EXMO.(A) SR.(A) DR.(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA VARA ESPECIALIZADA DE DEFESA DO CONSUMIDOR DA COMARCA DE SALVADOR - BAHIA.

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1 EXMO.(A) SR.(A) DR.(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA VARA ESPECIALIZADA DE DEFESA DO CONSUMIDOR DA COMARCA DE SALVADOR - BAHIA. O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA, por intermédio de um de seus Promotores de Justiça, vem, perante V. Exa., com fulcro arts. 5º, XXXII, 170, V e 129, III, da Constituição Federal; 25, IV, alínea a, da Lei Orgânica Nacional do Ministério Público; 6º, VI e VII, e 81 e seguintes do Código de Defesa do Consumidor, propor AÇÃO CIVIL PÚBLICA, COM PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA (URGENTE), segundo o rito ordinário, contra UNIMED DE SALVADOR COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO, sociedade cooperativa, com sede nesta Capital na Rua Aimorés, nº 27, Parque Lucaia, Rio Vermelho, inscrita no CNPJ/MF sob o nº / , pelos fundamentos a seguir expostos: 1

2 DOS FATOS A acionada atua no mercado de consumo prestando serviços na modalidade de plano privado de assistência à saúde, enquadrando-se no conceito genérico de fornecedor de serviço, tal qual previsto no artigo 3 o e seu parágrafo 2 o do Código de Defesa do Consumidor, bem assim no específico conceito de operadora de plano de assistência à saúde, estatuído pelo artigo 1 o, incisos I e II, da Lei 9.656/98. Entre as obrigações afetas à demandada está a assunção dos custos com exames e tratamentos de doenças reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde. Todavia, a UNIMED DE SALVADOR vem negando aos portadores das hepatites virais, doenças que matam oito vezes mais do que a AIDS, o tratamento com a medicação denominada interferon alfa peguilado, bem como a realização dos exames diagnósticos de biologia molecular denominados HCVRNA quantitativo e qualitativo, HBVDNA quantitativo e genotipagem do vírus C, conforme evidencia documento acostado aos autos, subscrito pelo Dr. Almir Magalhães Ferreira, Presidente da demandada (fls. 71 a 74). O Inquérito Civil que embasa a presente ação originou-se de declarações do Dr. Raymundo Paraná à imprensa, posteriormente confirmadas em audiência realizada nesta Promotoria com o referido médico, que apresentou documentos acerca do fato. O Dr. Raymundo Paraná, especialista em Gastroenterologia e Hepatologia, Professor, Mestre e Doutor pela 2

3 Universidade Federal da Bahia e membro da Câmara Técnica do Ministério da Saúde, profundo conhecedor da realidade dos portadores do vírus das hepatites B e C, com toda uma vida profissional voltada para o estudo da doença, seu diagnóstico e cura, apresentou informações bastante esclarecedores acerca do assunto, algumas das quais abaixo reproduzidas: - os planos de saúde viram as costas para os portadores de hapatite B e C; - estes pacientes terminam por procurar o Sistema Único de Saúde; - como os pacientes com plano de saúde conseguem realizar alguns exames prévios através de suas operadoras, a exemplo da biópsia hepática, dificuldade que se apresenta maior para os pacientes sem assistência privada, aqueles terminam por ser atendidos no SUS antes destes últimos; - o tratamento com o Interferon Peguilado no serviço público, então, incoerentemente, fica direcionado aos pacientes que pagam às operadoras de planos de saúde para terem cobertura de todas as doenças; - na Bahia, cerca de 80% de pacientes com hepatite viral em tratamento no SUS têm contrato de plano de saúde; - são apenas pacientes na rede pública em todo o País, apesar da existência de mais de de brasileiros portadores das hepatites B e C; - algumas operadoras oferecem o tratamento apenas em alguns Estados, sobretudo das Regiões Sul e Sudeste, e outras, como a UNIMED, recusam não só o tratamento, mas os exames de biologia molecular para diagnóstico; - o Interferon Peguilado não pode ser obtido pelos pacientes em farmácias ou drogarias e constitui-se medicamento registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária para uso exclusivamente hospitalar, aplicado sob supervisão terapêutica; - o medicamento também é utilizado, com aplicação de doses muito mais altas, no tratamento de outras doenças, como melanoma e leucemia, e, nestes casos, as operadoras de planos de saúde aceitam custeá-lo; - o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para o tratamento da Hepatite Viral Crônica C aprovado através da Portaria nº 863/2002 da Secretaria de Assistência à 3

4 Saúde do Ministério da Saúde prevê o tratamento mediante aplicação do Interferon Peguilado no SUS. (vide informações constantes nas correspondências de fls. 03 e 04, 11, 17 e 18, 19 a 21, Estudo realizado com pacientes em tratamento com Interferon Peguilado de 1999 a 2003 e no ano de 2004, acostado às fls. 22 a 28, Termo de Declarações às fls. 43 e 44). Vale ressaltar que a Portaria nº 863, da Secretaria de Assistência à Saúde (fls. 134 a 150), citada pelo Dr. Raymundo Paraná, ainda está em vigor, e que mesmo a Portaria nº 24, da Secretaria de Vigilância em Saúde (fls. 152 a 161), a qual vigorou por apenas uma semana por força da Portaria nº 25, do mesmo órgão (fls. 163), consagrou, tanto quanto aquela primeira, em seu texto, Critérios de Inclusão para Tratamento com Interferon Alfa Peguilado. Ou seja, o serviço público, com todas as suas limitações e mazelas, autoriza um tratamento, semelhante à quimioterapia, injustificadamente recusado pela demandada, apesar da contraprestação pecuniária mensalmente proporcionada pelos seus contratantes consumidores. Quanto ao medicamento multicitado, ainda cumpre frisar que, na própria bula, antes do seu número de registro no Ministério da Saúde , a demonstrar que o produto está plenamente regular no mercado, há indicação de que sua utilização está restrita a hospitais, numa referência clara a ambiente hospitalar, no qual se incluem clínicas capacitadas para efetuar o tratamento, de forma semelhante ao que ocorre, por exemplo, com a quimioterapia (fls. 14). A advertência na bula, portanto, possui a nítida finalidade de excluir, tãosomente, a aquisição direta e aplicação do Interferon Peguilado pelo próprio paciente em regime domiciliar. 4

5 DO DIREITO A conduta da demandada, impedindo, aos portadores da hepatite C, o tratamento da moléstia mediante a utilização do Interferon Peguilado, bem como a realização de certos exames dignósticos, afronta a legislação específica que disciplina a sua atividade, vale dizer, a Lei nº 9.656/98, que regula os planos privados de assistência à saúde. No texto da Lei, em que pese a coexistência do plano-referência de assistência à saúde, previsto no artigo 10, com a faculdade da oferta, da contratação e da vigência de outros produtos (rectius, modalidades de contratos), uma exigência legal é comum a todos: a cobertura às doenças constantes na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde da Organização Mundial da Saúde: Art. 10. É instituído o plano ou seguro-referência de assistência à saúde, com cobertura assistencial compreendendo partos e tratamentos, realizados exclusivamente no Brasil, com padrão de enfermaria ou centro de terapia intensiva, ou similar, quando necessária a internação hospitalar, das doenças relacionadas na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, da Organização Mundial de Saúde, respeitadas as exigências mínimas estabelecidas no art. 12 desta Lei, exceto: Art. 12. São facultadas a oferta, a contratação e a vigência de planos ou seguros privados de assistência à saúde que contenham redução ou extensão da cobertura assistencial e do padrão de conforto de internação hospitalar, em relação ao plano referência definido no art. 10, desde que observadas as seguintes exigências mínimas: 5

6 1 o Dos contratos de planos e seguros de assistência à saúde com redução da cobertura prevista no plano ou seguro-referência, mencionado no art. 10, deve constar: II - a cobertura às doenças constantes na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, da Organização Mundial da Saúde. (grifou-se) Assim, o consumidor que contratar plano de saúde pode optar por qualquer modalidade prevista na Lei, seja apenas a cobertura hospitalar, apenas ambulatorial, integral, com ou sem obstetrícia, porém, quanto ao conjunto de doenças cobertas, a inteligência da Lei é uma só, todas devem ser abrangidas. Sendo reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e constando da Classificação Internacional de Doenças, o tratamento da doença deve ocorrer às expensas do plano de saúde, salvo as exceções expressas nos incisos do art. 10. Como, obviamente, tanto a hepatite B, como a hepatite C, constam da listagem internacional, é ilegal a conduta confessada pela demandada, de não proporcionar tratamento com aplicação do Interferon Peguilado, bem assim recusar os exames de biologia molecular. Não lhe socorre, por outro lado, a alegativa de se tratar de medicamento importado não nacionalizado, já que, embora seja ele fabricado na Suiça, é, sim, nacionalizado, pois encontra-se registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária ANVISA e é embalado e distribuído no Brasil pela empresa brasileira Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A., conforme documento de fls. 12 a 14. 6

7 Em Apelação Cível interposta no ano de 2003, decidindo acerca de contrato celebrado sob a égide da Lei dos Planos de Saúde, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, através da sua Segunda Câmara Cível, acatou o pleito de consumidora contra operadora que se negava a reembolsá-la por despesas com tratamento controverso, adotado com restrições pela Sociedade Médica Internacional. Perceba-se, então, desde já, que o Interferon Peguilado e os exames de biologia molecular não são tratamento ou meios dignósticos controversos, pois totalmente reconhecidos, tanto pelos órgãos públicos de saúde, quanto pelas entidades médicas, nacionais e internacionais. Vale transcrever parte de ementa do acórdão aqui referido: MÉRITO: IV - Com base nas regras que orientam o sistema de saúde suplementar (Lei 9656/98 e 9961/00), a mera alegação de falta de cobertura não justifica a recusa de pagamento para determinado procedimento cirúrgico ou medicamento. a abrangência da cobertura é ampla e geral, incluindo-se os procedimentos que vão sendo estabelecidos pela Medicina em prol da proteção da saúde do cidadão. Afinal, a Medicina, como sói acontecer, é ciência dinâmica, que não pode ser manipulada por limites impostos por normas restritivas, sob pena de infringência ao primado da dignidade da pessoa, princípio vetor e confluente dos direitos fundamentais, a teor do que revela o art. 1º, inciso III, da Constituição Federal pátria vigente. (Ap. Cível n.º , TJ/DF, 2ª CC, Relator J. J. Costa Carvalho) E não se diga que contratos anteriores à vigência da Lei 9.656/98 poderiam expressamente excluir a cobertura da hepatite. Aliás, ressalve-se, inicialmente, que tal exclusão simplesmente não existe nos contratos elaborados pela ré. Todavia, ainda que existisse, 7

8 seria nula de pleno direito, seja sob a ótica da Lei nº 8.078/90, o Código de Proteção e Defesa do Consumidor, vigente desde o ano de 1991, seja em face da Lei nº 3.071/16, o Código Civil revogado, conforme entendimento tranqüilo da jurisprudência. Aliás, o CDC, ao privilegiar o respeito à dignidade da pessoa humana e à boa-fé, reprime a desvantagem exagerada contra o consumidor, circunstância que, sem dúvida, ocorre na hipótese aqui examinada. Eis os dispositivos do CDC acerca do assunto: Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: V - exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva; Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a eqüidade; 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vontade que: I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence; II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual; III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso. STJ à frente: Veja-se o que, a respeito, tem decidido os Tribunais, o 8

9 SEGURO-SAÚDE. CLÁUSULA DE EXCLUSÃO. DOENÇAS INFECTOCONTAGIOSAS. HEPATITE "C". CERCEAMENTO DE DEFESA. VALOR DA MULTA COMINATÓRIA. SÚMULA 7. - É abusiva a cláusula de contrato de seguro-saúde excludente de tratamento de doenças infectocontagiosas, dentre elas a hepatite "C". - Apurar se a produção de provas, além das já carreadas aos autos, é imprescindível, é tarefa que demanda reexame de fatos (Súmula 7). - A multa diária fixada pelas instâncias ordinárias, com base nas provas e na gravidade da situação, não pode ser revista em recurso especial. Incide a Súmula 7. (REsp , Terceira Turma, Relator Ministro Humberto Gomes de Barros, j. em 24/04/2007, publicado no DJ de 15/05/2007, p. 283). PLANO DE SAÚDE - RESTRIÇÕES CONSTANTES DA APÓLICE DE SEGURO - IMPOSSIBILIDADE DA EXCLUSÃO DE PROCEDIMENTOS MÉDICOS OU CIRÚRGICOS DO ALCANCE DO CONTRATO - ABUSIVIDADE CONTRATUAL CARACTERIZADA - A cláusula que estabelece restrições de cobertura do plano de saúde se caracteriza como abusiva. Cláusula abusiva é aquela que desequilibra a equação contratual e, portanto, nula. A doutrina ensina, a propósito, que "a abusividade de cláusula contratual e o descompasso de direitos e obrigações entre os contratantes, direitos e obrigações típicos daquele tipo de contrato, e a unilateralidade excessiva, e o desequilíbrio contrário à essência, ao objetivo contratual, aos interesses básicos presentes naquele tipo de relação. A abusividade é assim potencial, abstrata, porque ataca direitos e impõe obrigações, lesões, que ainda não aconteceram. A presença da cláusula abusiva no contrato celebrado ou na relação individual é que a torna atual e a execução do contrato que vai esclarecer o potencial abusivo da previsão contratual, é a atividade do intérprete do contrato, do aplicador da lei, que vai identificar a abusividade atual da cláusula." De conseqüência, em exame de cláusula restritiva, imperativo se torna assinalar, de pronto, que forte corrente jurisprudencial tem se posicionado, recentemente, no sentido de "o que se não pode admitir é 9

10 que as entidades que se dispõem a prestar ou assegurar assistência médica-hospitalar, para isso obtendo as autorizações legais, venham a dizer o que desejam e o que não desejam realizar nesse sentido. A sociedade não pode tolerar discriminações do tipo daquelas constantes das restrições do contrato celebrado com as pessoas físicas diretamente, devendo considerar-se tais cláusulas leoninas, potestativas, não escritas, portanto" (conforme Acórdão da 5.ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, no Agravo de Instrumento n.º ). O reportado julgado assinala, ainda, que "toda teoria do direito, por mais liberal que seja, encaminha-se no sentido de suprir a hipossuficiência das partes, quer sejam contratantes ou litigantes, dispondo preceitos legais como o artigo 5.º da Lei de Introdução ao Código Civil, que o Juiz deverá aplicar a lei tendo em vista os fins sociais a que ela se dirige e as exigências do bem comum". Nessa diretriz, assim, "o julgamento de um contrato de prestação de seguro ou de serviços médicos, celebrado entre um particular e uma organização, como a ora recorrente, não se pode ignorar tais postulados, nem conjunto de normas derivadas da Constituição da República que, embora genéricas, devem temperar a interpretação de situações que tais, como, verbi gratia, o Código do Consumidor". No mesmo sentido, em considerar a exclusão como cláusula abusiva, anotam-se recentes decisões do TJSP: Agravo de instrumento n.º Ribeirão Preto - Quinta Câmara de Direito Privado - Julgamento: Relator: Marcus Andrade - Votação unânime. Agravo de Instrumento n.º São Paulo - Nona Câmara de Direito Privado - Julgamento: Relator: Ruiter Oliva - Votação unânime. 3. Apelação Cível n.º São Paulo - Sexta Câmara de Direito Privado - julgamento: Relator: Munhoz Soares - Votação unânime. Registra-se idêntica posição em julgado do Superior Tribunal de Justiça (Recurso Especial n.º SP), no sentido de que as empresas contratantes estão obrigadas a garantir o atendimento a todas as enfermidades relacionadas no Código Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde e que é abusiva a cláusula de exclusão. Tornase, com efeito, inequívoca a criação, no contrato, de vantagem exagerada para a contratada e de restrição do direito para a contratante e seus dependentes, havendo daí a clausula VI do contrato de serviços de ser declarada nula, segundo o ditame do Artigo 51, inciso IV, da Lei 10

11 Federal n , de As restrições fazem o consumidor colocado em condição exageradamente desvantajosa, com rompimento do equilíbrio necessário que deve orientar todo e qualquer contrato. Sentença que se confirma por seus próprios fundamentos. Recurso improvido, à unanimidade, respondendo a Recorrente pelas custas processuais e a verba honorária em 10% (dez por cento) do valor atualizado da condenação. (Colégio Recursal das Relações de Consumo do Estado de Pernambuco, REC /1997, Proc /1997, j. 08/08/1997. Grifou-se) Quanto aos exames e procedimentos a serem realizados em face de determinada doença, a Lei n o 9.656/98 não admite exclusão. No caso em apreço, isso equivale a dizer que nem o tratamento através da aplicação do Interferon Peguilado, nem a realização dos exames de biologia molecular podem ser excluídos da cobertura. No caso do plano-referência, não constam entre as exceções à ampla cobertura, as quais estão taxativamente relacionadas entre os incisos I a X do artigo 10. No que tange aos planos alternativos, o artigo 12 segue linha idêntica: Art. 12. São facultadas a oferta, a contratação e a vigência de planos ou seguros privados de assistência à saúde que contenham redução ou extensão da cobertura assistencial e do padrão de conforto de internação hospitalar, em relação ao plano referência definido no art. 10, desde que observadas as seguintes exigências mínimas: I - quando incluir atendimento ambulatorial: b) cobertura de serviços de apoio diagnóstico e tratamento e demais procedimentos ambulatoriais, solicitados pelo médico assistente; II - quando incluir internação hospitalar: d) cobertura de exames complementares indispensáveis para o controle da evolução da doença e elucidação diagnóstica, fornecimento de medicamentos, anestésicos, 11

12 oxigênio, transfusões e sessões de quimioterapia e radioterapia, conforme prescrição do médico assistente, realizados ou ministrados durante o período de internação hospitalar; (grifou-se). Por oportuno, deve-se informar que, recentemente, em julgamento proferido pelo STJ, referente a contrato de plano de saúde anterior à Lei 9.656/98, restou reconhecido o direito do consumidor ao tratamento prescrito pelo seu médico, concorde ou não a operadora. Segue ementa: Seguro saúde. Cobertura. Câncer de pulmão. Tratamento com quimioterapia. Cláusula abusiva. 1. O plano de saúde pode estabelecer quais doenças estão sendo cobertas, mas não que tipo de tratamento está alcançado para a respectiva cura. Se a patologia está coberta, no caso, o câncer, é inviável vedar a quimioterapia pelo simples fato de ser esta uma das alternativas possíveis para a cura da doença. A abusividade da cláusula reside exatamente nesse preciso aspecto, qual seja, não pode o paciente, em razão de cláusula limitativa, ser impedido de receber tratamento com o método mais moderno disponível no momento em que instalada a doença coberta. 2. Recurso especial conhecido e provido. (Resp /SP, STJ, 3ªT, j. 15/03/2007) Importante ressaltar que não se pretende aplicar a lei nova, a Lei dos Planos de Saúde, aos contratos que foram celebrados em momento anterior à sua vigência, mas resta bastante claro que o Código de Defesa do Consumidor e mesmo o revogado Código Civil já resguardavam, nos pactos de seu tempo, o direito dos portadores das hepatites B e C aos exames de biologia molecular e ao tratamento com Interferon Peguilado, pois, na verdade, reconheciam cláusulas abusivas, por configurar vantagem excessiva para o fornecedor, e antes disso, cláusulas leoninas, aquelas que excluíam alguma doença ou forma de 12

13 diagnóstico ou tratamento, enaltecendo o objetivo principal do usuário ao concretizar a avença, consistente em proteger sua saúde de todas as enfermidades que o atingisse, até mesmo de doenças até então desconhecidas, e, por isso, não previstas em contrato. Dentro desse contexto, outro não poderia ser o entendimento da Agência Nacional de Saúde Suplementar, Autarquia que detém, entre suas atribuições, segundo o parágrafo 1º do artigo 1º da Lei dos Planos de Saúde, o poder-dever de normatizar e fiscalizar o segmento. E não é demais lembrar que se trata de atividade somente exercida mediante prévia autorização do Poder Público, ou seja, os fornecedores autorizados pelo Estado hão de submeter-se às normas pertinentes e à ANS. Em resposta ao Ofício nº 1.047/2006, oriundo da Promotoria de Justiça do Consumidor, a aludida Agência, por meio do Despacho nº 020/2007/GGTAP/DIPRO, foi fiel ao espírito da Lei, confirmando que o fornecimento de medicamentos durante a internação hospitalar é obrigatório, bastando serem prescritos pelo médico assistente; que sua Resolução Normativa de nº 82 lista apenas procedimentos médicos de cobertura obrigatória, sem especificar medicamentos utilizados; que o Interferon Peguilado está registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, com uso restrito a hospitais, sendo vedada sua compra por pessoas físicas; que, assim, o Interferon Peguilado não se enquadra na exclusão de cobertura de medicamentos, pois sua aplicação não se dá em regime domiciliar; que, segundo Portaria MS/SAS nº 860/2002, unidades de saúde ambulatoriais apropriadas podem oferecer o referido tratamento a portadores da hepatite viral crônica B; que, em conformidade com os artigos 10º e 12, 13

14 II, d, da Lei 9.656/98, Portaria nº 860/2002 e CID da OMS, o exame HBV-DNA deve ser coberto pelas operadoras de seguro-saúde (v. fls 165 a 170). Na verdade, a mencionada Portaria 860 aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral Crônica B, pois é a Portaria 863, citada alhures, que estabelece o protocolo para a Hepatite Viral Crônica C e o seu item 3.2 claramente discorre sobre a Inclusão para Tratamento com Interferon Alfa Peguilado (v. fls. 137). DOS REQUISITOS PARA A CONCESSÃO DA LIMINAR O artigo 84, 3 o, do CDC, consagra a possibilidade do julgador, sentindo ser relevante o fundamento da demanda e justificado o receio de ineficácia do provimento final, conceder liminarmente a tutela pretendida pelo autor da ação. No caso dos autos, há necessidade de sustar as práticas abusivas anunciadas, que violam ostensivamente as normas legais acima invocadas e que são, ainda, capazes de causar, mais que prejuízos econômicos aos consumidores contratantes dos serviços da demandada, privações injustas, sofrimento físico agudo e, principalmente, risco de morte. Em situação de tamanha vulnerabilidade, o consumidor está a mercê de constrangimentos que somente a intervenção do Judiciário pode evitar. Impedir que os abusos 14

15 persistam até o provimento final do Judiciário significa praticar a efetiva prevenção a danos patrimoniais e morais, individuais e coletivos, conforme prescrito pelo legislador no artigo 6 o, VI, da Lei 8.078/90. DOS PEDIDOS LIMINARES Desta forma, requer, o Ministério Público, a concessão de provimento liminar, inaudita altera pars, determinando à demandada que assegure aos seus consumidores, no prazo de dez (10) dias, através da sua rede credenciada, acesso ao tratamento das hepatites virais mediante a aplicação da droga denominada interferon peguilado e aos exames de biologia molecular denominados denominados HCVRNA quantitativo e qualitativo, HBVDNA quantitativo e genotipagem do vírus C, quando solicitados pelo respectivo médico assistente e desde que o contratos correspondentes incluam atendimento hospitalar ou ambulatorial, sob pena de pagamento de multa diária equivalente a R$ ,00 (cem mil reais), valor que deverá ser revertido para o fundo de que trata o artigo 13 da Lei 7.347/85. DOS PEDIDOS Finalmente, requer o Ministério Público: presente ação, sob pena de revelia; a) a citação da ré para, querendo, contestar a 15

16 b) a publicação do edital previsto no artigo 94 da Lei 8.078/90, para conhecimento dos interessados e eventual habilitação no feito como litisconsortes; c) a inversão do ônus da prova (art. 6 o, VIII, do CDC); d) a dispensa do pagamento de custas, emolumentos e outros encargos, desde logo, à vista do que dispõe o artigo 18 da Lei 7.347/85 e artigo 87 da Lei 8.078/90; e) sejam as intimações ao autor feitas pessoalmente, mediante entrega dos autos com vista, na sede da Promotoria de Justiça do Consumidor, situada na Avenida Joana Angélica, nº 1312, Bloco Anexo, 3 o andar, Nazaré, em face do disposto nos artigos 236, par. 2 o, do CPC, 41, IV, da Lei Federal n o 8.625/93, e 199, XVIII, da Lei Complementar Estadual 11/96; f) o julgamento, ao final, da procedência desta ação, para tornar definitivo o provimento liminar requerido, condenando a demandada em todos os seus termos, bem como: 1) condenar a demandada a restituir os valores desembolsados pelos consumidores, portadores das hepatites B ou C, que com ela contrataram plano de saúde nas modalidades que incluem atendimento hospitalar ou ambulatorial e que foram obrigados, em face da conduta da UNIMED DE SALVADOR, acima descrita, a arcar com as despesas para tratamento das referidas moléstias mediante a aplicação da droga denominada interferon peguilado, bem como com os exames de biologia molecular denominados denominados HCVRNA quantitativo e qualitativo, 16

17 HBVDNA quantitativo e genotipagem do vírus C; 2) condenar a demandada a indenizar os consumidores que sofreram danos materiais e morais decorrentes da prática adotada pela demandada, consistente em negar autorização para o tratamento das hepatites B e C através da aplicação do interferon peguilado, bem como para a realização dos exames de biologia molecular denominados denominados HCVRNA quantitativo e qualitativo, HBVDNA quantitativo e genotipagem do vírus C. em lei. Protesta provar o alegado pelos meios admitidos (quinhentos mil reais). Atribui à causa o valor de R$ ,00 Pede deferimento. Salvador, 20 de julho de 2007 Aurisvaldo Melo Sampaio 4 o Promotor de Justiça do Consumidor da Capital 17

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