ACÇÃO DO ENVIDOR (spirodiclofena) NO CONTROLO DE ARANHIÇO AMARELO EM VINHA, NO ALENTEJO

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1 ACÇÃO DO ENVIDOR (spirodiclofena) NO CONTROLO DE ARANHIÇO AMARELO EM VINHA, NO ALENTEJO MATA, F.; ALMEIDA, J.M.; PARDAL, H.; RAMALHO, N.; FINO, C. e ROSA, A. ATEVA Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo Horta das Figueiras Rua Fernanda Seno, 14 Apartado Évora

2 RESUMO O aranhiço amarelo é uma importante praga da vinha no Alentejo. O seu controlo faz-se maioritariamente segundo as regras da protecção integrada, na região. Presentemente existe um reduzido número de substâncias activas homologadas em protecção integrada para combater o aranhiço amarelo. O acaricida ENVIDOR possui acção sobre o aranhiço amarelo e um perfil que se enquadra na protecção integrada. O objectivo do presente trabalho foi conhecer a eficácia e persistência deste novo produto BAYER sobre as formas móveis de aranhiço amarelo. Foi estabelecido um ensaio de eficácia numa vinha na região vitivinícola da Vidigueira, cujos resultados apontam no sentido de uma boa acção directa e prolongada do ENVIDOR sobre o aranhiço amarelo. PALAVRAS-CHAVE Aranhiço amarelo, spirodiclofena, envidor, eficácia, protecção integrada, fitoseídeos, Alentejo. 1 - INTRODUÇÃO O aranhiço amarelo (Tetranychus urticae) é considerado uma importante praga da vinha no Alentejo, embora num contexto não tão generalizado quer em termos de área, quer na frequência dos ataques, como acontece por exemplo com a cigarrinha verde nesta região. A sua importância deve-se a vários factores: tratar-se de um ácaro polífago e que surge em espécies espontâneas muito frequentes em vinha; possuir grande capacidade de multiplicação (até 100 ovos por fêmea); as condições climáticas que lhe são mais favoráveis são características da região Alentejo, temperaturas elevadas e tempo seco. Os ataques de aranhiço amarelo podem, assim, surgir nas vinhas com grande intensidade, em condições favoráveis, mas frequentemente são bastante localizados. As principais causas são a relativa baixa mobilidade dos ácaros quando comparada com a de outras pragas, a sua diferente apetência pelas diversas castas, variadas contingências no controlo de infestantes, espécies hospedeiras adjacentes às vinhas, entre outros factores de nocividade referenciados na bibliografia especializada. O aranhiço amarelo provoca estragos nas folhas, sua fonte de alimentação, e os sintomas podem evoluir de manchas cloróticas para a total dessecação e queda. Esta desfoliação dá-se inicialmente no terço inferior da vegetação (devido à hibernação das fêmeas adultas na estrutura permanente e folhagem no solo, e à presença de formas móveis nas espécies espontâneas), mas pode avançar de forma intensa e quase completa, comprometendo fortemente a produção e a perenidade das plantas atacadas. O controlo da praga passa essencialmente por medidas culturais, biológicas e químicas. Relativamente à luta química, o leque de acaricidas dísponível em protecção integrada é limitado (quatro substâncias activas homologadas) e foi reduzido recentemente com a retirada da substância activa tetradifão, muito utilizada pela sua dupla acção, larvicida e ovicida, a qual minimiza o problema das re-infestações. Acresce que todas as substâncias activas homologadas estão classificadas como medianamente tóxicas para os fitoseídeos, considerados os principais auxiliares predadores de ácaros fitófagos. Face a estas limitações e tendo em conta o impacto do aranhiço amarelo e a expressão da protecção integrada da vinha no Alentejo, surgiu a ideia do presente trabalho: conhecer e avaliar a eficácia e persistência do novo acaricida da BAYER, ENVIDOR (substância activa spirodiclofena) um produto com acção sobre o aranhiço amarelo e que, pelas suas características, se enquadra no âmbito da protecção integrada.

3 2 - MATERIAL E MÉTODOS Descrição da vinha O ensaio decorreu em 2004, na Herdade do Malheiro, freguesia de Selmes, concelho da Vidigueira numa vinha com 28 ha. O seguinte quadro resume as principais características do sistema de condução. Quadro 1 - Sistema de condução da vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. Compasso 3,0 1,1 m Orientação NE SW Ano de plantação 1995 Casta Alicante Bouschet Porta-enxerto 140 Ru Solo Argilo-calcário Topografia Plana/ligeiramente inclinada Forma de condução Baixa, aramada Sistema de poda Cordão bilateral Rega Gota-a-gota Perante a necessidade de reduzir, tanto quanto possível, fontes de variabilidade para o ensaio, escolheu-se a vinha por apresentar uniformidade nos vários parâmetros do sistema de condução e no vigor vegetativo, um bom controlo das infestantes e um baixo nível populacional de fitoseídeos Delineamento experimental A parcela experimental foi estabelecida num sistema totalmente casualizado a um factor, com quatro modalidades a quatro repetições cada (FIGURA 1). A unidade experimental mínima é constituída por um grupo de 8 videiras contíguas. As modalidades são: A: Envidor a 300 ml/ha B: Envidor a 400 ml/ha C: Referência homologada a 1500 ml/ha T: Testemunha não tratada SW C A T C B C B A C A A T T B T B Figura 1 - Esquema do delineamento experimental do ensaio instalado na vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. As modalidades foram definidas como se apresenta no QUADRO 2, no que respeita às doses de produto comercial utilizadas, volumes de calda aplicados e respectivas concentrações de produto comercial. NE

4 QUADRO 2 - Doses, concentrações e volumes de calda aplicados no ensaio instalado na vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. Tratamento Concentração acaricida da calda Volume de calda gasto (32 plantas) Volume de calda gasto (ha) Dose de produto comercial (32 plantas ) Dose de produto comercial (ha) A 16 l 1515 l 3,17 ml 300 ml 19,81 ml/hl B 16 l 1515 l 4,22 ml 400 ml 26,38 ml/hl C 16 l 1515 l 15,84 ml 1500 ml 99,00 ml/hl T Quanto à técnica de pulverização procedeu-se ao tratamento de cada um dos lados da linha de videiras o mais uniformemente possível, tendo o cuidado de molhar bem toda a folhagem. O material utilizado foi: - 1 pulverizador de dorso de 16 litros - 1 jarro graduado de 1 litro - 1 seringa de 5 ml - equipamento de protecção do aplicador Registos efectuados Foram recolhidos dados meteorológicos de duas estações meteorológicas próximas da vinha, de Fevereiro a Julho, bem como informação relativa à protecção fitossanitária, no período de repouso, e no decurso do ciclo vegetativo. Os principais estados fenológicos da vinha foram anotados. Observou-se também a fenologia nas diversas etapas do ensaio: estimativa do risco; realização dos tratamentos com os acaricidas; contagem de ácaros após tratamentos para comparação das modalidades. Os registos são apresentados no capítulo dos resultados e discussão. A técnica de amostragem de folhas para observação de ácaros foi a seguinte: - selecção aleatória de folhas, com ou sem sintomas de ataque de aranhiço amarelo, situadas no terço inferior da vegetação. - colheita de 25 folhas por unidade experimental, correspondendo a por modalidade. A identificação e contagem de formas móveis de aranhiço amarelo e de fitoseídeos fez-se com recurso a lupas de bancada e bisturis para manter a distância de focagem Análise estatística Perante a natureza da variável em estudo no ensaio (densidade populacional expressa em número de formas móveis), a quantidade de repetições estabelecidas e o consequente número de graus de liberdade residuais, concluiu-se pela impossibilidade de realização de uma análise estatística suficientemente robusta. Optou-se pela comparação dos somatórios das contagens de ácaros em, como forma de avaliar a eficácia biológica dos acaricidas ensaiados, em vez de se realizar a análise de variância e testes de comparação de médias das contagens em 25 folhas para detectar diferenças estatísticas significativas. 3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO Os ataques de aranhiço amarelo podem surgir relativamente cedo no ciclo vegetativo das videiras (em pré-floração) mas com fraca intensidade, aumentando significativamente com o estabelecimento do tempo quente e seco no fim da primavera, início do verão, coincidindo com estados fenológicos posteriores ao vingamento. Na vinha onde decorreu o ensaio, os primeiros sintomas surgiram no mês de Maio, mas tornaram-se mais intensos apenas em Junho, após uma consistente subida da temperatura, associada a uma redução da humidade relativa e da precipitação. Este aumento da actividade biológica da praga ocorreu já em fase de paragem de crescimento vegetativo e de forte desenvolvimento dos cachos, ou seja, entre o bago de ervilha e o fecho dos cachos (QUADRO 3).

5 Quadro 3 - Temperatura do ar e humidade relativa da estação meteorológica da ATEVA e precipitação da estação do Serviço de Avisos de Beja e fenologia da vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. MÊS FENOLOGIA TEMPERATURA DO AR (ºC) HUMIDADE RELATIVA (%) PRECIPITAÇÃO (mm) MÍN. MÉD. MÁX. Fev A, B 1,3 10,2 19,5 92,9 45,0 Mar. B, C, D, E, F -0,8 11,4 23,0 83,8 36,5 Abr. G, H 4,3 14,1 28,8 73,8 6,5 Mai. I, J 5,3 16,1 30,6 78,7 13,5 Jun. K, L 12,5 24,1 40,7 61,5 1,4 Jul. L, M 11,0 22,7 35,9 53,6 0,0 Relativamente à protecção fitossanitária da vinha (QUADRO 4), a qual se faz de acordo com as normas da protecção integrada, salienta-se a aplicação de enxofre em pó (a 4 de Maio e 9 de Junho) pela sua acção acaricida que, no entanto, não impediu a subida dos níveis populacionais de aranhiço amarelo. Quadro 4 - Protecção fitossanitária da vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. DATA FENOLOGIA INIMIGO DA CULTURA PRODUTO COMERCIAL DOSE 4 Fev A Infestantes Touchdown 5 l/ha 22 Abr G Míldio/oídio Rhodax/Thiovit 3 kg/ha; 8 kg/há 4 Mai H Míldio/oídio Quadris Max 1,5 l/há 19 Mai I Oídio Enxofre pó 12 kg/há 26 Mai J Míldio/oídio Ridomil/Topaze 2 kg/ha; 0,35l/há 9 Jun K Oídio Enxofre pó 12 kg/há Assim, na estimativa do risco realizada a 18 de Junho, a intensidade de ataque foi de 44% de folhas ocupadas com formas móveis da praga, ultrapassando o NEA mínimo oficialmente estabelecido para o mês de Junho (30% de folhas ocupadas).

6 No QUADRO 5 apresentam-se os valores das contagens de ácaros e de percentagem de folhas ocupadas, na referida data, em função dos quais foi tomada a decisão de realizar os tratamentos. Quadro 5 - Resultados da estimativa do risco do aranhiço amarelo realizada em 18/06/2004 na vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. Modalidades Estimativa do risco A B C T MÉDIA % folhas ocupadas A aplicação dos acaricidas, nas modalidades A, B e C fez-se a 21 de Junho. Após as pulverizações, verificou-se uma diminuição no nível populacional da praga nas três modalidades tratadas, como se pode acompanhar no GRÁFICO 1 e no QUADRO 6. Fizeram-se contagens de formas móveis de aranhiço amarelo em intervalos semanais, até um mês após os tratamentos, em todas as modalidades, incluindo a testemunha não tratada. As observações iniciais visaram obter informação quanto à eficácia na acção de choque do ENVIDOR a duas diferentes doses comparativamente à de um acaricida homologado em protecção integrada para o controlo do aranhiço amarelo. A última contagem teve por objectivo avaliar a persistência de acção do ENVIDOR. Em todas as datas de observação fez-se igualmente contagem de formas móveis de fitoseídeos, cujos valores se apresentam em anexo. 400 Nº formas móvis aranhiço amarelo/ A B C T Gráfico 1 - Evolução das formas móveis de aranhiço amarelo no ensaio instalado na vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira.

7 Quadro 6 - Resultados da contagem de formas móveis de aranhiço amarelo, após tratamentos acaricidas, na vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. Modalidades DATA A B C T Avaliação de eficácia 28/06/ % folhas ocupadas /07/ % folhas ocupadas /07/ % folhas ocupadas /07/ % folhas ocupadas Os principais aspectos a destacar são: - na modalidade não tratada a intensidade de ataque aumentou até valores de 74% de folhas ocupadas, um mês após os registos iniciais de estimativa do risco, comprovando a capacidade de multiplicação da praga e consequentes prejuízos, quando as condições climáticas se mantem particularmente favoráveis (QUADRO 3). - o ENVIDOR provocou elevada mortalidade das formas móveis de aranhiço amarelo, um pouco superior à da referência homologada, mesmo na dose mais baixa. - o novo produto da BAYER evidenciou também acção acaricida prolongada em qualquer das doses ensaiadas e apresentou melhor comportamento que o acaricida usado como referência. Um mês após os tratamentos a percentagem de folhas ocupadas era de 7% em A e 1% em B, enquanto na modalidade C o NEA tinha sido ultrapassado 21 dias aós a pulverização. - houve diferenças pouco expressivas entre a modalidade A e B, ou seja, entre as duas doses de ENVIDOR, quer na acção imediata quer no efeito a médio prazo sobre a praga. 4 - CONCLUSÕES Não sendo possível referir conclusões sólidas em ensaios deste tipo, realizados num só ano, casta, condicionalismo microclimático e cultural, os registos obtidos apontam no sentido da

8 boa eficácia biológica e persistência de acção do ENVIDOR no controlo do aranhiço amarelo em vinha. O ENVIDOR apresenta bom comportamento com uma dose de 300 ml/ha, não havendo necessidade de aumentar a quantidade de substância activa a aplicar por hectare para assegurar o controlo eficaz do aranhiço amarelo. A redução da dose traz evidentes vantagens económicas e ecológicas. Em face dos presentes resultados, é de todo o interesse a realização de um conjunto amplo de ensaios que visem a homologação do ENVIDOR para o aranhiço amarelo em protecção integrada da vinha. AGRADECIMENTOS À C.C.V. Sociedade Agro-Pecuária Lda., proprietária da Herdade do Malheiro, em especial ao Sr. Rodrigo Serpa Pimentel, pela cedência da vinha e por toda a colaboração e disponibilidade. À Adega Cooperativa de Vidigueira Cuba e Alvito, pela cedência do laboratório onde se efectuaram as observações. À CARMIM Departamento de Olivicultura e à Cooperativa Agrícola de Vidigueira, pela cedência das lupas de bancada. Ao Serviço de Avisos de Beja, pelo fornecimento dos dados meteorológicos relativos à precipitação. À BAYER CROPSCIENCE, pelo incentivo e esclarecimentos prestados. Ao corpo técnico da ATEVA, pela colaboração nas várias etapas do trabalho. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARO, P. (2003) A protecção integrada. Projecto AGRO 12. ISA/PRESS. 446 pp. AMARO,P. (2001) A protecção integrada da vinha na região norte. Projecto PAMAF ISA/PRESS. 148 pp. ARIAS GIRALDA, A. et al (1998) Los parasitos de la vid. Estrategias de protección razonada. Ministério de Agricultura, Pescas y Alimentacion & Ediciones Mundi-Prensa. 328 pp. EPPO (European ande Mediterranean Plant Proteccion Organization) (1997) EPPO Standards. Guidelines for the efficacy evaluation of plant protection products. Insecticides and acaricides. Vol pp. FÉLIX, A.P. & CAVACO, M. (2004) Protecção integrada da vinha. Lista dos produtos fitofarmacêuticos e níveis económicos de ataque. Direcção-Geral de Protecção das Culturas. Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas. 48 pp. FERREIRA, M. A. (1995) Ácaros predadores nas vinhas alentejanas. Situação actual. Actas do 3º Simpósio de Vitivinicultura do Alentejo. Évora. 1: FLAHERTY, D.L. et al (1992) Grape pest management. University of California. Division of Agriculture and Natural Resources. 400 pp. RAPOSO, C. et al (2001) Os ácaros na flora adventícia da vinha no Alentejo. Actas do 5º Simpósio de Vitivinicultura do Alentejo. Évora. 1: ANEXO:

9 Resultados da contagem de fitoseídeos na vinha da Herdade do Malheiro, Vidigueira. Os valores reportam-se a observação de, em cada modalidade e data. As folhas são as mesmas onde se fez a observação das formas móveis de aranhiço amarelo. Dias após a aplicação dos acaricidas, a 21/06/04 18/06/04 7 dias 14 dias 21 dias 28 dias A B C T MÉDIA

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