Madness relocated and adolescence: Discussion of a psychoanalytically oriented interview

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1 A loucura deslocalizada e a adolescência: Discussão de uma entrevista de Orientação Psicanalítica Madness relocated and adolescence: Discussion of a psychoanalytically oriented interview Maria Rachel Botrel Psicóloga pela Universidade Fumec (1996) Psicanalista - Escola Brasileira de Psicanálise - seção Minas Gerais Endereço para Correspondência: Rua Piauí, 69/502, Santa Efigenia - Belo Horizonte MG CEP: Resumo: O artigo refere-se a um comentário realizado em uma conversação clínica sobre uma entrevista com adolescente. Trata-se de se deparar com formas de uso da linguagem e do sintoma na invenção do sujeito, no sentido de fazer laço e vínculo com o Outro. Palavras-chave: Conversação Clínica; linguagem; psicanálise; adolescente. Abstract: The article refers to a comment made in a conversation on a clinical interview with a teenager. It is faced with forms of language use and symptom in the subject invention, in order to make bond and bond with the Other. Keywords: Clinical Conversation, language, psychoanalysis, and adolescent. 1

2 O convite para participar da VI Conversação clínica me faz produzir sobre minhas inserções institucionais mais recentes e interrogar sobre as consequências dos limites do simbólico na nossa prática. Constatamos que na clinica, cada vez mais, nos deparamos com sujeitos que nos chegam sem uma questão. Eles nos são trazidos pelas famílias, encaminhados pelas escolas (com seus termos de condicionalidade), pelas instituições em geral por motivos que, muitas vezes, não lhes causam sofrimento. As crianças e adolescentes, contudo, têm nos mostrado as soluções que têm encontrado para além do simbólico, o que muito têm nos surpreendido. São sintomas que não encontram, no laço social, uma forma de articulação com o Outro. Sintomas que são denunciados pelo Outro que, frequentemente, não querer se implicar no enfrentamento do caso. O Outro denuncia como algo está fora de ordem, mas o sujeito não se vê representado pelo sintoma, e nem mesmo faz uma tentativa de vinculação. Os sintomas atuais colocam em primeiro plano, como nos indica Miller, uma vertente da linguagem que toca a pulsação mais intima da experiência analítica. Lá onde a palavra perde sua função de comunicação, de informação, para não ser outra coisa que a palpitação de um gozo. Nessa direção, o simbólico deixa de se articular ao sentido e sua função passa a ser a de aparelhar o gozo, quer dizer, dar-lhe corpo, substância, materialidade. Quando nos apoiamos no seminário sobre o sinthoma, percebemos que o Nome-do-Pai trazia a crença humana de que há sentido no real. A partir do momento que o Nome-do-Pai deixa de ser a garantia de que, gozo e sentido não se separam, surge o Outro barrado, ou seja, o Outro marcado pela inconsistência ou pela incompletude. Ao barrar o Outro, Lacan aponta para a impossibilidade de uma relação de alteridade estabelecida nos moldes de problemasolução. Nem todo problema encontrará uma solução no campo do Outro; trata-se de um ordenamento simbólico repleto de restos que são excluídos de qualquer sentido. Há a constatação de que as respostas do Outro são insuficientes. É possível identificar um percurso que vai de uma clinica lacaniana que tem o Nomedo-pai como garantia simbólica suficientemente consistente, que diferencia neurose e psicose com base no Nome-do-Pai e sua foraclusão, para a clínica lacaniana que reconhece a inconsistência do Outro, vacilando profundamente o modo como o sujeito constrói uma resposta para sua existência. A inexistência do Outro condiciona, nos diz Miller (2003), o sujeito a se tornar inventor. O sujeito é particularmente levado a instrumentalizar a linguagem. 2

3 O termo invenção está profundamente ligado à noção de que o Outro não existe, profundamente ligado à idéia de que o Outro é uma invenção. O meu convite hoje é para conversarmos sobre a questão que o caso Lucas suscitou em mim: qual a invenção que tem ancorado este sujeito? Poderíamos pensar que o modo como Lucas se apresenta na entrevista seria uma invenção, uma maneira de fazer uso da linguagem? Isso eu não posso falar não, sô. Tem nem como falar não. Tem nem como falar isso não, sô. Não lembro não. Não lembro. Tem um tempão A droga acaba com os neurônios. Não! Aí não, né? Esquecer onde eu morava? Não tem como falar não. Tem um tempão já. Não sei o que ele tava fazendo não. Não sei nada da vida dela não, sô! Não gosto, não converso, não faço nada. Lógico que não! Nada. Não gosto de nada Não posso explicar isso não. Não gosto de conversar. Não posso explicar isso não Tenho (lembrança) não, sô. Nem lembro não. Tem um tempão. Não lembro do passado não, sô. A droga comeu os neurônios. 3

4 Eu não gosto de comentar não. Não penso no futuro não. Ao me deparar com essa pulsação cadenciada fui remetida a algumas discussões com Célio Garcia, em que ele propõe uma leitura do livro Bartleby, o escrivão de Herman Melville ( ), onde o protagonista, que é escrivão, introduz a frase preferiria não às demandas do chefe do escritório em que trabalhava. Uma escuta apressada poderia tomar o preferiria não como marca de abandono, de desistência, como mero enfrentamento ou demonstração de revolta. No entanto, Célio entende que o preferiria não apontava para uma invenção a ser explorada - invenção comentada por Miller como "uma criação a partir de materiais existentes - uma bricolagem." O desafio colocado seria sair do campo relacional do laço social, relacionamento social, da inserção, para entender o enunciado de modo literal. Ele diz preferiria não e não prefiro não ou não me importo. A resposta de Bartleby ao chefe, não nega o predicado; antes, afirma um não-predicado: ele não diz que não quer fazer, diz que prefere não fazer tal coisa, reservando-se a possibilidade futura, mantida em suspenso. Uma leitura apressada da resposta de Bartleby, poderia nos remeter, nos adverte Célio, a uma posição marginal que não leva a nada. Trabalhando o caso Lucas nessa perspectiva, pensamos que ao responder com várias modalidades linguísticas às perguntas da entrevistadora, ele não recusa o dispositivo da entrevista. Não se nega a dizer e serve-se do simbólico para dizer que tem nem como falar isso não. Quando interrogado sobre outras coisas ele nos mostra que não sustenta uma posição débil. Explica-nos muito bem o que estava fazendo ali, e o que tem que fazer para sair dali, e considera a complexidade que é "mudar de vida". Utiliza de certo cinismo ao enfatizar que "é obvio" que ele sabe de muitas coisas e que não está em uma posição de não saber: Não, aí não, né!? Esquecer de onde eu morava? É importante observar que a posição de Lucas não faz apelo à tolerância, nem tão pouco à inclusão. Lucas não me parece adepto de uma "pedagogia corretiva". Ele se mantém firme na posição em que se instalou. Célio Garcia nos convida a imaginar as variedades desse gesto no espaço público atual. Os chamados espaços da contemporaneidade. Há grandes oportunidades de uma nova carreira aqui! Junte-se a nós. 4

5 Ou também: Descubra as profundezas do seu verdadeiro eu, encontre a paz interior! Ao que Lucas parece responder "aí não, né", ou como escutamos na voz dos meninos: me inclui fora dessa, e assim por diante. Assim, o tem nem como falar isso não, seria o gesto de Lucas que poderia ser escutado como o que resta do complemento da Lei quando seu lugar é esvaziado de todo conteúdo superegóico obsceno? Laurent (2011) nos adverte que a estrutura de linguagem não mais dá conta de tocar o sujeito em sua invenção, no entanto é preciso, como acompanhamos o esforço de Ana Lydia, insistir por meio da fala, pois não temos outro instrumento para articular essa invenção. A condução da entrevista demonstra o cuidado em não procurar algo que saciaria um furor terapêutico, mas em poder encontrar e se interessar pela invenção deste adolescente. Laurent (2011) enfatiza que o fato do tratamento analítico se orientar pelo Real não quer dizer que ele se oriente para o real. Antes se trata de que o real seja o que dirige o tratamento, assim como o que dirige nossas vidas e nossas instituições. E há que saber localizá-lo e lidar com ele a cada vez, sem deixar-se aspirar por completo. E nos orienta que se por um lado, ninguém mais sabe do que ele ou ela fala, por outro, o único limite, ou seja, o único momento em que toda essa atividade ganha um sentido, é o momento de angustia. Ou seja, o ponto de real só é alcançado quando o sujeito dá testemunho de sua angústia. Extraímos o momento da entrevista em que supomos que foi possível localizar um ponto de angustia de Lucas. AL: Dá pra você me contar alguma? (do que ele não gosta na mãe). L: Dá não. AL: Por quê? Nossa você guarda muita coisa com você. L: De ruindade eu guardo mesmo. AL: De ruindade? Assim você acaba virando um cofre de ruindade, tem que soltar um pouquinho. Não tem ninguém aqui para você falar sobre essas coisas? E essas ruindades? O que acontecia? O que acontecia de ruindade? L: Ah, muitas coisas. 5

6 AL: O quê? Conta uma. É difícil falar disso? L: Eu não gosto de comentar não. AL: Mas você sabe que é importante você comentar isso com a pessoa que te atende aqui? Com a psicóloga que te acompanha. É, mas é dessas coisas que te incomodam que a gente conversa. Por que lá, aqui tudo bem, tem muita gente. Mas lá, o que você for falar com ela vai ficar entre você e ela. Que o que você conversar com ela vai ficar entre vocês dois? Que ela não vai falar para ninguém? L: Ela já me falou esses trens. AL: Então, é importante você comentar, se não, só fica guardando essas coisas ruins, sendo que as coisas poderiam ser diferentes para você... Isso que você está chamando de as maldades. É assim mesmo que você chama? E desse lado das maldades tem mais alguém? Tem as professoras, tem sua mãe. Tem mais alguém que seja colocado por você? Quem? L: A polícia me confundiu com outra pessoa, com os meninos lá perto de casa. O cara fez de ruindade. AL: De novo as maldades, confundiram você com outro. Então tem as maldades da polícia também. Tem mais alguma? L: Polícia. Já apanhei demais. Meu irmão também estava envolvido. AL: Seu irmão? A polícia pegou seu irmão e você apanhou também? L: Foi. Covardia demais. AL: Covardia? L: É, bateu em nós. Deu tiro lá. AL: É, algumas vezes você foi confundido com outra pessoa. E quase pagou o pato. L: Quase. AL: Falaria que essas são as maldades, é? E teve mais alguma coisa que aconteceu com você? L: Não sei, porque se não eu vou morrer lá. 6

7 AL: Alguém já morreu? Porque iria acontecer isso com você, iriam dar um tiro para o seu lado? L: O cara chegou lá na boca e deu um tiro para o meu lado. AL: Ah é? Mas ele sabia o que estava fazendo? L: Sabia o que estava fazendo, ué. AL: Você acha que ele tinha algum motivo para fazer isso? L: Ele gostava de incomodar, ué. Mas posso buscar um revolver e matar ele. Lógico, ele me matou e eu vou matar ele. AL: Mas ele te matou? L: Não, se ele me matar, vou matar ele... Se não eu vou morrer. Não matou porque fui acautelado lá no CEIP. AL: Bom, então agora já são três maldades. Tem mais alguma? L: Ah, matar os outros lá, ué. AL: Como que é? L: Dá uma briga e ter que matar os outros. Eu fui lá, mas ele não tava lá não. AL: Agora você está falando das suas maldades? L: Isso. AL: E que cara que é esse, que você quer matar? L: Um cara lá. AL: Que cara? Que ele fez para você? L: Queria me dar facadas. AL: Então essa é uma maldade, ele queria te dar facadas. L: Por isso fui atrás dele. 7

8 AL: Bom, dessas quatro situações que você me contou, tem sempre alguém te ameaçando e você se sente ameaçado e acha que a única solução é acabar com a pessoa. L: É lógico, vai tirar a minha vida. AL: Alguém querendo tirar a sua vida e você vai e tenta tirar a vida da outra pessoa. L: É lógico. O que para Lucas é lógico? Qual a lógica de Lucas? A pontuação fundamental que nos guia, segundo Laurent (2011), é a da angustia, seja da alucinação, seja do acting-out, é aquela que assinala os momentos nos quais a enunciação vem se inscrever num texto do qual, de repente, ela emerge quando, normalmente, ela não deveria ter podido fazê-lo. E podemos perguntar do que se trata quando Lucas nos diz:"ele me matou eu vou matar ele". Minha leitura é que Lucas nos mostra sua lógica. Ele se dispõe a "comentar" dessas coisas que ele "não gosta de comentar não". Nos diz então, do que o aflige. Sejam estas maldades ou bondades, ele nos diz que a aflição é sempre um ponto difícil de dizer. Algo do qual sempre faltam palavras. Principalmente para Lucas que talvez tenha tido poucas oportunidades de dizer desta falta de palavras, com as suas palavras. Podemos acompanhar que o momento mais confuso da entrevista, é quando ele tenta dizer. É um momento difícil de entender. Nestes momentos onde muitos adolescentes se exibem, mostrando ao público suas "ruindades", Lucas se embaraça. Ele nos mostra que é difícil para ele falar "não tem como falar isso não, so" e que talvez esta seja sua invenção, sua forma de fazer um laço, mesmo que precário, com o Outro. Um novo laço como o produzido por Bartleby e havemos que escutalo mesmo com toda a dificuldade de reconhecer o que ele esta falando. Talvez seja tão difícil reconhecermos, (como os autores se debateram com a posição de Bartleby) por ser um laço que não conhecemos, não é nossa forma de enlaçamento. Penso que devemos estar atentos a armadilha de, ao não entendermos o que Lucas e tantos outros jovens estão dizendo, cairmos no equivoco de tentar compreende-los. Referências Bibliográficas: GARCIA, Celio; "Laço social e Lei: eu preferiria não!" testo inédito apresentado no Núcleo de Psicanálise e Direito. LACAN, J. O Seminário, Livro 23: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,

9 MILLER A invenção psicótica in: Opção Lacaniana nº 36, São Paulo 2003 MILLER, J.- A. Seminário de Orientação Lacaniana: Coisas de Fineza. 2009, (divulgação interna da EBP) LAURENT, Éric "O programa de gozo não virtual" in: Correio Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, abril, Recebido em Setembro de 2011 Aceito em Setembro de

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