HISTÓRIA DA ÁFRICA. Conteudista Marcello Sena. Rio de Janeiro / Todos os direitos reservados à. Universidade Castelo Branco

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1 VICE-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO E CORPO DISCENTE CENTRO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA HISTÓRIA DA ÁFRICA Conteudista Marcello Sena Rio de Janeiro / 2011 Todos os direitos reservados à Universidade Castelo Branco

2 UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO Todos os direitos reservados à Universidade Castelo Branco - UCB Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, armazenada ou transmitida de qualquer forma ou por quaisquer meios - eletrônico, mecânico, fotocópia ou gravação, sem autorização da Universidade Castelo Branco - UCB. Un3h Universidade Castelo Branco História da África / Universidade Castelo Branco. Rio de Janeiro: UCB, p.: il. ISBN 1. Ensino a Distância. 2. Título. CDD Universidade Castelo Branco - UCB Avenida Santa Cruz, Rio de Janeiro - RJ Tel. (21) Fax (21)

3 Apresentação Prezado(a) Aluno(a): É com grande satisfação que o(a) recebemos como integrante do corpo discente de nossos cursos de graduação, na certeza de estarmos contribuindo para sua formação acadêmica e, consequentemente, propiciando oportunidade para melhoria de seu desempenho profissional. Nossos funcionários e nosso corpo docente esperam retribuir a sua escolha, reafirmando o compromisso desta Instituição com a qualidade, por meio de uma estrutura aberta e criativa, centrada nos princípios de melhoria contínua. Esperamos que este instrucional seja-lhe de grande ajuda e contribua para ampliar o horizonte do seu conhecimento teórico e para o aperfeiçoamento da sua prática pedagógica. Seja bem-vindo(a)! Paulo Alcantara Gomes Reitor

4 Orientações para o Autoestudo O presente instrucional está dividido em três unidades programáticas, cada uma com objetivos definidos e conteúdos selecionados criteriosamente pelos Professores Conteudistas para que os referidos objetivos sejam atingidos com êxito. Os conteúdos programáticos das unidades são apresentados sob a forma de leituras, tarefas e atividades complementares. As Unidades 1 e 2 correspondem aos conteúdos que serão avaliados em A1. Na A2 poderão ser objeto de avaliação os conteúdos das três unidades. Havendo a necessidade de uma avaliação extra (A3 ou A4), esta obrigatoriamente será composta por todo o conteúdo de todas as Unidades Programáticas. A carga horária do material instrucional para o autoestudo que você está recebendo agora, juntamente com os horários destinados aos encontros com o Professor Orientador da disciplina, equivale a 60 horas-aula, que você administrará de acordo com a sua disponibilidade, respeitando-se, naturalmente, as datas dos encontros presenciais programados pelo Professor Orientador e as datas das avaliações do seu curso. Bons Estudos!

5 Dicas para o Autoestudo 1 - Você terá total autonomia para escolher a melhor hora para estudar. Porém, seja disciplinado. Procure reservar sempre os mesmos horários para o estudo. 2 - Organize seu ambiente de estudo. Reserve todo o material necessário. Evite interrupções. 3 - Não deixe para estudar na última hora. 4 - Não acumule dúvidas. Anote-as e entre em contato com seu monitor. 5 - Não pule etapas. 6 - Faça todas as tarefas propostas. 7 - Não falte aos encontros presenciais. Eles são importantes para o melhor aproveitamento da disciplina. 8 - Não relegue a um segundo plano as atividades complementares e a autoavaliação. 9 - Não hesite em começar de novo.

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7 SUMÁRIO Quadro-síntese do conteúdo programático Contextualização da disciplina UNIDADE I ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA ÁFRICA Ensino e pesquisa da história da África no Brasil A invenção da África: mitos, preconceitos, dificuldades e métodos UNIDADE II A ÁFRICA NEGRA NO PERÍODO PRÉ-COLONIAL Fundamentos socioantropológicos das sociedades africanas pré-coloniais Tempo e história na África Métodos de pesquisa e historiografia UNIDADE III ÁFRICA NEGRA NO PERÍODO COLONIAL E PÓS-COLONIAL África nos mundos atlântico e índico O impacto do tráfico atlântico de escravos nas sociedades africanas O impacto da abolição de escravos nas sociedades africanas e a transição para os colonialismos Os processos de construção dos Estados Nacionais, dos projetos de modernidade e os principais fatores da crise africana contemporânea Glossário Gabarito Referências bibliográficas... 46

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9 Quadro-síntese do conteúdo programático 9 UNIDADES DO PROGRAMA OBJETIVOS I - ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA ÁFRICA Ensino e pesquisa da história da África no Brasil A invenção da África: mitos, preconceitos, dificuldades e métodos Apresentar as interpretações historiográficas dos estudos sobre a África realizados por historiadores brasileiros; Identificar os elementos que compõem as percepções e distorções sobre a história da África, especialmente nos livros escolares, assim como os novos modelos teóricos e metodológicos utilizados atualmente. II - A ÁFRICA NEGRA NO PERÍODO PRÉ- COLONIAL Fundamentos socioantropológicos das sociedades africanas pré-coloniais Tempo e história na África Métodos de pesquisa e historiografia Descrever as características gerais das instituições econômicas, políticas e sociais das sociedades africanas do período pré-colonial; Discutir o processo de apreensão histórica da temporalidade africana; Caracterizar os métodos de pesquisa e a historiografia voltada para a história da África. III - A ÁFRICA NEGRA NO PERÍODO COLO- NIAL E PÓS-COLONIAL África nos mundos atlântico e índico O impacto do tráfico atlântico de escravos nas sociedades africanas O impacto da abolição de escravos nas sociedades africanas e a transição para os colonialismos Os processos de construção dos Estados Nacionais, dos projetos de modernidade e os principais fatores da crise africana contemporânea Compreender as relações políticas e econômicas mantidas entre o continente africano e os demais continentes através dos deslocamentos marítimos; Descrever os aspectos gerais da economia colonial africana a partir da estrutura do tráfico de escravos; Verificar o sentido da abolição de escravos e suas implicações para o processo subsequente de colonização e descolonização; Apresentar os atores e as lutas ligadas ao processo de constituição dos Estados Nacionais assim como os fatores políticos, culturais e econômicos que engendraram a crise africana contemporânea.

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11 Contextualização da Disciplina 11 Cercada de mitos, preconceitos, dificuldades de abordagens teóricas e metodológicas, a História da África trazida neste instrucional apresentará inicialmente algumas considerações gerais sobre a África destacando as regiões ocidental (conhecida como Sahel) e central que forneceram a mão-de-obra escrava que foi traficada para o Brasil durante o período da colonização. Assim como uma visão geral da região ligada ao circuito de troca do Oceano Índico e daquelas regiões que se posicionam mais ao interior. Nos estudos que se seguirão, serão apresentados aspectos das formas de organização social e de suas manifestações culturais, procurando ressaltar padrões e particularidades assim como as interações estabelecidas pelos diferentes povos africanos entre si e com os de fora do continente. Ao abordar historicamente estas regiões do continente africano pretende-se apresentar o dinamismo que o caracteriza em oposição às visões estáticas que se tem dele. Apesar de representarem apenas parte da história da África, o tráfico e a escravidão dentro do período privilegiado pelo curso são tomados como principais influenciadores do dinamismo referido acima ao articular povos de dentro e de fora da África gerando mudanças significativas nestas sociedades. Estas mudanças serão consideradas no momento que forem abordadas as questões referentes às lutas de independência características do pós-colonialismo e de formação dos Estados africanos contemporâneos. Serão ressaltados os reflexos da Guerra-Fria e das ideologias terceiromundistas.

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13 UNIDADE I 13 ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA ÁFRICA A partir da Lei n.º 10639, de 09 de janeiro de 2003, que altera a Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 26-A 79-A e 79-B, torna-se obrigatório o ensino da história da África na rede oficial de ensino no Brasil nos estabelecimentos de Ensinos Fundamental e Médio, sendo público e/ou particular. Nasce no universo docente brasileiro desafio de disseminar, para o conjunto da sua população, num curto espaço de tempo, uma gama de conhecimentos multidisciplinares sobre o mundo africano. Tais como aprofundar e divulgar o conhecimento sobre os povos, culturas e civilizações do continente africano. Sobretudo a partir dos diferentes tipos de escravidão racial e de tráfico humano transoceânico praticados por diferentes povos. E também da subsequente colonização do continente africano pelo Ocidente a partir do século XIX. No entanto, a generalização do ensino da história da África apresenta problemas específicos. Por exemplo, a formação, reciclagem e capacitação dos professores da rede de ensino incumbidos dessa missão, considerando a visão negativa sobre a África que predominou na sociedade brasileira durante tanto tempo. Porém nos limitaremos aos problemas menos evidentes contidos na problemática epistemológica, metodológica e didática em relação à África. Haja vista a suma importância de que se trata a abertura de um debate no seio do corpo docente brasileiro, no intuito de democratizar o tema mediante a sua deselitização. Esta discussão deve iniciar pelo resgate da historiografia disponível no Brasil sobre a história da África Ensino e Pesquisa da História da África no Brasil O naturalista alemão Karl Von Martius demostra seu hibridismo racial quando lançou luz sobre a miscigenação racial no Brasil em Como se deve escrever a história do Brasil, no qual afirmava que o cerne para compreensão da historia brasileira reside no cruzamento das três raças que dão origem a nossa nacionalidade. A negra, indígena e branca, priorizando a contribuição portuguesa na formação da sociedade brasileira, anulando a negra e reservando ao indígena papel secundário. Porém não resta dúvida de que Von Martius atribui contribuição a miscigenação étnica e cultural. Seu quase contemporâneo Francisco Adolpho de Varnhagen não seguiu em nada os preceitos de seu predecessor Von Martuis. Varnhagen é o autor de História geral do Brasil, obra em cinco volumes, publicada entre 1854 e 1857 sob o patrocínio imperial, no modelo factual historicista dotada de ricos detalhes e costumes, que se inicia com o descobrimento do Brasil e desdobra-se até a chegada da família real. Como se o Brasil fosse mesmo de fato português como rezava o Tratado de Tordesilhas de Com riquezas de detalhes sobre costumes, expedições e capitanias, Varnhagen conta uma História completamente branca, elitista e imperial, anulando qualquer possibilidade de contribuição da cultura negra, e afirmando que os indígenas eram bárbaros e selvagens. Permanecendo, no entanto, oculta a questão da miscigenação. Capistrano de Abreu em seus Capítulos de história colonial, publicado em 1907, inovou em diversos aspectos a interpretação da história colonial do Brasil. Fez questão de reconhecer os antecedentes indígenas ao invés de descobrimento ; concebeu o futuro Brasil como área de disputa entre Portugal e outros países europeus, no lugar de sacramentar o Tratado de Tordesilhas. Para Capistrano de Abreu, o verdadeiro objeto de investigação era a colônia, a sociedade colonial e todos os seus desequilíbrios e contrastes. Já para Varnhagen era a colonização portuguesa, suas instituições e motivações. No entanto, no que se refere à miscigenação, Capistrano tratou pouco e não deixou de pensá-la como um dos vários fenômenos que mais dividia o Brasil, funcionando mais como fator desagregador do que como agente de coesão. E ainda que de forma atenuada, revelou-se afinado, com certa raciologia cientificista, concebida na Europa e assimilada pela intelectualidade brasileira, a qual via na mestiçagem um perigo para a sobrevivência das civilizações. A mesma raciologia que inspirava intelectuais do porte de Nina Rodrigues, Euclides da Cunha, Mello Moraes, Oliveira, racistas por ofício.

14 14 Há também historiadores, como Paulo Prado, João Ribeiro, Pedro Calmon e Pandiá Calógeras, que execravam a miscigenação. Esta deveria ser entendida como problema moral e patológico a ser resolvido, e não como alvo de estudo e investigação. Atribuindo aos indígenas e, sobretudo, aos negros o papel danoso para a formação de uma nação ariana e avaliando como luxúria, orgia colonial própria dos trópicos. A partir de 1930 modifica-se a forma de pensar a miscigenação no Brasil, e ganha destaque o livro Casa grande e Senzala de Gilberto Freyre porque inaugura novos paradigmas quanto a entonação da abordagem deste tema. Casa Grande e Senzala encara de forma aberta a questão da sexualidade que é inerente a miscigenação racial, não atribuindo aos índios e negros as perversões e libidinagens sexuais e sim aos portugueses. Aluno do notório antropólogo Franz Boas, ele ultrapassa o conceito de raça, muito apreciado à época, para tratar o fenômeno como miscigenação étnica e mescla cultural valorizando a fusão das três raças na formação do Brasil. O africano é portador da cultura que irriga a religião, a culinária, a linguagem, os sentimentos e tudo o mais na sociedade colonial. O mesmo se pode dizer do índio, embora em menor escala. Apesar do seu pioneirismo quanto à valorização da fusão das três raças para a formação do Brasil e da sua acuidade na interpretação da cultura brasileira, uma leitura desatenta de sua obra mais conhecida pode considerar seu método intuitivo. E quanto à questão do povoamento do nosso território, devemos ponderar, o mesmo não se deveu unicamente à experiência portuguesa com a miscibilidade com outras raças, mas, sobretudo, a um projeto português para ocupação e exploração do mesmo que começou a ser desenvolvido a partir da década de 1530 com as expedições marítimas para proteger a costa brasileira e a fundação das primeiras capitanias hereditárias. É ainda um grande equivoco considerar a ausência de preconceito racial no comportamento dos colonos brasileiros, pois Freyre não estabelece como suficiente a relação entre atração sexual e tolerância racial, ou seja, o fato dos colonizadores se sentirem atraídos sexualmente pelas negras e índias suscitava formas cruéis de sujeição. Tais interpretações equivocadas geraram o mito da democracia racial que indiretamente acabam depondo contra o brilhantismo de suas interpretações. Sergio Buarque em Raízes do Brasil (1936) forneceu enorme contribuição a nossa historiografia no que concerne a comparação das américas espanhola e portuguesa, mas quanto à miscigenação, avançou pouco. Com posição similar a de Freyre quanto à ausência de orgulho de raça. Quanto a Caio Prado Junior em Formação do Brasil contemporâneo, não se pode negar que seu marxismo convive com a raciologia científica que é típica do século XIX. Também dotado de racismo, principalmente no capítulo Organização Social. E não pode ser outra a conclusão sobre Caio Prado ao lermos seu juízo de que a escravidão incorporou à colônia, ainda em seus primeiros instantes, e em proporções esmagadoras, um contingente estranho e heterogêneo de raças que beiravam ainda o estado de barbárie, e que no contato com a cultura superior de seus dominadores, se abastardaram por completo (1977, p.275). E reitera que os índios e negros eram povos de nível cultural baixíssimo. Porém, é bem verdade que ele também atribui boa parte do aviltamento e degradação dos índios e negros à escravidão. Ou seja, são desqualificados tanto por sua condição de escravos quanto pela sua inferioridade cultural e racial. Somente a década de 1980 traria reais novidades quanto à situação do negro diante da historiografia brasileira. Procurando tomar o negro como sujeito da história, protagonista da escravidão. Os índios, porém, não foram alvo de estudo histórico antropológico no tocante a mestiçagem e formação da cultura. Somente quando se tratava de catequese. A fim de se compreender a conformação da cultura africana no Brasil, foi o livro de Kátia Mattoso, Ser escravo no Brasil, escrito na década de 1980 que reabriu a discussão acerca da importância do paternalismo como meio de poder senhorial diante dos negros, descartando assim, a violência como única fonte de controle do sistema escravista. Apontando também, outros fatores a serem estudados tais como o tráfico e as religiões. Em função deste tipo de abordagem generalizou-se a concepção dos chamados afro-brasileiros. A historiografia moderna tem o seu mérito ao valorizar o estudo da escravidão e da formação da cultura brasileira, como observamos no livro de João Reis Rebelião escrava no Brasil, sobre a Revolta dos Malês na Bahia de 1834, que inaugura essa nova fase da historiografia que para entender a nossa própria história recorre à historia da África. Nessa mesma linha de pensamento vem o livro A paz das senzalas, de Manolo Florentino e José Roberto Góes. E ainda de Robert Slenes, Na senzala, uma flor. É certo que nossa historiografia atual avança e mostra sinais de maturidade ao se dedicar às descobertas de novas africanidades, porém ainda evita o termo miscigenação, outrora tratado de forma assexuada, preferindo o termo mescla cultural enfatizando os seus hibridismos culturais, e buscando, sobretudo, na cultura africana seus particularismos e sobrevivências. Porém, persiste no cenário da historiografia brasileira a problemática da miscigenação racial deflagrada pelo mal-estar que reside do conceito de democracia racial derivada da interpretação mal feita da obra de Gilberto Freyre especialmente, acrescido do conceito

15 estigmatizante de raça tão usado em políticas de segregação e extermínio. Há ainda outra questão, a de que o racismo existente até os dias atuais de modo velado ou explícito advém da escravidão colonial. Porém o maior constrangimento entre os historiadores reside na problemática do conceito de raça. A solução para tal questão parece residir em focar as investigações no âmbito social e ideológico como nos indica Lilia Schwarcz, e não mais como biológico conforme século XIX e início do XX. Apesar da sofisticação metodológica da abordagem mais recente sobre História da África, trata-se de um continente pouco conhecido cercado por mitos e preconceitos que afetam a própria pesquisa histórica A Invenção da África: Mitos, Preconceitos, Dificuldades e Métodos Os mitos que cercam o continente africano são marcados pelo preconceito e pelo racismo. Presumia-se que havia uma determinada região conhecida como zona meridional que ficava bruscamente exposta ao sol se tornando assim uma região inabitada. Uma vez que a África era um país de negros, era um continente habitado de seres monstruosos, os homens de face queimada. Destaca-se a crença de que seria possível encontrar a reprodução em escala fantástica das instituições sociais europeias, como a crença de que havia uma extraordinária civilização cristã formada pelos etíopes onde se destacava o reino de Preste João. O assunto fascinava os europeus, pois os Etíopes seriam adoradores da cruz. Seus representantes teriam comparecido ao concílio de Florença em 1441, impressionando de tal forma a audiência que o grande escultor Filareto os representou numa das portas de bronze da basílica de São Pedro de Roma. Sabia-se também que a Etiópia era o reino do famoso Preste Joao, antes imaginado na Ásia. Conhece-lo era um dos objetivos de exploradores e navegantes. Mas antes de saber mais sobre esse mito, responsável por uma visão positiva da África, nunca é demais lembrar que, antes das viagens ultramarinas, os povos europeus da bacia mediterrânea se consideravam como habitantes do centro da terra, imaginando o resto do mundo a partir de esquemas mentais herdados da Antiguidade grega e de textos latinos e judaico-cristãos (PRIORE & VENÂNCIO, 2004, p ). Segundo este mito, Preste João fora Imperador da Etiópia e teria sido sucessor de Baltazar, uns dos três magos, sendo imensamente rico e poderoso. Tratavase de um maravilhoso império cristão localizado na Abssínia, o qual era formado por doze reinos compostos de príncipes, clérigos e mercadores. Reino onde os cristãos eram batizados em água e marcados a ferro em distinção aos pagãos infiéis. Este império teria sido evangelizado pelo apóstolo Tomás. Preste João era tido como senhor de um poderoso exército e exaltado por todos os outros sinais, acreditava-se que poderia confrontar-se com os muçulmanos na reconquista de Jerusalém. As águas do rio Nilo o obedeciam, assim como seres fantásticos. Porém a chegada dos europeus a Abssínia fez cair por terra o mito da prosperidade; depararam-se com a nudez dos corpos, a poligamia e os sistemáticos roubos. Era um local de severas punições aos criminosos como cortar pés e mãos, arrancar olhos e expor as cabeças. Evidenciou-se um reino déspota. A realidade reduziu a pó o sonho de um império de maravilhas que pudesse ajudar os cristãos na luta contra os mouros. Outro mito, e esse está diretamente associado à condição do povo em ser escravos, recaía sobre os africanos e remontava a Bíblia em Gênesis. Trata-se da descendência da Canaã. Seu pai Cã teria visto a nudez de seu avô Noé, que logo amaldiçoou toda a sua descendência a se tornarem escravos dos seus irmãos. Diante disso, está posto a explicação ideológica que justifica, por parte dos cristãos europeus, a escravidão dos africanos. Os filhos de Noé que saíram da arca eram Sem, Cã e Jafet. Cã era o pai de Canaã. Estes eram os três filhos de Noé, É por eles que foi povoado toda a Terra. Noé que era um agricultor, plantou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda. Cã o pai de Canaã, vendo a nudez de seu pai, saiu e foi conta-lo aos seus irmãos. Mas Sem e Jafet, tomando uma capa, puseram-na sobre seus ombros e foram cobrir a nudez de seu pai, andando de costas; e não viram a nudez de seu pai, pois que tinham os seus rostos voltados. Quando Noé despertou da embriaguez, soube o que lhe tinha feito o seu filho mais novo. Maldito seja Canaã, disse ele; que ele seja o último dos escravos de seus irmãos! E acrescentou bendito seja o senhor Deus de Sem, e Canaã seja seu escravo. Que Deus dilate a Jafet; e este habite nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo! (BIBLIA CATÓLICA apud PRIORE & VENÂNCIO, 2004, p. 59) Junta-se a esse fato as Jihads em função da qual os africanos convertidos ao islamismo viam aquele nãopraticante da sua fé como necessário inimigo de guerra, podendo ser capturado e transformado em escravo. Penso que o Alcorão é claro: impunha-se dar combate e vencer quem não se convertesse, quem não aceitasse haver um só Deus, que tinha como profeta Maomé. O jihad ou guerra santa, destinados a ampliar os territórios sob a lei divina e o governo dos infiéis, era uma obrigações do crente. Nas batalhas, ganhava-se o os bens da terra. (SILVA, 2002, p. 31).

16 16 Aos mitos somava-se o racismo decorrente da pele negra, sempre associado ao mal, à escuridão. Os anjos eram brancos e o diabo era negro. Às teorias raciológicas somam-se as teorias evolucionistas influenciadas pelo naturalistas Lamark e Darwin e pelo filósofo Herbert Spencer. Leituras Complementares Equilíbrio de Antagonismos Gilberto Freyre defende a tese da democracia racial brasileira em Casa-Grande e Senzala. Leia novamente a afirmação anterior. Soa estranha? Traz alguma novidade? Poderia ter sido escrita de muitas outras maneiras. Por exemplo: Casa-Grande e Senzala apresenta o mito da democracia racial brasileira. Ou ainda: o Brasil de Casa-Grande e Senzala é uma democracia racial. Nada estranho, não é? Nem as aspas que isolam, funcionando como um cordão sanitário, a expressão democracia racial. Hoje em dia ninguém é louco a ponto de escrever que o Brasil é realmente uma democracia racial. Seria linchado em praça pública. As aspas estão ali para dizer que os autores das afirmações anteriores não acreditam no mito. Quem acredita? Quem acreditou? A frase hoje em dia ninguém é louco a ponto de escrever que o Brasil é realmente uma democracia racial, no seu todo uma declaração bem boba para prender a atenção do leitor, pressupõe ironicamente que em algum lugar do passado houve loucos que escreveram tal barbaridade. Se houve, entre eles não estava o Gilberto Freyre de Casa-Grande e Senzala. A expressão democracia racial, com aspas ou sem aspas, não aparece nesse livro. Alguém já tinha dito isso para você? É bem provável que não. Mas é a mais pura verdade: em nenhum dos capítulos de Casa-Grande e Senzala, incluindo as notas volumosas desses capítulos, está impressa a expressão democracia racial. Quem escreve que Gilberto Freyre defende a tese da democracia racial brasileira em Casa-Grande e Senzala leva o leitor a acreditar que a expressão democracia racial é usada explicitamente nesse livro, e que seu uso seria aí defendido como traço fundamental da sociedade brasileira. Leia Casa-Grande e Senzala (coisa que muita gente não faz justamente por acreditar que é o texto fundador do mito da democracia racial ): você verá que não é esse o caso. Além de todo o prazer da leitura (apontado por, entre outros escritores, João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto), você descobrirá talvez surpreendido que muitas passagens de Casa-Grande e Senzala podem mesmo ser citadas no panfleto mais furioso que pretenda refutar de uma vez por todas o tal mito da democracia racial. O que estou querendo dizer, sampleando uma ideia de Caetano Veloso, é curto e grosso: há no Brasil, e entre brazilianistas, um mito do mito da democracia racial. Esse mito ao quadrado inclui a ideia, sempre afirmada em termos imprecisos (como convém para a linguagem mitológica), de que o mito o primeiro da democracia racial teve origem em Casa-Grande e Senzala. Seria mais preciso dizer, se quisermos continuar fiéis aos jogos de espelhos dessa nossa metamitologia nacional, que o mito da democracia racial teve origem numa leitura apressada, tendenciosa ou burra de Casa-Grande e Senzala. Não escrevo este artigo para defender Casa-Grande e Senzala. Esse livro, talvez por ter gerado tantos mitos, talvez por ter tido o impacto que obviamente teve (Monteiro Lobato comparava a sua aparição com a do cometa de Halley), não precisa de defesas. Minha intenção aqui é apenas propor uma volta ao texto, deixando de lado as ideias preconceituosas contra o texto. Nesse sentido, penso estar dando continuidade, não autorizada e assumidamente malcriada (provavelmente mesmo irresponsável), a algumas ideias expostas de maneira muitíssimo bem-educada e sensata no livro Guerra e Paz (34 Letras, 1994), de Ricardo Benzaquem Araujo, um dos poucos autores contemporâneos que, com argumentos sólidos, tem coragem de não alimentar o mito do mito. Ricardo, com uma serenidade espantosa, escreve: ainda tenho, contudo, alguma dificuldade em concordar que a visão que Gilberto possuía da nossa sociedade colonial envolvesse, de fato, a afirmação de um paraíso tropical. Quem escreve que Casa-Grande e Senzala teria criado uma imagem quase idílica de nossa sociedade colonial, ocultando a exploração, os conflitos e a discriminação que a escravidão necessariamente implica atrás de uma fantasiosa democracia racial estaria divulgando uma meia-verdade, isto é, não se trata de uma falsidade ou de um equívoco, mas de uma afirmação que atinge apenas parcialmente o seu alvo.

17 A opinião de Ricardo é clara, nobre, defensável. A minha opinião é outra: as meias-verdades que já se tornaram clichês em comentários sobre Casa-Grande e Senzala não me parecem equivocadas: elas são realmente mal-intencionadas, pois escondem ou ignoram as suas numerosas passagens que tornam explícito o gigantesco grau de violência inerente ao sistema escravocrata. Então, além de mal-intencionadas, essas opiniões podem no meu entender, certamente não na interpretação de Guerra e Paz ser chamadas de mentirosas. Como dizer que Casa-Grande e Senzala criou uma imagem idílica da sociedade brasileira, se logo no prefácio de sua primeira edição aprendemos que senhores mandavam queimar vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando ao calor das chamas (lxxvii nota: todos esses números de página se referem à sua vigésima-primeira edição, lançada pela Livraria José Olympio Editora em 1981), ou ouvimos a história de um senhor que, na tentativa de dar longevidade às paredes de sua casagrande, mandou matar dois escravos e enterrá-los nos alicerces? (lxvii) Que país é esse? Que paraíso tropical é esse? Que democracia racial é essa? Como diz Ricardo Benzaquem de Araujo, para Gilberto Freyre o inferno parecia conviver muito bem com o paraíso em nossa experiência colonial. 17 É importante fazer uma seleção dos trechos infernais, pois eles são quase sempre esquecidos nas declarações anti- democracia racial. Casa-Grande e Senzala fala mesmo de uma tendência geral para o sadismo criado no Brasil pela escravidão e pelo abuso do negro (419), uma violência que integrava os mais diferentes aspectos da vida social, e ninguém escapava de sua prática. Mulheres espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas (337). As crianças inventavam brincadeiras onde galhos de goiabeira atuavam como chicotes: os muleques serviam para tudo: eram bois de carro, eram cavalos de montaria, eram burros de liteiras e de cargas as mais pesadas (336). O quadro geral da relação entre senhores e escravos é visto como produto de um senso pervertido das relações humanas (337). Contra os índios, os portugueses não foram menos cruéis: mandavam amarrá-los à boca de peças de artilharias que, disparando, semeavam a grande distância os membros dilacerados (155) ou inflingiamlhes suplícios adaptados dos clássicos às condições agrestes da América, como aquele onde amarra-se o índio a duas canoas, correndo estas, à força de remos, em direções contrárias até partir-se em dois o corpo do supliciado (155). Tudo isso era feito com uma especialização macabra (155). Gilberto Freyre fala explicitamente do extermínio da raça indígena no Brasil (157). Apesar de toda a propagandeada lusofilia de Casa-Grande e Senzala, em suas páginas muitas vezes os portugueses aparecem como vilões, desastrados ou estúpidos: A deformação do português tem sido sempre em sentido horizontal. O achatamento. O arredondamento. O exagero da carne em enxúndia. Seu realismo econômico arredondado em mercantilismo, somiticaria materialização bruta de todos os valores da vida (190). Um tendência ao que parece vitoriosa, já que, segundo Gilberto Freyre, o português moderno aparece já tão manchado de podre (190): é um povo que vive a fazer de conta que é poderoso e importante (192); que finge esquecer que no passado [s]eria ele o corruptor, e não a vítima (242); que já era predisposto ao regime de trabalho escravo (242) antes da Grandes Navegações; e que, já de si melancólico, deu no Brasil para sorumbático, tristonho (462), gerando um brasileiro de classe mais elevada, geralmente sifilítico, que tem o mórbido deleite em ser mau (370). Todo esse horror digno da narrativa de Coração das Trevas ou Apocalypse Now pode ser resumido com as seguintes palavras de Gilberto Freyre: Há tanto que criticar na política dos colonizadores portugueses no Brasil que para acusá-los de erros tremendos não é necessário recorrer à imaginação (414). Poderia gastar páginas e páginas destacando trechos como esses. Nem tratei ainda da crítica radical que Gilberto Freyre faz da monocultura e do açúcar. Mas penso que a seleção citada já compõe um dos panoramas mais medonhos que podem ser encontrados em livros que pretendem dar conta da história cultural de seus países. Como então é possível que tanta gente descreva o Brasil de Casa-Grande e Senzala como um paraíso tropical? Como foi possível se criar, a partir de um livro que contém trechos tão sinistros, o mito otimista da democracia racial? A resposta é simples: eu também poderia gastar páginas e páginas destacando trechos que têm sentidos opostos aos anteriores e que, em seu conjunto, podem facilmente compor uma imagem idílica da sociedade brasileira. Citarei alguns dos mais bandeirosos (e mais usados nos ataques anti-gilberto Freyre), para ninguém dizer que não falei de flores. Por exemplo: salientemos a doçura nas relações de senhores com escravos domésticos, talvez maior no Brasil do que em qualquer outra parte da América. (352) O português teria sido o

18 18 menos cruel na relação com os escravos. (189) O regime brasileiro é em vários sentidos sociais um dos mais democráticos, flexíveis e plásticos, pois entre nós seria possível encontrar a fusão harmoniosa de tradições diversas, ou antes, antagônicas, de cultura. (52) E ainda: Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça (91). Resumindo: o português fundou no Brasil a maior civilização moderna nos trópicos. (190) Paraíso tropical, é claro (e preferi nem tocar na mais fascinante e revolucionária provocação freyreana: o elogio da miscigenação). Torna-se consequentemente também fácil, para um crítico de Gilberto Freyre, ater-se aos trechos paradisíacos e atacar toda a obra. Muito fácil, de uma facilidade que poderia ser até classificada como covarde. Assim o crítico se esquivaria de se debruçar sobre a grande questão de Casa- Grande e Senzala, seu ponto mais difícil: como, até mesmo em parágrafos vizinhos, o inferno pode conviver com o paraíso; como é possível retirar imagens tão antagônicas do Brasil (amor e ódio) de um mesmo livro. Ricardo Benzaquem de Araujo bem demonstra: a principal pista para a elucidação dessa dificuldade gira em torno do significado de uma curiosa expressão empregada fartamente por Gilberto Freyre: equilíbrio de antagonismos. Voltemos ao texto de Casa-Grande e Senzala, para os devidos exemplos. Inicialmente essa expressão aparece para descrever a cultura dos colonizadores: gente mais flutuante que a portuguesa, dificilmente se imagina; o bambo equilíbrio de antagonismos reflete-se em tudo que é seu (6). O bambo praticamente inventa o Brasil: o que dá à formação da sociedade brasileira um caráter especialíssimo e sui generis é estar igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre antagonismos (8). Um caráter explicitamente valorizado por Gilberto Freyre: a potencialidade da cultura brasileira parece-nos residir toda na riqueza dos antagonismos equilibrados (335). Todo Casa-Grande e Senzala, que é assumidamente um ensaio (67) onde faltam conclusões enfáticas (liv), e não uma tese, parece ter sido construído com uma missão: salvaguardar esse equilíbrio de antagonismos sempre precário, fragilíssimo, que facilmente pode degenerar em conflito de antagonismos, a parte indigesta (201) balcanizada (343) - de qualquer civilização. Portanto Gilberto Freyre fareja, quase desesperadamente, qualquer indício de confraternização. Esse valorizar, certamente trágico, não nega a existência do conflito, e acho mesmo que tem como premissa o postulado de não haver sociedades sem conflito. O evolucionismo de Casa-Grande e Senzala não profetiza, para o fim da história, uma sociedade sem conflito, onde o conflito desaparecia absolutamente. A metafísica social de Casa-Grande e Senzala é relativista: existemapenas sociedades nas quais os conflitos estão mais em equilíbrio do que em outras. Casa-Grande e Senzala é, então, um livro do ainda assim. Uma passagem importantíssima para esclarecer esse seu aspecto central é a seguinte: Sem que no Brasil se verifique perfeita intercomunicação entre seus extremos de cultura ainda antagônicos e por vezes até explosivos, chocando-se em conflitos intensamente dramáticos como o de Canudos ainda assim podemos nos felicitar de um ajustamento de tradições raro entre povos formados nas mesmas circunstâncias imperialistas de colonização moderna dos trópicos (159). O elogio é quase arrancado a tapas, e só pode ser feito nessas mesmas circunstâncias, e em comparações com outras colonizações tropicais. (Outros elogios -como aqueles citados quatro parágrafos acima - também são sempre relativos, comparativos, nunca absolutos.) É muita vontade de gostar do Brasil ainda assim, apesar de tudo! Gostar? Gilberto Freyre inventou um jeitinho especialíssimo de gostar do Brasil. Se você chegar até o final de Casa-Grande e Senzala, vai deparar-se com uma penúltima frase desagradável: é apenas a enumeração de vinte e seis doenças. O livro termina com uma citação pouquíssimo conclusiva: Os vermes e particularmente a toenia, e as ascarides lombricoides abundão muito, acrescenta Jobim (464). Estranho arremate para a descrição de um paraíso tropical. (Hermano Vianna - Publicado no caderno Mais!, da Folha de São Paulo, 12/03/2000, páginas 21 e 22)

19 ÁFRICA: BIOGRAFIA DE UM CONTINENTE 19 PRÓLOGO Os antepassados de toda a humanidade evoluíram a partir da África. As mais antigas provas de sua existência foram descobertas na África Ocidental, em locais disseminados a norte e a sul do Equador. Tais provas consistem em ossos fossilizados, utensílios líticos e, a mais impressionante de todas, um rasto de pegadas preservadas numa superfície petrificada de cinza vulcânica. Três indivíduos dois adultos e um jovem há mais de três milhões de anos, caminharam em direção ao norte, afastando-se sem grande pressa de um vulcão que, nas suas costas, expelia nuvens de cinzas sobre a paisagem. As pegadas encaminhavamse para os bosques e pradarias atualmente conhecidos como as planícies do Serengeti. Os antepassados humanos fizeram a sua vida a partir de e entre os animais, com os quais partilhavam a paisagem. Eram figuras diminutas nem corpulentos nem numerosos que não existiram em mais parte nenhuma da Terra, ao longo dos quatro milhões de anos que se seguiram. A espécie humana moderna, o homo sapiens, dotada de cérebro volumoso e capacidade de inovação, evoluiu a partir de um tronco ancestral, em finais daquele período. Há cerca de anos, grupos de homens modernos deixaram a África pela primeira vez e progressivamente colonizaram o resto do mundo. O seu talento inovador conduziu-os a todos os nichos utilizáveis. Deslocaram-se através da península do Sinai e viveram na região oriental do Mediterrâneo há cerca de anos. Tinham alcançado a Ásia e a Austrália há e a Europa há anos. Há cerca de anos tinham atravessado o estreito de Bering e tinham chegado ao extremo mais meridional da América do Sul cerca de anos. A última grande massa de terra habitável, a Nova Zelândia, foi colonizada há 700 anos. Apesar de ser apenas o segundo maior continente, África constitui 22% da superfície sólida da Terra. A China, os Estados Unidos, a Índia e a Nova Zelândia cabem dentro das suas linhas costeiras, juntamente com a Europa, do Atlântico até Moscovo e grande parte da América do Sul (a superfície total desses países soma quilômetros quadrados). O deserto do Sara, só por si, é tão grande como os 48 estados contíguos dos Estados Unidos (e nem sempre foi desértico pelo contrário, o Sara, durante extensos períodos da sua história geológica, teve muita água e até foi arborizado). No interior do continente, as distâncias são imensas quilômetros desde o Cabo da Boa Esperança, a sul, até ao Cairo, a norte e aproximadamente a mesma distância desde Dacar, a ocidente, até à extremidade do Corno de África, a leste. O Nilo é o rio mais extenso do mundo quilômetros desde a nascente até a foz; os rios Zaire e Níger ambos têm mais de quilômetros de comprimento; só o Zaire banha uma bacia que cobre 3,7 milhões quilômetros quadrados, mais ampla do que toda a Índia (3,2 milhões de quilômetros quadrados); à escala mundial, só a bacia do Amazonas lhe é superior 7.05 milhões de quilômetros quadrados. O tamanho de um continente é importante, mas a posição que ocupa no globo terrestre é também vital, em termos do potencial ecológico que oferece à população humana. A Antártida, por exemplo, tem uma superfície de dezesseis milhões de quilômetros quadrados e o que oferece é nada. África, em contrapartida, cavalga o Equador e tem imenso para dar. É a mais antiga e a mais estável massa sólida sobre a Terra e o berço evolutivo de um número incontável de espécies vegetais e animais incluindo o homem. E apesar de a humanidade ter evoluído em África e ser evidentemente uma expressão da excepcional fecundidade do continente, as espécies parecem ter sido incapazes de explorar plenamente o seu potencial, dentro das fronteiras do continente quer em termos de número quer de realizações. Se a civilização moderna e a cultura tecnológica são consideradas o apogeu das realizações humanas, então é pouco provável que o modo de vida material a que a maior parte da humanidade correntemente aspira se tivesse desenvolvido se o homem moderno, em pequenos bandos, não tivesse deixado África há anos. Todos os marcos aceites da civilização apareceram primeiro em locais não africanos a metalurgia, a agricultura, a escrita, a fundação de cidades. Não se trata de fazer um julgamento qualitativo. Mas, quem sabe, por influência da população exterior a África, poderia ter-se desenvolvido em África uma civilização alternativa, superior à moderna civilização

20 20 e à sua cultura tecnológica. Na verdade, a arte civilizada de viver pacificamente em pequenas sociedades, sem a formação de estados, evidente em África antes da chegada de influências externas, é uma contribuição tipicamente africana para a história do homem. E em qualquer acontecimento, civilização, cultura e tecnologia são apenas recentes se não efêmeras expressões da condição humana. a biologia é, de longe, a mais relevante. Mas também aqui existem diferenças que precisam de ser explicadas, particularmente em termos das potencialidades de crescimento da população humana. Os governantes imperiais chineses realizaram um recenseamento no século II e concluíram que pelo menos 57.6 milhões de pessoas viviam na China naquela altura. Da mesma maneira, documentos escritos garantem que a população o Império Romano, no ano de 14 d.c., rondava os 54 milhões de habitantes. A população da Índia durante o mesmo período não deveria ser inferior à do Império Romano e, provavelmente, pelo menos o mesmo número de pessoas habitava a América e a Austrália. Assim o homem moderno que emigrou de África há cerca de anos, embora possivelmente não tenha constituído um grupo com mais de uma centena de emigrantes, multiplicou-se até atingir, nos inícios da era moderna, uma população global superior a 200 milhões de pessoas. Este impressionante crescimento dos números condiz plenamente com os níveis da capacidade reprodutora do homem e exige uma pergunta: se este foi o limite alcançado pela população humana não africana, o que se passou com a população que permaneceu no continente? O número e pessoas que habitavam África quando os emigrantes dali partiram, há anos, foi calculado em cerca de um milhão. Por volta do ano 200, o seu número subiu para 20 milhões mais de metade das quais viviam no Norte de África e no vale do Nilo (tendo, portanto, feito parte da população do Império Romano, no ano 14 d.c.), deixando a população subsariana abaixo dos 10 milhões. Em 1500, avaliou-se que a população do continente deve ter rondado os 47 milhões de habitantes, num estado de equilíbrio biológico estável, com o tamanho da população adaptado às potencialidades dos meios que as pessoas ocupavam. Entretanto, a população fora de África tinha subido acima dos 300 milhões de habitantes. É evidente a enorme disparidade existente. Enquanto a população para lá de África cresceu, de poucas centenas até atingir 200 milhões em anos, atingindo quase os 300 milhões por volta do ano 1.500, a população africana aumentou de um milhão para não mais de 20 milhões nos mesmos anos, tendo atingido apenas 47 milhões por volta de Ambos os grupos tiveram origem no mesmo tronco evolutivo. Ambos os grupos herdaram os talentos e os atributos fisiológicos que a evolução lhes tinha outorgado ao longo dos quatro milhões de anos precedentes, em África. Por que motivo a população migrante cresceu tão depressa? Ou, para abordarmos a disparidade por um outro prisma, o que impediu a população africana de atingir idênticos níveis de crescimento? Uma vez que o tronco genético ancestral foi o mesmo, a história divergente dos dois grupos implica que tenha sido a própria África, de certo modo, a responsável por esta situação. Neste caso, uma biografia do continente, ao apontar os processos de desenvolvimento geológico, biológico, ecológico e antropológico desde os inícios até os dias de hoje, poderia lançar alguma luz sobre o assunto, iluminando a história da interação humana com África nos tempos passados e talvez oferecendo algumas explicações sobre o estado do continente em finais do século XX. (READER, John. África: biografia de um continente. Lisboa: Europa-América, p ) A CONSTRUÇÃO DE UM CONTINENTE Os processos que criaram a configuração dos continentes e a paisagem terrestre predominante encontram-se excepcionalmente bem exemplificados no caso de África, onde as particularidades da primitiva geologia dotaram o continente de jazidas imensas de riquezas minerais. No ponto de vista mais meridional, onde a África se encontra com o oceano, o mar apresenta um aspecto revolto e desorganizado, faltando-lhe completamente a progressão ordeira das vagas, que parecia adequa-

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