Nascemos a ver ou aprendemos a ver?

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1 Nascemos a ver ou aprendemos a ver? A visão é uma função essencialmente aprendida pelos organismos superiores. Podemos dizer que o processo de visão compreende a sensação e a percepção. A sensação consiste na apreensão de um estímulo vindo do exterior sob a forma de luz, o qual entra no olho e incide na retina. A parte sensorial do processo da visão compreende duas fases, uma física ou óptica e uma fase fisiológica ou bioquímica. Na fase física a luz difundida pelo objecto entra no olho e através do cristalino incide na retina. Na fase fisiológica ou bioquímica, as células sensoriais existentes na retina (cones e bastonetes) e demais células, recebem essa luz e codificam-na em impulsos nervosos, os quais chegam ao cérebro. Uma vez no cérebro, os impulsos nervosos são processados e interpretados em termos de contraste, cor, orientação, profundidade e outras características que permitem a identificação da imagem real. Com a integração destes aspectos particulares, o cérebro proporciona-nos uma representação simbólica do mundo exterior ( objecto visualizado). Esta representação consiste numa imagem que aparece diante de nós exactamente no lugar em que julgamos estar o objecto. A integração dos aspectos particulares e a sua representação em forma de imagem constituem a fase psicológica ou perceptiva do processo de visão. (Fig.1) Figura 1 - Esquemas que ilustram o caminho seguido pela informação visual, desde que é emitida até à sua percepção na região central do cérebro De forma a ilustrar que o processo de visão é essencialmente aprendido, observe com atenção cada uma das imagens seguintes e indique o que vê em cada uma delas, compare os resultados com os de outro observador. Figura 2 Imagens ambíguas onde o todo é mais importante que as partes

2 De uma forma geral podemos dizer que o processo de visão, tal como outros processos de que dispomos, é um mecanismo pelo qual transformamos a informação do mundo físico em informação psicológica, este mecanismo inclui duas partes a sensação e a percepção a primeira mais de carácter fisiológico e a segunda mais de carácter psicológico. A sensação é o processo pelo qual convertemos a informação física em informação nervosa. A percepção é o processo pelo qual convertemos a informação nervosa em informação psicológica. Ou seja, a percepção é o processo pelo qual a informação sensorial é organizada e interpretada. Existem várias teorias para explicar a percepção. Uma delas é a Teoria Gestalt. Esta teoria defende que o todo é mais do que a soma das partes e reafirma que a percepção ocorre segundo algumas regras: a mente completa o que falta (lei do fechamento) ; a mente agrupa o que for semelhante (lei da similaridade) ; a mente agrupa o que estiver próximo (lei da proximidade), os objectos distantes se forem simétricos agrupam-se (lei da simetria), a mente continua um padrão mesmo que este termine (lei da continuidade). A percepção é pois, um processo que permite interpretar a informação recolhida por cada um dos nossos olhos. Em geral, a informação recolhida por cada olho per si, não coincide, logo é a percepção que ocorre no cérebro que justapõe essa informação parcelar para obter então a totalidade que corresponde á representação do objecto visualizado (fig. 3). Figura 3 Visão binocular proporciona a percepção dos objectos nomeadamente a percepção da sua tridimensionalidade. Um dos aspectos mais importantes no processo visual é a percepção da profundidade, ou seja a percepção da tridimensionalidade do espaço que nos rodeia. Por este ser um processo aprendido existem técnicas que são utilizadas pelos pintores e desenhadores para produzir o efeito de profundidade nas suas pinturas e desenhos. Vejamos algumas delas: No desenho em perspectiva (Fig.4), as linhas paralelas parecem que se unem ao fundo, este pormenor serve de chave ao cérebro para gerar a noção de profundidade. Figura 4 Linhas paralelas que se unem para gerar no cérebro a noção de profundidade. (Adaptado de: Sensación e Percepción, Eddie Marrero, Universidade de Madrid)

3 O tamanho relativo dos objectos constitui outra técnica para gerar no cérebro a noção de profundidade. Os objectos mais próximos produzem na retina uma imagem maior que os objectos mais pequenos. Esta diferença de tamanho é aproveitada pelo cérebro para adquirir a noção de profundidade (Fig.5). Figura 5 Tamanho relativo dos objectos gera no cérebro a noção de profundidade.(adaptado de: Sensación e Percepción, Eddie Marrero, Universidade de Madrid) A interposição de objectos constitui-se como outra técnica, quando um objecto tapa parcialmente outro entende-se que o que está oculto estará mais longe (fig.6). Figura 6 Interposição dos objectos gera no cérebro a noção de profundidade.(adaptado de: Sensación e Percepción, Eddie Marrero, Universidade de Madrid) A existência de detalhes nos objectos mais próximos e a sua ausência nos objectos mais distantes constitui-se como chave de profundidade para o cérebro (Fig.7). Figura 7 Diferença de detalhes nos objectos gera no cérebro a noção de profundidade. (Adaptado de: Sensación e Percepción, Eddie Marrero, Universidade de Madrid) A relação entre a fonte de luz e o objecto iluminado e a respectiva sombra são outra técnica usada pelos pintores e desenhadores para transmitir a noção de profundidade (Fig.8). Figura 8 Os objectos e a representação da sua sombra, gera no cérebro a noção de profundidade. (Adaptado de: Sensación e Percepción, Eddie Marrero, Universidade de Madrid) Para manter uma certa ordem no processo de percepção visual, o cérebro necessita de constâncias percepcionais, isto é, o cérebro tem tendência a percepcionar algo mesmo quando as informações sensoriais são contraditórias. A constância de tamanho, isto é o cérebro tende a considerar o mesmo tamanho de um objecto próximo ou afastado, apesar do tamanho da imagem na retina não ser igual. A constância da cor, ou seja, o cérebro consegue continuar a percepcionar a mesma cor apesar de ocorrerem variações na intensidade luminosa (reconhecimento de que para a mesma cor existem várias tonalidades).

4 A constância na forma, quer dizer o cérebro infere que um objecto continua com a mesma forma, apesar da alteração que sofre quando o visualizamos de ângulos diferentes.esta situação está esquematizada na figura seguinte (Fig.9). Figura 9 Constância na forma, apesar da porta estar desenhada sob diferentes perspectivas. Por tudo aquilo que foi referido anteriormente, considera-se que a visão é um processo essencialmente aprendido e porque sabemos quais as regras que consubstanciam a percepção, é possível enganar o cérebro. Ao fenómeno no qual o cérebro se engana devido á visualização de uma determinada imagem denomina-se ilusão. Este engano é meramente interpretativo já que a informação sensorial que lhe chega é correcta! A maioria das ilusões surge quando o cérebro tem que fazer inferências, partindo de informação que pode parecer contraditória. As ilusões ópticas ou visuais podem ser geométricas, cromáticas ou cognitivas. Figura 10 Exemplo de ilusões cromáticas, as figuras ao centro tem exactamente a mesma tonalidade.

5 Figura 11 Exemplos de ilusões geométricas VERDE VERMELHO AZUL AMARELO CASTANHO LARANJA VIOLETA BRANCO (Tente dizer a cor e não a palavra, rapidamente) Figura 12 Exemplos de ilusões cognitivas

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