A senhora sabe que quando não tem seringa a gente usa um arame para furar a veia e uma caneta para injetar a droga?, ele perguntou. Eu embarquei na conversa. Ele contou que era viciado há cinco anos e que para comprar cocaína já tinha feito de 15

16 tudo, menos matar. Eu falei que estava disposta a ajudá-lo. Ele agradeceu por eu falar com ele como gente. Tudo isso aconteceu na frente dos colegas. Emocionado, ele pediu para sair. No dia seguinte, compareceu à palestra que eu estava dando em outra sala. Aquilo me balançou. Esse trabalho me faz feliz. Sinto que estou ajudando a humanidade. A Aids é uma doença terrível e eu quero evitar que as pessoas se contaminem. Enfrento dificuldades com 'meus chefes, por causa do horário de trabalho, mas vou levando. Às vezes preciso faltar no serviço para ir a reuniões na Secretaria e eles não entendem. Fazer o quê? Nos fins de semana, aproveito para dar palestras nas favelas lá do meu bairro, na Zona Norte da cidade. Vou sempre com uma colega que também é multiplicadora do Projeto. A gente combina com os moradores e fala em qualquer lugar: na rua, numa casa. Quando a situação aperta e falta dinheiro para o ônibus, vamos a pé mesmo. Às vezes andamos um bocado. Mas sempre somos bem recebidas. Nosso pagamento é feito de palavras, sorrisos e da certeza de que estamos evitando a contaminação de muita gente. Relato de caso / Josefa Carvalho Baron (nome real), 38 anos, separada, dois filhos (14 e 22 anos) e um neto. Tem curso ginasial completo e trabalha como servente em uma escola municipal de educação infantil, que atende a população carente da Zona Norte da cidade É importante falar de Aids nas escolas A Aids não é, e nunca foi, uma doença que atinge apenas homossexuais e pessoas que usam drogas. A Aids é uma doença que pode atingir qualquer indivíduo, seja ele homem, mulher, ou criança. Hoje em dia, a sociedade como um todo deve aprender a conviver com Aids. Aproximadamente 34% da população mundial tem menos de 17 anos de idade. No Brasil, este grupo representa cerca de 41% da população total 1. Assim como os adultos, as crianças correm riscos de contaminação absolutamente alheios a suas atitudes e vontades. Podem ser contaminadas pela mãe portadora, durante a gestação ou durante o parto, podem receber transfusões de sangue e homo-derivados contaminados e podem, também, ser vítimas de abuso sexual. Já os pré-adolescentes e adolescentes tendem a iniciar precocemente suas vidas sexuais. No Brasil, a idade média na primeira relação sexual é de 16,9 anos para as mulheres e de 15 anos de idade para os homens 2. Além disto, os jovens estão expostos ao processo de massificação do uso de drogas em nossa sociedade, o que faz com que a escola não possa mais ignorar estes fatos e, pelo contrário, se veja levada a atuar como centro de difusão do saber sobre a Aids. 1 IBGE Crianças e Adolescentes Indicadores Sociais Centro Materno Infantil Planejamento Famílias Pesquisa feita entre 1987 e 1989 em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, e recife abrangendo 9066 jovens entre 15 e 24 anos. Assessoria Técnica do Centro para o Controle de Doenças de Atlanta (CDC/EUA) 16

17 Projeto prepara professores O projeto Aids da Secretaria de Educação do município foi montado em 1989 para preparar as escolas antes que a Aids atingisse alunos, professores e funcionários. Não deu tempo. Já no ano seguinte, funcionários de uma escola se reuniram para expulsar um colega que estaria com o vírus e que ameaçava se matar. O grupo do projeto Aids foi chamado às pressas. É uma das nossas funções de bombeiro, diz a professora Teresinha Cristina Reis Pinto, 34, coordenadora do projeto. Em 1991 surgiram os primeiros casos de alunos com Aids na rede municipal. O grupo organizou em oito meses 579 encontros para professores, alunos e pais. O telefone , colocado à disposição das escolas, passou a receber denúncias e pedidos de discriminação. Folha da Tarde 18/4/92 Programas de prevenção devem se apoiar numa base jurídica sólida: vontade política é fundamental! A Aids não é apenas um problema dos educadores. É também um problema dos políticos e da sociedade como um todo. Pouco a pouco, as Câmaras e Assembléias Legislativas de nossos estados e municípios têm se dado conta disto e algumas já deliberam sobre a implantação urgente de Programas de Prevenção nas redes escolares. Cabe aos responsáveis pelas redes, e também aos pais, levar esta discussão aos partidos e ao legislativo, acompanhar os debates e cobrar resultados. Ao propor este debate, é importante saber que o trabalho de prevenção da Aids não pode se resumir à organização de palestras, à projeção esporádica de vídeos e à distribuição de panfletos e preservativos. O trabalho de prevenção da Aids é complexo e deve ser contínuo, pois só dá resultado após vários anos. de atividades regulares. Um bom Programa de Prevenção deve ser institucionalizado por Decreto-lei, publicado no Diário Oficial e anunciado pelos meios de comunicação, pois trata-se de um programa de fundamental importância para a manutenção da saúde pública e para o equilíbrio sócio-econômico do país. Só uma mobilização legislativa decidida poderá garantir a continuidade destes programas através das diferentes administrações estaduais e municipais que irão se suceder. História do Projeto Aids, segundo o Diário Oficial do Município de São Paulo Portaria nº 120 (Prefeita institui Grupo de Trabalho Intersecretarial para abordagem da questão da Aids) L. E. de Sousa, Prefeita do Município de São Paulo, usando das atribuições que lhe são conferidas por lei, Resolve: Constituir Grupo de Trabalho, integrado por P.C.S.B., representante da Secretaria de Higiene e Saúde, S.M.C.Z., da Secretaria Municipal de Educação, M.C.C., da Secretaria 17

18 Municipal de Cultura, S.R.S.C., da Secretaria Municipal de Transportes, ES.E, da Secretaria Municipal da Administração e A.A.S., da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social, para, sob a coordenação do primeiro nomeado, elaborar programa de prevenção Aids/DST, cujo alvo será o servidor público municipal e a população junto à qual vêm as referidas Secretarias atuando. Prefeitura do Município de São Paulo/L.E.S, Prefeita Comunicado 6/91 (Secretário de Educação informa a rede sobre a existência do Projeto Aids) Aos Educadores da Rede Municipal A Aids é, provavelmente, o fenômeno de Saúde de maior impacto surgido nos últimos tempos. O sensacionalismo com que muitas vezes esse fenômeno é tratado pelos meios de comunicação impede, entretanto, que ele seja percebido com mais objetividade e menos preconceitos. A poluição, a fome, abastecimento de água, moradia, enchentes, etc. são problemas sociais que têm sido analisados em suas relações com a saúde e permanecem como questões ainda não resolvidas. A Aids é, também, um problema coletivo de saúde. Para ser combatido com eficácia, deve ter suas causas estudadas, o que está sendo feito de forma exaustiva pelos setores competentes. Apesar disso, as perspectivas de solução ainda estão distantes. Durante muito tempo, o único remédio contra a Aids continuará sendo a prevenção. A Educação torna-se, desta forma, o meio mais eficaz de diminuir o número de vítimas da epidemia, sensibilizando, informando e combatendo atitudes preconceituosas para com os portadores do vírus HIV. A Secretaria Municipal de Educação não poderia omitir-se diante desta grave situação. Num trabalho conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde, educadores da Rede, com apoio de técnicos de saúde, formaram um grupo que procura expandir o horizonte de professores e alunos nas escolas, através de discussões, dinâmicas de grupo, palestras e vídeos referentes à Aids e/ou Doenças Sexualmente Transmissíveis. Ao oferecer a adultos e jovens um espaço para informar-se e discutir abertamente suas dúvidas, será possível ajudar a construir atitudes mais responsáveis e menos arriscadas em relação ao sexo. A Aids não é uma questão pessoal enfrentá-la é uma responsabilidade social. Diante do temor, angústia _ medo que ela inspira não é possível caminhar sozinho. E indispensável solidariedade. Escolas interessadas em receber apoio do Grupo de Educadores contra a Aids podem entrar em contato através dos telefones abaixo relacionados Comunicado 10/91 (Projeto Aids da S.M.E. oferece às escolas a possibilidade de esclarecimento) Conscientização da Comunidade Escolar sobre a problemática do HIV (Aids) A Secretaria Municipal de Educação, num trabalho conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde, considerando que, 18

19 - a informação segura, esclarecida, direta e atualizada diminui o risco de contaminação, medo e preconceito sobre a doença: - um trabalho específico junto à comunidade escolar (pais, funcionários e alunos) se faz necessário, Informa: 1) Que através do Projeto Aids (publicação no DOM estará dando apoio às Unidades Escolares com palestras, vídeos, discussões sobre o tema e debates. 2) As escolas interessadas em receber o Grupo de Educadores contra a Aids devem entrar em contato através do telefone xxx xx xx com a Prof. T.C.R.P. em SME/G Portaria nº 1714 (Secretário de Educação cria condições para que os multiplicadores treinados pelo Projeto Aids possam desenvolver projetos de esclarecimento nas escolas) O Secretário Municipal de Educação, no uso de suas atribuições legais e Considerando que - a educação tem um papel significativo no sentido de transformar o impacto da Aids numa oportunidade de resgatar o sentido da vida e o exercício pleno da cidadania; - o Projeto Aids é um projeto especial porque a situação é especial e de responsabilidade política daqueles que defendem uma nova sociedade onde a solidariedade seja o alicerce através do qual as relações humanas possam ser construídas; - a informação, a discussão aprofundada e o enfrentamento do medo e preconceito podem fazer com que os soropositivos (funcionários, alunos e professores) tenham seu espaço garantido na escola e vivam em clima de razoável tranqüilidade; Resolve: I - Os educadores que participaram dos cursos de multiplicadores do Projeto Aids apresentarão planos de atuação no âmbito das Unidades Escolares que deverão ser discutidos com a Comunidade Escolar e Conselhos de Escola. II- Compete somente à Coordenação do Projeto Aids, exercida junto ao Gabinete desta Pasta, a aprovação, acompanhamento e avaliação dos planos de atuação. III- Aplicam-se ao Projeto Aids o disposto nas Portarias nº s 367, de ,3.398 de e de , obedecendo o contido no item II desta Portaria. (Ver no anexo 1 deste caderno os textos das três portarias mencionadas no item III. Estas portarias definem o que são "projetos especiais., regulamentam questões relacionadas à implantação de projetos específicos nas escolas, ao horário de trabalho, ao trabalho e dispensa de ponto, à remuneração de trabalho excedente, etc., e podem ser úteis às secretarias de educação de outros municípios e estados que desejem implantar projetos semelhantes ao Projeto Aids, da S.M.E de São Paulo.) 19

20 Os programas de prevenção devem ser discutidos com toda a comunidade A Aids está saindo da televisão para ir bater na porta das pessoas. Chegou a nossa vez. Celeste, 44 anos, assistente de diretor de escola Ninguém - pessoa ou instituição - vai resolver o problema da Aids sozinho. O trabalho dirigido para o controle e a prevenção da epidemia ultrapassa os limites da escola, e abrange necessariamente a família e a comunidade. A família muitas vezes desconhece o assunto ou prefere evitá-lo por vergonha, medo, desconfiança, falta de abertura com os filhos. O mesmo ocorre, aliás, com professores e funcionários das escolas. De pouco servirá um programa de informação e esclarecimento dirigido aos alunos, se os próprios professores, funcionários e pais de alunos não estiverem minimamente esclarecidos ou, ao menos, garantirem apoio ao programa. Uma criança que recebe na escola uma informação correta sobre a Aids, mas é confrontada em casa, ou até mesmo em sala de aula, com pais e professores mal informados, e com as informações contraditórias freqüentemente divulgadas pela televisão e pela imprensa, permanecerá confusa e continuará vulnerável aos perigos de infecção. Por outro lado - se bem informada e segura de si a criança pode ser um ótimo multiplicador da informação no espaço familiar. Para isto necessita contudo de uma atmosfera doméstica que lhe permita abordar a questão. Os Programas de Prevenção precisam da comunidade e a comunidade precisa dos Programas de Prevenção. Por isto, antes de organizar um Programa de Prevenção nas escolas, é importante reunir a comunidade escolar e discutir abertamente o assunto. Cada escola conhece a comunidade à qual presta serviços e a sua problemática específica. Cada Conselho de Escola-Comunidade e/ou as APMs têm características próprias que devem ser levadas em conta na discussão sobre a Aids. Cada escola saberá como fazer, da melhor maneira possível, a apresentação da questão. Aprendendo a Aids Trabalho na Prefeitura de São Paulo há 10 anos. Primeiro fui vigia de escola e de 1986 para cá passei a ser motorista. Comecei a atender a turma do Projeto Aids em maio de Levo o pessoal para dar palestras e cursos nas escolas e também para visitas a casas que atendem portadores do vírus HIv. Tenho aprendido muita coisa e posso dizer mesmo que mudei bastante depois que conheci aquela mulherada. [O grupo de trabalho e de voluntários do Projeto Aids é formado, em sua maioria, por mulheres]. Antes eu sabia que Aids existia, ouvia falar na televisão, mas não passava disso. Não me preocupava muito com esse assunto. Agora é diferente. Sabe como é, né, não existe homem 20

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