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1 oglobo.com.br IRINEU MARINHO ( ) RIO DE JANEIRO, DOMINGO, 27 DE MAIO DE 2012 ANO LXXXVII N O ROBERTO MARINHO ( ) O Pará e a dança que faz tremer o país Elymar Costa tem 20 anos e é uma das estrelas da dança do treme em Belém. A onda surgida no Pará, estado que se firma como lançador de novidades, consiste em mexer freneticamente o corpo e começa a se espalhar pelo país. Guito Moreto Cores do grafite vão das ruas para a tela No papel de um grafiteiro na novela Cheias de charme, da TV Globo, o ator Jayme Matarazzo se encontra com os artistas que o inspiraram. Quando a beleza e o charme de homens e mulheres se transformam em ativo de valor e lhes abrem as portas nas relações de trabalho. MORAR BEM As dicas dos decoradores de programas de televisão que mudam totalmente a casa dos espectadores. BOA CHANCE SAÚDE Saiba como diminuir os riscos de desenvolver o mal de Alzheimer: exercício é a principal recomendação. SEGUNDO CADERNO Leonardo Aversa A delícia e a dor de ser bela Alinne Moraes enfrenta o desafio de encarnar Doroteia, a prostituta da peça homônima de Nelson Rodrigues, criada em 1949, que quer ser feia e renunciar ao sexo. CAETANO VELOSO: A força da tradição cênica de Gal Costa na estreia do show Recanto em São Paulo. esportes O GLOBO Ronaldinho e Joel vaiados no empate do Fla l O Flamengo, que chegou a estar vencendo por 3 a 1, frustrou os torcedores ao ceder o empate ao Internacional, no Engenhão. Ronaldinho Gaúcho, que fez um gol de pênalti, e o técnico Joel foram hostilizados pela torcida. Em São Paulo, o Vasco derrotou a Portuguesa por 1 a 0, com golaço de Alecsandro. Hoje o Fluminense enfrenta o Figueirense no Engenhão. Já o Botafogo joga contra o Coritiba, fora de casa. Bradesco negocia compra do banco Santander no Brasil l O Bradesco está próximo de fechar a compra das operações do Santander no Brasil. Se ficar com o total de ativos do banco espanhol, a instituição passará a ocupar a primeira colocação do ranking do setor no país. Página 41 Crise faz sonho da universidade virar pesadelo l O aumento de anuidades e a dificuldade de jovens em arrumar emprego, consequências da crise global, estão fazendo com que a universidade, porta para a ascensão social, se transforme em fonte de dívidas em países como a Espanha e os EUA. Página 43 Juros baixos vão dobrar gasto com aposentadoria Mudança exigirá contribuição mais alta e por mais tempo, com risco maior l A nova realidade de juros baixos que se consolida exigirá que o brasileiro faça um esforço dobrado para garantir a mesma renda na aposentadoria pela previdência privada, informa LUCIANNE CARNEIRO. Num cenário em que a taxa Selic caia para 8%, o Previdência privada que deve ocorrer ainda este ano, quem começar a aplicar aos 30 anos terá que reservar R$ 976 ao mês para ter R$ 5 mil mensais aos 60. Com os juros a 12%, esse valor era de R$ 462. Segundos especialistas, haverá uma mudança cultural no país, já que mui- O Brasil que não viaja de avião tas gerações conviveram com taxas que permitiam ganhos elevados e ajudavam a garantir a aposentadoria. Agora, a contribuição será maior e por mais tempo, e o risco pode aumentar, dependendo do fundo escolhido. Páginas 36 e 37 Domingos Peixoto Lei de Acesso mira políticas públicas l A Lei de Acesso à Informação pode ajudar a pôr fim a uma prática pouco transparente de governos: esconder resultados de avaliações de políticas públicas. Página 3 A HISTÓRIA DE MORA l Num safári na África, Collor convidou Ulysses para ser ministro das Relações Exteriores. Ele recusou. Página 14 CHICO VETO: Cartão vermelho para o crime verde l Utilizados por 150 milhões de brasileiros, os transportes de média e longa distâncias por terra e por água recebem menos da metade da média mundial em investimentos do governo federal. Viagens de ônibus, barco e trem, como o que liga Parauapebas (PA) a São Luís, são, na maioria das vezes, precárias e inseguras, revelam HENRIQUE GOMES BATISTA e LIANE THEDIM. Páginas 33 a 35 2ª Edição Venda avulsa local Preço no RJ, MG e ES: R$ 4 Morar Bem e Boa Chance circulam na Região Metropolitana do Rio, na Costa Verde, na Região Serrana e na Região dos Lagos (menos Macaé e Rio das Ostras)

2 Domingo, 27 de maio de 2012 h 33 OGLOBO ECONOMI A Na segunda classe, 150 milhões Enquanto governo foca em aeroportos, ônibus, trem e barco acumulam problemas. País investe metade da média mundial no setor O governo vem concentrando necessários esforços para que os aeroportos se tornem mais eficientes a fim de atender ao público que vem para Copa e Olimpíadas. Nos próximos dias, transfere o controle dos primeiros grandes terminais para grupos privados. Enquanto isso, o transporte por ônibus, trem e barco em milhares de cidades brasileiras vai de mal a pior, retrato de um governo que investe pouco no setor: 0,4% de seu Produto Interno Bruto (PIB), menos da metade da média mundial de 0,96%, segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Assim, viajar de ônibus, barco ou trem no Brasil pode ser uma aventura. Em 2011, foi uma morte a cada 40 horas, num país que majoritariamente não viaja de avião: o setor aéreo transportou 89,9 milhões de pessoas, enquanto quase 150 milhões usaram os outros três meios. Para mostrar o cotidiano desses passageiros que estão fora do foco político do governo, O GLOBO embarcou nas mais longas linhas de ônibus, barco e trem em operação no país e começa hoje uma série de reportagens, que também vai analisar desafios do setor. Fotos de Domingos Peixoto BEIJOS, ANSIEDADES e bagagens diversas marcam a saída da ligação entre Fortaleza e Cruzeiro do Sul (AC). Preço é incentivo para viajar longas distâncias de ônibus, utilizado por 131 milhões de brasileiros TRABALHADORES SEGUEM para as obras das hidrelétricas em Rondônia Avião é muito difícil Maior linha de ônibus corta 12 estados em mais de cinco dias A FAMÍLIA de Paulo Pereira da Silva curte a volta para Minas Gerais para se distrair, caso de Iuan Purcaru, que foi de Natal a Maceió visitar a mãe. Ou pessoas como Larissa Ribeiro PeMossoró Enviado especial CE Cruzeiro do Sul reira, de 22 anos, que semanallajes l FORTALEZA E CRUZEIRO DO Natal Liberdade mente encara 20 horas de estrarn SUL (AC). Na maior rota de ônitarauacá da para ver o marido, Fabiano, João Pessoa Porto Velho PB bus do Brasil, o tempo não se Feijó zagueiro do ASA de Arapiraca, Sena Madureira Recife conta em horas, mas em dias Ouro Preto D oeste cidade alagoana que tem um tipe Caruaru AC cinco e meio e a distância Ji-paraná Rio Largo me conhecido mas não recebe AL Abunã não é percebida em quilômetros, Presidente Médici Maceió um voo regular sequer: Rio Branco BA SE Barreiras Arapiraca mas em estados do país, 12 ao total. RONDÔNIA Pimenta Bueno O ônibus é minha única opção, Acrelândia Ibotirama Propriá A linha entre Fortaleza (CE) e CruzeiCacoal Luís Eduardo Magalhães MT passei na federal do Rio Grande do Vista Alegre do Abunã Vilhena Aracaju ro do Sul (AC) sintetiza as belezas, Norte e não queria perder a vaga. O Salvador Seabra mazelas e desafios do ônibus, meio Comodoro Vargem Grande ruim é que às vezes chego em casa e o Feira de Santana utilizado por 131,8 milhões de pesso- permitido sem cus- Conquista D oeste Ipirá Fabiano está concentrado diz a esgo DF Cuiabá as no ano passado para deslocamen- to extra no avião à Itaberaba Formosa tudante de educação física. Jaciara Pontes e Lacerda tos de média e longa distância. Alto Araguaia Nos ônibus, ainda ocorrem as mimelhor a carência de ligação Brasília Cáceres A viagem que corta 7,8 mil quilôme- aéreas entre pontos Jataí eles. Após so- grações pelo Brasil. O trabalhador rugoiânia Rondonópolis tros pelo país (o dobro da mítica Rou- ermos do país. Mas o custo ainda é a frer para erguer sua ral Paulo Pereira da Silva embarcou Pedreiras Rio Verde te 66 americana, ou a distância entre grande razão para milhões de pessocasa, quando ganhava R$ 15 por em Natal, com destino a Uberaba. Pela Mineiros Santa Rita do Araguaia Lisboa e Bagdá) é compartilhada por as abdicarem da agilidade dos voos. dia, Kariovaldo agora usa os R$ 2 mil primeira vez viajaria na companhia de um público eclético, que vive experide renda mensal para dar mais confor- toda família, a mulher Ângela e os fi Já voei uma vez, mas avião é ências como ficar preso por uma ho- muito difícil afirmou o biscateiro Os passageiros sabem das vantagens to à família. Logo, a sua casa será a úni- lhos João Pedro, Ana Paula e Carlos ra na Bahia por causa de uma micare- Marcos Silva, fazendo o gesto de di- de voar, porém calculam muito bem ca da rua a contar com ar-condiciona- Daniel. Ele voltava para a região de ta ou assistir ao saque de um cami- nheiro com os dedos ao embarcar como usam seu suado dinheiro: do. Ele justifica aplicar até R$ pa- sua esposa após tentativa frustrada nhão tombado em Mato Grosso pelo em Fortaleza. Quando saí de Rondônia para ir ra voltar para a casa de avião, contra de crescer na vida na terra de seus paexcesso de soja nas pistas. Um grupo rentes. Silva pediu R$ emprestasilva lembra que os preços promo- pra casa, fui de avião, estava morrendo os R$ 430 do ônibus: que mata o tempo revendo até três cionais das aéreas são quase obra de saudades. Agora, para voltar ao tra Fui agora de surpresa e busquei dos para voltar de ônibus, valor alto vezes seguidas o mesmo filme no de ficção para uma população que balho, vou de ônibus porque não te- minha filha de 5 anos na escola. Assim para ele, porém mais em conta que os DVD do ônibus ou que cria laços de ainda tem dificuldades de acompa- nho pressa nenhuma contou Kario- que ela me viu, saiu correndo gritando R$ 4 mil necessários para o avião. amizades por vezes, coloridas nhar as cotações das passagens em valdo Mesquita Lobato, paraense de para a professora : Viu só, eu tenho Quando fui pro Norte pensava entre as poltronas. tempo real e pouco acesso a cartões Abaetetuba que se orgulha de ser o pai, não disse que tinha pai? con- que ia ter dinheiro para voltar de As motivações para encarar as es- de crédito. único a ter esse nome entre os 20 mil tou, antevendo a saudade que vai cres- avião... Quem sabe na próxima? tradas dias a fio são diversas: do proao longo da viagem de 130 horas por trabalhadores na construção da hidre- cer até voltar para casa de novo, em saico medo de voar ao desejo de co- terra, o transporte aéreo é um assunto létrica de Jirau, no Rio Madeira. dezembro, e de avião, como promete. RISCOS DA VIAGEM: ASSALTOS nhecer o interior do Brasil. Da necessi- sempre presente. Uma das frases mais Na viagem de ônibus operada pela Ele suporta a distância da mulher e NO NORDESTE E ACIDENTES NO dade de levar mais bagagens que o ouvidas é na volta eu vou de avião. dos dois filhos para dar uma condição Transbrasil, há estudantes com ipad CENTRO-OESTE, na página 34 Fortaleza

3 Product: OGlobo PubDate: Zone: Nacional Edition: 2 Page: PAGINA_AJ User: Asimon 34 ECONOMIA Time: :51 Color: K 2ª Edição Domingo, 27 de maio de 2012 O GLOBO Riscos de assaltos no Nordeste e de acidentes no Centro-Oeste Preço da passagem da maior rota regular de ônibus do Brasil é de R$ MÍRIAM LEITÃO Enviado especial oglobo.com.br/economia/miriam De parar o trânsito O trem garrou tudo, me disse Geraldo, o motorista mineiro que estava me levando para a Bienal em Belo Horizonte. Tínhamos que atravessar a cidade e eu estava atrasada. Ele queria dizer que o trânsito tinha travado completamente. Cê tem medo? Eu dei carta branca, desde que ele respeitasse as leis de trânsito. Ele fugiu do excesso de fluxo de veículos atravessando uma linha de trem, uma favela e um cemitério. Chegamos. l O problema não era só daquele dia, nem só de Belo Horizonte. As cidades brasileiras estão com o trânsito cada vez mais inviável. A impressão intuitiva geral é que estamos marchando inexoravelmente para um dia o trem agarrar completamente. As pessoas culpam o contínuo crescimento da venda de carros dos últimos anos. De fato, a venda interna triplicou em sete anos. Era de 100 mil e está em 300 mil veículos por mês. No estado de Minas Gerais, 410 mil carros novos são vendidos a cada ano. Mas, evidentemente, não é o consumo que tem que se adaptar às possibilidades das cidades, é a mobilidade urbana que tem que ser repensada imediatamente. Perde-se cada vez mais tempo no trânsito entre a casa e o trabalho. Isso é redução de produtividade da economia, aumento das emissões de gases de efeito estufa e, mais importante, perda de qualidade de vida. O trabalhador já chega cansado e estressado para trabalhar. As mercadorias não chegam em tempo, a produção fica mais lenta. O trânsito afeta a economia e a vida privada. Quando se fala do problema logístico brasileiro, em geral as pessoas pensam na dificuldade de os grãos serem transportados da área de produção até o porto para serem embarcados. Mas o principal nó se forma de maneira cada vez mais desesperadora em cada centro urbano. E nem precisa ser cidade grande. As pequenas começam a repetir o mesmo padrão. Na maior cidade do Brasil houve um dia de desespero na última quarta-feira com a greve do metrô. Incipiente, cobrindo apenas uma parte da cidade, o metrô é indispensável. Foi apenas um dia, felizmente. Provocou 240 quilômetros de congestionamento na cidade, três vezes mais do que em dias de engarrafamento considerado normal para os padrões da capital paulista. No estado de São Paulo, como um todo, são comprados um milhão de carros novos por ano. Embolou, me avisou o motorista de táxi carioca, na última quinta-feira, e relaxou no volante, aumentando o volume da música que ouvia. Um acidente com uma moto foi criando círculos de paralisia no trânsito da Zona Sul do Rio. Levamos uma eternidade para cruzar a pequena distância entre dois bairros vizinhos. No estado do Rio são 252 mil carros novos por ano. Os incentivos sucessivos que o governo vem dando à compra de carro se somam à queda dos investimentos em transporte de massa e à falta crônica de um sistema inteligente de gestão do trânsito. Isso está levando o país ao entupimento das artérias. Os trabalhadores COM ALVARO GRIBEL Fotos de Domingos Peixoto têm que sair cada vez mais cedo de casa para tentar chegar ao seu trabalho. O Censo de 2010 do IBGE mostrou que em São Paulo um terço dos trabalhadores levam mais de uma hora se deslocando até o trabalho diariamente. Isso significa mais de duas horas por dia, na viagem de ida e volta. Ou seja, dez horas por semana de cinco dias. Há casos muito mais espantosos, de trabalhadores que gastam de quatro a seis horas do dia para ir e voltar do trabalho. Que produtividade pode ter uma pessoa que vive esse transtorno? Qualquer evento que quebre a rotina cria um processo exponencial de contágio que vai paralisando as cidades. Por isso, imagina-se o que será o Rio neste mês de junho, com os que desembarcarem para a Rio+20 e o aumento de pessoas indo para os mesmos lugares: membros das delegações, jornalistas, militantes de ONGs, especialistas, empresários, seguranças, chefes de Estado. O estrangulamento previsto resultou em decisão bizarra: o prefeito decretou ponto facultativo de três dias para os servidores públicos, para que menos gente fique na cidade. As crianças ficarão sem aulas. O problema da mobilidade urbana deixou de ser apenas um desconforto das pessoas. Hoje ele reduz a expectativa de vida da população, provoca uma queda dramática no índice de produtividade do trabalho, afeta a logística das empresas. Qualquer pessoa sabe disso. Menos o governo. Ou melhor, os governos. Tudo se passa como se as autoridades não soubessem que as cidades brasileiras estão parando em congestionamentos de proporções cada vez maiores. O que esperam? Que tudo agarre ou embole completamente? Imagine o que se poderia fazer com o tempo excessivo gasto no trânsito. Ficar mais tempo com os filhos, o que elevaria a saúde emocional das crianças. Fazer exercício físico regularmente, o que melhoraria o humor, a saúde e a autoestima de cada pessoa. Ler mais, o que elevaria o conhecimento. Dormir mais um pouco, o que reduziria o stress e tudo que é decorrente da supressão do sono. O Brasil tem uma malha de metrô totalmente acanhada para as necessidades do nosso cotidiano, tem um sistema de concessões de ônibus que em algumas cidades chega a ser mafioso e tem compulsão pelo carro individual, que tem sido incentivada a cada pacote econômico. Esta semana foi anunciado o sétimo. Mesmo endividados, os brasileiros foram incentivados a comprar mais carros porque o governo quer esvaziar os pátios cheios das montadoras. Como os carros circularão? Isso não parece preocupar o governo. l MOSSORÓ (RN) E CONQUISTA D OESTE (MT). As condições das estradas, paisagens e sotaques mudam diversas vezes na linha entre Fortaleza (CE) e Cruzeiro do Sul (AC), a maior ligação de ônibus do Brasil. Mas a viagem pode ser dividida em duas no que diz respeito a um aspecto: o medo. No trecho nordestino, o fantasma do assalto atordoa motoristas e passageiros. A partir de Brasília até seu ponto final incluindo o Centro-Oeste são os acidentes causados pela má situação das rodovias que tiram a tranquilidades de todos. Há três anos, vivi um assalto no Rio Grande do Norte e levei dois tiros, um no pulmão e outro nos lábios. Fui dado como morto, perdi muito sangue. Foi um milagre. Fui socorrido em Fortaleza, distante 120 km de onde levei os tiros. Depois de oito dias, saí do hospital, e em 15 dias já tinha voltado a trabalhar. Não fiquei traumatizado disse Juvenar Rocha, motorista de 64 anos que conduz há 46 anos. A viagem é feita em quatro etapas. No primeiro trecho, entre Fortaleza e Recife, é utilizado um ônibus de dois andares que permite até 60 passageiros. No trecho entre Recife e Brasília, é usado um outro, que recebe mais cargas. Por questões de manutenção e limpeza, em Brasília os viajantes passam para um veículo semelhante, que segue até Rio Branco. E no trecho final, da capital do Acre até Cruzeiro do Sul, o ônibus que segue é simples, pois a estrada recémasfaltada não suporta grandes veículos. No total do percurso, são 10 profissionais diferentes: Os ônibus e os motoristas não aguentam todo o trajeto. Mas o passageiro tem que aguentar brinca o motorista William Souza. Mas poucos usuários fazem todo o trajeto: a maioria utiliza apenas parte da linha. Para atrair mais passageiros, o ônibus faz alguns desvios e não usa o caminho mais direto. No Nordeste, por exemplo, dá uma volta desnecessária para passar por Caruaru (PE) e Arapiraca (AL). De acordo com a Transbrasil, empresa que opera a linha graças a uma liminar obtida após um juiz considerar que o serviço poderia ser feito pela inexistência da ligação entre os dois trechos, em oito meses 22 passageiros compraram passagens em Cruzeiro do Sul para fazer todo o trecho. Entretanto, entre Porto Velho e capitais do Nordeste, a rota é mais utilizada. No período de baixa demanda, os trechos mais longos acabam servindo para diversas linhas da empresa, que no total tem 630 ônibus, 1,6 mil motoristas e transporta 2,3 mil passageiros por dia. Com antecedência, voo sai até mais barato Diversas correntes migratórias estão nesta linha. Miguel Alves de Araújo, natural de Piripiri (PI), pegou parte do trajeto para chegar a Porto Velho, onde vai trabalhar em Jirau: Minha mãe não quer que a gente saia, mas fazer o quê? Tenho um irmão que saiu há dez anos para construir uma barragem no Pará, mas nunca deu notícia, tem quem diga que ele já se foi. Ela está fazendo meu irmão caçula estudar, não quer que ele saia de jeito nenhum conta o piauiense, gentílico que poderia muito bem entrar na piada mais comum dos peões nessa viagem: As mães que mais sofrem no Brasil são as paraenses e as maranhenses. Assim que o menino começa a engatinhar, já coloca uma mochila nas costas e pensa em ganhar o mundo. Percorrer 7,8 mil quilômetros de ônibus, em cinco dias sem parar, custa R$ Curiosamente, a única linha de avião regular de Cruzeiro do Sul, da Gol, é justamente para Fortaleza. Com CLAUDIA PINTO Costa voltou de ônibus de João Pessoa ao Acre e se surpreendeu com os motoristas Enguiços, partos e até cobras Vida de motorista fica longe da rotina e da monotonia RIO VERDE (GO) e PROPRIÁ (SE). A vida ensina muito, mas a estrada ensina mais, sentencia o rondonense William Souza, de 25 anos, há dois como motorista da Transbrasil. Disse isso ainda sujo de graxa, após consertar uma peça que havia se desencaixado da suspensão do ônibus por causa de buracos da estrada no Mato Grosso. Não há qualquer tom de reclamação em suas palavras. A frase foi dita com admiração, demonstrando a verdadeira paixão que esses profissionais têm pelo trabalho, onde ganham de R$ a R$ 2 mil por mês. O que mais seduz os motoristas não é a estrada, mas as pessoas. Muita gente fala que é melhor ser motorista de caminhão, que a carga não reclama de nada, que é melhor até levar animal. Não acredito nisso não. Tem passageiro mal educado, mas a maior parte é gente boa. A gente cria uma relação com eles, nas paradas ou quando subimos para descansar. Gosto de ver a alegria dos reencontros nas rodoviárias, da mesma forma que tento consolar as pessoas que choram nas despedidas. Chego perto deles e digo Não chora não, ele vai voltar conta Almir Salvador Gonçalves dos Santos, tocantinense de 43 anos que vive em Brasília. Ele voltou para a profissão mesmo depois do episódio que o afastou das estradas: a morte de seu filho de 16 anos em acidente de trânsito. Na época, eu via os jovens no ônibus e pensava que podiam ser meu filho, fiquei mal, parei por seis meses. E fui voltando. É o que gosto de fazer. Fico longe de casa, mas quando volto é sempre uma festa, minha mulher e meus dois filhos fazem sempre churrasco conta o motorista, que não esconde o medo de acidentes. Com a escala, acabo viajando quatro vezes por mês. Digo que cada vez que vou e volto é como um troféu, ou seja, recebo quatro troféus por mês. As histórias de alguns motoristas beiram o l surrealismo. Irandir de Souza atualmente é gerente regional da Transbrasil para Brasília/Goiás, mas em momentos de pico volta a dirigir. Como em dezembro passado, quando viveu sua experiência mais marcante: Voltando de Porto Velho, perto de Vilhena, parei o ônibus onde todos comeram. Eram 46 passageiros. De repente, todos começam a passar mal, com disenteria. Eu ainda estava bem, parei em uma farmácia, comprei remédio para todo mundo, mas não adiantou. O banheiro do ônibus não dava vazão. Daí, toda hora, eu parava o ônibus na estrada e organizava o sistema: homens de um lado, no mato, mulheres no outro. Então, até eu comecei a passar mal. Perto de Rondonópolis (MT), numa dessas paradas, um passageiro se afastou muito para fazer suas necessidades e acabou sendo picado na perna por uma jararacuçu. A sorte é que matamos a cobra e corremos para o hospital, carregando o bicho. O médico disse que, se demorássemos mais 30 minutos e não tivéssemos levado a cobra para dar o soro certo, ele morreria. O passageiro levou 30 dias para se recuperar conta, se emocionando com a lembrança. Muitos têm histórias de parto. Já ajudei a fazer um parto no ônibus, mas já faz muito tempo, o caboclo deve estar mais velho do que eu brinca, com o forte sotaque goiano, Francisco Pereira Leme, de 50 anos. Ana Cláudia Pinto Costa, estudante acreana de 22 anos, saiu pela primeira vez de seu estado de avião para João Pessoa, onde foi levar alguns documentos para familiares, que queriam pagar a volta de avião. Contudo, ela pediu para retornar de ônibus até Rio Branco para conhecer o Brasil. Além de ficar encantada com as paisagens da Bahia, ela se surpreendeu com os motoristas: Todos os motoristas foram muito simpáticos, educados. Eles não apenas dirigiam os ônibus, eles pensavam no nosso conforto. () ÔNIBUS ATRAVESSA o Rio Madeira, em Rondônia, de balsa: motoristas resolvem as emergências três meses de antecedência, a passagem aérea sai a R$ 844,47. Mas poucos se organizam, e o preço da passagem comprada com antecedência de uma a três semanas fica entre R$ 1.369,47 e R$ 1.624,47 diferença de até 61,3% para o ônibus, ou o equivalente a um salário mínimo. Avião é melhor, porque é mais rápido, mas nunca acho o preço baixo que anunciam afirmou Manoel dos Santos Matos, de Cruzeiro do Sul, que se mudou para Rio Branco, a 700 km de distância, pois precisa fazer hemodiálise e não conta com esse serviço em sua cidade natal. Mas não é apenas o preço da passagem que conta. Isabela Melo dos Santos viajou com seu filho Bryan de São Paulo para Salvador de avião para visitar parentes. Na volta, optou pelo ônibus por causa dos custos altos dos serviços no avião: Estou voltando com muita bagagem, feijão, som. Cada quilo extra no avião sai por R$ 13.n

4 hdomingo, 27 de maio de 2012 O GLOBO ECONOMIA 35 País também fica atrás de outros emergentes Investimento em transportes foi de 10% do volume da China. Por ter grandes dimensões, prioridade deveria ser de ferrovias, dizem analistas l O Brasil investe pouco e mal em infraestrutura. O volume destinado pelo país ao setor chega a ser de 10% do registrado em outros emergentes. Segundo o mais recente estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Rússia direcionou o equivalente a 1,4% de seu Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) a obras em rodovias, ferrovias e linhas aquaviárias em 2010, enquanto o Brasil investiu apenas 0,4% do PIB, de acordo com cálculos da Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Já em relação à China a diferença é ainda maior: o país asiático usou o equivalente a 4% de seu PIB em melhoria da infraestrutura. E, no Brasil, a maior parte foi para a malha rodoviária, o que indica que o modal vai continuar à frente de ferrovias e hidrovias nos planos do governo. O Brasil diverge em relação a países de grandes dimensões como Estados Unidos, Rússia, China e Canadá, que têm uma grande oferta ferroviária e aquaviária, incluindo o transporte marítimo afirma Bruno Batista, diretor executivo da CNT. Ele explica que o caso brasileiro se aproxima dos países europeus, cujos territórios são muito menores. É uma distorção. A oferta é preponderante de infraestrutura rodoviária, que ainda é pior do ponto de vista do meio ambiente. Polui Obras para Copa podem atrasar nos aeroportos Anac adia assinatura de contratos e preocupa empresas l BRASÍLIA. O adiamento, por 15 dias, da assinatura dos contratos de concessão dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Viracopos poderá atrasar as obras da Copa nesses terminais. Segundo fontes ligadas aos concessionários que ficaram frustrados com a decisão da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) na sexta-feira o prazo está cada vez mais apertado para a entrega das obras. A preocupação tem fundamento, pois a conclusão das melhorias já estava prevista, antes do adiamento, para maio e junho de 2014, às vésperas da Copa. O prazo está espremido. Os 15 dias que a Anac deu representam 4% do tempo previsto para a entrega das obras disse uma fonte. Ao adiar o cronograma, a Anac alegou falta de documentação. Mas, segundo interlocutores, há entraves jurídicos em relação à entrada da Infraero nas sociedades de propósito específico (SPEs) que vão assumir os aeroportos. Com participação de 49% nas SPEs que vão assumir Guarulhos, Brasília e Viracopos, a Infraero terá de aportar inicialmente R$ 60 milhões nas três empresas, a título de capital. E novos desembolsos terão de ser feitos à medida que o cronograma de investimentos for executado. Segundo fontes dos consórcios vencedores, qualquer adiamento terá impacto no Plano de Transição Operacional. A previsão é que esse documento seja entregue à Anac dez dias após a assinatura do contrato. E há mais um mês para ajustes. O plano trata, entre outros, de funcionários a serem absorvidos e de contratos de aluguel comercial. Nos primeiros três meses, a Infraero continuará prestando o serviço, mas o gestor privado estará dentro dos aeroportos e poderá focar nas obras, disse um interlocutor. (Geralda Doca)n INFRAESTRUTURA EM BAIXA Quanto países ricos e grandes emergentes destinaram a investimentos no setor em % do PIB (Dados de 2010) Estados Unidos China 4 Japão 1,7 Austrália Rússia Canadá Espanha Turquia Índia Portugal França Reino Unido Alemanha Itália México BRASIL 0,4 Média dos paísess da OCDE*** 0,96% Qualidade no Brasil e no mundo mais acrescenta Batista. A saga rodoviarista do Brasil começou na década de 50, quando o país descartou a estrutura ferroviária montada para escoar a produção de café para os portos e que fazia conjuntamente transporte de passageiros. Isso porque começava a se desenvolver no país a indústria automotiva. O 0,9 0,8 0,7 0,7 0,7 0,6 O Relatório de Competitividade Global, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, mostra o Brasil em péssimas colocações no ranking mundial de infraestrutura. Confira ao lado os primeiros colocados, a posição do Brasil e o último lugar em cada categoria 1,5 1,4 1,4 1,4 1,3 1,2* 1,1 ESTRADAS França Cingapura Suíça Omã Portugal BRASIL Moldávia grande problema, afirmam os especialistas, é que a política foi excludente, enquanto poderia ocorrer em paralelo. Em muitos casos, o governo usou caminhos abertos pelas ferrovias para construir, por cima, rodovias. Um caso parecido é o da Turquia, que também adotou um modelo rodoviarista, mas, em vez de inutilizar as l Quatro anos após o prazo oficial, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) promete licitar todo o serviço de ônibus interestadual do Brasil. O objetivo é que em 2013 todas as rotas sejam operadas pelas novas empresas vencedoras. O governo quer aumentar a concorrência, melhorar a qualidade e o nível de segurança, além de estimar uma queda nos preços em até 7%. Por outro lado, representantes das empresas, que empregam 70 mil pessoas e faturaram R$ 4 bilhões em 2011, esperam pequenas mudanças nas regras já divulgadas e lutam para ter isenção do ICMS repetindo o que já existe no setor aéreo, o que reduziria seus custos em 15%. O objetivo do governo é acabar com as linhas sob liminares, difíceis de serem fiscalizadas, que geram problemas e acidentes. Além disso, o governo quer impor mecanismos que impeçam veículos antigos de circular e favoreçam as fiscalização para impedir que motoristas ultrapassem sua carga horária, as principais causas dos acidentes que, em 2011, mataram ao menos 197 pessoas em ônibus em viagens de longa distância nas estradas brasileiras o equivalente ao número de mortes de um acidente aéreo de grandes proporções. Sonia Haddad, superintendente de Serviços de Transporte de Passageiros da ANTT, informou que o órgão publicará nos próximos dias o Plano de Outorga dessas concessões, o que permitirá os leilões em outubro. Na semana passada, o documento foi aprovado e segue para o Tribunal de Contas da União: Fizemos uma série de estudos, alguns inéditos, para entender melhor o setor. Não licitaremos mais linhas, mas sim lotes de serviços, ou seja, vamos ter mais competição e um serviço com regras para flexibilidade, ou seja, vencedores da ligação entre determinados estados poderão, na alta temporada, criar novas linhas específicas explica a superintendente. Ela conta que esse problema se arrasta desde a Constituição de 1988, que determinou licitações para o serviço. Mas não havia regras para as empresas que já estavam atuando. Em 1993, foi decidido que as atuais empresas tinham mais 15 anos de direito de exploração das linhas. O prazo venceu em 2008, mas só agora sairão as licitações: Esperamos que em 2013 todas as novas empresas estejam operando afirmou Sonia, lembrando que o leilão deverá acabar com as linhas que existem por liminar, uma anomalia, segundo ela, criada pela falta de regras que existiu até agora, o que permitia que juízes autorizassem linhas pelo país. Ela lembra que com a licitação os ônibus terão, no máximo, dez anos de idade, com frota média de cinco anos. Além disso, mais cidades serão atendidas e todos os ônibus terão de ser equipados com sistema de GPS que *Dados de 2009 **Cálculo da Confederação Nacional dos Transportes ***Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que reúne 34 países (Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, República Tcheca, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Japão, Coreia do Sul, Luxemburgo, México, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Portugal, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos) FERROVIAS permitirá um controle remoto de todas as viagens do país. Renan Chieppe, presidente da Associação Brasileiras de Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), afirma que o setor passa, no momento, por um período de grande insegurança jurídica, com a mudança do marco regulatório e das discussões sobre os editais e as novas licitações que estão por vir. Para ele, o governo precisa pensar na qualidade do sistema, não apenas nos custos: Atualmente, as empresas operam estas linhas com 12 mil linhas de trem, construiu as estradas ao lado dos trilhos. Agora, está recuperando a malha para voltar a usá-la. Hoje existe desalinhamento de foco. Fala-se muito em aeroporto. Esse excesso mostra uma visão de curto prazo, de Copa e Jogos Olímpicos, mas isso não interessa aos brasileiros afirma Paulo Tarso Vilela de Resende, coordenador do Núcleo CCR de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral. O economista Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios e diretor do International Growth Center, instituto da London School of Economics e da Universidade de Oxford, resume: O Brasil investe pouco e investe mal. No ano passado, 222 mortes em estradas e rios Frischtak lembra ainda que o investimento é pequeno, não apenas na comparação com outros países, mas com o nosso passado. Investe-se hoje em infraestrutura menos do que na década de 80 do século passado, já após o período do milagre econômico: Isso não afeta apenas a nossa competitividade, afeta o bem-estar das pessoas. O número de acidentes é alto. No Brasil, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), foram 197 mortos em acidentes em linhas de longa distância no Brasil em No transporte fluvial, que é restrito à Amazônia, foram 25 mortos. Somando os dois, corresponde a um morto a cada 40 horas. O Brasil tem que ter dinheiro para grandes projetos. Quem quer ser líder mundial tem que ter infraestrutura. Se não investir, vai sempre estar atrás da demanda. Quanto mais melhorarem as condições econômicas da população, maior a demanda por transporte. E, mesmo com todos os investimentos previstos nos aeroportos, já dá para saber que não vai ser possível fazer frente a esse aumento nos próximos anos conclui Hostílio Xavier Ratton Neto, professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ.n Depoimentos dos repórteres sobre a série foram publicados no vespertino para tablet O GLOBO A MAIS Com atraso, governo promete licitar ônibus Objetivo é aumentar concorrência, diminuir irregularidades e reduzir as estatísticas de acidentes Domingos Peixoto ÔNIBUS DESVIA de crateras na BR-364, no trecho entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre. Só em 2011, foram 197 mortes nas estradas do país DADOS DO SETOR O setor de ônibus interestadual percorreu, em 2007, 1,4 bilhão de quilômetros, ou o equivalente a viagens de ida e volta entre a Terra e a Lua ou cinco destas viagens por dia Linhas Frota Suíça Japão Hong Kong França Alemanha BRASIL Suriname Motoristas Funcionários Faturamento anual do setor PROPORÇÃO DE MORTES É MAIOR NOS SETORES QUE NÃO SÃO PRIORITÁRIOS (No Brasil, em 2011) Ônibus** Avião Barco Trem NÚMERO DE PASSAGEIROS* 131,8 milhões 89,9 milhões 12 milhões 2,1 milhões MORTES EM ACIDENTES *Apenas em linhas de longa distância. No caso do trem, estão incluídas as linhas turísticas ** O número pode estar subestimado, por levar em conta apenas a notificação realizada pelas empresas de média e longa distância, e não os dados da Polícia Rodoviária Federal, que não classifica os acidentes de acordo com o tipo de serviço de ônibus (urbano ou longa distância) PORTOS Cingapura Holanda Hong Kong Bélgica Panamá BRASIL Quirguistão Editoria de Arte Fontes: OCDE, ANTT, Antaq, Marinha, CNT e empresas Editoria de Arte São realizadas, em média, viagens por dia de segunda a sexta, e viagens por dia aos sábados e domingos operadas por 259 empresas ônibus cadastrados (pode haver um mesmo motorista cadastrado em mais de uma empresa) Cerca de 70 mil Cerca de R$ 4 bilhões 0 Fonte: concessionárias ônibus. O governo quer que o serviço seja feito com 6,6 mil. Nós pensamos que há o período de grande demanda, como as festas de fim de ano, e defendemos que sejam 10 mil ônibus. Afinal, o setor não é como os aviões, que quando lotam deixam os clientes na mão, nós sempre atendemos os passageiros disse Chieppe, lembrando que o setor tem investido e que há diversas linhas que contam com novidades como tomadas para recarregar equipamentos eletrônicos e Wi-Fi. Paulo Tarso Vilela de Resende, pesquisador da Fundação Dom Cabral, afirma que as empresas de ônibus têm que fazer um mapeamento sobre o que é valor para alguém que anda de ônibus. As empresas do setor têm preocupação maior com custo e precisam, em sua opinião, se preocupar com a qualidade dos serviços. (Henrique Gomes Batista e )n AMANHÃ: Transporte fluvial é o único que não tem regulação no país

5 oglobo.com.br IRINEU MARINHO ( ) RIO DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA, 28 DE MAIO DE 2012 ANO LXXXVII N O ROBERTO MARINHO ( ) esportes Botafogo festeja a liderança Alvinegro vence Coritiba por 3 a 2 e supera Vasco no saldo de gols. Flu tropeça no Engenhão l O Botafogo manteve a liderança do Brasileiro ao vencer o Coritiba, fora de casa e de virada, por 3 a 2. O alvinegro supera no saldo de gols Vasco e Atlético-MG, que também somam seis pontos. Lucas (2) e Vitor Júnior marcaram para o time carioca. No Engenhão, o Fluminense tropeçou ao empatar com o Figueirense por 2 a 2. O tricolor, sexto colocado, com quatro pontos, teve o lateral Wallace expulso no fim do primeiro tempo. Por causa dos amistosos da seleção brasileira, o campeonato voltará a ser disputado em 6 de junho. Na Fórmula-1, um feito histórico: em 6 corridas, 6 diferentes vencedores O GLOBO Heuler Andrey/Agif DIA DE SORTE: Lucas recebe o abraço de Elkeson na comemoração do 3, gol do Botafogo O Brasil que viaja de barco Márcia Foletto Eleição de 2012 criará vagas de vereador Legislativo municipal aumentará em cidades; número pode crescer l As eleições municipais deste ano vão abrir novas vagas de vereadores, inchando ainda mais a estrutura das câmaras municipais de municípios. O total de cadeiras nos legislativos municipais chega hoje a O crescimento será de 7,1%. Em balanço inédito, a Confederação Nacional dos Municípios mostra que o número de legisladores pode crescer ainda mais porque as cidades têm até 30 de junho para aprovar novas leis que regulamentam a criação de vagas. A pesquisa não aponta o impacto financeiro, mas a expectativa é que o desembolso será milionário. No Estado do Rio, Teresópolis, que ainda não superou a tragédia das chuvas de 2011, passará de 9 para 21 vereadores. Especialistas dizem que a lei, que estipula o crescimento de vagas por número de habitantes, deve ser reavaliada. Página 3 Comissão dificulta a soltura de presos Reforma do Código Penal deve obrigar condenados a penas longas a cumprir mais tempo na cadeia l Um barco leva passageiros, acomodados em redes, de Manaus a Belém pelo Rio Amazonas, um trajeto de quilômetros percorrido em cinco dias, como mostra o segundo dia da série O Brasil que não viaja de avião. Apesar de 12 milhões de pessoas terem usado o transporte fluvial na Amazônia em 2011, o serviço é o único não regulamentado no país. Com isso, não há metas de atendimento ou controle de tarifas. Páginas 19 e 20 CPI vota amanhã quebra de sigilo da Delta Oposição quer interpelar Lula sobre diálogo com Gilmar Mendes, ministro do STF l A CPI que investiga o escândalo Cachoeira vota amanhã requerimento de quebra de sigilo da matriz da Delta Construções, empreiteira investigada por corrupção. Parlamentares querem acesso à movimentação financeira para comprovar propinas. A CPI também decidirá se convoca os governadores Marconi Perillo, Agnello Queiroz e Sérgio Cabral. PSDB e DEM estudam medidas para cobrar explicações de Lula, que teria pressionado o ministro Gilmar Mendes, do STF, para adiar o julgamento do mensalão. JORGE BASTOS MORENO revela detalhes do encontro. Páginas 9 e 10 e Coluna do Noblat CHICO ENTREOUVIDO EM BRASÍLIA Sigam-me os que forem mensaleiros! l A comissão de juristas que trabalha na reforma do Código Penal aprovou duas propostas que devem obrigar o cumprimento de pelo menos 30 anos de prisão para os criminosos condenados a longas penas, por crimes como chacinas e outros que tenham várias vítimas. O anteprojeto será apresentado ao LOTERIAS MEGA-SENA l l 08 l 12 l 28 l 33 l 43 (Acumulado) QUINA l l 36 l 44 l 53 l 61 (2 acertadores) LOTOMANIA l l 19 l 24 l 26 l 36 l 37 l 43 l 48 l 55 l l 69 l 72 l 74 l 80 l 81 l 87 l 92 l 05 l 00 (1 acertador) Página 9 Congresso em junho. Se aprovada a decisão da comissão, as penas serão fixadas de acordo com o número total de vítimas, e benefícios como progressão de regime serão calculados sobre o total da pena, e não sobre o tempo máximo que, por lei, um condenado pode permanecer preso hoje. Página 5 EDUCAÇÃO Em 104 escolas do Rio, mais da metade repete l Levantamento feito pelo GLOBO com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que 104 das 283 escolas estaduais na cidade do Rio 37% delas não conseguiram aprovar, no ano passado, nem a metade dos alunos do ensino médio. A maior parte dessas unidades com alto índice de fracasso escolar funciona precariamente à noite, não tem prédio próprio nem merenda para os alunos, que geralmente trabalham o dia todo. Página 4 DIGITAL & MÍDIA l O mercado publicitário cresceu 8% em 2011, três vezes mais que o PIB, movimentando R$ 39 bilhões. Página 24 SEGUNDO CADERNO Amour, de Michael Haneke, ganha a Palma de Ouro em Cannes. Na estrada, de Walter Salles, sai sem prêmios. Edição de Brasília Preço deste exemplar no Distrito Federal R$ 3,00 Circulam com esta edição: Segundo Caderno e caderno Esportes: 44 páginas

6 hsegunda-feira, 28 de maio de OGLOBO ECONOMIA Passageiros à deriva nos rios Transporte fluvial, utilizado por 12 milhões de pessoas, é o único sem regulação no Brasil Enviada especial MANAUS e BELÉM chego, é só amor, né?. Assim Roberto Martins resume sua vida, a maior parte Quando passada sobre o Rio Amazonas. O auxiliar de convés de 31 anos trabalha há quatro anos no barco Amazon Star, que faz o trajeto regular Manaus-Belém: quilômetros em inacreditáveis cinco dias. Na volta, é ainda pior seis dias, porque a correnteza joga contra, mais dois dias parado no porto. Ou seja, a cada 12 dias, Roberto passa três noites em casa, na capital paraense. No barco, já viu de tudo. Afinal, pelo menos 30 mil pessoas viajam por ano na embarcação, que tem capacidade para 750 passageiros. Mas, até hoje, o que mais o impressiona é a romaria de trabalhadores que vão tentar a vida na capital amazonense: A maioria vem do Maranhão. Vai pra Manaus, fica na rua, cai nas drogas e volta com a roupa do corpo. Consegue que alguém pague a passagem. Só de olhar a gente já sabe. Na Amazônia, os rios são as estradas. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), eles serviram de caminho a 12 milhões de pessoas em 2011, em embarcações de 132 empresas, fora as milhares que trafegam à margem da fiscalização. No entanto, apesar do grande alcance, praticamente não há dados disponíveis sobre o modal, o que, para especialistas, é um retrato do descaso com que é visto pelo governo. Não há concessão de linhas, como acontece em ônibus, trem e avião. O governo apenas autoriza as empresas a operarem determinado trajeto e são elas próprias que decidem os locais de parada e com que regularidade vão operar. Não há, portanto, metas de atendimento ou controle de tarifas. É o único transporte público sem regulação no Brasil diz Floriano Pires, professor de Engenharia Oceânica da Coppe/UFRJ. A viagem do GLOBO no Amazon Star começou na quarta-feira, dia 16 de maio, com atraso: prevista para as 16h, a saída de Manaus aconteceu às 17h, com 145 passageiros a bordo, dos quais, 50 fariam o trajeto ponta a ponta. No total, ao longo das paradas, 500 pessoas passaram pelo barco. Entre os passageiros, muitos iam visitar parentes ou voltavam para casa e optaram pelo barco por ser mais barato. A passagem no salão das redes, espécie de alojamento com cerca de 300 metros quadrados e espaço para 300 pessoas, sai por R$ 150 na baixa temporada, sem limite de bagagem. De avião, a viagem leva duas horas e custa de R$ 300 a R$ 1.200, dependendo da data, com máximo de bagagem de 20 quilos. Na alta temporada, em junho, a passagem nas redes custa o dobro: R$ 326. Mas havia também os que escolheram a longa viagem por turismo, para ver de perto o maior rio do mundo, ou simplesmente por medo de avião. Vim refrescar a cabeça, avião é pra quem tem pressa diz o operador de guindaste Luciano Barros, de 32 anos, que ia com a mulher e a sogra para Belém, onde pegaria um ônibus para o Maranhão. Na primeira vez que andei de avião, fiquei com as mãos e os pés tremendo. Banheiros sujos e calor irritam usuário l Histórias não faltam. Como a de dona Ana Santana da Silva, de 69 anos, cearense que pagou R$ 100 para voltar de rede de Parintins, onde visitou uma filha Tive 17 filhos, mas só criei dez, os outros morreram ainda bebês, para Belém. De lá, pegaria um ônibus para o Maranhão. O alagoano Roberto, de 34 anos, que não quis ser fotografado nem revelar seu sobrenome, voltava de um garimpo na selva venezuelana e levava, amarrado à cintura, uma bolsa com o ouro e o dinheiro que conseguiu guardar. Por isso, não quis ir de avião. Ele conta que dormiu seis meses em uma cabana de madeira. O baque veio quando a febre começou: Fui internado no hospital da Cruz Vermelha e o exame deu que eu estava com malária e dengue hemorrágica ao mesmo tempo. Aí falei pra mim mesmo: Vou embora, vou morrer no Brasil recorda ele, que ainda tomava os remédios durante a viagem. Já a paraense Marilu Cunha, 49 anos, cantora de bolero com dez CDs Fotos de Márcia Foletto CRIANÇAS BRINCAM espremidas em meio ao emaranhado de redes no Amazon Star: ar-condicionado parou de funcionar várias vezes durante a viagem para Belém Rio Negro AMAZONAS MANAUS Rio Madeira Rio Amazonas Parintins MARILU CUNHA pagou R$ 1 mil pela única suíte com cama de casal PARÁ Juruti Rio Tapajós Óbidos Monte Alegre Santarém Prainha Rio Amazonas Almeirim POLICIAIS VASCULHAM o barco em busca de armas e drogas Rio Xingu Gurupá Breves Rio Tocantins Ilha de Marajó BELÉM gravados, pagou caro pelo seu pânico de avião: R$ 1 mil para viajar na única suíte do barco que tem cama de casal e cerca de 25 metros quadrados, e mais R$ 1 mil para levar seu carro. Sua maior reclamação era da comida: O almoço é precário. Banheiros imundos, ar-condicionado que não funcionava regularmente o calor nas redes muitas vezes era infernal, barulho durante toda a madrugada. Nas conversas, as queixas são recorrentes. O medo de furtos de bagagem (as malas ficam amontoadas embaixo da rede do dono) é geral. Mas o clima pesou mesmo na terceira parada, em Óbidos (PA), onde uma operação da Força Nacional e da Polícia Federal revirou o barco em busca de drogas, armas, tráfico de pessoas, de animais e biopirataria. Encontraram um carro roubado no andar de carga, levado por um rapaz que dizia ter 16 anos mas não tinha documentos, além de seis caixas de mercadorias sem nota fiscal. Foi provavelmente o único momento de silêncio dos cinco dias. Entre os passageiros, o que mais se comentava era o momento em que o barco sai do Amazonas e entra no chamado estreito de Breves, conjunto de pequenos rios e ilhas que dá acesso à cidade de mesmo nome, no Pará. Quando avistam o barco, dezenas de ribeirinhos remam em suas canoas a toda velocidade para se aproximar e pedir roupas e dinheiro. Muitos já vão preparados e, num ritmo frenético, jogam as doações em sacolas. Depois, vêm os que vendem frutas. A cena é impressionante: com o barco em movimento, conseguem amarrar a canoa e subir a bordo. Cinco dias e quatro noites depois, o cansaço é visível na chegada. É muito demorado... Acho que consigo passagem baratinha pra voltar de avião, é só ficar olhando no computador sonhava Francisco Brito da Silva, 55 anos, que levava 50 quilos de bagagem e de Belém iria de ônibus até Juazeiro do Norte (CE) ver a família.n ATRASOS E SUPERLOTAÇÃO SÃO FREQUENTES, na página 20

7 20 ECONOMIA O GLOBO Segunda-feira, 28 de maio de 2012 Atrasos e superlotação são problemas frequentes Informalidade abre espaço para irregularidades, dizem especialistas. Só este ano, já foram registrados 48 acidentes e 12 mortes Enviada especial l MANAUS, PARINTINS (AM), BRE- VES (PA) E BELÉM. Atrasos, superlotação, falta de higiene, conforto e segurança. Estes são os principais problemas do transporte fluvial de passageiros na Amazônia apontados por especialistas. Segundo Floriano Pires, professor de Engenharia Oceânica da Coppe/ UFRJ, as peculiaridades da região, com a predominância da população de baixa renda, aliadas à falta de regulamentação e fiscalização eficiente das atividades das empresas, facilitam as irregularidades. Em 2011, foram registrados 94 acidentes, com 25 mortes e oito feridos, segundo a Marinha. Este ano, já houve 48 acidentes, com 12 mortos. O serviço não é padronizado afirma. A informalidade do setor começa já na venda de passagens. Não há venda pela internet ou em balcões organizados. Vendedores abordam quem passa pelo porto oferecendo os barcos. Em Manaus, o vendedor de pedras semipreciosas Élson Pereira Lima comprou a passagem de um vendedor avulso no porto, quando o barco Amazon Star ainda estava afastado do cais. Pagou R$ 80 por ser deficiente físico e acabou caindo na mão dos chamados catraieiros, donos de pequenas embarcações que se oferecem para levar os passageiros até o barco. Combinaram que o táxi custaria R$ 5. Na hora em que se aproximaram do barco, exigiram mais dinheiro: Ameaçaram me jogar do bote se não pagasse mais R$ 15. Acabei dando mais R$ 5 conta ele, que fez a viagem para conhecer o Rio Amazonas e chorou de emoção quando os ribeirinhos se aproximaram do barco, no estreito de Breves. A desorganização da área das redes também preocupou Élson durante a viagem, por levar na bagagem seu laptop. Quase não saía do salão. Quando saía, voltava rapidamente. Meu maior medo é roubarem minhas coisas. Na grande maioria das embarcações da região, há três divisões básicas: a área das redes, TRABALHADORES RETIRAM e levam carga para o barco em cidade paraense: sem metas de atendimento, empresas fazem longas paradas e tempo de espera irrita passageiros os camarotes, como são conhecidas as cabines, e os compartimentos de carga. Os quartos medem cerca de 2 metros quadrados, com uma beliche, ar-condicionado e, em alguns casos, frigobar. Mas, com a bagagem do passageiro, o local fica intransitável para duas pessoas ao mesmo tempo. Das torneiras, a água que sai é a do Rio Amazonas, ou seja, barrenta, principal problema na opinião da piauiense Claudiana Silva Santos, de 32 anos. Durante a viagem, a representante comercial lavou o rosto e escovou os dentes com água mineral. Ela também queria conhecer o Rio Amazonas e pagou R$ 250 pelo camarote sem banheiro. Apesar da falta de estrutura, valeu a pena fazer a viagem diz ela, que, com Ligiane Oliveira, amiga que fez no barco, passou a última noite praticamente em claro, à espera da temida entrada na Baía do Guajará, já quase em Belém, onde a força da entrada das águas do oceano torna a água do rio salobra e revolta. Como a chegada no local aconteceu às 3h, muita gente deixou de dormir. Passageiros viajam misturados à carga As redes são levadas pelos próprios passageiros. Há a opção de pendurá-las no salão com ar-condicionado, que é mais caro e chamado de rede de primeira classe, e no andar sem ar, as redes de segunda classe. A frota está envelhecendo e os barcos de madeira produzidos artesanalmente são um grande risco alerta Roberto Pacha, coordenador do curso de Engenharia Naval da Universidade Federal do Pará (UFPA). Não queremos inverter a vocação da Amazônia, que tem nos rios estradas de alta capacidade e baixo custo. As rodovias são poucas e precárias, só funcionam na época sem chuvas. Mas é preciso aumentar o controle. Estimamos que existam 300 mil pequenas embarcações piratas atuando no transporte de passageiros acrescenta. Paulo Tarso Vilela de Resende, coordenador do Núcleo CCR de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, alerta para o risco de, em muitos casos, o passageiro ir misturado à carga: É comum o transporte de carga inflamável, como gás, combustível e querosene. Qual é a política nacional que temos de transporte em rios? Zero. Bruno Batista, diretor-executivo da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), lembra que a falta de estatísticas dificulta a elaboração de políticas públicas para o setor. Sem saber a realidade, é difícil elaborar um plano que contemple a formalização deste transporte comenta. Fotos de Márcia Foletto Antaq diz estar elaborando metas de qualidade Durante a viagem do GLOBO no Amazon Star, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) fez uma blitz surpresa no porto de Parintins. Descobriram vários salva-vidas incompletos e receberam muitas reclamações dos passageiros das redes. O gerente Edinelson Campos foi chamado e atendeu às determinações: aumentou a frequência de limpeza dos banheiros e se comprometeu a regularizar os salva-vidas. Mas o ar-condicionado continuou falhando. Segundo ele, o motor do barco não suportava os quatro aparelhos ligados na área das redes ao mesmo tempo. Para a fiscalização, a Antaq tem um efetivo de 110 fiscais apenas, número que admite ser insuficiente. A agência diz que pediu autorização para abrir concurso e que está treinando seus funcionários para melhorar sua atuação. Segundo a agência, até o fim deste mês devem ser decididos os requisitos para as metas de qualidade de atendimento. Sobre as bagagens na área das redes, a agência diz que a Marinha determina que deverá existir a bordo um compartimento, com dimensões apropriadas e com possibilidade de trancamento, para a guarda de bagagens e volumes de passageiros. Mas a norma é sistematicamente descumprida na Amazônia.n Escalpelamentos, um drama na Amazônia Acidente com peça exposta do motor em barcos já mutilou pessoas na região CORPO A CORPO CLÁUDIO FRISCHTAK O Brasil é um gigante manco REGINA FORMIGOSA, com o marido e a filha, em sua casa em Belém: Nunca mais vou ser a mesma l BELÉM. O alto índice de informalidade no transporte fluvial esconde um drama ainda desconhecido por muitos brasileiros: os escalpelamentos na Amazônia. Os acidentes acontecem nos barcos menores, de até 15 passageiros, que deixam o eixo do motor descoberto. Segundo a Santa Casa do Pará, desde a década de 70, foram cerca de vítimas, a grande maioria mulheres e crianças de 10 a 14 anos na Região Norte. Mas, hoje, o problema está concentrado no Pará: no ano passado, foram seis casos, enquanto este ano, até a semana passada, já há dez registrados. O acidente acontece durante a viagem, com a peça do motor em movimento exposta no local onde ficam os passageiros. O cabelo da vítima enrosca no eixo, que continua girando. A força do motor faz com que o couro cabeludo e, muitas vezes, também orelhas, sobrancelhas e parte da pele da nuca seja arrancado. Quando não leva à morte, causa graves deformações e, para o resto da vida, dolorosas. Regina Formigosa, de 39 anos, sofreu o acidente há 17, quando morava na Ilha de Marajó. Teve o couro cabeludo e a pele da testa até as sobrancelhas arrancados. O barco levou cinco horas para chegar ao hospital, onde, em cinco meses, passou por quatro cirurgias para enxertos de pele. Como o cabelo não volta a crescer (a pele enxertada é retirada da coxa), usava chapéus e lenços. Entrou em depressão: É difícil sair de casa. As pesoas têm muito preconceito. O encontro com Mário, seu atual marido, um ano depois do acidente, foi fundamental para sua recuperação. Hoje, mora em Belém, tem uma filha de 5 anos, Maria, e ajuda outras vítimas na ONG dos Ribeirinhos Vítimas de Acidente de Motor (Orvam). Na sede da entidade, fabricam perucas para uso próprio com doações de cabelo que recebem de todo o país. Para ajudar nas despesas da ONG, parte é vendida. Estar com pessoas que sofreram o problema é importante, uma ajuda a outra. Nunca mais vou ser a mesma. Não consigo ficar no sol, por exemplo, sinto dores de cabeça. E o pior é que, se você for à minha comunidade hoje, vai ver vários barcos sem proteção diz Regina. A cobertura é distribuída gratuitamente pela Marinha, mas a criadora da ONG, a assistente social Maria Cristina Santos, diz que as ações de prevenção são insuficientes. A Marinha, porém, afirma que são sistemáticas e intensas e que há casos em que os donos ganham o protetor, mas retiram para resfriar o eixo. Estes podem ter o barco apreendido. Como depois do acidente as vítimas têm dificuldades para trabalhar, a Defensoria Pública da União no Pará e o Ministério do Desenvolvimento Social para implementar um benefício assistencial de prestação continuada. No Amapá, após campanhas maciças, desde 2011 não há casos, segundo a coordenadora da Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vítimas de Escalpelamentos da Amazônia, Rosinete Serrão, de 35 anos, que sofreu o acidente há 20. A ONG tem 117 associados, sendo 110 mulheres. (Liane Thedim, enviada especial)n O BRASIL QUE NÃO VIAJA DE AVIÃO: Ontem: NA SEGUN- DA CLASSE, 150 MILHÕES, Amanhã: TREM PRATICAMEN- TE INEXISTE NO BRASIL l O economista Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, diz que o Brasil vive uma distorção entre os tipos de transporte que diminui o bem-estar da população. lcomo o senhor vê os investimentos em transporte? CLÁUDIO FRISCHTAK: Investimos pouco não só em relação a outros países, mas em relação ao nosso próprio passado. Investimos menos que na década de 80. Além disso, os recursos geram menos resultados aqui, ou seja, por causa de problemas de planejamento, de desvios, os escassos recursos não geram o resultado esperado. l Qual é o impacto disso? FRISCHTAK: Estamos pior que os países ricos, asiáticos, em desenvolvimento com renda mediana e até que os demais latino-americanos. E essa situação não gera apenas elevação de custos, mas afeta o bem-estar da população. Em termos de qualidade de transporte, a discrepância com os outros países não é grande, é muito grande. l O que o senhor acha da atenção que governo tem dado para o setor aéreo, por causa de Copa e Olimpíadas? FRISCHTAK: O governo tem que investir no setor aéreo, mas não pode descuidar dos outros. Temos um sério desequilíbrio entre modais, o Brasil é um gigante manco. O caos aéreo e estes investimentos urgentes no setor talvez sequer fossem tão necessários se o país investisse bem nos segmentos ferroviário, rodoviário e hidroviário. l As promessas de investimento podem resolver? FRISCHTAK: Nosso padrão de crescimento é desequilibrado. Temos que buscar o crescimento de alto nível, onde temos que buscar bens coletivos, que vão ampliar o bem estar da população com sustentabilidade. Não adianta apenas aumentar o volume, temos que repensar. E investimento em transporte é algo de longo prazo, se planejarmos errado pagaremos por isso por 40 anos. l O país está preparado para essa mudança de patamar nos investimentos? FRISCHTAK: O país ainda tem condições externas de aproveitar este momento. Mas é preciso vontade. Se o Brasil tivesse os mesmos recursos naturais da Coreia do Sul, tinha parado. Como o país é rico, mesmo com as dificuldades a nave continua se movendo. Mas temos que nos preparar para o futuro.

8 oglobo.com.br IRINEU MARINHO ( ) RIO DE JANEIRO, TERÇA-FEIRA, 29 DE MAIO DE 2012 ANO LXXXVII N O ROBERTO MARINHO ( ) Notáveis aprovam plantio de maconha O perigo que vem do outro lado da pista Fotos de Márcia Foletto l A comissão de juristas que discutem mudanças no Código Penal aprovou proposta que descriminaliza porte e plantio de drogas para uso pessoal. O consumo em locais públicos frequentados por crianças e adolescentes permanece como crime. A mudança será analisada na Câmara e no Senado. Outra proposta é criminalizar o bullying. Na área eleitoral, a comissão aumenta a pena para a compra de votos, mas propõe que a propaganda de boca de urna deixe de ser crime e vire infração. Página 13 No mesmo dia, Dilma libera e proíbe eucalipto RIO +20 l Medida Provisória editada ontem sobre o Código Florestal causou controvérsia ao permitir o plantio de árvores exóticas, inclusive eucaliptos e pinheiros, para recompor áreas degradadas o que contradiz a convenção da ONU sobre biodiversidade da qual o Brasil é signatário. Mas, às vésperas da Rio+20, o governo recuou: o uso de plantas exóticas ficará restrito a árvores frutíferas e a pequenas propriedades. Página 12 Tropas da Rio+20 nas ruas segunda l O esquema de segurança da Rio+20 poderá ser visto nas ruas na próxima segunda-feira. Serão 15 mil homens, 8 mil das Forças Armadas e 7 mil das polícias, além de 32 helicópteros militares. Haverá cinco centros de monitoramento e controle, sendo que só num deles, cibernético, foram investidos R$ 20 milhões em tecnologia contra ataques de hackers. Página 14 Árvores crescem menos e floresta perde a diversidade nas áreas remanescentes da Mata Atlântica nordestina. SEGUNDO CADERNO Moradores e visitantes tocam iniciativas culturais diversas no Complexo da Maré, mesmo sem a presença de uma UPP. l O Uno de um motorista de 31anos que morreu ao ser atingido pela roda que se soltou de um Kadett ano 90, quando os veículos cruzavam, de manhã, a Ponte Rio-Niterói, em sentidos contrários. O motorista do Kadett foi autuado por homicídio culposo. Ele tirara o carro da oficina há 5 dias. Página 19 Guerra de versões entre Lula e Gilmar desafia CPI e Supremo Ex-presidente nega pressão por mensalão; oposição pede que PGR investigue l Às vésperas do julgamento do mensalão e diante de uma CPI que apura o envolvimento de políticos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, uma guerra de versões entre o ex-presidente Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes acirrou ânimos entre governo e oposição. Pressionado pela OAB e por ministros do STF, Lula negou ter sugerido a Gilmar que adiasse o julgamento do mensalão: Meu sentimento é de indignação. Já Gilmar repetiu que, num encontro presenciado pelo ex-ministro Nelson Jobim, Lula lhe sugeriu que não seria conveniente julgar o caso num ano eleitoral. E deu a entender que, por controlar a CPI, poderia facilitar a vida do ministro caso a investigação chegasse a ele. A oposição protocolou requerimento na Procuradoria Geral da República para apurar se Lula incorreu em crimes de corrupção ativa, coação e tráfico de influência. Páginas 3 a 9 e Merval Pereira Nos trilhos do trem-tatu CHICO ENTREOUVIDO EM BRASÍLIA Ops! Foi mal... Domingos Peixoto l Dezenas de vendedores oferecem, por R$ 5, quentinhas com tatu e peixes da Amazônia aos passageiros do trem Parauapebas (PA)-São Luís (MA), a maior linha do país, como mostra o terceiro dia da série O Brasil que não viaja de avião. Página 25 CPI decidirá hoje sobre governadores l A CPI do Cachoeira deverá votar se convoca os governadores Marconi Perillo (PSDB- GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ). A tendência é que Perillo tenha de explicar a venda de uma casa, e Cabral, liberado de falar sobre a amizade com Fernando Cavendish, da Delta. Será votada a quebra de sigilo da empreiteira. O senador Demóstenes Torres falará no Conselho de Ética. Página 10 Polícia prende 19 da máfia do futebol italiano l Em novo escândalo de manipulação de resultados de futebol, a polícia da Itália prendeu 19 pessoas, entre elas dez jogadores, na operação batizada como Última Aposta. A polícia foi à concentração da seleção italiana, por causa do zagueiro Criscito, que acabou cortado. Caderno Esportes Irã admite ajuda militar a regime sírio l Um dos líderes da unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana admitiu pela primeira vez a ajuda militar do país ao regime do ditador sírio. Ontem, 40 pessoas morreram em mais um massacre na cidade de Hama. Página 28 Edição de Brasília Preço deste exemplar no Distrito Federal R$ 3,00 Circulam com esta edição: Segundo Caderno e caderno Esportes: 62 páginas

9 hterça-feira, 29 de maio de 2012 O GLOBO ECONOMIA 25 A PROFESSORA Maria dos Reis usa o trem pela segurança: ela prepara suas aulas de História no laptop durante a viagem GARÇONS ATENDEM passageiros da primeira classe, que custa o dobro da e econômica Sem trem-bala, Brasil vive com o trem-tatu Fast food regional marca a viagem na maior linha de passageiros, uma das duas únicas em operação no país Enviado especial l PARAUAPEBAS (PA) e SÃO LUÍS (MA). Para muitos, falar em viagem de trem gera nostalgia, a lembrança de um tempo em que os vagões eram sinônimos de charme, elegância e conforto. Para outros, o trem remete à modernidade, com os novíssimos trens-bala que cortam o Primeiro Mundo. Mas a maior linha férrea de passageiros do país está longe destes dois padrões. O serviço de 892 quilômetros, que conduz cerca de mil pessoas por dia entre o Maranhão e o Pará, é popular. Popular, porém eficiente e, diferentemente dos trens de outrora e das novidades de alta velocidade, com a cara do Brasil. Afinal, em que outro local se pode comer um fast food de tatu por R$ 5? No terceiro dia da série O Brasil que não viaja de avião, O GLOBO embarcou no trem operado pela Vale desde 1985, onde a maior parte dos passageiros prefere as bandecas, como são conhecidos os PFs e as quentinhas na região. Sobretudo as pessoas que vão na classe econômica o trem tem duas categorias de serviço, primeira e segunda classes. Isso porque o serviço das bandequeiras é mais barato que a refeição no vagãolanchonete, onde um prato não sai por menos de R$ 8. E as bandecas têm o sabor do Meio Norte: muitas são de peixe amazônico, algumas são de frango e mesclam arroz com macarrão, como é hábito regional. Mas o chamariz de muitas delas é a saborosa carne de tatu, muito apreciada na região. Toda a transação é muito dinâmica, as pessoas só têm três minutos para comprar sua comida, o tempo que o trem fica nas paradas mais curtas. Passageiros sonham com trem até São Paulo Esse movimento intenso contrasta com a organização de uma empresa do porte da Vale, que leva sua experiência para o trem. As bandequeiras fazem lembrar que essa linha rasga uma das regiões mais pobres do país. Mas não é apenas na comida que isso fica evidente. As carências da população dessas localidades são percebidas antes do embarque. Leudi Ramos Pinto, que foi de Parauapebas (PA) para José Doca (MA), é um exemplo. Com sete meses de gravidez, ela voltava para casa após visitar os pais. Quero ter meu filho na minha cidade. Eu ainda não sei o sexo, ainda não bati o ultrassom. Ela teve de enfrentar o desconforto de passar uma noite em claro em frente à estação de trem, pois sairia caro fazer duas viagens entre a casa de seu pai e a estação: uma para comprar o bilhete e outra, no dia seguinte, para embarcar. Mas eu não ligo de esperar, eu fico é alegre, por saber que vou voltar pra casa. Fico pensando nisso e o tempo passa rapidinho afirmou Leudi acompanhada do filho Wesley, de quatro anos, e na companhia de dezenas de outras pessoas na estação, algo que se repete diariamente. Há quem aproveite essas madrugadas na estação para faturar. Miguel Caetano de Souza, de 61 anos, vende laranja descascada a R$ 0,50, pedaço de bolo a R$ 1, caldo de carne, frango ou camarão a R$ 2, espetinho de carne a R$ 3 e espetinho de carne com arroz e farofa a R$ 5 em Parauapebas. Aqui é bom, mas depende do dia. Tem dia que dá R$ 250, mas venho sempre, não posso brincar, tenho que honrar todo mês um aluguel de R$ 200, não é mole afirmou, desanimado, após uma noite não muito boa, onde a única mercadoria que esgotou foram as laranjas. Para essas pessoas, pagar R$ 45 para percorrer os 892 quilômetros em 16 horas é muito melhor, mais rápido e barato que ir de ônibus cuja passagem pode sair por até R$ 130, mais caro que o trem na classe executiva, R$ 90. Os dez vagões da área econômica não têm ar-condicionado, mas contam com algo fundamental: segurança. Aqui no trem eu vou estudando, aproveitando o meu tempo, tenho segurança. Nunca poderia ir com o laptop no ônibus, chama muita atenção. Aqui eu não corro risco. Além disso, a Vale tem que garantir a nossa chegada. Se for de ônibus e ele quebrar, ficamos na mão. Aqui não, a Vale tem que dar um outro transporte. Já aconteceu comigo, e eles terminaram nossa Fotos de Domingos Peixoto BANDEQUEIRAS TÊM três minutos para vender comida aos passageiros, enquanto o trem fica parado OGLOBO MAIS ECONOMIA HOJE NA INTERNET: oglobo.com.br/economia : Documentário fotográfico sobre a maior linha de trem do país FOTOGALERIAS: Imagens do trem-tatu e do barco que faz o trajeto Manaus-Belém em cinco dias VIDEO: Como são as viagens a bordo de barco, trem e ônibus Acompanhe as notícias do GLOBO no Facebook: Siga as notícias de Economia no Twitter: twitter.com/oglobo_economia viagem de ônibus afirmou a professora de História Maria dos Reis, que seguia de Açailândia para Buriticu. Ela não sente falta da classe executiva. Mas o representante comercial Dorivan Bento Soares, de 64 anos, sempre paga o dobro do valor da econômica para ir nos dois vagões diferenciados: Tem ar-condicionado, menos confusão. Não me levanto nem para pedir comida. Em geral, quem ocupa essas poltronas exclusivas são os funcionários da Vale. A empresa afirma que mantém o serviço por uma questão de responsabilidade social, embora esteja obrigada, por contrato, desde a sua privatização, a manter esta linha e a outra, entre Belo Horizonte e Vitória, justamente as duas únicas em operação para passageiros de longa distância no país. Sem revelar os números, a Vale afirma que não tem prejuízo com a operação. Não há voos entre as duas cidades. Mas, se houvesse, não haveria muita demanda: Nunca voei. Tenho receio. Meu irmão mora em São Paulo e me convidou para ir lá assim, mas não tive coragem. O que eu queria é visitá-lo de trem, mas sei que isso não existe disse a dona de casa Fabiana Costa Pereira, que voltava de uma vista aos pais em Marabá com a filha Maria Eloá, de 3 anos.n FORA DOS TRILHOS A maior linha de passageiros do país liga Parauapebas (PA) a São Luís (MA), utilizando a Estrada de Ferro Carajás. Tem 892 km, é operada pela Vale e para em cidades como Marabá, Açailândia, Santa Inês e Vitória do Mearim Carajás Marabá PARÁ São Pedro da Água Branca São 2 linhas regulares de passageiros e 21 linhas turísticas, como a linha do Corcovado Parauapebas Vitória do Mearim Arari Alvo Alegre do Pindaré Bom Jesus das Selvas Cidelândia Açailândia Santa Inês Buriticupu Número de passageiros transportados por ano no Brasil* *Inclui linhas regulares e turísticas l Abandonado há décadas, o transporte ferroviário de passageiros voltou ao radar do governo com o Trem de Alta Velocidade (TAV), obra cujo custo é estimado oficialmente em R$ 30 bilhões, mas que, acreditam analistas, pode chegar a R$ 60 bilhões. No entanto, o projeto que quer ligar o Rio a São Paulo e Campinas em uma hora e meia a 300 quilômetros por hora e passagem por volta de R$ 200 não sai do papel. A nova previsão, depois de diversos adiamentos, é que o primeiro leilão de licitação aconteça no primeiro semestre de O projeto, porém, é criticado pela maioria dos especialistas no setor. O trem-bala é fora da realidade. O trem de média velocidade, que chega a 180 quilômetros por hora, não é muito mais caro que o convencional, o que permitiria que tivéssemos ligação com mais cidades pelo mesmo custo do trem-bala afirma Paulo Fleury, professor da UFRJ e diretor do Instituto Ilos. Segundo Paulo Tarso Vilela de Resende, coordenador do Núcleo CCR de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, o trem de média velocidade, também conhecido como trem-flecha, poderia ter mais estações intermediárias. A linha de média velocidade seria muito mais eficiente, poderia ter mais estações, mais cidades, o que o TAV não consegue. Quando dispara a 300 quilômetros por hora, não pode parar. Faria a ligação Rio- São Paulo em três horas. Hostílio Xavier Ratton Neto, professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, São Luís Santa Rita Miranda do Norte MARANHÃO As linhas regulares, juntas, contam com km. Ambas são operadas pela Vale. Além da Carajás, há o serviço Vitória-Belo Horizonte Especialistas criticam projeto do governo Para eles, seria mais eficaz investir em linhas de média velocidade, o chamado trem-flecha discorda e diz que o TAV também seria indicado para os trechos São Paulo-Curitiba e Rio- Belo Horizonte. As classes C e D estão andando de avião e não vão querer voltar a andar de ônibus quando a capacidade do setor aéreo estourar. Por isso, pensar no TAV é a alternativa mais possível. Até 300 quilômetros é uma distância indicada para percorrer de carro e acima de mil é grande demais, o tempo gasto nos procedimentos em aeroportos compensa. ANTF diz que trem-bala reabriu debate sobre modal Rodrigo Vilaça, presidenteexecutivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), acredita que o debate sobre o trem-bala foi positivo para colocar o transporte de passageiros sob trilhos em destaque no Brasil. Ele lembra que diversos governos começam a retomar projetos urbanos de metrô, trens e VLTs, e que, em uma segunda etapa, deverão ser retomados os trens de passageiros de longa distãncia. Apesar disso, ele não acredita que o modelo da Vale, que compartilha os mesmos trilhos com carga e passageiros, seja o melhor: Isso até pode ocorrer em agumas linhas, mas, nos locais mais populosos, é um complicador. Temos problemas hoje na Grande São Paulo com o compartilhamento. E na Europa quase sempre há linhas dedicadas ao serviço de passageiros comenta ele.n O BRASIL QUE NÃO VIAJA DE AVIÃO: Domingo: NA SEGUNDA CLASSE, 150 MILHÕES, Ontem: PASSAGEIROS À DERIVA NOS RIOS, Amanhã: OS DESAFIOS DOS TRANSPORTES NO BRASIL

10 hquarta-feira, 30 de maio de 2012 O GLOBO ECONOMIA 29 Governo não prevê integração de meios de transporte Segundo especialistas, é preciso criar um corredor logístico. Estudo do Ipea estima que seria necessário investir R$ 125 bi por ano no setor l O maior erro do governo no setor de transportes é não fazer um planejamento para integrar todos os modais, criando uma espécie de corredor logístico, afirmam os especialistas ouvidos pelo GLOBO. Além disso, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que sejam necessários investimentos de R$ 125 bilhões no país em portos, hidrovias, rodovias, ferrovias e aeroportos, o que representa cerca de 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) por ano até Em 2010, o investimento foi de 0,4% do PIB. Temos que ver o transporte sob vários aspectos: sob o aspecto do transporte de passageiros e do transporte de cargas, transportes urbano, interurbano, estadual, interestadual e internacional. O Brasil tem problemas em praticamente todos esses setores afirma Marco Caldas, coordenador do Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal Fluminense (UFF). A série O Brasil que não viaja de avião, que termina hoje, mostrou a precariedade das viagens de ônibus, barcos nos rios da Amazônia e trens, que transportaram, no ano passado, 150 milhões de passageiros. Para Bruno Batista, diretor-executivo da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), é preciso não só ampliar investimentos como melhorar a gestão do dinheiro: Os recursos aplicados em projetos precisam ter resultado mais rápido afirma. O mais recente Plano CNT de Logística, de 2011, indica 748 projetos de integração nacional considerados prioritários para modernizar a infraestrutura do país, num total de R$ 405 bilhões para, por exemplo, construção de ferrovias e melhorias em rodovias e hidrovias, além da ampliação dos aeroportos. É um erro do governo não olhar sistematicamente os vários modais. As agências reguladoras são segmentadas e desarticuladas comenta Paulo Fleury, professor da UFRJ e diretor do Instituto Ilos. Não existe planejamento integrado de formação de corredor logístico. A curto prazo, temos que tapar buracos, e a longo prazo, trabalhar para melhorar o quadro concorda Paulo Resende, coordenador do Núcleo CCR de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral. OCDE: setor é chave para desenvolvimento O professor da Fundação Vanzolini, Jorge Leal de Medeiros, acredita que o governo também precisa investir e melhorar a qualidade das rodoviárias no Brasil, além de incentivar a competição no setor: Há uma demanda que não está sendo corretamente atendida. Mas as perspectivas são boas. O crescimento da demanda, causada pela evolução da renda, deve gerar um aumento da pressão por mais investimentos. Segundo Rodrigo Vilaça, presidente-executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), a burocracia dificulta o avanço do setor. Hoje, por exemplo, para se construir uma linha de trem é necessário negociar ao mesmo tempo com 22 órgãos. Isso dificulta e encarece investimentos. Para o Fórum Internacional de Transportes, braço da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o investimento em transportes é um indicador do desenvolvimento de um país.n O BRASIL QUE NÃO VIAJA DE AVIÃO: Domingo: NA SEGUNDA CLASSE, 150 MILHÕES, Segunda: PASSAGEIROS À DERIVA NOS RIOS, Ontem: SEM TREM-BALA, BRASIL VIVE COM O TREM-TATU Locomotivas em extinção EM ESTRADAS, RIOS E TRILHOS Domingos Peixoto Antes do nascer do sol, em Parauapebas (PA), maquinista se prepara para dar a partida na maior viagem de trem de passageiros no país, até São Luís, que dura 16 horas. Apesar das vantagens do meio de transporte, país abandonou modelo na década de 50 l O secretário de Política Nacional do Ministério dos Transportes, Marcelo Perrupato e Silva, diz que a década do Brasil nos investimentos de transporte será a próxima. Ele diz que o país tem tudo para atrair recursos privados e, enfim, ter uma estrutura moderna e do século 21. Mas lembra que o país tem desafios e precisa melhorar seus alicerces. CORPO A CORPO MARCELO PERRUPATO E SILVA Longa espera Menina aguarda ônibus na rodoviária de Goiânia, com suas bagagens. Os grandes volumes transportados pelos passageiros são um dos principais fatores para que cerca de 132 milhões de brasileiros continuem a usar os ônibus em viagens de longa distância no país. Especialistas acreditam que número de mortes nas estradas é cinco vezes maior que o dado oficial, chegando a mil por ano Vocês têm que ter um pouco de paciência l Como o senhor vê a qualidade do transporte de passageiros de ônibus, trem e barco no Brasil? MARCELO PERRUPATO E SILVA: O transporte de ônibus é melhor que o de avião, é mais confortável. Os ônibus modernos reciclam completamente seus assentos, coisa que não ocorre com o avião. O problema é a demora. l Mas como o senhor avalia a situação dos acidentes nas estradas? PERRUPATO: Isso será forte prioridade do ministério. Enviamos no fim de maio um grupo de especialistas aos Estados Unidos para estudar a segurança de tráfego, para ver quais soluções podem ser adotadas aqui. Temos que lembrar que, com algumas exceções, principalmente em São Paulo, nossas rodovias foram projetadas para veículos que vão a até 80 km/h. Temos que rever isso, ter uma estrutura moderna. l E como o senhor avalia a situação do transporte fluvial, o único sem regulamentação no Brasil? PERRUPATO: Isso é muito regionalizado, não temos como abrir canais de navegação como a Europa fez. Temos que aproveitar nossas bacias e conciliar com o aproveitamento hidrelétrico. Mas vamos constituir um plano hidroviário estratégico, contratamos uma consultoria holandesa que está esperando apenas a água da Amazônia baixar um pouco para iniciar seus estudos. l Mas e a qualidade das embarcações? PERRUPATO: Estamos pensando seriamente na qualidade das embarcações. Vamos fazer com que o Fundo da Marinha Mercante dê um pouco mais de prioridade para isso. l E o transporte ferroviário? PERRUPATO: Estamos com o projeto do Trem de Alta Velocidade, pois duas megalópoles como Rio e São Paulo precisam de uma ligação destas. Vamos ver se leiloamos até o fim do ano a tecnologia deste trem, para depois leiloarmos as obras. l Quando o trem deve estar operando? PERRUPATO: Aí é difícil prever. Agora não temos mais a pressão da Copa e das Olimpíadas, mas a demanda entre as duas cidades é para a população. Acredito que ele poderá estar operando em 2018, talvez alguns trechos possam começar antes. l Há outros projetos de passageiros? PERRUPATO: Estramos estudando outras ligações de trem, que podem ser de alta ou média velocidade, até 200 km/h, entre São Paulo e Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba e Campinas e o Triângulo Mineiro. Queremos contratar o primeiro estudo, entre São Paulo e Belo Horizonte, talvez ainda este ano, e depois fazendo, pari passu, os demais. Não temos açodamento. Cada estudo deve demorar um ano, para depois decidirmos se o melhor será alta ou média velocidade. Se for média, o trem poderá compartilhar infraestrutura com trens de carga, como ocorre na China. Se o trem tiver até 200km/h, concorre com os ônibus, acima disso, com aviões. l Especialistas reclamam dos baixos investimentos no setor... PERRUPATO: Na próxima década o Brasil tem uma janela de oportunidade única. Os investidores vão olhar para cá. O Plano Nacional de Logística de Transporte (PNLT) prevê investimentos de R$ 300 bilhões em dez anos, R$ 30 bilhões por ano. Com isso, chegaremos a 0,6%, a 0,7% do PIB. l Mas como chegar a esse valor se o investimento está em 0,4% do PIB? PERRUPATO: Isso será paulatino e com os investimentos privados. Acredito que o ideal é chegar a 1% do PIB, mas não sei quando isso ocorrerá, infelizmente não temos a poupança de 1,4 bilhão de chineses. l O ministério tem uma continuidade política. Por que tão poucos avanços? PERRUPATO: Você tem que entender que no começo tínhamos muitas restrições orçamentárias. Agora é que temos mais espaço. E temos que fazer bons projetos, baseados em estudos sérios. l Mas quando o usuário vai sentir uma melhoria efetiva no transporte? PERRUPATO: Vocês têm que ter um pouco de paciência. Precisamos de bons alicerces para construir edifícios sólidos, e os alicerces não estavam bons. Queremos qualidade, e isso só se obtém com credibilidade, inclusive para atrair investimentos. Márcia Foletto Na carona Menino em canoa amarrada ao barco que faz o trajeto Manaus-Belém espera compradores para seus exemplares de bacuri (na cesta) e coco verde. Abordagem de ribeirinhos é feita com a grande embarcação em movimento, a cerca de 30 quilômetros por hora, ao longo do estreito de Breves, conjunto de pequenos rios que dá acesso à cidade de Breves (PA) Domingos Peixoto Segurança não é prioridade, diz estudioso do tema l A segurança do transporte rodoviário de passageiros não é prioridade do governo, afirma Rodolfo Rizzotto, coordenador do SOS Estradas, grupo de especialistas que estuda o tema. Ele afirma que, se o governo utilizasse corretamente o tacógrafo tipo de caixa-preta dos ônibus, para multar infrações de velocidade, e controlasse melhor a escala dos motoristas, os acidentes poderiam cair à metade: Temos casos de empresas que reduziram a velocidade média e o tempo de direção de cada motorista, e a queda nos acidentes foi de 50%. O que existe hoje para os motoristas beira a escravidão, sem fiscalização afirmou, lembrando que, se também fosse fiscalizado o uso do cinto de segurança pelos passageiros, o número de mortes poderia cair em 70%.n OGLOBO MAIS ECONOMIA HOJE NA INTERNET: oglobo.com.br/economia BARCO: Documentário fotográfico mostra a viagem Manaus-Belém TREM: Fotorreportagem sobre a linha Maranhão-Pará VÍDEO: As viagens de ônibus, trem e barco pelo Brasil

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