ACÓRDÃO. MUNICIPAL DE CRUZEIRO, é apelado MAURICIO GUEDES.

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1 Registro: ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº , da Comarca de Cruzeiro, em que é apelante PREFEITURA MUNICIPAL DE CRUZEIRO, é apelado MAURICIO GUEDES. ACORDAM, em 12ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Acolheram a preliminar e deram provimento. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão. O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores J. M. RIBEIRO DE PAULA (Presidente sem voto), WANDERLEY JOSÉ FEDERIGHI E BURZA NETO. São Paulo, 6 de fevereiro de OSVALDO DE OLIVEIRA RELATOR Assinatura Eletrônica

2 2 VOTO Nº COMARCA: CRUZEIRO APELAÇÃO CÍVEL Nº APELANTE: PREFEITURA MUNICIPAL DE CRUZEIRO APELADA: MAURICIO GUEDES Juiz de 1ª instância: Alexandre Yuri Kiataqui FALTA DE INTERESSE DE AGIR Extinção do processo, sem resolução do mérito (CPC, art. 267, VI) Descabimento Violação de domicílio por decisão administrativa Impossibilidade Não se trata de programa de vigilância epidemiológica em que se busca a cobertura total, mas de caso individualizado Imprescindibilidade do mandado judicial Inteligência do art. 5º, XI, da CF Orientação sedimentada pelo STF Extinção do feito afastada Questão exclusivamente de direito Possibilidade de julgamento do mérito Art. 515, 3º, do CPC. APELAÇÃO CÍVEL ATO ADMINISTRATIVO VIGILÂNCIA SANITÁRIA FISCALIZAÇÃO E AÇÃO PREVENTIVA Autorização para adentrar no imóvel de propriedade do réu, a fim de que agentes do serviço de vigilância epidemiológica possam realizar serviços de dedetização e controle de doenças, bem como compelir o proprietário a realizar a limpeza do local, de modo a não mais representar riscos à saúde pública Admissibilidade Conduta do particular que conspira contra o bem estar dos habitantes do Município, em afronta às disposições constitucionais que cuidam do direito à saúde e das medidas para redução dos riscos de doença e epidemias (art. 196 e seguintes da CF) Procedência da demanda que se impõe Recurso provido, para afastar a extinção do feito por falta de interesse de agir e julgar procedente o pedido. Trata-se de ação ordinária de obrigação de fazer com pedido liminar ajuizada pelo Município de Cruzeiro em face de

3 3 Mauricio Guedes, visando obter autorização para adentrar no imóvel de propriedade do réu, a fim de que agentes do serviço de vigilância epidemiológica possam realizar serviços de dedetização e controle de doenças, bem como compelir o réu a realizar a limpeza do local e retirada do lixo e entulhos, sob pena de aplicação de multa diária. A r. sentença julgou o autor carecedor da ação e extinguiu o processo, sem resolução do mérito, com fundamento no artigo 267, inciso VI, do Código de Processo Civil, por entender ser desnecessária a intervenção do Judiciário para a medida pleiteada (fls. 17/19). Inconformado, insurge-se o Município, pugnando pela reforma do decisum. Sustenta que a Constituição Federal prevê em seu artigo 5º, inciso XI que a casa é asilo inviolável do indivíduo e nela ninguém pode entrar sem consentimento do morador, salvo em situações expressamente elencadas (flagrante delito, desastre ou para prestar socorro) ou por determinação judicial. Portanto, não pode a Administração Municipal adentrar no imóvel do réu amparada tãosomente em seu poder de polícia, sob pena de ofensa a um direito constitucionalmente garantido. Dessa forma, requer a reforma da r. sentença, para afastar a extinção do feito e julgar procedente a demanda, com a concessão da antecipação da tutela recursal (fls. 22/34). 39). Recurso tempestivo, bem processado e sem resposta (fls. É o relatório.

4 4 O recurso comporta provimento, porquanto, respeitado o convencimento do ilustre Magistrado singular, o Apelante não é carecedor de ação. Como cediço, o interesse processual está consubstanciado na necessidade do autor vir a Juízo e na utilidade que o provimento jurisdicional poderá lhe proporcionar. Além disso, a procedência ou não da pretensão posta em juízo não torna presente ou afasta o interesse de agir. Maria de Andrade Nery: Nesse sentido o magistério de Nelson Nery Junior e Rosa (...) Existe interesse processual quando a parte tem necessidade de ir a juízo para alcançar a tutela pretendida e, ainda, quando essa tutela jurisdicional pode trazer-lhe alguma utilidade do ponto de vista prático. (...) 1 (in Código de Processo Civil Comentado e legislação extravagante, 11ª edição, São Paulo: RT, 2010, nota 16 ao artigo 267, p. 526). No caso dos autos, têm-se presentes o interesse de agir do Município e a necessidade da tutela jurisdicional, evidenciados pelo disposto no artigo 5º, inciso XI, da Carta Magna e pela resistência do réu em cumprir a lei por seus próprios meios e em não permitir a entrada dos agentes epidemiológicos para o controle de doenças, especialmente os focos da dengue. Por conseguinte, cumpre ao Poder Judiciário assegurar a observâncias das normas legais, de modo a garantir à população que o risco de contaminação seja eliminado, com adoção das medidas cabíveis. 1 Código de Processo Civil Comentado e legislação extravagante 11ª edição São Paulo: RT, 2010, nota 16 ao artigo 267, p. 526.

5 5 Sobre o tema específico da intervenção estatal no exercício da função epidemiológica em contraponto com a liberdade individual, importante ressaltar que não pode o Poder Público ingressar em domicílio alheio, sem ordem judicial ou sem o consentimento de seu titular, com o objetivo de, no interior desse recinto, proceder qualquer tipo de fiscalização, por força do preceito constitucional que consagra a inviolabilidade do domicílio (CF, art. 5º, XI), direito fundamental e uma das garantias individuais mais antigas da Sociedade civilizada. Embora se possa alegar a impertinência da autorização judicial a que se refere o citado comando constitucional no caso de ingresso forçado durante um programa de vigilância epidemiológica em que se busque a cobertura total, a situação posta nos autos é diferente, pois se trata de caso individualizado, no qual cabe ao Judiciário verificar a existência de fatos específicos e sérios capazes de legitimar a medida excepcional do acesso compulsório de agentes de vigilância sanitária ao ambiente privado. As decisões do Excelso Pretório relativas a invasões, policiais ou não, com objetivo de investigação ou qualquer outro procedimento fiscalizatório, têm sido no sentido de imprescindibilidade do mandado judicial, conforme se infere das seguintes referências jurisprudenciais anotadas por Alexandre de Moraes 2 : '(...) nem a Polícia Judiciária, nem o Ministério Público, nem a 2 Constituição do Brasil Interpretada e Legislação Constitucional 8ª Edição São Paulo: Editora Atlas, 2010, p. 155/156 grifos no original.

6 6 administração tributária, nem quaisquer outros agentes públicos podem, a não ser afrontando direitos assegurados na Constituição da República, ingressar em domicílio alheio, sem ordem judicial ou sem o consentimento de seu titular (...) com o objetivo de, no interior desse recinto, procederem a qualquer tipo de perícia (...) ou de apreenderem, sempre durante o período diurno, quaisquer objetos que possam interessar ao Poder Público' (STF, RE /GO rel. Min. Celso de Mello, despacho). Violação de domicílio por decisão administrativa. Impossibilidade: STF 'a essencialidade da ordem judicial para efeito de realização das medidas de busca e apreensão domiciliar nada mais representa, dentro do novo contexto normativo emergente da carta Política de 1988, senão a plena concretização da garantia constitucional pertinente à inviolabilidade do domicílio. Daí a advertência que cumpre ter presente feita por Celso Ribeiro Bastos, no sentido de que é 'forçoso reconhecer que deixou de existir a possibilidade de invasão por decisão de autoridade administrativa, de natureza policial ou não. Perdeu portanto a Administração a possibilidade da autoexecutoriedade administrativa' (trecho do voto do Min. Celso de Mello STF Pleno Ação Penal nº 307-3/DF, trecho de voto do Min. Ilmar Galvão, Serviço de Jurisprudência do STF, Ementário STJ, nº , DJU, 13 out. 1995). Nesse contexto, demonstrado o interesse processual do Município, incabível a extinção do processo, sem julgamento do mérito, com fundamento no artigo 267, inciso VI, do Código de Processo Civil. Destarte, afastada a extinção do feito decretada pelo Juízo singular, não há impedimento a que este Tribunal aprecie o mérito da

7 7 controvérsia, que versa sobre matéria eminentemente de direito, em razão do disposto no artigo 515, 3º, do Código de Processo Civil, bem como em respeito aos princípios da efetividade do processo, da celeridade e da economia processual, não havendo se falar em supressão de instância. Esse o entendimento consagrado pelo Colendo Superior Tribunal de Justiça: 1. Na dicção do art. 515, 3º, do CPC, acrescentado pela Lei /2001, é possível ao Tribunal, em caso de extinção do feito sem apreciação do mérito, julgar a lide desde logo, se a causa versar questão exclusivamente de direito e o processo estiver devidamente instruído, como ocorre no caso concreto. 2. Consoante a pacífica jurisprudência do STJ, extinto o processo sem julgamento de mérito, em face da preliminar de ilegitimidade passiva ad causam, o Tribunal, ao afastar a nulidade, pode de imediato julgar o feito, ainda que inexista pedido expresso nesse sentido, maxime se a controvérsia disser respeito a questão estritamente de direito. (...) (AgRg nos EDcl no Ag nº /RJ, Rel. Ministro Herman Benjamin, 2ª Turma, DJ ). Passa-se, então, ao mérito. O Município de Cruzeiro ajuizou ação ordinária de obrigação de fazer com pedido de liminar porque o réu se recusa a retirar o lixo e entulho acumulados no quintal de sua residência, o que favorece a proliferação do mosquito Aedes aegypti transmissor da dengue, além de roedores, insetos e animais peçonhentos, os quais implicam em graves riscos à saúde humana.

8 8 Observa-se dos documentos acostados com a inicial que o Setor de Vigilância Epidemiológica do Município fez diversas visitas (em razão de denúncia de vizinhos) e inspeções de rotina na residência do réu, nas quais foram efetivamente detectados o acúmulo de lixo e entulho (madeiras, bicicletas velhas, latas, materiais para construção e outros), bem como a presença de ratos na região circunvizinha. Apesar de notificado a fazer a retirada dos materiais e a limpeza do local, o réu quedou-se inerte, como também vem impedindo os agentes municipais de entrar no imóvel, o que coloca em risco a saúde da população e frustra a ação preventiva do Poder Público no controle das pragas e doenças (fls. 13/15). À evidência, a conduta do ora Apelado acarreta desvirtuamento da destinação do imóvel, com mau uso da propriedade urbana, que deve atender à sua função social (art. 5º, XXIII, da CF), além de conspirar contra o bem estar dos habitantes do Município, em afronta às disposições constitucionais que cuidam do direito à saúde e das medidas para redução dos riscos de doença e epidemias (art. 196 e seguintes da CF). Ademais, como cediço, o direito de propriedade deve ser exercido por seu titular de forma a não prejudicar os demais cidadãos. Por conseguinte, a resistência do Apelado em cumprir a determinação do Poder Público, no sentido de efetuar a limpeza de seu imóvel, bem como a negativa em permitir que os agentes sanitários nele adentrem para executar política de saúde pública, a bem de toda a comunidade (inclusive do próprio réu), implica em prejuízo para toda a população local.

9 9 Desta feita, de rigor a total procedência do pedido, com a confirmação da antecipação da tutela recursal concedida, para condenar o Apelado à obrigação de manter o imóvel localizado na Rua Constantino Salomão nº 156 I Retiro da Mantiqueira ou Vila Canevari Município de Cruzeiro/SP, em perfeitas condições de higiene, livre de possíveis criadouros do mosquito da dengue, roedores, insetos e animais peçonhentos, de tal forma que não mais represente riscos para a saúde da população, no prazo de 10 (dez), bem como permitir a entrada dos agentes epidemiológicos municipais para vistoria e/ou promover ações preventivas de controle de pragas e doenças, sob pena de multa diária de R$ 100,00 (cem reais). Pela sucumbência, deverá o Apelado arcar com as custas e despesas processuais, bem como honorários advocatícios, ora arbitrados em 10% (dez por cento) sobre o valor dados à causa, devidamente atualizado. À vista do exposto, dá-se provimento ao recurso, para afastar a extinção do feito e julgar procedente o pedido. OSVALDO DE OLIVEIRA Relator.

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