IMPLICAÇÕES DA LEI /03 E A EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE ÉTNICORRACIAL

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1 IMPLICAÇÕES DA LEI /03 E A EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE ÉTNICORRACIAL Marivania Xavier Cavalcanti Costa Renata Costa Silva Oliveira SMEEL/CEMAP/UNIUBE Nilza Rodrigues Fidelis Silva GT: (4 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE) Resumo Este estudo pretende promover uma reflexão sobre a educação para as diferenças no espaço escolar, abordando a promulgação da lei /03 e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das relações Étnicorraciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Nesta perspectiva indagamos, que implicações esta lei e Diretriz trazem para o contexto escolar e como fica a prática pedagógica após esta lei? Diante dos questionamentos acima, torna-se relevante expor a relevância da promulgação da Lei /09 e Diretrizes para consecução de uma educação que tenham seus currículos voltados para as diferenças, combatendo as diversas formas de preconceito e discriminação nos entornos escolares, além de pontuar atitudes que o professor pode observar em relação às diferenças que podem auxiliá- los na construção de saberes, fazeres e autoimagens de positividades no ensino de africanidades no cotidiano escolar. Sabemos que é um grande desafio romper barreiras e quebrar paradigmas cristalizados, entretanto é função de um educador empenhado com uma educação de qualidade procurar desfazer conceitos historicamente construídos numa lógica reprodutora de conceitos hegemônicos, refazendo significados no sentido de construir uma educação que tenha significantes culturais positivos também para os alunos negros/ negras e pobres que buscam nas instituições escolares o conhecimento, a mudança de olhares e a sabedoria para sua emancipação de suas condições de vida.

2 Palavras-chave: Educação. Relações Étnicorraciais. Lei /03. Prática Pedagógica Por muito tempo a história relegou os negros a um passado atemporal de conivência passiva com as agruras do tempo colonial. Os negros em muitas fotos e livros eram representados de forma triste, conformado com a sua situação de cárcere, bestializados e dóceis como os animais. Mas os estudos Sociológicos no Brasil enterram esta lógica ao pontuar vários casos de revoltas e indignação desde o tempo da escravidão, e este movimento de resistência começou nos navios negreiros com os negros que suicidavam no mar ou com as mulheres que matavam seus filhos, pois já entreviam um futuro cruel e bárbaro que os aguardavam, como aponta Fonseca (2009, p.53) Ainda no período da escravidão esses homens e mulheres resistiam ao trabalho escravo e aos castigos impostos e ao mesmo tempo lutavam para manterem vivas suas tradições constituindo um importante momento histórico desse movimento. Muitos foram os movimentos de resistência, entre eles destacam-se, por exemplo, a organização das Irmandades Negras e dos Quilombos. (Fonseca, 2009, p.53). Recentemente alguns historiadores da UNICAMP, relatam a existência de petições de escravos requerendo sua liberdade ou que entravam na justiça contra senhores que não cumpriam o que determinavam as Leis Ventre livre 1 e a Lei do sexagenário 2 ou de casos de alforria compradas ou adquiridas pelas mulheres principalmente no Rio de janeiro e São Paulo na metade do século XIX como ressalta Fonseca (2009), que os companheiros preferiam libertá-las para que tivessem com elas filhos livres, recebiam alforria pelos trabalhos prestados a outras mulheres brancas ou 1 Também conhecida como Lei Rio Branco foi uma lei abolicionista, promulgada em 28 de setembro de 1871 (assinada pela Princesa Isabel). Esta lei considerava livre todos os filhos de mulher escravas nascidos a partir da data da lei. 2 Promulgada em 28 de setembro de 1885, a Lei dos Sexagenários concedia liberdade apenas aos escravos com mais de 65 anos, que já não dispunham de força e disposição para encarar as péssimas condições de trabalho cedidas pelos senhores de engenho.

3 trabalhavam na rua vendendo doces, frutas e salgados e com esses recursos comprar a própria liberdade e por vezes de seus filhos. Foi neste contexto que os negros resistiam de diversas formas ao trabalho escravo e aos castigos impostos e que não foram poucos e que hoje são consubstanciados de outras formas. Esse movimento de resistência individual e coletiva, são hoje reconhecidos como Movimento Negros organizados que lutam por condições melhores para população negra, sejam na promoção de políticas públicas, sociais, culturais, políticas e educacionais. Esta intensa mobilização trouxe um cenário de articulação e instauração de medidas que assegurassem atitudes mais sérias de combate a praticas discriminadoras e preconceituosas que ainda emerge na sociedade brasileira. Entre as medidas de combate ao racismo, destacamos as políticas de ações afirmativas com cotas em Universidades e empresas, O Estatuto da Igualdade Racial e principalmente a promulgação da Lei /03. A lei /03 normatizada em 2003, traz um grande marco no processo educativo brasileiro ao instituir a obrigatoriedade das instituição educativas inserir em suas práticas pedagógicas a inclusão da História da África e da Cultura afro-brasileira em todo o conteúdo escolar, como a Educação das Relações Étnico-raciais e o Ensino da História e Cultura Afro Brasileira e Africana fomentando reflexões, debates, pesquisas e estudos sobre a questão da identidade negra, combatendo as formas de discriminação e preconceito como parte integrante das propostas curriculares. Segundo Gonçalves (2010), o grande ganho da Lei /03 está no fato de fomentar discussões sobre a formulação de uma Educação étnicorracial, ou seja, uma educação que coloque em evidencia os problemas relacionados pelas convivências multicultural através de debates, seminários, oficinas, etc., e consequentemente buscando meios positivos de enfrentamento e combate a toda forma de preconceito que ainda existe em toda sociedade. A relevância da Lei também se insere no fato de proporcionar a alunos discriminados historicamente, um novo contato com sua verdadeira história. Um

4 contato positivo e respeitoso com a história de seus antepassados que lutaram para que o presente e o futuro lhes proporcionassem uma nova história de vida. Ela nos convida a novas práticas que vislumbram uma educação de qualidade para todos os alunos Assim a Lei /03 propõe uma Educação que reeduque tanto negros e brancos. Impõe aprendizagens, trocas de experiências, conhecimentos, quebras de olhares em prol de uma sociedade mais justa e mais equânime para todos. Segundo Gonçalves e Silva, o estudo das Africanidades é uma forma de que os currículos escolares: Valorizem igualmente as diferentes e diversificadas raízes das identidades dos distintos grupos que constituem o povo brasileiro; Busquem compreender e ensinem a respeitar diferentes modos de ser, viver, conviver e pensar; Discutam as relações étnicas, no Brasil, e analisem a perversidade da assim designada democracia racial ; Encontrem formas de levar a refazer concepções relativas à população negra, forjadas com base em preconceitos, que subestimam sua capacidade de realizar, de participar da sociedade, material e intelectualmente; Identifiquem e ensinem a manusear fontes em que se encontrem registros de como os descendentes de africanos vem, quase 500 anos de Brasil, construindo suas vidas e sua história, no interior do seu grupo étnico e no convívio com outros grupos; Permitam aprender a respeitar as expressões culturais negras que, juntamente com outras de diferentes raízes étnicas, compõem a História e a vida de nossos pais; Situem histórica e socialmente as produções de origem e/ou influência africana no Brasil e proponham instrumento para que sejam analisadas e criticamente valorizadas. (Gonçalves e Silva, 2005, p-157). Nessa perspectiva, a Lei /03 orienta através das Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnicorraciais apontamentos para que esta educação aconteça de verdade tanto nas escolas, universidades ou em outras esferas da sociedade. Conhecer e apropriar-se de seu conteúdo é um caminho para a transformação do fazer pedagógico, possibilitando mudanças de agir e pensar o outro, propiciando a participação do negro na formação da sociedade brasileira.

5 Analisando a dinâmica das relações sociais no espaço escolar na relevância da lei /03, verifica-se um quadro de modificações em relação ao olhar o outro. É certo que estas modificações ainda precisam ser redimensionadas em um patamar maior. Entretanto já se torna animador perceber que a um caminhar, uma possibilidade na reconfiguração de dissonâncias causadas pela naturalização de estereótipos e de sua correção, através de atividades conscientes e esclarecedoras de lacunas deixadas pela exclusão dos estudos das Africanidades em sala de aula. Segundo Abramowicz e Oliveira (2006) a escola tem um papel fundamental na construção da identidade das crianças que são acolhidas por essa instituição, mas também precisa ter clareza da necessidade de positivar a diversidade da qual é constituída, dessa forma propõe três atitudes em que o professor deve ter construído em relação à diferença: 1-Compreensão da diferença 2-Compreender que a individualidade que cada criança carrega faz parte de uma coletividade (grupo racial, étnico, econômico, regional etc.). 3-Assumir uma postura de estimulador do desenvolvimento da criança em seu conjunto, observando os aspectos emocionais, cognitivos, físicos, e culturais, sendo necessário a partir disso romper com os preconceitos e estereótipos, rejeitar estigmas e valorizar a história de cada um. (Abramowicz e Oliveira, 2006, p-52). Na mesma direção, Gomes (2001) pondera: Pensar a articulação entre a educação, cidadania e raça e mais do que um mudança conceitual ou um tratamento teórico. É uma postura política e pedagógica. É considerar que a educação lida com sujeitos concretos. Por isso, não basta conhecer o/aluno (a) apenas no interior da sala de aula e no cotidiano escolar é preciso estabelecer vínculos entre a vivência sociocultural, o processo de desenvolvimento e o conhecimento escolar. O contato com os grupos culturais e religiosos da comunidade, com a associação de moradores, com as organizações do movimento sociais pertencentes a comunidades na qual o/a aluno (a)

6 está inserido pode ser um caminho interessante. É um meio sócio cultural que nos dá as bases para nossa inserção no mundo. Ele é o lugar das nossas tradições, dos costumes, dos valores, das crenças que, nas maiorias das vezes, se chocam com os valores da escola. É nesse meio que o (a) aluno (a) negro (a) a desenvolver o complexo processo da construção das identidades sociais. E a racial é uma delas. Conhecer, respeitar e tratar pedagogicamente essas diferentes experiências socioculturais é um dos passos para construção de uma escola democrática. Assim possibilitar o diálogo entre as várias culturas e visões de mundo, propiciar aos sujeitos da educação a oportunidade de conhecer, encontrar, defrontar e se aproximar da riqueza cultural existente neste ambiente e construir uma educação cidadã. (Gomes, 2001, p-90). Percebe-se então a importância da escola na consubstanciação de novos valores e na ruptura de barreiras que impedem as transformações sociais, culturais e educacionais. É preciso problematizar as diferenças étnicas nos espaços escolares, preparando os estudantes para a desconstrução de mecanismos discriminatórios enraizados, e assim, posteriormente eliminar barreiras para que no futuro não haja divisões e formas de tratamentos inumanos entre seres humanos. Esta tarefa não é tarefa fácil, mas é tarefa de todo educador e educadora engajado em propostas firmes de superação e melhorias com a qualidade de educação e oportunidades para todos. Esta deve ser a bandeira da educação Todos iguais perante a educação, mas não como um protótipo e nem como ideal, mas como um dever de transformação onde todos tenham direito de receber o mesmo ensino de qualidade onde a alteridade do outro seja compreendida e valorizada. O discurso precisa ser mudado na prática e não ficar só na falácia, somos um país afrodescendente. Não podemos ignorar que temos uma concepção Africana em nossos processos históricos e nossas narrativas se constroem nas suas bases. Não se pode mais imaginar uma educação sem a compreensão dessas verdades, é preciso trazer a participação efetiva do negro/negra para as salas de aula.

7 Todos têm identidades que necessitam ser compreendidas e afirmadas. Não dá mais para ignorar ou mesmo silenciar perante a cultura do outro, a escola é um espaço multiculturais onde várias culturas que entreolham, que dialogam ou que provocam estranhamentos. Estes contatos precisam ser estudados, incentivados e trabalhados de forma positiva, pois todos têm direitos de conhecer sua identidade, sua cultura e pertencimento. A apropriação do seu espaço se faz necessário para a construção do eu positivo, deixando apenas de ser uma relação fragmentada e estereotipada de seu passado. Repensar a educação é um caminho, ou melhor, uma obrigação para a busca de fundamentos de uma educação cultural que se preocupa com a realização plena de todos. Para tanto buscar fontes, estudar o processo histórico de forma crítica com nova mirada pode trazer informações úteis e urgentes de interposições contra um passado de memórias dolorido para quem viveu e vive na consequente marginalidade de um futuro nada promissor. Contudo é importante percebemos que as organizações dos movimentos negros unificados deram início a uma série de políticas públicas para a comunidade negra. Mesmo que lentamente os direitos adquiridos vêm intensificando e tornando direito de fato. A obrigatoriedade da Lei /03 nos estabelecimentos de ensino provoca uma série de mudanças que começam na educação e acabam por operacionar em outras esferas, pois a educação é porta aberta pra a transformação de toda sociedade. Dialogar as questões raciais no cotidiano da escola desconstrói o universo de que no Brasil não tem preconceito e impõe a busca por melhorias na qualidade do ensino e o reconhecimento do outro como sujeito de histórias. Nessa nova narrativa o diferente não pode ser mais visto na diferença negativa da mirada do outro. A urgência de construção de novas miradas, de formação e informação, pois a mudança ocorre a partir do momento que se tem conhecimento para mudar. O conhecimento é mola mestra para ressignificação da valorização do outro, dos seus pertences, de sua história.

8 Não se desenvolve autoconceito sem repropriação de mentalidades, isso se consegue mediante um trabalho positivo de reconstrução de valores, estudos e apropriação de conhecimentos. Assim a formação do professor se faz imprescindível na busca por transformações. Trata-se de romper paradigmas na forma de educar, ver o outro na diferença e não como defeito, entendendo suas particularidades, suas especificidades e propondo um ensino com oportunidades iguais para todos, enlaçando as relações étnicorraciais como ponto central para elencar práticas pedagógicas longe de processo conceitual ideológico de poder. -REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ABRAMOWICZ, Anete. BARBOSA, LUCIA Maria de Assunção. SILVÉRIO, Valter Roberto. (Org.) - Educação como prática da diferença. Campinas. SP: Armazém do Ipê, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das relações Étnico-Raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília. MEC FONSECA, Dagoberto José. Políticas Públicas e ações Afirmativas. São Paulo: Selo Negro, GOMES, Nilma Lino. Educação Cidadã, etnia e ração: o trato pedagógico da diversidade. In:Racismo e antirracismo na educação (p.83-96). São Paulo: Summus, GONÇALVES, Luciane Ribeiro Dias. Lei /03 e suas diretrizes - Um caminho aberto. HISTÒRICO DO MOVIMENTO NEGRO. KATRIB e BERNARDES (org.). Uberlândia: ED. Lopes LEI Nº /03, de 9 de janeiro de 2003.

9 KATRIB, Cairo Mohamad Ibrahim. BERNARDES, Vânia Aparecida Martins (org.). Histórico do Movimento Negro no Brasil. Uberlândia: ED. Lopes SILVA, Petronílha Beatriz Gonçalves. Aprendizagem e Ensino das Africanidades Brasileiras. In: MUNANGA, Kabengele (org.). Superando o Racismo na Escola. Brasília, MEC/SECAD, TV cultura, Programa exibido em 19/08/2013 Descobertas de petições de exescravos..

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