Objetivos até 2015: e depois?

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1 Boletim Informativo - Número 12 - abril/maio Objetivos até 2015: e depois? Encontro destacou importância da busca por um mundo mais sustentável Sociedade Civil na agenda mundial Pág. 7 Empresas e a sustentabilidade Págs. 8 e 9 Entrevista com André Corrêa do Lago Pág. 11

2 EDITORIAL Além de 2015 Até a edição anterior de nosso boletim analisamos como está a situação de cada um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) em Santa Catarina. Agora aproveitamos a realização do evento Diálogo Social: Agenda Pós-2015 e Seguimento à Rio+20, promovido pela Secretaria-Geral da Presidência da República, para apresentar as possibilidades de uma agenda mundial de desenvolvimento após o prazo para o cumprimento dos ODM. Os destaques do evento foram abordados na matéria de Aline Calefi Lima, articuladora de nosso movimento na Região Sul e colaboradora do SESI/PR. O evento apresentou os pontos de vista de representantes de diversos setores da sociedade sobre a continuidade dos ODM após A ONU já anuncia que faltam menos de mil dias para o final de 2015, o que motivou a realização de uma ampla consulta pública sobre as prioridades mundiais, explicada no artigo de Jorge Chediek. O ponto de vista empresarial é abordado pelo texto de Márcia Soares, do Fundo Vale. Ela apresenta a perspectiva de uma nova contabilidade, que inclua o passivo socioambiental no cálculo dos lucros. Uma alternativa que poderia solucionar os conflitos de interesse entre economia e sustentabilidade, apontados no artigo de Iara Pietricovsky, antropóloga que participa dos fóruns da sociedade civil organizados na Rio +20. Temos também uma entrevista exclusiva com André Corrêa do Lago, representante do governo brasileiro no grupo que irá definir os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Desfrute a leitura e embarque no duplo desafio de acelerar os ODM e agir para que os futuros ODS expressem o mundo que queremos! EXPEDIENTE Este boletim é uma publicação do Movimento Nós Podemos Santa Catarina (MNPSC) Secretaria Estadual - Instituto Primeiro Plano Rua João Pinto, 30 Ed. Joana de Gusmão sala 803 Centro Florianópolis/SC CEP Fone (48) / Confira as instituições que já participam do movimento Ação da Cidadania Ação Social São João Evangelista Associação Empresarial de Itajaí - ACII Associação Ambientalista Comunitária Espiritualista Patriarca São José Associação Catarinense de Conselheiros Tutelares Associação Construindo a Paz na Escola Associação Comercial e Industrial de Florianópolis ACIF Associação de Joinville e Região da Pequena, Média Empresa AJORPEME Associação de Jornais do Interior de SC ADJORI Associação de Pais e Professores EBM João Gonçalves Pinheiro Associação Horizontes Associação Teatral Eternos Aprendizes Bairro da Juventude Baumgarten Gráfica LTDA Bio Teia Estudos Ambientais Caixa Econômica Federal Campos Novos Energia S/A ENERCAN CELESC Central Única dos Trabalhadores CUT Centro de Integração Empresa Escola - CIEE/SC Comissão OAB Cidadã Comitê para Democratização da Informática de Santa Catarina CDI Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina - CESUSC Diocese de Criciúma Dudalina S.A ELETROSUL Energética Barra Grande S/A BAESA Centro Universitário Estácio de Sá Federação do Comércio de Santa Catarina - FECO- MÉRCIO SC Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina FACISC FUCAS Fundação Educacional de Criciúma - UNESC Fundação Fritz Müller Fundação Hospitalar de Blumenau Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho FMSS Fundação Universidade Alto Vale do Rio do Peixe UNIARP Fundação Universidade do Oeste de Santa Catarina - UNOESC Fundação Universidade Regional de Blumenau FURB Instituto Comunitário de Florianópolis ICOM Instituto Consulado da Mulher Instituto Crescer Movimento Cidadania e Juventude Instituto Ekko Brasil Instituto de Geração de Tecnologias do Conhecimento IGETECON Instituto Guga Kuerten Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de SC - IFSC Instituto Primeiro Plano Instituto Voluntários em Ação IVA Moradia e Cidadania Santa Catarina JCI Blumenau Garcia NEXXERA ONG Travessia Plêiade Consultoria e Desenvolvimento LTDA ME Portonave S/A Terminais Portuários de Navegantes Prefeitura Municipal de Biguaçu Prefeitura Municipal de Brusque Prefeitura Municipal de Itajaí Prefeitura Municipal de Joinville PROJETA Planejamento e Marketing Prosperitate Consultoria em Sustentabilidade Redefinir Logística Reversa Sec. de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação/ Governo SC Sec. de Estado do Desenvolvimento Econômico Sustentável/Governo SC Serviço Social do Comércio SESC-SC Secretaria Municipal de Educação de Blumenau Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social da PM de Blumenau Secretaria Municipal do Sistema Social de Criciúma Serviço Social da Indústria SESI/SC Sociedade Educacional de Santa Catarina SOCIESC Superintendência do Porto de Itajaí Tractebel Energia GDF SUEZ Transmissão da Cidadania e do Saber UNIMED Blumenau UNIMED Brusque UNIMED Canoinhas UNIMED Chapecó UNIMED Grande Florianópolis UNIMED Litoral UNIMED SC Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI Universidade da Região de Joinville UNIVILLE...2 Editor Rafael Gué Martini (Mte/SC JP) redação Rafael Gué Martini e Aline Capelli Vargas Projeto gráfico: Maria José H. Coelho Diagramação: Cristiane Cardoso CAPA: foto PNUD/Yuri Lima revisão: Regina May de Farias Conselho Editorial: Cheila Zortéa (FMSS), João Batista Thomé (UNIVILLE), Márcia Battistella (SDS), Odilon Faccio (IPP), Rafael Gué Martini e Regina May de Farias (FMSS). Encaminhe suas sugestões: Tiragem: Gráfica: Agnus Este boletim é patrocinado por: A secretaria do MNPSC tem patrocínio de: Parceiros

3 bem-vindos ao movimento Confira os novos integrantes do Nós Podemos SC Fundação Fritz Müller A Fundação Fritz Müller acredita que movimentos que apoiem o desenvolvimento sustentável são essenciais para as organizações que buscam perenidade em suas ações, e a nossa participação em movimentos como o Nós Podemos SC e o Pacto Global, do qual já somos signatários, materializam essa nossa crença. Prof. Everaldo Artur Grahl, diretor presidente da Fundação Fritz Müller. Ação Social São João Evangelista Porque acreditamos que juntos nós podemos fazer a diferença, com pequenas e grandes ações, dignificando a pessoa, a comunidade, a família; na construção prática de um mundo mais humano, fraterno e solidário. Kreize F. S. Machado, assistente social da Ação Social São João Evangelista. AGENDE-SE Lançamento prêmio ODM nos estados da região sul 21/06 - Porto Alegre 25/06 - Curitiba 10/07 - Florianópolis A programação e local dos eventos serão detalhados mais próximo às datas. 15 a 17/05 - IV Seminário Estadual de Assistência Social Pretende possibilitar a aproximação dos conhecimentos téoricos e legais da política de Assistência Social. Servidores de Municípios filiados à FECAM investem R$ 150,00 e demais participantes, R$ 250. No Oceania Convention Center, em Florianópolis/SC. Inscrições: Nossa Riqueza As pessoas que fazem o Nós Podemos SC Motivação Acredito muito nas pessoas e no poder que há quando elas se unem. Os ODM nos proporcionam a oportunidade de trabalhar essa união de forças e isso me encanta profundamente, já que todos os 8 Objetivos contemplam o bem comum. Aline Moreira Gestora de Sustentabilidade UNIMED Santa Catarina Joinville Ações Percebo que desperdiçamos recursos intangíveis como o tempo, a criatividade, as nossas emoções. O processo de alcance dos ODM nos exige reflexão para a mudança de comportamento, na vida pessoal e profissional. Precisamos começar a agir de forma mais sustentável nas relações pessoais e não só nas relações materiais. Resultados Você consegue qualquer coisa quando cria relacionamentos saudáveis com as pessoas, quando cria vínculos. Acredito que o maior resultado dessas ações é motivar outros para que também se comprometam com essa causa. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Jesus Cristo (Mateus 22:39)...3

4 odm pós-2015 Objetivos até 2015: e depois? Encontro destacou importância da busca por um mundo mais sustentável Por Aline Calefi Lima*...4 A Secretaria-Geral da Presidência da República promoveu no dia 16 de abril, em Brasília, o evento Diálogo Social: Agenda Pós-2015 e Seguimento à Rio+20. O evento contou com a participação de ministros, embaixadores, representantes do PNUD e da sociedade civil para debater os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) pós-2015 e a discussão que se iniciou na Rio +20 com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). É muito importante a participação de representantes da sociedade civil para debater o modelo de referência a ser seguido sobre a continuidade dos ODM e da Rio +20, declarou o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Ele destacou a importância do Movimento Nacional pela Cidadania e Solidariedade/Nós Podemos e do secretário executivo do Movimento, Rodrigo da Rocha Loures, neste processo de participação da sociedade civil. No início do ano, o Sistema ONU no Brasil, organizou consultas públicas para o debate sobre os ODM pós A população brasileira também pode participar através de uma votação on-line. A consulta no Brasil foi a mais abrangente e foram realizadas oito consultas temáticas e a consulta on-line. Esta agenda precisa gerar um mundo mais inclusivo, equitativo e sustentável, destacou o representante da ONU no Brasil, Jorge Chediek. Consulta nacional As consultas promovidas pelo Sistema ONU, em parceria com o Movimento Nacional pela Cidadania e Solidariedade/Nós Podemos terão dados qualitativos por meio dos questionários aplicados e eventos presenciais - e dados quantitativos da pesquisa on-line. A grande pergunta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é como vamos assegurar que em 2050 as pessoas tenham uma vida sustentável, André Corrêa do Lago Foram respondidos questionários, sendo que da população carcerária do Estado do Paraná. Foram realizadas cinco consultas presenciais e 14 consultas com grupos da sociedade civil. O Brasil é um exemplo a nível mundial pelos resultados alcançados como: redução da miséria e matriz energética limpa. O Brasil tem mostrado que é possível, e isso foi possível somente pela participação do governo, mas especialmente, da sociedade civil, destacou Chediek. Para o embaixador do Ministério das Relações Exteriores, André Aranha Corrêa do Lago, os ODM são a ação mais bem sucedida da ONU nos últimos anos, pois os governos locais e a sociedade civil seguiram a causa. Segundo ele, os ODM foram definidos pelo Secretário-Geral da ONU e aprovados pelos Estados-membros, sendo uma decisão tomada de cima para baixo. Já o processo dos ODS é de baixo para cima. Os ODS devem ser universais, onde todos os países devem estar envolvidos. Nenhum país desenvolvido atingiu o desenvolvimento sustentável. A grande pergunta dos ODS é como vamos assegurar que em 2050 as pessoas tenham uma vida sustentável, salientou. Debates Durante o encontro, o tema da Rio + 20 também foi debatido. Segundo o embaixador do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Luiz Alberto Figueiredo Machado, na Rio+20 foi estabelecida a erradicação da pobreza como motor de todas as mudanças que o mundo precisa pós O país deverá adotar um modelo de desenvolvimento para acabar com a pobreza, mas

5 odm pós-2015 PNUD/Yuri Lima Iniciando na esquerda: André Corrêa do Lago, Jorge Chediek, Izabella Teixeira, Antônio Patriota, Gilberto Carvalho, Tereza Campello, Dal Marcondes, Luiz Alberto Machado e Iara Pietrikovshy. precisa também contribuir com o desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental). O Brasil tem vários avanços na contribuição para o desenvolvimento sustentável. Esta mudança é esperada não somente pela sociedade brasileira, mas pelos parceiros internacionais, destacou Machado. As obrigações são de todos, por isso a sociedade dos países desenvolvidos deve participar destas discussões, Izabella Teixeira Para a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, o documento final da Rio + 20 influencia na tomada de decisões de governos e o Brasil tem um papel de construir e facilitar o diálogo. Há um compromisso universal em torno do desenvolvimento sustentável. As obrigações são de todos, por isso a sociedade dos países desenvolvidos deve participar destas discussões. Caso contrário, as obrigações recairão sobre os países em desenvolvimento, salientou. Já para a ministra de Desenvolvimento Social (MDS), Tereza Campello, o Brasil é uma referência na busca de um modelo de desenvolvimento inclusivo. Temos que ousar e não pensar somente em metas. Precisamos pensar em quais as tecnologias alternativas e fontes de financiamento podem ser utilizadas, completou. A representante da sociedade civil no encontro, Iara Pietrikovshy, destacou que a sociedade civil tem oportunidade de participar dos debates, mas não recebe um retorno sobre as suas sugestões. O grande problema não são os pobres, mas os ricos. Como fazê-los participar? Por isso a importância da sociedade civil participar, porém precisamos ter uma devolutiva dos debates, completou Iara. * Coordenadora da Regional Sul do Movimento Nós Podemos. Participação Ainda é possível votar na consulta pública dos ODM pós Basta acessar o site da pesquisa org/?lang=pr e votar em seis temas, de um total de 16 que considera mais importantes para fazerem parte da Agenda Global de Desenvolvimento Pós Acesse e participe....5

6 odm pós-2015 As empresas catarinenses e a sustentabilidade Um convite ao exercício da cidadania empresarial Por Mário Sérgio Zilli Bacic*...6 A redução da carga tributária, dos juros e dos gastos públicos, a promoção da melhoria da infraestrutura, a competitividade das empresas catarinenses, a promoção do associativismo e o desenvolvimento sustentável são apenas alguns dos pilares que a Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina vem sustentando ao longo de mais de quatro décadas. A Facisc representa mais de 27 mil empresas presentes em 220 municípios de Santa Catarina através de 145 associações empresariais. Estes números só comprovam toda a capilaridade e a representatividade da Federação diante do associativismo empresarial catarinense e seu comprometimento na busca de soluções de alto valor agregado visando apoiar o desenvolvimento sustentável de Santa Catarina. Ao assinar o termo de compromisso com o Movimento Nós Podemos SC, a FACISC assumiu o seu compromisso em desenvolver ações que possam contribuir para que os Objetivos do Milênio (ODM) tenham avanços em cumprimento às metas estabelecidas. A classe empresarial, representada pela Federação tem papel primordial na execução de ações planejadas, que possam garantir não apenas o cumprimento de metas, mas integrar o conjunto de instituições com visão sistêmica e estratégica. Entidades comprometidas em fazer com que suas iniciativas formem um conjunto relevante ao alcance de metas de abrangência global. Prestes a encerrar o primeiro ciclo de ações propostos pela ONU, sabemos que muitos ainda são os desafios a serem superados. Envolver os três setores, empresas, governo e sociedade, conclamar uma leitura crítica e socialmente responsável para os próximos e incessantes desafios a serem propostos a partir de 2015, que devem ser pessoais e coletivos, estabelecer uma leitura local com aplicabilidade global, são apenas algumas colocações que apresentamos a todos os envolvidos neste importante processo. Referenciando o ODM 8 Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento, compreendemos que o papel da FACISC enquanto entidade representativa está em ser o agente de informação e formação, conclamando seus associados e públicos de relacionamento. Da união de tal público a força para gerar ações empresariais capazes de traçar um caminho possível ao desenvolvimento sustentável em atenção às inúmeras expressões da questão social que assolam o planeta em diferentes territorialidades, segmentos, empreendimentos e culturas. Nosso trabalho de representatividade perpassa o associativismo, envolve o incentivo e a multiplicação de boas práticas. Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento, este é o nosso convite e comprometimento no exercício da cidadania empresarial. * Vice-presidente de Projetos Especiais da FACISC (Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina).

7 Pós-2015 Por uma agenda de desenvolvimento sustentável relevante e eficaz ODM pós-2015 Por Iara Pietricovsky* Para definirmos uma agenda pós-2015 de desenvolvimento sustentável teremos que reverter os retrocessos pelos quais estamos vivenciando mundialmente. Infelizmente tenho a dizer que o cenário é desanimador. Estamos com uma lacuna enorme no que se refere à ausência de vontade política de colocar em prática os acordos internacionais. Vivemos uma crise de implementação e não de carência de um marco decente para que possamos fazer a mudança de modelo de desenvolvimento. As chamadas Metas do Milênio foram uma redução escandalosa de todo um marco de tratados e convenções internacionais constituídos desde 1992 no É preciso tirar do primeiro plano os interesses econômicos para atingir a sustentabilidade chamado Ciclo Social da ONU. Os oito objetivos ficaram devendo e segundo os Relatórios da Social Watch, as metas não foram atingidas como deveriam se supor. Como equacionar estes déficits de direitos e fazer com que os governos operem de fato como mediadores e fiscalizadores de uma ética pautada pelos Direitos Humanos, justiça social e sustentabilidade? Se continuarmos nessa tensão política e econômica, onde os algozes defensores de um modelo predatório insistem em sua sobrevivência e hegemonia, não conseguiremos alcançar o desenvolvimento sustentável. O modelo atual demonstra resultados catastróficos, com mais de um bilhão de pessoas ameaçadas de morrer de fome. Além de uma distância muito grande entre os ricos e os pobres, com 70% dos recursos mundiais desfrutados pelos 20% mais ricos, enquanto aqueles do quintil inferior ficam somente com 2%. A Cúpula dos Povos na Rio+20 denunciou o fracasso dos resultados obtidos nesta Conferência e nas COPs de Mudança Climática e da Biodiversidade. Só podemos mudar esse retrato atual do mundo se modificarmos a forma de fazer política, com a participação das populações, em especial, aquelas afetadas pelo modelo de desenvolvimento predatório que vem sendo implantado no universo. É fundamental uma mudança de comportamento, de cultura em relação a nossa forma de produzir e consumir coisas. Mudar marcos energéticos, apostar em políticas de preservação dos bens comuns, entre outras. Não existem dois Planetas e este nosso já vem mostrando a fragilidade e suas fronteiras. A nossa luta deve ser pautada pela garantida dos direitos e pela busca de processos sustentáveis. A agenda Pós-2015 não poderá deixar os interesses econômicos em primeiro plano, se isso acontecer, continuaremos regredindo quando o assunto for sustentabilidade. Iara Pietricovsky *Antropóloga e membro do colegiado de gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC) -

8 ODM PÓS-2015 O desafio da agenda de sustentabilidade para o setor privado Por Márcia Soares * Faltam menos de dois anos para terminar o prazo dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e os últimos relatórios mostram que ainda há muito a avançar para o cumprimento de tais metas. Diante deste panorama, a discussão do momento gira em torno de definir o que será o compromisso pós Vários movimentos e campanhas foram desenvolvidos para sensibilizar as empresas para os ODM, com destaque para as lideradas pelo Instituto Ethos, que entre outras ações lançou uma publicação intitulada O Compromisso das Empresas com as Metas do Milênio, na qual relaciona os princípios dos ODM com os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial. Em Santa Catarina, o Observatório do Desenvolvimento Regional da Universidade Regional de Blumenau (FURB) lançou uma cartilha que busca divulgar os ODM e estimular o envolvimento das empresas neste compromisso. Outro exemplo. Dentre os temas dos ODM, o que remete à sustentabilidade ambiental despontou como um dos mais estruturantes, apontado pelo próprio Grupo de Trabalho da ONU para a Agenda de Desenvolvimento Pós A Rio+20 veio para reafirmar essa tendência, mostrando que a sustentabilidade ambiental é um componente fundamental para chegarmos ao futuro que queremos. Seja pela motivação de campanhas, pela preocupação com reputação, para melhorar a aceitação de seus produtos pelos consumidores, ou mesmo pela obrigatoriedade legal, as empresas estão se estruturando e cada vez mais consideram as questões socioambientais em seus processos. Buscam diminuir seus impactos no planeta. Algumas foram além da lógica da compensação e já conseguem perceber uma oportunidade de negócio e agregação de valor nesta mudança. O presidente da Puma, Jochem Zeitz, contratou um estudo no qual mensura o impacto das atividades da empresa sobre os recursos naturais (lixo, água, gases de efeito estufa, poluição do ar, destruição de biodiversidade, erosão do solo...), em toda a cadeia de valor. Se fossem obrigados a compensar todo o impacto causado pela empresa precisariam desembolsar algo em torno de 145 milhões de euros, ou seja, mais da metade do lucro da empresa em O estudo derivou no movimento chamado Environmental Profit & Losses (ou EP&L, Lucros & Perdas Ambientais), liderado pelo próprio Zeitz, que busca desenvolver uma contabilidade para mensurar o capital natural. Também resultou em maior investimento em...8 Acesse a cartilha sobre ODM e Empresas em SC em: ZXh5rY Acesse O Compromisso das Empresas com as Metas do Milênio - volume 1 - em: e o volume 2 em: ly/13aodjg Acesse o Environmental Profit & Loss Account da Puma em: YsbLwg

9 ODM PÓS-2015 Márcia Soares inovação tecnológica pela Puma, em busca de reduzir os custos socioambientais. No ano passado a empresa lançou um tênis e uma camiseta com toda a redução de impactos ligados à sua produção e uso quantificados. Exemplos como este mostram que as organizações rumam para identificar seus impactos negativos e neutralizá-los, além de gerenciarem riscos e mapearem oportunidades. Estudo da consultoria McKinsey diz que 53% dos CEOs das grandes empresas já se preocupam com perdas da biodiversidade. Para além de mitigar os impactos socioambientais causados pelo seu negócio, a mineradora Vale, segunda maior do mundo, lançou em 2009 um fundo para desenvolvimento de projetos e iniciativas sustentáveis na Amazônia. A ideia era deixar uma contribuição para o planeta, sem vínculo com seus negócios. O Fundo Vale hoje já conta com um portfólio de 28 projetos apoiados, com mais de R$ 70 milhões comprometidos em ações de combate ao desmatamento e promoção de uma nova economia. Como bem disse o empresário Jorge Gerdau Johannpeter em um evento, ao ser questionado sobre o papel das empresas na sustentabilidade: Ainda separamos a sustentabilidade social da econômica e da ambiental. Mas, no longo prazo, a sustentabilidade econômica não existe sem a sustentabilidade ambiental. Não incorporamos esse raciocínio ainda. Não há como voltar atrás. A agenda de sustentabilidade entrou definitivamente para o cotidiano das empresas e as colocam de frente a um grande desafio: adaptar seus processos para diminuir o impacto e agregar valor ao negócio com investimentos socioambientais. Se considerarmos o poder econômico e político deste segmento, há um grande potencial de ganho para o bem da humanidade ainda pouco aproveitado. Apesar de difícil, é um caminho sem volta. * Márcia Soares é graduada em Comunicação Social pela UFF e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Atua há 17 anos na área ambiental, em jornalismo, comunicação corporativa e de projetos. Já trabalhou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e no Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), entre outras organizações. Colaborou como freelancer em vários veículos especializados e desde 2000 faz parte da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental. Atualmente coordena a área de gestão da informação do Fundo Vale....9

10 INTERATIVIDADE Dicas para o milênio Links, Aplicativos, Cultura e Produtos para ajudar nas metas do milênio Cartilha Guia de Permacultura para Administradores de Parques Iniciativa da Prefeitura Municipal de São Paulo e da UMAPAZ, motivado pelo desejo de expansão e integração das áreas verdes nos ambientes urbanos. Apresenta algumas técnicas de construção, gestão e manutenção que possibilitam desenhar modelos sustentáveis, econômicos e facilmente replicáveis, que sirvam de exemplos tanto para as políticas de governo, quanto para a sociedade civil e empresas. Baixe a versão em pdf aqui: Brinquedo Jogo da Carta da Terra Filme Site CONJUVE...10 A era da estupidez O filme de Franny Armstrong se passa em 2055 e conta uma história que mistura elementos de ficção, animações ilustrativas e realidade. Em um grande arquivo isolado no Ártico está guardado todo o conhecimento produzido pela humanidade e o arquivista que conduz a narrativa do filme, questiona nossa capacidade de ação. A trama mostra histórias paralelas e reais sobre a indústria de combustíveis fósseis, desperdício, pobreza, crianças que convivem com guerras e derretimento de geleiras. Assista online: O Conselho Nacional de Juventude, vinculado ao Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem), formula e propõe diretrizes voltadas para as políticas públicas de juventude, desenvolve estudos e pesquisas sobre a realidade socioeconômica dos jovens e promove o intercâmbio entre as organizações juvenis nacionais e internacionais. Conta com representantes dos movimentos juvenis, organizações não governamentais, especialistas e personalidades com reconhecimento público pelo trabalho que executam nessa área. Visite: Realizado pelo Instituto Harmonia na Terra em parceria com o Coopera Brasil, estimula os jogadores a compartilhar suas experiências pessoais, protagonizarem ações socioambientais e desfrutarem de uma atmosfera cooperativa em momentos de alegria e aprendizado. O tabuleiro é um mosaico de biomas e representa a vasta diversidade biológica e cultural do planeta. Seu conteúdo é inspirado nos quatro princípios da Carta da Terra: respeitar e cuidar da comunidade de vida; integridade ecológica; justiça social e econômica; democracia, não violência e paz. Mais informações:

11 ODM pós-2015 Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Entrevista exclusiva com o embaixador André Corrêa do Lago Divulgação/Itamaraty Por Rafael Gué Martini Confira entrevista com o embaixador André Corrêa do Lago (ACL), representante do Brasil no grupo de especialistas internacionais que vão elaborar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Podemos afirmar que os ODS são o seguimento dos ODM? Qual é a diferença entre eles? ACL - Há uma diferença básica entre os dois. Os ODM foram desenvolvidos pela ONU e os ODS tem que ser desenvolvidos e aprovados pelos países. Isso tem provocado uma certa complexidade na preparação dos ODS. Mas não é só isso. Os seis primeiros ODM já não existem no mundo desenvolvido, enquanto a ideia dos ODS é serem universais e aplicáveis a todos os países. Os ODS devem incentivar mudanças estruturais no padrão do que é desenvolvimento no mundo, para passarmos ao desenvolvimento sustentável. Nenhum país já atingiu a sustentabilidade, portanto todos nós temos que nos esforçar para isso. Nos ODS quem terá que se esforçar mais são os países desenvolvidos, porque foram eles que estabeleceram os padrões atuais de produção e consumo. São eles que tem um grau de poluição e complexidade, em relação às dimensões ambiental e econômica, mais significativo no mundo. Para resolvermos os problemas mundiais temos que começar mudando a maneira como os ricos se desenvolvem. Se os ODS forem voluntários, como incentivar os países a cumprirem os objetivos? ACL - A opinião sobre objetivos voluntários mudou muito depois da experiência dos ODM. Quando os ODM foram criados, muitos acharam que não seriam cumpridos porque eram voluntários. Mas, por serem muito simples, foram adotados pela sociedade civil e também pelos governos locais. Isso criou uma dinâmica que os ODS querem aproveitar. A adesão voluntária diminui a pressão, mas cria um incentivo. Seria possível uma classe média mundial? ACL - Isso é um desafio muito grande. Temos que partir, não dos limites do planeta, mas de qual vai ser o pico da população mundial. Os estudos apontam que a população vai crescer até 2050, se aproximando dos 10 bilhões. Então temos que bolar este mundo sustentável de maneira a assegurar que esta população possa ter uma vida digna, confortável e plena em A partir deste número calcular que necessidades seriam essenciais para chegarmos a uma classe média. Tem que ser uma agenda positiva. A tecnologia já pode eliminar a pobreza. As pessoas vão viver melhor, mas temos que investir em tecnologia para que isso aconteça. Acredito que este crescimento do número de consumidores vai ajudar a disseminar as tecnologias. Como a sociedade pode acompanhar este processo? ACL - O governo quer que a evolução das negociações seja acompanhada dentro do Brasil, por isso serão feitas diversas consultas como a que aconteceu neste mês em Brasília. Os ODM são organizados pelo secretariado da ONU e os ODS pelo grupo da Rio +20 e pelos governos dos países. Como eles vão se encontrar ainda está em aberto. Mas é da maior importância que possamos repetir a forma como foram abraçados os ODM. O Desenvolvimento Sustentável não pode ser promovido por decreto, ele precisa que a sociedade civil, empresários e governos locais abracem essa agenda....11

12 odm pós-2015 Nações unidas Agenda pós-2015 A construção do futuro que queremos Por Jorge Chediek* Desde a adoção da Declaração do Milênio de 2000 por todos os Estados- -Membros da Organização das Nações Unidas, o mundo assumiu o compromisso de alcançar, até 2015, os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Com isso, os ODM passaram a definir um marco comum de prioridades para a comunidade internacional. Ao longo destes anos, o Brasil ganhou posição de destaque entre os protagonistas na adoção de políticas e iniciativas em prol do alcance destas metas. Com o prazo de 2015 se aproximando rapidamente, o Secretário-Geral da ONU convocou a realização de consultas abertas e inclusivas, com o objetivo de levantar as prioridades sobre a agenda de desenvolvimento e as possíveis soluções para os principais problemas globais. Desde então, o Sistema ONU esteve incumbido de estimular este debate global e organizar uma nova agenda de desenvolvimento pós No Brasil foram realizadas 14 consultas presenciais, cinco encontros regionais e coletados mais de questionários qualitativos. O Brasil foi um dos 50 países escolhidos para realizar esta consulta no âmbito nacional, e outros 26 países se candidataram espontaneamente para participar deste processo. O processo das consultas brasileiras, iniciado em dezembro de 2012, foi coordenado pela ONU sob a liderança do PNUD em parceria com a Secretaria Geral da Presidência. Foram 14 consultas presenciais, agregando grupos específicos da sociedade civil: juventude, refugiados, travestis e transexuais, indígenas, afrodescendentes, pessoas em situação de rua, jovens mulheres, centrais sindicais, entre outras. Também, com apoio do Movimento Nós Podemos, foram realizados cinco encontros regionais, com grande diversidade de setores, grupos e classes sociais, além da participação dos governos estaduais. Além disso, foram coletados mais de questionários qualitativos, englobando os mais diversos segmentos da sociedade brasileira: cidadãos, movimentos sociais, ONGs, empresas, universidades e muitos outros grupos. Na consulta on-line, até meados de abril, o Brasil estava como segundo colocado com maior número de votos, atrás apenas da Nigéria. Este complexo processo de consulta nacional, além de gerar dados relevantes para o desenvolvimento de programas nacionais e internacionais, é também um importante mecanismo de participação e engajamento social. O relatório final contendo os resultados deste esforço coletivo será enviado ainda em maio à sede das Nações Unidas por todos os países envolvidos, mas o rico diálogo gerado pelas consultas deverá continuar não só para o desenvolvimento da agenda global, mas também para a sua implementação no pós * Representante Residente, PNUD Brasil. Coordenador Residente, Sistema ONU Brasil

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