Aos meus pais e irmãos, pelo que há de bom em mim.

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2 2009 Davi Carneiro Trabalho de Conclusão do Curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo da Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia, Orientadora Profª. Malu Fontes Diagramação Davi Carneiro Capa Carole Santos Revisão Davi Carneiro Carneiro, Davi. Vou Sair Para Ver o Céu: Crônicas de um Mochileiro / Davi Carneiro Salvador: Aos meus pais e irmãos, pelo que há de bom em mim. 1. Crônicas. 2. Viagens. 3. Livro-reportagem. 4. Jornalismo literário 5. Fotos Edição do Autor Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão do autor. 2

3 Agradecimentos Agradeço a Deus, pela sabedoria. Aos meus pais pelo dom da vida e pelo amor incondicional. Aos meus irmãos pela cumplicidade e respeito. À Profª. Malu Fontes, que indicou caminhos e aparou arestas. Aos meus amigos e colegas que sempre demonstraram solidariedade e me ajudaram, nos momentos mais difíceis, a não desistir de realizar meus sonhos, meus objetivos. Vou sair pra ver o céu Vou me perder entre as estrelas Ver de onde nasce o sol Como se guiam os cometas pelo espaço e os meus passos Nunca mais serão iguais Trecho de Busca Vida Paralamas do Sucesso À família World Spru por fazerem desse intercâmbio o melhor ano da minha vida. 3

4 Cartão de embarque Tudo começou no dia 19 de setembro de O placar do Aeroporto Internacional de Salvador indicava o início de uma jornada sem volta. Os caracteres do voo, turvados pela emoção, ganhavam uma distorcida dimensão sobre o vai e vem caótico das pessoas que chegavam e partiam. Com o olhar embebecido e um nó cada vez mais cego na garganta, ia despedindo-me das pessoas que amo, da cidade e do país. A expressão lagrimosa de minha mãe e o tamanho das malas denunciavam: ficaria um bom tempo sem vê-los. Tentava não sofrer de antecipadas saudades, mas não era tarefa fácil. A hora de entrar no Airbus A330 aproximava-se vagarosa e um aperto calava cada vez mais forte no coração. Mas a vontade de alargar horizontes falava mais alto naquele momento. Partia decidido, sem olhar para trás, apesar das poucas certezas. A única que tinha era: tudo mudaria radicalmente em minha vida nos próximos meses. Estaria longe de casa, dos pais, dos irmãos, da namorada e de toda a minha reconfortante rotina no Brasil. Havia sido aceito como aluno de intercâmbio do curso de Comunicação na Universidade do Minho. Eu iria estudar jornalismo por dez meses na cidade de Braga, norte de Portugal. E aquele seria o primeiro dia do resto da minha vida. A oportunidade de estudar em uma das melhores Universidades de Portugal e de morar sozinho no exterior transcendeu a importância da rica experiência acadêmica e do profundo crescimento pessoal. Foi, também, a chance de viajar, conhecer novas culturas e abraçar o mundo. Entre uma aula e outra, a cada oportunidade que surgia, retirava meu mochilão do canto empoeirado no armário e colocava o pé na estrada. De mochilada 1 em mochilada, tive o privilégio de percorrer boa parte da Europa e o Marrocos. Algumas dezenas de aventuras errantes com lápis e bloquinho no bolso, máquina fotográfica em punho e sentidos despertos. Com a mochila nas costas e pouco dinheiro no bolso, explorei lugares nunca antes imaginados. No total foram 49 cidades, 14 países visitados, e muitas histórias para contar. Em uma dessas muitas viagens, deitado a beira da fogueira, olhando para um céu enfarinhado de estrelas e sentindo na pele o vento 1 Viagem realizada pelos turistas independentes, também conhecidos como Mochileiros 4

5 gelado do deserto do Saara, veio a necessidade de repartir experiências vividas. Senti a obrigação de transmitir uma parte daquilo que vivi, senti, e apreendi em minhas aventuras como Mochileiro. Contar sobre aquele final de semana flutuando pelos canais de Veneza e sobre outro na isolada M Hamid. Sobre o sabor do tajine de Marrakesh, do sarmale do Tulcea e do goulash húngaro. Sobre a sensação de ficar frente a frente com o Muro de Berlim e de passar um dia de glamour em Barcelona ou sobre a emoção de subir no Castelo de Praga. Sobre a escolha de conhecer as praias Algarve, a arena de Verona ou as belezas da Romênia. Sobre uma enrascada em Budapeste, o cheiro dos Tannaries em Fez e sobre o pôr do sol em Sfantu Gheorghe. Ou seja, vontade de compreender e traduzir em palavras o espírito de lugares, as singularidades do seu povo e das diferentes culturas, na estreita medida em que os dias de imersão nessas realidades me permitiram sentir. As crônicas de viagem, - fortemente marcadas pelas características do jornalismo literário - foram nascendo uma a uma, como resposta a essas necessidades. O livro, então, surgiu de forma natural, como a leia da causa e conseqüência. Mais do que um relato de viagem ou um livro de crônicas, Vou Sair Para Ver o Céu é, em primeiro lugar, uma viagem de histórias e emoções. Fruto de madrugadas checando promoções das empresas áreas low cost 2, de horas carregando um mochilão nas costas, de momentos vividos no desconforto da estrada e da imersão em realidades distintas. Fruto de cheiros, formas, sabores, cores, alegrias, enrascadas e de um estado permanente de descobertas. O descobrimento de cidades, países e principalmente, de pessoas. Enfim, fruto de dez intensos meses de intercâmbio, viagens, novas experiências e do inigualável gosto da liberdade. Das dezenas de viagens, escolhi as 13 que mais me marcaram. Essa coletânea de crônicas especialmente selecionadas tentam capturar a essência cultural, estética e, principalmente, humana dessas diversas regiões e cidades espalhadas pela Europa e Marrocos. Então, apertem os cintos. Barcelona, Verona, Veneza, Marrakesh, M hamid, deserto do Saara, Fez, Algarve, Praga, Budapeste, Berlim, Delta Dunarii e Stanfu Gheorge serão as proximas paradas. Desejo a todos uma ótima viagem pelos textos e fotos a seguir. 2 Empresas aérea de baixo custo, como a Ryanair e a Easyjet 5

6 Índice Cartão de Embarque 4 Ao doce som da Rumba 8 Dicas do Mochileiro Barcelona 13 Verona, surpreendente 15 Dicas do Mochileiro Verona 17 Suspiros em uníssono dos casais apaixonados 19 Veneza: a cidade improvável 22 Dicas do Mochileiro Veneza 26 Ronaldinho, laranjas e a sintonia mundial 28 Dicas do Mochileiro Marrakesh 31 A cidade do fim do mundo e os dinossauros do deserto 33 Sob um céu enfarinhado de estrelas 36 Do alto da mais alta duna 39 Fez: uma experiência que assalta aos sentidos 42 Dicas do Mochileiro Fez 46 Carta à Dona Saudade 48 A dois passos do paraíso 51 Dicas do Mochileiro Algarve 56 A cidade das cem torres 58 Dicas do Mochileiro Praga 62 Como os pobres mundos se parecem 64 Dicas do Mochileiro Budapeste 65 Prefiro ser essa metamorfose ambulante 69 Dicas do Mochileiro Berlim 73 Deixa eu te contar mais de mim 75 Lua de Sfantu Gheorghe 79 6

7 Dicas do Mochileiro Delta Dunarii e Sfantu Gheorghe 83 Epílogo 85 De volta a Terra do Nunca. 86 Galeria de fotos 89 7

8 Ao doce som da Rumba Porto de Barcelona, Catalunha, 20 de outubro de 2007 Sento-me, acompanhado do grupo de amigos, a beira da marina de Barcelona. O relógio marcava às 19h30min e o chegar da noite trazia o frio como incômodo acompanhante. Ainda nem era inverno e eu já começava a sentir na pele as consequências de ser mal acostumados com o sol da Bahia. Estávamos cansados. Havíamos passado todo o dia zanzando para cima e para baixo pelas ruas da cidade e aquele lindo cenário a beira do Mar Mediterrâneo - com palmeiras e barquinhos a perder de vista - merecia uma parada estratégica. Empacamos, recuperando o ar. Aquele era o nosso terceiro dia na cidade e a cada nova hora passada aqui, vinha à certeza: poderíamos explorá-la - não, apenas, por três dias mas, até por três meses - que não seríamos capazes de descobrir todos os seus encantos. Barcelona, zombateira, se encarregaria de nos encantar e surpreender, sempre. Exatamente como aconteceria naquele momento. O sol já começava a se pôr quando um grupo de músicos de rua, desses que tocam em troca de uns trocados, aproximou-se lentamente de nós. Retiraram seus instrumentos e começaram a aquecer-se sem pressa. Admito que só comecei a dar atenção quando começaram a tocar o melhor do Mambo e da Rumba quase que exclusivamente para nosso grupo. Com três violões, uma sanfona, um cavaco, um reco-reco e um grandioso baixo acústico, tocaram Buena Vista Socal Clube, Tito Puente, Gipsy Kings e outros que não saberia reconhecer. Aplaudimos, dançamos, tiramos fotos e quando o sol finalmente começou a se despedir, simplesmente sentamos e apreciamos o momento. Enquanto a Rumba rolava solta, mantinha o olhar perdido na bola que caia vagarosamente. Divago em pensamentos. Aquele era o primeiro de todos os mochilões e tudo era grande novidade. Aventureiro inexperiente, havia trazido mais roupa do que precisava, porém agasalhos de menos. Viajei no impulso, sem planejamento prévio e por isso seguia todos os passos do grupo. Para finalizar, cometi o pecado mortal de esquecer uma almofada dando sopa no 8

9 albergue. Resultado: passei os quatro dias com frio, totalmente dependente do roteiro alheio e - ainda por cima - sem meu travesseiro. Mas, valeu a pena. Sem esses erros, não existiria o Davi mochileiro capaz de planejar, sozinho, viagens de maior duração e por vários países. Divago, também, sobre minhas primeiras impressões sobre a cidade. Vamos a elas. Barcelona é apaixonante. Aberta a todas as inovações. Rica em seus dois mil anos de história. Mediterrânea. Acolhedora. Moderna. Cosmopolitas. Plural. Mutante. Ensolarada (mesmo em pleno outono). Jovem e um dos melhores lugares do globo terrestre para se divertir intensamente. Uma cidade tão legal que tem dois idiomas oficiais e um povo que faz questão de ser diferente. Barcelona é feita para se viver e compartilhar. qualquer outro lugar do planeta. Somente, talvez, Praga rivalize com Barcelona como um destino turístico especialmente atraente para arquitetos. Fato que se confirma assim que avisto a mais maravilhosa de todas as obras catalãs: o templo expiatório da Sagrada Família. Inacabada e polêmica, está sendo construída há anos, desde que seu criador morreu atropelado por um bonde e a deixou pela metade. Os incêndios na época da Guerra Civil queimaram grande parte dos desenhos e ninguém sabe qual era a idéia do arquiteto. Mesmo assim, a obra impressiona tanto por sua grandiosidade monumental quanto por sua inusitadíssima arquitetura. Visitá-la é como visitar um canteiro de obras - o mais espetacular canteiro de obras do mundo. O seu ponto alto, talvez seja a sua riquíssima arquitetura, que vai do gótico ao Art Nouveau tão aproximadamente quanto dois lados de uma mesma rua. Especialmente o modernismo, que é celebrado na prática a cada esquina. As obras criadas pelas mãos geniais de Gaudí, com sua arquitetura orgânica, não encontram similaridade em Despeço-me da catedral e seguimos em direção a fabulosa Casa Batlló. Construída entre os anos 1904 e 1906, sua ornamentação ficou a cargo dos melhores profissionais da época. O maior destaque é o seu desenho vanguardista, com arrojada personalidade, formas e cores nada convencionais. A edificação é quase uma alegoria: a 9

10 colorida fachada culmina num telhado de azulejos cerâmicos brilhosos em cores azuis e cinza, com adereços avermelhados, que representam o dragão de São Jorge. A nossa próxima visita é número 92 da Avenida Passeig de Gràcia. Chegamos a Casa Milá, também conhecida como La Pedrera. Tudo, da fachada aos gradis dos balcões, das chaminés às grades do portão de acesso, dos puxadores ao mobiliário, foi desenhado especialmente por Gaudí. Este edifício espetacular desafiou todos os meus conceitos de arquitetura convencional. Sem quaisquer linhas retas, suas formas lembram dunas de areia. O aspecto, porém, mais impressionante é o telhado, com uma aparência quase lunar ou de sonho. O arquiteto catalão foi recompensado, postumamente, com a declaração pela UNESCO do edifício como Patrimônio da Humanidade. Da Pedreira, seguimos em direção ao Parc Güell, outra obra-prima de Gaudí. Do seu grande portão de entrada, avistamos a escadaria com o símbolo do parque: o lagarto de mosaicos coloridos. Logo acima, na Sala das 100 Colunas (se você contar, tem menos), que era o espaço pensado para o mercado semanal do loteamento, músicos amadores aproveitam a excelente acústica para ganhar uns trocados. Acima da sala está o banco sinuoso, que faz o contorno de uma grande praça de areia, de onde se tem uma lindíssima vista da cidade. Lugar perfeito para cantarmos os parabéns do aniversariante do dia: Alex, companheiro de viagens e grande amigo. Dizem que temos a obrigação de tentar comemorar, a cada ano, nossos aniversários de forma mais espetacular que o anterior. Estarei lascado no próximo. Será difícil superar isso.. De volta ao centro da cidade, resolvemos visitar um dos centros nevrálgicos da cidade: as Ramblas. Aqui, em seus metros de extensão, acontece de tudo. Artistas fazem e vendem suas pinturas, músicos tocam para os turistas e performers interpretam estátuas humanas. Era a época da Ronaldomania e aproveito para tirar uma foto com um simpático sósia do craque dentuço. O vai e vem de pessoas é impressionante. Não apenas pela mítica do lugar, mas porque a rua é a conexão entre o mar e o centro, e tem ao seu redor alguns dos pontos mais importantes de Barcelona, como o Mercat de la Boqueria, considerado por alguns gourmets como o melhor da 10

11 Europa. Embaixo de uma cobertura de ferro com ares modernistas, uma enorme variedade de produtos frescos compõe um mosaico colorido de cores e aromas. Mas nem pense em ir pondo a mão nos produtos como se estivesse numa feira brasileira. Levar bronca de um catalão não faz parte do programa. Entre a Rambla e a Via Laietana, no final da movimentada rua de pedestres que sai da Plaza Catalunya está a Catedral de Barcelona e sua majestosa praça. A Catedral é uma confusão arquitetônica: a construção começou no século 13 e foi até o 15, mas a fachada só ficou pronta no século 19. A nave é altíssima e o claustro é um pequeno oásis verde no meio de tanta pedra. Ao redor da igreja há um sem-fim de praças e edifícios antigos. Alguns abrigam órgãos governamentais, como a prefeitura e a Generalitat, sede do governo catalão (uma em frente à outra). Outros simplesmente complementam paisagem. O mesmo clima se vê no bairro do Born, embora aqui já com os ares modernos que recentemente tomaram conta desse pedaço da cidade. A rua-chave para se conhecer as adjacências é a Montcada. Nessa ruazinha apertada estão alguns dos mais importantes palacetes da alta burguesia catalã do século 15. Alguns ainda são propriedades particulares. E em três dos mais bonitos e bem conservados palacetes, conectados por uma cuidadosa reforma, está o Museu Picasso. Parte da obra do pintor está espalhada pelos salões desses palácios, em um recorrido cronológico muito bem montado. Na mesma ruazinha há outros museus e várias lojinhas de quadros, joias e artigos de design. A dica para quem quer curtir plenamente Barcelona é relaxar, andar à toa, prestar atenção nos simples detalhes, caminhar de olhos bem abertos e deixe-se levar. Perca-se no Bairro Gótico. Viaje nas formas sinuosas, abstratas e orgânicas de Gaudí. Passeie sem pressa pelo Parc Guell e depois, lá de cima, admire a bela vista da cidade. Esteja constantemente atento, olhando para cima, para baixo e para os lados, para não perder os detalhes modernistas da Passeig de Gràcia. Faça uma visita guiada no Camp Nou, o estádio do Barcelona. Atravesse os metros das Ramblas. Compre uma fruta na La Boqueira. Assista ao belo espetáculo da Font Màgica, perfeitamente emoldurada pelo Palácio Nacional. 11

12 Caminhe por Barceloneta e permita-se molhar os pés nas águas do Mediterrâneo. Caia na balada sem remorso. Durma até tarde e acorde querendo repetir o programa. Escute o grupo de rumba, que tocar exclusivamente para você. Tudo bem, em Barcelona é assim mesmo. Só não seja um turista afobado. Ou você corre o risco de perder o melhor da cidade: seu astral descompromissado, aventureiro e arrebatador. De volta à marina, depois de incontáveis minutos divagando em pensamentos, volto à realidade em tempo de curtir os últimos acordes da Rumba. No final da apresentação, aproveito para cumprimentar os músicos ( saludos desde Brasil ), comprar o CD da banda e agradecer. Gracias, señores. Es por momentos como este que se vale la pena compartir este mundo. 12

13 Dicas do Mochileiro Barcelona Barcelona é uma das cidades mais fascinantes do mundo. Se bem aproveitada, ela irá oferecer desde arte e cultura a baladas inesquecíveis. Abaixo algumas dicas para que os mochileiros de plantão não paguem aquele mico em terras catalãs. -- > Não se hospede nas Ramblas. Com raras exceções a maioria dos hotéis e pensões são descuidados e caros. Prefira as ruazinhas ao redor, mais tranqüilas e com melhores opções. Ficamos no Kabul Backpackers Hostel na Plaça Reial nº 17. Limpo, agradável, seguro e, principalmente, não foi caro. Recomendo. Maiores informações em -- > O melhor é conhecer Barcelona a pé. A cidade é muito mais bela quando o turista se deixa perder pelas ruelas do Barri Gòtic ou pela arquitetura modernista da Gràcia ou pela profusão de atividades das Ramblas. Com disposição, você precisará pouco de metrô ou ônibus, que interligam toda a cidade. Mas, se bater a preguiça, compre o bilhete T-10, que dá direito a dez viagens. Já o Bus Turistic leva os turistas de uma atração turística a outra. Todas essas informações estão no site da companhia: -- > Barcelona, como toda a Catalunha, é uma cidade bilíngüe: o espanhol (ou castelhano, como preferem os catalães) e o catalão são línguas oficiais. O espanhol é entendido por todos os habitantes; porém a língua franca é o catalão, usado nas conversas entre amigos, na família e no trabalho. Não ouse dizer a um catalão que sua língua é um dialeto do castelhano! Os catalães são muito orgulhosos de sua cultura e muitos não gostam que se dirijam a eles em castelhano. Por isso, ensaie algumas palavrinhas na língua local ou ao menos pergunte antes se podem conversar em espanhol. -- > Nunca ande com a carteira no bolso de trás, com objetos de valor na mochila, com a bolsa aberta e/ou descuidada, etc. Enfim, esqueça que você está no primeiro mundo e comporte-se como se estivesse no Brasil. Os batedores de carteira estão sempre à espera de uma distração ou uma aglomeração (e nas Ramblas isso tem de sobra) 13

14 -- > Nas Ramblas, os preços dos restaurantes são exageradamente salgados. Contudo, suas ruas adjacentes abrigam pequenas lojas de bocadillos, que podem manter qualquer em pé o dia todo. O bocadillo de tortilla é o mais recomendado, tanto por ser um dos mais baratos e gostosos quanto por encher bastante. Fuja, porém, dos bocadillos da Pans and Company (um maldito fast food que tem uma filial em cada esquina). O serviço é péssimo e a comida é ruim. -- > Um prato tipicamente catalão é o creme catalana, uma pasta que em si não é muito doce, mas que recebe uma camada de açúcar que, por causa da utilização de um maçarico de cozinha, fica crocante. Vale a pena experimentar. -- > Se preferir comprar nos supermercados, escolha os da marca Dia. Dê preferência aos produtos da marca do supermercado que são sempre os mais baratos. Há por todos os lados, inclusive um na Rua Nou de la Rambla, 18 (margem direta no sentido Plaça Catalunya- Port Vell). -- > Como turistas desavisados, pagamos o mico de ir a uma balada nos vários restaurantes e bares do Porto Olímpico. Chegando lá encontramos go-go dancers com celulite, mojito de 10 euros e muitas prostitutas. Fuja de lá! -- > O flamenco é uma coisa altamente espanhola, como todo mundo sabe. Mas, a cultura catalã é bastante particular. Por isso, aqui não se escuta flamenco de qualidade em cada esquina. E os shows dos folhetos distribuídos em albergues e hóteis correm sério risco de ser uma furada. Você só deve se preocupar com flamenco em Barcelona se alguma companhia de dança conceituada estiver pela cidade, o que acontece com certa freqüência. Anote esses nomes: Rafael Amargo, Sara Baras, El Ballet Flamenco de Andalucía e Joaquín Cortés. Todas as informações foram apuradas no dia 20 de outubro de 2007 e atualizadas via internet no dia 20 de outubro de

15 Verona, surpreendente Verona, norte da Italia, dia 3 de janeiro de 2008 Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha fronte, como o emissário alado das alturas poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais atônitos, que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar sereno. Ao mesmo tempo em que lia baixinho - aqueles geniais versos, imaginava quantas donzelas não teriam sonhado em estar sob aquela varanda, pelo menos uma vez na vida, ouvindo as palavras apaixonadas do seu Romeu. Um sonho romântico que poderia facilmente ser realizado nesse exato momento. A lojinha - onde Renata se divertia - está localizada na Casa da Julieta (via Cappello, 23, Verona, ), um dos principais pontos turísticos da surpreendente Verona. Esperava por minha namorada que se divertia, como uma criança, escolhendo lembranças no souvenir shop, quando as frases daquele cartão meio escondido no canto da prateleira - chamaram minha atenção. Retirei-o com cuidado da estante. Os versos, estampados em grandes letras douradas, antecediam uma representação da estória de William Shakespeare. O jovem Romeu Montecchio - após, malandramente, pular o alto muro do jardim dos Capuletos declarava juras de amor eterno a bela Julieta. A jovem derrete-se, debruçada na sacada de casa, suspirando apaixonada. Começa ai a mais famosa e trágica - história de amor. Tudo está ali exatamente como na história. A sacada mais famosa do mundo, suposta testemunha do amor Shakespeariano, ergue-se entre os telhados vermelhos das casas da vizinhança. Abaixo, casais tentam achar um lugarzinho na parede de tijolos para rabiscar o seu eu te amo em meio às centenas de declarações vindas dos quatro cantos do planeta. Do outro lado do jardim, dezenas de turistas fazem fila no jardim para tirar uma foto segurando o seio já lustrado e desgastado da estátua de bronze da Julieta. Dá sorte no amor, dizem. Preferi não pagar o mico. 15

16 A verdade é que a Casa da Julieta nada mais é do que uma jogada de marketing genial. De olho no grande potencial turístico da história, que só aconteceu na ficção, os veronenses construíram uma sacada em um sobrado e o denominaram Casa da Julieta. Hoje em dia a casa recebe mais de 2,5 milhões turistas por ano. Existe, também, uma extensa fila de pessoas dispostas a pagar entre 600 euros e euros para se casar aqui. Para mim foi uma atração que valeu muito mais pelo poder que Romeu e Julieta despertam no imaginário popular do que pelo seu real e quase inexistente atrativo estético, histórico ou arquitetônico. Para além da hipérbole Shakespeariana, encontramos muitos outros motivos para considerar Verona um dos lugares mais especiais de toda mochilada pela Itália. Admito que não esperava muito (minha grande expectativa chamava-se Veneza) mas, bastou colocar os pés na cidade para que ela se encarregasse de me surpreender de muitas formas. O momento da chegada, por si só, já valeu a visita. Já havia visto neve antes, nos 250 quilômetros que separavam Florença e Verona. Especialmente na parada em Modena. Mas, foi aqui a primeira vez que vi a neve cair do céu. Nada pode descrever emoção de ver aqueles flocos graúdos caindo das nuvens como naquelas redondas caixinhas de música dos filmes. Simplesmente mágico. No caminho da estação até o nosso hotel, fomos papeando com o motorista. Vocês deram muita sorte. Começou a nevar ontem à noite. Isso não acontecia em Verona há anos. A cidade fica ainda mais romântica assim. Disse seu Joseph, taxista a mais de 30 anos. Tive que concordar: a experiência de vagar por aquelas ruas, em uma noite de inverno, pode fazer até os mais céticos acreditarem que a trágica história de amor entre Romeu e Julieta tenha realmente acontecido. Outra agradável surpresa aconteceu quando o táxi do simpático Joseph chegou ao seu destino. Eu e Renata resolvemos, depois de dias dormindo separados em albergues, nos dar o luxo de escolher um hotel. O Hotel Maxim foi de longe a escolha mais feliz de toda a viagem. Confortável, bem localizado e surpreendentemente luxuoso. E o mais importante, não foi caro. 16

17 No outro dia, partimos para o centro histórico, considerado Patrimônio Mundial pela Unesco. Resolvemos que o ponto de partida ideal seria a Praça Brà e seus imensos portões. As atrações em Verona, por sinal, são muito fáceis de serem visitadas. Agrupadas e próximas, podem ser vistas todas num só dia de caminhada. Todos os caminhos convergem para a imensa Arena (www.arena.it; Piazza Brà; adulto/estudante/criança 4/3/1 euros), um anfiteatro romano com capacidade para espectadores construído no primeiro século d.c., durante os últimos anos do imperador Augusto. Atualmente, seus arcos de pedra e tijolos em formato oval de 139 m. por 110 m. (segunda maior arena da Itália) abrigam espetáculos de música lírica, ópera e concertos. No lado direito da praça, está o neoclássico Palazzo Barbieri, construído no século XIX e sede do governo municipal desde 12 de outubro de Já o lado esquerdo é dominado por uma fileira de restaurantes e cafés cheia de turistas. Da Piazza Bra, fomos ao longo da Via Mazzini até a Praça Dell Erbe, conhecida por seu mercado diário a céu aberto de roupas, frutas, legumes e verduras. Através do Arco della Costa, a Piazza dei Signori é cercada por muros medievais e pelo Pallazo degli Scaligeri, a residência oficial da família Della Scalla. Ocupando o lado norte da praça está o Loggia del Consiglio, a antiga Câmara Municipal e uma linda construção renascentista do século 15. Mais ao norte, na Piazza di Sant Anastasia, está a igreja Sant Anastasia, o exemplo mais imponente de construção gótica da cidade. Voltando pela Via Mazzini seguimos até a Via Cappello. No interior de um largo, meio escondida, está a casa número 23. A Casa da Julieta. O cartão do início do texto, com suas letras douradas e versos de William Shakespeare, custava caro principalmente para um mochileiro com parcos e contados euros. Mas, o comprei assim mesmo. 17

18 Dicas do Mochileiro Verona aproximadamente a 12 km do Centro da Cidade. Há serviço regular de ônibus do aeroporto a cada 20 minutos até a Estação Porta Nuova. Verona é uma cidade surpreendentemente elegante, charmosa, bonita e romântica. Não deve ser menosprezada em qualquer mochilão pela Itália. Ainda mais por ter uma localização privilegiada entre Milão e Veneza. Vamos às dicas. -- > A estação rodoviária principal da cidade fica em frente à estação de trem. Os ônibus 11, 12, 13 e 14 da companhia AMT (www.amt.it) fazem a conexão da Piazza Brà com a estação de trem. Tickets (a venda em lojas de tabaco ou bancas de revistas) custam > Para economizar dinheiro na hora de aproveitar as alterações mais importantes de Verona, a dica é obter o Cartão de Verona. O cartão, que custa 10 euros para um dia ou 15 para três, permitirá o acesso aos mais importantes atrações da cidade, incluindo o anfiteatro, o teatro romano, a casa da Julieta, além de acesso gratuito aos serviços AMT de ônibus da cidade. -- > A Estação da Cidade chama-se Verona Porta Nuova. Há trens diários que fazem o roteiro entre Milão e Veneza e entre Brennero e Roma. Da Estação, pode-se pegar um táxi - que custará em média oito euros até a Piazza Bra - ou os ônibus urbanos linhas 11, 12, 13, 14, 72 e 73 que também vão da estação ao centro turístico. O Aeroporto Internacional Verona-Villafranca fica situado -- > Pegue o ônibus 41 para visitar o Santuário S. Maria di Lourdes, localizado na ponta da colina mais alta de Verona. A panorâmica é deslumbrante. -- > O Hotel Maxim (Via Belviglieri, 42, foi a nossa grande descoberta em Verona. Na época, dia 3/1/2008 o Maxim Hotel custou 40 euros pelo quarto duplo. Outra boa dica é o albergue da juventude da rede H.I Ostello Villa Franccescatti (Salita Fontana del Ferro, 15 tel: ) no centro da cidade. Todas as informações foram apuradas no dia 03 de janeiro de 2008 e atualizadas via internet no dia 28 de outubro de

19 Suspiros em uníssono dos casais apaixonados Arredores da Stazione di Santa Lucia, 04 de janeiro de 2008 O trem regional número 5497 havia partido da Stazioni Porta Nuova, em Verona, há exatas duas horas e quinze minutos. Viajavam em nossa companhia várias famílias e muitos jovens. Enquanto Renata tirava um merecido cochilo apoiada em meus ombros, me divertia observando os italianos. Era incrível como todos em minha volta faziam questão de falar altíssimo, gesticular e pronunciar incontáveis Mamas Mias. Apesar do cansaço, não conseguia dormir. Não parava de pensar que em poucos minutos iríamos chegar à cidade mais enigmática e esperada de todo o mochilão pela Itália. Uma parada brusca foi o sinal de que chegamos à estação ferroviária Santa Lucia, principal porta de entrada da cidade. Sem muito tempo a perder, ajudo Renata ajeitar a mochila nas costas e partimos em direção a um guichê de informação. Uma simpática atendente explica que a única forma de chegarmos ao nosso albergue era via Vaporetto 3. Achei o preço de seis euros por viagem bem caro, mas como a outra única opção era ir nadando, não tivemos muita escolha. Na saída da estação, um anfitrião nada convidativo nos esperava: um céu carregadíssimo anunciava que vinha muita chuva por ai. Será que São Pedro iria bagunçar o babá logo na cidade que eu mais queria conhecer? Começo a lembrar como havia me preparado para aquele momento. Tinha lido com voraz curiosidade tudo que achei sobre Veneza. Sobre sua história, monumentos, canais, ruelas, gôndolas e máscaras. Tinha quase que decorado todos os parágrafos desse capítulo no guia de viagens do Zé. Mas, nem todos os Lonely Planet 4 do mundo poderiam me preparar para aquilo. Nada poderia antecipar o sentimento arrebatador ao entrar na primeira curva em S do Grande Canal. Ali estava, abrindo-se com a delicadeza de um botão de rosas, a Veneza dos meus sonhos: enigmática, flutuante, excêntrica e improvável. Daquelas ruas feitas de água, erguiam-se inúmeras casinhas, palácios de mármore e imponentes 3 O Vaporetto é uma embarcação típica de Veneza. É usada como meio de transporte público nos canais da cidade. 4 Guia de viagem americano, considerado um dos mais completos do mundo. 19

20 pontes. Era possível ouvir o luar sobre a cidade e os séculos de história que fluíam dos seus canais. Ouvia-se o suave vai e vem das gôndolas, o bater das águas nos prédios e os suspiros em uníssono dos casais apaixonados. Já havia me esquecido completamente do mau tempo quando me dei conta do sorriso bobo que acompanhava minha incredulidade. A sensação de experimentar Veneza pela primeira vez a gente nunca esquece. O vaporetto nos deixa na estação Zitelle, vizinha ao nosso albergue. O Ostello di Venezia é um charmoso prédio antigo adaptado para receber os 254 mochileiros de todos os cantos que enchem seus cômodos durante todo ano. O Ostello era o ponto de encontro com nossos parceiros de mochilada, Zé e o Alex. Eles chegaram à cidade no dia anterior e entre um pedaço de pizza e outro nos mostraram as fotos e deram dicas de onde comer sem decretar total falência. Ainda estava embriagado da beleza veneziana quando um susto me trouxe bruscamente a realidade. Simplesmente não conseguia encontrar meu passaporte em lugar nenhum. Procurei em todos os cantos feito um doido e quando a ficha finalmente caiu, não consegui acreditar na burrada que havia feito: tinha deixado o bendito em Verona! Antes de pegar o trem 5497, paramos em uma lan house para checar s. O dono pediu um documento e eu - com minha cabeça de vento - dei aquele que estava mais fácil de apanhar: o passaporte. Só havia dado conta que me esqueci de pegar de volta a 340 quilômetros de distância. Pelas barbas do profeta. E agora? O que fazer? Para a minha sorte, estava acompanhado do meu anjinho da guarda. Por algum milagre divino, Renata conseguiu lembrar o primeiro nome da lan house. Ela ainda teve a brilhante idéia de procurar o telefone na internet. Quem sabe não temos sorte e encontramos algum telefone? E não foi - que por outro milagre (dessa vez chamado Google) - conseguimos mesmo achar o tal número?! Corremos para o primeiro orelhão. Depois de várias tentativas frustrantes, outro golpe de sorte - fizemos contato. Ainda tentei alcançá-los quando percebi que haviam esquecido o passaporte, mas, em questão de segundos, vocês haviam sumido pelas ruas de Verona. Não se preocupem que ele está guardado e bem seguro comigo disse o dono da lan em um inglês macarrônico e de forte sotaque italiano. Ufa! Que alivio... 20

21 Já estava planejando a volta até Verona quando outros dois salvadores entraram e ação: David, nem se preocupe. Esqueceu que é para lá que vamos amanhã cedo? Anota ai o endereço que pegamos o passaporte para você. Tinha esquecido que os meninos iriam fazer o caminho inverso do nosso. Que sorte a minha! Não precisaria perder o meu valioso dia em Veneza. Eu estava em uma cidade divina, tinha presenciado um milagre e estava em companhia de anjos. Nem senti a falta das auréolas e das trombetas para me sentir no paraíso. 21

22 Veneza: a cidade improvável Se tivesse de procurar uma palavra que substituísse "música" poderia pensar em "Veneza". (Friedrich Nietzsche) Ostello de Venezia, dia 5 de janeiro de 2008 Eram as sete e meia da manhã quando o celular despertou estridente. O sol levantava-se aos poucos, tímido, distribuindo seus raios pela Praça São Marco e fazendo ainda mais intenso o brilho dos mosaicos dourados na fachada da Basílica. A vista da janela do Ostello, lindíssima, era um merecido presente para aqueles corajosos hospedes que, assim como nós, tiveram a coragem de levantar cedo. A vontade de dormir - mesmo que por mais alguns minutos - foi vencida pela ansiedade. O romantismo encantadoramente clichê de Veneza e suas cenas surreais já estavam de pé. E nos convidava a conhecê-la. O tempo havia melhorado sensivelmente em relação ao dia anterior. O céu estava limpo e não havia sinal de alguma nuvem chata que anunciasse chuva. O vento congelante também havia dado uma justa trégua. Após o café da manhã, partimos em direção ao ponto turístico mais famoso de Veneza: a Piazza San Marcus. Já do outro lado das águas, os leões alados - símbolo da cidade - sinalizaram que chegamos ao nosso destino. Ao adentrar a Praça São Marcus fica fácil perceber por que Napoleão a considerou o salão mais belo da Europa. Seu grandioso pátio, rodeado pelo Palazzo Ducale, pela imponente Torre do Relógio e pelo Campanile, é espetacular. Mesmo lotada por uma multidão de pombos e de turistas. Fiquei impressionado. Como era possível aquela quantidade de gente tão cedo da manhã? De um lado, o grupo de alemães tirava fotos cobertos pelas aves. Do outro, dezenas de japoneses filmavam, com suas câmeras super potentes, cada detalhe do lugar. Crianças corriam atrás do vendedor de balões, policiais tentavam por alguma ordem na bagunça enquanto mais e mais grupos chegavam sem parar. Quanto aos pombos, a situação é ainda mais crítica. Estima-se que existam nada mais nada menos que 120 mil ninhos próximos aos palácios e igrejas de Veneza, o equivalente a duas vezes a população da região. 22

23 Acima de todos e indiferente ao vai e vem caótico dos turistas está a majestosa Basílica São Marcos. Sua fachada, exemplo da arquitetura bizantina, atrai todos os olhares. Construída no século IX em estilo gótico para receber as relíquias de São Marcos, sofreu um incêndio em 976 que danificou sua estrutura. A fachada atual é de Suas cinco abódoas formam um jogo geométrico perfeito com os cinco portais da fachada principal. Seu interior é espetacular, rico em mármores oriental, belas colunas, jóias luxuosas e mosaicos dourados. Ao lado da Basílica está o Palazzo Ducale, antiga residência oficial dos Duques e sede do governo republicano. O exterior do edifício - feito todo em mármore e com arcadas góticas - é impressionante. Na parte interna, que antigamente era um misto de senado, suprema corte, câmara de tortura e prisão, funciona um museu com obras de Bosch, Bellini, Carpaccio, Veronese, Tiziano e Tintoretto. Ligando o palácio à antiga prisão, está a famosa Ponte dos Suspiros. Contam que os prisioneiros condenados a morte, ao atravessar a ponte, viam a cidade pela última vez e suspiravam de tristeza. Hoje, décadas depois, os suspiros continuam. Só que dessa vez de incredulidade. A Torre da Campanile, no centro da praça, é a construção mais alta de toda Veneza. Originalmente construída para servir de orientação às embarcações que se aproximavam, ela é o melhor ponto de observação da cidade. A vista lá de cima é de tirar o fôlego. Antes de me despedir de São Marcos, dou uma boa olhada na Torre dell'orologio (Torre do Relógio). Construído por Codussi entre 1496 e 1499 para homenagear a Nossa Senhora, ele é formado por um corpo central e três andares. Seu engenhoso aparelho, apresentado em azul-escuro e em desenhos incrustados em dourado, indica as estações do ano, as horas e as fases da lua. Na parte superior, uma imensa escultura - representando dois gigantescos mouros com um martelo na mão - bate, mecanicamente, o sino na hora certa. Acerto o meu telemovel 5, que até o final do intercâmbio ficou sintonizado com aquele imenso relógio azul e dourado. 5 Como os portugueses chamam o celular. 23

24 Seguindo o fluxo dos turistas, chegamos a Rua Campo della Caritá. Lá está a Galleria dell'accademia (www.gallerieaccademia.org. Ter. a dom., 8h15/19h15; seg., 8h15/14h.), uma das galerias de arte mais famosas de Veneza. Sua coleção conta a história da arte veneziana dos séculos XIV ao XVIII com destaque para os trabalhos de Paolo Veronese, Bellini, Mantegna, Carpaccio e Tintoretto. Atravessamos até a margem na oriental da cidade pela lindíssima Ponte de Rialto, a mais antiga e mais famosa sobre o Grande Canal. Lá encontramos o Mercado de Rialto, que abastece a cidade desde Aproveito para paquerar cada detalhe do lugar: da arquitetura dos palacetes ao redor a maneira harmoniosa como os mercadores dispõem seus produtos, que vão de mariscos fresquíssimos a cogumelos, queijos e frutas, com destaque para os vinhos provenientes das diferentes regiões do país. Não resisto a uma maçã incrivelmente vermelha e sigo o caminho a largas mordidas. Continuamos andando, calmamente, pelas ruas cidade. Aqui, se perder é uma consequência natural. Suas centenas de becos e ruelas curvas formam um grandioso labirinto. E não poderia ser diferente. Veneza foi construída sobre 117 ilhotas, tem 150 diferentes canais e mais de 400 pontes. Então, se no meio de um passeio, der conta de que está completamente perdido: não se desespere. Basta olhar para o lado. Muito provavelmente você não será o único desorientado com um inútil mapinha na mão. Faça como eu: ao perceber que estava totalmente desorientado, resolvi relaxar e deixar-me perder. Foi ai que tive alguns dos meus maiores momentos de prazer na cidade. Ao se envolver nas teias de sua inevitável atmosfera de sonhos é fácil compreender que, apesar da beleza dos seus monumentos, a atração principal de Veneza é à cidade em si. Seja caminhando sem rumo em seu labirinto de ruelas apertadas ou ao entrar nas belíssimas lojas de máscaras. Seja ao sentar a beira de um canal para molhar os pés no mar Adriático ou observando o cruzar das gôndolas e dos casais apaixonados. Seja observando os hábitos dos locais ou ao tomar um saboroso sorvete de nutella. Seja admirando suas casas antigas ou suspirando em alguma de suas belas pontes, que parecem objetos de decoração. A essência veneziana mostrou-se extremamente delicada e romântica em seus pequenos detalhes. Impossível não sentir tempo passar mais devagar diante de tanta beleza. Um singelo poema de autoria desconhecida 24

25 resume bem aquela atmosfera onírica: "Todas as histórias de amor acontecem em Veneza / mesmo as que não acontecem por aqui". Já estava se aproximando da hora de nos despedir da cidade. Olhando para o Grande Canal, relembro de tudo que vi e procuro uma palavra definir Veneza. Logo desisto: aquela era uma verdadeira perda de tempo. Este lugar desafia definições. Muitos, de Twain a Nietzsche, tentaram a difícil façanha de descrevê-la. Certas coisas, porém, só podem ser entendidas plenamente quando vividas, sentidas, compartilhadas e repartidas. E esta é definitivamente uma cidade para ser vista e vivida. Mesmo assim, eu ainda tinha alguma dificuldade em acreditar que ela era realmente de verdade. Fiquei ali, sobre uma daquelas pontes, olhando o vai e vem de turistas, tomando um gelatto italiano com Renata e suspirando de antecipadas saudades. 25

26 Dicas do Mochileiro - Veneza Veneza é uma cidade lindíssima, leve, lírica, poética e romântica, mas também assustadoramente cara (sim, até mais do que Roma e Milão). Tudo aqui custa o olho da cara, principalmente para nós, mochileiros. Um hotel de classe turística custa pelo menos 90 euros e um restaurante simples cobra cerca de 30 euros por pessoa pela refeição, fora as taxas. Abaixo estão algumas dicas para evitar que a Veneza dos seus sonhos se transforme em um total pesadelo para os seus bolsos. -- > Se possível, viaje na baixa temporada. Além de mais barato, você apreciará a cidade com mais calma e sem ser atropelado por uma multidão de turistas. Evite os meses do outono (devido às inundações frequentes nessa época do ano) e o pico do verão (pelo intenso calor e pelo cheiro ruim comum nesse período). -- > Na hora de comer, a dica é evitar áreas turísticas como a Rialto e a Praça São Marcos. Procure os lugares onde dos nativos comem. Nas sestieres de Dorsodoro, Castello e San Polo come-se bem e barato. Outra dica é procurar pequenos mercados locais, onde é possível comprar frutas, pães e outras guloseimas para lanches rápidos. -- > Outra boa dica é fazer todo o percurso pela cidade a pé. Além de economizar os muitos euros do vaporetto, essa é uma experiência extremamente prazerosa. -- > Para aqueles que planejam ficar apenas um dia em Veneza, a minha sugestão é ir bem cedo e voltar à noite, evitando dormir na cidade. Pode-se pegar o primeiro trem bem cedo pela manhã e partir no último horário à noite. Cidades como Pádua, Verona, Bolonha e Milão ficam pertinho (quarenta minutos, uma hora e meia, duas horas e três horas de viagem de trem, respectivamente). -- > Cuidado com trombadinhas. Como em toda cidade turística é sempre bom ter atenção redobrada com seus pertences. Não ande com a carteira no bolso de trás, com objetos de valor na mochila, com a bolsa aberta ou descuidada. 26

27 -- > Um aviso aos apaixonados de plantão: andar de gôndola em Veneza é caríssimo. Um passeio de 35 minutos custa cerca de 80 euros. Mas, se esse for realmente o seu sonho romântico, não desanime e negocie bastante. Normalmente você vai conseguir diminuir em torno de euros do preço inicial. Tente barganhar no tempo, é mais fácil. As gôndolas estão disponíveis junto aos principais canais ou podem ser agendadas pelo telefone ( ) ou nas várias stazis (estações) como em Rialto ( ) e na estação de trem ( ). -- > Se depois de ver o essencial, você quiser um pouco de paz, é hora de caminhar pelos bairros mais afastados do Grande Canal, como Castello, Dorsoduro, Santa Croce ou San Polo. Sentir a Veneza dos venezianos, longe das multidões de turistas, é uma experiência fascinante. programas imperdíveis. A forma mais barata de chegar às ilhas é de vaporettos. Eles saem do ponto San Zacarria, em frente a San Marco. -- > Em fevereiro acontece o famoso carnaval de Veneza (www.carnevale-venezia.com), o maior evento do ano na cidade. É quando venezianos e muitos estrangeiros vestem figurinos espetaculares e as famosas máscaras para uma semana de festa até a véspera das quartas-feiras de cinzas. -- > Dentro da Stazione di Santa Lucia há um balcão de informação turísticas no lado oposto à APT escritório. O deposito para bagagens (primeiras 5hr - 3,80 euros, depois 0,20 euros por hora ) fica do lado oposto plataforma 14. A estação Mestre tem serviços semelhantes, incluindo balcão de informação e deposito de bagagem (primeiras 5hr 3,80, próxima 7hr 0.60c, depois 0,20 por hora; h7am-11). -- > Não deixe de ir às ilhas de Murano, Burano e Torcello. Ver, ao vivo, a fabricação dos famosos vidros de Murano, passear pelas casinhas coloridas em Burano e visitar a catedral de Torcello são Todas as informações foram apuradas no dia 5 de janeiro de 2008 e atualizadas no dia 28 de outubro de

28 Ronaldinho, laranjas e a sintonia mundial Praça Djemaa el Fna, Marrakesh, dia 08 de fevereiro de 2008 Jamais me passaria pela cabeça tão inusitada situação em plena Djemaa el Fna, coração pulsante de Marrakesh. Foi ali, na mais famosa praça de todo o Marrocos - em meio a uma horda de acrobatas, turistas, macacos e encantadores de serpente - que percebi o quanto o mundo está cada vez menor. Além de menor, cada vez mais redondo. Redondo como uma bola de futebol. Foi naquela praça gigantesca, de um caos frenético e hipnotizante, que conhecemos Simon, nosso simpático vendedor de suco de laranja. Sua barraquinha de nº 34 somava-se a dezenas de outras de teto branco. Nelas podia-se encontrar de tudo, desde tâmaras cristalizadas a sopa de miolos de carneiro. Simon nos atraiu com a promessa do suco mais doce da cidade. Suas laranjas, redondas como o globo terrestre, impressionavam pelo tamanho e pela cor: um alaranjado forte e intenso. O preço do copo era uma bagatela. Cada um custava apenas três dhrans, ou seja, trinta cents de euro. Para completar, ainda tínhamos direito a um generoso chorinho. Tentador demais para resistir. Fomos conferir, sedentos. E para a surpresa geral, o suco era realmente uma delícia. Docíssimo e bem gelado. Sem a menos comparação com aquela porcaria industrializada que era obrigado a engolir a meses em Portugal. Deu até aquela saudade da variedade de sucos lá de casa, muitas vezes feitos com fruta tirada do pé do quintal do sitio. Manga, umbú, cajá, acerola, graviola, cajú e é claro... laranjas. Viramos fregueses assíduos da barraquinha nº 34. Por sinal, jus d'orange (suco de laranja) foi uma das poucas palavra em francês que consegui aprender com perfeição nesses onze dias no Marrocos. Em pouco tempo, virou minha palavra preferida. Bonjour monsieur. Un jus d`orange, s`il vous plait., repetia com imensa satisfação. Entre um copo de suco e outro, Vitão - o único que falava bem francês - exercia sua função de intérprete oficial. Era quem tomava a iniciativa, negociava os preços e puxava a conversa. De sorriso fácil, 28

29 nosso vendedor mostra uma visível empolgação quando Vitor lhe contou que éramos brasileiros. Disse ser apaixonado por futebol. Sou um grande fã do futebol brasileiro, principalmente de Ronaldo Gaúcho. Ele é fantástico. Vitão, com seu senso de humor impagável, disse que eu também era jogador profissional no Brasil. Jogava em um time que atualmente estava mal das pernas, mas que tinha um passado glorioso: o Esporte Clube Bahia. Simon ficou tão feliz com a notícia que achei covardia desmentir. Fez questão de me dar um caloroso comprimento e de tirar fotos comigo. Essa vai fazer muito sucesso com os meus amigos, vou guardar de recordação, disse bastante empolgado. De quebra ainda ganhei um caprichado copo de suco de laranja grátis. Foi incrível como encontrei apaixonados por futebol em todos os países do mochilão. Em muitos fui tratado com imediata simpatia pelo único fato de ser brasileiro. Não importava se estávamos no Marrocos, na Holanda, Itália, Romênia ou na República Checa. Sempre ouvia a mesma frase, acompanhada de um caloroso sorriso: Ahhh Brazil. I love soccer, Rolnaldo, Ronaldinho, Kaká. A paixão internacional pelo futebol é explícita, transborda a todos os sentidos. Tive o privilégio, por exemplo, de acompanhar os gritos de guerra da incansável torcida do Milan, de ver uma pelada na fronteira com o deserto do Saara e de conversar com um búlgaro que sabia de cor e salteado a escalação da seleção campeã em 94. Sou fã da dupla Bebeto e Romário. Já vestido com uma camisa do Barcelona, antes guardada em um canto da barraca, Simon disse que gostaria de nos mostrar algo. Puxa do bolso um moderno celular e faz uma busca na sessão de vídeos. Na tela, conferimos o confronto entre o time do Barcelona e o Villareal. O vídeo é do dia 25 de novembro de 2006 e pode-se ver o estádio do Camp Nou 6 lotado. Já decorriam 43 minutos do segundo tempo e o placar marcava 3x0 para o Barcelona. Mesmo assim, o time azul grená não estava contente. Continua a pressionar o adversário. De repente, em uma jogada pela direita, a bola sobra para o espanhol Xavi que mete um balão para dentro da área. Rápido como um raio, Ronaldinho antecipa a zaga adversária, mata a bola no peito e - em uma jogada genial - vira em uma bicicleta. Um 6 Estádio do F.C. Barcelona 29

30 golaço! Nosso simpático vendedor vibra como uma criança. Só um esporte como o futebol é capaz de unir e sintonizar povos tão distantes e diferentes como os brasileiros e os marroquinos. Independente de credo, cor ou nacionalidade, somos ligados por uma paixão, completa. Sem palavras diante da inusitada situação - tão inesperada quando a ligação entre Ronaldo Gaúcho, a sintonia entre diferentes povos e laranjas marroquinas - só me resta concordar com tão sábia conclusão e pedir mais um suco de laranja. - Un jus d`orange, s`il vous plait. 30

31 Dicas do Mochileiro - Marrakesh Marrakesh é uma cidade que fascina em todos seus detalhes. Pelas cores, sabores, odores, sons, contrastes, exotismos, arquitetura, jardins, cultura e principalmente por sua gente. Não é exagero dizer que ela guarda, dentro de suas muradas, tudo o que os viajantes querem conhecer no Marrocos. Em seu coração está a fantástica Praça Djemaa El-Fna, palco de performances, saltimbancos, acrobatas, encantadores de serpentes, faquires, engolidores de espada, curandeiros, músicos, dançarinos, contadores de histórias e mais tudo que você imaginar. Abaixo algumas dicas para explorar melhor este caos hipinotisador e esta explosão sensorial chamada Marrakesh: -- > À noite a Praça Djemaa El-Fna torna-se ainda mais frenética, mágica e encantadora. Barracas vendem comida típica, mulheres fazem tatuagens de hena e não é incomum encontrar um dentista, ou melhor, um vendedor de dentaduras prontas no tabuleiro. A vista dos terraços dos cafés ao redor da praça é imperdível. -- > Qualquer exibição tem seu preço ou bakshish, a universalmente conhecida gorjeta. Tenha sempre dinheiro trocado nos bolsos. Fique atento porque é comum apontar sua câmera para algo e se surpreender com um marroquino que se coloca na frente para dizer que você tirou uma foto dele. Mas não se preocupe. Na maioria das vezes, poucas moedinhas são suficientes para satisfazêlos. Calcule o equivalente a um dólar e pronto, você vai tirar muitas fotos. -- > O Tourist Board, posto de informações turísticas, fica na Rua Place Abdelmoumen Bem Ali, (tel / ). Já o Tourist Info fica na 176, Blvd Mohamed V, (tel / ). -- > Nunca recuse uma oferta de chá de menta. É considerado uma falta de educação gravíssima. 31

32 -- > O Marrocos é um país seguro, mas, nunca é demais ficar atento à carteira e aos pertences. Principalmente em lugares com muita concentração de turistas. -- > A cozinha marroquina é uma delicia, cheia de novos sabores e temperos. Experimentar couscous, tagjines (carne e vegetais) e tanjias (carneiro) sentado em uma das barraquinhas da Djemaa El- Fna é um programa inesquecível. -- > As ruas próximas da Djemaa El-Fna são as melhores opções para compradores. Tapeçarias, couro, itens de prata e ouro, e obviamente souvenirs farão parte do arsenal dos vendedores. -- > Na hora de comprar algo, lembre-se: Não há preço fixo no Marrocos. São comuns vendedores que cobram até o triplo por uma mercadoria. Mas não se assuste. Isso faz parte do ritual. Cabe ao cliente pechinchar ao máximo. Não tenha receio de fazer uma oferta escandalosamente baixa que, com freqüência provocará reações aparentemente indignadas, verbais e gestuais, perfeitamente integradas ao ritual. Esteja certo de que ofensa será se você aceitar o primeiro preço. -- > Sobre o primeiro preço que lhe for dado, recuse efusivamente e vá recusando todas as ofertas do vendedor até que ele pergunte quanto você quer pagar. Essa é a deixa. Ofereça a metade do preço mais baixo que o vendedor já deu, e se o vendedor recusar, agradeça e dê as costas. Pode estar certo de que ele irá propor uma nova negociação e você vai fechar o negócio. Dá certo em 90% dos casos. -- > O Marrakech-Menara Airport (Tel ) fica há 4 km do centro da cidade. O ônibus de linha número 11 custa US$ 0,30 e te levará para o centro em 20 min.. Um taxi custará em torno de US$ 5-6. A estação de trem (tel / ) fica na Av. Hassan II na ville nouvelle. Trens partem a cada hora para Casablanca e Rabat. Já a estação rodoviária (tel ) fica na Bab Doukkala, Place el Mouarabitène. Compre os tickets com pelo menos um dia de antecedência. Todas as informações foram apuradas no dia 08 de fevereiro de 2008 e atualizadas no dia 04 de outubro de

33 A cidade do fim do mundo e os dinossauros do deserto M hamid, última cidade antes do deserto, dia 11 de fevereiro de 2008 O céu mal havia deixado de pertencer às estrelas e a lua ainda brilhava fina, quando despertei naquela manhã do dia 11 de fevereiro. Apesar das poucas horas de sono e do cansaço da longa viagem, me sentia particularmente revitalizado. O saco de dormir Berg, estendido na sala de Lahcen, havia se mostrado uma ótima cama. Confortável e revigorante como qualquer Ortobom da vida. De qualquer forma era impossível dormir demais. Faltavam poucas horas para partimos em direção ao deserto e tenho de admitir: ansiedade e excitação é uma péssima combinação para o meu sono. Timidamente, o sol foi se levantando para sua labuta diária. Somente com seus primeiros raios pude ter uma noção de onde estava. Pela janela, a cidade de M hamid - antes escondida na escuridão da noite - mostrava-se pequenina, simples e rubra. À primeira vista, nossa pequena vila, quase na fronteira com a Argélia, não era muito diferente das muitas outras pela qual passamos na estrada. Dúzias de casinhas de cor amarronzada, algumas bem simples, feitas de barro. O chão era rubro, coberto de areia e pedregulhos. Na nossa rua, alguns homens andavam em trajes tuaregues, crianças brincavam e algumas mulheres apressadas passavam totalmente cobertas pela burca. Tudo muito modesto e humilde. Uma simplicidade que contrasta com o seu passado glorioso quando as caravanas tuaregues cruzavam o deserto negociando sal, especiarias e ouro. Analisando com mais atenção, fica claro que não estamos em uma cidade comum. Longe disso. M hamid é o adeus definitivo a civilização. Olhando para suas fronteiras, a impressão é de estar em uma cidade do fim do mundo. Já não se pode ver mais nada, além do vazio. Nada de ruas, casas, pessoas, mesquitas, souks 7, postes ou 7 Loja árabe, onde é possível encontrar de tudo. 33

34 estradas. Somente dunas de areia, pedregulhos e securas. M`hamid é um dos dois únicos lugares em todo o Marrocos onde o Saara nasce. É difícil saber onde começa um e onde termina outro. Deserto e cidade na delicada comunhão de dois amantes apaixonados. Para quem ainda achava que aquele era um lugar comum, uma curiosa placa dissipava qualquer dúvida. Aqui - na cidade do fim do mundo a distância entre um lugar e outro não é medido em quilômetros. Mas, sim, em dias em cima de uma corcova: distância até Tombouctou, na vizinha República do Mali - 52 dias de dromedário. Depois de um café da manhã reforçado, Lahcen nos levou a um souk. Lá compramos o resolvemos chamar de kit-berber 8. Era, basicamente, composta pelo djelabá, uma longa túnica azul-anil que é enrolada em forma de turbante até deixar apenas os olhos à mostra. Uma perfeita proteção contra o calor, o frio e as fortes rajadas de vento e areia do deserto. 8 Berber: etnia original do Norte da África e do deserto do Saara. Devidamente trajados, só faltava uma única coisa para me sentir totalmente em um dos contos de Ali Babá: os camelos. Pergunto a Lahcen quando iremos vê-los. Para minha completa surpresa, a resposta é: nunca! Claro, meus amigos, no Saara não existem camelos... mas, sim, dromedários. Os dromedários tem apenas uma corcova, são mais altos e rápidos que seus primos de duas bossas. Na verdade são eles que se vê naqueles filmes passados no Saara. Camelos são encontrados apenas na Ásia, explica nosso guia. De volta ao centro da cidade, a caravana já estava completa e a nossa espera. Além de Lahcen, teríamos como companhia uma equipe de cinco berberes e, para minha felicidade, dromedários! Muitos deles. Seis no total. Dois selados para cavalgadas e quatro prontos para levar a tenda e os mantimentos. Aqueles eram de longe os bichos mais desengonçados que já conheci. Chegava ser engraçado. Sua assimetria é proporcional a famosa capacidade de adaptação ao deserto. A cabeça é curta, o focinho alongado, olhos grandes e pestanas longas que protegem do vento e da areia. Seu pescoço é longuíssimo e pançudo, lembrando o 34

35 da girafa. Sua pelagem é curta, esparsa e dura permitindo a refrigeração e uma maior proteção do sol. As patas têm uma base larga que o impede de se enterrar na areia. Sua bossa, composta de gordura acumulada em períodos de alimentação abundante, lhe permite sobreviver em condições de escassez. Admito que fiquei surpreso com o seu tamanho. Não esperava que fosse tão alto: devia ter uns três metros de altura, medindo do alto de sua corcova. Diante de um ser tão diferente, Vitão chegou à única conclusão possível. Esse bicho é surreal. Tem cara de cachorro, patas de bois, pescoço de girafa e ainda rosna e mostra os dentes como um porco selvagem. Nunca vi um animal tão agreste, ele só pode ser dinossauro perdido no tempo. Montar nesses dinossauros é uma experiência que mereceria um capítulo exclusivo nesse livro. Tudo começa com ele deitado no chão, com uma das patas amarrada ao joelho, técnica que o impede de levantar. Depois de se ajustar não arreio, o bichano se levanta de maneira não muito gentil e é preciso segurar firme para não cair de boca no chão. Como são ruminantes, é impossível usar freio ou rédeas. Mas os Berbers usam um truque milenar para superar essa limitação. Em vez de rédeas, a direção é uma corda atada a um anel passado através do nariz do bicho. Lahcen nos conta porque os dromedários são tão valiosos. Além de comerem de tudo (até arbustos com espinhos) e de viverem uns 15 dias sem beber, tem um valioso segredo que poucos sabem. A gordura da sua corcova tem poderes medicinais. É um remédio tão forte que se tomado demais pode matar. Mas, se tomado na dose certa pode curar tudo. Até veneno de cobra. É tão fortificante que tem um poderoso efeito afrodisíaco. Basta uma pequena dose e você pode encarar sem problemas um harém inteiro. Melhor que qualquer Viagra. E assim - vestidos com nossos djelabá azuis anil e acompanhados dos dinossauros do deserto - partimos em direção a aquele mar de nove milhões de quilômetros quadrados de areia e cascalho. 35

36 Sob um céu enfarinhado de estrelas Deserto do Saara, Marrocos, 11 de Fevereiro de 2008 A noite no deserto caiu serena e tranquila. Estamos no Saara a uns vinte quilômetros de M'Hamid, última cidade antes do deserto, quase na fronteira com a Argélia. São aproximadamente 18h30min e a escuridão tomou conta de tudo, impiedosamente. Lahcen, nosso guia, armou a tenda perto de uma duna, onde brotava uma grande árvore. Faz frio. A areia gelada e o vento fazem a sensação térmica despencar... Mas ninguém parece ligar para isso. Tínhamos acabado de jantar uma mega salada marroquina, cheia de cominho e temperos exóticos. Como Mohamed, nosso cozinheiro, conseguia fazer uma salada tão fresca e saborosa em pleno deserto é para mim uma coisa tão enigmática como os mistérios das Mil e uma noites. Me encontro deitado num grande tapete persa, posicionado estrategicamente a beira da fogueira. Os olhos estão fixos no céu. E que céu... O mar de estrelas que se abria é algo difícil de descrever. Tão surreal quanto um quadro do Dali e tão real quanto um sonho bom. Com certeza, o firmamento mais estrelado que já vi na vida. Dou até uma de astrônomo: - Olha lá gente, aquela ali é a constelação da ursa maior... - Onde? - Ali, olha só... A primeira estrela forma o olho, a segunda o ouvido, a terceira a pata... - Nossa! É mesmo... e aquela ali, parece um camelo... Ficamos lá ao ar livre, na escuridão total, admirando aquela infinidade de pontos e luzes. Para completar o clima, os guias tocavam, com instrumentos improvisados, algumas canções Berbers em volta da fogueira. Apesar da letra ser incompreensível, a melodia, o ritmo logo nos envolve. Batemos palmas, tentamos entrar no batuque, acompanhar alguma coisa. Pergunto a Lahcen sobre o que as músicas falam e ele responde: muitas coisas... sobre a vida, o deserto, camelos e amores... 36

37 A ficha demora a cair. Pareço não acreditar no que estamos vivendo. Dou uma olhada 360 graus e não consigo enxergar nada. A escuridão é tamanha. É impossível ver alguma coisa num raio de 50 metros. Em quilômetros, a única luz a desafiar aquele oceano de trevas é a da fogueira. Tudo em volta é escuridão, silêncio, ausência, deserto. Sob o olhar atento da Ursa Maior, divago em pensamentos. Sobre o que vivi nesses seis meses em Portugal, sobre família, amigos, saudades, amores... e sobre o que vivemos nesse primeiro dia no deserto. Lembro da saída de M'hamid, dos primeiros passos na areia, da cavalgada no dromedário, do pôr do sol em meio as dunas e das palavras do Lahcen: - Boys, the experience in the desert is simple... is live the simple things. You have to breath, hear the sound of the wind, put your foot in the sand, fell the desert, fell yourself... so take your time! 9 Lembro-me, também, de um poema que adoro de Vinicius de Morais. Olha aqui Mr. Buster é dedicado a um americano podre de rico em cuja casa o poeta esteve antes de voltar ao Brasil. Segundo Vinicius, Mr. Buster não podia compreender como, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a "Latin America". Vou colocar só um trechinho... ele começa assim: Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills. Está muito certo que o Sr. tenha no quintal de sua casa em Hollywood um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia. Está tudo muito certo, Mr. Buster que o Sr. ainda acabará governador do seu estado. E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas. Mas me diga uma coisa, Mr. Buster. Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster: 9 Meninos, a experiência no deserto é simples... é viver as coisas simples. Você tem que respirar, ouvir o som do vento, colocar o pé na areia, sentir o deserto, sentir a si mesmo... então tenha o seu tempo. 37

38 O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo? O poetinha, como sempre, é perfeito... mas, dessa vez me permito a ousadia de acrescentar: O Sr. sabe lá o que é admirar um céu enfarinhado de estrelas? O Sr. sabe lá o que é ver um pôr do sol em cima de uma duna de areia? O Sr. sabe lá o que é escutar música berber na beira de uma fogueira? O Sr. sabe lá o que é caminhar escutando somente sua respiração? O Sr. sabe lá qual o gosto da salada do Mohamed? Como diria Lahnce, com seu jeito sereno, impassível. Macan musque 10. Tenha o seu tempo, respire. Ouça o som do vento e sinta o deserto. Entre em contato com você mesmo. Viva as coisas simples da vida. 10 Sem problemas, em árabe 38

39 Do alto da mais alta duna Deserto do Saara, Marrocos. 12 de Fevereiro de A tarde começa a cair devagar sobre as dunas. Tão lentamente que tenho a certeza de que o sol luta e reluta, num grande esforço cósmico, para continuar ali, por mais alguns minutos admirando a beleza do Saara. São aproximadamente cinco e meia da tarde. A caravana havia parado em um local de grandes dunas. O vento gélido começa a bater em meu rosto. Coloco meu agasalho polar berg e procuro um lugar para sentar entre meus fiéis companheiros de viagens e resenhas: Zé, Xumi, Vitão e Rafael. Estiro as pernas, cansado. Havíamos andado por toda a manhã e numa parte da tarde. Em média, uns dez quilômetros desertos adentro. Aventurar-se nesse oceano de nove milhões de quilômetros quadrados de areia e cascalho, área maior que a do Brasil, onde no verão a temperatura atinge facilmente 50 graus durante o dia e cai abaixo de zero à noite, é uma tarefa tão cansativa quanto surpreendente. Atravessar o Saara é uma experiência diferente de tudo. É mais ou menos como comprar uma passagem direta para outra dimensão. Caminhei a manhã toda com a nítida sensação de estar em Marte. Tudo em volta era incrivelmente rubro e sem vida. Quilômetros e quilômetros de securas, dunas, pedregulhos, poeiras e redemoinhos de resto de mundo. Para aquela sensação de estar em outro planeta se transformar em certeza, só faltava mesmo o robozinho da Nasa, o Opportunity 11, sair vagaroso detrás de uma daquelas montanhas de areia. Além de surreal, andar o dia todo sob o sol e sobre areia fina não é uma das coisas mais fáceis de fazer, mesmo com todas as mordomias que tínhamos na caravana do Lahcen. E olha que eram muitas. Éramos tratados como verdadeiros Sheiks, com direito a parada para comer tâmaras e tomar chá à sombra de alguma palmeira ou dar uma cavalgada em um dos dromedários que nos acompanhavam. Como todo sheik, tínhamos também a nossa comitiva. Além do Lahcen, nos acompanhavam cinco berbers, todos de fala pausada, olhar sincero, modos simples e túnicas tingidas de 11 O robô da Nasa Opportunity (Oportunidade) explora e envia imagens de Marte desde Janeiro de

40 anil. O Mohamed era encarregado de cozinhar (não posso nem lembrar das saladas do Mohamed que ainda fico com água na boca). Ramon estendia o tapete e nos servia chá. Ali montava as tendas e cuidava dos dromedários e assim por diante. Além de não ser moleza, nossa aventura contava outros detalhes. Havia dois dias que não tomávamos banho ou íamos ao W.C. Óbvio, no deserto não há latrinas. O jeito era escolher uma duna mais afastada, sair de mansinho, assim como quem não quer nada e mandar bala. Até tínhamos criado uma tática toda especial. Segundo Xumi, mestre graduado em metodologia para bobagem, a manha é escolher uma duna média, nem muito baixa e nem muito alta. Ai, é só subir até a metade e fazer o dito cujo sem frescuras. Basta um chutezinho de leve que a duna e o vento fazem o resto do trabalho. Ele descerá rolando, feliz, num bolinho de areia pronto para ser coberto pelo vento. Deve-se, porém, ter muito cuidado para não subir muito na duna. Vai que uma caravana de jipes cheia de suecos endinheirados passa nessa mesma hora? Ouvi dizer que os zooms das câmeras suecas alcançam distâncias inimagináveis... Encontro-me, agora, sentado perto de Lahcen, ao lado das grandes dunas. A visão que tenho é exatamente aquela clássica dos desertos dos filmes. Como se o cartão postal tivesse ganhado vida e estivesse ali, na minha frente, zombando da minha incredulidade. As dunas eram como ondas quebrando infinitamente naquele arenoso oceano sem fim. Resolvo aventurar-me um pouco. Escolho, com um olhar, a duna mais alta. Decido ir até o topo. Subir não é exatamente uma tarefa fácil, ainda mais para os desacostumados como eu. Demorei a conseguir, mas ao chegar ao topo recebo uma merecida recompensa. A vista lá de cima era simplesmente incrível! Minhas pernas ainda doíam, mas quem ligaria para isso diante de uma panorâmica como aquela? Lá de cima era possível ver toda a redondeza, a nossa tenda, o oceano de areia e os dromedários que agora estão se alimentando a quilômetros de distância. Ao longe se vê, também, outros acampamentos. Eram maiores, com grandes e numerosas tendas. Talvez, dos mesmos suecos endinheirados que andavam de jipe atrás de brasileiros desprecavidos. Fico ali, parado, observando a quietude. Sem multidões, vozes, correria ou o caos de Salvador. Vazio. Somente eu, meus 40

41 pensamentos e o barulho do vento. Perco-me por alguns minutos, admirando aquelas arrojadas linhas traçadas pela arquitetura da natureza. Pergunto: há quantos séculos aquelas dunas estiveram lá, daquela mesma forma, movendo-se unicamente ao sabor do vento? Coisas que somente o céu e terra poderiam dizer. Tenho comigo apenas uma certeza: queria ficar ali como o sol. Lutando para poder admirar eternamente a beleza do Saara. Minha sombra reflete simpática numa duna vizinha, agora com as marcas temporárias de meus passos bárbaros. Em poucos minutos, minhas pegadas deixam de ser solitárias. Xumi, Rafa, Zé e Vitão chegavam para fazer companhia. O vento foi, aos poucos, levando pra longe as marcas na areia, deixando-nos com o espetáculo do sol. Diante dos nossos olhos, o astro rei parece finalmente ter desistido da sua batalha particular contra a infinitude do tempo. Só lhe resta, agora, morrer ardente por detrás da uma grande dunaa. Como explicar a beleza de um pôr do sol como aquele? Impossível... Como já escrevi antes: certas coisas devem ser somente sentidas, vividas, consentidas, experimentadas e pressentidas. Voltamos rápido ao acampamento, pois a escuridão já tomava conta do universo. As únicas luzes eram as da fogueira, das estrelas e da lua, que já começava a brilhar fina e majestosa. Tal qual o famoso símbolo do Islã. Como na noite anterior, o céu está lindo, enfarinhado de estrelas. Pontos e brilhos até o perder da vista. Me encontro deitado no tapete persa e mais uma vez a música Berber embala nossa noite. Ficamos ali admirando o som por um tempo. Depois, tentamos retribuir a gentileza. Rafa puxa uns MPBs, Vitão tentou um samba e o Zé cantou até uns sertanejos. Mas como a nossa afinação era zero, o jeito foi mudarmos de tática. Jogamos a responsabilidade para o único do grupo com algum dom para a música. Hô Xumi, pega ai a viola e toca uma música pra gente! Ele faz um cú doce, mas acabou por não resistir. Começa a dedilhar uma música do grande rei, Bob Marley, misturado com versos de sua própria autoria. De repente tudo era - como ele mesmo definiria - um groove no deserto. 41

42 Vão-se cifras, melodias, Bob Marley, acordes e reggae music: I dont wanna wait in vain for your love... Girassóis eu vou ofertar a mais bela flor... aquilo era possível é outro grande mistério das arábias. Tão grande quanto o frescor da salada do Mohamed ou o rosto feminino sob a burca ou a beleza daquele céu enfarinhado de estrelas. A lua, as estrelas, música e boa companhia. Realmente não precisava de mais nada pra ganhar a noite. Mas o melhor ainda estava por vir. Fazia frio e me aproximei um pouco mais da fogueira. Só assim pude ver, do outro lado das chamas, uma cena incomum. Lá se encontra Nabil, um dos berbers que nos acompanha. Como num ritual sagrado ele ergue a cubuca. Coloca trigo, amassa a massa, mistura com água, acrescenta o sal. Prepara o famoso pão do deserto. Uma receita antiguíssima, onde os Bebers assam o pão usando unicamente a areia quente e as cinzas da fogueira. Fico ali deitado no tapete, refletindo sobre esse segundo dia no deserto, até a hora de voltar à tenda armada por Ali. Já era tarde e iríamos acordar muito cedo no outro dia. A caminhada de volta era longa e demorariamos metade do dia para voltarmos a M hamid. Deitado na escuridão da barraca, demonstro minha gratidão com um sussurro bem baixinho: - Bismillah. Allah hu Akbar. 12 Sinto-me como tivesse entrado numa máquina do tempo. Presenciava, incrédulo, um ritual que acontecia daquela mesma forma através dos séculos. Tradição passada de pai para filho, de geração em geração. Depois, veio a melhor parte. A degustação. O sabor é forte, intenso. Diferente de tudo que já havia comido. E acredite se quiser: o pão não tinha nenhum grão de areia. Como 12 Frase que abre todos os capítulos do Alcorão. É usada pelos Islâmicos para agradecer a Alá. Significa Obrigado. Em nome de Deus, o grande, o misericordioso. 42

43 Fez: uma experiência que assalta aos sentidos Medina de Fez El Bali, 15 de fevereiro de Balak! Balak! Balak! Andava vagarosamente, distraído, com o olhar perdido entre inúmeras souks de tapetes, peças de couro e especiarias, quando me dei conta de um senhor que esgoelava-se atrás de mim. - Balak, Balak, Balak! Ao dar meia volta, uma cena inusitada. Balak, palavra proferida a plenos pulmões pelo nosso simpático velhinho, era o aviso de que lá vinha um burrego carregando imensos balaios de mercadoria. Mais que um aviso. Era uma ordem nada sutil para que o desprevenido transeunte - no caso, eu - acordasse para a vida e saísse da frente. Sem perceber, havia transformado o trânsito da Medina em um verdadeiro caos. Empatava a passagem de uns seis burrinhos que vinham em fila, carregados até o talo de peles, sacos de tomates, estrume, lixo, tábuas, aves abatidas, condimentos, ervas raras, artesanato e bugigangas que até Deus duvida. Encostei-me à parede e assisti a burregada passar com aqueles balaios que ocupavam a largura total da viela estreita demais para qualquer tipo de tráfego... a não ser o de mulas. Estávamos na cidade imperial de Fez, nordeste do Marrocos e 196 quilômetros distantes da capital Rabat. Caminhávamos, mais precisamente, por uma das mais de ruelas da maior cidade Islâmica medieval viva do mundo e patrimônio da humanidade da UNESCO desde 1981: a Medina de Fez El Bali (a "velha Fez"). Um verdadeiro labirinto de sons, cheiros, cores e cenas exóticas. Fundada no ano de 789, Fez é a mais antiga das cidades imperiais marroquinas. Foi a capital por mais de 400 anos e, apesar de ter perdido a importância política, manteve-se como centro cultural e espiritual do Marrocos. Atualmente é a terceira cidade santa do islamismo, seguindo os passos de Meca e de Medina. No coração de 43

44 Fés el-bali fica a imensa Mesquita de Kairaouine. Construída em 857, é uma das mais antigas e importantes mesquitas do mundo árabe ocidental. Entrar na Medina por sua entrada principal, o Bab Boujeloud - um imenso portão azul e branco construído em é como pegar carona na máquina do tempo. Cada passo é como se perder na escala temporal. Íamos, pouco a pouco, sendo transportados a um mundo medieval que como ficou claro no episódio com os burregos - pouco mudou com o passar dos séculos. A cidade é um labirinto encantado abrigado do tempo, como bem descreveu o escritor Paul Bowles em seu livro O céu que nos protege. Em suas ruas vende-se de tudo: roupas, carne de cabra, produtos de couro, ervas medicinais, narquiles, tapetes, jóias, temperos, almofadas, especiarias, frutas, flores, rádios, livros, sandálias, amuletos, sanduíches de pâncreas recheados de grão-de-bico e cabeças de camelos. O vai e vem de pessoas (e mulas) é intenso. O barulho da confusão de vozes é incessante. Do alto de uma mesquita, a potente voz do muezim convoca os fiéis para rezar. "Allah u Akbar!. O cheiro de ervas, cominhos, tajines e especiarias domina o ar. As barracas de frutas secas, óleos e de ervas medicinais apresentam-se em uma explosão de cores. Fotos do rei Mohammed VI - estampadas de modo onipresente em todos os estabelecimentos comerciais - parecem nos vigiar. Cabeças de camelos e cabras ficam expostas nos açougues. Fez é definitivamente uma experiência que assalta todos os sentidos. Seguimos até a Rue Talaa Kebira, onde se encontra a Medersa Bou Inania. Esta escola de teologia, construída no ano de 1350 pelo sultão Bou Inan, é a mais antiga do mundo árabe-islâmico. Mais em frente estão o Fondouk el-nejjarine ou Museu das Artes e Artesanato em madeira (Rua Place el-nejjarine; tel.: ) e o Museu Dar Batha (Place du Batha; tel.: ). Subimos uma escadinha bem estreita até o terraço do Terrasse de Tannerie, uma grande loja de produtos em couro. Lá de cima era possível apreciar uma panorâmica impressionante. Subitamente, um cheiro fortíssimo - misto de esterco de galinha curtido, ácido sulfúrico, amônia e couro de animais recém sacrificados - invade o ambiente, queimando nossas narinas. É o anuncio de que chegamos 44

45 aos famosos Tanneries, os curtumes de tingimento de couro, símbolos da cidade. Lá de cima temos a visão completa do processo, que permanece praticamente a mesmo há 700 anos. Sobre lombos de burros, pilhas de peles de carneiro recém abatido, ainda com suas cabeças e cornos, são penduradas nas paredes. Dezenas de homens trabalham em frente a grandes tanques no processo lavar, amaciar, desengordurar, tirar os pelos e tingir o couro. Cada tanque, com quase dois metros de diâmetro, é cheio até a metade com tinturas com pigmentos de diversas cores. O amarelo é extraído do açafrão, o vermelho da papoula, o azul do índigo, o verde da menta, o preto do antimônio e o branco de esterco de pombo. Por detrás daquela visão impressionantemente exótica, dezenas de casinhas (cada uma com uma antena parabólica) saltavam desordenadamente pelo lado de fora dos muros da Medina, compondo a Fez el-jdid (parte nova da cidade) e a Ville Nouvelle (um moderno centro de negócios). O dono do terraço nos convida para sentar e tomar um chá de menta, enquanto seus homens nos oferecem toda variedade de produtos de couro. Bolsas, carteiras, almofadas sandálias, porta moedas, casacos, jaquetas, chapéus, cintos, mochilas e etc. Depois nos convida para conhecer a loja de ervas medicinais e o atelier de tapetes. Em meio a chifres de antílope, pele de lagarto, mandalas e inúmeras prateleiras de frascos coloridos, um vendedor explica em um inglês impecável. Temos a solução para tudo. Dor de cabeça, acne, problema de pele, reumatismo, asma, emagrecimento, calvície, insônia, impotência. Mas não temos nada aqui para o Câncer, Aids e Alzaimer., disse com a cara mais séria do mundo. Na outra sala, um imenso tear é conduzido de maneira ágil pelo rapaz que trança linha por linha um lindo tapete verde esmeralda. Vendo meus tapetes no E-Bay, disse outro vendedor, que já havia morado no Texas, com um sotaque engraçado de cowboy de filme. A lua já brilhava minguante sobre os imensos muros de pedra quando pegamos o caminho de volta até o nosso hostel, por aquele labirinto de ruas estreitas. Andava distraído admirando o caótico vai e vem, quando recebo um toque sutil nas costas. Ao me virar, outro simpático velhinho acompanhado da sua mulinha suplica: - Por favor, posso passar? 45

46 Dicas do Mochileiro - Fez Restaurant dês Jeunes (Rue Serrajine), o Fez Lounge (Zkak Rouah, nº 95) e o B sara Talls. -- > A Medina de Fez é um verdadeiro labirinto. Aventurar-se por suas mais de ruelas e becos é uma experiência única. Caso queira fazer uma visita guiada, tome muito cuidado para não contratar guias falsos. Os guias credenciados podem ser encontrados através do escritório de turismo de Fez, na Place de La Résistance. -- > Muitos dos hotéis baratos estão aglomerados pertos do portão principal da Medina, o Bab Bou Jeloud. O Hotel Cascades (rue Serrajine, tel ) é um dos favoritos dos mochileiros pela localização central e pelo terraço com uma bela vista. Os quartos são bem simples, mas limpos. Um quarto duplo custou 150 drhs / noite. -- > Você pode encontrar todo tipo de mercadoria nos souks da cidade. A Rue el-attarine é uma das parte mais vibrante da medina, vendendo frutas, vegetais, especiarias e ervas. Se for comprar algo, lembre-se: "There is no fixed price in Morocco". Pechinche sem piedade e trate o ato de negociar como um jogo amigável. A barganha é uma parte intrínseca da cultura marroquina. -- > Os mercados perto do Bab Bou Jeloud (perto do Hotel Cascades) estão cheios de restaurantes bons e baratos. Uma boa pedida é o Café Medina (Derb Mernissi, Bab Bou jeloud). Os pratos principais custam de 60 a 110 drhs. Outras boas dicas são os -- > Em Fez el-jedid, a parte mais nova da cidade, as grandes atrações são o Palácio Real (fechado aos turistas), com suas imponentes portas e o mellah, o antigo quarteirão judeu, com suas sinagogas e cemitério. Só vale a pena visitar, se estiver com tempo sobrando. -- > A estação de trem de Fez fica na Ville Nouvelle, na rue Imarate Arabia (tel: ). -- > Todos os anos, no início do mês de Junho, acontece o Festival de Música Sagrada Mundial. O mais proeminente festival anual do 46

47 país traz fãs e artistas da world music de todo o mundo. Durante o festival é muito difícil arranjar alojamento, por isso reserve com antecedência. -- > Um bom lugar para terminar o dia é no bar do terraço do Hotel Palais Jamai (Bab Guissa), uma antiga mansão do século XIX, localizado em uma colina acima da Medina e cercado por um magnífico jardim andaluz de laranjeiras, limoeiros, palmeiras e ervas medicinais. De lá, é possível apreciar o cair da noite sobre os telhados medievais, ouvindo o coro dos muezins convocando para as orações. Todas as informações foram apuradas no dia 15 de fevereiro de 2008 e atualizadas no dia 06 de outubro de

48 Carta à Dona Saudade I get along without you very well, of course I do Except when soft rains fall, and drip from leaves then I recall The thrill of being sheltered in your arms Of course I do, but I get along without you very well (I get along witout you George Carmicheal) Quarto 302, Word Spru, Braga, 08 de abril de 2008 Olá, senhora saudade. Sei que devo chamá-la de senhora, um tratamento formal, digno da sua respeitosa figura. Peço-lhe, porém, que me permita uma maior intimidade. Caso não se importe, gostaria de te chamar carinhosamente de dona. A verdade é que, depois de seis meses vivendo longe do Brasil, me sinto próximo como um velho amigo seu. Conheço-te bem. Sei que quando acabar de ler esta carta, vai chorar - toda saudosa - sentindo falta do que já passou. Mas, apesar do chororô, preciso escrever o que sinto por você. Espero que não se ofenda, mas sou obrigado a admitir: tenho convivido com você, chorosa dona, mais do que gostaria. Às vezes amarga, outras nem tanto, mas sempre ali, presente. Na memória, num sorriso, numa música, em uma carta, num olhar carinhoso, nas fotos no mural, na chuva que cai lá fora e em cada pequena solidão. Saudades da família, dos amigos, dos que estão longe, do pai, de um abraço gostoso, da mãe, do sitio, de suco de fruta, da Bahia, dos que foram pra longe, da simpatia, do Brasil, da água de coco, do Ben Ben, do acarajé, do sol, do mar. Saudade... S-A-U-D-A-D-E... Sabia que você é quase exclusividade da língua portuguesa? Palavra praticamente intraduzível para outras línguas? Em todos os outros idiomas, se quisermos te definir teremos de usar mais de uma expressão para chegar num sentido semelhante. Exemplo: i miss you, em inglês; je tu manque, em francês; ich vermisse sie, em alemão; mi-e dor de tine, em romeno e etc. Todas semelhantes, mas nenhuma com tamanha força e significado quanto o seu, dona saudade. Você é realmente uma dona muito difícil de descrever. É complicado passar para o papel algo ao mesmo tempo tão concreto e intangível; tão real e imaginário; tão presente e abstrato. Muitas vezes faltam 48

49 palavras para contar o que passa pelo coração. Não sei como você, sendo uma palavra tão simples, delicada e até fácil de pronunciar, pode conter em si tamanhas dores, sentimentos, ausências e amores. Só você consegue dar sentido a esse instante em que o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue. Só você consegue traduzir a nossa alma dizendo pra onde ela quer voltar. Só você, misteriosa dona. Olha saudade, tenho-lhe uma pergunta: quem foi o seu inventor? Talvez tenha nascido quando Deus, num passeio pela via láctea, sentiu a falta do brilho da estrela de Belém, perdida na outra infinidade do universo. Ou talvez, tenha nascido quando a lágrima do primeiro homem - torturado pela ausência da amada - caiu no chão. Certamente, quem te inventou conheceu a dor da distância. Mas, ironicamente, quem inventou a distância esqueceu que você, dona saudade, existia. Se soubesse da certeza da sua dor, pensaria duas vezes. O litoral brasileiro voltaria a ser coladinho com o da África, a Europa seria novamente junto da Ásia e a Pangéia nunca deixaria de existir. As barreiras se desfariam na poeira e não haveriam cercas embandeiradas separando quintais. Então, o mundo seria pequenino, como uma bola de gude. Definitivo, como tudo que é simples. A verdade é que ficamos impotentes diante sua presença, triste dona. Não somos não que a temos. É você quem nos tem. Dentre todas as dores, você com certeza é uma das que mais dói. É a dor de não saber, de não estar, de não poder voltar. Não saber o que fazer com os dias que não passam. De não estar com que se quer. De não poder voltar no tempo e viver pra sempre aquele momento. O engraçado dessa história, cara dona, é que lá no fundo não me sinto triste com você. Às vezes fico melancólico, saudoso, pensativo. Mas não triste... Sinto-me até feliz de te sentir aqui tão perto. Feliz? Sim... feliz! Mas como, se essa palavra parece não combinar com você? Na vida tudo é relativo, não é, irônica senhora? Felicidade e tristeza andam juntas, ligadas por traços gêmeos. Muitas vezes a diferença só depende de que lado decidimos ver as coisas. Afinal, quantos lados têm o mundo no parecer dos olhos do camaleão? 49

50 Você é a dor que mais dói isso é verdade. Mas, por outro lado, dialética dona, também é a maior prova que tenho de que o passado valeu à pena. É a certeza de ter vivido o que algum dia, em algum lugar, me marcou pra valer. Dependendo de como se olhe, você não quer dizer que estamos separados, mas sim que um dia estivemos juntos. Não fico triste por que algo de bom passou. Fico feliz por esse algo ter acontecido. Você é uma conseqüência inevitável. Não é você que é triste, minha cara dona... Tristes são aqueles que não têm motivos para te sentir. Com carinho, Davi Carneiro E como é bom... Como é bom ter saudades das brincadeiras da infância. Como é bom querer voltar para aquele lugar especial. Como é bom ter saudades de alguém quando a chuva bate na janela. Como é bom se lembrar da sensação de estar protegido nos braços de quem se ama. Como é bom interrogar uma estrela e ter a certeza que ao longe, bem longe, outro alguém contempla este mesmo céu, essa mesma estrela e murmura baixinho: "Saudade!" 50

51 A dois passos do paraíso Lagos, Algarve, dia 22 de junho de 2008 Tem muita gente que, ao visitar o país dos outros, acaba acometida por um surto de insanidade patriótica. Cansei de conhecer pessoas assim. Que só exageravam as qualidades do Brasil, queriam vestir todo o santo dia - a camisa da seleção e faziam questão carregar a bandeira para cima e para baixo. Não tenho nada contra, mas, definitivamente não faço esse tipo. Prefiro a modéstia. Falar do meu país sem excessos. Existe, porém, um assunto que me faz mandar a moderação para as cucuias. Esse assunto é praia. Noite do dia 15 de julho, World Spru. O ambiente do quarto 302 havia sido cuidadosamente preparado a luz de velas. Ao fundo, bem baixinho, tocava a música everything de Michael Bublé. Na tela do laptop, um filme romântico (que terminaria como todos os outros) esperava pacientemente na tecla pause. Ainda jantávamos um delicioso bacalhau com natas acompanhado de um bom vinho português quando Alina, bastante empolgada, fez o convite: uma viagem de três dias pelas praias do sul de Portugal. Aceitei de imediato (iria feliz até para o Iraque se bem acompanhado por uma morena linda daquela, é verdade), mas confesso que achei aquela excitação toda para lá de exagerada. Praia em Portugal? O que poderia ser tão empolgante? O que poderia impressionar alguém nascido no Brasil, que tem o privilégio de viver no Nordeste e, o mais importante, a sorte de ser baiano? Já havia tido experiências desastrosas com algumas praias do norte português. Ventos insurpotáveis, areia no olho, água geladíssima, casaco, frio. Uma sucessão de verdadeiros pecados para quem está acostumado com o litoral da Bahia. É impossível que exista na terra de Camões algum lugar tão bonito quanto às praias cantadas por Caymmi, defendia xiitamente. Um radicalismo que, a partir daquele fatídico convite, tinha data para acabar. Mais precisamente até o dia em que conheci de perto o lugar que redefiniria meus conceitos e me mostrariam que estava redondamente enganado: o Algarve. Encontrei nesta região do extremo sul português, algumas das mais lindas praias que já vi. Um tesouro com cerca de 200 quilômetros de 51

52 areias brancas e finas, águas quentes (pelo menos para o padrão europeu), tranquilas e de coloração hora azul turquesa, hora azul celeste, sol o ano todo e imponentes grutas, falésias, enseadas e arribas. Uma beleza única, totalmente diferente da que temos no Brasil. Não é a toa que, todos os anos, milhares de portugueses, ingleses, alemães, franceses, espanhóis e holandeses corram para assegurar seu lugarzinho ao disputado sol algarvio. Eram às onze e meia da noite do dia 19 quando pegamos o autocarro que saia de Braga em direção ao outro extremo de Portugal. Cortaríamos, praticamente, todo o país de norte a sul, numa longa viagem de dez horas. Chegamos de manhã à cosmopolita Albufeira, centro turístico da região e ponto de partida para nosso roteiro. A cidade, que tem uma excelente estrutura hoteleira e vive praticamente do turismo, é abençoada com 23 praias de areia clara, bem fina e com imponentes falésias douradas. Construída, durante a ocupação árabe no século VII, no topo do Cerro da Vila, arriba com pretensões a península, Albufeira ocupa uma posição inexpugnável. Por isso o nome Al-Buhar ou castelo sobre o mar. Enquanto Alina me puxa, escadaria acima, até o alto de um imenso penhasco - onde é possível ter a melhor panorâmica da cidade - tive de concordar com os árabes. Eles não poderiam ter escolhido nome melhor para descrever aquele lugar. Do alto daquela varanda rochosa, Al-Buhar dispõe-se majestoso como um verdadeiro anfiteatro sobre o mar. Os alicerces das numerosas casinhas brancas, voltadas para a enseada, pareciam diluir-se na rocha em que são talhadas. Abaixo, enconchada nas falésias, estão as praias do Peneco e dos Pescadores, as mais concorridas para o banho. Em suas águas, coloridas embarcações realizam visitas às grutas marinhas da costa. Já nas suas areias, ouvem-se quase todas as línguas do mundo. Um grupo de alemães tomava sol, crianças holandesas construíam um castelo, as francesas faziam topless e uma turma de ingleses, muito excêntrica, jogava vôlei de peruca, bigode, só com aquela sunga escrotíssima do filme Borat. Despedimo-nos dessa encantadora cidade. Era hora de seguir em direção ao Cabo de São Vicente, em Sagres, uma das mais 52

53 lendárias regiões portuguesas. Foi nesse ponto sudeste do continente, que teve início a grande aventura ultramar. Dom Henrique, o navegador, ergueu no alto das escarpas uma imponente fortaleza onde funcionou a mítica Escola de Sagres. Foi aqui que inventaram a caravela, aperfeiçoaram a nau, aprimoraram as determinações astronômicas e desenvolveram as técnicas de navegação para o alto mar. Ali se formaram grandes navegadores, como Cristóvão Colombo, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, que romperam os limites do Velho Mundo. Um feito tão grandioso que só teve paralelo cinco séculos depois, quando os astronautas foram à Lua. Atualmente, Sagres se resume a um pequeno porto de pesca, distante da sua legendária importância do passado. Mas ainda é possível sentir a presença dos lendários navegadores ecoando na paisagem que se abria, magnífica, em nossa frente. Um panorama que veio, para quem o subestimava, como um soco no estômago, mas daqueles dados com vontade, impiedosos, que arrancam de vez todo o nosso fôlego. Suas imensas paredes rochosas e falésias escarpadas, algumas de até 60 metros de altura, erguiam-se altivas, imponentes, surreais. Entre elas, encaixadas perfeitamente nos penhascos desenhados pelo vento, as diversas praias - de um impecável azul turquesa - oferecem a imensidão do oceano. O mar golpeando as falésias agrestes entoava uma sucessiva sinfonia em homenagem à natureza indomável do lugar. Sentia-se apenas os odores das flores silvestres e da forte maresia. Ouvia-se as ondas batendo furiosas nas rochas, o adejar das gaivotas, a canção do vento carregado de sal e os suspiros de Alina, perfeitamente sincronizados com os meus. Lá embaixo, protegida pela encostas e com um mar transparente, encontra-se a bela Praia do Beliche, muito procurada para a prática do surf e bodyboard. Mais a frente, inserida na enseada da Ponta de Sagres e do Cabo de São Vicente, está a Praia do Tonel, ótima para o banho. Já a Praia do Barranco surge na desembocadura de um dos vales mais bonitos da região com encostas cobertas por um matagal alto de zimbro. É o refúgio ideal para quem quer fugir da agitação. Muitas outras, quase desertas, são a personificação da praia perfeita, que a maioria das pessoas, infelizmente, só encontrará em sonhos. 53

54 À distância de um golpe de vista, se encontra o Cabo de São Vicente, um dos pontos mais ocidentais da Europa continental. O lugar recebeu esse nome por ter acolhido os restos mortais do santo, durante as invasões mouras. Na fortaleza do Cabo de São Vicente, erigida no século XVI para proteger a costa dos frequentes ataques de piratas, encontra-se um farol de 1904 ainda em funcionamento (possui a raio de luz mais poderoso da Europa). Na outra ponta, no cabo de Sagres, está um dos monumentos portugueses de maior aura mítica: a fortaleza de Sagres. Esse local de profundo valor histórico e simbólico foi erguido pelo infante D. Henrique no ano de Apesar da incrível experiência em Sagres, o Algarve parecia não estar contente. Queria me surpreender ainda mais. Como se estivesse empenhado em jogar por terra, de uma vez por todas, aquele preconceito praieiro do início do texto. Dizem que o último pedaço do bolo é sempre o mais gostoso. Talvez por isso, Lagos, a derradeira cidade do nosso rolê, tenha sido a mais especial. Ela mereceu esse prêmio pelo conjunto da obra. Acolhedora, viva, dinâmica, cosmopolita, encantadora, romântica, aconchegante, bem estruturada e o mais importante... com lindas praias. Lagos se mostrou uma verdadeira pérola do além mar. A cidade é, também, rica em história. Chegou a ser a capital do Algarve, entre 1576 e As viagens dos descobrimentos transformaram-na num efervescente centro naval, mas também em palco de uma triste página da História. No centro, uma placa assinala o local do primeiro mercado de escravos da Europa, aberto em 1441, quando o explorador Nuno Tristão trouxe para o Velho Mundo os primeiros cativos do Saara. O centro da cidade é dominado por edifícios dos séculos 18 e 19 e por uma parte da fortaleza construída pelos árabes no século VIII e ampliada pelos portugueses no XVI. Suas praias merecem um capitulo a parte. Aqui estão algumas das melhores de toda Europa. Eu e Alina fizemos uma trilha passando de praia em praia até chegarmos à ponta da Piedade. No total são oito principais em uma deslumbrante sucessão de enseadas, arribas, grutas, praias rochosas e amplos areais. A Meia praia, a praia do Camilo e a Dona Ana são as mais bonitas e procuradas pelos turistas. Na ponta da piedade, uma vista lindíssima: um monumento 54

55 natural composto de curiosas formações rochosas esculpidas ao longo dos séculos pelo mar e pelo vento. Uma sequência de falésias e rochas debruçadas sobre o mar, formando magníficos labirintos e túneis. Mais tarde, após um gostoso banho no Albergue da Juventude, saímos para tomar algo. Alina estava maravilhosa em um estonteante vestido cor da pele. Não era a toa que cada pedacinho da cidade parecia mais encantador e romântico naquela noite. Na praça central, grupos de apresentação folclórica, formados pelos moradores da região, prestavam antecipadas homenagens a São João. Pessoas de todas as idades, vestidos com roupas típicas, dançavam, bebiam, cantavam, faziam comidas regionais e o mais importante, mantinham vivas as tradições populares do Algarve. Fechamos a viagem com chave de ouro. Tenho de admitir. Aquela jornada fez meu bairrismo praiano ir literalmente água abaixo. Li certa vez, em uma crônica do publicitário Ricardo Freire, que existem várias Bahias espalhadas pelo mundo. Bahia, para ele, não é apenas um lugar específico, mas uma categoria. Se o sol brilhar quase todo o ano, a comida não tiver medo de tempero e o povo estiver empenhado em ser feliz, o lugar se classifica no seu universo de Bahias. Bali e a Tailândia seriam as Bahias da Ásia, o Marrocos a Bahia do mundo Árabe, o Rio de Janeiro a Bahia mais perto de São Paulo, New Orleans a Bahia dos Estados Unidos e assim por diante. Depois de dez longos meses morando em terras lusitanas e 509 anos depois de Cabral achar o Brasil, finalmente havia descoberto de maneira fulminante - onde está a Bahia portuguesa. Na longa viagem de volta de Lagos até Braga, recebo uma mensagem SMS de Xumi Uchôa. Fala Davizinho. Como foi o rolê pelo Algarve? Respondi de forma categórica naquele curto espaço de 140 caracteres. Você não vai acreditar, irmão. Mas estive a dois passos do paraíso. 55

56 Dicas do Mochileiro Algarve -- > As diversas cidades do Algarve ficam a pequenas distâncias umas das outras. Para economizar tempo (e dinheiro!) na hora de escolher um albergue e se locomover entre os locais que queríamos visitar, decidimos estabelecer uma cidade intermediária como cidade base da nossa aventura. A cidade de Lagos foi uma escolha perfeita, por sua posição estratégica e pela ótima estrutura turística e de transporte. -- > Ficamos hospedados na excelente Pousada de Juventude de Lagos (Rua Lançarote de Freitas, , tel Além de ser muito bem localizada (as praias ficam à apenas cinco minutos a pé), a qualidade dos serviços é muito boa. Os quartos são limpos, espaço social agradável, dispõe de cozinha, lavanderia, internet. O café da manhã também é incluso. Os preços variam da alta para baixa temporada (17 11 euros no quarto múltiplo). -- > Itinerários, preços e horários dos ônibus podem ser verificados em sites como o e O preço da passagem de Braga até Albufeira (586 km) foi de 27 euros. Já o trecho Albufeira até Lagos (56 km) custou cinco euros e de Lagos a Sagres (33 km) foi de um euro e setenta cents. -- > A culinária Algarvia é uma tentação para aqueles que assim como eu são loucos por frutos do mar. A maioria dos restaurantes são caros para os padrões mochileiro, mas faça um esforço e tire pelo menos um dia para experimentar os pratos típicos locais. Seu paladar vai agradecer. Fica a sugestão: experimente o arroz de safio, as lulas com ferrado à Algarvia, a Salada Algarvia e o açorda à Algarvia -- > Para aqueles mochileiros que gostam de visitar monumentos históricos, uma boa dica é o Castelo de Paderne em Albufeira. É um dos sete castelos simbolizados na faixa carmesim que rodeia o escudo branco da Bandeira Nacional. Construído no século XII pelos árabes, foi conquistado em 1280 por D. Paio Peres Correia. É um 56

57 excelente exemplo da arquitetura militar muçulmana, com construção em taipa. ponto de informações turísticas, onde poderá receber informações, pegar mapas e ver os horários dos ônibus. -- > Se possível, tente apanhar o pôr do sol no Cabo de São Vicente. É uma experiência inesquecível. Mas, não deixe de levar um casaco, pois, frequentemente venta muito, -- > Albufeira tem dois terminais de ônibus. Um é localizado no centro da cidade (Avenida da Liberdade, tel ) a cinco minutos a pé do Largo Engenheiro Duarte Pacheco e outra localizada no Alto dos Caliços (tel: ). -- > Lagos e Albufeira tem ótimos passeios de barco pela costa. A maioria custa 10 euros por 45 minutos de viagem. Em Lagos, os melhores passeios saem da Ponta da Piedade. Já os melhores em Albufeira saem da praia do Peneco. São passeios que valem à pena. Todas as informações foram apuradas no dia 22 de junho de 2008 e atualizadas no dia 08 de outubro de > A estação de trem de Lagos fica na rua estrada de São Roque, a quinze minutos andando do centro da cidade. Já a rodoviária fica localizada no Largo Rossio de S.João, próximo à Avenida dos Descobrimentos (tel: ) -- > Os ônibus vindos de Lagos param perto da Praça da República, a praça principal de Sagres. Atrás dessa praça, você encontrará um 57

58 A cidade das cem torres Dia 28 de junho de Praga, Capital da República Checa. Ao som da música Glory, Glory, Hallelujah, embalada por um velho realejo, piso pela primeira vez na Ponte Carlos IV, um dos cartões postais mais famosos da cidade. A melodia arranca aplausos dos pedestres enquanto o simpaticíssimo velhinho de chapéu de palha, colete vermelho e gravata borboleta roda a manivela do seu instrumento musical. Passos adiante um grupo de artistas termina a pintura de um postal enquanto um trio de músicos auto-intitulado Prague Funfair Orchestra encanta os turistas com canções folclóricas checas. Encosto no parapeito, ao lado de uma garotinha que se rende aos traços precisos de um caricaturista, e aproveito para sentir a brisa beira-rio. Paro por uns dez minutos na tentativa de admirar a panorâmica, unicamente maculada pelos passos bárbaros das centenas de turistas que passam apressados em um vai-e-vem frenético. Mas não me importava. A vista da ponte, perfeitamente emoldurada pelo céu azul do verão europeu, era espetacular de qualquer maneira com ou sem a superlotação de turistas. Preferi seguir os conselhos de uma elegante família de cisnes que passeava tranqüila lá em baixo, nas águas do Rio Moldava, indiferente ao tráfego caótico sobre suas cabeças: ignoro a multidão, respiro fundo e volto a caminhar sem pressa. Atravesso os 520 metros que ligam Malá Strana à Cidade Velha mergulhado nas expressões das cerca de 30 estátuas barrocas que enfeitam a ponte, estupendas contra o céu do fim de tarde. Entre as esculturas mais notáveis, as de São Luthgard, a do Calvário e a de São João Nepomuceno, de longe a mais concorrida pelos turistas. São João era o confessor particular da rainha Praga. Foi prisioneiro por se recusar a contar ao rei Venceslau, que andava com a pulga atrás da orelha, o segredo que havia escutado no Santo confessionário. Acabou torturado, queimado, arrastado com uma carruagem e depois atirado no rio do alto da ponte. Diz a tradição que na noite de sua morte cinco estrelas caíram do céu e ficaram rodando acima do local onde foi afogado. Por isso, João 58

59 Nepomuceno é considerado o Santo dos confessores, o guardião das pontes e ainda, de quebra, padroeiro da Boêmia. Ao passar ao lado da aglomeração de turistas que se acotovela em frente ao Santo, escuto alguém dizer que basta tocar o pé da estátua para garantir que um dia você ainda retorne a esse lugar. Por vias das dúvidas, desvio rapidamente meu caminho e espero pacientemente no final da fila. Na minha vez, seguro firme no pé do Santo e faço uma prece silenciosa. Afinal, qualquer ajudinha que me faça voltar a essa cidade maravilhosa será muito bem vinda. É possível sentir uma certa magia no ar. A torre gótica na beira da ponte (de onde se tem a melhor panorâmica da ponte) e a sua inusitada arquitetura, a cúpula da Catedral de San Nicolas, o amontoado de casinhas renascentistas e barrocas de várias cores, a expressão das muitas estátuas, a trilha sonora dos os artistas de rua, o Rio Moldava com suas famílias de cisnes. Cada detalhe parece ter sido pincelado por um pintor surrealista. Um turista com cara de alemão passa por mim apressado, carregando um lindo bebê no colo e tenho a nítida sensação de que ele estava sorrindo. Não é preciso ter muita idade para sentir aquela mesma magia. Estamos em Praga, a capital da República Checa e, sem exageros, uma das cidades mais lindas do mundo. Despeço-me da ponte sob o olhar vigilante do Castelo de Praga que, lá de cima, coroa o cenário com jeitão de conto de fadas. Continuo meu caminho por ruelas charmosas, edifícios preservados, torres góticas, templos barrocos, jardins e cúpulas douradas. E a impressão é de estar dentro de uma fábula, onde tudo reluz e tem iluminação perfeita. Como é de praxe em contos infantis, Praga teve também um anjo da guarda e uma fada madrinha. Contam que um dos generais mais influentes de Hitler havia passado sua lua de mel aqui. Ele e sua esposa acabaram apaixonados pela cidade. Por conta dessa paixão fomos a única capital do leste europeu que quase não foi bombardeada durante a Segunda Guerra. Nossas atrações permaneceram intactas, sem um único arranhão, explica nossa simpática guia checa num português esforçado e de sotaque engraçadíssimo. 59

60 A atitude do general é justificada a cada esquina. Só de atrações cinco estrelas, Praga tem mais do que o suficiente para esgotar o tempo livre dos viajantes e mochileiros - apesar de todas serem inacreditavelmente perto umas das outras. O complexo Relógio Astronômico, onde, a cada hora cheia, bonecos articulados repetem o desfile que encanta os turistas, fica na enorme Praça da Cidade Velha, cheia de cafés e casas que são uma aula de arquitetura: vão do gótico ao rococó. Foi aqui - por entre torres, prédios renascentistas e uma pequena multidão de alemães e espanhóis - que assistimos ao jogo da final da Eurocopa Uma grande festa, com direito a malabaristas, animadores em cima de pernas de pau e de um excelente show de uma banda feminina de rock (antes que você pergunte: sim, as mulheres checas são lindas!) tocando o melhor do AC/DC. Aproveito para tirar fotos com as torcidas. Barulhentas, só pararam de esgoelar gritos de guerra na hora de tocar os hinos de cada país. Era hora de todos esquecerem as diferenças futebolísticas e se aglomeraram em frente do imenso telão. Um golaço de Fernando Torres e noventa minutos depois, uma explosão em vermelho e amarelo. O choro da alemã ao meu lado contrastou com os gritos de alegria dos espanhóis. A fúria, depois de 48 anos, voltava a sagrar-se campeã européia de futebol. Após o jogo, caminhamos algumas ruas até alcançar o Quarteirão Judaico e a sua história de sofrimento na época do Nazismo. Em 1939, imediatamente depois à ocupação alemã, mais de oitenta mil judeus checos foram deportados para os guetos de concentração de Teresín e de Allí. Destes campos voltaram, somente, uns 10 mil. Nas paredes da Sinagoga Pinkas, dentro do Bairro, estão inscritas um comovente memorial aos judeus checos mortos no Holocausto. Bem ao lado da Sinagoga, encontra-se o Antigo Cemitério Judeu. Nele encontram-se milhares lápides se aglomeram umas sobre as outras. Este surpreendente pequeno local foi durante mais de 300 anos o único local de sepultamento autorizado aos judeus. Devido à falta de espaço, pode-se ver hoje mais 12 mil lápides se aglomeram umas sobre as outras, apinhadas em um pequeno espaço. Mais a frente, o Rio Moldava surge no espaço de algumas pernadas. Suas pontes levam a Malá Strana (cidade pequena), bairro repleto de belos jardins e sede da Catedral de São Nicolau, um dos marcos 60

61 do horizonte da cidade. Gastamos toda uma tarde desse lado da ponte. A viela Dourada, com suas casinhas coloridas, é um clássico. De lá até o majestoso Castelo de Praga, seguimos o caminho tradicional pela Rua Nerudova, que muito antes de ser batizada em homenagem a Jan Neruda, poeta e jornalista tcheco do século 19, foi o último trecho do Caminho Real, a rota percorrida pelos reis da Boêmia da cidade até o castelo durante a coroação - não é difícil imaginá-los ali, cercados de gente e de glória. Os simpáticos cafés e restaurantes que atualmente dominam a rua preservam as fachadas com os emblemas originais. Eles identificavam as casas até surgirem endereços com números. A dos três pequenos violinos (número 12), por exemplo, foi de uma família de fabricantes do instrumento, por volta de Mais a frente, identifico-me de imediato com a casinha número 253. Um imponente carneiro avisa: tecelões de lã moraram ali. No Palácio Real, além de enormes salões e capelas, vê-se a janela de onde nobres protestantes arremessaram dois governadores e um secretário católico em Nos domínios do castelo ergue-se também, imponente, a Catedral de São Vito, o coração espiritual do país, com suas torres góticas e lindos vitrais que filtram a luz do sol. Ao longo das muralhas, antes da descida (com vistas panorâmicas) de volta para a cidade, fica a charmosa viela Dourada, com casinhas coloridas hoje recheadas de suvenires. No século 16, elas abrigaram guardas e artilheiros. Mais tarde, artistas pobres mudaram-se para lá, até mesmo o escritor Franz Kafka, um dos mais célebres filhos da cidade, que morou no número 22. De volta a frente do palácio, assistimos a troca da guarda real checa. Um desfile bem parecido com o londrino, só que sem o glamour, a roupa vermelha e os chapelões do primo famoso. O fato de as atrações estarem todas tão próximas umas das outras não significa que ela deva ser vista de um fôlego só. Pelo contrário: o melhor da cidade está justamente na oportunidade de assistir mais de uma vez à virada da hora no Relógio Astronômico, se perder pelas ruazinhas de Malá Strana, percorrer cada esquina da Cidade Nova ou de cruzar incansavelmente a Ponte Carlos, já que eles ficam no caminho para outros lugares de interesse. E em recuperar o ar em paradas estratégicas: assistindo, perto da Ponte Mánesuv no lado da Cidade Velha, ao sol se pôr atrás do castelo, curtindo os 61

62 concertos que acontecem em várias igrejas da cidade ou tomando uma Pilsner Urquell em caneca de meio litro servida em casas centenárias. teria dito: eu posso prever o futuro. Aqui, nessas terras nascerá uma grande cidade. Uma cidade tão linda e especial que a sua fama irá alcançar as estrelas. Chegava a hora do adeus. Talvez pudesse começar a me despedir contando sobre a sensação que senti ao subir pela primeira vez no castelo de Praga. Talvez pudesse falar sobre a paisagem da cidade do alto do castelo ou ainda sobre experiência de assistir uma das famosas peças do Teatro Negro checo. Podia, também, contar sobre suas muitas igrejas e prédios de arquitetura art nouveau. Poderia falar do gosto de uma saborosa salchicha checa regada por uma pivo (cerveja em checo) tamanho large. Ou do prazer de passear em uma praça que parecia saída de um conto de fadas. Mas, prefiro despedir-me lembrando as palavras da nossa simpática guia ao explicar a história das muitas torres que cercam a cidade. Muitos séculos depois, tive que balançar a cabeça e torcer para que a princesa esteja certa. Amém, que assim seja. Que Deus, Allah, os Orixás e Todos os Santos queiram que a fama de praga realmente chegue ao infinito. Praga é conhecida como a cidade das 100 torres. Cada uma dela, com sua haste apontada ao infinito, nos fazem lembrar a visão profética que a princesa Libuše, a fundadora da cidade, teve no século VIII. Ao ver, pela primeira vez, as terras em volta do castelo, 62

63 Dicas do Mochileiro - Praga Uma das mais belas capitais da Europa, Praga permanece praticamente intocada em sua atmosfera melancólica, tão característica da Europa do Leste. Tendo sobrevivido às duas grandes guerras deste século, ainda hoje, 11 anos após a queda do comunismo, celebra uma espécie de renascimento cultural que toma conta da cidade durante o ano todo. Por toda parte, artistas de rua dividem a atenção com a beleza da cidade, representada pela arquitetura das catedrais góticas, palácios barrocos e edifícios art nouveau. Abaixo algumas dicas para aproveitar melhor a cidade. -- > Os preços dos albergues, em se tratando de Europa, são bem razoáveis: num quarto com mais sete, é algo como 10 a 12 por noite. Diminua o número de pessoas no quarto e os preços sobem até uns 26 30, por um quarto solo com banheiro privativo. Tome cuidado para não escolher um muito distante do centro (Praga 5, 6, 7 ). Isso significa que você vai precisar pegar condução para ir até as atrações, ou caminhar bastante (que não é nada mal em Praga, mas toma tempo). Boas dicas são os Arpacay Hostel (Radlická 76, Prague 5, o Sir Toby s Hostel (Delnická 24, Prague 7, e o Hostel U melounu (Ke Karlovu 7/457, Prague 2, -- > Solto em Praga e cansado de carregar a mochila? Quer chegar ao Castelo, mas não quer subir o morro? Esqueceu como se fala Por favor, senhor, qual o bonde que devo tomar para ir ao teatro nacional em tcheco? Seus problemas acabaram! Conheça o Bonde 22, seu amigo de toda hora (entre 4h30 e meia-noite). O Bonde 22 é quase tudo que você precisa saber sobre bondes em Praga, porque ele percorre virtualmente todos os pontos por onde você vai passar. A linha começa lá no subúrbio sudeste de Praga e vem cortando a cidade na diagonal, com direito a paradas em quase todo centro histórico. Uma excelente dica. -- > Além de todas as qualidades turísticas, Praga é muito bem servida de restaurantes, cidade onde se come e se bebe muito bem, pra todos os gostos, estilos e orçamentos. Vale a pena provar os deliciosos svickova na smetane, que são fatias de filé assadas, 63

64 servidas com molho de creme sobre uma base de vegetais. Já para quem quer economizar, a dica é o párek v rohlíku. É uma espécie de cachorro quente típico com tem salsichas vários modelos e tamanho. Um dogão tcheco custa entre 40 e 50 coroas, que dá de 4 a 5 reais ao câmbio de hoje. Existem notas de 20Kc, 50Kc, 100Kc, 200Kc, 500Kc, 1000Kc, 2000Kc e 5000Kc e moedas de 1Kc, 2Kc, 5Kc, 10Kc, 20Kc e 50Kc e de 50 centavos (haleru). E o valor de troca é 1 = 28,20Kc; US$1 = 22,20Kc; R$1 = 10,75Kc. -- > A Embaixada Brasileira fica na Rua Praha Panská nº 05, tel: Todas as informações foram apuradas no dia 28 de julho de 2008 e atualizadas no dia 15 de outubro de > Os centros de informações turísticas chama-se PIS (Prague Information Service) e estão situados em dois endereços estratégicos: na Staromestské Radnice, no prédio antigo da prefeitura, junto à praça central e na Hlavni Nadrazi, a estação central de trem. Útil para mapas gratuitos (também disponíveis em hotéis), revistas com programação cultural entre anúncios de jóias, reserva de hotéis e albergues, tickets para concertos, informações gerais sobre Praga e a República Tcheca. -- > A coroa tcheca, ou Koruna Ceská no original (czech koruna ou crown em inglês), é representada por Kc (eventualmente CZK). 64

65 Como os pobres mundos se parecem Budapeste, Hungria, dia 05 de julho de 2008 Dizem que o húngaro é o idioma mais difícil do mundo. Talvez, seja pelo fato de ser uma língua aglutinante, onde não há preposições, nem declinações, nem gênero gramatical, nem ordem definida das palavras na frase. Dizem que o húngaro é a língua mais estranha de todas. Deve ser pelo fato de não pertencer ao ramo das línguas indoeuropéias e sim do ramo úgrico da família das línguas urálica. Ou ainda, por possuir palavras inacreditáveis e surreais que mais parecem uma sopa de letras, a exemplo da imoral Legeslegmegengedhetetlenebbekkel (sim, isso não é um erro de digitação. Significa com os mais inadmissíveis de todos, só não me pergunte como é possível que algum mortal consiga pronunciar isto). No livro Budapeste, Chico Buarque genialmente descreveu a impressão que essa língua causa a ouvidos estrangeiros: o húngaro é a única língua que, segundo as más-línguas, o diabo respeita. O poliglota Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano- Germânico, costumava dizer algo parecido. Para ele a língua espanhola era ideal para se falar com os reis, o italiano com a mulher amada, já o francês com o amigo, o holandês com os serviçais, o alemão com os soldados, o latim com Deus e o húngaro com o diabo. Eu só não sabia que, séculos depois, iria descobrir com uma fiscal de metrô mal encarada gritando no meu ouvido - que Chico e Carlos V estavam certos. Metrô de Budapeste, dia 05 de julho de Débora e eu estávamos em um dos barulhentos vagões que partiam da estação Kálvin tér, próxima a Váci utca, a rua peonal mais famosa da cidade. Planejávamos visitar o interior do luxuoso Parlamento Húngaro e para isso tínhamos que chegar até a parada Kossuth Lajos tér, as margens do Danúbio. Como não havia uma linha direta entre as duas estações, decidimos em ir até um ponto intermediário e de lá fazer uma baldeação até o destino final. Mostro no mapa o lugar onde queremos chegar e o rapaz do caixa nos deu um bilhete incompreensível. 65

66 Tudo corria normalmente até chegarmos à estação Deák tér. Estávamos prontos para entrar no metrô quando, de repente, uma fiscal gorda nos aborda com a sutileza de um pitt bull, impedindo a passagem e gritando o que só mesmo o diabão compreenderia. Aquele ser, que mais parecia fóssil comunista, falava sem parar e o máximo que eu conseguia entender era um ôôô gutural, exatamente como o de um surdo-mudo. Aos meus ouvidos aquilo só poderia ser mesmo uma língua sem eira nem beira, não constituída de palavras, frases, sentenças ou de alguma centelha de sentido. Somente de uma confusão sonora inventada por algum deus irônico e farsante, incumbido de zombar de tudo e de todos. Naquele momento tive uma única certeza: a língua húngara não é parecida com nada, exceto talvez, com o marciano ou com o idioma falado em Plutão. Foi exatamente assim que me senti: conversando com alguém de outro planeta. Tentei entender o que se passava, comunicando-me em inglês. Explico que somos turistas, que não falávamos húngaro. Mas, para piorar a situação, ela não entendia patavinas e continuava a berrar naquela língua doida. Eu não conseguia entender o que eu e minha inocente irmã tínhamos feito, até o momento em que ela resolveu falar uma única frase num inglês tosco: pay ninety euro or call police. Isso mesmo, eu nem sabia o que tinha feito e a nossa raivosa pitt bull soviética queria que pagássemos uma bagatela de 90 euros cada!!! Já estava ficando desesperado com a situação, quando apareceu um senhor com ar superior, também fardado de fiscal. Ufa, finalmente alguém que falasse inglês. Ele explica que estávamos com o ticket errado e que por isso teríamos que pagar uma multa. Eu repito a mesma ladainha e dou uma dramatizada. Somos turistas, viemos do Brasil, era a primeira vez que pegávamos aquele metrô, não nos avisaram que existia vários tipos de ticket e que o único dinheiro que tínhamos era para comer. Para minha surpresa, o fiscal dispensa à gordona e nos chama num canto: Meninos, vamos fazer assim. Essa taxa de 90 euros já é uma taxa reduzida para turistas. A multa normal é muito maior. Mas, estou vendo que vocês são estudantes, e realmente não sabiam o que estavam fazendo. Podemos dar um jeitinho, sabe como é? Uma mão lava a outra.. Eu, que já estava achando aquilo muito estranho, tive uma triste sensação de familiaridade ao ouvir essa frase. Já sabia 66

67 exatamente como acabaria o enredo desse samba: Vamos fazer o seguinte, vocês me dão 30 euros que eu finjo que nunca vi vocês. Podemos esquecer isso. Impotente, tive de aceitar. Na saída ainda tenho de apertar a mão estendida por ele em despedia. Saí bufando de indignação por todo o caminho, que tivemos de percorrer a pé, da Deák ter. até o parlamento. O que mais me doía não era aquele achaque, ou o fato de estar 60 euros mais pobre, mas sim, o sentimento de intimidade com aquela situação. É triste perceber como os pobres mundos se parecem, mesmo com povos, culturas e idiomas tão diferentes. Brasil e Hungria se entendiam perfeitamente na degradante língua universal da corrupção. Como já diria Caetano: O Haiti não é aqui. O Haiti é aqui. 67

68 Dicas do Mochileiro - Budapeste Budapeste é o resultado da união de três cidades, em Buda (que abriga o Palácio Real e as Termas Gellért), Peste (que concentra o Parlamento, a Ópera, a Basílica de São Estevão e a maioria dos tradicionais cafés) e Óbuda. Entre Buda e Peste, o Danúbio e suas lindas pontes. A cidade tem um charme único, provocante, caótico, underground, imprevisível e bem diferente do de Praga e Viena. Impossível não se encantar com a arquitetura de seus imponentes monumentos, com sua culinária, suas belas mulheres, sua agitada vida noturna, com a beleza do seu castelo e pontes e com a maneira peculiar como edifícios ainda com marcas de balas da segunda guerra convivem com a modernidade dos arranha-céus, butiques de luxo e lojas de grife. Algumas dicas úteis para aproveitar melhor a cidade: -- > A Hungria é um dos países europeus mais baratos para viajar - tendência a mudar devido à adesão à União Européia. Aproveite enquanto ainda é possível ficar num albergue por 12 euros, comer por três euros e visitar um museu por dois euros. O mochilão básico deve custar entre 30 e 40 euros por dia, com tudo incluso. Já uma viagem mais folgada, com direito até mesmo às tradicionais termas, fica entre 45 e 60 euros por dia. -- > O câmbio para a moeda húngara, o Forint (Ft), é uma coisa tão surreal quanto a sua língua. Um euro vale 262 Ft, o dólar vale 203Ft e o real 97 Ft. Tenha sempre uma calculadora na mão se não quiser ficar doido com tantos cálculos. -- > Budapeste é uma cidade que merece ser apreciada como um bom vinho: com calma e sem pressa. Reserve no minino dois dias do seu mochilão para explorar a cidade. O ideal é passar de três a mais dias, mas se você estiver com o roteiro apertado, não se desespere. Dá para conhecer as principais atrações turística racionalizando bem seu tempo. -- > A Hungria tem uma vasta culinária. Nada é mais tradicional, ao menos aos olhos ocidentais, do que o goulash, um grosso caldo de carne com batatas e cebolas temperado com páprica. Similar é o 68

69 pörkölt, feito de porco. Famosa também é a Palacsinta, massa de panqueca e a Hortobagui Palacsint, com galinha. O vinho é uma bebida muito apreciada e cervejas húngaras como Dreher e Kobanyai são bastante populares. Comida aqui não é cara; vale, portanto, investir na legítima gastronomia húngara. Boa opção é um lugar chamado Fatal na rua Váci 67, servindo comida húngara por 1.000Ft a 3.000Ft numa porção suficiente para duas pessoas. Outra dica interessante é o bar/restaurante Verne, na mesma rua, quase ao lado, número 60, no subsolo, com sua decoração baseada na história de Júlio Verne Léguas Submarinas, imitando um submarino e servindo bons pratos a partir de 1.000Ft. -- > Cuidado no metrô. Os single tickets valem somente para uma linha. Se for usar mais de uma linha, compre o transfer ticket ou compre outro single ticket. -- > Muito cuidado ao pegar taxis nas ruas. Prefira sempre os oficiais como taxi2000, fotaxi, 66, city taxi, tele5, est taxi. -- > Se estiver entre março e abril, antene-se para o Budapest Spring Festival, o maior festival do país, com danças, música e teatro, ao longo de várias cidades, com o que há de melhor da variedade cultural húngara. -- > Se você é fã de doces, não deixe de ir ao Café Gerbeaud (V, Vörösmarty tér, 7, , O lugar, fundado em 1870, é o paraíso das tortas e quitutes húngaros. A Dobostorta (o bolo que provei) foi criada em 1884 pelo grande confeiteiro e escritor gastronômico Jozsef Dobos, descendente de antiga família de confeiteiros da realeza. -- > Experimente andar à noite na margem do rio, admirando a iluminação da Ponte das Correntes e dos edifícios em ambas as margens. Se estiver bem acompanhado, melhor ainda. Todas as informações foram apuradas no dia 05 de julho de 2008e atualizadas no dia 18 de outubro de

70 Prefiro ser essa metamorfose ambulante Berlim, Capital da Alemanha, dia 11 de julho de 2008 ligava Amsterdam a Berlim, a única pendência que não consegui reservar pela internet, estava lotado. Resultado: tivemos de desviar mais de 500 km até Frankfurt e perdemos preciosas (e muitas!) horas dentro de um ônibus lotado. Caminhávamos trôpegos pelas ruas de Berlim depois de uma longa e desastrada viagem. Havíamos acabado de chegar à capital alemã e cansaço era a palavra perfeita para definir o momento. Eram oito da noite e já havíamos perdido um dia inteiro de passeio. Alguns metros incômodos nos separavam do Circus Hostel e a mochila em minhas costas pesava mais do que nunca. Sobre os ombros, mais do que os quilos de roupa. Incomodava, mesmo, o peso da responsabilidade. Aquele era o primeiro mochilão de Débora, e eu, como todo irmão coruja, queria que tudo saísse perfeito. Havia planejado minuciosamente todos os detalhes. Albergues, passagens de avião, roteiro de atrações, ticket de ônibus, contato com aquele conhecido que iria nos hospedar, tudo bem acertado. A lei de Murphy, porém, resolveu nos pregou uma das suas e aconteceu a única coisa poderia sair errada. O transporte que Torcia para que todo esse esforço valesse à pena e Berlim não me desapontou (graças a Deus!), surpreendendo-nos do primeiro a último minuto. Admito que de início não esperava muito da cidade. Afinal, ela não tem nem de longe o charme de Paris. Sua gastronomia é constrangedora quando comparado a de Barcelona e qualquer italiano parece infinitamente mais hospitaleiros que os germânicos. Para piorar, eles ainda falam aquele idioma impenetrável, com palavras de 50 letras recheadas de consoantes e tremas. Se você também repete esses estereótipos como justificativa para fugir do país, chegou a hora de rever seus conceitos. Berlim, essa verdadeira metamorfose ambulante, foi feita para quebrar paradigmas. Bastou poucas horas caminhando por suas avenidas para esquecer completamente todos os problemas do início da viagem. É possível 70

71 comprovar - em cada uma das suas esquinas a sua incrível capacidade de reinventar-se frente seu recente passado. Mais moderna e jovem do que nunca, a cidade se mostra surpreendentemente vibrante, dinâmica, pulsante, underground e parece viver intensamente cada minuto do seu tempo - o futuro. As antigas formas sólidas estão recebendo, aos poucos, tons de modernidade. Estações ferroviárias futuristas, museus, praças majestosas e prédios de arquitetura arrojada mudaram a cara da cidade. Berlim é, também, um grande museu ao céu aberto, com monumentos de alto valor simbólico. Ao lado dessas atrações, oferece a vanguarda de seus músicos, DJs e artistas plásticos, cerca de 170 museus, 500 igrejas, mais de bares (com cerca de marcas de cerveja alemãs), 135 teatros e três Óperas, além dos parques, galerias e uma vida noturna agitadíssima. Resumindo: poucos lugares do mundo respiram tanta cultura como aqui. Nosso passeio por esta nova Berlim começou no outro dia bem cedo. Com as baterias carregadas, emergimos da estação Potsdamer Platz e demos de cara com o Sony Center um complexo de prédios futuristas agrupados em torno de um átrio central e cobertos por um teto de vidro. Há 17 anos ali só havia a desolação do entorno do Muro de Berlim - cuja história você pode conhecer numa exposição montada em frente à praça, usando fragmentos como suporte. O trecho mais longo do que sobrou do Muro fica na Rua Friedrichshain e é chamado de East Side Gallery. Painéis ao longo dos 1.3 km de grafites e artes incluem o famoso retrato do líder soviético Leonid Brejnev beijando Erich Honecker, chefe de governo da antiga Alemanha Oriental. Em outra parte, a palavra Madness 13 pichada em letras borradas parece resumir a tumultuada história do lugar. Continuamos pela Avenida Ebertstrasse. Numa de suas pontas está o famoso Portão de Brandemburgo, construído para celebrar as vitórias prussianas nas guerras. Sua praça abriga a Sala do Silêncio, administrada pela ONU para que os visitantes reflitam sobre a paz. Do fim do século 18, Portão é inspirado na entrada da Acrópole de Atenas. No alto das colunas dóricas, cavalos que conduzem a deusa Vitória. A poucos minutos dali, pode-se avistar um campo de 13 Loucura em inglês 71

72 lápides sem identificação, construídas num labirinto de vielas que parecem engolir seus visitantes: é o tocante Memorial das Vítimas do Holocausto. Atrás de uma mureta, pilares de concreto de aproximadamente 2,4 metros de comprimento por 1,3 de largura - e altura variável de até 4 metros - se espalham por uma área equivalente a quatro campos de futebol. Mais a frente, está a belíssima abóbada de vidro do Reichstag do renomado arquiteto inglês Norman Foster. Do alto de sua cúpula transparente, uma vista impressionante da cidade e do plenário do Parlamento Alemão. Seguimos pela Unter den Linden ("Sob as Tílias"), a avenida que lembra um bulevar francês. Quem a percorre vê-se frente a frente de um sem-fim de marcas históricas. Monumentos simbólicos como o novo Museu Judaico, que impressiona visualmente e marca seu significado na memória, a altíssima Igreja Memorial do Imperador Guilherme, cuja cúpula foi bombardeada e deixada em ruína e o Checkpoint Charlie, posto de controle do setor americano da cidade, após a Segunda Guerra. Os tanques de guerra russos e americanos, que apontavam seus canhões uns para os outros, deram lugar a falsos guardas de fronteira que se oferecem para carimbar passaporte por cinco euros e estudantes vestidos com uniformes militares que posam ao lado de turistas. A cima a placa avisa aos mais desatentos: Você está saindo do setor americano. Logo em frente está o Museum Haus am Checkpoint Charlie, com centenas de fotos, documentos, vídeos e muitos outros objetos relacionados ao muro de Berlin. É especialmente tocante ver as tentativas desesperadas e espetaculares de escapar do lado comunista, incluindo balões de ar quente, túneis mirabolantes, passagens dentro de malas. Outro ponto alto foi visitar o local onde Hitler, sua companheira Eva Braun e seu braço-direito Joseph Goebbels se suicidaram. O bunker do líder nazista transformou-se hoje em canteiro de flores dentro de um conjunto de prédios residenciais próximos ao Portão de Brandemburgo. Não há placas alusivas aos velhos moradores para evitar que ele se torne local de peregrinação. Ao sudeste está o Topographie des Terror, que já serviu de quartel-general da Gestapo e agora abriga um memorial temporário sobre a polícia secreta de Hitler. 72

73 Sob o olhar atento da Fernsehturm, a gigantesca torre de TV, que do alto dos 368 metros de altura faz-se visível em todos os cantos, tomamos o caminho de volta para o nosso albergue. Iríamos pegar o avião rumo a Londres ainda naquela noite. Chegava a hora de dar adeus a Berlim e o gostinho de quero mais calou intenso e amargo na garganta. Tudo por causa daquele maldito ônibus que nos fez perder um dia inteiro de passeio. Apesar do pouco tempo e da vontade de ficar mais, partia satisfeito. Despedia-me com a mesma certeza do poeta inglês Samuel Johnson ao elogiar sua amada Londres. Qualquer um que está cansado de Berlim está cansado da vida. 73

74 Dicas do Mochileiro - Berlim endereço do Circus fica na Rosa-Luxemburg-Strasse 39, Mitte (tel ). --> Berlim é uma cidade cosmopolita, enorme para os padrões europeus, mas injustiçada porque quase nunca é mencionada por sua intensa vida cultural. Sugiro uma visita ao diversos museus da cidade, em especial o Museu Egípcio de Berlim, que tem uma ampla coleção e o busto de Nefretite, uma das rainhas mais fascinantes e influentes do Egito Antigo. Faça um tour pelas galerias de arte que nos últimos anos pipocaram pelos arredores de Potsdamer Platz. Quem gosta de música tem que conferir um concerto da Orquestra Filarmônica de Berlim. -- > Ficamos hospedados no Circus Hostel (Weinbergsweg 1A, tel , Esse foi sem sombra de dúvida o melhor albergue de todas as viagens. Os proprietários são jovens viajantes e se esforçam para que o preço cobrado valha cada centavo. Se ficar em Berlim por muito tempo, os apartamentos no último andar têm preços razoáveis e belas paisagens. O outro -- > Existe um vasto sistema de bondes (na parte leste), ônibus, metrôs (U-Bahns) e trens suburbanos (S-Bahns). Portadores de eurailpass podem utilizar o S-Bahn de graça. A passagem curta te dá direito de viagem a até seis pontos de ônibus ou três paradas de S- Bahn ou U-Bahn. Cartão de um dia oferece transporte ilimitado pelo período e o passe de turista oferece passe livre para uma semana. --> Tours guiados são um verdadeiro fenômeno em Berlim. Aqui você pode encontrar tours sobre praticamente qualquer tema, mas a melhor introdução a cidade são os tours oferecidos pela New Berlim (www.newberlimtours.com) e o melhor de tudo: Tudo o que você vai gastar é o valor de uma gorjeta, nada mais justo para o guia ao final do tour gratuito. Vá ao Starbucks Café na Unter den Linden, que fica atrás do Portão de Brandemburgo. Eles partem diariamente de lá às 11:00, 13:00 e 16:00. 74

75 --> Outra opção é passear nos ônibus 100 e 200. Estas duas linhas de ônibus fazem a alegria dos turistas, pois, percorrem os principais pontos turísticos da cidade, de leste a oeste. Você embarca no ônibus 100 na Alexanderplatz e segue até a Zoo Station. Na volta, embarca no ônibus 200 e segue até a Potsdamer Platz. Isto é, um verdadeiro city tour por Berlim que custa cerca de dois euros. --> Deixe para visitar os museus para as quintas-feiras, após às 14:00, quando todos os 16 museus são gratuitos. Entre eles estão: Museumsinsel, Museum of Decorative Arts em Tiergarten e o Museum of Indian Art em Taku Street. --> Não vá embora da cidade sem conhecer o Jardim Zoológico que é uma combinação de zoológico com um aquário gigante. Fica um ao lado do outro. --> Não caia na tentação de andar nos metrôs e trens sem ter o ticket. Aqui a inspeção é rigorosa, e a multa altíssima! --> Cuidado com o trânsito de bicicletas na cidade, que é intenso. Vai ouvir um monte de nome feio caso ande na ciclovia, e se tiver um acidente, a culpa será sua. Onde houver linhas vermelhas no chão, demarcam o território deles. --> A salsicha (wurst, em alemão) é o que de mais típico há para se comer na Alemanha. Mas nem só embutido devora-se o porco. Dele os locais também apreciam joelhos e costelas. O kassler, por exemplo, é a costela de porco defumada servida com chucrute e batata cozida. --> Soubemos, no albergue, de um serviço bem interessante. Funciona assim: um guia especializado em baladas passa em hotéis e albergues convocando o pessoal para conhecer a vida noturna da cidade. Por 10 euros, ele levará o grupo a quatro pubs. Cada um tem um estilo e entre um pub e outro o guia oferece um Shot pra cada pessoa, pra ir animando a galera. Todas as informações foram apuradas no dia 12 de julho de 2008 e atualizadas no dia 20 de outubro de

76 Deixa eu te contar mais de mim Delta Dunarii, margem oeste da Romênia, dia 09 de julho de 2009 O sol levantava-se vagaroso enquanto o ferry boat seguia seu caminho pelas águas calmas e tranquilas do rio Danúbio. Os ponteiros do relógio se aproximavam das seis horas e trinta minutos enquanto eu ainda bocejava, sonolento. Encontrava-me deitado, cabeça abrigada no colo carinhoso de Alina, e com olhar atento, fotografando todos os detalhes da vista ao redor. Os raios de luz iluminavam suavemente os ramalhetes de lírios d água e emprestavam aos céus uma inusitada tonalidade vermelha, azul e laranja. Coloração que tornava a paisagem do Delta Dunarii, um dos últimos tesouros naturais de toda Europa, ainda mais exuberante e bela. Havíamos partido a uns vinte minutos da cidade de Tulcea, o portão de entrada do Delta, e agora navegávamos pelo seu braço mais setentrional em direção à pequena e isolada vila de Sfantu Gheorghe encravada na extremidade oeste do país. Lugar onde as águas do Danúbio, depois de uma longa viagem por quase toda a Europa, finalmente se encontra com as do Mar Negro. Assim como o Danúbio, também fazíamos uma viagem longa. Para chegarmos ao nosso destino tínhamos que percorrer 109 quilômetros em demoradas quatro horas rio adentro. Uma jornada que seria, certamente, muito entediante - não fossem às surpresas que ela pode nos reservar. Estava distraído, aproveitando um delicioso cafuné, quando Alina chama minha atenção. Olha, Davi. Olha lá. Adivinha quem apareceu para desejar uma boa viagem? Levanto depressa. Um grandioso pelicano branco, ave símbolo do Delta, fazia pose para fotos do outro lado do barco. Sentia uma gostosa sensação de familiaridade com aquela paisagem. Tudo por aqui me lembrava muito o pantanal brasileiro. A semelhança entre os dois não é mera coincidência. O Delta, assim como o seu primo sul-americano, é uma das maiores planícies alagadas do mundo. Seu bioma, fauna e flora, considerados patrimônios da humanidade pela Unesco, são riquíssimos. Uma beleza que se estende por quase hectares de águas, ilhas, florestas virgens, canais, lagos, com 300 tipos diferentes de peixe 76

77 (como o lucio, crap, tiucă, carpa e o valioso esturjão, famoso peixe que põe o caviar). São mais de 150 espécies de aves (algumas únicas na Europa) e dezenas de animais selvagens como o javali, a lontra e até o lobo. Referências que justificam o aumento crescente do número de ecoturistas, amantes da pesca e da observação de pássaros que visitam este santuário selvagem a cada ano. Exatamente como no pantanal. De repente, aquele imenso pelicano branco parecia acenar com o bico, como quem manda lembranças aos tuiuiús e jacarés do Brasil. A cada minuto, a pacata Tulcea, coração do Delta, ia se transformando em um pequeno ponto perdido no horizonte. Um ponto tão pequeno quanto à bolinha que representa esta cidade no mapa-múndi, guardado com carinho no meu quarto do Brasil. É neste mapa que marco com um X todos os lugares que já visitei. Marquei, também, com um círculo todos aqueles que, um dia, gostaria de visitar. Tulcea era a cidade número um do grupo dos círculos. Pode parecer estranho, mas esta era de longe a cidade que eu mais tinha curiosidade em conhecer na Romênia. Sim, estava doido para visitar a Transilvânia, Bucareste, o castelo do Drácula e os demais clichês romenos. Mas, a minha forte atração por Tulcea se explicava por um motivo particular e uma forte curiosidade pessoal: essa era a cidade natal da Alina. Fazia um calor sufocante quando chegamos a está cidade industrial do leste romeno, após atravessar os 342 quilômetros que a separam da capital Bucareste. Vim viajando em várias coisas durante a viagem. Como seria conhecer um lugar que até pouco tempo era apenas um pequeno e distante ponto do meu mapa-múndi? Como iria comunicar-me com os pais da Alina se eles não falavam inglês? Será que iriam gostar de mim? Perguntas que o tempo iria responder com naturalidade. Com o passar dos dias, fui envolvido pelos encantos da cidade real. Encontrei em Tulcea um charme interiorano, pacato peculiar. Aqui, descobri uma bela cidade cercada por sete colinas e uma ribeira onde os casais apaixonados passeiam de mãos dadas e esperam para assistir um lindo pôr do sol. Encontrei um imponente monumento em homenagem a independência, ótimos museus, bons hotéis e um moderno aquário, com muitas espécies do Delta Dunarii. Mas, o 77

78 mais importante de tudo: foi aqui o lugar em que vivi coisas que nenhum dinheiro do mundo poderia pagar. Foi em Tulcea que descobrir na prática o valor da famosa receptividade romena. Os pais da Alina, o Tio Ion e Tia Valentina me receberam da forma mais carinhosa em sua pequena, mas acolhedora, casa. Refeições sempre fartas, conversas em tom alto, muita animação e energia. Assim como gostam os povos latinos. Foi com eles que provei os deliciosos peixes do Danúbio (como o tiucă, o crap, o somn, e outros), a saborosa Musaca (uma espécie de lasanha turca com massa de batata e muita carne) e o tradicional Sarmale (bolinhos romenos de carne enrolado na folha da uva). Valentina, sábia professora de geografia, fazia questão de me mostrar mapas e de explicar sobre a topografia daquela região, mesmo sabendo que eu não entendia uma palavra sequer em romeno. Já Ion fazia questão de encher meu copo com a Ńuică, bebida romena típica muito forte feita com ameixa. Além disso, gostava de conversar por horas, mesmo sem entendermos uma frase um do outro. Uma noite, em frente à televisão, conversamos entre sorrisos e muitas mímicas sobre diversos assuntos - como política, economia e futebol. Ele falava empolgado, tagarelando por sinais enquanto eu me punha a sorrir e concordar com a cabeça. Nos entendíamos perfeitamente na linguagem universal dos pequenos gestos, dos sorrisos, da simpatia e do carinho. Fui desvendando, pouco a pouco, algumas partes da essência daquela pessoa por quem havia me apaixonado tão profundamente. Visitar a cidade onde ela nasceu e cresceu. Ir até a Spiru Haret, escola onde ela estudou. Subir a colina do monumento da independência, um dos seus lugares favoritos, e admirar a bela panorâmica da cidade. Percorrer a ribeira onde havia visto inúmeras fotos do pôr do sol. Conhecer a Anciu, uma de suas melhores amigas. Ver de perto o carinho, a atenção e o amor que transbordavam dos seus pais. Cada um desses fatores foi essencial para entender o porquê Alina é uma pessoa tão querida, amada, carinhosa e especial. 78

79 Em sua casa, minutos antes de pegarmos o barco que nos levaria através do Delta até o vilarejo de Sfantu Gheorghe, abro o YouTube e coloco a canção de uma das cantoras preferidas. A baiana Vânia Abreu, com sua voz suave e angelical, parece ter a música certa para cada momento: Deixa eu te contar mais de mim, quero te mostrar quem sou Sou como o lugar de onde vim, onde tudo começou Esse brilho em meu olhar é do mar, é do mar que trago refletido Guardo a tua luz a me guiar, meu caminho agora faz sentido Vim morar a tua cidade só pra te encontrar, me tornar metade ao ser inteira (Mais de Mim composição Marcelo Quintanilha) Se tivesse de voltar para o Brasil naquele instante, voltaria feliz. 79

80 Lua de Sfantu Gheorghe Mar Negro, extremo Oeste da Romênia, dia 09 de julho de 2009 Encontrava-me boiando a alguns metros da praia, olhos fixos no firmamento e pontas dos dedos ancoradas bem de leve na areia. A poucos metros, Alina se divertia como uma criança feliz, nadando pra lá e pra cá por aquelas águas calmas e serenas. Mais além, o que se abria era uma praia de sonhos. Intocada. Paradisíaca. Extremamente rústica, selvagem e quase deserta. Quilômetros e mais quilômetros de águas tranquilas e grandes extensões de areia branca e fina, cobertas por uma infinitude nunca antes imaginada de conchas e búzios. Estamos no pequeno vilarejo de Sfantu Gheorghe, extremo Oeste do Delta Dunarii, lugar exato onde as águas do Danúbio se encontram majestosamente com as do Mar Negro. Eram às vinte horas. Horário em que partia o último transporte público de Sfantu Gheorghe. Um pouco mais de dois quilômetros de terra batida separam o centro da vila da praia e por isso quase todos os banhistas corriam apressados para apanhar aquele Jeep 4x4, adaptado com uma grande carroceria de madeira. Preferimos contrariar a agonia. Vamos ficar, nem se preocupe, podemos voltar a pé. disse Alina, abrindo um daqueles lindos sorrisos que só ela sabe dar. Concordei. Ir embora daquele lugar era a última coisa que queria no momento. Daqui a pouco, o astro rei se despediria da pequena vila e o espetáculo prometia. Além de eu e Alina não ficou mais ninguém na praia. Apenas os robustos sombreiros de palha e gordas gaivotas que abrem as frutas silvestres caídas com seus bicos, para depois se fartarem com a polpa doce. Ao longe, um casal apaixonado caminha de mãos dadas até se perder no largo horizonte. Poderia ficar assim, horas e horas numa mesma posição, apenas contemplando a tranquilidade daquele lugar. Aquela era a segunda vez que encontrava um local assim. Da primeira vez, no Algarve, me apaixonei pela beleza incomum das imensas falésias. Agora, a beira do Mar Negro, fui conquistado pela surpreendente conspiração de elementos que pareciam, desde o primeiro momento, se esforçar para 80

81 que nossa passagem por aquela vila fosse algo inesquecível. Enquanto observava o voo dos pássaros, meu pensamento ia longe. Eram às dez e meia da manhã. Uma parada brusca foi o sinal de que o nosso ferry, após uma longa viagem pelo Danúbio, havia chegado ao seu destino. Descemos em um pequenino cais, bem simples e rústico. Logo, somos recepcionados por nossa anfitriã. Nicoleta, uma das melhores amigas de Alina, já esperava com um largo sorriso. Bem branquinha, baixinha, nariz levemente aquilino, cabelos longos e lisos, simpaticíssima, voz calma e olhar ativo, penetrante. Davi, é um prazer te conhecer. Você nem imagina o quanto esta menina fala de você repetiu, com um inglês impecável, a mesma frase que dez entre dez amigas da Alina disseram ao me conhecer. Espero que tenham feito uma boa viagem. Esperava ansiosa por vocês. milhas de distância da agitação frenética dos grandes centros romenos, a vida dos seus quase 900 habitantes parece continuar a mesma de muitos anos atrás. A vila segue no mesmo ritmo da natureza e até o tempo parece passar sem pressa por aqui. Seguimos a Nico por algumas ruas de barro até chegar a pensione 14 da sua tia. Havíamos pago uma bagatela de 80 rons (ou seja cerca de 20 euros) pela estadia, que nos deu direito a uma suíte imensa e a duas refeições. E por falar em refeições... que fartura. Não comia assim tão bem desde a famosa salada do Mohamed. Várias opções de peixes e sopas, sarmale de peixe, bolo de ginja, pudim de leite e bebida a vontade. Extremamente educada e atenciosa, Nicos me explica a diferença entre os tipos de peixes do Danúbio. A stiuca é o mais saboroso, o salau é o mais saudável, já somn mais gordo, o crap tem pouca espinha... Do cais dava para se ter um panorama geral de Stanfu Gheorghe. A vila era realmente bem simples: chão de terra batida, carroças, burreguinhos passando, casinhas de cores vividas, telhados vermelhos e pescadores arrastando suas redes em direção ao mar. A Depois do delicioso almoço, nos despedimos da Nicos e fomos na direção da praia. Estava curioso. Afinal, aquela seria meu primeiro banho de mar. É verdade que estive na beira do Mar Mediterrâneo 14 Pensione: casas de família que alugam quartos para turistas 81

82 em Barcelona. Mas, arriscar para um mergulho seria a primeira vez. E, realmente, foi uma experiência bem diferente do que estou acostumado. No mar não tem aquela correnteza que renova as águas e dá força ao oceano. Por isso suas águas são mais quentes e não há formação de ondas. A vastidão do Mar Negro lembra uma grande piscina natural. Outra diferença: ao mergulhar não se sente aquele gosto do mar na boca, e sim de uma estranha mistura de doce e salgado. Calcula-se que o nível de salinidade das suas águas seja a metade do normalmente registrado nos oceanos. A escuridão da água (sim, o mar não é chamado de negro à toa) e uma impressionante quantidade de conchas na areia (nunca havia visto tantas juntas!) completavam aquele ambiente pitoresco e cheio de novidades. Ainda estava divagando em pensamentos, boiando naquela mesma posição, quando a voz suave Alina me trouxe de volta a realidade. Bebix, daqui a pouco está na hora de irmos. Ainda quero caminhar um pouco na areia. Você me acompanha? Andamos alguns metros pela praia completamente deserta, até nos deparar com uma cena inusitada. No meio da paisagem, enraizado na areia, encontramos um gigantesco e solitário girassol. Sozinho, no centro da praia, ele parecia meditar, admirando as belezas de Sfantu Gheorghe. Como ele chegou até ali? O que fazia sozinho no meio do nada? Quais eram suas pretensões? Preferi segurar a curiosidade e não perguntar. Seria falta de educação interromper aquele seu estado de contemplação total. Enquanto Alina corria para dar um último mergulho, sentei ao lado do meu novo amigo e única testemunha do segredo do nosso amor. Queria me despedir daquele lugar especial. Em poucos minutos, o sol começa o seu espetáculo. O céu ia mudando gradativamente de cor enquanto a imensa bola laranja lentamente morria no horizonte, por detrás das dunas de areia. Quem no mundo poderá dizer que, naquele momento, o astro rei não fizera uma especial homenagem, se pondo exclusivamente para mim, Alina e nosso inusitado companheiro? O sol havia dado lugar a uma imensa lua cheia quando resolvemos voltar à vila. As ruas de terra não têm nenhum tipo de iluminação elétrica e o breu era total. Apressamos o passo. Havíamos marcado com a Nicos, seu namorado e mais alguns amigos para tomarmos 82

83 algo e eles já deviam estar preocupados. Encontramos-nos no Dolphim Camp, um acampamento com chalés charmosos e uma moderna estrutura que contrasta com a simplicidade da vila. Clube com bar, discoteca e um surpreendente cinema ao ar livre. A lua brilhava soberana e deslumbrante sobre a seda azul atolada de estrelas. Explico a Alina com ar de sabichão: Costansa - tive inveja daquela lua cheia, branca e inteira que podia ir e voltar por todo sempre àquele surpreendente lugar. - Dizem que São Jorge mora na lua 15. Vê aquelas manchas? Elas formam a figura do santo montado em seu cavalo lutando contra o dragão. - Sério? Então estamos com sorte. Temos a benção dele para fechar com chave de ouro um dia perfeito. Poderemos partir amanhã com as energias renovadas. Eu - que queria ficar mais alguns dias em Sfantu Gheorghe, mesmo sabendo que os amigos da Alina já nos esperavam na cidade de 15 A ligação de São Jorge com a lua é algo puramente brasileiro, com forte influência do sincretismo religioso. O santo católico é associado a Oxossi, orixá associado à lua. 83

84 Dicas do Mochileiro Delta Dunarii e Sfantu Gheorghe Com quase hectares de águas, ilhas, florestas virgens, canais, lagos, muitos peixes até os esturjões, relíquias terciárias que dão o famoso caviar - centenas de espécies de aves, algumas únicas na Europa, como o pelicano branco, o Delta do Danúbio representa um dos últimos paraísos naturais da Europa e o maior parque do continente. A principal cidade da região é Tulcea, o portão de entrada e parada obrigatória de todos que querem explorar o Delta. Seguimos pelo canal sul do rio, o Sfantu Gheorghe, que serpenteia por mais de 100 quilômetros até desembocar no Mar, perto do povoado de mesmo nome. Vamos a algumas dicas sobre esses lugares especiais da margem oeste da Romênia. --> Você pode obter informações turísticas em pontos como o Danube Delta Biosphere Reserve Authority (tel: ; situado no prédio do Centro de educação ecológica e no Danubius Travel Agency (tel: ) no Hotel Europolis. Eles iram fornecer variadas opções de viagens ao Delta partindo de Tulcea. --> Não deixe de visitar o Museu das Artes Folclóricas (Tel: ; Str 9 Mai 4) em Tulcea. Esse pequeno museu tem muitas informações sobre as bruxas romenas (sim, elas são de verdade e ainda existem nas pequenas aldeias) e um bom acervo de roupas tradicionais romenas, turcas, gregas e russas. Outra parada obrigatória é o excelente Museu de História Natural & Aquarium (Tel: ; Str Progresului 32) com um belo aquário e espécimes da fauna e flora do Delta Dunarii. --> Fiz a maioria das refeições na casa da família da Alina em Tulcea, mas tenho uma boa dica de onde comer por aqui: o Restaurant Rolion, na Str. Port-Faleza nr. 1. Além de não ser caro, tem um sarmale delicioso. De noite, o Rolion funciona, também, como um animado Club Tecnho. --> Em agosto, Tulcea hospedada o Festival Internacional de Folclore dos Países do Danúbio, onde acontecem apresentações de 84

85 músicas locais, jogos e atividades tradicionais. Tulcea é, também, a sede do Carnaval de inverno, em dezembro. --> O acesso a comunidade de Saint Gheorghe somente é possível pela água. Pode-se apanhar um barco no porto de Tulcea (a viagem Tulcea Saint George é de 4h), em Mahmudia (Mahmudia Saint George, 2h 30 min.) ou em Murighiol (Murighiol Saint George 2h). Tanto os portos de Mahmudia e Murighiol podem ser alcançados de carro e a distância de Tulcea é de 30 km e 38 km respectivamente. --> Há muitos cazares and pensiunes (posadas) em Sfantu Gheorghe. Você pode aceitar uma oferta ao chegar de barco ou perguntar a algum nativo. A Pensiune Mareea (Tel: ; é uma boa sugestão. A diária com direito a três caprichadas refeições por dia sai por cerca de 20 euros. Acampamentos ao ar livre são possíveis na praia, mas costuma ventar muito. --> Como a vila é dentro de uma região pantanosa é comum ter muito mosquito é pernilongo. Não se esqueça de levar o repelente. Sua perna agradecerá. --> A cada agosto do ano, o vilarejo de Sfantu Gheorghe hospeda o que é, provavelmente, o festival internacional de cinema mais remoto e isolado do mundo. Cheque em for info. 85

86 Epílogo Nada, acima de tudo, se compara à vida nova que uma pessoa que reflete experimenta quando observa um novo país. Apesar de eu ainda ser sempre eu ainda ser o mesmo, acredito que fui mudado até a medula dos meus ossos (Goethe Viagens à Itália) A vida de viajante é estimulante, variada e sedutora. A cada passo uma nova experiência, um curioso costume, uma inesperada amizade. A cada esquina um novo sorriso, um distinto sabor, um som apaixonante. A cada nova descoberta, um forte enriquecimento pessoal, satisfação, felicidade. A cada dia, um novo e diferente dia. Parti, vivi e regressei. Mais paciente, mais humilde. Possuidor de um autoconhecimento nunca antes alcançado, seguro de que, apesar das diferenças, a vida é igual por toda a parte e de que navegar é preciso para enxergar o outro com novos olhos. Apesar das saudades, regressará sem penitências. Para mim, o regresso não é apenas o interstício entre duas viagens. Tanto quanto a ida, a volta também é a jornada. Foram dez meses de emoções fortes e muitas descobertas que cessaram (momentaneamente) quando, 431 dias depois de ter levantado vôo em direção a Lisboa, aterrei no Aeroporto Internacional de Salvador, vindo da cidade do Porto. Estava de volta ao lar e o mundo tinha ficado para trás. Ou será que mundo tinha vindo junto comigo? Hoje, de volta ao Brasil, narro a minha própria história nessa série de relatos de viagens e dicas para viajantes independentes. Finalizo essa etapa de Vou Sair Para Ver o Céu com a feliz satisfação de que pude trabalhar meus textos da maneira que mais gosto: talhando palavras sem pressa, descrevendo cenários, relatando sensações, explorando a veia literária e pincelando histórias com o mesmo carinho de um pai que embala o seu filho. Durante essa intensa troca multicultural, me apaixonei ainda mais pela minha profissão e pelo ofício de narrar histórias reais. Tenho a certeza: o jornalismo é o meu mundo. E o mundo é a minha casa. Voltei, enfim, com horizontes alargados, enriquecido com vivências únicas e com a mesma e reconfortante sensação descrita por Felipe Morato no livro Alma de viajante : apesar de tudo, levo a certeza que pouco conheço do Mundo em que vivemos. Continuarei, portanto, a viajar. 86

87 De volta a Terra do Nunca. Dia 13 de Agosto de 2008, Salvador, Brasil Mais uma vez, estou de volta ao meu universo paralelo. Como um Peter Pan, que retorna a Terra do Nunca ou uma Alice no País das Maravilhas. A receita para voltar a esse lugar mágico é simples, sem segredos. Se quiser, posso te ensinar. Antes de dormir, feche os olhos e respire fundo. Procure, na sua cama, a posição mais confortável. Concentre-se. Deixe a saudade te levar para longe. Viaje. Supere campos, matas, montanhas. Atravesse oceanos. Tudo na velocidade do pensamento. E quando se sentir pronto, escolha... Escolha uma país distante, de preferência em outro continente. Escolha uma Universidade. Escolha morar seis ou dez meses longe de seus pais, da sua casa. Escolha uma residência onde morem muitos estudantes vindos de vários lugares do mundo. Se tiver a opção, escolha uma que não tenha regras chatas ou câmeras de vigilância. Isso nunca ajuda. Escolha cuidadosamente um bar. Se ele não cobrar entrada ou der bebidas grátis, melhor ainda. Escolha viajar. Conhecer lugares que você nunca vai esquecer ou nunca imaginou explorar. Escolha descobrir cidades, países, continentes, mas principalmente pessoas. Escolha fazer muitos amigos. De todos os tipos, tamanhos, raças, nacionalidades, credo. Escolha o novo. Sem preconceitos. Escolha pegar um comboio no caminho de ferros ou um autocarro na estação de camionagem. Escolha infinitas festas em quartos com três números na porta. Escolha começar o fim de semana dois dias antes. Escolha aumentar seu nível de tolerância ao álcool. Escolha não estar em casa para ouvir reclamações. Escolha ter a obrigação de fazer faxina para não ser reprovado na vistoria da diretora exigente. Escolha sentir muitas saudades de sua família, de todos que você ama e crescer com isso. Escolha aprender a cozinhar. Escolha ligar pedindo dinheiro para os pais ou então trabalhar em um bar universitário. Escolha a lasanha O Dia ou o bacalhau com natas Pingo Doce. Escolha fazer almoços coletivos nos fim de semana. Escolha fazer amigos que viraram indispensáveis e, depois, vá tomar uma super bock com eles. Escolha viver intensamente. Escolha passar horas e horas dizendo bobagem, dando risada e falando da vida dos outros. Escolha feriados prolongados com final flexível. Escolha ir para 87

88 baladas que só começam às duas da manhã. Escolha voltar só quando o sol estiver nascendo. Escolha virar a noite fazendo um trabalho que deveria ter sido feito três meses atrás. Escolha tomar vinhos que valem menos de dois euros. Escolha comer um franguinho na Maximinense. Escolha ter que lavar sacos de roupas sujas mesmo sabendo que, invariavelmente, elas irão encolher. Escolha fazer uma coleção de copos roubados. Escolha tirar muitas fotos, de tudo, de todos. Escolha sentir falta da comida da mamãe. Escolha ir ver a Amy drogada no Rock Rio Lisboa. Escolha amigos para jogar um pokerzinho, fumar um narguilé ou assistir um filme num domingo chuvoso. Escolha ser mais independente. Escolha conhecer portugueses, espanhóis, turcos, poloneses, moçambicanos, cabo verdeados, romenos, búlgaros, chineses, alemães, italianos, irlandeses, austríacos, egípcios, gregos e, é claro, brasileiros. UNESP em São Paulo ou passar o réveillon em Comburiu. Escolha visitar a nossa capital ou passar o inverno em Santa Catarina. Escolha comer um pão de queijo em Minas ou conhecer alguém de Pelotas, do Pará e até do Tocantins. Escolha viajar. Se jogar no mundo. Escolha passar madrugadas checando promoções da RYANAIR e outras lowcosts. Escolha hostels baratos. Escolha viver com um mochilão nas costas. Escolha passar um fim de semana em Paris e outro em Marrakesh. Escolha passar o réveillon em frente ao Coliseu. Escolha conhecer as praias Algarve, os canais de Veneza e os coffe shops de Amsterdam. Escolha assistir a final da Euro na Áustria ou fazer uma trilha no Geres. Escolha comer tapas em Madrid ou subir o castelo de Praga. Escolha ter um dia de glamour no Porto ou passar seu aniversário em Barcelona. Escolha viver três dias no deserto do Saara ou tomar uma "pint" em Londres. E o mais importante, escolha amigos para viajar junto com você. Escolha ter uma casa no carnaval de Salvador ou no São João da Paraíba e outra nas praias de Natal. Escolha entre ir pro Inter 88

89 Escolha viver experiências que marcarão sua vida. Escolha ser um Erasmus. Escolha descobrir lugares que, infelizmente, a maioria das pessoas nem sequer pensarão em conhecer.. Escolha a melhor fase da sua vida. Escolha conhecer pessoas únicas Escolha fazer amigos que para sempre estarão no seu coração. Escolha com cuidado... você estará de volta à terra do nunca. Não escolheria nada de diferente do que realmente aconteceu. Essa é a minha forma de agradecer a todos da família World Spru. Obrigado a todos!!! 89

90 Álbum de Viagens Performers nas Las Ramblas Músicos da Rumba Barcelona é apaixonante. Aberta a todas as inovações. Rica em seus dois mil anos de história. Mediterrânea. Acolhedora. Moderna. Cosmopolitas. Plural. Mutante. Jovem e um dos melhores lugares do globo terrestre para se divertir intensamente. Uma cidade tão legal que tem dois idiomas oficiais e um povo que faz questão de ser diferente. Barcelona é feita para se viver e compartilhar. Ronaldomania Em frente ao Mediterrâneo 90

91 Na famosa casa da Julieta Ao mesmo tempo em que lia baixinho - aqueles genias versos, imaginava quantas donzelas não teriam sonhado, pelo menos uma vez na vida, em estar sob aquela varanda, ouvindo as palavras apaixonadas do seu Romeu. Um sonho romântico que poderia facilmente ser realizado nesse exato momento. A lojinha - onde Renata se diverte - está localizada na Casa da Julieta um dos principais pontos turisticos da surpreendente Verona. Mochileiro em frente à Arena de Verona 91

92 Ali estava, abrindo-se com a delicadeza de um botão de rosas, a Veneza dos meus sonhos: enigmática, flutuante, excêntrica e improvável. Daquelas ruas feitas de água, erguiam-se inúmeras casinhas, palácios de mármore e imponentes pontes. Era possível ouvir o luar sobre a cidade e os séculos de história que fluíam dos seus canais. Ouvia-se o suave vai e vem das gôndolas, o bater das águas nos prédios e os suspiros em uníssono dos casais apaixonados. Já havia me esquecido completamente do mau tempo quando me dei conta do sorriso bobo que acompanhava minha incredulidade. Olhando para o Grande Canal, relembro de tudo que vi e procuro uma palavra definir o Veneza. Logo desisto: aquela era uma verdadeira perda de tempo. Este é um lugar que desafia definições. Muitos, de Twain a Nietzsche, tentaram a difícil façanha de descrevê-la. Certas coisas só podem ser entendidas plenamente quando vividas, sentidas, compartilhadas e repartidas. E esta é definitivamente uma cidade para ser vista e vivida. Mesmo assim, ainda tinha alguma dificuldade em acreditar que ela é de verdade. Fiquei ali, sobre uma daquelas pontes, tomando um gelatto italiano, olhando o vai e vem de turistas e suspirando de antecipadas saudades. 92

93 Foi naquela praça gigantesca, de um caos frenético e hipnotizante, que conhecemos Simon, nosso simpático vendedor de suco de laranja. Sua barraquinha de nº 34 somava-se a dezenas de outras de teto branco. Simon nos atraiu com a promessa do suco mais doce da cidade. Suas laranjas, redondas como o globo terrestre, impressionavam pelo tamanho e pela cor: um alaranjado forte e intenso. - Praça Djemaa el Fna, Marrakesh. M`hamid é o adeus definitivo a civilização. Olhando para suas fronteiras, a impressão é de estar em uma cidade do fim do mundo. Já não se pode ver mais nada, além do vazio. Nada de ruas, casas, pessoas, mesquitas, souks, postes ou estradas. Somente dunas de areia, pedregulhos e securas. M`hamid é um dos dois únicos lugares em todo o Marrocos onde o Saara nasce. É difícil saber onde começa um e onde termina outro. Deserto e cidade na delicada comunhão de dois amantes apaixonados 93

94 A salada do Mohamed: um segredo das mil e uma noites A tarde começa a cair devagar sobre as dunas. Tão lentamente que tenho a certeza de que o sol luta e reluta, num grande esforço cósmico, para continuar ali, por mais alguns minutos admirando a beleza do Saara. Perco-me por alguns minutos, admirando aquelas arrojadas linhas traçadas pela arquitetura da natureza. Tenho comigo apenas uma certeza: queria ficar ali como o sol. Lutando para poder admirar eternamente a beleza do Saara. Em cima do Dinossauro do deserto Marca temporária de passos bárbaros 94

95 Cuidado! Burro na pista Fez é um labirinto perdido no tempo A lua já brilhava minguante sobre os imensos muros de pedra quando pegamos o caminho de volta até o nosso hostel, por aquele labirinto de ruas estreitas. Andava distraído admirando o caótico vai e vem, quando recebo um toque sutil nas costas. Ao me virar, um simpático velhinho acompanhado da sua mulinha suplica: Por favor, posso passar? Fez, Marrocos Os famosos Tannerie: enormes curtumes de tingimento de couro 95

96 A dois passos do paraíso Encontrei nesta região do extremo sul português, algumas das mais lindas praias que já vi. Um tesouro com cerca de 200 quilômetros de areias brancas e finas, águas quentes (pelo menos, para o padrão europeu), tranqüilas e de coloração hora azul turquesa, hora azul celeste, sol o ano todo e imponentes grutas, falésias, enseadas e arribas. Muitas de suas areias, quase desertas, são a personificação da praia perfeita, que a maioria das pessoas, infelizmente, só encontrará em sonhos. O castelo sobre o mar O mar golpeando as falésias agrestes entoava uma sucessiva sinfonia em homenagem à natureza indomável do lugar. Sentia-se apenas os odores das flores silvestres e da forte maresia. Ouvia-se somente as ondas batendo furiosas nas rochas, o adejar das gaivotas, a canção do vento carregado de sal e os suspiros de Alina, perfeitamente sincronizados com os meus. 96

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