Oelegante e confortável

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1 Por Terras d África: Memórias do Chiveve António Garcia Oelegante e confortável S u p e r-constellation dos TAP - que na altura se proclamavam com orgulho Transportes Aéreos Portugueses - terá demorado umas boas 26 horas a trazer-nos de Lisboa até à cidade da Beira. Tínhamos feito uma escala em Niamey - a descontraída capital da recém-independente República do Níger - e uma outra escala em Luanda, em Outubro de 1962 e era a primeira vez que viajávamos de avião. A descoberta de novos horizontes geográficos assemelhavas e a uma aventura empolgante, em contraste com o ambiente enfadonho e algo opressivo a que nos tinham habituado no Liceu Camões. O Estatuto do Funcionalismo Ultramarino que regia a carreira pro fis s i o n a l do progenitor permitira-nos sulcar os a res e atravessar, sucessivamente, o deserto do Sara e o Equador, coisa que nenhum colega tinha conseguido fazer naqueles tempos. Moçambique visto de Lisboa Para um aluno do terceiro ano liceal, as coisas de África resumiamse, em grande parte, às notícias da guerra que tinha começado em Angola, em Fevereiro de Na rádio passavam as crónicas do Ferreira da Costa que, por vezes, eram acompanhadas pela cantilena marcial Angola é Nossa. No liceu, cuja disciplina era provavelmente a mais severa do país, tinha havido, em 1960, uma série de manifestações comemorativas do quinto centenário da morte do Infante Dom Henrique. Muito exaltaram o papel civilizador dos portugueses, sem esquecer a expansão da Fé. Nas palestras patrióticas, realizadas à margem das actividades da Mocidade Portuguesa, ficámos a saber que Portugal era uma pátria multiracial e pluri-continental, estendendo-se do Minho a Timor. Nas fastidiosas tardes de quartafeira, quando éramos obrigados a gramar os exercícios de ord e m unida do curso de Chefe de Quina, a p a reciam uns instrutores da organização bem pouco jovens, mas de aspecto sinistro e com óculos e s c u ros, louvando a grandeza de Portugal. Até chegaram a afirm a r que, estando em sentido, não nos devíamos mexer, mesmo que os nossos pais estivessem a morrer à nossa frente. Também havia um p rofessor de canto coral que fazia prédicas acerca da defesa heróica da pátria portuguesa, depois de nos pôr a cantar o Hino da Restauração. É pouco provável que estas tiradas surtissem efeito junto de rapazes de doze anos de idade, mais virados para outras actividades, começando pelo futebol. Foi nesse ano de 1962 que o glorioso Benfica averbou, pela segunda vez consecutiva, a Taça dos Campeões Europeus ao bater o Real Madrid por 5 a 3. O clube encarnado tinha uma equipa genuinamente portuguesa, tal como garantiam certos entendidos benfiquistas que não se cansavam de saudar os dois golos marcados pelo fabuloso Eusébio, o jovem jogador português oriundo da Província de Moçambique. Eusébio foi, e f e c t i v a- m e n t e, o grande arauto das terras de Moçambique de que raramente ouvíamos falar, ao contrário do que acontecia em relação a Angola. Pessoas conhecidas diziam, vagamente, que tinham uns primos lá para Lourenço Marques e o nome desta cidade resumia praticamente tudo o que se sabia da então África Oriental Portuguesa. De Moçambique, mais exactamente da Matola, também vinham as deliciosas bolachas Polana recentemente colocadas no m e rcado nacional. E, na rádio, nos p rogramas de discos pedidos, tocavam com frequência as canções de João Maria Tudela, muito particularmente o seu grande êxito Kanimambo, gravado em 1959, com um poema de Reinaldo Ferreira, dizendo obrigado como o Negro diz... Também havia os mapas escolare s a m a relados, pendurados nas pare d e s das salas de aula, e que mostravam o Império Português realçado a v e rmelho. Assim descobrimos que Moçambique ficava do outro lado da África e que era nove vezes maior do que Portugal. Os graduados da M. P. bem nos diziam que devíamos utilizar a palavra Metrópole, para designar o cantinho da Europa à beira-mar plantado, dado que Portugal englobava todos os territórios onde flutuava a nossa bandeira, pelo que éramos muitas raças e uma só Nação. No Camões também projectaram o filme Chaimite, de Jorge Brum do Canto, grande saga da campanha de Mousinho contra o Gungunhana nos finais do século dezanove, no sul de Moçambique. A longa película, datada de 1953, não nos tinha interessado sobremaneira. A cena em que o oficial português obriga o chefe rebelde a sentar-se no chão sujo parecera-nos de muito mau gosto, comparada com as sequências dos filmes de cowboys mais recentes, designadamente os Sete Magnífic o s. À beira do Índico Foi com esta bagagem (cultural) que desembarcámos no aeroporto da Manga que estava a sofre r profundas transformações, com a construção da aero g a re e a instalação da base aérea n 10. O farol da torre de controlo rasgava o céu escuro e na placa de estacionamento, ao lado do nosso q u a d r i m o t o r, pudemos identific a r um Dakota prateado e um Friendship azulado, ambos com a m a rca de uma companhia desconhecida: a DETA que era a transportadora aérea da colónia, 36 LATITUDES n 25-décembre2005

2 aliás, Província Ultramarina. Ta m b é m se podia ver, ao longe, um barrigudo Noratlas da Força Aére a. O calor não era exagerado, ao contrário daquilo que nos tinham prometido em Lisboa. Havia alguma humidade e, curiosamente, era como se toda a gente se conhecesse. Neste caso, os funcionários do aeroporto e os demais beirenses brancos, muitos deles vestindo calções. Os negros, a que chamavam indígenas, ficavam de lado, a carregar as malas e não pareciam ter voz activa. Nessa altura, a população da Província totalizava cerca de 6,6 milhões de almas, das quais 6,4 milhões eram autóctones e os restantes 165 mil eram não autóctones, segundo as estatísticas incluídas na Pequena Monografia de Moçambique da autoria do Doutor Oliveira Boléo, publicada em 1961 pela Agência Geral do Ultramar. Uma outra tabela do livro assinalava que o concelho da Beira tinha uma população de 59 mil almas, das quais 38 mil eram nativas e as restantes 21 mil eram não indígenas. Nos termos dessas estatísticas que não seriam muito exactas, a cidade da Beira disporia de uma concentração muito elevada de brancos, correspondendo a cerca de 30 % da população do concelho, o que seria um exagero. O primeiro contacto (nocturno) com a cidade fez-nos crer que tínhamos desembarcado numa urbe m o d e rna, com prédios que pareciam arranha-céus, comparados com os maiores edifícios lisboetas de então. Nada que se assemelhasse, à primeira vista, a uma terra africana como as que tínhamos visto, vagamente, no cinema ou na televisão. Para grande espanto, o trânsito automóvel era à esquerda, o que provocava uma sensação algo desagradável, como se circulássemos constantemente fora de mão. Só no dia seguinte pudemos contemplar as primeiras panorâmicas beirenses, das janelas do restaurante da Pensão Moderna onde tínhamos tomado o mata-bicho, o pequeno-almoço à inglesa com ovos estrelados e bacon. Assim descobrimos uma extensão imensa de arbustos acinzentados e um céu de idêntica tonalidade, muito diferente das garridas n 25- décembre 2005 LATITUDES fotografias das revistas e dos postais ilustrados. Na realidade, esses arbustos formavam o vasto mangal que envolvia o rio Chiveve e que era, ao que pudemos apurar, um riacho ligado a um braço de mar que atravessava um terreno que parecia ser pantanoso - o matope -, mas que possuía uma ecologia bem p a r t i c u l a r, coisa que naqueles tempos não interessava a ninguém. Logo houve quem nos dissesse que o governo não fazia nada para sanear aquela zona malcheiro s a, que só contribuía para o desenvolvimento dos mosquitos, o que não era totalmente verdade. E aconselharam-nos judiciosamente a tomar um comprimido de Daraprin, uma vez por semana, para evitar o paludismo. Companhia de Moçambique Descobrimos que a Beira era uma terra plana e com certas zonas situadas a níveis inferiores ao da água do mar e do estuário do Pungué, onde confluía o Chiveve. Os antigos moradores diziam que esta era a Beira Chata, que contrastava com as Beiras Alta e Baixa de que tinham saudades. Ouviam-se protestos contra a falta de esgotos, um problema de difícil solução devido à cota negativa da cidade. Nada disto acontece em Lourenço Marques, era uma frase que se ouvia com bastante frequência quando algo corria mal. Também diziam que a vida era muito mais agradável em Salisbúria O Chiveve (Salisbury, hoje Harare), a capital da então Rodésia do Sul, situada a uns seiscentos quilómetros de distância. De facto, o local escolhido para a edificação da Beira não era o ideal, por ser uma zona aluvial. Melhor teria sido construir um grande porto de águas profundas em terrenos mais firmes, mais a norte, nas imediações do Chinde, junto à foz do Zambeze. O projecto de desenvolvimento da cidade terá sido definido, no tempo de D. Luís, em função dos interesses britânicos, por ser o ponto do Índico mais próximo da fronteira ro d e s i a n a, situada a uns trezentos quilómetros. Assim se realizaram economias na edificação da linha de caminho de ferro do hinterland, até à fronteira de Umtali, que foi inaugurada por volta de Da Beira também partia um ramal com destino à Niassalândia, o actual Malawi, e que era a linha da Trans-Zambézia, a qual ficou concluída uns cinquenta anos depois. Não havia ligação ferroviária directa entre a Beira e Lourenço Marques. A viagem até à capital, por estrada alcatro a d a, obrigava-nos a atravessar a Rodésia e a província sul-africana do Transvaal, o que viemos a efectuar nas férias da Páscoa. As farmácias beirenses ostentavam a designação Chemist e no cabeçalho de um dos jornais locais ainda figurava a expressão antigo Beira News. Parecia que a urbe tinha sido colonizada anteriormente pelos ingleses. Na realidade, dado que a coroa portuguesa não dispunha de verbas suficientes para 37

3 investir nas infra-estruturas, todo o distrito de Manica e Sofala passou a ser administrado, a partir de 1892, pela majestática Companhia de Moçambique, que chegou mesmo a ter alvará para emitir selos postais. Em 1942, a companhia perdeu os d i reitos de soberania e o distrito re g ressou à administração d i recta do estado luso e, ao que nos disseram, por imposição directa de Salazar. Antigos colonos recordavam, com saudade, os tempos da companhia, como se a Beira tivesse conhecido um período áureo durante a Segunda Guerra Mundial e mesmo a n t e s. José Ta v a res de Moura, funcionário dos camin h o s - d e - f e r ro b e i re n s e s, contava que um grupo de ingleses, vindos não se sabe donde, tinham o hábito de desembarcar na Beira sistematicamente à sexta-feira à noite, para se embebedarem até ao domingo à tarde. Soube-se depois que, para além desses cíclicos períodos etílicos, os re f e r i d o s ingleses tinham conseguido construir a maior ponte do mundo sobre o rio Zambeze, em Dona Ana, com quase quatro quilómetros de comprimento e que foi inaugurada em Cidade colorida, cosmopolita e dividida A vida na Beira começava de manhã muito cedo, em comparação com os horários a que estávamos habituados em Lisboa. E era, então, que surgia a população negra, vinda dos bairros mais afastados, designadamente do Chipangara e da Manga. O atrás citado Doutor Boléo, se calhar, nunca pôde assistir a estes ajuntamentos alegres e coloridos. Os transportes públicos tinham o nome de machibombos, velhos autocarros fumarentos e vagarosos, pintados de amarelo e vermelho ocre. E havia, ainda, as gingas, as bicicletas, que eram bens de primeira necessidade para muitos, naquelas paragens planas. Os estabelecimentos comerciais dispunham de velocípedes especiais, com uma bagageira para o transporte de embrulhos por cima da roda dianteira, esta de menor diâmetro do que a roda traseira. Também circulavam, de bicicleta, os Monumental e não muito longe do Capri, onde a má língua também era praticada. No centro da cidade, também havia lojas de chineses, que vendiam sobretudo louça, bugigangas e artigos eléctricos. As transacções c o m e rciais eram feitas em escudos emitidos pelo Banco Nacional Ultramarino. Dizia-se que a utilização desta moeda se destinava a impedir que as pessoas mandassem d e m a s i a d o d i n h e i ro para a metrópole, para que a província não ficasse arruinada. Mas pouca gente se queixava das restrições do Conselho de Câmbios e o dinheiro dos colonos sempre acabava por ir parar a Portugal. Certos puristas afirmavam que era incorrecto dizer Moçambique para designar a província, porque podia confundir-se com a Ilha do mesmo nome. Preferiam colocar no remetente das cartas a sigla misteriosa A.O.P., que significava África Oriental Portuguesa. Em contrapartida, outras pessoas suspiravam por um novo Brasil, baseando-se no que viam e liam na revista O Cruzeiro ou nas Selecções do Reader s Digest. Havia, também, alguns portugueses do reviralho que tinham apoiado Delgado em Dir-se-ia que tinham perdido influência, depois que começou a guerra em Angola. Também se notava a presença de brancos com ideias separatistas, mas influenciados pelos rodesianos e pelos sul-africanos e que manifestavam desprezo pelos saloios portugueses. A chegada à Beira do pessoal da Força Aérea suscitou, inicialmente, algumas re a c ç õ e s negativas junto de antigos re s i d e n t e s que não apreciaram muito a vinda dos turistas. Alguns destes aviadore s re c o rdavam que o mesmo fenómeno o c o r rera em Luanda, cerca de um ano antes, onde os pára-quedistas e s c a v a c a r a m a célebre pastelaria Versalhes, porque a gerência não apreciava a presença de militares fardados. Também se notava, na Beira, a existência de barreiras importantes entre os europeus, em função do estatuto social. Alguns portugueses, com posses reduzidas, instalavamse nas imediações dos bairro s africanos de Chipangara e de Matacuane. Os remediados moravendedores de gelados, tocando um sino para chamar a clientela. A Casa Comitis, instalada no bairro da Munhava e pe rtencente a uma família de gregos, dispunha do quase monopólio do flo re s c e n t e c o m é rcio das bicicletas, com destaque para a conceituada marc a Raleigh de fabrico britânico. Ta m b é m começavam a circular na cidade as espantosas motorizadas japonesas Honda e Suzuki, que ainda não tinham chegado a Portugal Continental. A Beira era, sem dúvida, uma cidade cosmopolita, mas com barreiras nítidas entre as diferentes comunidades. Como assinalámos, os negros eram forçados a viver fora de portas, excepto os serviçais que dormiam nas dependências situadas nas traseiras das moradias dos patrões. Os poucos assimilados e os mestiços - assim como os indianos e os paquistaneses que eram numerosos - viviam em casas antigas nas imediações do Bazar, que era o mercado situado na parte central da cidade. Os indianos eram designados d e p reciativamente por monhés e atravessavam tempos difíceis p o r causa da ocupação da Índia Portuguesa pelas tropas de Nehru, em Dezembro de Salazar mandou exercer re p resálias e muitos indianos foram expulsos da colónia. Porém, certos comerciantes portugueses diziam que não valia a pena expulsarem os indianos, porque não faziam concorrência. Mas queixavam-se dos goeses - q u e tinham nacionalidade portuguesa e a quem chamavam desdenhosamente canecos - porque usufruiriam de privilégios julgados exagerados. Alguns estabelecimentos de artigos de vestuário e de alimentos, vulgo cantinas, que pertenciam a h i n d u s- tânicos, ostentavam uma tabuleta a f i rmando: esta firma é portuguesa. Muito nos impressionavam as raparigas indianas, misteriosamente envoltas nos saris. Em segredo íamos, por vezes, contemplá-las à Munhava ou ao Maquinino, mas nunca houve coragem suficiente para as abord a r. Triste Karma, como rezavam os livro s orientalistas editados no Brasil e que se encontravam à venda na grande livraria Salema, situada na Praça do Município, ao lado do café 38 LATITUDES n 25-décembre2005

4 vam nas imediações da zona c o m e rcial, perto dos indianos. Os b u rgueses, os altos funcionários e os c o m e rciantes mais abastados tinham casas no Macuti e na Ponta Gêa, junto ao mar. Neste último bairro, ao lado de algumas moradias luxuosas, tinha sido edificado em 1955 o faraónico Grande Hotel. E s t e empreendimento da Companhia de Moçambique dispunha de 125 quartos luxuosos mas que estavam às moscas. O projecto inicial previa a i n s t a l a ç ã o de um casino e nunca se soube, ao certo, o que terá levado o g o v e rno a recusar o alvará ao recinto de jogo. Dizia-se que tinham sido as pressões da Igreja e que o g o v e rno da Rodésia, ainda dependente da coroa de Londres, não queria que os seus súbditos, particularmente os agricultores ou farmeiros, se arruinassem na Beira, onde se deslocavam frequentemente para verem o mar, instalando-se no Motel Estoril que era o maior empreendimento turístico da urbe. Na Páscoa, ou quando surgiam feriados pro l o n g a- dos, a Beira era invadida pelos rodesianos. Alguns jovens portugueses, mais velhos do que nós, partiam em expedição ao Macuti à conquista das bifas. Circulavam, então, as mais variadas notícias acerca dessas aventuras, cuja veracidade era bem difícil de confirm a r. Mas as praias da cidade não eram muito convidativas, devido à presença do já mencionado matope. Por esta razão, a piscina olímpica do Grande Hotel atraía muita gente, começando pelos jovens. Era aqui que se tomava o chá entre brancos, ao fim da tarde, à boa maneira inglesa. Pela parte que nos toca, preferíamos a Coca-Cola, que não havia na Metrópole. Diziase que o General Humberto Delgado detinha os direitos de representação da marca e que, por isso, Salazar tinha proibido a c o m e rcialização da bebida. O recinto da piscina era, de facto, muito agradável e mais agradável ainda era a presença feminina, com destaque para a filha do poeta e n 25- décembre 2005 LATITUDES bancário Nuno Bermudes, muito desenvolvida para a idade, que era idêntica à do autor destas linhas. Ela era um sonho de rapariga, mas tinha o enorme defeito de prestar muito mais atenção aos rapazes mais velhos. Tristezas da adolescência! E, para castigo, o Grande Hotel e a piscina viriam a fechar definitivamente em Maio de Estudos nos trópicos O liceu oficial funcionava na zona de Matacuane, não muito longe do Chiveve, num edifício relativamente recente e tinha o nome de Pêro de Anaia, em homenagem ao fundador da feitoria de Sofala, cujo fortim foi construído Grande Hotel - foto A. Garcia por volta de 1505 mas que veio a ruir cerca de cem anos depois devido à acção do mar, a uns 40 q u i l ó m e t ros a sul da Beira. Ao contrário do que sucedia na Metrópole, o liceu era misto mas nos re c reios era proibida a convivência entre rapazes e raparigas. Era bem reduzido o número de colegas negros, mas havia alguns chineses e bastantes indianos que teriam familiare s goeses. O reitor era o Doutor Brilhante de Paiva, Deputado da Nação que se deslocava frequentemente a Lisboa por causa das actividades parlamentares, cuja importância nunca pudemos avaliar. Poucos africanos frequentavam o liceu oficial e os colégios particulare s, mas começava a notar-se a p re s e n ç a de crianças negras em certas escolas primárias públicas. O ensino técnico, mais exactamente a Escola Industrial e Comercial Fre i re de Andrade, tinha um maior número de estudantes africanos e asiáticos. Os programas liceais e r a m absolutamente idênticos aos que vigoravam em Lisboa. Nas aulas de G e o g r a fia bem nos fartámos de estudar o relevo e a hidrografia da Europa. Só no quinto ano estudaríamos a geografia africana. As aulas de História Universal pré-história, antiguidade oriental e clássica - eram regidas pelo calhamaço do Mattoso de capa vermelha. O p rograma re f e rente à língua portuguesa incluía uma selecta de textos de autores consagrados dos séculos XIX e XX. Mas o professor (eventual) raramente apare c i a. Assim, em lugar de dividirmos as orações e de apreciarmos a estilística de Aquilino e de Eça, aproveitávamos o tempo livre -as borlas na gíria escolar - para jogar futebol num campo de andebol adjacente. A língua francesa era servida n u m a indigesta selecção de textos. Havia, ainda, o austero compêndio de álgebra do Calado e um não menos sóbrio manual de língua inglesa, mas que não parecia ser exactamente a língua que os bifes falavam, ou o linguajar dos africanos que tinham trabalhado na vizinha colónia britânica, a Federação da Rodésia e Niassalândia, ou nas terras do Rand. Também não era o idioma das canções que tocavam e retocavam na emissora do Aeroclube da Beira, que diziam ser o poiso do engenheiro Jorge Jardim, representante oficioso de Salazar. Os grandes êxitos musicais da época eram o Locomotion, da Little Eva, e The Lion Sleeps Tonight dos célebres Tokens. Assim começámos a apreciar a música negra americana e também ouvíamos os sucessos do Elvis e do C l i ff Richard, acompanhado p e l o s S h a d o w s, à noite, na estação B do Rádio Clube que transmitia em inglês a partir de Lourenço Marq u e s. A música francesa, na altura muito popular em Lisboa, não tinha conseguido chegar àquelas paragens do Indico. 39

5 São Jorge. Vários jovens fic a r a m feridos, sangrando abundantemente. A polícia limitou-se a tomar conta da ocorrência. Os zulos não foram incomodados pelos nossos sipaios - os polícias auxiliares que vestiam uma curiosa indumentária, com uma espécie de turbante a que chamavam cofió. Pesca recreativa Novas vibrações Não havia grandes nomes da música local. Os mais conhecidos eram os Irmãos Guarás que actuavam em recintos nocturnos, cujo acesso era proibido aos menores. Os dois artistas brasileiros também se faziam ouvir através do emissor do aeroclube e, além das Saudades da Baía, tinham gravado spots publicitários por conta dos cigarros Embaixador que eram, ao que diziam, o melhor mensageiro do tabaco superior. A música africana raramente passava nas ondas da rádio que estavam mais viradas para o fado. Mas quando atravessávamos, de bicicleta, o Chipangara, no regresso do liceu, podíamos ouvir outras sonoridades que saíam das grafonolas (com manivela e agulhas de cobre) dos antigos contratados que tinham trabalhado nas minas do Transvaal. Assim descobrimos o genial Spokes Mashiyane, através dos discos de 78 rotações da etiqueta Gallotone. Naqueles tempos as kwellas não eram para filho de branco ouvir. Eram música para mainatos, o nome que davam aos criados que lavavam a roupa e que usufruíam de melhores ordenados, em comparação com os demais serviçais domésticos como eram oficialmente designados. Do Chipangara também surgiam os sons dos tambores quando se realizavam batuques e que, às vezes, se repetiam durante várias noites. Eram vibrações impressionantes, que assustavam alguns pacatos moradore s das imediações do campo de golfe - Piscina do Grande Hotel - foto A. Garcia que era frequentado apenas por ingleses - e por onde também passava o Chiveve. Pessoas recémchegadas da Europa diziam que a polícia devia acabar com aqueles batuques. Os veteranos respondiam que se os tambores tocavam era porque tinham a devida autorização do administrador. Nunca conseg u i m o s saber o que se passava naqueles rituais e por que se realizavam naquela época do ano, em Dezembro. Talvez fosse por causa do solstício do verão austral. No Chiveve apareciam uns curiosos caranguejos assimétricos, com uma das tenazes atrofiada e, evidentemente, com a outra demasiadamente desenvolvida. Ta m b é m s u rgiam pelicanos, flamingos e outras aves insólitas. Por volta do Natal de 62 a zona foi invadida por bandos e bandos de codornizes que se deixavam apanhar à mão. Crianças negras vendiam as avezitas vivas, dentro de cartuchos de papel, ao preço de uma quinhenta (cinquenta centavos), que deram excelentes petiscos com piripiri. Certa noite, a tranquilidade na Ponta Gêa sofreu um abalo, aquando da chegada de um circo sul-africano. Dezenas de jovens n e g ros aproximaram-se das ro u l o t t e s onde havia animais. A curiosidade foi severamente contrariada pelos guardas negros do circo, provavelmente zulos, que, de chambôco (cavalo marinho) na mão, desataram a bater com extre m a violência nos nossos moleques, tal como afirmaram testemunhas oculares. Houve grandes correrias no quarteirão que rodeava o cinema Não era de bom-tom que os filhos dos colonos dessem confia n ç a aos pretos. Esses preceitos consuetudinários contrariavam, evidentemente, os slogans do regime que se tinha apropriado das teses luso tropicalistas do brasileiro Gilberto Freyre. A estafada lengalenga das muitas raças e uma só Nação não era levada a sério, mesmo por aqueles que eram adeptos do portuguesismo oficial. O racismo (incluindo o apartheid) era condenado oficialmente, mas existia na prática. Pela parte que nos toca, adoptámos uma postura que, sem ser rebelde, era, pro v a v e l m e n t e, anticonformista. Assim, devido ao encerramento da piscina do Grande Hotel, trocámos a natação pela pesca. Depois da sesta, íamos até ao mangal situado nas imediações da Praia dos Pinheiros que eram, na realidade, casuarinas. Esta actividade piscatória recreativa era pouco praticada pelos brancos. E estabelecia-se, então, uma certa camaradagem com os pescadores negros, os quais iam apanhar o peixe por razões alimentares e económicas, como é evidente, ou para se desenfastiarem do infecto peixe seco que se encontrava à venda no bazar. Trocávamos informações acerca dos instrumentos de pesca que eram muito rudimentares: uma pequena cana, cerca de dois metros de fio, uma rolha de cortiça, dois anzóis e chumbos. Ouviam-se aplausos quando alguém conseguia apanhar um mussopo ou uma cacana, que se assemelhavam, vagamente, aos barbos e às carpas. Nunca s a b o reámos estas pescarias, às vezes abundantes, que depois oferecíamos ao pessoal doméstico. Não pudemos aprofundar o diálogo 40 LATITUDES n 25-décembre2005

6 com os outros pescadores, talvez porque não soubéssemos falar a língua shona e a sua variante ndau. M bassa maningue, m tambira pouco - esta era a única frase que conseguíamos pronunciar nessa língua e que significava: muito trabalho, pouco dinheiro. Em contrapartida, trocávamos impre s s õ e s com o cozinheiro da vizinha, homem muito falador que parecia conhecer a África de lés a lés. Dizia que tinha trabalhado para a açucareira Sena Sugar, em Marro m e u, e também nas Rodésias e no Transvaal. Estava muito ao corrente dos graves p roblemas que, na altura, se registavam no ex Congo belga, p a r t i c u l a rmente no Katanga de Tchombé. Subversão ocultada Os beirenses brancos, com quem convivíamos, pare c i a m desfrutar de uma existência bastante regalada, comparativamente com o estilo de vida que tínhamos conhecido em Lisboa, onde alguns amigos nossos eram filhos de comunistas notórios. Vim para África para não fazer nenhum dizia, orgulhosamente, o tenente Inácio, funcionário da Companhia de Moçambique e que morava no Grande Hotel, mesmo depois de ter fechado. Certos colonos vestiam segundo os figurinos britânicos - calção e meia alta - mas os capacetes coloniais já tinham passado de m o d a. Ao sábado à noite era fino ir cear ao pavilhão Oceana junto à praia da Ponta Gêa. E também havia o Empório, um restaurante com requinte, no centro do burgo, onde as senhoras primavam na elegância e os homens se julgavam obrigados a vestir casaco e gravata. Ouviam-se algumas discussões acaloradas, a c e rca de Kennedy que tinha desencadeado o bloqueio a Cuba. Certos comensais criticavam o presidente americano por este ter desenvolvido uma política anti portuguesa, relativamente ao Ultramar. Outros diziam que era preciso defender o Ocidente contra os soviéticos e que era necessário arranjar bombas atómicas, no caso de se form a rem exércitos pan- n 25- décembre 2005 LATITUDES africanos. Muita gente julgava que o t e r rorismo estava limitado a Angola e que era um mero efeito da guerra civil no Congo ex-belga. Moçambique surgia como um oásis de paz e ninguém falava, por não estar ao corrente, dos incidentes que se tinham registado em Mueda, no norte da colónia, em Junho de 1960, onde dezenas de manifestantes macondes tinham sido mortos pelas autoridades. Em Dezembro de 1962 as notícias acerca da subversão em Moçambique limitavam-se aos relatos sobre o julgamento, no tribunal militar de Lourenço de Marques, de um grupo de catorze arguidos, entre os quais o poeta Vi rgílio de Lemos. Pouca gente sabia de que actividades eram acusados e a imprensa também não publicava grandes explicações, devido à censura. Dizia-se, vagamente, que Virgílio de Lemos tinha escrito um poema em que insultava a bandeira nacional, ao compará-la com uma capulana, o pano garrido em que as negras se envolviam. O integralista Alves Lopes, professor de história no Pêro de Anaia, garantia que o escritor ia ser expulso da colónia. Dir-se-ia que muitos brancos das classes médias da Beira viviam alheados do mundo exterior, numa espécie de esquizofrenia com laivos bairristas. Um colega do liceu d e c l a rou-se revoltado ao ver crianças negras a vasculharem os baldes do lixo, à procura de algo que tivesse a mínima utilidade. Dissemos-lhe que, em Lisboa, também havia mendigos que remexiam os detritos nos caixotes, de manhã cedo, antes da chegada dos camiões da câmara. Mas também há indígenas em Lisboa?, perguntou o colega todo espantado, recusando acreditar que esses lisboetas pobres eram brancos como nós. Em Fevereiro de 1963 a miséria do bairro do Chipangara invadiria o nosso liceu, devido às graves inundações que atingiram praticamente toda a zona urbana, começando pelas margens do Chiveve. A chuva tinha caído sem parar e centenas de africanos foram evacuados e instalados nos ginásios e outras dependências do Pêro de Anaia e da Escola Técnica. N ã o houve aulas durante quase três semanas, até que o nível das águas baixasse sufic i e n t e m e n t e. Q u a n d o assim aconteceu, milhares de peixes a p a receram mortos, pro v o c a n d o emanações mais nauseabundas do que aquelas a que o Chiveve nos tinha habituado em tempo normal. Bispo preocupado com ociosidade dos africanistas Nas reuniões selectas, a que chamavam Pôr-do-Sol, era fre q u e n t e p ro j e c t a rem-se filmes das férias passadas em Santa Carolina ou na Rodésia. Havia quem se vangloriasse dos animais abatidos em safaris na zona da Gorongosa e outros convidados anunciavam os itinerários das próximas licenças graciosas na Metrópole. As re s- trições cambiais em vigor não abrangiam este sector da sociedade b e i rense que, exceptuando os caçadores, raramente teria contacto com o mato. O clero católico, mais conhecedor das realidades sociais por estar em relação directa com as populações, não escondia a sua preocupação perante a ociosidade de muitos europeus. O bispo Dom Sebastião Soares de Resende tinha acabado de publicar uma pastoral com o título A Moral Conjugal em Perigo que suscitava alguma chacota. Muitos brancos tinham adoptado posições críticas em relação ao clérigo, a quem chamavam Bicho da Beira, devido às preocupações sociais que este manifestava, particularm e n t e ao exigir o fim do indigenato e a promoção dos negros através do ensino. Encontrava-se em vigor o acordo missionário e havia quem acusasse os padres de defenderem as posições do Vaticano, em lugar de defenderem a política portuguesa. O jornal Diário de Moçambique, p ropriedade da diocese, era boicotado por causa dos editoriais que reflectiam o ponto de vista do bispo e que seriam mesmo da sua autoria. Mas pouca gente sabia que D. Sebastião estava muito ligado ao a n t i g o ministro do Ultramar, Adriano Moreira. Este não parecia suscitar grandes críticas e pessoas afectas ao 41

7 regime lamentavam mesmo que Salazar o tivesse exonerado, em Dezembro de Dizia-se que os p ro d u t o res de café de Angola nunca aceitaram de bom grado o código do trabalho rural e outras medidas sociais avançadas, d e c retadas pelo ex-ministro. Isto terá contribuído para que o Califa decidisse demiti-lo. Num outro contexto, também s u rgiam críticas ao Concílio Va t i c a n o, onde o bispo da Beira teve uma considerável intervenção. António Baptista Borges, economista e professor na escola técnica, afirmava que era um gastar de dinheiro desnecessário nessa luxuosa reunião clerical. Na companhia de Joaquim Sabino - que escre v i a poemas e trabalhava no Diário de Moçambique -, Borges fartava-se de falar de questões insólitas, tais como o surrealismo e a pintura abstracta. Curiosamente, havia na Beira edifícios com uma arq u i- tectura arrojada, designadamente o cinema São Jorge, projectado por Garizo do Carmo que também desenhou o edifício do selecto Clube da Beira, colocado em cima de pilotis à moda de Niemeyer, onde se jogava a dinheiro sem alvará. B o rges estava hospedado numa casa pertencente a Garizo e que era um autêntico museu de arte m o d e rna com requinte tro p i c a l. Dotado de apurado sentido estético e tremendamente irónico, o doutor Borges teria frequentado o grupo de Cesariny em Lisboa e não se cansava de fazer chacota da sociedade e dos costumes locais, embora se declarasse monárquico... Perante essas tiradas, Sabino - que também era apreciador dos poemas de António Botto- mandava estrondosas gargalhadas que provocavam a admiração de toda a clientela do Empório. Borges tinha trazido de Lisboa uma enorme biblioteca e foi por seu intermédio que descobrimos as Aventuras de To m Sawyer, de Mark Twain, literatura adequada a um jovem em contacto com a natureza, à descoberta da vida e da sociedade. Rumo ao Norte E entrámos no inverno austral. Os dias eram curtos e as noites f rescas, com cacimbo. Ti n h a m chegado as férias grandes e não havia muito que fazer na Beira, exceptuando a escuta da rádio, as deambulações de bicicleta e o cinema. No Nacional passava O Dia Mais Longo, que nos impressionou pelo realismo das cenas da segunda guerra mundial. D e m o s graças à providência por Hitler se ter esquecido do continente africano. Certos colegas pouco cinéfilos muito se lamentavam por não viverem na Rodésia, que surgia como uma espécie de eldorado, evidentemente quimérico. Constava que jovens beirenses, mais velhos do que nós, tinham feito carreira em gangs de teddy-boys, em Salisbúria e em Joanesburgo, vindo a ser aí perseguidos pela polícia por roubo de carros. Tais aventuras não eram bem do agrado do nosso colega Trindade Guerra, escuteiro e exímio construtor de maquetes, que visitávamos com alguma frequência. Morava para lá de Matacuane, numa casa situada no interior de um autêntico jardim zoológico, com feras, macacos e répteis. A família estava ligada ao sector cinegético e as conversas prolongavam-se pela tarde fora, sobre os mais variados assuntos, na presença da irmã dele. Até discutimos a teoria da relatividade que vinha explicada, com desenhos, na revista Life que folheámos com muito interesse e que nos abriu novos horizontes, começando pelos romances de ficção científica. Porém, o já citado Estatuto do Funcionalismo Ultramarino interro m- peu estas e outras intere s s a n t e s actividades, numa altura em que nos sentíamos bem adaptados à vida beirense. Tinha chegado a guia de marcha para Nampula e a família recomeçou a preparar as malas, apenas dez meses depois de termos d e s e m b a rcado na Beira. Nunca tínhamos ouvido falar daquela cidade, situada no norte da pro v í n c i a. Tentámos colher inform a ç õ e s n a s redondezas, mas nenhum pescador do Chiveve conhecia essa localidade, que era a terceira mais importante da colónia. Porém, o e m p regado de um amigo (o Bruges) ficou algo espantado quando soube que íamos para a terra dos macuas e fartou-se de denegrir as gentes do Moçambique. Referia-se, naturalmente, à famosa Ilha por onde passaram o Gama e o Épico. O nosso interlocutor considerava que os tais insulares não eram dignos de confiança por c o m e rem macacos... Viríamos a descobrir que, para além dessas considerações pouco gastro n ó m i c a s, o povo macua era, desde há muito, vítima de injustas manifestações tribalistas, que não pareciam incomodar as autoridades. Em meados de Agosto embarcámos - em primeira classe - no velho Angola rumo a Nacala, com escalas na Ilha de Moçambique e em Porto Amélia, hoje Pemba. Iríamos descobrir uma outra África, quiçá mais profunda do que aquela que tínhamos achado na Beira. Do convés do paquete vagaro s o vislumbrámos, pela última vez, o Chiveve e a Ponta Gêa l Paris, Novembro LATITUDES n 25-décembre2005

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