XIII Encontro de Iniciação Científica IX Mostra de Pós-graduação 06 a 11 de outubro de 2008 BIODIVERSIDADE TECNOLOGIA DESENVOLVIMENTO

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1 XIII Encontro de Iniciação Científica IX Mostra de Pós-graduação 06 a 11 de outubro de 2008 BIODIVERSIDADE TECNOLOGIA DESENVOLVIMENTO EPH0244 ACORDA, VEM VER A LUA... : UMA ANÁLISE CULTURAL DA LENDA DO LOBISOMEM ADRIANA DE OLIVEIRA ALVES CORREIA MAYARA DE OLIVEIRA SILVA UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ-UNITAU Introdução Esta pesquisa abordou a temática da lenda do lobisomem e sua íntima relação com a lua, a partir do estudo das intrínsecas relações entre o aspecto o mítico e o real. Para compreender uma lenda, como neste caso, a lenda do lobisomem, é preciso refletir sobre conceitos como cultura, lenda e folclore. O homem se difere dos outros animais por ser capaz de gerar cultura, ou seja, por criar símbolos socialmente compartilhados. Entretanto, ao contrário do senso comum o conceito de cultura não se restringe à erudição, ou seja, a cultura é múltipla, é característica do ser humano que, a partir do contexto em que vive dialoga com o mundo por meio de suas manifestações culturais. Essas manifestações diferem-se basicamente... sob o limiar da escrita...", pois, segundo Alfredo Bosi, cria-se uma fronteira entre cultura erudita e cultura popular, a partir da escrita. Sendo assim, todos os povos possuem sua cultura, independente de ser letrado ou não, como diz Manuela Carneiro da Cunha (2004): "a cultura não seria, nessa visão, um conjunto de traços dados e sim a possibilidade de gerá-los em sistemas perpetuamente cambiantes (p. 129). Com base nessa

2 premissa, é possível investigar o modo como as lendas emergem das culturas que as produziram e mudam de acordo com a dinâmica sócio-histórica na qual se inserem. O folclore é um gênero da cultura popular, fundamentado na oralidade e que aborda tradições e costumes manifestados em contos, provérbios, canções, mitos e lendas. As lendas são narrativas criadas a partir da realidade e moldadas às culturas de acordo aos lugares geográficos, transmitidas oralmente de geração para geração, como afirma Luís da Câmara Cascudo (1976): As lendas são episódio heróico ou sentimental com elemento maravilhoso ou sobre-humano, transmitido e conservado na tradição oral e popular, localizável no espaço e no tempo. De origem letrada, lenda, legenda, legere possui características de fixação geográfica e pequena deformação e conserva-se as quatros características do conto popular: antigüidade, persistência, anonimato e oralidade. É muito confundido com o mito, dele se distância pela função e confronto. O mito pode ser um sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço [...] (p.348) A lenda do lobisomem teve seus primeiros registros na mitologia grega, que narra a transformação de Licaão em lobo por Zeus como castigo de ter comido carne humana. Ao longo do tempo essa lenda se disseminou pelo mundo.na Europa havia, desde tempos remotos, vários relatos de canibalismo - milhares de pessoas no século XVI foram condenadas à inquisição acusadas de bruxaria, e de serem lobisomens. Isso provavelmente associado com a miséria, doenças, e fome daquela época. Foi no período da Idade Média, que os lobisomens ficaram conhecidos como seres malignos para a sociedade. Nos tempos atuais, a leda do lobisomem é contada de diversas formas. Em Portugal, a lenda diz que, em noite de lua cheia, a pessoa que sofre desse mal vaga pela noite tendo que percorrer sete castelos e voltar para casa antes do nascer do sol. Já a versão brasileira diz que, se depois de seis filhas mulheres nascer um filho homem, este será lobisomem, e se transformará em noite de lua cheia numa encruzilhada. Apesar das diferenças observadas, verificou-se que em todos os casos esta lenda será relacionada com a lua, que, de acordo com certo consenso científico, interfere no comportamento humano. Objetivos O objetivo desta pesquisa foi mostrar que as lendas têm origem no plano da realidade e que, é a partir de elementos de um contexto histórico, que se criam histórias de acordo com as condições sociais, as crenças populares e a cultura de um povo.

3 No Brasil, a cultura popular de certa forma é banalizada - vista como mero artesanato - e muitas vezes confundida com folclore, que é uma de suas vertentes. Além disso, cristalizou-se uma noção pejorativa em relação à cultura popular em detrimento da popular. Não se sabe ao certo a data ou o ano em que surgiu a tão famosa lenda do lobisomem, mas existem relatos de que desde o século 10 a.c. um povo assumia aparência de lobo por alguns dias durante o ano, a partir disso, essa lenda foi sofrendo alterações. A multiciplidade e pluralidade cultural brasileira foram fatores mais fortes ainda para propiciar o processo de apropriação dessa lenda que foi sendo alterada e moldada de acordo com cada região do país e isso se comprova com tantas versões existentes sobre o lobisomem. A lenda foi se lapidando pela nossa cultura e sofrendo descaracterização de suas origens (o plano do real original) e mimetizada cada vez mais, perdendo um pouco de sua essência mítica e sendo folclorizada. A folclorização dessa lenda ocorreu também pela hereditariedade, ou seja, a lenda foi passando de geração em geração, com isso perderam-se características e objetivos de ser contada; se antes as pessoas acreditavam em lobisomem pela prática de canibalismo, e por tudo que acontecia na época, hoje a lenda é contada como divertimento para as crianças. De acordo com Robert Darnton, muitas lendas, como por exemplo, a da Chapeuzinho Vermelho, estudada por ele, passaram por esse processo. Outro ponto a ser destacado nesta pesquisa é a investigação da relação da lua com a lenda do lobisomem e com o próprio ser humano, que contempla pela sua beleza, misticidade e a forma poética de como ela é tratada. Metodologia Metodologicamente, esta pesquisa foi desenvolvida a partir do levantamento bibliográfico das versões da lenda do lobisomem registradas em diferentes períodos e por diferentes culturas, enfatizando suas apropriações no Brasil. A discussão teórica dos conceitos de cultura, cultura popular, lenda e folclore, compôs a fundamentação deste estudo. Esta é portanto, uma pesquisa qualitativa com base nos preceitos da História Cultural. Resultados e Discussão Em O Grande Massacre de Gatos, Robert Darnton (1986) afirma que a lenda "parece sugerir que as condições sociais determinaram as crenças populares" (p.331). E é assim que

4 acontece com a lenda do lobisomem, pois, verificou-se que a condição social da Europa na Idade Média fez com que fossem encontradas práticas de canibalismo. Essa prática, motivada pela intensa miserabilidade do período foi justificada e explicada a partir de sua associação com pessoas que sofrem de problemas psicológicos e por influência da lua transformam-se em lobos e praticam crimes de canibalismos. Esse processo de folclorização depende das circunstâncias de cada local, e fazendo parte da realidade de, e da necessidade de como contar de cada povo, é como diz Marcos Ayala e Maria Ignez Novais Ayala em Cultura Popular no Brasil (2006) tanto na análise da organização social dos grupos infantis e das influências socializadoras do folclore correspondente, quanto em outras direções interpretativas, que tomaram por objeto: a motivação ou os efeitos sócias das práticas mágicas; o uso, o significado e as funções sociais das cantigas de ninar; as relações dinâmicas das adivinhas com o comportamento manifesto dos agentes humanos com a mudança social na cidade de São Paulo etc. ( p.35) A lenda do lobisomem sofreu diversas modificações a partir de suas origens, se descaracterizou e se ressemantizou nos diversos contextos e culturas, caracterizando-se como uma lenda e, conseqüentemente, como uma manifestação da cultura popular. Como disse Alfredo Bosi, Dialética da Colonização, começar pelas palavras talvez não seja coisa vã. Buscar na etimologia da palavra lobisomem vestígios de suas apropriações, talvez ajude a compreender a esse universo tão mítico e tão real. De acordo com o Dicionário Houaiss, a contração das palavras lobo e homem foi usada, provavelmente, pela primeira vez no século XVI, entre A cultura popular - que utiliza como principal veículo de transmissão a oralidade é mais propícia a ser moldada e apropriada de acordo com as mais diversas culturas. Essa apropriação ocorre pela necessidade de identificação e reprodução do mundo que conhecem e vivem. O folclore só é compreensível quando incorporado à vida da comunidade. É preciso substituir as descrições analíticas, com cheiro de museu, que destacam os fatos da realidade em que estão imersos e da qual recebem um sentido, por uma descrição sociológica que situe no interior dos grupos. Infelizmente essa tentativa esbarra em algumas dificuldades. Se é verdade que dispomos de numerosas monografias bem feitas sobre alguns fatos, essas monografias geralmente não consideram senão um aspecto do folclore, estudando-o à parte, como uma peça de museu, fora do conjunto estrutural de que esse elemento faz parte. (AYALA e AYALA, 2006, p.32)

5 A cultura popular utiliza-se de referências simbólicas e econômicas as quais tem acesso para criar e repassar suas manifestações culturais: [...] o povo realiza estes processos compartilhando as condições gerais de produção, circulação e consumo do sistema em que vive [...] e por sua vez criando suas próprias estruturas. Portanto, as culturas populares são construídas em dois espaços: a) as práticas profissionais, familiares, comunicacionais e de todo tipo através dos quais o sistema capitalista organiza a vida de todos os seus membros; b) as práticas e formas de pensamento que os setores populares criam para si próprios, mediante os quais concebem e expressam a sua realidade, o seu lugar subordinado na produção, na circulação e no consumo. (CANCLINI, 2006, p43) O lobisomem se associa diretamente com o fenômeno de crescer pelos no corpo, a transformação da personalidade e principalmente a relação com a lua, qual desencadeia todos esses efeitos, e nos possibilita a pensar sobre a verdadeira influência da lua no comportamento do ser humano, sem essa idéia estereotipada de homens que se transformam em lobos, mas sim como o fenômeno da lua alinhada com o sol faz com que pessoas mudem seu comportamento. Esse pensamento leva à seguinte hipótese: se a lua influencia as marés, deixando o mar agitado no período da lua cheia, ela pode também influenciar no ser humano já que nosso corpo é formado por cerca de 70% de água. Há estudos que constataram que no período da lua cheia assassinatos, crimes de violência e delitos sexuais são mais comuns. Algumas pessoas mais sensíveis ao fenômeno da lua têm sintomas como irritação, insônia, e enjôos. Há relatos no mundo todo acerca dessa lenda. No Brasil, como verificou-se a partir da investigação nos veículos de imprensa, há relatos de lobisomens em diferentes Estados, tais como, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Como a cultura de um povo está num constante processo contínuo, cria-se também uma constante necessidade de modificação das coisas e do mundo para adaptar-se ao contexto vivido, [...] a especificidade das culturas populares não deriva apenas do fato de que a sua apropriação daquilo que a sociedade possui seja menor e diferente; deriva também do fato de que o povo produz no trabalho e na vida formas específicas de representação, reprodução e reelaboração simbólica de suas relações sociais. (CANCLINI, 2006, p.43) Conclusão

6 A partir da realização desta pesquisa foi possível concluir que, apesar da lenda do lobisomem ter sido folclorizada e apropriada por diversos povos e por suas respectivas culturas, ela foi, invariavelmente, mimetizada a partir de um contexto real assim como todas as lendas que se concretizaram a partir de fatos históricos. Buscou-se mostrar, em específico na lenda do lobisomem, como a lua é capaz de influenciar o comportamento do homem, e como é possível reunir em uma só lenda o real, o mítico, e a influência da lua na mente humana, no comportamento e na representação cultural desse fenômeno. Referências: AYALA, Marcos e AYALA, Maria Ignes Novais. Cultura Popular no Brasil. São Paulo: Ática, 2006 (Série Princípios) BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas. Trad. Ana Regina Lessa. São Paulo: EDUSP, CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 9º ed. Brasília: J. Olympio, INL, DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos, e os outros episódios da história cultural francesa / Robert Darnton; tradução de Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, SILVA, Aracy Lopes da e GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. (orgs.) A temática indígena na escola: novos subsídios para professores de 1º. e 2º. Graus. Brasília: MEC, MARI, UNESCO, 2004.

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