OS PRINCIPAIS FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A PERMANÊNCIA DE DEPENDENTES QUÍMICOS EM TRATAMENTO

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1 OS PRINCIPAIS FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A PERMANÊNCIA DE DEPENDENTES QUÍMICOS EM TRATAMENTO Dário Fernando Treméa Kubiak 1 Jesus N. Durgant Alves 2 Mara Regina Nieckel da Costa 3 RESUMO Este artigo objetiva oferecer uma reflexão sobre os fatores que contribuem para a permanência de dependentes químicos no tratamento, levando em consideração a trajetória e as experiências de vida, enquanto usuários de drogas. A caracterização das drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, não foi considerada como premissa para o estudo do objeto. A relevância do estudo justifica-se pela importância da identificação de fatores que mantém os sujeitos em tratamento e podem também ser considerados como protetores na sua reintegração à sociedade. PALAVRAS CHAVES: drogas; dependentes químicos; reintegração social. O uso de drogas está relacionado com as transformações sociais decorrentes do processo de civilização e modernização da sociedade ocidental. O crescimento desta problemática está sendo verificado nos últimos anos e suas conseqüências na vida do indivíduo e da sociedade é considerado, hoje, um problema de saúde pública. A situação vem se tornando cada vez mais alarmante e com grande impacto social. Estudar a dependência de drogas, bem como os fatores que venham a contribuir para a reintegração do indivíduo usuário ao convívio social é importante porque visa trazer à discussão desde as formas de comportamento relacionadas à porta de entrada do consumo de drogas - a experimentação e o uso eventual até a identificação dos fatores que possam ser considerados como protetores para retorno a sociedade. Nesse contexto, inicialmente, foram privilegiadas as relações familiares, com o objetivo de analisar como as experiências vividas no cotidiano influenciam no processo de singularizarão do indivíduo e no seu comportamento diante dos desafios da vida em geral. 1 Acadêmico do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil, Unidade Guaíba RS. 2 Acadêmico do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil, Unidade Guaíba RS. 3 Professora Orientadora do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil, Unidade Guaíba RS.

2 2 O conceito de drogas remete ao campo da farmacologia. O termo é utilizado para designar apenas as substâncias psicoativas, que quando absorvidas pelo organismo por diferentes vias (oral, endovenosa, inalada, etc...) e que alteram o funcionamento do Sistema Nervoso Central (S.N.C.). Essas alterações provocam mudanças no estado de consciência e no senso de percepção do usuário, uma vez que as referidas substâncias podem atuar como depressoras, como estimulantes ou como perturbadoras do S.N.C (LIMA, 1997). As substâncias psicoativas são classificadas, segundo Aquino (1998), de acordo seus efeitos no organismo: 1. Estimulantes: Tabaco, Anfetaminas, Ecstasy - MDMA (Metileno Dióxido Metanfetamina), Cocaína, Crack, Cafeínas e Xantinas. 2. Depressores: Álcool, Tranqüilizantes e Barbitúricos, Heroína. 3. Alucinógenos e Perturbadores: L.S.D. (Dietilamida do Ácido Lisérgico), Maconha, Inalantes também chamados de solventes. Quanto aos termos uso e abuso de drogas, é importante esclarecer sobre a diferença do significado de cada um deles. Usar drogas significa consumir algum tipo de substância psicoativa de forma eventual ou recreacional. Como exemplos, podem ser citados o consumo de bebidas alcoólicas em determinadas ocasiões, o uso de psicofármacos por recomendação médica, o uso de algumas ervas em rituais religiosos, ou ainda, o uso esporádico de drogas consideradas ilícitas (maconha, cocaína, etc...). Já o abuso de drogas refere-se ao consumo excessivo de qualquer substância psicoativa que acarrete danos físicos, psicológicos e/ou sociais para o indivíduo. Cabe chamar atenção, ainda, para a classificação das drogas em lícitas e ilícitas. Os dois termos são constantemente utilizados por profissionais e pesquisadores do campo das toxicomanias. No entanto, não se prendem fundamentalmente a critérios técnicos, farmacológicos ou científicos, e podem variar de significado de acordo com o contexto sociocultural (LIMA, 1997). No Brasil, freqüentemente, são consideradas ilícitas as drogas cujo comércio e os consumos são proibidos por lei (maconha, cocaína, heroína, crack, etc...), e como lícitas aquelas cuja lei permite que sejam comercializadas e consumidas (álcool e psicofármacos). No entanto, essa classificação não é muito bem definida, uma vez que algumas substâncias, cujo comércio é permitido (éter, cola de sapateiro, benzina, etc...), podem ser usadas para fins

3 3 diferentes daqueles para os quais foram produzidas e com o propósito de alterar a consciência do indivíduo. Sendo assim, no presente trabalho, estão sendo considerados drogas lícitas apenas o álcool e os psicofármacos. Para os aspectos individuais da drogadição e da dependência química, Freud (1904, apud KALINA, 1999) considerava as toxicomanias e o alcoolismo como sucedâneos da masturbação, que, para ele constituía o hábito primário. Algum tempo depois e com referência específica ao álcool, afirma que o homem adulto, ao fazer uso da bebida, passa a comportar-se como criança que encontra o prazer, podendo entregar-se livremente ao curso de seus pensamentos, sem submeter-se as compulsões da lógica. Ou seja, já em 1904, Freud considerava que o alcoolismo manifestava impulsos regressivos que permitiam acreditar que o álcool, primariamente, era um substituto de necessidades infantis. E, na medida em que relaciona às diferentes formas de drogadição com a satisfação de necessidades infantis primárias, Freud explica que as origens da toxicomania devem ser procuradas na fase oral do desenvolvimento. Em conseqüência, a partir uma perspectiva rigorosamente freudiana, a drogadição pode ser interpretada em termos de fixação oral. É por isso que a grande contribuição de Freud, neste campo, relaciona-se com a teoria da dinâmica da oralidade, com respeito a qual salientou aspectos fundamentais, como a intolerância à espera na satisfação do desejo e a importância da fixação da regressão etc... A escola kleiniana tenta explicar a significação da adição às drogas a partir de outra perspectiva. Em lugar de focalizar a causa do fenômeno em termos de prazer orgástico e oralidade, adota um ponto de vista que sublinha a importância da fuga a dor e da tentativa de escapar à depressão e ao que é sentido como persecutório. Esta teoria descreve de maneira satisfatória o dinamismo dos processos que levam à idealização da droga, que adquire especial intensidade nos indivíduos que se encontram fixados no seu objeto primário no nível que classicamente é designado como posição esquizoparanóide. Esta fixação seria o resultado de uma separação exageradamente hostil da criança do seio materno. Segundo Melanie Klein (apud KALINA, 1999), o toxicômano dificilmente poderá tolerar o ingresso na posição depressiva. Com a droga, justamente, o que ele tenta é evitar cair nessa posição. Isto por ser a interrupção da posição depressiva vivenciada por ele como uma incorporação perigosíssima de seus aspectos dissociados, o que implicaria a desintegração total de seu ego, isto é, a psicose. Quanto mais intensa a fixação e mais profunda a dissociação entre um objeto persecutório e outro muito idealizado, tanto maior será dificuldade para elaborar depois a

4 4 posição depressiva, da qual depende a capacidade do indivíduo para aceitar as frustrações sem sentir que essa aceitação acarrete a perda do objeto bom. O problema de pesquisa que norteou o estudo em questão foi a busca de resposta ao seguinte questionamento: Quais os principais fatores que contribuem para permanência de dependentes químicos no tratamento? Para tanto, o estudo foi desenvolvido a partir da abordagem qualitativa, privilegiando entrevistas com indivíduos em tratamento por consumo de drogas lícitas e/ou ilícitas e profissionais que os acompanham em duas instituições de tratamento no Município de Guaíba/RS. De uma forma geral, os principais fatores que contribuem para a manutenção do tratamento, encontrados no estudo, referem-se a: manutenção da abstinência e mudança de hábitos, reconstrução da vida familiar e profissional, recuperação da auto-estima e cuidados com a saúde física e mental, valorização da vida espiritual e social e capacitação para projetar o futuro. Além destas conclusões, os dados da pesquisa também levantaram outras questões, dentro do campo das toxicomanias. Ficou evidente a necessidade de se considerar nesse contexto: as relações de poder; a dimensão da violência gerada a partir da "ilegalidade" de algumas substâncias; os interesses políticos e econômicos envolvidos na problemática; a "utilidade" das drogas como "instrumento" de alienação; o "lugar" da droga enquanto "promessa" de "prazer ilimitado"; a posição hipócrita da mídia que, direcionada aos interesses capitalistas, incentiva o consumo das drogas lícitas (álcool e tabaco) e se posiciona de forma "terrorista" e "medíocre" frente às drogas ilícitas, como se o prejuízo humano e social acarretado pelo abuso das drogas, estivesse ligado à "legalidade" ou "ilegalidade" das mesmas; a visão equivocada e preconceituosa da sociedade, que rotula todos os usuários de drogas ilícitas como marginais, bandidos, violentos ou doentes, o que, por vezes, acaba banalizando o uso abusivo de outras drogas. CONCLUSÃO Conclui-se, nesta pesquisa que:

5 5 a) As relações sujeito-droga, estabelecidas pelos diferentes indivíduos são de uso constante e caracterizando, portanto, como dependência. b) Para que se entenda melhor como determinadas pessoas usam drogas e, diferentemente de outras, fazem com essas drogas uma relação de dependência, é necessário que se leve em consideração as experiências vividas por essas pessoas em seu cotidiano. c) As relações de responsabilidade e limites exigidas e apoiadas no tratamento para um comportamento de responsabilidade consigo mesmo e com aqueles de seu convívio impulsiona a pessoa para o processo decisório de busca pelo tratamento. d) Entendendo a forma como as relações influenciam no "processo de singularização" dos indivíduos, poderemos ter uma visão menos equivocada, menos preconceituosa, menos "padronizada", mais flexível e mais compreensiva sobre o fenômeno do consumo de drogas, que tanto tem mobilizado, atualmente, os profissionais de saúde, os educadores, as famílias, as autoridades públicas, a sociedade como um todo e com a visão voltada para sua reintegração. Assim, conclui-se este relato, afirmando que o objetivo dessa proposta foi apenas apontar para alguns fatores de permanência em tratamento pelo grupo investigado e que contribuíram para que esses indivíduos, com experiências de dependência de drogas lícitas e/ou ilícitas, optassem pelo tratamento e se mantivessem motivados pelos resultados benéficos encontrados. Outros estudos podem ser desenvolvidos, levando-se em consideração outras comunidades e também diferentes peculiaridades sócio-econômicas e culturais dos pesquisados, com o intuito de comparar com os achados da presente pesquisa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUINO, M.T.C. "A Mulher e a Droga: motivação para o uso, efeitos diferenciados1997. KALINA, E. & GRYNBERG, H. "Aos Pais de Adolescentes". Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992.

6 6 LIMA, E. "Existe um paradigma epidemiológico para o fenômeno da drogadição?". In Toxicomanias: Uma Abordagem Multidisciplinar. Rio de Janeiro, NEPAD/UERJ, Sette Letras, 1997.

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