Número 15 Ano 2009 Mês Abril

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1 Número 15 Ano 2009 Mês Abril

2 Editorial Museu da Lourinhã O Museu continua a empenhar-se em múltiplas actividades, colaborando sempre que pode e tem sentido, com outras entidades. Em Abril pudemos concretizar esta abertura ao exterior de duas formas bem distintas: a adesão ao Dia dos Monumentos e Sítios, com uma vertente de divulgação do património, e a colaboração com a Expo Mundo Lego, algo realmente único. Por vezes surge-me uma peça que me deixa verdadeiramente encantado. Foi o caso este mês, e de tal forma que não resisti a dedicar-lhe a capa e encontrar uma cor que condissesse. É, espero que concordem, algo de muito curioso e digno de realce. Registamos o regresso de um colaborador que nos trás um apelo à preservação do património. Algo em que todos podemos colaborar. A terminar, o resultado de um voo sobre a Lourinhã e seus arredores, possível através da mágica do Google Earth. Até breve Fernando Nogal Neste número 2 Mensagem do Editor 3 Notícias da Associação 6 Serviços do Museu Artigos 3 Assembleia-Geral de 28 de Março 4 Antigas profissões Os Ourives Ambulantes 5 Fertilização das Terras Os Estrumes Orgânicos 6 Perguntas com Resposta 7 Palinologia Corte de Paimogo 8 Laboratório de Conservação e Restauro Fabrico de Réplicas 9 Conservar o Património Geológico e Paleontológico Precisa-se! Capa: Pormenor da decoração de um relógio de sol. Este relógio tem como particularidades ser portátil e de bolso! Uma preciosidade referida no artigo da página 4. Contracapa: Uma vista sobre a Lourinhã, centrada no Museu (39º N, 9º W). Imagem de Google Earth Assine o Boletim do Museu da Lourinhã! Sem encargos, por distribuição electrónica Se não é sócio e quer receber regularmente o Boletim, envie um pedido para Os Associados recebem automaticamente o Boletim por via electrónica. Mantenha actualizado o seu endereço Escreva directamente ao Editor, enviando artigos, comentários, sugestões, para 2 Boletim N.º 15 Abril 2009

3 Notícias Visitas e conferências de ilustres paleontólogos O Professor Paul Upchurch, do Imperial College de Londres, especialista em dinossauros saurópodes, visitou o Museu tendo proferido uma palestra no dia 28 de Abril. Este paleontólogo participou em vários capítulos da obra Dinosauria (2ª Edição) uma das principais ferramentas para os paleontólogos. Além disso tem-se dedicado a vários problemas globais da distribuição e ocorrência de dinossauros, dando contributos importantes numa sub-disciplina da paleontologia: a paleobiogeografia. Avançou, inclusivamente, uma substituição de paradigma nas análises genealógicas dos seres vivos, tendo proposto que a informação geográfica das suas ocorrências também fosse tida em conta. Outro ilustre visitante, Klaas Post, tem afiliação no Natuurhistorisch Museum Rotterdam e é um dos especialistas mundiais em zifídeos, nome que designa as baleias-de-bico. Curiosamente, na região de Peniche, junto com as redes dos pescadores vêm por vezes crânios fosfatizados de zífideos. A região de Peniche tal como parte das costas de Espanha, Holanda, Itália e África do Sul têm abundantes vestígios destes fósseis que são recolhidos da mesma maneira. Klaas irá avaliar o espólio do Museu da Lourinhã que foi doado por um construtor naval director da Fibramar. Assinalado o Dia dos Monumentos e Sítios 2009 Subordinado ao tema Património e Ciência, e com o objectivo de proporcionar uma oportunidade de reflexão e de reconhecimento do papel da ciência no património cultural, o IGESPAR promoveu esta iniciativa, a nível nacional, a que o Museu aderiu. Assim, no dia 18 de Abril pelas 15:00, realizou-se no Museu uma palestra, proferida pelo Doutor Octávio Mateus, sobre o tema Património paleontológico, dinossauros e evolução. Foto: Google-Earth Museu apoia a iniciativa da Expo Mundo Lego O Museu colaborou com a organização da Expo Mundo Lego, realizada na Lourinhã, do modo a proporcionar às muitas crianças inscritas uma visita ao Museu. a que estas aderiram em grande número. Admissão de Associados Durante o mês de Março foi aprovado o pedido de admissão de um novo associado. Novo livro do Professor Galopim de Carvalho Com o título Fora de Portas, Memória e Reflexões, apresentado pela Âncora Editora, este novo livro do Professor Galopim de Carvalho relembra a sua vida, desde a infância, dando natural ênfase ao seu trabalho no Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, Universidade que marcou de forma profunda com a sua personalidade. O livro traz prefácio do Prof. Doutor José Barata Moura e nele o Prof. Galopim tem a gentileza de se referir ao Museu da Lourinhã e aos seus fundadores. Errata No Boletim nº 14, de Março de 2009, o termo Gingko foi erradamente utilizado em várias páginas como Ginko. Uma versão já corrigida do Boletim pode ser obtida no sítio Internet do Museu em: Assembleia-Geral de 28 de Março A Assembleia-Geral do GEAL reuniu em sessão ordinária no dia 28 de Março, tendo-se registado cerca de cinquenta presenças e representações. Da Ordem de Trabalhos constava: 1. Apresentação discussão e deliberação sobre o Relatório Anual de Actividades relativo ao ano de 2008; 2. Apresentação discussão e deliberação sobre o Relatório Anual de Contas relativo ao ano de 2008; 3. Apresentação discussão e deliberação sobre o Plano Anual de Actividades e Orçamento Anual relativos ao ano de 2009; 4. Confirmação nominal dos membros do Conselho Científico, nos termos do Art. 14 dos Estatutos; 5. Outros assuntos de interesse para a Associação. Registou-se a ocorrência de debate profícuo, tendo-se aprovado todos os documentos bem como confirmado os membros do Conselho Científico que são, por ordem alfabética, Professor José Bonaparte, Professor Miguel Telles Antunes e Professor Philippe Taquet. Abril 2009 Boletim N.º 15 3

4 Antigas profissões - Os Ourives Ambulantes Os ourives ambulantes que vinham à Região Oeste eram, quase todos, naturais dos Concelhos de Cantanhede e de Mira. O ouro provinha das diversas minas de Portugal, exploradas desde o Calcolítico até à actualidade (exemplo: Minas de Aljustrel). Quer o ouro quer a pirite cristalizam no sistema cúbico, sendo ambos amarelos e, à primeira vista, só se distinguem pela risca, a pirite com risca preta e o ouro com risca amarela, razão pela qual ainda hoje se chama à pirite o ouro dos tolos ou dos parvos. De aldeia em aldeia, vendiam os mais diversos objectos em ouro e em prata, desde anéis a brincos, de dedais a relógios, e óculos das mais diversas graduações que os clientes escolhiam até encontrarem os mais adaptados para a sua visão. Embora, por norma, os óculos fossem comprados aos amola-tesouras, que se deslocavam a Espanha periodicamente, não era este o caso da Lourinhã em que os óculos provinham de outros locais. Os relógios avariados eram arranjados nas terras de origem e devolvidos na volta seguinte. Também furavam orelhas para suporte dos brincos. As peças com que mais trabalhavam eram o canivete de ourives e o alicate. Passaram-se os tempos e fixaram-se nas respectivas áreas de venda montando relojoarias e ourivesarias, onde já era possível arranjar relógios, vender relógios de parede e despertadores, o que era difícil enquanto ambulantes. Casaram, tiveram filhos, muitos deles continuando a profissão dos pais. 1. Os ourives deslocavam-se em grupo. Os já referidos Concelhos de Mira e Cantanhede possuíam fábricas e depósitos de ouro, principalmente em Febres e Vilamar e na sede dos Concelhos, comprando-se, também ouro às fábricas de Gondomar e do Porto. É neste contexto que surgem os ourives ambulantes (Foto 1). Deslocavam-se em grupos, quase sempre de comboio, mas levando as bicicletas e malas tendo cada um a sua área de trabalho e encontrando-se na mesma pensão, à noite ou em feiras e mercados. O chapéu e a bicicleta Ralia com a mala em folha e de cor verde, presa ao suporte por cintas de cabedal, identificavam, por si só, a profissão! Que se saiba, a primeira ourivesaria da Lourinhã, sita na antiga Praça da República (Anuário Comercial de Portugal, 1931) pertencia a Francisco Ferreira dos Santos, também conhecido por Francisco Picão. Segundo informações orais comercializava mais relógios que ouro. José Maurício ficou na Lourinhã, montando uma relojoaria e ourivesaria na rua Miguel Bombarda e, mais tarde, na Praça Marquês de Pombal, comprando, depois, a loja de Francisco Picão. Albino Tomásio, um dos companheiros do Maurício, ficou em Peniche, assim como outros no Bombarral e Torres Vedras. O Museu da Lourinhã tem uma exposição sobre o ourives ambulante tendo as peças sido oferecidas pelos filhos de José Maurício. 3. José Maurício, à direita. Não foi possível recuperar a bicicleta original pelo que se utilizou outra idêntica doada pelo senhor Toscano. Terminamos com uma curiosidade... Horácio Mateus 4. Relógio de sol e de bolso, um dos primeiros relógios fabricados pelo homem 2. Mala de ourives (GEAL-Etn 1388) com os mostruários (GEAL-Etn. 1389). 4 Boletim N.º 15 Abril 2009

5 FERTILIZAÇÃO DAS TERRAS - OS ESTRUMES ORGÂNICOS No início do século XX, em todo o País, a maioria dos estrumes provinha dos pátios, das cocheiras e das queimadas. Os pátios com sama, mato dos pinhais ou engaço de bagaço, e sempre adjacentes às casas agrícolas, onde se criavam galinhas, patos e perus e onde se situavam as quartelhas dos porcos ou outros animais à solta. Todos os detritos da cozinha, bem como as cinzas da fornalha, tinham o mesmo destino (as galinhas espojavamse nas cinzas por causa dos piolhos). Os pátios serviam ainda como retretes pois casas de banho não existiam. Nos finais do Verão o estrume era retirado para a fazenda e colocado novo mato resultante da limpeza dos pinhais. Nas cocheiras onde os animais estavam presos à manjedoura, a sua cama era mudada diariamente, tirando-se o estrume das patas para um monte, a palha das mãos para as patas e os retraços da manjedoura para as mãos. Cama limpa! Quando o monte de estrume estava grande era transportado para a fazenda. Nas terras destinadas a batatas, hortaliças e cereais, todas as ervas daninhas, caniços e silvas eram amontoados e largado o fogo, que ardia durante dias, a que se chamava boiça. Já na fazenda todo o estrume era colocado num monte de forma quadrada ou rectangular (os agricultores tinham brio na apresentação do monte de forma a parecer mais higiénico), onde ficava a curtir até à altura das sementeiras ou de adubar vinhas e pomares. Para todo este trabalho as alfaias utilizadas eram as forquilhas e gadanhas. O estrume fresco emanava calor razão porque nas zonas mais frias de Portugal o gado ficava no rés-do-chão (lojas) e as casas no primeiro andar. Na Lourinhã, no Inverno, em cima do monte da fazenda colocavam-se sementes de hortaliça para depois se plantar. (Uma nota curiosa, a dos petrolinos que, para o azeite não coalhar, depositavam as bilhas sobre um oleado que cobria o estrume da cocheira para que, na volta do dia seguinte, o azeite estivesse líquido). Dos primeiros fertilizantes à venda, os mais famosos eram o Nitrato do Chile, proveniente do guano das aves acumulado ao longo de milhares de anos e a purgueira composta de restos de engaços de bagaço e azeitona e outros produtos orgânicos. Também se vendiam outros adubos anunciados em O Imparcial, semanário da Lourinhã de 11 de Novembro de Começaram a aparecer os adubos químicos. O Imparcial, de 11 de Novembro de Tentativa, de 28 de Dezembro de Tentativa, de 30 de Novembro de Abril 2009 Boletim N.º 15 5

6 O BOM DE VIVER À BEIRA MAR Aproveitava-se outro tipo de estrume. Quando o mar estava revolto, dava à costa grandes quantidades de limo que era de imediato recolhido e aproveitado pelos agricultores. Quando a maré estava baixa, apanhavam-se pilatos (pequenos caranguejos) para a mesma finalidade e que eram também comprados aos Penicheiros e Ferralejos. Estes restos orgânicos, mais fortes que os restantes, eram mais utilizados nos plantios de novas vinhas e pomares. A vinha de meu Pai, na Galeana, foi plantada com pilatos. Os nossos avós, sem o saberem, já faziam reciclagem e, ao aproveitarem o mato para os pátios e cama das bestas, limpavam os pinhais e, automaticamente, protegiam a floresta contra o fogo. Quase auto-suficientes, pouco utilizavam adubos na Lavoura não dando azo ao envenenamento de terrenos e cursos de água. Horácio Mateus Perguntas com resposta! Aqui fica mais uma pergunta que nos chegou por correio electrónico (decididamente o método mais expedito). Como verão, os nossos paleontólogos não tiveram dúvidas. Reproduzimos uma das fotos. Agradecia que me dissessem que fósseis são estes, que parecem de plantas. Mando duas fotos, desculpem a qualidade. Muito obrigado. As fotografias mostram cristais de dendrites em calcário. Embora tenham o aspecto de uma planta ou fungo, as dendrites não têm origem biológica e resultam da impregnação lenta de cristais de magnésio e ferro nos interstícios do calcário. As dendrites são comuns em calcários litográficos como os de Solnhofen que preservaram os famosos fósseis de Archaeopteryx, a primeira ave fóssil. Em Portugal ocorrem vulgarmente em pedras de calcário do Jurássico médio. Octávio Mateus Não são fósseis, mas sim minerais! O hábito, curioso, destes minerais (os mineralogistas chamam hábito à forma como os minerais geralmente cristalizam) chama-se dendrítico, ou, com forma de árvore. Geralmente o mineral mais comum que forma estas árvores é a pirolusite, um hidróxido de manganês e ferro; mas existem outros como a holandite, por exemplo. A grande maioria dos minerais com este hábito têm manganês na sua constituição, e pode-se formar em calcários (talvez o mais comum) mas até mesmo em grandes cristais de quartzo. Os minerais de pirolusite que se formam no calcário resultam da resposta à diagénese (processo de litificação, ou seja processo de transformação de sedimentos em rochas). Neste processo a água, rica em "minerais dissolvidos", é expulsa dos interstícios dos clastos carbonatados, possibilitando o "crescimento" da pirolusite; também pode acontecer posteriormente à litificação pela circulação de água rica em manganês e ferro nas fracturas do calcário. Ricardo Araújo O Museu da Lourinhã disponibiliza os seguintes Serviços: Visitas guiadas e palestras Paleontologia: o Preparação de fósseis o Elaboração de moldes o Venda de réplicas Conservação e restauro de peças Workshops: o Conservação e restauro o Réplicas o Preparação de fósseis 6 Boletim N.º 15 Abril 2009

7 Palinologia - Corte de Paimogo A palinologia, termo proveniente das palavras gregas pale (pó) e logos (palavra, ciência), estuda as células vegetais produzidas pelos órgãos reprodutores das plantas: os esporos e os pólens. Num significado mais lato, a palinologia refere-se ao estudo de todo o conteúdo existente numa lâmina ou Gingko biloba conjunto de lâminas observadas ao microscópio e que podem conter, entre outros, detritos vegetais, algas planctónicas, dinoflagelados, foraminíferos, pólens e esporos. Em 1890, Wenceslau de Lima descreveu no seu estudo florístico, espécies emissoras de esporos do permo-carbónico do Bussaco. Na década de 40 do século XX, Carlos Ribeiro retomou estes estudos e, em 1943, fez acompanhar o estudo de macrofósseis das argilas de Porto Côvo com a análise polínica residual destas argilas. Mais recentemente, João Pais, Paulo Trincão, Lígia Sousa, Bouland, Van Erve, Bárbara Mohr, Friis, Pinheiros entre outros, retomaram o interesse pela palinologia do Jurássico em Portugal. As amostras para o nosso estudo foram recolhidas entre Vale Pombas e Paimogo, ao longo de metros. A espessura acumulada das diferentes camadas estratigráficas é de cerca de 90 metros. A litologia é, essencialmente, constituída por siltes, argilas e grés. Certos níveis contêm abundantes restos vegetais e impressões de ramos de Brachyphyllum (conífera arcaica). Pólens de pinus Esporo de Patellasporites t d i Pólen de Araucariecites australis. cópio óptico e, também, ao microscópio electrónico. A associação palinológica é relativamente homogénea, pouco diversificada, comportando, apenas, palinomorfos de origem continental, dispersos entre bastantes detritos vegetais indeterminados. Entre estes estão fragmentos de epiderme e fragmentos de traqueites com pontuações aureoladas bisseriadas, provavelmente de madeira de conífera como o Brachyphyllum. A ausência de quistos de dinoflagelados ou de acritarcos (organismos microscópicos de origem marinha) indica que o ambiente de depósito foi feito ao abrigo de qualquer influência marítima. A associação polínica tem uma maior predominância estatística de esporos triletes o que permite deduzir que a flora envolvente era essencialmente composta por Pteridófitas, em particular as Filicófitas (fetos, muitos deles arbóreos). O predomínio de pólens é relativamente baixo mas entre estes destaca-se uma grande percentagem de Corollina /Classopollis característico de plantas de clima quente, mais ou menos seco, o Brachyphyllum. Araucária Fetos Encontramos também Applanopsis dampieri, produzido por outra conífera, Podocarpites sp., produzido por podocarpáceas, diversos pólens bissacados produzidos por pináceas, Araucaracites australis proveniente de araucária e Monossulcites produzidos por cicas. Cedros A matéria orgânica foi extraída seguindo os processos clássicos de esmagamento, neutralização das amostras e eliminação dos silicatos. As lâminas foram observadas ao micros- Esporo de Tessalatosporis escheri Conclusão A floresta era aberta, dominada pelas coníferas que incluíam abetos, cedros, pinheiros e araucárias, sendo o Brachyphyllum a mais abundante. Cyca revoluta Abril 2009 Boletim N.º 15 7

8 O estádio arbustivo e herbácio era composto por Pteridófitas e Filicínias. As cicas, pouco abundantes, eram representadas pela Cyca williamsonia. Ao nível mais baixo encontravase a selaginela. A presença dos diversos esporos do género Cicatricosisporites implica uma idade do Kimeridgiano ao Portlandiano. A ausência de pólens de angiospérmica limita a idade geológica ao Jurássico. Museu da Lourinhã Esporo de Cicatricosisporites sp. A vegetação descrita, principalmente a presença de Brachyphyllum, define um clima quente a seco. No entanto, a presença de fetos, alguns arbóreos, implica a existência de grande abundância de água, certamente lagunar. Isabel Mateus Laboratório de Conservação e Restauro Fabrico de réplicas Já aqui foi referido que o Museu da Lourinhã, através do seu Laboratório, tem capacidade para executar moldes e réplicas de fósseis e, até, de material de natureza arqueológica, entre outros. Por várias vezes aceitou encomendas de réplicas dos seus fósseis. Só este ano já recebeu e respondeu positivamente a duas importantes solicitações de réplicas por parte de instituições estrangeiras. A primeira encomenda envolveu réplicas do bloco com ossos do Miragaia longiccollum, um espinho caudal deste mesmo exemplar, uma tíbia e fémur de Ceratosaurus, bem como uma tíbia de Torvosaurus. Em todos os casos, as réplicas ou originais destes fósseis encontramse na exposição de paleontologia do Museu da Lourinhã. As réplicas destinaram-se ao Parco Safari della Preistoria, em Itália, e foram fabricadas no Museu durante os meses de Janeiro e Fevereiro. A segunda encomenda, satisfeita logo em seguida, visou a entrega de quinze réplicas de um dente de camarasaurídeo, uma tíbia e um fémur de Ceratosaurus. Viajaram até à Polónia, para o parque Dinozatorland. As réplicas maiores foram executadas em resina de poliéster e fibra de vidro. Resumidamente, a técnica consiste em cobrir-se o interior dos moldes de silicone com diversas camadas destes materiais, obtendo-se as várias partes ocas dos ossos. Juntam-se as diferentes partes e enche-se o seu interior com espuma de poliuretano. As réplicas mais pequenas foram elaboradas em resina de poliuretano. Sendo indiscutivelmente uma técnica de execução mais fácil, baseia-se no enchimento dos moldes de silicone, também feitos para esta ocasião, com a resina. São dados alguns retoques na pintura. Não é demais realçar a relevância deste tipo de acções para o GEAL - Museu da Lourinhã. A venda de réplicas dá um reflecte-se imediatamente ao nível das receitas, contribuindo para a saúde financeira da Associação. Igualmente importante, possibilita aos técnicos e voluntários envolvidos o aperfeiçoamento dos seus conhecimentos de elaboração de moldes e réplicas. Assim, o Museu adquire capacidade de resposta para encomendas que se deseja sejam cada vez mais numerosas. Estas réplicas são, além disso, um excelente veículo de divulgação do Museu da Lourinhã e do espólio que tem à sua guarda, repercutindo-se este factor no volume de visitantes, na recepção de mais encomendas e no interesse de mais investigadores. Pouco a pouco, os dinossauros da Lourinhã vão invadindo os museus de todo o globo, levando o nome da Lourinhã até ao mais alto nível do mundo da Paleontologia. Carla Alexandra Tomás 8 Boletim N.º 15 Abril 2009

9 Conservar o Património Geológico e Paleontológico Precisa-se! Ao caminharmos pelas nossas praias, quer seja por lazer ou em pesquisa, é cada vez mais frequente encontrarmos as nossas arribas vandalizadas. Daqui resulta não só a destruição da paisagem, mas também a destruição de material que poderá ser importante para a Ciência. Tem vindo a aumentar a probabilidade de encontrarmos nas belas praias do nosso país, para além do lixo também presente, declarações amorosas, exclamações de presença em determinado local ou, simplesmente, esculturas artísticas gravadas nas rochas, como poderá ver na imagem. Não será demais salientar a importância das praias, quer como fonte de lazer quer a nível económico, produzindo benefícios que se reflectem em todos. Sinceramente não sei o que os autores dessas obras de arte pensam, mas certamente que não estão a prestar um bom serviço à comunidade. ao trabalho de retirar o exemplar completo; ou outras razões ainda. Como reagiríamos se alguém decidisse dirigir-se a uma obra importante do nosso património, por exemplo o Mosteiro dos Gerónimos, com o intuito de o cobrir de graffiti ou de lhe arrancar pedaços? É lícito perguntar se as actividades de campo que o Museu da Lourinhã exerce não são também um contributo para a degradação do património paisagístico, já que ninguém duvidará do seu contributo científico. É verdade que, em grande parte das nossas intervenções, estamos a destruir rocha para atingir um fim, que é retirar um determinado fóssil da rocha. Contudo, no sentido de preservarmos o nosso património e minimizarmos ou anularmos os nossos efeitos sobre o mesmo, tomamos várias medidas. Mas não é só arte que poderão encontrar nas nossas arribas. Infelizmente, existem muitos caçadores de fósseis que, para a sua colecção privada ou para venda, recolhem fósseis indiscriminadamente, sem dar a devida atenção ao seu valor científico, para não falar da delapidação de uma parte importante do nosso património. É frequente observarem-se os efeitos dessas colheitas indiscriminadas já que, para quem está familiarizado com este assunto, é possível distinguir, por exemplo, quando foi partido um osso de dinossauro encontrado no campo, se recentemente se antes do mesmo fossilizar. Pormenor de uma arriba a sul da Lagoa de Albufeira, Península de Setúbal. São bem visíveis as esculturas e desenhos na parede da arriba. A adicionar a este facto, são também visíveis colheitas onde o responsável recolheu apenas uma parte do osso, deixando ficar o resto. As razões para tal facto poderão ser várias: desconhecimento do colector que o tal osso continua; por não se ter dado Entre elas, contam-se a utilização do menor espaço intervencionado possível, a remoção do lixo efectuado durante os trabalhos e o reposicionamento dos detritos de rocha produzidos, de modo a deixar o local com um aspecto não intervencionado. Assim, deixo um pedido: por favor divulgue estas mensagens e não escreva ou desenhe nas rochas. No caso de encontrar algum achado que pense ser importante, a melhor actuação é não mexer, tomar boa nota do local e tirar fotografias, se possível, e contactar o Museu por qualquer meio (em pessoa, por telefone, correio electrónico ou outro). Teremos todo o gosto em visitar o local para examinar o achado e proceder à sua recolha minuciosa, caso se justifique. Bruno Pereira Abril 2009 Boletim N.º 15 9

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