O LETRAMENTO DE SURDOS NA SEGUNDA LÍNGUA

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1 O LETRAMENTO DE SURDOS NA SEGUNDA LÍNGUA Mariana Rodrigues Ferreira Fantinelli (G UENP, campus de Jac.) Sonia Maria Dechandt Brochado ( Orientadora UENP) O letramento do surdo, como segunda língua, será abordado neste trabalho com o objetivo de apresentar reflexões e apoiar metodologias adequadas às suas necessidades educacionais especiais, contribuindo para que este possa adquirir uma melhor qualidade de vida. Iniciamos este estudo considerando o que é o letramento, como se desenvolve a apropriação da escrita da segunda língua pelos surdos, quais as dificuldades enfrentadas por eles para a sua aquisição. Na concepção de Magda Becker Soares, professora titular da Faculdade de Educação da UFMG, há diferenças claras entre alfabetizar e letrar : (...) há distinção entre alfabetização e letramento. Entre aprender o código e ter a habilidade de usá-lo. Ao mesmo tempo que é fundamental entender que eles são indissociáveis e têm as suas especificidades, sem hierarquia ou cronologia: pode-se letrar antes de alfabetizar ou o contrário. Para ela, essa compreensão é o grande problema das salas de aula e explica o fracasso do sistema de alfabetização na progressão continuada (SOARES, 2003). Aprofundando-se este conceito, a educadora diz que o processo de letramento não é função apenas dos professores que trabalham com leitura e escrita, mas é um trabalho de todos os educadores, em suas áreas específicas. Portanto, para ela seria correto usarmos o termo letramentos : Mesmo os professores das disciplinas de geografia, matemática e ciências. Alunos lêem (sic) e escrevem nos livros didáticos. Isso é um letramento específico de cada área

2 de conhecimento. O correto é usar letramentos, no plural. O professor de geografia tem que ensinar seus alunos a ler mapas, por exemplo. Cada professor, portanto, é responsável pelo letramento em sua área (SOARES, 2003). Também a pesquisadora Regina Maria de Souza, assim se refere ao letramento das pessoas surdas A escrita é um objeto que demanda interpretação do outro uma vez que, sendo língua(gem),tem na opacidade uma de suas características constitutivas. Mais do que se perseguir na escola a ampliação e memorização de vocabulário, a escrita e a leitura demandam a construção de um espaço dialógico de inserção. Só adquire significado se elo integrante da cadeia de enunciados nos quais o sujeito também se constitui (SOUZA, 1997:59). Sánchez (1989) ainda afirma que (...) os surdos, de forma diferentes que os ouvintes, não podem aprender o som das letras porque não ouvem e não podem fazer uso do mecanismo alfabético para extrair significado do escrito (...) Neste sentido,devemos reafirmar a necessidade de facilitar a aquisição da língua através do contato significativo com ela (SÁNCHEZ, 1989). Uma proposta atual que vem sendo amplamente difundida para o letramento dos surdos é o bilinguismo, onde eles aprenderão como língua materna a língua de sinais e como segunda língua oral vigente em seu país, na modalidade escrita. Como afirmam Andréa Rosa da Silva, pedagoga/intérprete de Língua de Sinais - Mestranda em Educação FE/UNICAMP, e Luciana Cristina Trevizanutto, Relações Públicas/ Intérprete de Língua de Sinais: A proposta bilíngüe para surdos adultos não oralizados, língua de sinais como primeira língua e português escrito como segunda língua, não privilegia uma língua, mas quer dar direito e condição ao leitor surdo de poder utilizar duas línguas, não se trata de negação, mas de respeito,o sujeito surdo escolherá a língua que irá utilizar em cada situação lingüística em que se encontrar (ROSA; TREVIZANUTTO, 2002).

3 Segundo Skliar (1999:142), A língua de sinais anula a deficiência e permite que os surdos constituam, então, uma comunidade lingüística minoritária diferente e não um desvio da normalidade.dessa forma o deficiente auditivo passa a ser encarado como ser humano dotado de capacidades de entendimento, aprendizagem e é respeitado como cidadão. Isso proporciona o respeito e convívio destes com a sociedade em que está inserido, o ato de aprender, ser alfabetizado e, consequentemente, letrado, como conclui Soares (2000:41) Letramento é, sobretudo, um mapa do coração do homem, um mapa de quem você é,e de tudo que você pode ser. Sendo assim, para que se dê com sucesso essa prática de ensino, é fundamental que o surdo esteja constantemente acompanhado de pessoas que possam comunicar-se com ele em ambas as línguas e que estejam aptas a ensiná-lo da melhor forma possível. Uma segunda proposta de letramento na escolarização do surdo é a idéia de letramento visual. Destaca-se aqui a importância da associação da imagem como processo constituitivo para o processo de letramento. As imagens aqui consideradas como mensagens visuais, por serem originadas da escrita, tem um papel importante na escolarização do surdo, uma vez que abrange em grande parte seu conhecimento de mundo, ou seja, sua apropriação de conhecimentos torna-se cada vez maior. Lucia Helena Reily (2003:164) propõe o letramento visual nas grades curriculares considerando que: imagem vem sendo utilizada na escola com uma função primordialmente decorativa, de tal forma a diluir o tédio provocado pela grafia de textos visualmente desinteressantes. (REILY, 2003:164) Juntamente com a proposta de letramento visual, consideramos a necessidade de inclusão dos surdos nos meios de comunicação, em especial, o meio virtual, onde ele aprenderá a lidar,

4 manusear e usar para benefício próprio o computador e todos os seus acessórios. Aprenderá também a navegar pela internet, usando isto como um requisito a mais na sua apropriação de conhecimentos, tornando-os assim mais competentes e competitivos no mercado de trabalho e perante a sociedade que ainda tende a ser preconceituosa e não os encara como sujeito no pleno significado da palavra. Entre os recursos pedagógicos tecnológicos empregados no letramento, sugerimos o desenvolvimento de Hagáquê. Este é o nome de um software, um editor de história em quadrinhos (http://pan.nied.unicamp.br/~hagaque), extremamente lúdico desenvolvido pelo Centro de Estudo e Pesquisas em Reabilitação Prof. Dr. Gabriel Porto CEPRE pertencente à Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP para ser utilizado de forma pedagógica para o aprendizado de diversos conteúdos, de uma maneira mais informativa, divertida e que desperte mais a atenção do estudante que faça uso desse programa Atualmente é largamente usado pelos educadores de pessoas com necessidades educacionais especiais e para uma melhor qualidade de ensino Visando às vantagens da utilização do mesmo por surdos, que a Gesueli e Moura desenvolveram pesquisas e colheram dados utilizando um grupo de crianças surdas que com faixas etárias que se alternavam dos 4 aos 16 anos inseridos na rede regular de ensino e atendidos pela CEPRE/FCM/Unicamp. O objetivo dos pesquisadores (surdos e ouvintes) do CEPRE é que esse software seja uma alternativa para motivar os estudantes na atividade da produção de texto escrito, daí a grande quantidade de imagens e recursos sonoros/visuais que garantem um maior estímulo para o letramento do surdo: Este software possibilita o uso integrado e significativo de recursos sonoros (onomatopéias, vozes) e recursos visuais (escrita, balões, cenários, personagens) em sua produção. Ambos permitem ao sujeito trabalhar ativamente com a língua na produção e interpretação de sentidos, supondo

5 sempre um possível interlocutor para o seu texto, lugar muitas vezes ocupado pelo próprio autor no processo de elaboração.(gesueli;moura, 2006) com a seguinte citação: Assim, concluímos sobre o processo de letramento visual O aspecto visual da leitura-escrita é um fator facilitador no processo de aquisição do português como segunda língua. No caso do ouvinte, o desenho é sempre visto como uma etapa a ser superada no decorrer do processo, no caso do surdo ele sempre estará presente.não se trata de uma metodologia fundada na imagem, mas de tomar a imagem também como constitutiva do processo. (GESUELI;MOURA, 2006) Em se tratando de novos caminhos e opções para o letramento como segunda língua para o surdo, nota-se que novas propostas estão sendo analisadas, pesquisas vêm sendo desenvolvidas na área, tecnologias aprimoradas, para transformar o nosso Brasil em um país que respeite e inclua. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GESUELI, Zilda Maria ; Moura, L. de. Letramento e Surdez: a visualização das palavras. ETD. Educação Temática Digital, v.7, p , Disponível em:<http://www.fae.unicamp.br/etd/include/getdoc.php?>. Acesso em 17 de outubro de ROSA, A. S. Letramento e Surdez: A Língua de sinais como mediadora na compreensão da notícia escrita. ETD. Educação Temática Digital, v. 3, p. 1-10, Disponível em: <http:// Acesso em 17 de outubro de SOARES, Magda B. Letramentos: um tema em três gêneros. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, 128p.. O que é letramento?. Diário do Grande ABC, 29 de agosto de Disponível em:http://e-educador.com/index.php/artigos-mainmenu-100/201-o-queetramento-. Acesso em 17 de outubro de 2009.

6 SKLIAR, C. (Org.) Atualidade da educação bilingüe para surdos. PortoAlegre: Mediação, REILY, L. H. Imagens: o lúdico e o absurdo no ensino de arte para pré-escolares surdos. In: SILVA, I. R.; KAUCHAKJE, S.; GESUELI, Z. M. (Orgs.). Cidadania, surdez e linguagem. São Paulo: Plexus

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